FAN FICTION
AUTORA : Sky
E-MAIL :
selmasky@ig.com.br
DISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo.
CLASSIFICAÇÃO : Shipper
SINOPSE : Apenas mais um momento entre Mulder e Scully , para relembrar os bons tempos.
AGRADECIMENTO : À minha amiga e beta leitora Alexandra Morgilli pela revisão e, principalmente, pela participação na estória, além da tentativa frustrada de me ensinar os "porquês". Amiga, esquece, eu não consigo decorar e já falei com o Mulder, da próxima vez ele fica lá na sua casa.
OBSERVAÇÕES : Aguardo um feedback, por favor digam o que acharam.
SONATA DE OUTONO
Entrou silenciosamente pela estreita porta de vidro. Lá dentro, tudo estava envolvido em tênue penumbra. A música enchia o ar com acordes melodiosos de uma voz feminina que embalava alguns casais abraçados a rodarem no meio da estreita pista. As mesas comportavam várias pessoas, mostrando que aquele não era um lugar onde se poderia querer ou pedir por privacidade. Era um recanto agradável aonde, certamente, os executivos e profissionais liberais vinham buscar o merecido descanso após um longo dia de trabalho.
Ela não se recordava quando havia tido tempo para uma distração igual àquela e, pensando bem, não estava ali a passeio. Tinha uma missão e viera cumprí-la, mesmo que a contragosto.
Estudou o ambiente cuidadosamente, procurando entre os presentes o alvo de sua busca. Sentou-se no bar e ajeitou o cabelo, puxando uma mecha para trás da orelha.
Um pouco distante dali, um homem a observava e imediatamente seus olhos curiosos e famintos esquadrinharam todo o seu perfil. Ele sorriu maliciosamente e cutucou o amigo que estava ao lado.
_ Já a viu por aqui ? _ perguntou, apontando para a mulher, sem qualquer cerimônia.
O outro, um sujeito de poucos cabelos encaracolados, olhar inteligente e gestos intempestivos, seguiu a indicação.
_ Faz alguma diferença ? Você vai lá de qualquer maneira _ ele respondeu contrariado_ Não, eu nunca a vi por aqui, mas, Richard, não faça nenhuma besteira. Ainda ontem você levou um fora tão grande que o deixou catatônico pelo resto do dia.
O homem magro e elegante levantou-se sem dar ouvidos aos resmungos do amigo e seguiu para o bar.
Enquanto caminhava, treinava mentalmente o que iria dizer. Certamente era uma mulher sozinha procurando companhia e ele sabia que era exatamente o que ela estaria procurando, concluiu, sorrindo envaidecido para si mesmo.
Era uma bela mulher, com um colorido diferente daquelas que normalmente freqüentavam o bar. Ela parecia alheia ao clima relaxante que pairava no ar. Na verdade, parecia contrariada. Ele podia notar isso pelo leve arquear da sobrancelha dela. Pela maneira nervosa com que ela jogava uma mecha dos curtos cabelos vermelhos para trás. Era pequena e, ele arriscava dizer, quase frágil, se não fosse o brilho determinado refletido nos grandes olhos azuis. Era muito bonita, ele afirmou. E isso era o bastante para ele.
_ Boa noite _ ele cumprimentou risonho _ Acho que nunca a vi por aqui.
Ela desviou os olhos para ele e parecia estar levemente irritada com a interferência, mas ele não julgava assim. Acreditou que ela havia se interessado de imediato.
_ Não _ ela respondeu secamente _ Nunca vim aqui. Posso ajudá-lo em alguma coisa ? _ concluiu, apertando os lábios em sinal de contrariedade.
Ele riu com gosto e ela revirou os olhos. Não acreditava que estava ali, alta madrugada de um dia particularmente frio, depois de ouvir duas horas de sermões de seu superior, quando o que gostaria é de estar em sua cama, lendo um bom livro ou assistindo ao documentário que pela terceira vez passava na televisão sem que ela pudesse ver até o final e, ainda por cima, tendo que agüentar um pretenso Dom Juan de terno e gravata. Era demais para um dia só. E ela sabia exatamente quem iria pagar por esses aborrecimentos.
Ela suavizou a expressão ao pensar no alvo de sua vingança. Tão logo o encontrasse, ele pagaria por fazê-la passar por tudo aquilo. A voz do homem parecia chegar distante e ela se obrigou a ouvir o que ele tinha a dizer.
_ ...em que poderia me ajudar, mas sim o que eu posso fazer por você. Esse lugar é meu, os músicos, as mesas, as cadeiras, as pessoas, enfim..._ ele riu da própria piada.
_ Eu ainda não fui catalogada _ ela respondeu de mau humor _ Então, se me der licença...estou procurando alguém...
_ Alguém interessante para terminar a noite ? _ ele interrompeu sem qualquer sutileza, aliás, essa não era uma de suas características _ Eu garanto, minha cara, você está olhando para ele.
Ela ia retrucar quando viu um homem levantando-se numa mesa há alguns metros de distância de onde estava. Na verdade, primeiro ela ouvira sua voz, sua risada e algo soou estranho em seus ouvidos. Aquele não era um som corriqueiro, algo que ela ouvisse com freqüência durante o dia de trabalho.
Ele não havia notado a presença dela e nem poderia, cercado que estava por algumas mulheres, nitidamente preocupadas em ganhar-lhe a atenção.
Mas sua observação foi interrompida pelo homem ao seu lado.
_ Meu nome é Richard. Gostaria de conhecer a casa...
_ Não ! _ ela respondeu rispidamente _ Na verdade quero que se afaste de mim, se for possível.
_ Nossa ! _ ele arregalou os olhos, mas voltou a sorrir _ Mulheres dominadoras...minhas preferidas.
Nem ela entendeu sua reação, mas o fato é que não pôde deixar de rir da observação dele. Talvez algo que ela jamais tivesse ouvido em relação a si mesma, ao contrário, imaginava-se sempre ao lado de homens dominadores, mas nunca se julgou como tal. Era independente, apenas isso.
_ E fica linda quando sorri _ Richard completou, vendo que estava ganhando terreno.
_ Você é insistente, não é ? _ ela virou-se para fitá-lo.
_ Algo da minha personalidade _ ele deu de ombros, como se aquilo não fosse relevante _ É muito útil ao meu trabalho. Tem me trazido mais sucesso e dinheiro do que posso administrar.
Ele era a personificação do esnobismo e ela achou graça, porém, não foi isso o que a levou a se apresentar àquele homem. Não se sentia à vontade para se aproximar agora do seu alvo, seria capaz de matá-lo se o fizesse naquele momento e, afinal, ao diabo com todo o trabalho, repreensões e reclamações que ela agüentara o dia inteiro sozinha. Se ele podia esquecer os compromissos assumidos, não haveria de ser ela a ficar lembrando-lhe isso o tempo todo. Ele já era adulto e, pelo furor que parecia despertar naquelas mulheres, tinha plena consciência disso.
_ Dana _ ela respondeu com voz suave _ Esse é o meu nome. Quer dizer que tudo e todos aqui te pertencem, Richard ?
Ele sentou-se ao lado dela e chamou o barman.
_ Posso te oferecer algo para beber ? _ ele começou encorajado
Ela pediu um vinho, branco e seco, como o seu humor naquele momento.
_ São meus funcionários _ Richard complementou_ Somos advogados e trabalhamos nos andares superiores. A idéia do bar foi pra descontrair o ambiente.
Mas Scully não prestava mais atenção à conversa de Richard. Apenas a imagem do parceiro, rodeado por aquelas mulheres, com uma fisionomia tranqüila e descontraída, tão difícil de se mostrar, lhe roubava os pensamentos. E aquele semblante ainda conseguia deixá-lo ainda mais atraente.
Amava a mente de Mulder, não havia como negar. Ela brilhava de uma maneira tão intensa que não raras vezes fora ofuscada por ela. Amava aquela inteligência vibrante e apaixonada, a obstinação desenfreada, sua dedicação comovente e, por tantas vezes, irritante. Gostava de ouví-lo, mesmo nas mais loucas teorias. Era a maneira de vê-lo brilhar de entusiasmo. Orgulhava-se de conseguir acompanhá-lo e, por vezes, deixá-lo na dúvida ou sem palavras. Nesses momentos, ainda que contrariado, podia perceber o olhar admirado e orgulhoso que ele lhe dirigia, de quem, finalmente, encontrou alguém que o compreendia e, mais ainda, respeitava-o por isso. Ela sorriu de leve. Embora todas aquelas mulheres tentassem chamar-lhe a atenção, sabia que era a ela que ele se dirigiria sempre e essa sensação lhe dava um conforto cálido, ao mesmo tempo em que a fazia estremecer.
Porém, estava falando do parceiro, alguém que ela conhecia como ninguém mais. Mas quem era aquele homem ? O que ela conhecia desse Mulder comum, cortejando mulheres com sua bela aparência e seu sorriso de menino ? Quão mais perigoso ele poderia se tornar sendo apenas um homem ?
Para estas perguntas, ela não havia encontrado uma resposta, tanto quanto Mulder não parecia se sentir seguro em relação a ela neste campo. Eram quase desconhecidos um para o outro quando se tratava do que sentiam , muito embora, a proximidade em que viviam insistisse para que eles rompessem essas barreiras.
Ela suspirou profundamente, ainda tendo sob o foco de sua visão a figura alta e sedutora do parceiro. Um brilho diferente apareceu em seus olhos, assim como um leve sorriso de provocação quando voltou à realidade representada na voz meio rouca e insistente do homem ao seu lado.
_ Fez um excelente trabalho aqui, Richard_ disse virando-se para fita-lo _ O local é bem agradável _ concluiu, tecendo em sua mente planos velados de uma vingança pouco usual da parte dela, em relação ao parceiro. Talvez estivesse na hora de validar algumas impressões e pistas que ele costumava deixar no ar.
Sede do FBI
14 horas antes
Skinner encerrou a reunião com um aceno de cabeça. As instruções passadas para os agentes eram bem claras. Os relatórios de despesas, assim como os de campo, deveriam estar em sua mesa no final da tarde, nem mais um minuto depois.
Ele sabia o quanto aquela tarefa era entediante, principalmente levando-se em conta que, pelo menos do caso de Mulder, os relatórios seriam alvos de discussões acaloradas devido às narrativas subjetivas que ele fazia dos casos, sem considerar qualquer base em fatos legitimamente comprovados.
Mas não podia negar que ele era perfeito em campo e, talvez por isso, os atrasos nos relatórios eram perdoados, mas não quando ele passava quase um mês sem justificar, em pelo menos uma linha, o que significavam aquelas solicitações de carro e despesas que causavam assombro aos auditores do FBI.
Scully caminhava batendo o salto propositadamente mais alto sobre o piso. Ela estava zangada, Mulder pôde notar e ele tinha grande vontade de começar a rir, mas sabia que isso desencadearia a fúria ruiva e ele não estava disposto a discutir com ela numa manhã tão agradável, tampouco imaginava ficar trancado em sua sala do porão tecendo argumentos lúcidos para casos sem sentido. Ninguém iria dar crédito aos seus relatórios, afinal de contas. Então, por que se ocupar deles ? Poderia terminá-los rapidamente durante o final de semana que, invariavelmente, não lhe oferecia nenhum atrativo.
_ Scully ? _ ele começou, sondando o terreno, enquanto dava passagem para que ela entrasse na sala.
Ela respondeu com um muxoxo mal humorado, enquanto se virava para fitá-lo.
_ Ah Mulder ! _ ela pensava _ Estão ficando muito mais latentes meus instintos de investir sobre você e arrancar esse seu ar de deboche do rosto, então, não me provoque.
Mas limitou-se a sentar calmamente e aguardar que ele completasse a frase.
_ Eu não poderei ficar aqui hoje e...
Ele não precisou terminar. Antes que fechasse a boca ela já estava de pé, caminhando em direção a ele.
_ Mulder, nem em sonho você pensa que eu vou ficar aqui fazendo os SEUS relatórios enquanto você simplesmente faz uma caminhada no parque. Nem pense !
A vontade de rir não o havia abandonado completamente e foi preciso um grande esforço para ele não desatar numa gargalhada. Estava de bom humor. O que poderia fazer ? Achava engraçado o ataque dela porque, tinha certeza, ela não o impediria de fazer o que bem entendesse.
_ Eu fui convocado para ser testemunha num caso, Scully. Apenas por isso eu não vou ficar aqui em sua encantadora presença, redigindo esses trechos memoráveis de nosso dia a dia.
_ Mulder , Skinner exigiu que os relatórios estivessem em sua mesa no final da tarde. Eu não vou te dar cobertura dessa vez.
_ Não estou te pedindo isso, Scully. Faça o seu trabalho, os meus relatórios eu resolvo depois com nosso diretor.
Scully esfregou a testa com a ponta dos dedos, hábito que adotara toda vez que Mulder a tirava do sério e ela precisava se acalmar antes de responder.
_ Mulder, aonde você vai ? Que caso é esse ?
_ Nada demais, Scully. Um grupo de estudos sobre problemas gerados por abduções alienígenas está tentando obter legitimidade sobre suas pesquisas e criar um departamento dentro de uma universidade. Parece que os diretores não aceitam o método de trabalho deles e então eles me pediram pra testemunhar em seu favor, como "alguém que acredita". Parece que eu tenho alguma reputação lá fora _ ele concluiu dando de ombros e sorrindo de leve.
Na verdade, ele não havia pensado em ir. Devia ser apenas mais um grupo de jovens malucos, mas a idéia de passar o dia no escritório o havia feito mudar de idéia. Era uma boa desculpa.
_ Você não está falando sério, Mulder _ Scully respondeu com ar surpreso _ Você não pode testemunhar em casos assim sem a autorização do FBI. Isso compromete nosso trabalho.
_ Não vou falar nada sobre o nosso trabalho, Scully. Eles só querem meu testemunho. Não preciso apresentar nenhum documento ou prova. Será apenas minha opinião. Fique tranqüila _ ele voltou a sorrir _ Nossos segredos estarão bem guardados comigo, alguns nem eu mesmo conheço _ completou insinuante.
Mulder não esperou respostas. Retirou o sobretudo do cabideiro, acenando tranqüilamente.
_ Nos vemos amanhã, Scully.
_ Em seus sonhos. _ ela respondeu mal humorada_ Amanhã é sábado e você terá que fazer seu trabalho sozinho.
Mas ele não ouvia mais e ela suspirou desalentada.
_Por que Mulder tinha que ser assim ? Por que sempre deixava os problemas burocráticos e enfadonhos para que ela fizesse ? Por que tinha tanta certeza que ela livraria a cara dele, em última instância ? A principio acreditou que fizesse parte da parceria, depois começou a pensar que era porque ele simplesmente confiava nela, mas agora, começava a imaginar se aquilo não fazia parte do lado egoísta do parceiro, que a tomava apenas como sua funcionária, alguém que estava disponível para resolver os contratempos que seu espírito arrebatado criava. E isso, não podia negar, a magoava de alguma maneira, ou talvez, de uma forma muito mais profunda do que ele imaginava.
Mas ela não queria se deixar levar por esses sentimentos, tampouco iria ajudar Mulder daquela vez. Concentrou-se em seus próprios relatórios e, antes do almoço, já estava liberada de seus compromissos. Como Mulder não estava lá para começarem alguma nova investigação, ela se deu ao luxo de almoçar com tranqüilidade, num restaurante próximo ao Bureau.
Escritório De Advocacia
Boston
Era apenas uma entrevista de conciliação. Os advogados do grupo acreditavam que uma tentativa de acordo seria o ideal para ambas as partes. O grupo de pesquisadores estava bem estruturado e havia conseguido, inclusive, que um agente do FBI, especializado em casos paranormais, testemunhasse ao seu favor.
Ally estava tranqüila. Provavelmente aquele caso terminaria antes de começar. Os representantes já a esperavam na sala de reuniões quando ela entrou no banheiro. Parou surpresa ao ver o homem que saía de um dos boxes ainda terminando de levantar o zíper da calça. Ele parou abruptamente e a olhou entre confuso e divertido.
_ Acho que um de nós entrou no local errado _ ele comentou com ironia.
Ela não respondeu. Na verdade, estava empolgada demais para responder qualquer coisa. O que era aquilo ? Ela pensava. Perfeitamente acomodado num terno de elegante corte grafite, camisa num tom de azul forte, arrematada pela gravata de pequenos arabescos, estava um homem particularmente atraente. Ela balançou a cabeça. Bem mais do que atraente. Os olhos verdes e estreitos pareciam brilhar divertidos e os lábios generosamente curvados num pequeno sorriso davam-lhe um ar jovial. Era alto, mais alto do que a média dos colegas de trabalho. Seu cabelo caía despretensiosamente sobre a testa e só então ela reparou que estivera por tempo demais observando-o.
_ Não...é...quer dizer _ ela sorriu atrapalhada _ O banheiro é comum...
_ Ah ! _ ele murmurou simplesmente.
_ Eu...acho que não nos conhecemos _ ela cumprimentou.
_ Estou aqui para uma audiência de conciliação...
_ O caso dos aliens ? _ ela cortou ofegante.
Mulder riu
_ Sim...os aliens. E você ...?
Ela aproximou-se, sem esconder o entusiasmo
_ Ally...Ally Macbeal, eu ..eu sou a advogada do caso e...
_ Só vim como testemunha. Fox Mulder _ ele apresentou-se.
Ally começou a suar e Mulder franziu a testa sem entender.
_ Eu...Dê-me licença, sim ? _ ela falou apressada, entrando num dos boxes.
Ele limitou-se a balançar a cabeça e saiu, sorrindo de leve.
_ Nossa ! _ ele ouviu às suas costas quando parou na recepção e virou-se para encarar a loura que o olhava como a uma presa.
_ Por favor _ ele perguntou gentil _ Onde fica a sala de reuniões para conciliação ? Estou meio atrasado e não sei aonde é.
_ Eu te levo até lá _ ela respondeu com malicia _ Tem certeza de que não precisa de mais nada ? _ sussurrou.
Mulder entendeu e sorriu.
_ Se me mostrar o lugar, já será o bastante.
Elaine acompanhou-o sorridente, piscando e deixando o queixo cair quando passou por Linn e Richard.
Mulder entrou na sala de reuniões e um homem baixo, de aparência engraçada, aproximou-se.
_ O senhor é Fox Mulder, não é isso ? Agente do FBI ?
_ Eu mesmo.
_ Sente-se, por favor _ John convidou.
Porém a reunião não começou. O som de gargalhadas do lado de fora chamou a atenção dos presentes e todos se voltaram para a porta entreaberta, onde se podia ver três mulheres cochichando e rindo.
_ Ally ? _ John chamou _ Será que podemos começar.
Ela entrou na sala apressada e tropeçou, esbarrando na mesa e apoiando-se nos ombros de Mulder, enquanto as outras duas, a loura que indicara o caminho a Mulder e a mestiça ao seu lado, riam e balançavam as cabeças.
A reunião demorou um pouco mais do que o normal para terminar, talvez em função das diversas interrupções que foram feitas, muitas vezes pela secretaria que insistia em oferecer café e água com uma freqüência invulgar, ou por uma ou outra advogada que entrava na sala para sair em seguida sem qualquer explicação, o que já causava algum desconforto em todos.
Passadas algumas horas, porém, o acordo estava selado. O grupo de pesquisas poderia se instalar na universidade, mas seria necessário escolher um membro, entre o corpo docente, para acompanhar os trabalhos, afim de que ele não fugisse ao controle e rumasse para o campo do imaginário.
_ Obrigado pela ajuda _ agradeceu o diretor do projeto, velho amigo de Frohike, a quem Mulder se dispusera a ajudar.
_ Foi um prazer _ ele respondeu polido _ Espero que esses estudos possam vir a ser úteis no futuro.
Mulder despediu-se dos presentes, mas já era tarde para tentar voltar a Washington e ele já considerava a possibilidade de voltar para casa somente no dia seguinte. Saindo da sala, foi abordado pela advogada do grupo.
_ Senhor...é...vai embora hoje da cidade ? É de Washington, não ?
_ Sim, quer dizer, sou de Washington, mas pretendo voltar para lá apenas amanhã. Sabe de algum lugar aonde poderia ficar essa noite ?
A mulher permaneceu estática. Um milhão de pensamentos rondavam sua mente. Claro que sabia um bom lugar e, tinha certeza, só precisaria arrumar um outro para Rennee ficar, já que imaginava que o espaço do seu quarto não seria o bastante para compartilhar com aquele homem. Ela riu dos próprios pensamentos e só então percebeu que ele ainda a fitava.
Elaine aproximou-se e, sem o menor pudor, interrompeu a conversa.
_ Tenho um bom lugar para passar a noite, agente. Basta que me siga _ ela murmurou, rodando em volta dele como uma gata.
Mulder riu. Não havia como negar que aquele furor que estava provocando fazia enorme bem para seu ego e ajudava a esquecer a incômoda presença de inúmeras revistas em sua vida, que comprovavam a solidão de suas noites.
_ Elaine, eu já estou vendo isso _ rosnou Ally.
A outra se afastou lentamente, não sem antes lançar um olhar de desdém para Ally e outro malicioso para Mulder.
_ Só queria ajudar _ respondeu com falsa inocência.
Eles seguiram para o elevador e dali ganharam a rua para, minutos mais tarde, finalmente pararem em frente ao hotel. Ally despediu-se do agente, não sem um amontoado de insinuações que ele, educadamente, fingiu não entender. Não sabia exatamente porquê, mas uma imagem se formava insistente em sua consciência, talvez provocada pelo esplêndido pôr de sol que abraçava o firmamento e que formava uma pintura de tons dourados e avermelhados de vários matizes, pontilhado do azul que anteriormente dominava o horizonte, e que dava ao ambiente um calor aconchegante, familiar, ao mesmo tempo em que levava ao peito um estranho aperto, misto de insatisfação e ansiedade, uma crescente necessidade de voltar ao lar, em sua mente representada pela mulher que se pintava daquelas mesmas cores e também lhe dava a mesma sensação de aconchego.
Mas não foi possível ignorar completamente os convites da mulher insistente ao seu lado e ele aceitou encontrá-la mais tarde, no bar que ela determinou, logo abaixo do prédio do escritório onde trabalhava. Apenas um happy hour, ela prometeu.
Na recepção do hotel, Mulder fez sua reserva e por um momento achou estranho que fosse apenas um quarto. Ainda era cedo e talvez desse tempo de falar com a parceira no FBI. Pensando com calma, ele achou que seria melhor manter uma certa distância dela naquele final de semana, já que ela deveria estar ouvindo um milhão de repreensões.
Ele sorriu ao colocar a chave na porta e entrar num pequeno quarto muito limpo e arejado, cuja janela dava para uma vista melancólica da cidade lá em baixo, com suas ruas cobertas de folhas amareladas do outono, os passantes encolhidos em sobretudos grossos, delineados pelo brilho morno do sol que se escondia agora definitivamente. Em breve, pela limpidez do céu, a lua clarearia os prédios e a vida noturna da cidade, convidaria a um passeio, uma bebida e, quem sabe, uma cama acompanhada de braços ternos e amorosos.
Novamente, a imagem da parceira formou-se em sua mente. Ela deveria estar uma fera com ele. Podia antever seu ar contrariado, seus saltos muito altos batendo com impaciência sobre o piso frio enquanto se dirigia à sala de Skinner. Seus lábios deveriam estar curvados num ricto de contrariedade e exasperação. Seus olhos tornando-se de um azul fulgurante, enquanto se estreitam denunciando a ira que tão bem se esconde em seu semblante determinado e sereno. Podia sentir a musculatura tensa dos maxilares que se controlavam para não derramar dezenas de impropérios e amaldiçoá-lo por deixá-la, mais uma vez, sozinha para socorrê-lo de sua imprudência e impetuosidade.
Por que fazia isso com ela ? Por que colocá-la em situações constrangedoras de exposição e reprimenda que só a ele eram merecidas ?
Porém, raras eram às vezes que lhe pedia para agir assim. Não lhe cobrava com freqüência que o defendesse e, ainda assim, ela parecia sentir-se responsável por isso.
_ Minha Scully _ ele pensava _ Dissimulando afeto em cuidado. Sim, porque somente a afeição poderia conduzi-la a agir daquela maneira com ele, mas sua parceira jamais testemunharia isso. Seria capaz de repreendê-lo de todas as formas e jogar-lhe em face todos os seus erros, mas nunca admitiria que grande parte do que fazia se devia ao sentimento que nutriam um pelo outro e que se tornava a cada dia mais evidente no olhar preocupado e terno, no sorriso fácil, no semblante cúmplice, na necessidade quase incoerente de estarem juntos...de se mostrarem presentes... de se fitarem... de se tocarem...
Mulder sacudiu a cabeça para afugentar os pensamentos que começavam a dominá-lo e que, embora lhe trouxessem um calor gostoso, não mais o satisfaziam. Não queria mais lembranças idealizadas, queria a realidade, o convívio, a parceira.
Tomou um banho rápido e deitou-se, fixando o olhar no teto. A noite, apesar de fria, estava límpida e convidativa. Não pensava em sair novamente, mas também não queria ficar preso naquele quarto tecendo fantasias exaustivas sobre a verdade em todos os campos de sua vida, desde a obsessiva busca no trabalho, o duvidoso sentimento da parceira, até a inevitável insipidez de sua existência.
Vestiu-se em trajes casuais e ganhou a rua. Aquela cidade era ao mesmo tempo sóbria e acolhedora. Pegou-se observando os passantes com o olhar atento e bem treinado de investigador, mas não com a frieza que caracterizava esse tipo de análise e sim com a preocupação humana e compreensiva do antigo estudante de psicologia que ainda habitava nele.
Ali viu um senhor envergado pelo peso dos anos e seu rosto abatido, de olhar triste e distante, o fez pensar na solidão daquele homem, cujas mãos calejadas pareciam denunciar anos exaustivos de trabalho onde os sonhos lhe foram roubados lentamente, imprimindo em seu semblante algo que ele classificou como um resignado e melancólico sentimento de traição.
Mais um pouco e uma senhora de boa compleição passou por ele arrastando uma garotinha que insistia em pular ao invés de andar. Longe da irritação, a mulher de olhar generoso e indulgente parecia divertir-se com a inquietação característica da juventude , recordando talvez os tempos felizes em que se permitia fazer o mesmo. Mulder sorriu para ela e recebeu o mesmo carinho em retribuição, vendo em seu corpo cheio e roliço a tranqüila naturalidade materna em substituir a boa forma pelo terno aconchego de sua criação.
Seguindo seu caminho, viu no banco de um jardim onde as folhas amareladas do outono coloriam o cinza opressivo do asfalto, um casal de adolescentes abraçados, envolvidos na impetuosidade de uma nova descoberta. As gargalhadas chegavam aos seus ouvidos como a chuva na plantação ressequida e ele sorriu com eles. Não se lembrava mais de quando se sentira assim e, de repente, seu rosto foi surpreendido pelo rubor e pela nostalgia. Sim, ele estivera assim há pouco mais de um ano, quando a mesma gargalhada despreocupada transformara o delicado semblante da parceira. Novamente, o som do riso e as folhas do chão trouxeram-lhe a mulher ruiva ao pensamento e seu coração apertou-se lentamente no peito.
Amar Scully: Esse era um pensamento que jamais aflorava de sua impetuosidade. Estranho como alguém tão passional pudesse esconder um sentimento desses por tão longo tempo de convívio diário e, por vezes, tão intimo. Eram árduas batalhas diárias contra sua impulsividade que insistia para que ele chegasse mais perto, prolongasse as horas de trabalho, criasse situações onde a permanência ao lado dela não pudesse ser justificada apenas pela extrema necessidade que tinha de tê-la por perto. Noites insones, que antes eram consumidas na busca de respostas, de intrincados jogos mentais para descobrir um assassino, analisar um suspeito, também eram agora divididas com os sonhos povoados de tons cobre e oceano, refletidos na tez continuamente pálida e naturalmente tensa.
Gostaria de poder proporcionar a ela momentos como os que tiveram jogando beisebol, em que seus olhos não foram toldados pela visão do infortúnio ou do medo, da tensão ou da angústia. Como gostaria de ouvir o som daquele riso despreocupado novamente, mas sabia que o que o esperava em Washington era o olhar de reprovação dela e, ainda assim, já começava a sentir falta dele.
Chegou ao bar sem que percebesse realmente e encontrar a mesa de Ally não demorou mais do que alguns segundos, já que alguns pares ansiosos de olhos pareciam grudados à porta de entrada e caíram aliviados sobre ele assim que transpôs a soleira.
Ele ainda teve tempo de observar o local antes de se aproximar da mesa. O ambiente era envolvente tanto quanto a voz que enchia o ar com seu timbre dos excelentes cantores negros americanos. Aquela voz dava o tom do local e era quente, insinuante e profunda, mexendo com os sentidos de quem quer que entrasse ali à procura de companhia ou de esquecimento, de solidão ou saudade.
As músicas eram, em parte, antigas, mas ganhavam roupa e aroma novos na interpretação apaixonada da mulher. Mulder sentiu-se bem naquele ambiente rodeado por pessoas cuja única preocupação era o esquecimento de si mesmos. Mas ainda faltava o toque de vermelho e dele, Mulder não poderia prescindir se quisesse realmente se sentir em casa.
_ Que bom que veio, Fox ! Posso chamá-lo assim, não é ? _ Ally cumprimentou ansiosa.
_ E que bela raposa ! _ murmurou Elaine para Rennee e ambas riram
Mulder também sorriu e sentou-se com elas. Após alguns minutos ele se sentia relaxado, mas ainda não sabia se era devido à voz da cantora, ao copo de bebida ou à exagerada atenção de suas companheiras de mesa.
Em breve ele estava rindo e conversando com animação, afinal, quando fora a última vez que se vira cortejado por tantas mulheres ?
Scully começava a se divertir com Richard. Ele era engraçado afinal de contas e ela não precisaria dar respostas ao Bureau até a manhã seguinte. Além disso, havia a imagem de Mulder cercado por mulheres, que a deixava cada vez mais irritada e propensa a se deixar levar pelo sabor do vinho que esmaecia lentamente as barreiras que ela cuidadosamente erguera sobre seus sentimentos.
Em poucos minutos estava se sentindo envaidecida ao ser cortejada por um homem que, embora não fosse um ideal, ao menos não parecia se enquadrar na categoria de malucos com os quais ela lidava diariamente, entre os quais ela maldosamente achou por bem incluir o parceiro que sequer havia notado sua presença.
Richard estava conseguindo seu objetivo e isso o deixava sobremaneira excitado, tanto que, se naturalmente não perceberia o olhar magoado de sua companheira, menos ainda quando esta lhe parecia retribuir o interesse com reservas cada vez menores que já permitiam frases mais sutilmente convidativas e sorrisos freqüentes que já ultrapassavam o simples curvar de lábios e permitiam que sons alegres preenchessem aquela bela face emoldurada de cores.
Mulder levantou-se para dançar com Ally e procurou deixar as preocupações e lembranças de lado. Na manhã seguinte estaria novamente em seu porão abarrotado de trabalho ou em seu apartamento povoado de solidão e, então, pensaria numa boa maneira de abordar a parceira.
Seguiu-se a dança com Elaine, num tom que ele mesmo classificou como indecoroso e novamente com Ally.
Em meio à dança e à melodia suave que abraçava os pares, um som destacou-se e todos os outros passaram a soar uma nota abaixo, como simples pano de fundo, algo como a música que complementa a ação de um filme ou dá o tom para uma cena dramática.
Um riso de mulher, cheio, profundo e absolutamente encantador, capaz de colocar em alerta todos os seus sentidos. O som tão raro e tão esperado de Scully.
Sem que percebesse, ele já havia parado de dançar e seus olhos perscrutaram o local em busca da parceira, até que a encontraram ao lado do colega de trabalho de Ally.
_ Desculpe _ ele dirigiu-se a mulher ao seu lado_ Acho que há alguém à minha procura _ falou libertando-se dos braços dela e atravessando o bar em direção da outra mulher.
_ Scully, o que faz aqui ? _ foi a pergunta incisiva dele ao se aproximar.
Ela parou de falar e olhou-o desafiadora. Pensara em chamar-lhe a atenção e despejar seu descontentamento sobre o parceiro, mas pensou melhor e acreditou, pelo brilho em seus olhos quando a interrogou, que a melhor resposta seria provocá-lo.
_ Mulder ? Vim para escolta-lo segundo as ordens de Skinner, mas já encontrei algo melhor para fazer do que bancar a babá de um homem feito. Conhece o Richard ? Ele é o dono de tudo aqui, não é ? _ ela voltou-se para o outro homem _ Até daquelas garotas com quem você estava, não é ?
_ Sim, quer dizer, elas trabalham comigo e... Você não é o agente que aqueles malucos da Universidade contrataram ?
Mulder irritou-se, não só pelo comentário maldoso de Richard, mas sobretudo, por Scully parecer tão a vontade ao lado dele.
_ Skinner mandou que viesse atrás de mim ? _ perguntou ignorando o homem ao lado dela.
_ Para isso fui contratada não é ? Para seguir os passos do brilhante garoto do FBI ...
_ Scully, você está bem ? _ ele cortou _ Acho melhor sairmos daqui..._ ele continuou, tocando-lhe o braço.
_ Estou ótima, Mulder _ Scully respondeu esquivando-se ao toque _ Nunca estive melhor. Pode terminar sua noite, eu e o Richard vamos dançar.
Dizendo isso, Mulder não teve outra opção a não ser acompanhar com os olhos a mulher que se distanciava ao lado de seu acompanhante, vendo-o colocar as mãos sobre a cintura da parceira e marcarem juntos o passo da dança.
De repente, nada naquele lugar parecia agradá-lo, nem o timbre envolvente da música ou o semblante daquelas mulheres, nem mesmo a bebida que ele sorveu num único gole. Queria apenas sair dali ao lado da parceira e chegar a algum lugar aonde pudessem estar sozinhos, perdidos em seu mundinho particular como tinham estado nos últimos anos. Mas Elaine veio juntar-se a ele e convenceu-o a voltar para a mesa no mesmo instante em que a música parava e Richard conduzia Scully até a mesa aonde Linn e Ally esperavam por ele.
Scully tentava ignorar a presença de Mulder naquela mesa, ou melhor, tentava não se deixar levar pela irritação capaz de faze-lo perceber o quando o assédio daquelas mulheres a constrangia, mas logo a conversa se estabeleceu e foi impossível ignorar que ambos se conheciam.
_ Quer dizer que já se conhecem _ começou Richard
_ Há alguns anos _ Mulder respondeu voltando-se para ele _ Somos amigos...
_ Na verdade _ Scully cortou _ Trabalhamos juntos, somos parceiros no FBI.
_ Quem me dera entrar para o FBI _ interrompeu Elaine, numa gargalhada.
_ Você se surpreenderia com a quantidade de aborrecimentos que temos por lá, a diversão fica por conta dos filmes_ Scully respondeu secamente.
_ Pouco me importa _ Elaine continuou _ Se meu parceiro fosse assim, não me faltaria diversão..._ concluiu com um olhar malicioso e debochado.
Mulder sentiu-se constrangido e já maldizia aquele encontro. Nada disso estaria acontecendo se ele tivesse voltado para Washington naquela noite como havia programado.
_ Você certamente se surpreenderia _ Scully respondeu num muxoxo.
Mas a conversa terminou ali. A música recomeçava e Scully seguiu para a pista com Richard, seguida por Ally que insistia em dançar com seu parceiro.
A seleção agora era de músicas mais lentas. Encorajado pelas respostas de Scully e pela bebida, Richard foi reduzindo o espaço entre eles e parecia a cada momento mais empolgado. A situação incomodava Scully, mas a visão de Mulder com outra mulher dava-lhe a frieza necessária para não sair dali o mais rápido que podia e voltar para seu apartamento. Sentia que o parceiro também não parecia à vontade e por várias vezes, imaginou ter visto em seu olhar, nas diversas vezes em que se encontraram no meio da pista, um pedido de socorro para aquele embaraço.
Mulder conduzia Ally sem muito ânimo, seus olhos não se perdiam da pequena cabeleira ruiva cada vez mais envolvida pelos braços ávidos do seu companheiro de dança e ele já começava a imaginar uma maneira de se aproximar e interromper a investida daquele homem, mas tinha certeza de que Scully saberia até onde deixá-lo seguir. Porém, a medida em que o tempo passava e ela nada fazia para afastar-se de Richard, seus instintos começaram a temer que talvez ela não quisesse impor nenhum limite. Esse pensamento deixou-o tenso e ele começou a desejar que a música chegasse logo ao fim.
Ouvindo seus pensamentos, um pequeno intervalo foi feito, mas apenas o tempo suficiente para que a bela voz da cantora principal voltasse à cena numa música envolvente e sensual. Também foi o tempo que Mulder precisou para alcançar a parceira a alguns passos de distância e interromper sua dança.
_ Desculpe, Richard _ ele chamou incisivo _ Mas essa é a nossa música. Não poderia deixá-la dançar com outra pessoa que não eu _ continuou ante o olhar surpreso da parceira que se soltava do abraço de seu acompanhante para segurar a mão do parceiro que se estendia num convite.
_ Mulder...._ ela ia começar, mas o olhar dele pediu-lhe que não o questionasse.
A troca feita parecia ser a deixa que a cantora precisava para dar voz à melodia e, de fato, a letra casava-se com perfeição ao novo par formado.
I can´t stop this feeling
Deep inside of me
Boy, you just don´t realize
What you do to me
You lips are sweet as candy
The taste stays on my mind
You just keep me thirsty
For another cup of wine
When you hold me
In your arms so tight
You let me know
Everything´s all right
I, I´m hooked on a feeling
I´m high on believing
That you´re in love with me
I´ve got in bad for you, darling
But I don´t need a cure
I´ll just stay addieted
And hope I can endure
All the good love
When we´re all alone
Keep in up boy
Yeah, you turn me on
E, de repente, não havia mais ninguém ali, apenas eles e a voz que embalava seus corpos. Se pudessem prestar atenção, veriam que os olhares convergiam para eles e que um certo embaraço tomava conta dos semblantes, mas não havia mais espaço para nada ao redor, aquela música falava deles, de um momento particular, do sentimento que os unia e a que tanto temiam dar nome. Mulder estreitou mais o abraço e sua pulsação se alterou perceptivelmente quando sentiu a cabeça de Scully descansar em seu peito, aquecendo e estremecendo seu corpo.
As músicas se sucederam e eles se esqueceram do tempo, do motivo de estarem ali, sequer se lembravam de onde estavam realmente, nada disso tinha importância no momento.
Scully pareceu despertar momentos depois. Embora o cheiro suave de loção do parceiro estivesse impregnando seus sentidos, apesar da textura firme e cálida da pele dele sob sua cabeça e mesmo que os braços dele a envolvessem cuidadosa e ardentemente, ela não podia esquecer os compromissos que ambos assumiram. Se quisessem ser parceiros, jamais poderiam ser amantes. Este era o pacto silencioso que os unia. Um acordo não determinado, mas muito presente entre eles e, em nome desta parceria, ela renunciaria a qualquer outro contato com Mulder, mesmo que isso lhe custasse a tranqüilidade do coração.
_ Já é tarde Mulder _ ela murmurou ainda muito próxima a ele, mas sem fitar-lhe o semblante. Se o tivesse feito, notaria a ruga que se formara em sua testa e o brilho desaparecendo de seus olhos.
Mesmo assim, ele não se afastou. Apoiou o queixo sobre a cabeça dela e lembrou-se do quanto ela parecia pequena e frágil assim, tão próxima dele. Pararam de dançar e, por um momento, ficaram apenas abraçados no meio da pista.
Um rápido exame do local deixou perceber a Mulder que ninguém parecia vê-los, cada um perdido em conversas vazias, risos exagerados, olhares sonhadores e semblantes, por vezes, serenos e distantes, ou então, perturbados e solitários.
Queria não conhecer nada da mente humana naquela hora. Queria poder perder-se entre eles e esquecer o emaranhado exaustivo de seus dias solitários e sem sentido, mas eles estavam ali, cada um deles, gravados nos arquivos de sua memória que, por vezes, ele amaldiçoava por ser tão notável.
Um leve sorriso, porém, curvou seus lábios, não o bastante para que a parceira, estranhamente quieta entre seus braços, percebesse. Havia o lado bom de se lembrar de tudo. Recordava-se com exatidão de detalhes quantas vezes estivera naquela posição com a parceira, mesmo que em situações onde o medo era o sentimento dominante. Medo da morte, medo da verdade, medo do silêncio, da tristeza. Estranho como o medo poderia povoar tantos sentimentos enquanto a alegria se vestia apenas de bem estar.
Não havia como definir esse bem estar, mas era o que sentia quando ouvia os passos sonoros e cadenciados da ruiva ao seu lado, quando, mesmo que raramente, ouvia o seu riso cristalino e ainda em todas as vezes que o azul daqueles olhos se fazia mais fluente do que um milhão de palavras.
Poucos mas tão bons momentos. O primeiro deles quando no primeiro caso, ela se permitira estar assim com ele, mesmo que por uma pequena fração de minuto, embora ali ele não pensasse em mais nada do que em seus malfadados aliens. Mas nada o impediu de recordar esse dia, meses depois, nem mesmo seu intocável senso de dever ou sua corrente frustração. Será que já amava naquela época ? Não, ainda não, mas não havia sensação melhor do que saber que ela estava ali, ao seu lado, diariamente na busca de casos reais ou imaginários.
Boas lembranças como quando atendeu a porta, num Natal como outro qualquer, sem alegria ou emoções que não a frustração e a solidão, e lá estava ela. O quanto lhe fora caro tê-la durante aquela noite em que as ternas demonstrações de afeto não eram ditas, mas nem por isso, estavam distantes. Ali ele a amou um pouco mais e esse sentimento parecia crescer assustadoramente em meio à rotina que, ironicamente, era a responsável pela dissolução de tantos relacionamentos e que, no caso deles, era o que os mantinha juntos.
_ Mulder, ainda temos que encontrar um lugar para passar a noite.
Ele saiu de seus devaneios e a encarou com um sorriso malicioso nos lábios.
_ Eu tenho um quarto, Scully...grande o bastante para nós dois.
Ela o fitou por alguns instantes e ele pode ver suas feições mudando lentamente. O momento havia acabado. A profissional vinha à tona.
_ Acha mesmo que duas voltas na pista e uma música bem cantada vão me fazer esquecer porque estou aqui ?
Mulder encolheu os ombros.
_ Tem idéia da repreensão que eu levei por você ter querido bancar o garoto rebelde ?
_ Eu sou rebelde, Scully...e nem tão velho assim...
_ Ainda estou te odiando, Mulder. Não brinque comigo. Você vai precisar arrumar outro lugar para dormir. Meu dia já foi longo o bastante.
Ele sorriu ao fitá-la, tão pequena em seus braços e ao mesmo tempo tão grande em seus pensamentos.
_ Ainda deve haver algum quarto naquele hotel, mas não acredito que você teria coragem de me deixar na rua .
_ Você não estaria sozinho _ ela respondeu prontamente, desviando o olhar para a mesa a poucos passos deles e que abrigava alguns pares de olhos que disfarçadamente pareciam encará-los.
_ É _ ele murmurou insatisfeito_ Mas não seria a mesma coisa.
_ Ah ! _ ela riu maldosamente _ Com certeza não seria. Você ficaria bem ocupado, Mulder.
Mas ele perdeu a expressão irônica. Tornou-se repentinamente sério e a mão que se apoiava nas costas dela, lentamente começou a desenhar círculos perigosos sobre a coluna, experimentando a maciez da pele sobre o tecido para acomodar-se intimamente entre seus cabelos, provocando o arrepio dos fios sobre a nuca e que, ela tinha certeza, ele havia notado.
Aquele era um daqueles raros momentos em que ela não conseguia sustentar o olhar do parceiro que parecia penetrar seus ossos e devassar seus pensamentos. Assim manteve-se fitando teimosamente o peito dele, tentando distrair-se com os contornos musculosos, perdendo-se pelo pescoço e reconhecendo-se irremediavelmente perdida ao fixar o queixo marcante e a curva generosa do lábio inferior dele, levemente entreaberto num gesto de dúvida.
Suspirando imperceptivelmente, ela ergueu os olhos sobre a face dele que parecia ainda digerir as palavras dela, buscando a resposta que ela temia ouvir.Será que ele se importaria de passar a noite com uma daquelas mulheres sabendo que ela estava ali, com ele ?
_ Não quero mais apenas me ocupar com uma mulher, Scully _ ele respondeu baixinho, esboçando aquele sorriso infantil que tinha o dom de desbancar qualquer atitude racional que ela tentasse manter _ Agora gostaria de amar e apenas a uma delas.
_ Bom _ ela respondeu apressada _ Parece que você poderá escolher esta noite, Mulder
Ele moveu os dedos da nuca para o queixo dela e sorriu, acariciando a pele fina do maxilar.
_ Eu já escolhi, Scully . Vamos embora ? _ convidou, descendo novamente a mão até alcançar os ombros dela.
Sem dizer nada, ela o seguiu, mas estava certa de que, nem a música alta que ressoava nos quatro cantos do bar escondia o barulho ensurdecedor que seu peito fazia a cada batida de seu coração.
Ally e Richard ficaram um tanto quanto decepcionados ao ver os dois indo embora.
_ Parece que nós dois nos demos mal hoje, não é ? _ Richard comentou.
_ Viu como eles se olhavam ? _ Ally perguntou distante.
_ Não _ ele respondeu sem entusiasmo _ Vi que ela perdeu a oportunidade de uma ótima noite.
Ally fitou o homem magro à sua frente e esboçou um sorriso. Ele não poderia compreender.
A rua estava deserta àquela hora. A lua brilhava tranqüilamente no firmamento e a temperatura caíra consideravelmente. Levantando as golas dos casacos, Mulder e Scully seguiram pela calçada.
_ Foi tão duro assim ? _ Mulder perguntou após alguns minutos em que a parceira se conservara quieta e alheia.
_ Por que você faz isso, Mulder ? _ ela perguntou voltando-se para ele.
_ Isso ?
_ Me colocar em situações constrangedoras
_ Eu não te pedi que fizesse nada _ ele resmungou
_ Mas sabia que eu faria...
_ E por que você faz ?
Scully suspirou
_ Somos parceiros _ respondeu a meia voz
_ Você não precisava ter vindo até aqui...
_ Skinner quer uma resposta ainda hoje..._ ela consultou o relógio _ ou queria...
_ Por que simplesmente não ligou ?
_ Você não teria me escutado...
_ Eu sempre te escuto, Scully.
_ Mas nunca me ouve _ ela retrucou levantando a sobrancelha.
Mulder sorriu e ela o acompanhou.
_ Obrigado.
Mulder murmurou o agradecimento e inconscientemente segurou a mão dela quando atravessaram a rua e não soltou quando alcançaram o outro lado. O silêncio se fez presente e ele voltou a observar as pessoas que cruzavam seu caminho. O garoto na bicicleta que jogava o jornal displicentemente sobre a soleira das portas, o homem de abdômen proeminente que jogava água na sarjeta após lavar a entrada da loja. As pessoas que chegavam antes do sol nascer para comprar o pão ou tomar o café, outras, como eles, que ainda não haviam alcançado seu destino e se perdiam pelas ruas. Não sabia como restabelecer o clima de alguns minutos atrás, quando ela estava em seus braços. Talvez o frio da noite houvesse congelado sua impulsividade ou o temor da recusa o tivesse impelido a recuar.
_ Muitos relatórios ? _ ele quebrou o silêncio.
_ Pilhas deles _ ela respondeu, voltando-se para ele e sorrindo de leve.
_ Alguma chance de ajuda ?
_ Nem pensar...
_ Mesmo assim, obrigado por ter vindo.
_ Eu viria de qualquer forma _ ela sussurrou após alguns instantes, estremecendo com o frio da madrugada.
_ Eu sei _ ele respondeu no mesmo tom e não deu tempo a ela para responder. Envolveu-a pelos ombros e extinguiu a distância entre eles _ E é por isso que estou agradecendo.
Scully não disse nada, nem se esquivou do abraço. Permitiu-se ficar ali, aquecida ao lado dele.
O sol começava lentamente sua viagem pelo horizonte, ainda muito cedo. Seus raios penetrando devagar pela nevoa úmida que cobria os bancos das praças, os tetos altos, as árvores desnudas, fazendo brilhar toda a cidade antes de avançar pelo chão , levantando-se o bastante para afugentar os últimos resquícios de escuridão.
Novamente Mulder se distraiu em seus pensamentos, olhando de soslaio para a pequena ruiva ao seu lado. Sorriu sobre a cabeça dela.
O sol alcançava-lhe os cabelos, acentuando os tons avermelhados e, para ele, aquela era a melhor maneira de começar o dia. Os tons de cobre sempre o deixavam em paz.
Suspirou e continuou caminhando, estreitando mais demoradamente o braço em torno dela.
Mais uma boa lembrança para o futuro.
FIM