FAN FICTION

AUTORA : Sky

E-MAIL : selmasky@ig.com.br

DISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única

intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo.

CLASSIFICAÇÃO : Drama/Shipper

SINOPSE : Um estranho homem, capaz de conhecer os sentimentos das pessoas. Um incidente que transforma a vida dos agentes.

OBSERVAÇÕES : Não costumo fazer dedicatórias, porque seriam muitas as pessoas a serem lembradas, mas, nesse caso, gostaria de agradecer a Késsia e a Small, elas sabem o porquê.

Preciso do meu salário, como diz a Késsia, então, aguardo ansiosamente um feedback

 

 

 

RAZÃO E EMOÇÃO

 

 

 

 

 

 

Scully estava sentada em frente a Mulder, ouvindo levemente contrariada a explicação que ele dava acerca do caso que estavam investigando. Subitamente, não estava mais ouvindo. Apenas fixava-o com enternecimento.

"O que eu estou fazendo aqui? _ ela se perguntava_ Ao lado de um homem que vive numa terra de fantasias às avessas? Tudo o que lhe acontece é para fazê-lo desacreditar de suas loucas teorias, mas ele continua procurando respostas. Mais estranho ainda, é que permaneço ao lado dele contrariando toda a lógica. Minha formação científica se nega a aceitar o que ele diz, mas minha alma, aquela formada dentro de uma rígida orientação religiosa, se dispõe a ouvi-lo por horas a fio, a seguí-lo em qualquer de suas loucuras, sem medir esforços ou riscos. Somente assim ela se sente em paz "

_Scully ?_Mulder interrompeu-lhe o fio de pensamentos _ O que há com você ? Não escutou uma palavra do que eu disse.

_Desculpe, Mulder _ ela dizia com feições tímidas _ Estou cansada . Será que não podemos ir para casa ? Queria tomar um banho, dormir um pouco. Não podemos deixar pra amanhã ?

Ele a fitou com interesse. Ela realmente estava abatida, desanimada e ele se comoveu ao ouvir seu pedido.

_ Ok, Scully. Pode ir . Nos vemos amanhã.

_ Vai continuar aqui ?

_ Só quero terminar de ler esse relatório .

_ Deixe-o comigo. Você já trabalhou muito por hoje. Vou ler com calma e amanhã te digo o que encontrei.

Eles se despediram e seguiram cada qual para sua casa. Scully tomou um longo banho, sentou-se na cama, espalhando os papéis sobre a cama e começou a analisá-los.

Ela não pôde deixar de rir das conclusões a que Mulder chegara. Investigavam um caso em que o suspeito dizia ter premonições sobre o que iria acontecer e quando chegava ao local, não conseguia impedir os assassinatos. Scully lembrou-se da moça cega, presa como assassina que, segundo Mulder, tinha visões das pessoas que iriam morrer e tentava ajudar. Particularmente, ela não acreditava na inocência da moça, assim como, não se sentia segura para dizer que o homem que investigavam era um novo visionário.

Chegou ao Bureau um pouco mais cedo, não dormira bem. Estava num estado tão grande de exaustão que estava ficando cada vez mais difícil se desligar e realmente descansar. Um sentimento estranho havia se apossado dela nos últimos dias e isso a estava incomodando por não saber identificar o que era.

Mulder chegou bem disposto, não parecia se cansar tão facilmente quanto ela. Estava sempre tão empolgado com alguma nova descoberta que não percebia as exigências do corpo quanto a descansar e se alimentar.

_ Bom dia, Scully. Leu o relatório ?

_ Bom dia, Mulder . Sim eu li _ ela respondeu secamente

_ E ?

_ E eu acho que só você para imaginar que um homem, que sempre está no local do crime, que tem as impressões digitais gravadas na arma , que não possui um único álibi , possa estar somente tentando ajudar aquelas pobres criaturas.

_ Não havia sangue nas mãos dele, nenhum sinal de violência, ele apenas tocou na arma. Você se lembra daquela garota cega, não é ?

_ A que tinha uma ligação com o assassino ? Sim, eu me lembro !

_ Viu que ela era inocente !

_ Vi que ela acabou matando um homem que, por sinal, era o pai dela !

_ Scully, o que há com você ? _ Mulder perguntou, estranhando tanta animosidade.

_ Estou exausta desses duelos mentais entre nós ! _ ela respondeu alterada _ Vai me convencer a seguí-lo de qualquer forma, tentar me convencer de que está certo. Vai dizer que meu ceticismo está atrapalhando o caso e que eu não tenho sensibilidade para entender essas coisas !

Scully não sabia porque estava agindo assim, porque seus olhos estavam rasos de lágrimas e se sentia tão infeliz. Talvez o stress, talvez a monotonia em que sua vida pessoal estava mergulhada. O fato é que se sentia magoada com ele antes mesmo que lhe dissesse algo.

Mulder apenas a olhava com jeito assustado. Não disse nada. Limitou-se a pegar o relatório sobre a mesa e seguir para a porta. Não se surpreendeu quando a viu ao seu lado, quando ela entrou no carro sem dizer nada. Sabia que a parceira o acompanharia aonde quer que fosse. Scully tinha razão, mas, principalmente naquele dia, queria mantê-la junto a si, sabia, de alguma forma, que precisava estar com ela. Não compreendia o que se passava com a parceira, tentou não ser tão impulsivo e tomava cuidado com tudo o que dizia afim de não magoá-la.

Seus pensamentos se perdiam, enquanto se dirigiam ao presídio para falar com o suspeito.

"O que há com você ? Nunca a vi agir assim. Nunca a vi tão sensível com relação às minhas opiniões e ações. Talvez esteja certa, talvez seja o momento de se desligar do trabalho e resolver algumas pendências de ordem pessoal que estão há muito tempo relegadas a segundo plano. Não sei te explicar, mas minha vida tem sido muito mais tranqüila ao seu lado. Mesmo sem nenhum contato intimo, me sinto satisfeito apenas de estar com você. Sua razão é o contrapeso exato para meu espírito emotivo. Mas, quem sabe, você esteja realmente cansada de ser o lado ponderado e lúcido ? "

Chegaram ao presídio e se dirigiram em silêncio para a sala de interrogatórios.

Um homem alto, extremamente magro, com olhos brilhantes e profundos, foi trazido até eles. Seu semblante era impressionante, havia algo nele que dominava o ambiente, onde quer que ele estivesse. Talvez a forma com que sustentava o olhar e fixava as pessoas, parecendo devassar completamente a alma daqueles ao seu redor.

_ O que querem de mim ? Já não é o bastante ter que me sujeitar a me misturar com a escória do mundo,ainda querem invadir a privacidade de minha alma ? Não há nada que eu possa ou queira acrescentar a este caso.

_Sr. Robert Dowell não queremos incomodá-lo_ começou Mulder _ Apenas gostaríamos que nos desse mais detalhes. Talvez possamos ajudá-lo.

_ Você acredita demais, Agente Mulder. Deveria ter maior critério. Parece tão inteligente, mas não consegue ver a verdade em frente ao seu nariz.

_ Do que está falando ?

_ De que deveria pensar melhor antes de se abandonar a uma busca desenfreada e prestar mais atenção ao que acontece ao seu redor.

Instintivamente Mulder desviou o olhar para Scully, que permanecia imóvel, em pé , ao lado da porta.

_ Senhor... _ ela começou, aproximando-se _ Gostaríamos que nos dissesse porque foi encontrado na cena dos dois crimes.

O homem fitou Scully por um longo momento, parecendo analisar o que se passava em seu íntimo e ela se sentiu desconcertada.

_ O que leva uma jovem bonita e inteligente a seguir um caminho tão tortuoso ?

Scully desviou o olhar para encontrar os olhos de Mulder fixos nos seus. Não estava num bom dia e tinha dificuldade em se manter sintonizada ao que fazia já que sua mente divagava constantemente. Ela agora pensava enquanto fitava o parceiro.

"Acho que meu motivo é alto, tem uma mente brilhante que me enlouquece e hoje está especialmente bonito me fitando com seu ar de menino".

Seus pensamentos foram interrompidos pelo homem.

_ Sentem-se, por favor_ ele convidou, enquanto alternava os olhos na direção de um e de outro. .Ele os fitava agora com ternura, numa estranha mudança de atitude.

_ Senhor ? _ Scully começou.

_ É difícil pra você aceitar as coisas, não é minha jovem ?

_ Não viemos aqui para falar de nós_ ela replicou _ O senhor está preso por...

_ Vocês estão presos, não eu ! _ o homem interrompeu _ Meu espírito é livre, nada me prende aqui . Minha consciência está em paz...meus sentimentos em ordem. Apenas meu corpo se mantém prisioneiro, mas, em breve, eu me libertarei dele.

_ Senhor Dowell, gostaríamos de ouvi-lo a respeito dos assassinatos. Será que poderia nos ajudar? _ Mulder interrompeu.

_ Eram almas perdidas. Perdidas no vício, na solidão, no desespero. Agora sei que não podia fazer mais nada por elas. Era chegada a hora de prestarem conta da vida miserável que levaram.

_ E o senhor abreviou-lhes o sofrimento ?_ Mulder disse em tom de deboche.

_ Já amou alguma vez, Agente Mulder ?_ perguntou o homem, com olhos penetrantes

Mulder ficou sem jeito por um instante , mas respondeu sem hesitar.

_Não a ponto de matar , foi por isso que cometeu os assassinatos ? Por amor ?_ disse com ironia.

_ Senhor, suas digitais estavam na arma .O senhor atirou neles ?_ Scully interrompeu.

_Sim, minhas digitais estavam lá. Não eu não atirei neles.

_ E como soube dos assassinatos ?

_ Eu sempre sei, essa tem sido minha vida nos últimos meses!

_ O senhor prevê os crimes ? _ Mulder perguntou _ Como faz isso ?

_ Algumas coisas não têm explicação, Agente Mulder. Ou melhor, as pessoas não estão preparadas para ouvi-las.

_ O senhor será condenado se não disser a verdade, não está nos ajudando.

Scully sentia-se angustiada por estar ali. O estranho homem a impressionava de uma maneira singular e ela sentia-se mal por invadir-lhe a privacidade, por imaginar que ele houvesse cometido aqueles crimes. De uma maneira pouco usual para ela, acreditava nele mesmo com todas as provas em contrário.

_ Minha jovem a condenação não é feita aqui na Terra. Temos um juiz mais poderoso e, embora meu corpo permaneça cativo, minha alma é livre, porque não trago na consciência o peso das mãos manchadas de sangue. Gostaria de voltar para minha cela_ disse voltando-se para o carcereiro_ Como vocês podem se arvorar em defensores do meu corpo se ainda não descobriram os mistérios de suas próprias almas ? Escutem o que eu vou lhes dizer : Viver pode ser o inferno ou o paraíso, depende de onde colocamos nossos corações.

O homem saiu da sala, deixando para trás os semblantes impressionados e melancólicos dos agentes que, após algum tempo, levantaram-se e saíram sem dizer nada.

_ O que você acha, Scully ? _ Mulder quebrou o silêncio ao entrarem no carro.

_ Não sei Mulder. As provas são todas contra ele..

_Mas...?

_ Mas ele me pareceu sincero_ ela sorriu de leve_ Pode rir, Mulder . Sei que isso soa estranho vindo de mim.

_ Não..não é estranho. Também tive essa impressão. Por que acha que riria de você ?

Mulder ainda não conseguia entender o que havia de diferente nela, algo que ele classificava como melancolia ou tristeza, que enevoavam os olhos dela, mas que ele não tinha como explicar.

_ Você não acharia natural que eu acreditasse numa pessoa quando as provas são contra ela.

_ Eu sei o quanto você precisa de provas, Scully .Isso não significa que eu te ache desprovida de sentimentos_ tornou ele aproximando-se dela _Vamos até a casa dele ? _ continuou, ligando o carro.

Chegaram a uma casa num bairro tranqüilo, num típico subúrbio americano. Uma senhora de meia idade veio atendê-los e permitiu que eles fossem até o quarto do Sr. Dowell, que ficava nos fundos da casa, numa construção separada.

_ Ele mora aqui desde que a mulher faleceu há três meses. Ë um ótimo homem. Sei das acusações sobre ele, mas não acredito que fosse capaz de matar ninguém.

_ O que a senhora sabe sobre ele ?_ Scully perguntou

_ Não muito. Ele sempre foi muito reservado. Não gostava de fofocas, vivia para os seus livros e ervas. Já me aliviou diversas vezes em minhas crises de asma, com seus remédios caseiros. Aqui no bairro as pessoas o têm como um conselheiro para todos os assuntos.

_ Sabe o que aconteceu com a esposa dele ?

_ Só perguntei a ele uma vez e me arrependi amargamente. Acho que foi a única vez que o vi desequilibrado.

_ Ele a agrediu ?_ Mulder interferiu.

_ Não, pelo amor de Deus, não ! Ele ficou tão triste. Disse que ela havia morrido e que não queria falar sobre isso. Pediu que eu saísse e ficou o dia todo trancado aqui.

A mulher os conduziu para um ambiente pequeno, rigorosamente limpo e organizado. Uma estante cheia de grossos volumes, que iam da Medicina à Filosofia, tomava toda a parede lateral do quarto. Uma cozinha improvisada podia ser vista mais adiante, cheia de potes de vidros dispostos simetricamente sobre uma prateleira alta. O quarto cheirava a ervas e dava uma impressão etérea ao ambiente.

_ Uma vez fiquei aqui com ele, durante uma manhã. Ele estava doente, não pode sair para o trabalho...

_ O que ele fazia ?_Mulder perguntou

_ Trabalhava numa revista, escrevia artigos e também era voluntário num hospital no bairro vizinho. Ele um homem de hábitos espartanos. Muita gente vinha lhe pedir dinheiro emprestado... sabe como as pessoas são... Eu brigava com ele por causa disso, mas ele sempre dizia que o dinheiro só valia pelo bem que podia espalhar. No dia em que ele ficou doente_ ela continuou_ Algumas pessoas vieram visitá-lo, mas ele passou a maior parte do tempo trancado aqui.

_ Contou-lhe alguma coisa a mais ?

_ Mostrou-me a foto da esposa. Deve estar por aqui_ ela disse dirigindo-se à escrivaninha acoplada à estante.

Entregou a eles uma foto de uma bela mulher ainda jovem. Os cabelos castanhos espalhados pelo ombro. Um largo sorriso emoldurava seu rosto dando-lhe um brilho radiante. Era de constituição delicada, a pele muito branca, mas seus olhos transmitiam uma energia peculiar. Parecia extremamente feliz

_ Uma bela mulher _ comentou Mulder.

O telefone da casa começou a tocar e a mulher saiu deixando-os sozinhos.

_ Acho que estamos correndo atrás de um padre, Scully _ ironizou Mulder.

_ Até mesmo os padres cometem pecados, Mulder _ ela rebateu _ O que espera encontrar aqui ?

_ Um motivo. Por que uma pessoa amável e generosa, que tinha um trabalho regular e uma vida tranqüila, sairia por aí matando pessoas que jamais viu ?

_ Não sei . Talvez ele esconda uma segunda personalidade embaixo da cordialidade... talvez tenha alguma ligação com a esposa que ele perdeu .

_ Essa é uma pergunta, Scully . Por que não vai até lá e procura as respostas ?

_ E aonde você vai ?

_ Vou até o trabalho dele. Dar uma passada no hospital. Deve haver alguma evidência. Ainda acho que ele previu as mortes.

Scully fitou-o com ironia e saiu sem dizer nada. Ela não sabia precisar o que era, mas algo a estava angustiando, uma sensação estranha de sobressalto, como se a qualquer momento algo fosse acontecer e, a julgar pelo pesar que estava sentindo, não parecia algo bom.

Chegou ao presídio e pediu para ver novamente o suspeito. Enquanto esperava que o trouxessem até a sala de visitas, onde ele a receberia, deixou-se levar por seus devaneios.

Em poucos instantes parecia recordar de toda sua vida. Não se lembrava de quando se sentira realmente feliz nos últimos anos. Acontecera tanta coisa, mas poucas lhe traziam boas recordações. Apenas um momento veio-lhe à mente. Um dia diferente em que se vira rindo alto, deixando as preocupações e tensões de lado para se entregar ao prazer simples. Nesse dia, Mulder estava com ela, o corpo colado ao seu, tentando ensinar-lhe a jogar beisebol. Era uma agradável lembrança. Estivera feliz naquele dia.

Mas, excluindo esses poucos momentos, com Mulder ou a família, sua vida havia se tornado um quadro sombrio, de medo, tristeza e preocupações.

Não percebeu a aproximação do homem que a observava com interesse, um brilho emotivo nos olhos e somente quando ele falou é que ela, sobressaltada ,se virou para fitá-lo.

_ Está sentindo, não é ?

_ Como assim ? O que quer dizer ? _ ela perguntou assustada.

_ Está chegando para você um momento decisivo. Como vários que já teve. Um pressentimento de que as coisas irão ou precisam mudar e você não sabe como. Está triste, minha jovem !

_ Senhor não vim aqui para falar de mim ... _ ela cortou perturbada.

_ Você é uma pessoa religiosa, não é ?

_ Eu tenho minha fé ! _ ela falou, sentando-se em frente a ele.

_ Fé em quê ?

_ Senhor...

_ Por favor, me diga. Depois responderei ao que você veio me perguntar.

_ Fui educada dentro dos princípios da fé católica.

_ Mas não acredita nelas, não é ? No fundo, sente-se amargurada por não conseguir ver a justiça de Deus atuando em um mundo tão violento.

_ Às vezes, questiono isso. Mas acho que não me cabe julgar.

_ Nem mesmo quando sua irmã e sua filha foram tiradas de você ?

Os olhos dela encheram-se de lágrimas e ela abaixou a cabeça por um instante.

_ Como sabe disso ? _ perguntou insegura.

_ Seus olhos me dizem. Tudo o que somos e passamos reflete-se em nossas feições, no nosso modo de agir e pensar. Nosso corpo é um mapa de nossas emoções.

_ Senhor, não sei se ...

_ Seus olhos têm um brilho triste, você não sorri com freqüência. O que é uma pena, já que tem um sorriso tão belo.

Ela não pode deixar de rir.

_ Viu o que eu digo ? _ ele falou carinhoso _ Somente quando fita seu parceiro sua expressão ganha intensidade.

_ Senhor....

_ Vocês são afortunados, minha jovem. Lembre-se disso. Poucas pessoas têm o privilégio que vocês desfrutam.

_ Correr à frente da morte ? Não julgo isso um privilégio.

_ Todos nós corremos da morte, é uma corrida perdida porque, mais cedo ou mais tarde ,ela irá nos alcançar. Mas não é isso que importa. O que vale é o que fazemos enquanto ela não nos alcança. Isso é o que Deus quer de nós. Vocês fazem um bonito trabalho. Acreditam na justiça e agem com honestidade. A maioria das pessoas passa indiferente, mas vocês se importam e isso já diz muito. Você possui uma alma generosa e leal. Não está longe a hora da mudança para você.

_ Senhor pode me dar algumas informações ? _ ela cortou , tentando não se mostrar impressionada.

_ Minha mulher morreu há três meses_ ele falou de cabeça baixa_ Por mais que eu acredite que vou voltar a vê-la, a vida sem ela tem sido bastante dolorosa. Ela representava as minhas emoções. Era bela como você. Possuía o mesmo brilho determinado, mas era pura emoção, não racionalizava tudo como você. Apenas sentia e isso era o bastante para mim. Era mais do que eu merecia de uma pessoa. Como você, sempre fui cético e racional, mas algo mudou quando nos conhecemos. Ela passou a ser meu elo com o mundo . Eu sempre vivi enterrado em minhas pesquisas e livros e ela veio trazer luz à minha existência.

_ Como ela morreu ? _ Scully perguntou cuidadosa.

_ O coração sempre foi o que ela tinha de melhor. Mas acho que esse músculo não suportou tantos sentimentos. Ele viveu intensamente e um dia ele simplesmente não agüentou. Morreu dormindo, ao meu lado.

_ Sinto muito _ ela disse em voz baixa.

_ Não sinta. Ela vive comigo ainda. Aqui _ disse, apontando pro peito_ As pessoas que nós amamos jamais morrerão. Jamais se afastarão de nós. Sei que você sabe o que eu estou dizendo. Nunca esteve ausente quando ele precisou de você, não é ?

_ Eu... não sei do que está falando...

_ Sabe sim e ele age da mesma maneira com você. Nos últimos três meses ela tem me acompanhado, eu sinto isso, embora não a veja. Acredito que foi ela quem me deu essa qualidade de ver o que irá acontecer. É como se eu pudesse ver através dos olhos dela. É ela quem me fala sobre o que se passa com você, quem me levou a ajudar naquele hospital e me mostrou como a vida pode ser miserável para aqueles que não trazem o amor dentro de si.

_ Ela o conduziu até aquelas pessoas que morreram ?

_ Não. Fiquei tão comovido com o que via naquele lugar. Queria ajudar, fui lá por minha conta. Pessoas abandonadas à própria sorte, perdidas em tantos vícios, com os pensamentos perturbados por dezenas de demônios e...

_ Matou-os para aliviar-lhes a dor ?

_ Não, apenas queria lhes falar sobre como podiam modificar suas vidas, mas cheguei tarde demais...

Subitamente o homem se levantou e a fitou com olhar penetrante. E, então, um forte estrondo invadiu o ambiente.

Scully levantou-se rapidamente e encaminhou-se para a porta, mas não pôde sair. A fumaça tomou conta do lugar e ela não conseguia ver nada. Sentiu que a puxavam para baixo e virou-se para fitar o senhor que a fazia sentar-se junto a ele.

_ Por favor, minha jovem, jogue fora sua arma !

_ Como assim ? Está tentando fugir ? _ os olhos dela denotavam revolta.

_ Não, não é isso. Eles estão começando uma rebelião. Se a virem com a arma, irão matá-la. Sei que não tem motivo, mas por favor, precisa confiar em mim. Não quero perder mais ninguém. Por favor ! _ ele dizia com olhos súplices.

Scully pensou o que pareceu uma eternidade. Ainda havia dúvida em seus olhos quando ouviu o barulho de passos apressados no corredor e não pode impedir quando o senhor puxou a arma de sua cintura e jogou-a embaixo do arquivo.

_ Por aqui ! _ eles podiam ouvir a voz de homens gritando _ Há mais gente !

A sala foi invadida por homens armados. Os prisioneiros tentavam escapar e faziam reféns para barganhar a liberdade.

Scully não teve opção, senão a de seguir junto ao Sr. Dowell para uma sala, onde já se reuniam várias pessoas. Um policial estava a um canto, um largo ferimento na perna e ela apressou-se em socorrê-lo.

_ O que pensa que está fazendo, belezinha ? _ disse um homem extremamente alto e musculoso, com cicatrizes e tatuagens espalhadas pelos braços e rosto . Segurou-a pelo braço, apertando com força e ela não pode reprimir um gemido de dor, enquanto o homem a fitava com olhar lascivo.

_ Eu sou médica ! _ ela falou com voz firme _ Esse homem precisa de socorro !

_ Ah ! _ o homem continuou, aproximando-se mais dela _ Eu também preciso de cuidados. Acho que vai preferir cuidar de mim _ continuou, tentando envolver a cintura dela.

_ Ela é minha filha ! _ interveio o Sr. Dowell _ Veio me visitar . Por favor, não a machuque ! Deixa-nos ajudar esse homem. Um policial morto pode trazer conseqüências graves para vocês.

_ Estou me lixando pra essa raça ! _ o homem rebateu, cuspindo de lado.

Mas uma mão mais determinada e forte que a dele segurou-o pelo pescoço, obrigando-o a soltar o braço de Scully. Um homem, de feições duras e olhar penetrante, o afastou.

_ Não vamos molestar ninguém aqui. O velhote já ajudou muita gente aqui dentro ! Deixe a filha dele.

Scully voltou-se para o policial caído, tendo o Sr. Dowell ao seu lado, ajudando-a .Trocaram um olhar cúmplice e proporcionaram alguns cuidados ao ferido. Ambos sabiam que se descobrissem que ela era agente federal seria a primeira a morrer.

O tumulto era grande. Eles estavam colocando os carcereiros e os visitantes numa mesma sala, onde estavam Scully e o Sr. Dowell. Scully tentara argumentar com o chefe da rebelião, mas ele estava preocupado demais em espancar um guarda e, a julgar pelo olhar injetado que tinha, estava completamente drogado.

Ela prestou socorro a algumas pessoas. Tentou acalmar mulheres histéricas e agradeceu intimamente ao Sr. Dowell por ele ter-lhe tirado a arma, uma vez que um dos presos rebelados aproximou-se dela para revistá-la.

O homem tatuado que a atacara havia saído e ela pôde sentar-se tensa, mas aliviada por não vê-lo mais. Ficaram vários minutos sozinhos na sala fechada, enquanto ouviam o movimento do lado de fora.

_ Obrigada, senhor, salvou minha vida ! _ ela disse agradecida.

_ Não me agradeça, Dana. Posso chamá-la assim, não é ? As coisas devem piorar, mas fique tranqüila e, principalmente, não deixe que saibam quem você é. Isso é muito importante !

Novamente a porta se abriu e o preso tatuado entrou com uma arma na mão.

 

HOSPITAL SAINT JOHN

 

Mulder chegou ao hospital onde o Sr. Dowell trabalhava, pediu à recepcionista que o levasse até o diretor e ficou aguardando numa sala . Havia outras pessoas ali com os olhos fixos na televisão e sua atenção foi chamada para a reportagem.

Seus olhos se abriram mais ao ouvir a notícia da rebelião no presídio onde Scully talvez estivesse e, intimamente, rezou para que ela já houvesse saído. Não aguardou o diretor. Saiu rapidamente e dirigiu-se para lá. Tentou o celular dela que tocava insistente.

 

PRESIDIO ESTADUAL

 

Scully viu o homem entrando e sentiu um arrepio percorrer o corpo. Não parecia drogado, ao contrário, seus gestos e palavras demonstravam que sua personalidade era violenta por natureza.

Ao ouvir o toque do celular ela quase gritou. O homem aproximou-se e apontou-lhe a arma, arrancando o celular de sua mão e jogando-o longe.

_ Nada de ligações belezinha ! Eu sei a hora em que vamos precisar da ajuda de vocês ! _ disse com sorriso sarcástico _ Mas talvez você possa me ajudar um pouco antes_ Ele riu com gosto, passando a língua pelos lábios.

_ Escute ! _ Scully tentou falar _ Isso não vai dar certo ! Em breve a policia irá invadir tudo e muitas pessoas vão morrer ! Tente entender ! Eles não vão libertar ninguém !

_ Cala a boca ! _ o homem gritou, esbofeteando-a _ Fique quieta aqui !

Scully passou a mão pelo rosto, levantando-se enquanto o Sr. Dowell a puxava para perto dele.

_ Dana, por favor, não fale mais nada ! Tente manter-se o menos possível em evidência ! Sei que não pode compreender, mas você irá comprometer o destino de toda essa gente se não se mantiver calada !

Mulder estacionou em frente ao presídio e quase desceu com o carro em movimento. O local estava cercado e ele buscou a autoridade no local.

_ Quem é o responsável aqui ? _ perguntou a um policial

_ É o delegado Johnson , ali na frente_ apontou o homem.

_ Senhor ? Qual é a situação ? _ Mulder perguntou, aproximando-se e mostrando-lhe a insígnia.

_ Eles tomaram a ala 5 há uma hora mais ou menos. Era horário de visitas e eles estão fazendo reféns. Ainda não disseram o que querem, mas já incendiaram colchões e mataram três policiais. Não havíamos contatado o FBI, como veio pra cá ?

_ Minha parceira talvez esteja aí dentro. Preciso saber dela !

_ Não há como saber quem são os reféns. Estamos aguardando contato, senão seremos obrigados a invadir.

_ Não !_ Mulder interrompeu apreensivo _ Isso coloca em risco muito grande as pessoas que estão lá! Tente negociar enquanto se pensa numa forma de entrar.

Outros policiais, viaturas, pessoas pedindo informações chegavam aos montes e Mulder ligou para o Diretor Skinner, tentando saber se Scully havia voltado. Mas ele não tinha notícias dela e também se deslocou para lá.

Mulder tentou novamente o celular e dessa vez, uma voz masculina atendeu.

_ Quem está falando ? _ Mulder perguntou.

_ Apenas escute ! Não te interessa quem eu sou. Você está perto do presídio ??

_ Estou..eu..._Mulder hesitou antes de responder, não sabia se eles já haviam identificado a parceira_ Vim buscar minha amiga. Ela está aí com vocês ?

_ A ruivinha ?? Está sim e não vê a hora de me conhecer melhor _ o presidiário falou, soltando uma gargalhada.

_ Escute aqui, seu animal, se tocar nela..._ Mulder começou alterado, mas o homem não deixou que continuasse.

_ Escute você ! Passe as informações para algum chefão aí, senão ela vai ser a primeira.Queremos três carros blindados dentro de uma hora aqui na frente, a policia afastada, senão começaremos a matar os reféns.

_ Sabe que eles não farão isso .

Mulder ouviu o som do tiro ressoando no ambiente e um grito desesperado a seguir. Seus nervos quase explodiram e ele começou a gritar .

_ O que você fez ?? Atirou nela ? Seu desgraçado !!

O homem não respondeu de imediato, parecendo saborear o sofrimento do homem do outro lado da linha, mas voltou a falar com tom zombeteiro.

_ Calma, amigo ! Ela ainda tem algo que eu quero. Mas vamos começar a jogar os corpos se a polícia não colaborar.

O homem desligou e Mulder correu para encontrar o delegado .

Scully ainda tremia de raiva e medo ao socorrer o homem no qual o presidiário havia atirado. Não havia mais o que fazer, o homem estava morto e ela ia retrucar quando sentiu a mão de Dowell em seu braço, num pedido mudo para que ela se aquietasse.

Outros presos entraram e arrastaram o homem morto dali. Os reféns ainda puderam ouvir a gritaria que se seguiu quando o corpo foi jogado do prédio.

_ Um amiguinho seu ligou_ começou o presidiário, dirigindo-se a ela _ Espero que a polícia acredite nele, senão você vai morrer.

Os minutos passavam desesperadores para ambos os lados. Mulder andava de um lado para o outro. Já havia tentado entrar no presídio, mas os policiais o impediam. Avisavam que iriam invadir e ele, a custa de muitos berros e gestos indignados, ainda os fazia relutar.

_ Agente Mulder, controle-se! _ dizia Skinner, enquanto via o agente discutir com o delegado.

_ Me controlar ?! _ Mulder voltou-se para ele _ Senhor é Scully que está lá dentro e eu não vou deixar que façam mal a ela ! Se invadirem o prédio eles irão matá-la.

_ Tem que manter a calma ! Já há uma equipe trabalhando para reativar as câmeras de segurança. Se os reféns estiverem todos num mesmo local, vamos tentar isolar a área e invadir o prédio.

_ É muito arriscado, senhor ...

O celular de Mulder tocou e ele atendeu prontamente.

_ Mulder ?_ uma voz baixa e de tom abatido chamava por ele

_ Scully ? _ ele falou angustiado _ Você está bem ? O que eles...?

Mas não pôde terminar, o presidiário tomou o telefone dela e voltou a falar.

_ E aí, onde estão os carros ?

_ Eles estão providenciando. Precisamos de mais tempo, nós...

_ Sem enrolação_ o homem cortou ríspido _ Vamos começar a matar gente.

O telefone ficou mudo e Mulder praguejou, chutando o carro à sua frente. Mas respirou aliviado por saber que Scully estava viva.

Seus olhos porém foram desviados para o alto do edifício, atraídos pelos gritos das pessoas que estavam em frente ao presídio e seu coração falhou uma batida. Ao lado de um homem enorme, marcado por tatuagens, estava Scully com os braços presos, tendo as mãos do presidiário em volta de sua cintura. Ela parecia uma criança ao lado do homem tamanha a diferença dos dois. Seus olhos se encontraram por um momento. A expressão abatida e amedrontada, aliada às marcas de ferimentos no rosto, tiraram a razão de Mulder. Tudo o que ele queria era invadir o local e matar o homem ao lado da parceira. O celular tocou e ele assustou-se

_ Sua bela amiguinha está aqui comigo ! _ dizia o homem, aproximando-se dela e enterrando o rosto em seus cabelos _ Se vocês não tomarem uma providência , não vai sobrar ninguém !

Mulder sentiu o corpo estremecer e fechou os olhos, sentindo um aperto imenso no peito quando ouviu o disparo. Recusava-se a abri-los, temendo ver o corpo da parceira sendo jogado do prédio. Mas a gargalhada do homem deu-lhe a entender que ele não havia atirado nela e pôde apenas vê-lo arrastando-a de volta para o interior do prédio.

_ Mulder !_ chamou Skinner_ Os homens já conseguiram reativar as câmeras . Os reféns estão todos numa sala ao lado da diretoria. Venha ! Vamos ver !

Eles entraram na sala de segurança do prédio e Mulder pôde ver quando o homem entrava novamente, trazendo Scully e a empurrando para junto de Dowell que a acolhia carinhosamente.

_ Nós vamos entrar_ explicava o policial_ a sala ao lado está vazia e se conseguirmos entrar pela janela temos chance de imobilizar os detentos que estão vigiando os reféns. Quando nós os dominarmos , os outros invadem o prédio. Sem reféns eles não têm para onde fugir.

_ É muito arriscado ! Há um homem , que parece ser o líder, ele está com Scully e os outros reféns. Se começar a ouvir tiros irá matar todo mundo ! _ Mulder interrompeu alarmado.

_ É a nossa única chance. Recebemos ordens de não negociar com eles_ informou o policial

_ Mas há pessoas inocentes lá e..._ ele tornou indignado

_ Agente Mulder, não podemos ..._ interrompeu Skinner

_ Não vou deixar que eles coloquem a vida de Scully em risco !_ ele falou obstinado _ Não viu o que aquele homem fez ? Ela será a primeira em quem ele irá atirar !

_ Tire o seu agente daqui, senhor ! _ ordenou o delegado

_ Mulder vamos !

_ Eu não vou a lugar nenhum ! _ Mulder berrava _ Vou entrar com vocês !

_ Você não pode !

_ Tente me impedir e eu entro em contato com eles ! _ falou convicto _ Só há uma chance de salvar Scully e eu vou estar lá !

Não houve argumento que o fizesse desistir. Ele juntou-se ao grupo para receber as instruções de invasão.

Scully ainda sentia o corpo trêmulo ao voltar para sala e juntar-se a Dowell. Seus nervos estavam em frangalhos e ela já não via muitas esperanças de sair dali com vida. Procurou por Mulder em meio à multidão e seus olhos se encontraram imediatamente com os dele. Viu a mesma tortura e desespero que sentia refletidos nos olhos dele e seu coração se aqueceu. Queria esquecer aqueles momentos para lembrar-se tão somente do olhar carinhoso, embora aflito , que ele lhe dera.

_ Tenha calma Dana, não está longe o momento disso tudo terminar !

_ O senhor pode ver o que vai acontecer ? _ ela perguntou receosa

_ Ainda não. Mas minha esposa está aqui. Pede que tenhamos calma e fé. Não há como fugir ao inevitável. Lembra-se de nossa conversa sobre a morte ?

_ Ela irá nos alcançar hoje ? _ Ela perguntou com os olhos marejados .

_ Eu estou cansado filha _ o senhor tornou bondoso_ Não tive filhos. Vivi para meu trabalho e minha esposa. Nos últimos meses, através desse dom que a minha Kate me deu, eu pude ver o mundo de outra forma. Vi como as pessoas lutam para ter coisas. Juntar bens. Correr atrás da fortuna e de frivolidades. Vi quanto tempo se perde em tentar corromper ou enganar e quanto as pessoas ainda tem que aprender. Encontrei poucas pessoas que se importam umas com as outras. Pessoas que se entregam às outras por puro amor, lealdade. Pessoas que não hesitariam em dar a vida até mesmo por um desconhecido, simplesmente porque acham que isso é o correto a fazer. Você foi uma delas_ olhou-a enternecido _ Vejo a forma desprendida como você se dedica à sua profissão. O modo como se entrega a uma causa que não faz muito sentido pra você, mas que não importa, desde que possa estar junto ao parceiro, ao homem que ama. Vi sua atenção com o homem ferido, correndo risco de ser molestada por um sujeito ignorante e infeliz. Vi minha esposa através de você ! Que mais posso querer ? Trago junto comigo, como a mais cara lembrança de minha mulher, uma carta que dei a ela nos primeiros dias em que nos vimos. Sempre soube que ela era a alma gêmea da minha. Embora tivéssemos diferenças de temperamento, não concordássemos em diversos pontos, ela foi a minha estrela, minha alma, minha vida. Guarde isso com você. Na hora certa, você vai saber como usá-la.

O velho senhor tirou do bolso do casaco, um envelope surrado, amassado, envolvido por uma fita vermelha e antes de entregar a ela beijou-o com carinho.

_ Por que está me dando isso, senhor ? Acredita que irá morrer ? _ ela falou angustiada.

_ A morte não existe, minha querida, é apenas uma passagem para outra dimensão e eu sei que minha Kate estará lá, esperando por mim. Não preciso mais desse papel, apenas não tinha a quem deixar minha única herança. É o que eu tenho de mais valioso e queria que estivesse em boas mãos. Guarde-o para mim, ele será muito importante pra você.

Scully deixava as lágrimas caírem livremente, um sentimento de tristeza e melancolia a invadiam enquanto deixava que o senhor a puxasse para seu ombro, permitindo que ela se acomodasse em seus braços e se entregasse à emoção.

Foram interrompidos, porém, pelo presidiário tatuado que agarrou o braço de Scully e a fez levantar.

_ Que cena comovente ! _ falou com sarcasmo _ Mas acho que posso lhe oferecer mais calor do que esse velhote _ continuou, rindo e descendo as mãos pelos quadris dela.

Scully sentiu uma onda de repulsa e ódio apoderar-se dela e juntava todas as forças que tinha para empurrar o homem quando a sala foi invadida pela fumaça e o barulho de tiros vindos da porta.

Scully caiu no chão e só teve tempo de ver que o homem engatilhava a arma e apontava para ela, antes de ouvir o estampido e desmaiar.

******

 

O local estava mergulhado em uma luz tênue , que entrava sorrateiramente pela porta. As paredes brancas, as janelas cerradas, um cheiro de limpeza perfumava o ambiente.

Scully abriu os olhos lentamente, sentia a cabeça pesada, dolorida. Virou-se para examinar o local e a primeira coisa que viu foi um par de belos olhos verdes voltados para ela, um sorriso cálido e sereno estampando-se imediatamente no rosto abatido.

_ Oi ! _ Mulder falou baixinho, soltando a mão dela, que ele retinha entre as suas, para afastar-lhe os cabelos do rosto_ Como está se sentindo ?

_ Minha cabeça está dolorida_ ela respondeu, ajeitando-se na cama _ O que aconteceu ?

_ Não vamos falar nisso agora, Ok ? Você inalou muito gás e desmaiou.

_ Eu quero saber, Mulder. Onde está o Sr. Dowell ?

_ Scully, fique calma. Eu vou lhe contar. Quando nós invadimos o local..._ ele parou reticente _ Perdoe-me ! Não havia outra alternativa_ falou sensibilizado _ Vi que o presidiário mirava em você e eu atirei, mas a arma dele já havia disparado e o Sr. Dowell colocou-se à sua frente e...

Mulder interrompeu-se para abraçar a parceira , cujas lágrimas deslizavam pelo rosto .

_ Sinto muito, Scully. Ele também me impressionou e serei eternamente grato por ele ter salvado a sua vida_ ele falava, enquanto a embalava nos braços.

Ela ficara internada apenas por uma noite. Fez questão de comparecer ao enterro do velhinho que tanto a comovera e confortara e ainda havia sido o responsável por ela estar viva. Mulder aguardou que ela depositasse flores sobre o túmulo e fizesse uma prece de agradecimento.

_ Venha, Scully _ ele chamou, envolvendo os ombros dela _ Eu te levo pra casa.

Scully chegou em casa imersa em tristes lembranças, havia saído do hospital há dois dias, mas não voltara ao trabalho, ainda tinha alguns hematomas nos braços causados pelo presidiário , mas era sobretudo sua alma que estava ferida. Sentia que faltava algo, como se tivesse esquecendo de alguma coisa importante, mas ela não conseguia se recordar o que era.

Tomou um banho e se deu conta de que as roupas que usava no dia da rebelião ainda estavam jogadas num canto do quarto. Não costumava deixar as coisas desarrumadas, mas nos últimos dias não se sentia com ânimo para isso. Pegou as peças e encaminhou-se para a área de serviço. Suas mãos tocaram algo no bolso do casaco e ela retirou o envelope que o velhinho lhe dera. Deixou as roupas e sentou-se no sofá, tirando o laço quase com reverência pela preciosa relíquia que ele havia lhe confiado. Alisou o papel e recordou-se dele, uma deliciosa sensação de bem estar invadindo seu corpo e sua mente.

A carta começava com uma introdução carinhosa para a então, apenas mulher cobiçada. Um Robert apaixonado e encantado se declarava à mulher amada e terminava com uma bela mensagem de Nostradamus , copiada com letra caprichosa.

Scully começou a ler comovida :

 

"Ninguém jamais conseguiu explicar como foram criadas as almas gêmeas, mas eu me lembro bem dessa historia.

Estavam lá no céu, todas as almas, umas eram somente razão, outras somente emoção, duas filas distintas.

Finalmente chegou a minha vez de ser colocado em uma das filas. Olhei para ambas e me identifiquei com a da razão.

Acontece, porém, que quando avistei você na da emoção, meus olhos brilharam, foi como se fosse um imã a me puxar.

Aproximei-me do Criador e lhe disse:

- Eu gostaria de ficar na fila da emoção, pode ser?.... é que existe uma doce alma lá, que me encantou.

- Está bem, me falou Ele, você até poderá escolher seu lugar, mas antes quero lhe explicar algo, depois então você fará a sua opção.

- Existem almas que são gêmeas, tudo nelas é igual, a única diferença que eu coloquei foi a razão e a emoção, justamente para que elas possam se completar, é como se fosse um encaixe.

- Possuo uma grande percepção para distinguir as almas gêmeas e, por isso, entendi que aquela que se encontra ali na fila da emoção é a sua, (falou apontando para você). Daí querer te colocar na da razão.

- Caso vocês fiquem juntas, o encanto das almas gêmeas se acabará, ao passo que se ficarem separadas, ele permanecerá.

- No entanto, devo te contar algo: as almas gêmeas nem sempre se encontram, porém, vivem sempre unidas pelo coração e por elas próprias. Por outro lado, quando se encontram jamais se separam, nem mesmo Eu consigo executar esse afastamento.

Entendi, naquele momento, que a razão não sobrevive sem a emoção e a emoção, por sua vez, precisa da razão para viver.

Nesse instante fiz a minha escolha: prefiro a fila da razão!

Encaminhei-me para o meu lugar, me posicionei e nesse mesmo instante você, que não tinha, até então, percebido a minha presença, olhou-me e sorriu!

Hoje, eu sou a razão e você a emoção. Eu te dou o chão e você me leva à lua.

Hoje, eu entendo o que o criador quis me dizer com ...é como se fosse um encaixe.

Hoje, eu sou a razão correndo atrás da emoção, e você a emoção pedindo aos céus que eu possa pertencer à mesma fila que você.

...mas o que você não sabe é que fui eu mesmo quem escolheu o meu lugar, só para ser a sua alma gêmea.

...o que você não sabe é que mesmo antes de pertencer a qualquer uma das filas, eu já te amei.

Quando voltarmos para o lado de lá, você há de entender tudo isso, e se eu puder escolher uma das filas novamente, eu ainda vou querer ficar separado de você. A única diferença é que escolherei a fila da emoção para sonhar como você sonhou e que você fique na da razão, para entender como eu sofri! ¨

Ao terminar de ler Scully tinha os olhos embaçados pelas lágrimas e sobressaltou-se ao ouvir o toque da campainha. Deixou o papel sobre a mesa e encaminhou-se para a porta.

_ Oi ! _ disse Mulder ao vê-la _ Algum problema ? _continuou, vendo a expressão alterada dela.

_ Não ! O que faz aqui ?

_ Vim ver como estava. Estou atrapalhando ?

_ Não ! _ ela sorriu, ajeitando o roupão _ Entre, vou trocar de roupa e já volto.

Scully encaminhou-se para o quarto e Mulder sentou-se no sofá, a atenção imediatamente atraída pelo papel sobre a mesa. Nas primeiras linhas ele conheceu um pouco sobre o amor daquele que ali se declarava e, ao terminar de ler , não pode deixar de se emocionar. Levantou os olhos para encontrá-los com os de Scully que estava parada na porta, observando-o atentamente há algum tempo e sorrindo.

_ Ele disse que era uma herança e que seria muito importante para mim_ ela falou

Mulder levantou-se e aproximou-se dela. Um largo sorriso estampado no rosto.

_ Almas gêmeas ? _ falou, tocando-lhe os cabelos

Ela limitou-se a fitá-lo nos olhos.

_ Acredita nisso ? _ perguntou, registrando atentamente todas as alterações na expressão dela.

_ Ele tinha um elo muito forte com a esposa..._ ela falou, referindo-se ao velhinho.

_ Não me refiro a ele, Scully !_ Mulder cortou com voz baixa, sussurrada _ Quero saber o que você pensa, ou melhor, o que você sente em relação a isso.

Ela parecia embaraçada.

_Eu tenho estado bastante emotiva nos últimos dias, Mulder. Mas acho que sempre serei a razão, não acha ?

Mulder estava em frente a ela, correu os olhos pela face rosada da parceira e suas feições adquiriram intensidade quando tomou as mãos dela entre as suas, sentindo-lhe o tremor.

_ Há alguns anos não acreditava em almas gêmeas, sequer acreditava que as pessoas pudessem realmente se amar num sentindo mais amplo. Eu sempre fui somente emoção, impulsividade, nunca racionalizei muito as coisas, ainda não sei fazer isso. Mas agora eu tenho você, Scully. Você passou a ser a minha razão ...! _ disse emocionado.

_ E você me envolveu na sua emoção Mulder. Tanto que acho que não consigo mais viver sem ela.

Permaneceram indecisos por alguns instantes, as mãos unidas, até que ela se soltou e repousou os dedos sobre os cabelos dele, numa atitude carinhosa.

Seus lábios se encontraram serenos, tranqüilos, velhos conhecidos que se buscam com prazer. Mulder envolveu a cintura dela, aproximando seus corpos, acariciando seus cabelos, enquanto ela se abandonava em suas carícias.

Se abraçaram, se conheceram, suas mãos e seus lábios se exploravam cuidadosamente. Estavam no meio da sala, sentindo os corpos trêmulos pelas sensações que os envolviam.

Mulder colocou as mãos sob o casaco dela e foi subindo em direção aos ombros até que seus olhos se encontraram com cumplicidade e emoção.

_ Só se você quiser, Scully _ ele disse com voz rouca.

_ É tudo o que eu quero agora, Mulder, acho que eu sempre quis.

Mulder afastou o casaco que escorregou pelos braços dela até o chão. Desceu as mãos pela cintura e começou a beijar-lhe o pescoço, enquanto ela fechava os olhos. Continuou sua caminhada, abrindo os botões da blusa com mãos trêmulas, enquanto sentia-lhe o corpo quente com os lábios.

Scully ajudou-o a se livrar da camiseta e eles se abraçaram com paixão, ela sentindo o contato firme do corpo dele, enquanto ele se aninhava junto à maciez do dela. Suas mãos percorriam as costas, desenhando caminhos com os dedos até que ele encontrou o fecho do sutiã. Abriu-o com mãos ágeis e suspendeu a respiração quando afastou-se para libertá-la e admirar-lhe os seios nus.

Sentiu-os com as mãos, em carícias leves e deixou que seus lábios os provassem, ouvindo a exclamação que ela deixou escapar.

Continuou a exploração, ajoelhando-se para beijar-lhe o ventre, abrindo a calça e deixando-a escorregar pelas pernas dela.

Scully nada fazia, apenas mantinha as mãos enterradas nos cabelos dele, a respiração dificultada pelo coração que, aos pulos, mal a deixava liberar o ar.

Mulder voltou a percorrer seu caminho em sentido contrário, passando as mãos pelas pernas , investigando cada centímetro do corpo com a mesma determinação apaixonada que dedicava os casos do Arquivo X.

Scully respirou fundo e pressionou-lhe os braços, obrigando-o a subir, enquanto ela dirigia as mãos para a calça dele, ajudando-o a despir-se. Abraçaram-se novamente e se entregaram a um beijo apaixonado e urgente.

Mulder pareceu se dar conta de onde estavam, imaginando uma maneira de tornar mais confortável a incômoda diferença de altura entre eles. Ergueu-a nos braços, ainda sentindo-lhe os lábios sobre seu pescoço, o que o fazia gemer baixinho e se encaminhou para o quarto, depositando-a lentamente sobre os lençóis.

Ele ficou observando-a sobre o leito, um sorriso encantador nos lábios úmidos, os olhos brilhando de uma forma que ele só imaginava como reflexo dos seus próprios. Parecia tão pequena e frágil que ele, por um momento, sentiu medo de machucá-la. Scully, porém, puxou-o pelos braços e ele deitou-se sobre ela.

Começou novamente sua exploração, enroscando os dedos na última peça que ainda cobria o corpo dela e a puxou devagar, descendo-a pelas pernas brancas e macias. Foi tomado de surpresa quando ela rolou sobre ele e começou a beijar-lhe o peito, retribuindo da mesma forma as carícias que ele havia lhe dado. Deixou que ela seguisse e fechou os olhos, suspirando. Do mesmo modo, ela tirou o que restava de suas roupas e voltou a beijá-lo.

Mulder novamente deslizou sobre ela, apoiando-se nos braços, encaixou o corpo entre as pernas dela, enterrando a cabeça nos cabelos que se espalhavam no travesseiro. Beijou-lhe o pescoço e começou a penetrá-la com cuidado. Os olhos muito abertos, acompanhando com prazer as mudanças na fisionomia dela, tão alteradas pela excitação quanto as dele.

Scully acompanhava os movimentos dele, tão dolorosamente lentos que ela apoiou as mãos em seus quadris, para que ele chegasse mais perto e a invadisse completamente, sem conseguir conter a exclamação de puro deleite que sentia ao ter o corpo dele unido seu.

Com movimentos cadenciados, por vezes rápidos, outras vezes, sutis e tranqüilos, eles se amavam, se preenchiam, o suor descendo lentamente pela pele abrasada, os lençóis arrancados do colchão, enquanto mãos curiosas percorriam os corpos que rolavam pela cama até que, finalmente, entraram em êxtase, chegando ao ponto máximo do prazer, com gemidos e sussurros ofegantes.

Mulder puxou-a para cima dele, ainda sentindo-se dentro dela e sorriu, beijando-a e ajeitando os cabelos dela em desalinho.

_ Isso foi ótimo, Scully.

_ Ainda está sendo, Mulder _ ela completou sorrindo, deitando-se sobre o peito dele.

_ O que faremos agora ? _ Mulder perguntou, enquanto acariciava as costas dela.

Scully riu, apoiou os braços no peito dele e o fitou com carinho.

_ Isso é tudo o que você tem pra me oferecer ? _ perguntou maliciosa.

A princípio ele não entendeu, ficou olhando para ela com a testa franzida para, em seguida, começar a rir.

_ Não Scully . Posso te oferecer muito mais. O que estou perguntando é como vamos agir daqui pra frente ? Nunca me senti tão completo como hoje. Foi especial... perfeito te conhecer assim. Acho que não vou mais querer sair daqui !

_ Nem precisa, Mulder. Mas, por enquanto, não quero pensar em amanhã, em como vai ser. Pra mim, basta que você esteja aqui, me amando como só você poderia fazer.

Ela voltou a beijar-lhe o corpo e eles, que já haviam entregue suas almas um ao outro, abandonaram-se à entrega total de seus corpos. E quanto mais se amavam, mais acreditavam nas palavras ditas por Nostradamus :

" Não há nenhuma explicação para as almas gêmeas, o fato é que elas se procuram, se completam, atravessam qualquer obstáculo, suportam todos os sofrimentos, desafiam qualquer razão, entregam toda sua emoção, para desfrutarem da maravilhosa sensação de se reencontrarem, para novamente, pertencerem um ao outro. ¨

FIM