AUTORA : Sky
E-MAIL :
selmasky@ig.com.brDISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo.
CLASSIFICAÇÃO : Shipper
SPOILER : Chimera
SINOPSE : O que se passa numa mente insana que corre em busca da paixão
OBSERVAÇÕES : Obrigada a minha amiga Small Iêda, que pacientemente leu e revisou minha estória em tempo recorde.
Por favor, gostaria de saber o que acharam, enviem-me um feedback.
PASSION
SEDE DO FBI
Washington DC
Scully abriu a porta, vagarosamente. Mulder estava com o jornal aberto, sentado de costas para ela. Não pôde deixar de ficar observando-o por um momento. O perfil delineando-se perfeitamente, enquanto ele mantinha os olhos fixos no papel : a aparência compenetrada e tranqüila. Um brilho emotivo passou pelos olhos dela, enquanto se aproximava.
"Percebo que ela chegou, sinto isso quando ouço o barulho no elevador e os passos seguros sobre o piso. Sei que me observa e procuro não me voltar. Sentir os olhos dela a me observar me causa um estranho e agradável estremecimento. Um prazer quase físico, como um toque sobre a pele. Isso é o máximo que posso esperar dela, um carinho feito com o pensamento" .
_ Bom dia , Mulder ! Deixaram esse envelope pra você . _ Scully falou, quebrando o silêncio.
_ Bom dia, Scully_ Mulder respondeu, voltando-se para fitá-la com um sorriso afetuoso. _ Obrigado !
_ O que faremos hoje ? _ ela perguntou sentando-se em frente a ele.
_ Ahn ! ? Não sei ! _ Mulder respondeu enquanto abria o envelope.
Dentro havia uma mensagem simples, escrita com letra caprichosa e firme. Era um convite para jantar, que Mulder imediatamente escondeu na gaveta, temendo que Scully o visse, voltando-se ruborizado para fitá-la.
_ Algum problema, Mulder ?_ ela perguntou percebendo o constrangimento dele.
_ Não... não é nada. Apenas um recado do Frohike .
_ Por que ele não ligou ? _ ela estranhou.
_ Bom, sabe como eles são, cheios de códigos e segredos. Não dá pra entendê-los _ ele procurou mudar de assunto _ Você poderia buscar os laudos dos exames da autópsia que fez, Scully. Assim teríamos um lugar para começar.
_ Está bem _ ela disse levantando-se _ Você vai ficar aqui ?
_ Vou... eu.... eu vou ligar pro Frohike. Depois te encontro.
Ela saiu e ele voltou a abrir a gaveta. Era o terceiro bilhete que recebia. Sempre a mesma caligrafia. Imaginava que deveria ser alguma secretária do Bureau, alguém que o via com freqüência, porque os bilhetes eram sempre deixados sob sua porta, ou na recepção do prédio. Sempre o mesmo convite : ela dizia que estaria esperando num restaurante próximo ao apartamento dele; que iria lá todos os dias até que ele aparecesse.
Em princípio Mulder ficou lisonjeado. Até mesmo pensara em ir, mas Scully estava sempre ao seu lado ; estavam no meio de um caso e ele acabava se esquecendo quando mergulhava no trabalho, para voltar a pensar nisso quando outro bilhete aparecia.
Pegou o casaco sobre a cadeira e saiu para encontrar a parceira. Havia muitas pessoas para interrogar, talvez tivessem que voltar a Maryland para procurar novas pistas. Ele estava empolgado, tanto que, em breves minutos, esquecia-se do convite absorvido completamente pela investigação.
Uma semana depois
SEDE DO FBI
Washington - DC
Scully perambulava pelo escritório, visivelmente contrariada.
_ Mulder, está resolvido. Não há nenhum Arquivo X nisso. Não havia nada de extraterrestre na crueldade com que aquele homem matou aquelas crianças. Você viu ! As marcas de queimaduras foram feitas por algum instrumento incandescente_ ela parou esboçando um gesto de desalento _ Esse caso me deixa enojada ! Como um ser humano pode fazer isso ?_ e virou-se para vê-lo com a cabeça baixa, os olhos fixos no chão_ Mas, mesmo que você acredite que ele agiu movido por alguma influência sobrenatural, Mulder, ele fez isso sozinho. Os fatos comprovam isso. Pare de tentar encontrar uma causa alienígena para tudo !
_ Scully, ele está protegendo alguém !_ Mulder disse subitamente animado_ Não poderia fazer isso sozinho. Precisamos voltar a Maryland . Você viu como aquela mulher ficou abalada quando a interrogamos. Ela deve saber de algo e aquelas marcas não foram feitas por mãos humanas, é impossível. Se nós formos até...
_ Mulder _ ela interrompeu _ Ele confessou. Está preso. Não há mais nada para se fazer. Há dois dias que eu não durmo direito, estou cansada. Vou pra casa. Você não vai me convencer a voltar lá !
_ Mas Scully ....
_ Não adianta, Mulder
E, então, ele explodiu :
_ Por que você nunca acredita em nada ? Quantas vezes meus palpites valeram muito mais que sua ciência ? Não fosse por isso, não teríamos conseguido resolver um único caso até hoje. Por que é tão difícil para você aceitar o que não pode ser cientificamente provado ? Nós já estivemos tantas vezes nessa mesma situação. Você já viu tantas coisas que sua ciência perfeita não conseguiu explicar, no entanto elas estavam lá. Por que nunca se convence ?! Será que nunca vai acreditar em mim ? Vai sempre classificar minhas teorias de estúpidas e bizarras demais para se levar em consideração ?
Ela surpreendeu-se com a reação dele. Sabia que também estava cansado, mas a energia que ele parecia adquirir quando estava investigando um caso era surpreendente e ela se ressentia de não conseguir acompanhá-lo dessa vez. Precisava de repouso e não estava disposta a ceder.
_ Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para acompanhá-lo; talvez nunca tenha sido, Mulder. Quem sabe está na hora de você trabalhar com outra pessoa ? _ ela disse sem pensar , sentindo-se magoada pela forma com que ele a tratara. Quis ferí-lo de alguma forma pela impiedade com que a havia acusado. Afinal, acreditando ou não nas teorias dele, nunca deixara de acompanhá-lo; ele nunca estivera sozinho quando precisava dela.
Saiu batendo a porta, dirigindo-se para o estacionamento sem olhar para trás. Era sexta feira , só queria chegar em casa, sabendo que havia deixado um Mulder tão espantado quanto ela com a atitude que tomara.
Mulder ficou observando-a sair. Estava demasiadamente frustrado com o caso, mas não queria magoá-la e havia se arrependido do que dissera antes mesmo de terminar de falar. Saiu atrás dela, mas um agente o interceptou para avisar que o assassino havia confessado que tinha um cúmplice : uma mulher que, pela foto, Mulder reconheceu como a que eles haviam interrogado dias antes. Com ela , foi encontrado um instrumento feito artesanalmente, como uma espécie de ferro para marcar o gado. Faziam isso para dar credibilidade à estória de que as crianças estavam sendo abduzidas e mortas, tentando livrar-se da responsabilidade sobre os crimes usando a fama que a região tinha de ser um local procurado para contatos com outras formas de vida.
Mulder ouviu a declaração do agente em silêncio e ,ao final, mesmo surpreso com a crueldade do casal de assassinos, não pôde deixar de exibir um sorriso. Desta vez , Scully estava certa ! Pensou em telefonar, mas foi obrigado a fazer o relatório do caso para concluir a investigação e enviar o assassino para a prisão. Não queria falar apressadamente. Ela também o havia deixado triste ao renunciar tão facilmente à parceria deles. Scully sabia como ele precisava dela ao seu lado e não pensara muito para usar isso contra ele.
Quando terminou o trabalho e abriu a gaveta para guardar os papéis, viu o bilhete que havia recebido e sem que soubesse o motivo de sua atitude _ talvez a tensão causada na discussão com Scully que, certamente estaria aborrecida com ele. Talvez pela solidão que vinha se tornando opressora nos últimos tempos, principalmente quando não podia contar com a parceira ao seu lado; ou mesmo para mostrar a ela que poderia ficar bem sozinho_ pegou o bilhete e saiu apressadamente.
Scully chegou em casa pesarosa. Não gostava de discutir com ele, sobretudo ter que admitir que ele tinha razão mas não queria pensar nisso. Tomou um banho e dirigiu-se à casa da mãe em busca de distração.
APARTAMENTO DE MULDER
Ele olhou-se demoradamente no espelho. Não estava certo se deveria fazer isso mas a curiosidade, aliada à solidão e ressentimento com a parceira, fizeram com que ele não pensasse muito. Gostaria que fosse Scully a escrever-lhe convites assim, mas sabia que ela jamais o faria.
Chegou ao restaurante e gostou do ambiente : era aconchegante e tranqüilo. Havia poucas pessoas e ele se sentou no bar para aguardar sua anfitriã. Vários minutos se passaram. Ele estava triste e já havia bebido alguns copos de tequila enquanto aguardava a moça, arrependido por ter ido até lá. Distraía-se com a música quando uma atraente mulher se aproximou : tinha os cabelos curtos, cacheados e louros ; os olhos, pequenos ,claros e profundos. Era familiar ,mas ele não conseguia identificar de onde a conhecia, talvez alguma funcionária do Bureau que ele cumprimentasse diariamente, mas não podia se lembrar .
_ Olá !_ ela falou mansamente_ Posso me sentar ?_ continuou sorrindo
_ Aviso que já bebi demais hoje _ ele respondeu, imaginando uma forma de se livrar da intrusa.
_ Posso arriscar. Está esperando alguém ?
_ Na verdade acho que não. Pelo menos ninguém que eu quisesse ver.
_ Poderíamos conversar um pouco. O que acha ? Meu acompanhante também não apareceu.
_ Talvez ainda venha...
_ Não, acho que não virá. Agora também não gostaria mais que viesse.
Ele sorriu
_ Desculpe, eu a conheço de algum lugar ?_ perguntou fitando-a nos olhos.
_ Acho que não _ ela disse ligeiramente embaraçada, o que não passou despercebido para ele.
_ Era você quem queria me ver, não é ?_ a pergunta era quase uma conclusão.
_ Poderíamos sair daqui ? _ ela pediu com voz meiga.
_ E para onde iríamos, Sra. Estranha ?_ os sentidos dele não estavam mais tão alerta. Ele se divertia com aquele encontro às escuras e se sentia bem por haver alguém tão interessado em obter sua atenção e conhecer sua intimidade. Tanto tempo longe de encontros e situações românticas, faziam-no sentir-se como um jovem novamente. Seu trabalho consumia tanto de seu tempo e energia que raras vezes podia se dar ao luxo de marcar encontros e conhecer novas mulheres.
Fitou-a a espera de uma resposta, mas já imaginava o que ela queria dele.
_ Poderíamos ir a um lugar mais reservado _ A proposta era ousada, mas ele pôde perceber que ela se recolhia timidamente, evitando encará-lo de frente.
Mulder pensou por alguns minutos, o álcool atordoando seus sentidos : o que poderia haver de errado? Era um homem solteiro, mais ainda era um homem solitário que vivia às voltas com um trabalho estressante e absorvente e várias revistas e filmes pornográficos. Talvez fosse o momento de dar uma terceira dimensão àquelas fotografias gastas e colocar um pouco de calor humano naquelas fitas.
Antes que pudesse refletir direito, levantou-se e deixou alguns dólares sobre o balcão acompanhando a mulher esguia que se dirigia para a porta num vestido preto tão justo que marcava todos os contornos do corpo que, afinal, ele pensou, não tinha nada de espetacular.
Ainda baseava-se em sua teoria de que devia ser alguma secretária do Bureau que o avistava diariamente.
Entraram no carro dele que saiu rapidamente. Sem fixar muito a mulher ao seu lado, Mulder começou a sentir-se incomodado por tê-la ali, onde sempre havia sido o lugar de Scully. Começava a se arrepender do que fazia. Não estava interessado nela, mas, uma voz, que ele não sabia de onde vinha, dizia-lhe sorrateiramente ao ouvido :
"Que diabos, Mulder ! É uma mulher bonita, interessada em você, não pede nenhum vínculo. Apenas quer um pouco de atenção e conforto. Isso não vai fazê-lo vulgar aos olhos de sua parceira, não mais do que as fitas e revistas que ela sabe que você tem. Que mal há em um pouco de sexo e diversão para um homem sem compromissos , sedento de emoção e carinho ? "
Mulder estacionou em frente ao prédio onde morava e subiram pelo elevador, enquanto ele tentava se soltar e ser agradável.
_ Seu rosto me é familiar. Tem certeza de que não nos conhecemos? Talvez do Bureau ?
Eles já estavam na porta do apartamento e ele abriu hesitante, um estranho sentimento de apreensão surgindo.
_ Conhece tantas mulheres que não consegue distinguí-las, Agente Mulder ?_ a mulher perguntou, entrando e esperando que ele fechasse a porta atrás de si_ Não me reconhece ? Pensei tê-lo ouvido dizer que era um homem sozinho .
Mulder fixou os olhos na fisionomia daquela mulher, buscando na memória embotada levemente pelo álcool algum registro dela e quando se lembrou, ficou instantaneamente sóbrio. Os sentidos alertas e cautelosos; um suor frio começando a percorrer a espinha.
_ Helen Adderly ?
_ Sabia que se lembraria de mim, Agente Mulder . Percebi que havia algo especial entre nós, quando me falava sobre estar gostando daquela vidinha e...
Os olhos dela estavam estranhamente parados enquanto torcia as mãos nervosamente, numa clara atitude de desordem psíquica e emocional.
_ Helen _ ele começou cuidadoso_ Não sabia que já havia saído do hospital. Como está se sentindo ? ..E o seu marido, Phil ?
_ Phil não merece meu amor, Sr. Mulder. Eu fiz tudo por ele: dei-lhe uma filha que ele agora esconde de mim. Mas eu não quero pensar nisso. Ele jamais me fará sofrer novamente. Sabe, alguns homens não sabem dar valor ao que têm. Ele me deixou naquele hospital horrível para que pudesse sair com suas amantes, mas .. agora não importa, quero mudar minha vida.
Mulder a ouvia apreensivo e ela se tornava cada vez mais ansiosa, suas feições lentamente se modificando. Pensou em sair , mas ela percebeu sua atitude e se colocou em frente à porta.
_ Posso fazê-lo feliz, Agente Mulder. Qual seu primeiro nome ? Me dei conta que não sei _ ela sorriu nervosamente._ Você sabe apreciar uma vida confortável, sabe tratar uma mulher com delicadeza. É até estranho que não tenha ninguém, afinal é um homem bonito, inteligente. Ah ! Lembrei ! Disse que havia alguém que cuidava de você, mas não no sentido exato do termo. Quem é ? Uma amiga ? Uma irmã ? Bom... não tem importância. Posso fazer isso agora. Vou cuidar de tudo. Talvez devêssemos mudar para uma casa maior. O que acha ? Talvez, um dia, queira ter filhos...
Mulder estava atônito. Aproximou-se dela e segurou-a pelos ombros cuidadosamente.
_ Helen, sei que você seria uma esposa maravilhosa. Apreciei muito sua gentileza e me sinto lisonjeado, mas...
_ Ah . Já sei _ ela cortou _ Não precisa se preocupar com o Phil. Nós não estamos mais juntos. Ele foi assassinado. Foi horrível : o mesmo monstro que atacou aquelas mulheres. Mas eu vou me recuperar, acho que só preciso de um pouco de sossego, carinho; tenho certeza que iremos superar isso.
_ Você precisa de ajuda, Helen _ ele continuou cauteloso _ Olha ! Vou ligar para uma amiga. Ela poderá te ajudar. Você precisa descansar_ Ele falava devagar, rezando para que ela entendesse o sentido do que ele falava com calma, mas não foi o que aconteceu.
Helen pareceu ficar cada vez mais nervosa e, quando o viu dirigindo-se para o telefone, suas faces se transformaram e a mulher frágil deu lugar a uma entidade de força monstruosa que o arremessou contra a parede, fazendo com que perdesse os sentidos.
_ Obrigada !_ ela dizia sombriamente_ Sabia que poderia contar com você _ continuou falando sozinha, mas em sua mente doente ,conversava agora com o lado obscuro e violento de sua personalidade; o monstro que ela criara para protegê-la e defendê-la contra os ataques da realidade de uma família infeliz_ Ele não compreende, mas nós vamos nos entender. Ele só precisa de um lar seguro, apenas ainda não percebeu. Sei que posso fazê-lo feliz.
Ela o sustentou nos ombros, amparada pela insanidade que a tornava forte e segura e encobria a mulher doente e tímida que ela sabia ser.
LOCAL DESCONHECIDO
"Meus pensamentos perdem-se num mar de incertezas , apreensão e solidão. Apenas sua face povoa minha mente. Todos os medos, alegrias, todo o meu trabalho, minhas teorias, minha vida nos últimos sete anos tem sua marca, seu toque, a presença de sua personalidade fiel e amiga e tudo o que eu busco agora, tudo o que eu desejo é poder voltar a vê-la, dizer dos meus sentimentos; das vezes sem conta em que estivemos juntos, quando eu estive sozinho, perdido, alegre ou triste você foi o meu apoio e eu só gostaria de poder lhe dizer isso agora.
Quanto tempo perdido em uma corrida louca por uma verdade que só agora eu vejo quanto foi inútil ! Não existe verdade além das que criamos para nós mesmos. E eu criei uma verdade, uma realidade obstinada de reclusão para mim na qual envolvi você, a única que conseguiu romper essa barreira.
Mas que importa isso agora ? Você não está aqui e é irônico pensar que minha caminhada termine por algo do qual eu sempre me escondi ; que nunca teve importância para mim porque estava determinado a encontrar respostas para o meu passado, algo pelo qual eu nunca procurei ou incentivei, algo que para mim hoje é sagrado porque coloquei em suas mãos : sentimentos...
Eu sei que deve estar à minha procura. Eu preciso acreditar nisso. Me arrisco a imaginar que você também pensa como eu, que sente o mesmo que eu. Mas talvez isso seja apenas um delírio conseqüente do meu atual estado, preso num lugar minúsculo que mal comporta meu corpo em pé. Um sorriso vem aos meus lábios : você ficaria confortável aqui, é tão pequena ! Mas não...de modo algum...você jamais deveria estar aqui, não você.
Meu único alento é saber que você está segura, que está bem e não corre mais risco algum. Se eu sumir, seus problemas também irão desaparecer. Vai poder seguir sua vida, uma vida normal.
Por que sempre tenho que fazer as coisas sem pensar ? Agir por puro instinto ? Há tantos anos ao seu lado, eu deveria ter aprendido isso com você. Mas nunca me ocupei em desenvolver esse lado porque você sempre estava comigo para me trazer à realidade, pra colocar meus pés no chão. Você é meu lado racional. Mas não dessa vez.
Scully, sei que não pode me ouvir: sei que talvez nunca me encontre ; que talvez esses sejam meus últimos pensamentos mas, de alguma forma, acredite, confie, saiba que eles foram para você ; que durante esses anos todos os meus sentimentos se entregaram somente a você."
APARTAMENTO DE SCULLY
Scully quase pulou da cama. O sonho parecia tão real que ela não pôde furtar-se a procurar por Mulder com os olhos. Uma grande apreensão apoderou-se dela e, apesar de o relógio marcar três horas da manhã,ela automaticamente levou a mão ao telefone e discou o número dele. Após o quinto toque, ela desistiu, tentando deixar de lado o estranho pressentimento que tivera, mas não conseguiu mais dormir, contando os minutos para voltar ao trabalho.
Não falara com Mulder desde a discussão que tiveram. Ainda se sentia magoada com ele, mas sua racionalidade pedia que esquecesse para continuar compartilhando o trabalho que tinham juntos , do qual ela não queria afastar-se.
Sabia intimamente que ele precisava dela ao seu lado; que seu senso prático era essencial nas investigações e tentava se convencer que apenas sua lealdade e profissionalismo eram os motivos pelos quais seguia com ele, abafando a voz de seus sentimentos que dizia haver uma outra razão, nada racional, para enfrentar qualquer situação, expor-se a qualquer perigo para vê-lo seguro e protegido.
Chegou ao escritório antes do horário e passou a reler o relatório que ele havia deixado sobre a mesa. Um sorriso irônico acentuou-se em seus lábios. Afinal, ela tinha razão : apesar de haver um cúmplice, não havia nada sobrenatural ou extraterrestre naquele caso. Em sua sede de buscar a verdade, Mulder era facilmente manipulado, freqüentemente iludido.
Já passava das dez horas e Mulder ainda não havia chegado. Ela voltou a ligar e ninguém atendia, mesmo no celular que ele raramente deixava desligado. Começou a pensar que poderia haver algo errado e instintivamente pegou o casaco e saiu apressadamente, mas, ao chegar ao estacionamento, seu celular tocou e ela atendeu esperando ouvir a voz do parceiro.
_Agente Scully, onde está ?
A voz de Skinner deixou-a desolada e ela limitou-se a responder sem convicção.
_ Estou no estacionamento, senhor. Preciso sair, o Agente Mulder....
_ Esqueça o Agente Mulder ! Suba até aqui, preciso lhe passar alguns dados para uma investigação.
Ela não teve outra alternativa a não ser voltar sobre os próprios passos.
Estavam no meio da reunião quando a secretária de Skinner entrou na sala perguntando se Scully sabia onde estava o Agente Mulder.
_ Há um delegado de Vermont na linha e disse que precisa falar com ele urgente.
_ Onde diabos se meteu o Agente Mulder ? _ Skinner perguntou fixando Scully.
_ Era o que eu ia verificar quando me chamou, senhor. Não nos falamos durante o final de semana e ele não atende ao telefone _ ela respondeu tentando ligar novamente.
_ Transfira a ligação, Kimberly _ Skinner pediu.
O delegado de Vermont queria falar com Mulder sobre o assassinato do delegado. Queria algumas informações sobre Helen Adderly, porque acreditava que a esposa havia sido responsável pela morte dele.
_ Agente Scully, tente localizar o agente Mulder e siga para Vermont. Vou passar essa investigação para outros agentes.
Scully checou o apartamento dele : não havia ninguém e ela não se preocupou em fazer um exame mais detalhado da casa. A contragosto, seguiu sozinha para Vermont, deixando vários recados e alertando os pistoleiros para que a ajudassem a localizá-lo, uma certa angústia nascendo em seu coração quando se lembrou do sonho que tivera com ele.
LOCAL DESCONHECIDO
Mulder acordou sobressaltado, uma dor muito grande na cabeça . Havia um curativo em sua testa e ele percebeu que estava preso. Olhou ao redor, tentando identificar o lugar e torcendo para estivesse num local conhecido , mas não reconheceu nada. Estava com frio, seu corpo estava dolorido e ele presumiu que estivera bastante tempo desacordado. Apurou os ouvidos para ver se escutava algum movimento noutros lugares da casa mas tudo estava envolvido no mais absoluto silêncio.
Era uma cabana de caça, provavelmente no alto das montanhas porque ele podia ver os cumes brancos ao redor. Sentiu um frio subir pela espinha. Não sabia onde estava, ninguém sabia o que ele havia feito, estava à mercê de uma mulher desequilibrada e violenta e ele iria precisar de toda calma possível para conseguir sair daquela situação."Se ao menos o celular estivesse por ali", ele pensou. Mas Helen havia sido cuidadosa. Ele estava preso a uma cadeira, algemado com os braços para trás. Seus movimentos eram infinitamente limitados, não havendo outra alternativa senão esperar pela mulher e tentar convencê-la a libertá-lo.
Ouviu um barulho na porta e ficou imediatamente em alerta. Helen entrou sorridente, com os braços carregados de embrulhos e fitou-o com olhar meigo.
_ Que bom que acordou, querido ! Acho que já descansou demais, não é ? Fui até a cidade, comprei várias coisas para o nosso exílio, nossa lua de mel será fantástica, você verá. Precisávamos mesmo de um tempo sozinhos. Não sei como conseguiu machucar-se desse jeito. De qualquer forma, temos tudo o que for preciso aqui. Cuidarei de você, prometo.
Ela falava apressadamente, não deixando que ele a interrompesse e ele começava a ficar realmente assustado porque sabia que se a irritasse ou magoasse ela se transformaria e as conseqüências poderiam ser bastante funestas para ele. Decidiu entrar no jogo.
_ Helen, estou preso aqui_ disse mostrando os braços_ Preciso de um banho, meu corpo está gelado. Apreciaria muito se você me soltasse para que eu pudesse fazer isso.
Ela o olhou insegura e hesitante. Seu lado bom pedia que o soltasse mas em sua loucura não imaginava o que faria se ele tentasse escapar.
_ Foi preciso amarrar você. Estava violento. Só quero o melhor pra você. Vou preparar seu banho e depois conversaremos.
Ele aguardou ansioso que ela voltasse. Precisava desesperadamente pensar em algo. Helen voltou e sorriu para ele.
_ Pronto _ disse_ agora vou soltá-lo, mas tem que me prometer ficar calmo.
Ele assentiu e aguardou enquanto ela soltava as algemas. Levantou-se esfregando os punhos feridos e analisou brevemente a situação : não poderia simplesmente sair correndo. Não chegaria até a porta. Era preciso ganhar a confiança dela. Talvez enquanto tomasse banho, surgisse a oportunidade de fuga.
Mas ela não permitiu que ele entrasse sozinho no banheiro.. Começou a despir-se fitando-o tímida.
_ Poderíamos fazer isso juntos, não acha ? Meu corpo também está congelado e...
Ela aproximou-se oferecendo os lábios e ele retribuiu o beijo sem nenhum entusiasmo. Impassível ao ser ajudado a se despir, mergulharam na banheira e somente a água quente dava-lhe algum conforto e descanso para o corpo. Vendo que ela não estava disposta a terminar ali aquela situação, afastou-a delicadamente, quando ela se aproximou para acariciá-lo e falou tentando ser o mais gentil possível.
_ Meu corpo está dolorido, Helen, desculpe! Acho que preciso de repouso. Adoraria ficar com você, mas não posso continuar isso agora_ falou devagar_ Há quanto tempo estamos aqui ?
Ela pareceu compreender ; retirou-se da banheira e se enrolou na toalha.
_Não se preocupe, vou preparar algo para você comer. Desde ontem que não se alimenta. Aviso assim que estiver pronto.
Ele se deixou ficar na banheira, os pensamentos tumultuados. Não sabia como agir, apenas a lembrança da parceira lhe vinha a mente e ele se condenou por ter se deixado levar pelas emoções. Ela não tinha a menor idéia de onde ele pudesse estar, não havia deixado nenhum recado para ela. Talvez só viesse a procurá-lo na segunda feira quando ele não chegasse ao escritório. Helen havia dito que ele estava desde o dia anterior com ela e agora era final de tarde. Estavam no final do sábado. Talvez ninguém sentisse falta dele. Somente Scully poderia fazê-lo mas eles haviam discutido e...
Seus pensamentos foram interrompidos pelo toque na porta. Ela sabia como fazer para prendê-lo: levara as roupas e a janela do banheiro era pequena demais para que ele pudesse passar. Levantou-se e cobriu-se com o roupão que ela havia deixado, saindo para encontrar um ambiente iluminado apenas por velas sobre a mesa. Havia roupas para ele sobre a cama, dispostas de forma organizada e caprichosa. A casa estava aquecida pela lareira dando um toque bastante acolhedor. Mulder trocou o roupão por uma calça e camiseta e sentou-se à mesa pra jantar com ela.
_ Não sabia exatamente do que gostava então... _ falou apontando para a mesa bem posta com vários tipos de pratos_ Sei que não gosta de alcaparras_ sorriu.
_ Está ótimo, obrigado !
Ele fez o possível para comer, precisava recuperar as energias perdidas para pensar melhor. Quando terminaram, envolvidos em um silêncio constrangedor, interrompido ocasionalmente por perguntas que eram respondidas por monossílabos distantes, ela levantou-se para tirar a mesa e ele ajudou-a a levar tudo até a pia.
_ Oh! É muito gentil, não precisa se incomodar. Sei que está cansado. Pode deixar que eu termino.
Ele dirigiu-se ao sofá, cobrindo-se com uma manta e fechou os olhos, pensando que o melhor era tentar dormir e esperar que ela adormecesse para tentar uma fuga.
Helen ainda demorou e fitou-o com amor enquanto ele se encolhia no sofá, cochilando tranqüilo. Trocou de roupa e colocou uma camisola rendada, aproximando-se sedutoramente para convidá-lo à cama. Mulder fingiu continuar dormindo, apesar do chamado carinhoso e insistente dela. Após algum tempo, ela desistiu`. Ajeitando as cobertas sobre ele, apagou as luzes e deitou-se.
Mulder esperou vários minutos antes de se mexer. Olhou ao redor, acostumando-se a penumbra que invadia toda a cabana. Ficou atento esperando ouvir algum ruído, mas os únicos sons que escutou foi o do vento zunindo do lado de fora e da respiração tranqüila dela enquanto dormia. Levantou-se lentamente, apanhou um agasalho aos pés da cama e caminhou na escuridão, tentando alcançar as chaves do carro, colocadas por ela na cabeceira da cama. Lentamente se aproximou, pegou as chaves tentando ocultar os ruídos e saiu devagar até a porta.
Porém, antes que pudesse abrí-la, sentiu uma dor intensa no ombro e virou-se para ver o que estava acontecendo : Helen, completamente transtornada, as feições transfiguradas naquela estranha e violenta criatura jogou-o para trás, prendendo-lhe as mãos com as algemas, numa demonstração de força tão poderosa que ele não teve tempo de reagir, principalmente porque seu ombro sangrava muito. Viu-se de súbito trancado em um armário sob a escada que levava ao sótão, um cubículo que mal acomodava seu corpo machucado. Havia hematomas em seu rosto: seu ombro estava ferido e doendo violentamente. Lágrimas de impotência afloravam teimosamente em seus olhos e não houve nenhum argumento que pudesse usar para convencê-la a tirá-lo dali. Helen travou a porta com uma vassoura mas isso era absolutamente desnecessário uma vez que, ele estava algemado e machucado, dificilmente seria capaz de esboçar qualquer reação.
VERMONT
Scully chegou a Vermont sem saber exatamente o que procurar. Encontrou o delegado que a levou para ver o corpo do homem mas não havia nada para ser feito. Com certeza, ele havia sido atacado da mesma forma que as amantes. A filha do casal estava com os avós e ela seguiu para o sanatório de onde Helen havia fugido.
A psiquiatra, Dra. Barcley, atendeu-a atenciosa e justificou a fuga de Helen com o relaxamento da segurança, uma vez que, nos últimos três meses ela se mostrara dócil e equilibrada; falava da filha com carinho e dizia que queria recomeçar a vida.
_ Era uma mulher triste, Agente Scully, mas não parecia violenta. Durante esses três meses ela não teve nenhum ataque como foi descrito quando ela veio para cá. Estava perturbada mas nunca agrediu ninguém, ao contrário, mostrava-se gentil com todos. Fez muitas amizades aqui dentro.
_ Gentil ou não ,ela fugiu e a primeira coisa que fez foi matar o marido. Faz algum sentido ela agir assim se queria recomeçar a vida ?
_ Ah não ! Ela nunca pensou em viver com o marido novamente. Ele tentou vê-la diversas vezes e esses eram os únicos momentos em que ela parecia perturbada. Não se encontrou mais com ele. Dizia que queria esquecer...
O celular de Scully tocou e ela pediu licença para atender, afastando-se da mulher.
_ Scully !
_ Agente Scully, é o Frohike. Não conseguimos encontrá-lo. Ele sumiu , mas há algo estranho : estamos no apartamento dele e.._ ele hesitou _ há sangue no tapete..
_ Vou voltar imediatamente, Frohike !
Scully agora só queria voltar e encontrar Mulder. Sentia-se angustiada por não ter nenhuma idéia de onde ele poderia estar. Voltou-se para a médica que notara sua perturbação.
_ Algum problema, agente ?
_ Não... quer dizer, meu parceiro desapareceu e...
_ Isso me faz lembrar de algo: Helen falava sempre de um agente do FBI que a havia tratado com muito carinho, que acreditava nela. Disse que ele a havia cortejado e estaria esperando por ela quando saísse.
Um grande mal estar tomou conta de Scully. Ligou para Skinner e pediu que ele rastreasse tudo o que pudesse sobre Mulder; que fosse até o apartamento dele e interrogasse os vizinhos. Explicou rapidamente o caso para ele que não estava muito convicto das conclusões que ela estava tirando.
_ Agente Scully, isso não parece muito verossímil. O Agente Mulder é um homem forte. Uma mulher comum não conseguiria retê-lo e...
_ Ela não é uma mulher simples, senhor. O corpo do marido dela está completamente mutilado. Por favor, por mim, vá até lá.
Sem saber direito por onde começar, ela foi até a residência dos Adderly. Sabia que o marido havia sido morto enquanto fazia uma ronda, mas talvez alguma coisa na casa denunciasse ou desse alguma pista da mulher.
_ Não há nada na casa, Agente Scully. Não sei o que imagina encontrar_ dizia o delegado.
_ A mulher dele fugiu do hospital. Precisa conseguir segurança para a filha dela e os avós. Ela é perigosa e pode ter seqüestrado um agente do FBI, preciso de mais informações sobre ela _ Scully falava enquanto se dirigia para o quarto do casal.
Lá encontrou pedaços de cabelo sobre a pia e tintura. Havia indícios de que ela levara algumas roupas. Não era mais uma mulher amedrontada e insegura. Ela estava se tornando ousada, segura de suas atitudes, sabia o que queria fazer. Scully tirou uma foto dela sobre a cabeceira da cama com uma dedicatória para o marido.
_ Mantenha a vigilância, aqui e na casa dos avós. Qualquer informação, por mais insignificante, me avise imediatamente _ ela falou entrando no carro e arrancando rapidamente.
No apartamento de Mulder, encontrou Skinner e os pistoleiros revirando tudo. O sangue era mesmo de Mulder. Os vizinhos não haviam notado nada de estranho. Ele não fizera nenhum barulho.
_ Talvez ele tenha apenas se cortado com algo, Agente Scully, e..._ Skinner não conseguia ver ligação entre os casos.
_ Ele foi levado, senhor, tenho certeza _ ela disse com convicção.
_ Como pode afirmar, Scully ?
_ Eu sinto _ ela completou como se aquilo resumisse qualquer declaração.
Ela voltou ao escritório, procurando por alguma pista do paradeiro dele. Ligou para Maryland.Talvez Mulder não quisesse acreditar no que escrevera no relatório. Em seu desespero, ela queria acreditar em qualquer coisa. Mas ele não havia chegado lá. Um agente afirmou que havia falado com ele na sexta feira quando ele estava de saída e viu quando ele voltou para o escritório para fazer o relatório.
Scully revirou as gavetas e encontrou, no fundo de uma delas, dois bilhetes cuidadosamente dobrados, um convite para jantar. Ela finalmente voltou a sentar-se. Talvez Skinner estivesse certo: talvez ele quisesse descansar; estava magoado com ela. Poderia ter saído com a mulher do bilhete e decidido prolongar o final de semana. Há alguns dias ele vinha reclamando que precisava de uma folga.
Ela fitou demoradamente os bilhetes. Se ele havia recebido o segundo, era porque não havia atendido o primeiro chamado e ela tentava se convencer de que, talvez, aqueles fossem os únicos e ele não havia aceitado o convite. Colocou a pasta de Helen sobre a mesa, sentou-se e passou demoradamente as mãos pelos cabelos. Estava cansada. A sensação de angústia não a abandonava. Ela se permitiu ficar ali, os pensamentos distantes, tentando dar alguma ordem aos seus sentimentos. Abriu a pasta e viu a foto de Helen. Talvez devesse mandar para o laboratório para que fizessem as alterações no cabelo e distribuíssem as fotos nas delegacias da região.
Mas então seus olhos foram atraídos para a dedicatória sobre o papel, escrita em letra redonda, meio infantil, numa caligrafia caprichada e ela imediatamente associou com o bilhete de Mulder: era a mesma pessoa e ela saiu quase correndo do escritório, levando as provas que conseguira reunir.
_ O senhor viu este homem em seu restaurante ? _ Scully perguntou, dirigindo-se ao barman que limpava algumas garrafas.
Ele fitou sem muito interesse a foto de Mulder e balançou a cabeça negando.
_ Escute, senhor_ ela insistiu retirando a insígnia e mostrando a ele _ É muito importante. Tem certeza que não o viu ?
Ele agora parecia mais disposto a cooperar mas realmente não se lembrava de tê-lo visto. Scully pegou a foto de Helen e tentou novamente. O homem pareceu recordar-se da fisionomia da mulher.
_ Esteve aqui na quarta feira uma mulher parecida com essa, só que tinha os cabelos claros e curtos. Eu reparei porque ela ficou um tempão aqui sozinha. Acho que esperava alguém e depois foi embora um pouco triste. Mas eu não trabalho à noite aqui. O Bill pode ter visto alguma coisa. Na quarta eu cobri a folga dele.
_ E onde eu posso encontrá-lo ? _ ela perguntou ansiosa.
_Ele deve chegar em umas duas horas.
_ Diga para ele não sair daqui. Volto logo.
Scully foi até em casa, trocou de roupa e colocou algumas peças numa valise. Ligou para Skinner e avisou que estaria voltando para Vermont, em busca de pistas e recusou a oferta dele em acompanhá-la: não queria esperar. Voltou ao restaurante e o barman confirmou ter visto Mulder com a mulher, dizendo que ele havia tomado alguns copos a mais e que a mulher saíra com ele.
Nesta hora ela sentiu raiva dele. Como podia ser tão esperto para algumas coisas e tão estúpido para outras ?
Em Vermont ,ninguém sabia que Helen havia voltado. Vasculhando a casa, Scully também não foi capaz de encontrar nenhuma pista dela. Sabia que havia pego roupas suficientes para ficar um longo período fora, assim como cobertores e alimentos. Remexeu em alguns álbuns de fotos e sua atenção foi desviada para a família dela, provavelmente os pais, com ela em frente a uma cabana no alto das montanhas.
_ Delegado_ ela chamou _ O senhor conheceu Helen e o marido, não é ?
_ Sim_ ele disse penalizado_ Sempre foram nossos amigos. Ainda estamos chocados com esses acontecimentos.
_ Sabe onde fica esse lugar ? _ perguntou estendendo a foto.
_ É a cabana de caça dos pais de Helen. Eles costumavam ir caçar antes da filha nascer. Helen adorava aquele lugar, uma das poucas coisas que o pai deixou pra ela.
_ E onde fica ? _Scully perguntou ansiosa.
_ Fica no Município vizinho, a uns cem quilômetros daqui, mas nessa época do ano ninguém costuma ir pra lá. A neve cobre tudo e os animais se escondem.
_ Tem telefone ? Poderia tentar falar com alguém lá ?
O delegado ligou para o posto de polícia de lá e aparentemente poucos carros haviam passado por ali. Não tinham visto Helen, mas dois casais haviam subido as montanhas e eles não tiveram notícias deles. O tempo estava ruim por lá mas ninguém havia pedido ajuda. Na casa ninguém atendia ,mas subitamente a linha emudeceu .
Mulder ouvira o telefone tocar. Seu estado não era nada confortável : seu ombro doía intensamente ; o corte era profundo e já mostrava sinais claros de infecção devido à falta de cuidados, sentia câimbras por todo o corpo e seus pulsos estavam bastante feridos devido ao esforço que ele fazia para tentar soltar as algemas. Estava faminto, sujo, cansado e principalmente angustiado por ele, por Helen e sobretudo por Scully que ele começava a pensar que não mais veria.
Ouviu os passos da mulher que se aproximava e arrancava o fio da tomada enquanto murmurava pra si mesma.
_Acho que ele já aprendeu _ dizia aflita _ Não quero que ele morra .
Ela caminhava pela casa como se houvesse mais alguém conversando com ela e respondia suas próprias divagações.
_ Sim, eu sei, mas ele já está ali há quase dois dias. Precisa se alimentar, eu....
_ Está bem, está bem, mas amanhã deixaremos ele sair no jantar.... não... mais tempo não...
Mulder ouvia desolado o monólogo dela e bateu na porta para chamar a atenção . Helen ajoelhou-se e começou a falar tímida e carinhosamente :
_ Não se preocupe ! Sabe ? Isso é para o seu bem. Você está perturbado: não reconhece mais sua família. Eu não queria fazer isso mas ela achou melhor. Você precisa se acalmar, me entende ?
Ela falava como se Mulder fosse o desequilibrado e tudo o que ela fazia era pensando em seu bem estar, em não deixá-lo perder o que eles tinham construído Sua mente estava em tal desordem que já havia criado um passado e uma vida para eles juntos e que Mulder não conseguia entender ou lembrar porque estava sofrendo de algum distúrbio mental.
_ Helen, por favor, meu ombro está machucado. Precisa me tirar daqui. Ela quer que eu morra _Ele começou tentando usar o jogo dela para tentar se livrar _ Ela quer me afastar de você, não percebe ?
Ela ficou em silêncio. Parecia pensar no que ele dizia mas subitamente se afastou e começou a caminhar pela casa como uma fera enjaulada. Mulder podia ouvir o barulho de móveis e objetos sendo arremessados nas paredes. Depois tudo foi envolvido em silêncio e ele esperou apreensivo pela resposta dela, rezando para que a Helen dócil e meiga tivesse vencido a luta. Já começava a sentir calafrios pelo corpo que prenunciavam a febre causada pela infecção.
_ Querido, tenha calma. Ela ficou furiosa com o que você disse_ Helen falou aproximando-se novamente _ Ela apenas quer nos proteger. Há pessoas más tentando acabar com nosso relacionamento. Mas consegui que ela deixasse você sair amanhã. Precisa prometer que vai se acalmar. Vou preparar um jantar esplêndido para nós.
Scully acabara de chegar à cidade montanhosa próxima a Vermont. O xerife a recebeu e ela não quis aguardar para ir até o posto de guarda florestal que controlava a entrada nas montanhas naquela época fria do ano onde muitos acidentes costumavam acontecer.
O policial pareceu reconhecer a mulher da foto mas não tinha certeza pois estava escuro e ela tinha os cabelos louros. Para Scully era óbvio que se tratava de Helen e mal conseguia disfarçar a ansiedade de encontrar Mulder.
Enquanto conversavam, com Scully tentando convencê-los a deixá-la seguir viagem até a cabana de caça, ouviram alguém avisar pelo rádio, que um casal havia se acidentado, próximo à vila onde ficava a casa de Helen, pedia socorro, pois a mulher havia quebrado a perna e o homem parecia muito mal.
Scully não esperou por autorização: informou sua condição de médica e esperou angustiada que eles colocassem os equipamentos necessários no helicóptero e saíssem rapidamente.
O alívio de Scully ao constatar que não era Mulder não foi muito grande porque sabia que, então , ele permanecia desaparecido. O carro em que o casal viajava saíra da estrada quando tentavam retornar à cidade, batendo violentamente sobre a grade de proteção da pista. Ela prestou os primeiros socorros à mulher, colocando uma tala na perna, mas o homem não poderia aguardar. Precisava ser hospitalizado com urgência e o clima frio do local não estava ajudando.
Acomodaram o casal no helicóptero, mas Scully não quis voltar. Depois de muita insistência e discussão, conseguiu que o policial que avisara sobre o acidente deixasse o carro com ela. Assumindo todos os riscos e responsabilidades de continuar a viagem naquela pista escorregadia e perigosa, ela pegou as coordenadas da cabana de Helen e seguiu viagem sozinha.
Enquanto dirigia muito lentamente, pensava em Mulder e não conseguia reprimir a preocupação sob a raiva.
_ Mulder, seu estúpido ! _ dizia para si mesmo_ Quando encontrá-lo vou matá-lo !_ e logo em seguida completou _ Ah Deus ! Não permita que ele esteja morto !
A porta abriu-se lentamente, mas Mulder não se achava mais em condições de sair dali sozinho. Seu estado era desesperador : seus membros dormentes não obedeciam ao comando do seu cérebro esgotado pelo cansaço. Helen ajudou-o a colocar-se de pé, levemente alarmada pelo aspecto do agente. Encaminhou-o ao banheiro e ajudou-o a se deitar para tomar um banho enquanto ele gemia pela dor que sentia no ombro, agora completamente inflamado.
Ela improvisou um curativo mas em sua cegueira e insanidade, não percebeu o rubor e calor do corpo dele que denunciavam a febre alta. Mulder estava extremamente cansado para reagir ou concatenar as idéias e deixou-se conduzir, sentindo um certo conforto pelo banho e cuidado sobre a ferida , além de não conseguir caminhar direito devido ao entorpecimento de seus membros expostos a um período tão grande de inatividade.
A noite caía quando ele se sentou a mesa junto a ela que havia se arrumado com esmero para o jantar que lhe oferecia. Seus olhos brilhavam intensamente, mas denunciavam, pelo modo como o olhavam, todo o desequilíbrio daquela mente. Não sentia fome, tudo o que desejava era mergulhar na cama e dormir por um longo período, queria sair dali, esquecer aqueles dias, voltar pra casa, nunca sentira tanta falta de lá; rever Scully... Ao lembrar-se dela, conseguiu recuperar um pouco da energia. Sentia o corpo queimando, a pele seca. Precisava reagir e ele lentamente levou a colher até a boca, deixando que o alimento quente descesse pela garganta.
Helen falava apressadamente sobre a alegria que estava sentindo por estarem novamente juntos. Fazia planos para o futuro, tão absorta na construção de seus castelos que não percebeu a aproximação do carro que estacionava em frente à cabana, tendo os ruídos abafados pelo vento cortante que zunia do lado de fora.
O sol já punha termo a mais um dia enquanto mergulhava seus raios dourados sobre a estrada quando Scully finalmente chegou até a cabana. Seu corpo estava congelado. O frio aumentara consideravelmente e ela não se preparara para enfrentar aquela situação. Mesmo assim, desceu lentamente, procurando apurar os ouvidos para saber o que se passava dentro da casa iluminada por velas. Bateu levemente antes de colocar a mão sobre a maçaneta.
Mulder percebera a aproximação do carro. Não ouvia a tagarelice de Helen preocupado em achar um meio de fugir dali. Implorava mentalmente para que fosse alguém que pudesse socorrê-lo.
Ao ouvir o toque na porta, Helen ficou imediatamente alarmada e suas feições tornaram-se imediatamente hostis quando Scully chamou, avisando ser do FBI. A mulher pressentiu o perigo e Mulder respirou fundo, aliviado por ouvir a voz da parceira, mas subitamente apreensivo pela alteração que começava a se desenhar nas feições de Helen.
_ Talvez seja apenas alguém pedindo informações_ disse tentando acalmá-la_ Nós podemos continuar nossa noite depois, fique tranqüila_ continuou puxando-a para si e depositando um beijo em seus lábios para distraí-la enquanto sentia o medo dominar sua mente. Helen aceitou a carícia e aprofundou o beijo, mas ao ouvir a voz da pessoa chamar por Mulder junto à porta ,ficou instantaneamente tensa e se afastou dele .
Scully bateu novamente na porta quando não ouviu nenhum ruído e instintivamente chamou pelo parceiro para arrepender-se imediatamente ao olhar pela fresta da cortina e identificá-lo beijando apaixonadamente a mulher. Achou-se extremamente idiota por ter corrido várias cidades à procura dele que apenas queria um recanto tranqüilo para ficar com sua amante. Seus sentidos foram dominados pelo ciúme e vergonha. Não sabia como agir e torcia para que eles não a tivessem ouvido. Em sua mente, imaginava o que o parceiro diria ao vê-la ali, o quanto se divertiria vendo-a como a esposa traída que ia atrás do marido tomar satisfações de seus atos. Seu rosto ruborizou-se de raiva dele e por ela, pela situação a que ela havia se exposto. Girou sobre os calcanhares apressadamente e dirigiu-se para o carro.
Apenas o grito desesperado que ela ouviu foi capaz de fazê-la parar e voltar-se.
_ Scully ! Cuidado !
Não houve muito tempo para fugir : a criatura jogou-se sobre ela que teve tempo apenas o bastante para puxar a arma atrás do casaco, ainda vislumbrando o vulto do parceiro, apoiado ao batente da porta , enquanto a fera caia pesadamente sobre ela.
Mulder não conseguia se mexer. A febre alta , aliada à agonia pela cena que presenciava, turvou seus pensamentos e deixou-se escorregar vagarosamente até pousar sobre o piso gelado.
_ Mulder ? Mulder acorde, vamos me ajude ! _ Scully sussurrava em seu ouvido, os olhos brilhantes e úmidos demonstravam toda a preocupação que estava sentindo por vê-lo semiconsciente, o corpo queimando, diversos hematomas e machucados que ela apenas imaginava.
Ele, muito vagarosamente, recobrou a consciência, mas delirava enquanto tentava se colocar em pé com a ajuda dela, olhando de relance para o corpo frágil de Helen, rodeado por uma mancha vermelha que se espalhava sobre a neve e ia se tornando cada vez mais densa.
Viu-se sendo depositado na cama, sentindo as mãos frias e trêmulas da parceira percorrerem seu rosto e ainda teve forças pra sorrir.
_ Sabia que viria ! _ disse com voz sussurrada.
_ Não fale nada, Mulder ! Apenas feche os olhos. Seu corpo está queimando. Preciso abaixar a febre. Vou colocá-lo na banheira. Meu Deus ! O que foi isso no seu ombro ? _ ela falava tudo de uma vez, atropelando as palavras, olhando estarrecida para a ferida escura e profunda sobre a carne dele.
Levantou-se e pegou todos os cobertores que encontrou no caminho, colocando sobre ele. Dirigiu-se ao banheiro e preparou um banho morno. Vasculhou a casa, em busca de remédios , enquanto a banheira enchia e respirou aliviada quando encontrou praticamente tudo o que precisava para medicar o companheiro.
Com grande dificuldade, conseguiu levá-lo até o banheiro e ajudá-lo a entrar. Lavou cuidadosamente a ferida e molhou levemente o rosto abrasado, enquanto ele se entregava completamente aos cuidados dela.
A casa estava aquecida. Ela não quis agasalhá-lo demais para que a febre não aumentasse e não tinha como ajudá-lo a se vestir. O peso do corpo dele e as condições em que se encontrava faziam-no muito mais pesado do que ela suportaria. Envolveu-o no cobertor, obrigando-o a ingerir os remédios que ela lhe oferecia.
_ Mulder ? Preciso que fique de bruços, está me entendendo ? _ ela falava devagar, com movimentos pequenos e gentis, imaginando a dor que ele deveria estar sentindo naquele ombro dilacerado.
Com cuidado, ele se virou, sem conseguir reprimir os gemidos da dor que sentia, caindo pesadamente sobre os lençóis, enquanto mordia os lábios e fechava os olhos para permitir que ela o tratasse.
Ela aplicou anti-sépticos e higienizou totalmente a ferida, colocando um curativo firme sobre ela, tentando ser o mais cautelosa possível, sobretudo, quando sentia que ele retesava os músculos e agarrava o lençol para não gritar.
Mas todos esses cuidados , para um corpo e mente tão extenuados quanto os dele, ajudaram-no a relaxar e deixou-se vencer pela exaustão. Adormeceu profundamente, para acordar somente em meio à madrugada com o corpo banhado em suor, provavelmente, como efeito dos remédios que ela lhe dera e que tinham afastado a febre.
Scully deixou-o na mesma posição quando o viu adormecido. Encaminhou-se para o banheiro e pôde cuidar de si mesma, fazendo curativos na mão e braços onde a fera a havia atingido de leve.
Foi até a janela e fitou a figura estendida sobre a alvura do piso. Pensou se deveria tirá-la dali, mas achou melhor conservar o calor da casa. Não havia nada que ela pudesse fazer. Religou o telefone e tentou falar com a polícia ,mas não conseguia completar a ligação. Pegou uma taça de vinho sobre a mesa e puxou uma cadeira até a cama, sentando-se para analisar, detidamente, todas as alterações na face pálida e cansada do parceiro.
Era madrugada quando o viu se mexer ligeiramente. Pensou que estivesse acordando, mas percebeu que ele delirava. E, em seu delírio, chamava por ela com insistência e Scully viu os olhos dele ficarem úmidos. Sentou-se ao seu lado, acariciando-lhe o rosto, enquanto ele se virava , parecendo bastante agitado.
_ Mulder, calma, sou eu, Scully, nada mais vai te acontecer. Por favor ! Tente se acalmar, irá machucar-se mais se continuar assim._ ela alisava-lhe os cabelos ,enquanto ele formulava frases desconexas até que, finalmente, voltou a dormir. Seu corpo, após alguns instantes, começou a suar abundantemente, denunciando o fim da crise.
_ Scully ?!_ ele chamou baixinho.
Ela aproximou-se, colocando a mão sobre a testa dele, para constatar que a temperatura baixara consideravelmente.
_ Como está ? _ disse esboçando um sorriso.
_ Moído _ respondeu , tentando sorrir _ E... feliz por te ver de novo_ prosseguiu, fazendo esforço para se levantar, mas uma dor intensa percorreu seu ombro e ele voltou a deitar-se novamente de lado, soltando um grito de dor.
_ Não se mexa, Mulder ! Seu ombro está muito machucado . Mas acho que vai melhorar. Precisa de repouso. Está com fome ?
Ele assentiu com a cabeça, somente agora se lembrando de que há quase três dias não se alimentava. Scully trouxe uma bandeja, com o caldo que Helen preparara, e colocou na mesa de cabeceira.
_ Apoie-se em mim _ disse, envolvendo a cintura dele e sustentando-o para que ele pudesse se sentar, enquanto ele mordia os lábios, para que ela não percebesse o quando estava sendo doloroso aquele movimento.
Ela o ajudou em silêncio, evitando qualquer comentário. Preocupava-se somente em vê-lo restabelecido, esquecendo momentaneamente da cena que vira, da discussão que tiveram. Queria apenas vê-lo bem e ele permanecia em silêncio, apreciando intensamente estar ao lado dela, sentindo sua preocupação, seus cuidados, sua ternura, entregando-se confiante e tranqüilo.
Somente a verdadeira amizade permite que o silêncio possa se estabelecer entre duas pessoas, sem que se torne um peso opressivo, quando as palavras são absolutamente desnecessárias para manter uma conversa por conveniência. O silêncio torna-se um aliado na cumplicidade, porque permite que cada um deixe seu espaço ser invadido por olhares, sorrisos, gestos que significam mais do que qualquer palavra. E o silêncio torna o ambiente acolhedor , cheio de significados , ternura, respeito e segurança ; uma conquista privilegiada daqueles que se conhecem e se entendem mutuamente.
Após comer, Mulder pareceu recuperar um pouco da energia e fitou-a demoradamente, enquanto ela fazia curativos em seus pulsos e testa.
_ Ela também te machucou _ ele começou, apontando para os arranhões no braço dela.
_ Não chegou nem perto do que fez com você ! Como está ?
_ Bem, agora estou bem. Acho que não vou me aproximar de outra mulher tão cedo _ ele continuou, esboçando um sorriso.
_ Quer que eu vá embora ?
_ Por quê ? _ perguntou assustado .
_ Disse que não quer se aproximar de outra mulher tão cedo_ ela respondeu provocando-o , mas no fundo temia a resposta.
Ele sorriu aliviado
_ Você não conta, Scully !
Ela limitou-se a erguer a sobrancelha. Não sabia se ficava com raiva por ele não a considerar como uma mulher ou feliz por ele se sentir seguro com ela.
_ Não conto ?
_ Você não é uma simples mulher, Scully _ ele falou convicto.
_ Ainda não sei o que isso significa exatamente _ ela continuou, fitando-o indagadora.
_ Você é minha amiga _ ele respondeu tímido.
Como explicar a ela como se sentia ao seu lado ? Tinha-a ali, tratando de seus ferimentos. Sabia que ela atravessara cidades em busca dele, mesmo sem que tivesse deixado pistas de onde estava. Que ela estaria sempre por perto, oferecendo carinho e proteção, desvelando-se para vê-lo bem. Como explicar um sentimento tão grande em meia dúzia de palavras que, por mais que tentasse, não conseguiam expressar tudo o que ela significava ?
_ É como estar em casa_ disse baixinho_ E não existe lugar melhor do que o lar_ concluiu, lembrando-se do que ela lhe dissera, uma vez, quando novamente o havia salvado.
_ Quer me contar ? _ Scully perguntou, tentando desviar o assunto.
_ Não sei realmente porque fui até lá. Acho que fiquei curioso, lisonjeado, não sei, mas já estava arrependido quando ela chegou_ ele falava serenamente, como se fosse natural que desse a ela essas explicações.
_ Não precisa se justificar, Mulder !
_ Eu não estou. Mas pra mim é importante que você saiba. Estava com raiva, frustrado, não sei, sinceramente, não sei o que me deu.
_ Mulder, eu vi seu relatório !
_ Sim, você estava certa. Não havia realmente nada lá ! Às vezes, me envolvo tanto que não sei quando parar, em que acreditar...
_ Às vezes ??
Ele sorriu. Era realmente muito bom vê-la ali, saber que não estava mais chateada com ele, que tinha ido atrás dele apesar de tudo.
_Desculpe ! Não queria te magoar ou melhor...
_ Me magoar ? _ ela repetiu sem entender.
_ É , eu...
_ Nunca me magoei por pensarmos de maneira diferente, Mulder. Respeito seu ponto de vista e sei que respeita o meu, que sabe que eu preciso de algo mais que você para acreditar, mas, às vezes, você se torna tão irracional e...
_ Não é isso....
_ Como ?
_ Sair com ela, achei...bom.. queria te ...queria provar pra mim que poderia...
Ela soltou a mão dele que ainda tratava e andou sem jeito pela casa. Pensava se já era tão evidente o que sentia por ele, que Mulder já percebera e agora usava isso para brincar com os sentimentos dela.
_ Não há nada que precise me provar. Você já é adulto, Mulder ! Sabe, ou deveria saber, o que faz da sua vida.
_ Não era Helen quem eu queria ver, com quem eu gostaria de estar, foi só que...
_ O delegado disse que não poderá mandar ninguém nos resgatar agora_ ela interrompeu mudando de assunto_ A estrada está bloqueada e acho que seria muito penoso pra você sair nesse tempo, está muito fraco.
Ela havia quebrado o clima de confidências que ele estava disposto a manter. Estava tão feliz e agradecido. Queria que ela soubesse sobre o que o motivara a procurar outra mulher. Não sabia exatamente porquê. Não se importava de ela o julgar obcecado pelo trabalho, irracional , infantil, mas não queria que o visse como um homem leviano. Nesse terreno, era essencial que ela soubesse de sua honestidade, de sua fidelidade; era fundamental que soubesse que não havia acontecido nada. Mesmo não entendendo o porquê , ela precisava saber disso.
_ Não quero que você me julgue leviano, Scully, estava com raiva, frustrado. Acho que bebi mais do que deveria.
_ Esqueça, Mulder. Importa que esteja bem agora, procure descansar.
Ela se aproximou, sentou-se ao lado dele na cama e , com ternura maternal, ajudou-o a se recostar de lado nos travesseiros e falou suavemente :
_ Tente dormir, Ok ? Vai precisar de energia pra sairmos daqui. Seu ferimento precisa de pontos. Não sei se a infecção está completamente controlada. Tem que se manter quieto. Apenas procure dormir _ ela concluiu beijando-lhe a testa como uma criança.
_ Conta uma estória ?_ ele brincou, fazendo ar de menino carente e ela não pôde deixar de sorrir e pensar, intimamente, de como gostava quando ele agia assim.
_ Era uma vez um garoto mal ...
_ Esse sou eu ... ele concluiu
Ela fitou-o e continuou.
_... que saiu sozinho na floresta e uma fera terrível o atacou _ parou para ouvir o riso dele encher o ar _ Mas a fada madrinha ficou com pena do garoto bobo e mandou ...
_ O anjo da guarda dele salvá-lo_ Mulder terminou, passando os dedos pelo rosto dela e , fechando os olhos, ajeitou-se para dormir.
Estava novamente escurecendo quando o delegado ligou, avisando que a estrada estava desobstruída mas que só poderiam ir buscá-los pela manhã. O vento estava muito forte para que o helicóptero sobrevoasse a área.
_ Parece que teremos mais uma noite aqui _ ela falou, vendo que ele despertara_ Não há mais lenha : a casa vai ficar congelada. Preciso mantê-lo aquecido. Talvez lá fora tenha alguma coisa.
Ela preocupava-se com o estado dele, mas Mulder parecia sereno. Ao tocar a testa dele, percebeu que ainda havia febre, mostrando que a infecção ainda existia, e teve receio de que ele piorasse durante a noite.
_ Não ! Não saia Scully ! _ ele falou preocupado _ Queime alguma mobília, a casa tem madeira por todos os lados, posso ajudar e...
_ Não, fique quieto !
Scully quebrou algumas cadeiras e bancos e o calor voltou a invadir a casa. Medicou novamente o parceiro que já dormia sereno e acomodou-se no pequeno sofá em frente à cama. Estava com frio, mas devido ao cansaço, acabou adormecendo também.
Acordou sobressaltada ao sentir o toque em seu rosto.
_ Mulder ? ! O que foi ?_ reclamou, quando o viu ao seu lado apenas de calça, o peito descoberto.
_ Ouvi um barulho_ ele disse encaminhando-se para a janela.
Ela levantou-se assustada. Mulder pediu que o ajudasse a travar as portas. A escuridão lá fora não permitia que vissem nada e pareceu a eles que o corpo de Helen não estava mais lá.
_ Acha que Helen...?_ Scully perguntou _ Não é possível Mulder. Eu atirei nela. Acho que não há perigo. Eu fico vigiando! Por favor ! Volte a se deitar. Sua febre está aumentando.
_ Você está cansada, Scully. Não vai conseguir ficar alerta. Também precisa de repouso.
_ Eu agüento Mulder !
Ele não discutiu, deitou-se e ficou em silêncio, também não conseguia dormir. Após alguns instantes sentou-se novamente para vê-la encolhida sobre o sofá, os olhos fixos na janela. Ela não percebeu a aproximação e assustou-se .
_ Pelo amor de Deus, Mulder ! Me assustou ! O que faz em pé ?
_ Venha, Scully ! Também não consigo dormir e você está gelada ! Não discuta_ ele falou antes que ela protestasse.
Deitou-se de lado na cama, puxando-a com ele e ela não reclamou ao se acomodar ao seu lado. Estava com frio realmente. Ficaram em silêncio, ouvindo apenas suas respirações tensas enchendo o ar; agora, definitivamente, não conseguiam dormir e Scully sentiu o corpo estremecer. Mulder interpretou o tremor como frio e aproximou-se mais, colocando o braço em volta dela e colando-a ao seu corpo.
_ Obrigado ! _ ele lhe disse ao ouvido
_ Por quê ?
_ Por não desistir de mim.
Ela sorriu.
_ Nunca desistiria de você . Isso já está virando um vício, Mulder_ disse, virando-se para fitá-lo e sentindo-se confortável com a proximidade.
_ Também nunca desistiria de você _ continuou _ E lamento tê-la envolvido nisso.
_ Já passamos por maus bocados, Mulder, mas jamais pensei que iria te socorrer de uma mulher apaixonada
Scully estava gostando de estar ali e apesar da tensão existente entre eles, eram sobretudo amigos e amigos no melhor sentido do termo . Estarem juntos, conversando; próximos ou à distância, por telefone ou na cama ; trabalhando, num caso complicado ou num mero relatório; ou simplesmente trocando olhares e gestos, não era o bastante para preencher suas vidas, mas era muito mais do que a maioria das pessoas havia conquistado: uma unidade de sentimento.
_ O que leva uma pessoa a agir assim, Scully ?
_ Não sei dizer.. Ela passou por muitas coisas...
_ Você também e, ainda assim, é a pessoa mais equilibrada que conheço. Qualquer outra já teria enlouquecido.
_ Talvez eu esteja louca e você não tenha percebido _ ela brincou_ Helen não tinha estrutura psicológica para suportar a traição. Ela era absolutamente dependente do marido. Seu mundo virou de pernas pro ar quando viu que ele não a amava. Ela só precisava da segurança de alguém que a amasse.
Mulder a ouvia atento, sentindo seu calor . De repente, tudo pareceu muito claro. Talvez ele enlouquecesse também se ela o traísse, se se afastasse dele ; tudo pelo qual eles passaram, só havia sido suportável porque estavam juntos. Ela sempre estivera ali. No começo, antes dela, sentia-se estranho. Agora não tinha importância a forma como as pessoas o julgavam, desde que, ela soubesse quem ele era. Ficou perdido em seus pensamentos até que falou, dando forma a eles.
_ É difícil acreditar que alguém possa fazer isso por amor .
_ As pessoas têm formas diferentes de mostrar seus sentimentos.
_ Outras simplesmente os escondem _ Mulder completou olhando-a fixamente_ Acho que o amor enlouquece e, muitas vezes, arrasa as pessoas.
_ Não creio, Mulder ! Acho que o que as pessoas chamam de amor, na verdade, não passa de paixão, de poder, de dominação. O amor não exige nada, nem mesmo reciprocidade. Acho que a paixão arrasa ; o amor, restabelece; é o que nos mantêm lúcidos.
Ele a observou atentamente, buscando um sentido mais profundo e especial nas palavras dela, mas Scully desviou a atenção e mudou de assunto :
_ Acho que devemos tentar dormir. Você precisa de repouso.
Ela fechou os olhos, tentando relaxar, porém sentia o olhar fixo nela e quase podia sentir a relutância dele em se aproximar mais. Sorriu intimamente e deixou-se vencer pelo cansaço.
Estavam exaustos, física e mentalmente e não puderam impedir que seus membros fossem invadidos pelo sono, o calor dos corpos ajudando a suportar o frio que fazia.
Acordaram sobressaltados com o barulho do helicóptero, que rondava a região e se aproximava para aterrissar.
O corpo de Helen havia desaparecido. Ainda havia marcas de sangue no chão, mas ela não estava mais lá. Scully não permitiu que Mulder continuasse na cidade, em busca dela. Queria afastá-lo o mais rápido possível daquele lugar e aproveitou a facilidade do transporte para serem novamente levados para Vermont onde ele ficou hospitalizado durante todo o dia para tratar o ferimento. A febre cedera e, tão logo Scully percebeu que ele já estava melhor, seguiu imediatamente para Washington.
Mulder recebeu licença naqueles dias, mas já não suportava mais ficar em casa. O braço imobilizado o impedia de realizar qualquer atividade maior e seu humor já estava bastante alterado. Scully estava trabalhando sozinha e com o acúmulo de tarefas sobre ela, não foi possível dar-lhe a atenção que ele gostaria. Limitava-se a ligar com freqüência, aparecendo às vezes, durante o dia ou a noite, para saber como estava passando.
_ Scully, amanhã volto para o escritório. Nem adianta tentar me impedir. Vou ficar louco aqui dentro.
Ela sorriu do jeito contrariado dele. Já estava bastante restabelecido para retornar ao escritório, mas ela achou , na proibição de trabalhar, uma forma eficiente de puni-lo pela insensatez com que havia agido.
_ Poderá voltar, Mulder, mas terá que ficar no escritório, trabalho de campo, nem pensar ! Tenho um milhão de relatórios atrasados por lá. Seria muito gentil se você os terminasse pra mim.
Ela sabia o quanto ele odiava fazer isso e ficou surpresa com o sorriso aliviado que ele deu.
_ Do jeito que eu estou, até fazer seus relatórios será melhor do que ficar trancado aqui.
Ela foi embora rapidamente. Durante o período em que ele estivera em casa, ela não costumava demorar-se mais do que meia hora com ele. A conversa na cama ainda mexia com os seus sentidos e evitava aproximar-se dele. Também estava cansada do trabalho acumulado. Acreditava que ele precisava de repouso e, finalmente, agia mais como médica do que como amiga e percebeu o quanto havia sido negligente com ele.
Ficou imaginando, penalizada, em como devia ser maçante para uma raposa ficar inativa por tanto tempo. Em seus lábios formou-se um sorriso.
_Talvez esteja na hora da raposa voltar a caçar.
Scully trabalhou exaustivamente naquele dia. Mulder não voltara como havia dito, mas ligou avisando que iria resolver alguns assuntos e estaria lá no dia seguinte. Ela terminou alguns relatórios e seguiu mais cedo para casa, um eterno sorriso dançando nos lábios.
Mulder acordou tarde. Tivera dificuldade para dormir e somente percebeu o envelope sob a porta, quando se dirigiu para a cozinha. Ficou imediatamente apreensivo : o mesmo bilhete, a mesma letra redonda e infantil que o convidava para jantar. Avisou Scully que não iria ao escritório e passou o dia tentando saber alguma notícia de Helen. Ainda não podia dirigir, o que limitava suas possibilidades, pois não queria envolver a parceira, lembrando-se de como Helen era vingativa. Havia informações incertas de que a mulher fora vista próxima à casa dos sogros, mas devido à vigilância constante exigida por Scully, não foi possível ter certeza, ela não se arriscaria tanto.
Após muito pensar, Mulder concluiu que a única forma de fazê-la aparecer seria ir ao seu encontro e, mais uma vez, procurou deixar Scully de lado. Conhecia Helen melhor agora. Estaria armado e não havia motivos para alarmar a parceira.
Já passava das oito horas quando chegou ao mesmo restaurante. O movimento era intenso. Uma música suave e romântica tocava enquanto alguns casais rodavam na pequena pista de dança. Olhou ao redor para ver se a localizava e sentou-se no bar, perguntando ao mesmo barman se ele havia visto a mulher.
_ Está com tudo hein ? _ comentou o homem malicioso_ Uma loura !Uma ruiva !Queria ter sua sorte ! Ainda não vi nenhuma das duas, mas, diz aí, a ruiva é a oficial, não é ? Cara ! Ela estava uma fera !
Mulder sorriu do comentário, imaginando a parceira indignada e apreensiva procurando por ele.
Assustou-se quando ouviu a voz ao seu lado, notando que o barman se afastava rapidamente.
_ Você não aprende, não é ?
_ Scully ??!!
Mulder a fitava surpreso e envergonhado.
_ O que faz aqui ?
_ O que você faz aqui, Mulder ?! Não voltou ao trabalho. Ontem parecia desesperado e hoje recebo uma desculpa esfarrapada e, quando o procuro, encontro-o aqui.
_ Eu... é..._ Ele começava a se desmanchar em desculpas quando percebeu o olhar divertido que ela tentava esconder _ Quem te contou que eu estava aqui ? Está me seguindo ?
_ Não, apesar de não ser eu a raposa, acho que tenho mais instinto que você.
_ Recebi outro bilhete _ Mulder começou a contar hesitante .
_ Ela não vai aparecer, Mulder , a menos que não seja Helen que você está aguardando ._ disse olhando-o inquisidoramente.
Ele sorriu do jeito dela e resolveu entrar na brincadeira.
_ Se você estiver aqui, ela não vai aparecer mesmo.
_ Talvez já esteja aqui . _ ela falou tímida.
Mulder deixou que o sorriso se espalhasse por todo o rosto. Seus olhos brilharam ao ouvir o que ela disse e ele amassou o bilhete jogou sobre o balcão, tomando a mão dela e levantando-se.
_ Bom ! Não vamos ficar aqui a toa, não é ? _ disse, vendo-a sorrir
Começaram a dançar lentamente, a música envolvendo os sentidos, a proximidade dos corpos que aumentava cada vez mais , o calor das mãos que atravessava o tecido das roupas. Mulder apertou-a com mais força e ela encostou a cabeça sobre seu peito, apreciando o perfume , sentindo o coração dele tão disparado quanto o seu..
Ela afastou-se ligeiramente para fitá-lo.
_ Helen foi vista há poucas horas, quando tentava se aproximar da filha , na casa dos avós, mas não sei se conseguiram pegá-la..
_ Quando vi o bilhete... Onde o encontrou ?
_ Não sei quantas mulheres te convidam pra jantar, Mulder_ ela falou mudando de assunto _ Mas lembro-me de te ouvir dizendo que ficaria afastado delas por um tempo. Por que veio, então ?
_ Pensei que fosse Helen_ ele a fitou ternamente _ E estou feliz que não tenha sido. Acho que sempre quis que fosse assim.
_ Não sou uma mulher, está lembrado ?_ ela o fitou irônica.
_ É mais do que isso _ ele concluiu, estreitando os braços em torno dela_ Sabe aquela conversa, sobre paixão, amor ?
Ela apenas abaixou a cabeça.
_ Acho que tem razão: nunca me senti tão restabelecido e lúcido como agora.
Scully parecia nervosa, enquanto ele deslizava os dedos por seus ombros até chegar às mãos para lentamente puxá-la mais próximo, conduzindo os braços dela em torno de seu pescoço para envolver-lhe as costas totalmente, enquanto buscava os olhos dela, curvando-se sobre seu corpo pequeno.
_ Não tenho algemas , Mulder _ ela brincou, tentando aliviar a tensão, lembrando-se de como ele fôra levado por Helen.
_ Você já me prendeu, Scully ! Em correntes mais fortes que aquelas algema ! E eu não vou fazer nenhum movimento para escapar. A raposa está completamente dominada.
Os lábios, que murmuravam no ouvido dela, se aproximaram lentamente de sua boca e Scully não fez nenhum gesto para afastá-los. Recebeu o beijo dele com a mesma intensidade. Permaneceram ali, abraçados, serenos, trocando gestos e carícias delicadas, dançando ou simplesmente sentindo o contato quente e apaixonado um do outro.
Num local qualquer, uma mulher de cabelos tingidos, ruiva, de olhos claros, feições distorcidas e gestos nervosos, olhava fixamente para um homem, que brincava feliz com uma menina, num quintal florido, enquanto uma mulher se aproximava e os abraçava. As feições da observadora transformaram-se imediatamente e ela cravou as unhas, semelhantes a garras, sobre a árvore, fazendo um corte profundo, enquanto seus olhos refletiam sua mágoa e insanidade.
FIM
Nota da autora : Ficou enorme, não é ? Obrigada àqueles que leram até o final ! Ainda espero que digam suas opiniões. O termo " cara ", usado pelo barman é uma homenagem às brasilienses e cariocas que adoram esse tratamento. Mais uma vez, obrigada Small por colocar todas aquelas milhões de observações verde e amarelas no texto.