FAN FICTION

AUTORA : Sky

E-MAIL : selmasky@ig.com.br

DISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo.

CLASSIFICAÇÃO : Shipper

SINOPSE : No final da oitava temporada, o primeiro Natal de Scully sem Mulder e o que poderia acontecer.

OBSERVAÇÕES : Esta fic é meu presente para minha excer oculta de 2001. Espero que você aprecie a estória e me perdoe por não conseguir me esmerar muito, já que o prazo ficou curtíssimo. Feliz Natal para você.

 

 

 

 

NATAL EM VENEZA

 

 

 

Dezembro...

Engraçado como um mês pode ter tantos e tão diferentes significados...

Lembro-me com clareza de quando trocamos presentes simples, numa noite fria como a de hoje. Lembro-me de seus olhos brilhantes e curiosos quando me viu em sua porta, há alguns anos atrás.

Hoje tudo é diferente. Você não está aqui e, no entanto, parece tão presente. Talvez pelo olhar obstinado que já vejo em nosso filho. Talvez porque cada recanto do meu apartamento tenha algo de você.

Quantas vezes essas paredes foram testemunhas de nossos sentimentos e conflitos, de nossas risadas e medos? Quantas coisas guardamos em segredo de ouvidos curiosos que tramavam para nos perder? Quantas vezes seu instinto o levou a afastar de mim perigos dos quais eu não me dava conta...Eugene Tooms...Donnie Pfaster...

Ainda estão vivas em minha memória as lembranças do seu cuidado quando, num rompante de loucura ou sanidade, disparei minha arma contra aquele monstro. Ainda sinto o peso de seus dedos em minhas costas levando-me para fora desse quarto tão opressor naquele dia. Do seu sorriso sereno que tentava esconder o medo pelas conseqüências de minha própria atitude sobre minha confiança e integridade. Engraçado pensar nisso agora, já que você me emprestou esses sentimentos durante o tempo em que a culpa e o medo povoaram meus pensamentos. Você me deu força, sua força e tudo pareceu ficar bem. Você acreditou em mim e isso era o bastante.

Deixo escapar um longo suspiro quando ouço o gemido manso do outro lado do quarto. Levanto-me silenciosamente e perco alguns minutos apenas perdida na contemplação do rostinho corado escondido nas dobras do cobertor. Alivio-lhe o desconforto e logo ele volta a ressonar tranqüilo.

Caminho pela casa em meio à penumbra e demoro-me um tempo maior na sala. Sorrio. Ali você me deu a boneca que agora partilha com a bíblia o baú aos pés da cama. Willian talvez não a compreenda no inicio, mas ele irá saber o quanto ela faz parte de nossa vida, tanto quanto o homem que a deixou conosco.

Deito-me no sofá, ainda ouvindo os sons de nossas vozes em nossa última conversa...

_ Scully, me ouça. Não podemos permanecer assim. O perigo está muito próximo. Não sabemos ainda o que eles querem.

_ Mas eles não o levaram, Mulder. Estamos seguros, acabou.

_ Não Scully, isso é apenas o começo. O projeto é muito maior do que supúnhamos e eu não faço mais parte da equipe.

_ Vai desistir de tudo? Deixar que eles vençam?

_ Não Scully, eu vou lutar contra eles. Eu preciso proteger vocês, mas só posso fazer isso se estiver longe.

_ Para onde você vai, Mulder?

_ Perdoe-me Scully. Se eu te contar, estarei te colocando em risco. Precisamos pensar nele.

Impossível não sentir as lágrimas chegando aos meus olhos, mas, por você, não deixo que elas aflorem. Precisamos ser fortes, você disse, e é tudo o que eu tenho tentado ser nos últimos oito anos. Com o controle remoto nas mãos, ligo o som e deixo a música me fazer companhia. Tchaikovsky... tão arrebatador quanto o homem que, por tanto tempo, temi amar e, no entanto, assim como a música que toca silenciosamente, impossível não me envolver.

Fecho os olhos e tento dormir.

ĻAs águas batiam lentamente sobre os diques feitos de cimento e saudade. Na mansidão da noite estrelada uma gôndola atravessa a distância, singrando o mar como o doloroso caminhar das serpentes. A água escura brilha sobre o firmamento iluminado pelo luar.

Um homem de sorriso infantil, porte altivo e olhar penetrante esconde-se no fundo da embarcação, como se temesse ser visto pelos outros barcos que se aproximam do porto, mesmo que a máscara negra cubra quase que completamente seu rosto. Todo ele estava envolto em roupagens cor de ébano que faziam com que sua tez alva e seus belos olhos verdes se destacassem do conjunto. O ar de expectativa e ansiedade dava o tom ao seu rosto bem cuidado.

Desembarcando, ele parou alguns minutos para contemplar a beleza arquitetônica do lugar. A praça era tomada por construções impressionantes, em arcos bizantinos, toques renascentistas iluminados pela tênue luz amarelada dos lampiões de cristal. Por todos os lados ouvia-se o farfalhar dos ricos tecidos trabalhados das mulheres que buscavam o abrigo seguro de suas casas ou dos portões festivos dos grandes salões de baile. Era Natal, toda a cidade se revestia de encanto ainda maior. Crianças coradas corriam atrás dos pombos que haviam aproveitado o clima de festa para retardar seu retorno ao ninho a fim de esperar as lautas refeições da manhã seguinte.

Pelas janelas, podia-se ouvir a balburdia dos presentes ocupados em brindar a data, perdidos em conversas que, para quem não os conhecia, poderia dizer-se inocente e gentil. Mas sob o manto da polidez, derrocadas eram tramadas para aqueles que não pertenciam ao meio daqueles cujo poder e cobiça faziam temer os mais desafortunados. Tantas pessoas já haviam encontrado o cárcere e a morte após uma daquelas reuniões da rica sociedade veneziana...quantas mulheres já haviam caído em desgraça após, conscientemente ou não, ter sucumbido ao flerte desavisado de algum galanteador irresponsável...

Atravessando a extensa área da Piazza San Marco, o homem seguiu por uma rua lateral chegando até uma outra residência cujos portões se abriam de par em par para receber os convivas que chegavam de todos os lados, mascarados de acordo com a vontade da voluntariosa filha do anfitrião. Os muros escondiam um amplo jardim de flores e arbustos pequenos que coloriam saborosamente o lugar, deixando o clima ameno e refrescante. No centro, uma pequena fonte, de onde uma camponesa grega vertia água de sua ânfora, podia-se ouvir a melodia calma do líquido sobre as pequenas pedras lisas do fundo. O burburinho entrava pela casa e o som de risos já podia ser ouvido. Na escadaria de mármore rosado o homem foi recebido por uma garota alta de olhos azuis que sorriu ao vê-lo.

_ Difícil saber quem é você, estranho _ ela murmurou _ Gostou da minha idéia sobre o baile ?

Ele sorriu mansamente.

_ Não fosse essa sua mente inspirada eu não poderia estar aqui.

_ Eu sei e se meu pai souber que este era o motivo vai me matar, mas achei que quando você descobrisse o que andam tramando para vocês às escondidas, iria dar um jeito de entrar aqui de qualquer maneira.

_ Ela está aí ? _ ele interrompeu ansioso.

_ Ainda não desceu, está mal humorada com sempre _ ela riu _ Sinceramente, não sei o que viu nela...

_ Você ainda é criança, pequeno girassol _ ele continuou, chamando-a pelo apelido do qual ela tanto gostava _ Um dia você irá nos entender...

_ Eu já entendo, só não sei porque você não a pede logo em casamento e a leva daqui. Nosso pai vai enlouquecer a pobrezinha com essa estória do pretendente ideal. Ainda se ele fosse bonito... _ ela completou suspirando.

_ Ele é um bom partido, Srta. Krischer. O que eu poderia oferecer a ela ?

_ Com aqueles orelhões ? _ ela cortou exasperada _ E ele tem aquele ar de bonzinho que me dá nos nervos. Será que é tão difícil para ele perceber que a Dana o odeia ?

O homem levantou os olhos em direção à escadaria e seus olhos se iluminaram.

Ali estava a razão de sua louca esperança. A pequena ruiva de olhos tão azuis e voluntariosos como o mar que abraçava sua amada cidade natal. Ela combinava perfeitamente com aquele ambiente tão cheio de mistérios e beleza. Conhecê-la modificou todas as perspectivas que ele havia traçado para si. Não pensava mais em abandonar sua Veneza melancólica, a não ser em companhia daquela mulher.

A política conspiratória daquele lugar, os segredos e mentiras que enredavam criaturas inocentes e indefesas o deixava nauseado. Trabalhava para mudar aquela situação, mas sua voz quedava-se inútil frente ao poder opressor dos que comandavam as malhas econômicas da região. Tudo resumia-se em dinheiro e poder e ele não suportava mais lutar sozinho.

Tê-la deu-lhe alento para perseverar. Ela lhe pedia para não desistir e ele tentava sinceramente seguir adiante. Mas aquela noite, Natal de alegria e paz para algumas criaturas, de esperança e fé para outras, tornara-se mais amarga do que ele se julgava capaz de agüentar. Ela iria se casar, seria levada para longe de seus olhos e de seus braços. Comparecer ali fora uma temeridade da qual ele já se arrependia ao vê-la tão inocentemente caminhando para ele. O noivado seria anunciado e, pelo ar sereno que ela demonstrava ao cumprimentar os presentes, parecia não ser do seu conhecimento.

Ao vê-lo, seus olhos brilharam intensamente e, mesmo escondido por trás da máscara, eles se reconheceriam em qualquer lugar do mundo.

_ Vejo que pode comparecer finalmente _ Ela sorriu estendendo-lhe a mão que ele guardou cuidadosamente entre as suas para, em seguida, levá-la até os lábios.

_ Precisava vê-la. Sabe disso.

_ Algo errado ? _ ela murmurou franzindo a testa _ Você parece apreensivo.

_ Dança comigo ? _ ele convidou estendendo o braço que ela aceitou com delicadeza.

Caminharam até o salão, aonde os casais rodopiavam alegremente ao som do compositor amigo da casa. Agora, ele começava uma nova melodia temperada pelo som inebriante dos violinos. Quatro Estações, nome propício para a música que simbolizava o estado de espírito dos presentes. Verão para aqueles que iniciavam agora a vida em sociedade, cheios do calor das novas descobertas. Primavera para os que saboreavam a calmaria do lar e da vida despreocupada. Outono para os que escondiam as paixões sob o manto da polidez, prestes a sucumbir. Inverno no coração daqueles cujos sonhos haviam se tornado chuva de decepções. Para o casal que iniciava sua dança, todas as estações misturavam-se em seus sentimentos : a alegria perfumada pelas flores da amizade e entendimento que os unia, o fogo de uma paixão tão ardente quanto o pôr de sol no outono, o calor de seus ideais inflamando seus espíritos de esperanças e o frio medo pelo futuro que os esperava.

A música de Vivaldi entrou em suas almas e, por alguns minutos, apenas ela foi capaz de afastar os presságios sombrios que os rondavam. Por alguns instantes, pensaram apenas na sensação de estarem juntos, embalados em seus próprios sentimentos.

Ao término, porém, ele murmurou-lhe ao ouvido :

_ Minha cara, há algum lugar aonde possamos conversar ?

_ O que aconteceu? _ ela perguntou _ Está me assustando. Vamos até o jardim.

O vestido turquesa, que cobria o corpo miúdo da mulher, fazia barulho enquanto ela caminhava. Ele pode observar-lhe o perfil e parecia tão frágil. A pele branca destacava-se entre os cabelos cuidadosamente erguidos em cachos presos ao alto da cabeça. Os brincos e o colar cintilavam tocados pelo luar. O colo erguia-se apressadamente, denunciando a respiração dificultada pela justeza do corpete que delineava sua cintura.

_ O que aconteceu ? _ ela perguntou antes mesmo de sentar-se sobre o banco de pedra, meio escondido entre os arbustos do jardim.

Ele suspirou intensamente.

_ Terei que partir..._ ele contou fitando-a nos olhos _ Ainda esta noite.

_ Como ? _ ela encarou-o estarrecida. _ Mas...

_ Seu pai descobriu quem eu sou e não permitirá nosso casamento...

_ Isso é absurdo ! _ ela cortou indignada_ Ele não pode me proibir de nada. Eu não vou me casar com aquele homem detestável.

Ele suspirou

_ E de que adiantaria lutar ? Você poderá ter uma vida digna aqui. Faça isso enquanto é possível. Você sonha com a maternidade, com um mundo justo, construa-o ao redor de você, minha cara. Sua vida corre perigo ao meu lado e eu não quero ver você morrer por causa de uma luta pessoal minha ...

_ Luta pessoal ? Desde quando lutar pela justiça e pela verdade é uma causa pessoal ? Meu amigo, me ouça _ ela continuou tomando a mão dele _ Eu não quero, não vou. Você me disse uma vez que se eu desistisse, eles venceriam, me disse isso quando eu estava disposta a abandonar tudo. Por que quer fazer isso agora ?

_ Seu noivado será anunciado hoje, minha bela amiga...

Ela levantou-se imediatamente.

_ Isso não é possível. Meu pai não me disse nada. Ele não seria capaz de fazer isso comigo...

_ Ele a ama, quer o seu bem estar...

_ Quer a posição que aquele homem pode conseguir para ele. Meu pai está me vendendo por alguma atenção na corte. Eu odeio isso.

_ Eu não tenho nada a te oferecer...

_ Tem seus sonhos. Podemos mudar para outro país, começar vida nova. Acredite no que quiser, mas você não é um perdedor. Eu estou aqui para trabalharmos juntos.

_ Eu sei que você não acredita nas conspirações que eu sinto sob nossos pés, nas ameaças que pairam sobre a cabeça de pessoas inocentes...

_ Eu quero acreditar. Eu confio em você, só preciso de provas...

_ E é atrás disso que eu estou indo...

_ Então eu vou com você.

_ Eu só não queria que você fosse enganada. Durante toda a minha luta, apenas uma coisa permaneceu a mesma. Você foi minha amiga e me mostrou a verdade. Mesmo quando eu estive perdido, você foi minha constante, meu apoio, mas não posso deixar que siga comigo...

_ Espere-me no cais, sob a Ponte dos Suspiros. Consiga uma gôndola para nos levar até o continente. Temos dinheiro, podemos seguir para qualquer lugar.

_ Dana, esqueça !

_ Estamos juntos desde o início da juventude, somos amigos e, para mim, os melhores relacionamentos são aqueles que começam de uma amizade. Há alguns anos eu acordei e percebi que meu amigo é a única pessoa com quem eu imagino passar o resto de minha vida e, além disso, meu querido estranho, desde quando você consegue fazer alguma coisa sem mim ?

O sorriso dela era algo raro e cativante demais para que ele não serenasse. Talvez fosse uma loucura, mas ela não sobreviveria naquele meio, não podia imaginá-la sendo tratada como simples peça do mobiliário, apenas a figura bonita de um homem qualquer. Aquela mulher vibrava inteligência e energia, se permitisse que ela continuasse ali, quem garantiria que ele não estaria ajudando a enterrá-la ? Louco, irresponsável, sua mente lhe dizia, mas não havia como fazer calar a voz no seu peito que lhe perguntava se ele poderia ou queria continuar a luta sozinho.

_ Daqui a uma hora todos os salões estarão brindando o Natal. Ninguém irá reparar minha ausência e sei de alguém que irá nos ajudar. Confie em mim.

Ela se afastou rapidamente, quem não a conhecesse diria que estava tranqüila e cordata, mas sua irmã era sua confidente, conhecia-lhe os segredos e não tardou para que as duas se reunissem no quarto, concluindo, apressadas, os detalhes para a fuga tramada.

O homem se perdeu novamente na escuridão. Com gestos apressados, voltou ao seu lar, arrumou o necessário para a viagem, esvaziou o cofre de seus pertences mais valiosos e ganhou novamente a rua. Como não poderia levantar suspeitas tentando comprar um barco, levou a primeira embarcação solitária que encontrou pelo canal. Ninguém daria por falta dela até a manhã seguinte. Remou rapidamente até a ponte e esperou impaciente o correr dos minutos. O tempo escoou lentamente. Passou a contemplar a ponte e sentiu um calafrio. Aquele poderia ser o seu destino se algo desse errado. Poderia ser obrigado a cruzar aquela ponte uma última vez para ser esquecido nos calabouços da prisão que ficava no final de sua curta extensão. Aquela ponte era o último suspiro dos condenados à nunca mais verem a paisagem inebriante e melancólica de Veneza.

O barulho de risos e brindes chegou aos seus ouvidos e ele começou a imaginar se ela seria capaz de chegar até ali. Era realmente uma loucura o que tentavam fazer. Não poderiam voltar atrás e ele julgou que seria melhor que ela não viesse. Ao mesmo tempo em que se sentia aliviado por não vê-la se aproximando, sentia um aperto no peito por não a encontrar novamente. Precisava protegê-la e o melhor que fazia era seguir sozinho.

Um vulto porém se aproximou. Ele já tinha o remo em mãos para afugentar o intruso e temia que, mesmo que ela viesse, agora seria impossível embarcar. Como explicar ao estranho, sua presença al,i naquele horário ? Começou a remar quando alguém pulou no barco. Seu coração disparou e ele virou-se rapidamente para encarar o adversário. Equilibrando-se, parou a alguns centímetros dele e não conseguiu suspender o gemido de espanto.

_ Ia sem mim ? _ A voz serena perguntou.

Ele a fitou demoradamente. Os cabelos estavam escondidos sob o véu tão escuro quanto toda a vestimenta que ela usava. Sem os longos vestidos de saias fartas ela parecia ainda menor. O conjunto negro contrastava incrivelmente com a palidez de sua pele, destacando os olhos que ele tanto amava e que agora, tinham um intenso brilho de determinação e ousadia.

Impossível não sorrir. Ele tocou o lenço e os cabelos se destacaram.

_ Você é maluca _ ele murmurou ao ver o comprimento que ela os deixara. Pouco acima dos ombros, num corte liso que não denunciava em nada que, ali, já houvera inúmeros cachos acobreados.

_ Sempre achei que todos aqueles adereços pesavam demais e você não imagina como é confortável não ter que frisar os cabelos diariamente.

Ele nada disse, colocou os remos dentro do barco, sentou-se diante dela e envolveu-a carinhosamente nos braços. Levantou-lhe o queixo com a ponta dos dedos e tocou de leve seus lábios.

_ Nós vamos conseguir, minha bela amada. Seremos felizes enquanto estivermos juntos, mesmo que a verdade fuja de nós.

_ Agora seremos parceiros, mais do que amantes_ ela murmuro e aninhou-se naquele abraço, enquanto a gôndola seguia silenciosamente pelos canais iluminados pelas tênues claridades dos candeeiros de vidro.

Ao ganhar o mar, os dois voltaram-se para a paisagem deixada para trás.

Ela não pôde deixar de suspirar ao ver sua terra natal ficando à distância. Sob o luar, os suntuosos prédios brancos e rosados, com seus pátios iluminados, suas sacadas floridas, as ruas estreitas que escondiam tantos segredos e misérias, risos e confidências. As gôndolas atracadas ao cais, flutuando serenamente entre as águas. Olhando mais atentamente, ela percebeu uma figura destacando-se na escuridão. Sorriu e deixou que uma lágrima escapasse de sua vigilância.

Ao longe, viu sua irmãzinha acenando eufórica, jogando suas amadas flores sobre a água para que elas chegassem até eles e celebrassem uma nova temporada de suas vidas, quem sabe mais colorida e perfumada. Era atrás desse sonho que eles agora, lançavam-se no mundo, porque a verdade sempre estaria com eles.

Podia ouvir sua voz, mas não entendia o que dizia e rezava silenciosamente para que ela não chamasse a atenção de outras pessoas. Ela, porém, continuava chamando-a e, estranhamente, era como se estivesse sussurrando em seu ouvido, uma palavra que ela não conhecia, mas que fosse pelo timbre no qual era dita ou pela sensação de familiaridade que ela reconhecia, causava-lhe enorme bem estar.

_ Scully...Scully...

O som parecia iluminar as brumas que a envolviam e ela fechou os olhos. Quando abriu, um belo par de olhos verdes sorriam para ela.

Demorou alguns instantes para que ela se lembrasse de onde estava e o que significava tudo aquilo.

_ Mulder ? _ ela murmurou ainda confusa _ É você ?_ continuou deixando que o riso se espalhasse em suas faces enquanto se sentava.

_ Feliz Natal, minha Scully...

Ela não deixou que ele terminasse. Apertou-o forte de encontro ao peito, tentando controlar as emoções que afloravam desabridamente.

_ É você mesmo ? O que faz aqui...eu pensei que...nunca mais...

Ele alisou os cabelos dela, envolvendo seu rosto entre as mãos.

_ Imaginei que pudesse seguir sozinho, mas descobri que não quero e, sinceramente, nem sei se eu posso. Preciso de você nisso, comigo.

_ Eu sei _ ela interrompeu com um brilho úmido nos olhos _ Somos parceiros, muito mais do que amantes _ ela sorriu _ E sempre estaremos juntos nesse barco.

Sem esperar resposta, ela colou os lábios aos dele e se deixou envolver pelo espírito de Natal, afinal, mais do que nunca ela acreditava, ele sempre existiu.

 

FIM