ATENÇÃO: Arquivo X (The X-Files?) pertence a Fox Network e seu criador Chris Carter. Não há intenção de se obter lucro com essa história, que se destina unicamente a diversão dos fãs. Autora: Jennifer Fearnsaille (saille@ig.com.br) Home Page: http://www.danadeavalon.hpg.com.br X-CELTIC "... QUANDO AS BRUMAS DE AVALON ENCONTRAM OS ARQUIVOS X... " Escrevi essa história para os fãs de Arquivo X apreciadores da cultura celta, seus mitos. Lendas e sagas onde amor. Magia e conflitos se misturam em nome da Grande Mãe. Quem leu os livros de Marion Zimmer Bradley e conhece um pouco de wicca e druidismo, reconhece facilmente as características do "casal divino predestinado" em Mulder e Scully, que parecem versões modernas da sacerdotisa rebelde e do heróico e atormentado rei salvador. Afinal, achei que esses dois universos de brumas podiam se cruzar: as de Avalon e as dos cenários de Arquivo X, principalmente nesta enevoada transição entre 7ª e 8ª temporada. Nesse universo paralelo alguns personagens tiveram seus nomes modificados para melhor se "encaixarem" no tempo e lugar em que a história se situa: EM ARQUIVO X NESTA HISTÓRIA Dana Scully Dana Fox Mulder Lugh Skinner Cu Chulainn Bill Mulder Morc William Scully Diancecht Margareth Scully Maire Diana Fowley Macha CGB Spender (Canceroso) Connan Emily Erin Langly, Byers. Frohike Luchtaine, Credne, Goibniu Assim diz a lenda: "A tribo dos fomorianos foi a 1ª a chegar à Irlanda. As raças que vieram depois o fizeram somente para sofrer nas mãos dos cruéis Fomors. Epidemias dizimaram a maior parte delas. Os reis fomorianos Morc e Connan impuseram um terrível imposto aos sobreviventes: 2/3 das crianças deveriam ser entregues a cada ano. Os Tuatha de Danann (Filhos ou Povo da Deusa Dana) venceram os fomorianos após muitas guerras iniciando uma nova era para a Irlanda. Destacaram-se nessa batalha: Diancecht, mago-médico dos tuatha; Lugh, um estranho que um dia conquistou os tuatha graças às suas inúmeras habilidades e uma tríade de artesãos mágicos formada por Goibniu, o grande ferreiro; Luchtaine, o operário e Credne, o caldeireiro, que forjaram todas as armas dos tuatha de modo que sempre atingissem o alvo e toda ferida por elas provocada fosse fatal. Dana: Grande Deusa da Terra e da Lua; é ao mesmo tempo donzela e mãe. Guardiã da saúde, da fertilidade, da prosperidade, do conforto, magia e sabedoria, etc. Macha: deusa da guerra e da morte, rege a astúcia, a sexualidade e o domínio sobre os machos. Cu Chulainn: "cu" significa cão e é um título comum dado aos chefes celtas; foi o maior guerreiro de seu tempo. "Os Tuatha de Danann vieram de muito longe, de uma terra longínqua além do mar e dos céus." Fonte: "Magia Celta" D.J.Conway Numa aldeia da Irlanda pagã No início dos tempos conhecidos Pouco antes do anoitecer Quando o chefe dos guerreiros Cu Chulainn (Skinner) ordenou que os soldados baixassem as armas para que a pequena duidesa passasse, ela já havia ultrapassado as primeiras fileiras da guarda driblando- os agilmente e já estava prestes a cruzar a soleira da polêmica porta tão bem guardada. "Que temperamento!" – pensava Cu Chulainn enquanto dava novas ordens aos guardas: "_ Não permitam a entrada de mais ninguém! Somente Diancecht (William Scully) e essa pirralha podem entrar e sair dessa casa!" Cu Chulainn era o maior herói da tribo e foi o melhor guerreiro que sua geração viu. Agora, perto dos 50 anos, era um homem forte e de poucas palavras, em resumo, um conjunto de autoridade e experiência que ele utilizava para treinar os guardas, guerreiros e soldados mais jovens que não viram de perto uma guerra de verdade, pois vieram à luz numa época mais branda, em que conflitos e batalhas eram notícias que chegavam de povoados distantes o bastante para garantir uma infância feliz e a segurança de suas famílias. Mas esses jovens, agora mais que nunca, precisavam ser treinados, porque da fibra mais profunda em seu peito, aquela que uma vez já fora tocada por uma lança afiada numa batalha que quase lhe custara a vida, daquela fibra lhe vinha uma secreta certeza que ele não ousava confiar a ninguém. De alguma forma, Cu Chulainn sabia que a paz que desfrutavam era apenas aparente. Dentro da casa simples de camponês, tão bem guardada pelos soldados, a pequena druidesa entrou retirando rapidamente sua capa e ajoelhando-se ao lado de Diancecht, cujo silêncio tenso, a testa porejada de suor e o olhar fixo na ferida do moribundo pareciam uma oração desesperada em busca de uma solução. Enquanto a moça prendia seus cabelos avermelhados com a fivela em forma de orobouros, o símbolo da casta druida dedicada à medicina, Diancecht ordenou-lhe: _ Dana, esterilize esses 3 instrumentos no fogo da lareira e reze por um milagre! A propósito, você chegou tarde. Dana achou melhor não responder e apenas fazer o que ele mandara. O velho druida não aceitava rebeldia e seus parcos cabelos brancos de uma vida dedicada à cura e ao alívio do sofrimento dos enfermos assim como ao sacerdócio rigoroso que sua ordem impunha lhe garantiam status de sábio cujas ordens não deveriam ser questionadas. Apesar de exigente e um pouco apegado demais a antigas tradições, (que Dana , longe de seus ouvidos , chamava de "antigas superstições"), e chatear um pouco com horários rígidos que ele não estipulava exatamente quais eram, mas cobrava severamente quando julgava não terem sido cumpridos; apesar desses "detalhes" de sua personalidade, Dana gostava dele. Sim, gostava muito dele, pois além de ensinar-lhe medicina, ele era como um pai, que lhe contava coisas sobre o mundo além das fronteiras que ela conhecia, cuidava dela quando estava doente e garantiu-lhe o direito de estudar e trabalhar diretamente com um druida de sua categoria, como druidesa em treinamento, um privilégio comum em tempos idos, mas raro em sua aldeia, onde as garotas eram preparadas desde pequenas para o colégio das sacerdotisas, onde aprenderiam todas as artes e ofícios femininos, assim como os segredos e os rituais de usa religião. As sacerdotisas aprendiam coisas como rituais de fertilidade e feitiços de proteção. Aprendiam também a mexer com ervas e a fazer partos. Algumas sacerdotisas tornavam-se profetizas, e a mais sábia de todas, a suma-sacerdotisa, dirigia todas as atividades do colégio e era responsável, junto ao arqui-druida, pelo bem-estar da tribo. Nem todas as garotas da tribo passavam pelo treinamento de sacerdotisa. Quando uma família tinha poucas mulheres, só 1 ou 2 filhas, costumavam ficar com elas em casa. Muitas vezes elas iam e ficavam só por um tempo no colégio, onde aprendiam alguma coisa e frequentemente saíam para se casar. Muitos jovens, até mesmo de outras aldeias, iam procurar conhecer suas futuras esposas no colégio das sacerdotisas, pois elas eram consideradas cultas e prendadas. Os rapazes tinham outro caminho a percorrer. Os que não quisessem aprender algum ofício com sua família ou algum parente, como ferreiro, fazendeiro ou caçador, podia ir para escola militar ser treinado como guerreiro de Cu Chulainn ; ou ainda, os mais intelectuais iam para o Colégio Druídico onde o treinamento completo levava mais de 20 anos. Um aspirante a druida começava como bardo, um poeta, cantor e trovador que tocava harpa e outros instrumentos musicais; ele tinha que saber toda a história da tribo e passá-la para as futuras gerações através de canções. Os bardos eram muito populares e faziam sucesso em festas e tavernas e muitos desistiam da árdua carreira de druida neste primeiro estágio, passando o resto da vida entretendo o povo nas festas da aldeia, cerimônias e reuniões sociais. O segundo estágio era de ovate, ou seja, profeta, filósofo e estudioso das tradições, preparando-se para o último estágio. O último, na prática só alcançado após 35 anos de estudo e serviço era o grau do druida, que podia ser voltado para a área do Sacerdócio Religioso, Juíz de Direito, Magistério ou Medicina. Diancecht preferia essa área, mas ele era o único graduado como druida em sua aldeia há muitos anos e acabava tendo de responder pelos outros cargos também, inclusive como Arqui-druida, pois o velho Sucellus morrera no ano passado, deixando com ele mais essa incumbência. Dana crescera órfã no Colégio das Sacerdotisas sob a proteção de Maire (Maggie Scully), a suma-sacerdotisa, a quem amava e admirava pela coragem e bondade, mas aos 9 anos Dana já sabia que não queria passar o resto de sua vida ali, cercada de garotas fúteis, vazias e ingênuas que se achavam superiores por causa de um título de "sacerdotisa". Para Dana não havia sentido em aprender rituais e feitiços. Ela simplesmente não acreditava na força sobrenatural que seu povo atribuía a todas as coisas, por mais simples que fossem. Para Dana a terra era fértil porque chovia e não por causa dos rituais e a proteção era garantida por duas coisas: prudência e soldados; não por amuletos ou feitiços. Claro que ela não dizia essas coisas diretamente à Maire, pois não queria ofendê-la; sabia que a suma-sacerdotisa acreditava sinceramente nos deuses antigos e se chocaria com sua descrença se perguntando em que momento ela errara na educação de Dana. Mas Dana não era totalmente descrente. Ela acreditava numa grande deusa, a Grande Mãe, que governava todas as coisas e amava todos os seres e que contava com ela, Dana, para fazer a sua parte. Por isso, quando aos 14 anos Dana viu que já aprendera tudo o que o Colégio das Sacerdotisas poderia lhe ensinar, exceto a parte mágica que não lhe interessava, foi até a suma-sacerdotisa pedir que a enviasse para o Colégio Druida aprender medicina. Na verdade, desde pequena ela se fascinara pelos instrumentos limpos, misteriosos e brilhantes de Diancecht e sempre se acercava dele quando ele vinha cuidar de alguma menina adoentada no colégio. Maire e Diancecht tiveram longas conversas sobre essa rebeldia de Dana. Maire percebia seu desinteresse pelos rituais, no entanto ela reconhecia que a garota era muito inteligente e dedicada e já havia aprendido tudo o que, de prático, o colégio podia lhe ensinar e realizava todas as tarefas que lhe eram designadas com perfeição. O cargo de druidesa já estava praticamente extinto há muitos anos e ninguém se lembrava direito o que uma mulher deveria aprender e desenvolver entre os druidas, pois no tempo em que haviam druidesas, elas viviam nas florestas e foram elas que ensinaram aos druidas os seus conhecimentos, de modo que agora parecia estranho que os druidas ensinassem algo a uma druidesa. Ninguém sabia ao certo como as druidesas desapareceram. Alguns diziam que eram espíritos de árvores que haviam tomado a forma de mulheres para ensinar aos humanos o que sabiam e que eram parte dos Tuatha de Danann, o povo mágico das lendas celtas. Somente depois de 3 anos, e não porque tivessem chegado a um acordo sobre as funções de uma druidesa, mas porque Diancecht percebeu que tinha mais afazeres como druida do que conseguia dar conta e que precisava urgente de um assistente para treinar e que pudesse um dia assumir parte de suas funções, e porque também de fato não havia nenhum garoto mais inteligente que Dana, ele a levou, com o consentimento de Maire, para ser sua assistente pessoal e aprendiz de druidesa (seja lá isso o que fosse). E a rotina de estudos e atividades diárias que Diancecht impunha a Dana era rigorosa, dura e estafante, muito mais do que qualquer dos rapazes em treinamento druida aguentaria, não porque ele fosse cruel, mas porque ele tinha pressa em treiná-la. E Dana vivia exausta, mas jamais se queixava. Porque ela estava podendo dar o seu melhor. E sabia que estava fazendo a vontade da Grande Mãe. Dana olhou pela primeira vez para o rosto do moribundo e notou que havia uma faixa de tecido fino com símbolos por baixo do sangue e dos cabelos em sua testa. Ela fez menção de tirar, mas Diancecht gritou: _ Não mexa nisso aí! Vá pegar água fervente! Havia muito sangue em diversas partes do corpo dele, mas aparentemente nenhum ferimento muito grande. Ela limpava os ferimentos para que o druida pudesse observar melhor o corpo magro e macilento, quase sem vida. _ Afinal o que aconteceu a ele? – ela resolveu, por fim, perguntar. _ Caiu vítima de uma emboscada. _ O que se comenta além dessas portas é que um homem de fora teve uma queda do cavalo e estava inconsciente há dias quando foi encontrado por soldados de Cu Chulainn. _ E é isso que deve continuar sendo comentado lá fora, entendeu? – ele olhou-a sério, sem deixar dúvidas sobre isso – Infelizmente parece que teremos que acrescentar que, apesar de nossos esforços, o desconhecido morreu. _ Acha mesmo que não há jeito? – ela procurava atentamente no corpo do homem algum sinal que pudesse lhe indicar o que houvera de fato acontecido. _ Veja – ele mostrou-lhe 3 lençóis dobrados que sustentavam o corpo do moribundo, ensopados de sangue que agora ele substituía por novos com ajuda dela – É a 4ª vez que os troco. Diancecht olhou-a seriamente nos grandes olhos azuis e explicou: - Nenhum ferimento grave, nenhum osso quebrado, apenas cortes de, no máximo 2 cm, que não cicatrizam. Ele está com uma hemorragia generalizada – Diancecht mostrou-lhe os cantos das unhas e as gengivas que vertiam sangue também – é como se uma força estivesse expulsando todo o sangue desse homem para fora do corpo através dos orifícios. O homem inconsciente, pareceu se agitar e disse baixinho: _ Abençoe Lugh... Lugh virá... Ele irá me redimir... Diancecht sorriu tristemente; na agonia da morte o homem pensava nos deuses, Lugh, o deus-sol, e suas palavras truncadas pareciam o pedido de uma extrema-unção. Decerto o homem queria dizer "Lugh, me abençoe" ou que o druida o abençoasse, na hora da morte, em nome do deus Lugh, já que não havia sentido que um druida abençoasse um deus. _ Será hemofílico? – Dana perguntou. _ Uma pessoa não se torna hemofílica, ela nasce com essa doença e esse homem não nasceu com esse mal. Antes que você nascesse ele lutou e feriu-se várias vezes e sobreviveu recuperando-se mais rapidamente que qualquer outro soldado. _ Se ele é um guerreiro valoroso como Cu Chulainn, por que não está sendo tratado com honras de herói na casa militar? Por que estamos aqui clandestinamente? _ Dana, esse homem não é um herói, embora por um tempo todos pensassem que fosse. Se a identidade dele fosse conhecida pelos soldados que o trouxeram da floresta, ele teria sido linchado antes de chegar até nós. Ela olhou novamente para a faixa com símbolos na testa do moribundo e começou a lembrar-se do significado de cada sinal hierárquico que aprendera no colégio. Aquele era de uma hierarquia antiga e com certeza de um cargo elevado, pois a cor em destaque era o dourado. _ Aonde ele foi encontrado, na floresta, o cavalo foi deixado com os mesmos sintomas; tenho certeza de que foi envenenamento maciço, mas não compreendo que veneno pode ser esse já que não encontrei indícios de beladona nem de mandrágora, que são as mais potentes ervas venenosas. Você deve manter sigilo sobre o que viu aqui, ou a população pensará tratar-se de uma peste, quando estou certo que houve intenção de envenená-lo. _ Se não é uma peste ou praga e não há sinais de envenenamento, de que se trata então? _ De uma guerra. Uma guerra que o povo julgava extinta, mas que alguns de nós sabia que estava apenas adormecida – vendo a expressão perplexa da druidesa que não tinha mesmo idade para lembrar- se de fatos passados antes de seu nascimento e dos quais tivera notícia apenas nas aulas de história do colégio, revelou: - Este é Morc (Bill Mulder), Dana, que todos haviam dado como morto na batalha de Mag Tureadh. _ O rei fomoriano que tomou 2/3 das crianças celtas?! Não é à toa que teria sido linchado. Eu mesma não teria perdido tempo com ele se tivesse me dito antes e acho que o senhor também não devia... _ Cale-se! Não é você que decide quem merece ou não viver! A Deusa deu-lhe conhecimento para tratar e curar os doentes, não para decidir por ela quem deve morrer! A moça passou rapidamente de revoltada e indignada à envergonhada; sabia que o velho druida tinha razão, apesar de Dana ter visto de perto o sofrimento de inúmeras famílias que perderam seus filhos e por eles choravam até hoje, isso não justificava que ela esquecesse seus juramentos e ignorasse os princípios de caridade da profissão médica, igualando-se aos impiedosos e criminosos fomorianos. _ Além do que, os livros de história não dizem tudo. Eu conheci esse homem na mocidade e ele tinha sentimento em seu coração. Muito do que ele fez foi obrigado por seu irmão Conann (Canceroso), esse sim um crápula inescrupuloso. Talvez por ver no rosto da moça o arrependimento e o medo de não corresponder às expectativas de seu mestre, o velho druida acrescentou com voz mais branda: _ Se fosse Conann, acho que nem eu o teria atendido. Ela o olhou espantada e então, a velha experiência de vida de druida e a boa vontade da impetuosa aprendiz sorriram tímida e brevemente uma para a outra, estabelecendo pontes entre as duas gerações. Essas pontes existiam entre eles desde que ela era uma criança curiosa e ele havia deixado de ser ovate há pouco tempo, pontes em que ambos transitavam com confiança e respeito da parte dela e confiança e esperança da parte dele. Esperança pelo futuro. Essa ligação tão familiar entre eles Dana não entendia completamente. Assim como Diancecht não entendeu as últimas palavras que o moribundo dissera instantes atrás, antes de morrer. Colégio das Sacerdotisas Ala do Conselho 11:21 PM No alto da torre a suma-sacerdotisa olhava pela janela o extenso, verde e escuro mundo que estava lá fora, prestes a revelar perigosas verdades sufocadas todo esse tempo com silêncio, renúncia e orações na esperança de que o sacrifício ajudasse a romper de vez com o passado. Após a sangrenta batalha de Mag Tureadh os líderes do Conselho decidiram que o povo merecia e precisava de um pouco de paz. Sucellus, com a ajuda de Maire, Diancecht e Cu Chulainn firmaram um duvidoso acordo com os reis fomorianos Morc e Conann para garantir a paz 2 gerações pelo menos, assim ambas as raças não se extinguiriam, as mães estariam seguras de que seus filhos não lhes seriam roubados e haveria tempo para planejar um acordo definitivo ou a batalha final em que a sorte decidiria o lado vencedor. O preço que seu povo pagara fora alto – Maire pensava – perderam sua garantia, os 4 Tesouros da Irlanda, de uma só vez, como penhor pela paz e liberdade que vinham desfrutando há pouco mais de 20 anos. O povo pensava que os 4 Tesouros haviam sido atirados ao fundo do mar para evitar que caíssem em mãos erradas. Na verdade, os tesouros não poderiam estar em mãos mais erradas que a dos fomorianos. Há muito se sabia que o povo que possuísse os 4 Tesouros estaria invulnerável em armas e magias; foram eles que garantiram a vitória de sua aldeia eras sucessivas. Apesar de derrotados, os fomorianos tinham um trunfo. Para devolver as crianças que haviam sido roubadas, 2/3 das nascidas a cada ano nos últimos 10 anos, os fomorianos exigiram os 4 tesouros: a Espada, o Cálice, a Lança e a Pátena Sagrada. Parecia uma loucura ceder, mas vencer a guerra e não recuperar as crianças perdidas que foram escondidas pelos fomorianos, parecia uma vitória amarga demais. Sucellus e Cu Chulainn disseram ao povo que na última batalha enganaram os fomorianos, encontraram as crianças e jogaram os tesouros ao mar. Durante as comemorações nas aldeias próximas, porém, numa reunião de apenas 7 pessoas, os irlandeses entregaram seus tesouros aos fomorianos, sob a promessa de que os usariam somente após passadas 2 gerações. É claro que Sucellus sabia que não podia confiar nos fomorianos e que eles não esperariam 2 gerações para atacar, provavelmente nem 2 dias. O que os fomorianos não sabiam é que também não podiam confiar nos irlandeses. Foi Maire que revelou a Sucellus o segredo do funcionamento dos 4 Tesouros pela necessidade imperiosa daquela situação. O segredo do poder dos 4 Tesouros sempre fora guardado pelas mulheres do templo, nunca sendo revelado aos homens que os usavam em época de guerra, sem jamais compreender o seu poder. Foi por causa do que Maire disse que Sucellus aceitou o acordo. Ele foi o 1º homem a conhecer o segredo e o levou para o túmulo. Agora somente Maire novamente o sabia. Havia algo que os irlandeses ocultaram aos fomorianos. Algo sem o qual os 4 Tesouros, que representavam os 4 elementos, eram objetos comuns. Na noite após as comemorações da vitória, Maire vira na bola de cristal do templo, as expressões de ódio de Macha (Diana Fowley) e Conann, ao constatarem a inutilidade dos objetos que possuíam. Estranhamente Morc parecia aliviado. Maire intuía que no fundo ele nunca desejara separar as crianças raptadas de seus pais; ao contrário de Macha e Conann, ele parecia ter um coração. Enquanto os fomorianos não soubessem o que estava faltando para que os 4 tesouros funcionassem, os irlandeses estariam seguros. Porém, enquanto o povo vivia tranquilo, os mesmos líderes que lhe asseguravam a paz, padeciam sacrifícios pessoais muito grandes e mesmo assim, isso não garantiria sua felicidade eternamente. Os druidas sabiam que a verdade sempre é descoberta, cedo ou tarde. Naquela noite Maire não conseguiu ver claramente na bola de cristal, talvez porque se aproximasse a lua negra, talvez porque ela temesse o que poderia ver. Cada vez mais ela sentia a necessidade de revelar seus segredos a alguém, porém a única sacerdotisa em que ela poderia ter confiado havia seguido Diancecht. Sua filha preferira seguir o pai. Esse era um de seus segredos bem guardados, do qual ela se culpara até que as profecias revelaram que já estava escrito que uma sacerdotisa e um druida conceberiam uma criança especial no Beltane. Eles não ficariam juntos, mas seu bebê, criado como órfão, viveria sob a proteção de ambos sendo preparada para cumprir sua missão junto ao próximo rei salvador celta, que nasceria na mesma época, para encontrá-la no momento certo e, juntos, reviverem as lendas antigas. Assim crescera sua pequena Dana, forte e obstinada, ignorante das suas raízes. Por isso ela protelou ao máximo a ida de sua filha para fora do templo. Não podia dizer a Diancecht que o segredo precisava ser passado a outra mulher para que ela o guardasse até que houvesse outra sacerdotisa capaz de preservá-lo. A geração contemporânea de Dana fora uma geração fraca; garotas superficiais, mulheres sem profundidade de alma. Dana fora a grande exceção e a grande esperança de Maire. Mas ela simplesmente não estava interessada em antigos mistérios e tornou-se druidesa. Maire resolveu confiar na vontade da Deusa. Ela agiria através da pequena teimosa quando fosse a hora certa – assim Maire desesperadamente acreditava. Maire suspirou na noite fria e pensou com carinho em Dana. Será que ela imaginava a importância que suas ações teriam para o futuro da aldeia e do povo celta? Saindo da janela, a suma-sacerdotisa apenas escreveu em seu caderno de observações pela bola de cristal: "Um estranho virá. Antigas profecias com ele virão. O tempo de mudanças já não tarda." Quarto de Dana 10:15 PM Adormecida entre peles e lãs, na noite fria, Dana dormia cansada. Em seus sonhos imagens de guerras que ela não vira; uma discussão entre 2 irmãos; uma perigosa mulher, prestes a lhe roubar algo importante, extremamente valioso, ... mas, ela não sabia o que era. Já tivera aquele sonho inúmeras vezes, mas não conseguia entendê-lo, apenas sentia que o que mais a incomodava era a presença da mulher morena que passava uma terrível sensação de ameaça. De repente um luz brilhante começou a ofuscar todo aquele pesadelo. Dana se sentiu paralisada enquanto todo o cenário de guerra e conflito a sua volta se esvaía. A luz explodiu enchendo de calor tudo ao redor e Dana se viu novamente em seu quarto, aquecida entre as peles. Sentia-se meio tonta, como se tivesse sido "tragada" de volta ao seu quarto. Olhou no canto ao lado do armário e viu a mesma esfera de luz em tamanho menor, agora com pequenos pontos azuis, começar a delinear uma forma. Dana sorriu: _ Erin... – ela jamais contara a Maire ou a qualquer um sobre as aparições que tinha desde criança. Com certeza, se soubessem, Maire e Diancecht jamais permitiriam que ela fugisse das aulas de treinamento psíquico no qual as sacerdotisas desenvolviam "A Visão". Já tanto se acostumara que achava normal. Talvez Erin fosse uma fada, talvez um anjo... talvez uma imagem bonita que as crianças órfãs como ela inventavam para as acalentar. Não importava. Ver Erin lhe fazia bem. A pequena garotinha loura retirava-a, como um passe de mágica, de seus pesadelos, quando ela começava a achá-los reais demais e conversava com ela sem palavras, como se os pensamentos de Erin se manifestassem dentro de sua cabeça com idéias próprias. Dana tinha uns 4 anos quando viu Erin pela 1ª vez na beira do riacho Severn. Ela lhe dissera que Maire e Diancecht eram seus pais. Naquela época ela ficou feliz e acreditou mas, Dana cresceu e chegou à conclusão que aquilo não podia ser verdade, mas apenas o reflexo de um desejo seu. Mas apesar de nm sempre acreditar em Erin, Dana continuou a vê-la e isso lhe fazia bem, talvez porque ela se parecesse com a filha que ela gostaria de ter um dia. Erin já estava totalmente materializada no canto do seu quarto. Dana entendeu em sua mente que ela viera lhe revelar algo importante, há muito tempo aguardado. Então, das mãos de Erin, uma brilhante luz lançou- se em espiral, envolvendo Dana completamente e elevando seu espírito para outra dimensão. Dana sentiu-se flutuar. Não podia reagir. Nunca imaginara que sua pequena fada tivesse tão grande poder. Subitamente viu-se num bosque no qual ela jamais estivera, mas num piscar de olhos sabia qual era. Erin sorriu e disse dentro da cabeça de Dana que ela agora saberia o que Macha queria roubar-lhe ( e mais uma vez, instantaneamente, Dana compreendeu que Macha era a mulher morena de seus pesadelos). O galope manso do cavalo tornou-se audível. As pegadas do animal pareciam ecoar em seu coração, pisando e machucando delicadamente. Ela instintivamente teve medo e desejou em seu interior não ver quem o cavalo trazia montado em seu dorso. Dana pressentia que aquilo a faria sofrer e que de forma alguma ela teria poder de escolha sobre os próximos acontecimentos. Em sua mente Dana perguntou: "Por quê?". Um ribombar de trovões respondeu como se viesse dos 4 cantos da terra: "Os 4 Tesouros da Irlanda só têm Poder nas mãos do Casal Divino." E novamente a suave voz de Erin em sua cabeça ecoou: "Lugh e você." Dali por diante seu destino estaria selado e sua alma se resignaria heróica e tristemente ante o que estava traçado. Ela não poderia precisar em que momento o cavalo interrompeu sua caminhada ou de que forma o cavalheiro se materializara à sua frente, claro e nítido, embora ele aparentemente não a visse, iluminado pela luz que emanava de Erin, no bosque ao limite da aldeia, numa noite de pouco luar. "Lugh é o seu nome; a raposa de Lugh; ele é o rei salvador." – disse Erin. Alto e dolorosamente belo, ela o via diante de si e sabia que de um passado de sombras ele emergia de coração puro e alma limpa, nobre e idealista como todos os de sua estirpe, nascidos para lutar e salvar aqueles que jamais suportariam conviver com o alto preço das escolhas que todos os heróis são obrigados a fazer. Essa era a sua sina, a do belo cavalheiro que se delineava na noite escura do bosque, à luz mágica de um ser etéreo, para a jovem druidesa que compreendeu, em um instante, o que eles eram e o que seria, pois sempre o conhecera. Desde que fora criada pelas mãos da Grande Mãe ela o conheceu. E estaria com ele do passado eterno ao futuro longínquo, por eras sem fim. Foi por isso que ela começou a chorar. Pois ao raiar do dia que amanheceria, fora da terra dos sonhos, naquele bosque eles se encontrariam para dar início à Lenda que o Tempo queria recontar mais uma vez. E como em todas as vezes anteriores, ela o perderia. A druidesa chorava porque encontrá-lo significava apenas recomeçar a perdê-lo... A luz de Erin foi ficando distante; ela não ouvia mais em sua mente nenhuma voz. Apenas chorava quando em seu quarto um estranho ruído a acordou. Casa da Agente Dana Scully 07:12 AM As lágrimas molhavam o travesseiro de Dana Scully quando ainda soluçando ela acordou com o som do despertador. Aberto sobre seu peito suas mãos firmemente mantinham "A Senhora de Avalon" de Marion Zimmer Bradley, que ela lera ávidamente na noite anterior, após terminar os 4 volumes da saga "As Brumas de Avalon". Scully levantou meio tonta. Colocou o livro sobre o criado-mudo e lembrou-se do seu sonho. "Um pesadelo muito real"- pensou. "Se não começar a separar melhor ficção e realidade vou acabar achando que evito me envolver romanticamente com Mulder para não perdê-lo, como as sacerdotisas, que dormiam uma noite com os reis que amavam, para vê-los morrer em batalha no dia seguinte, deixando somente uma semente em seu ventre, com a promessa do desabrochar do amor." Ela foi para o banheiro se arrumar. "Mas que bobagem!"- continuou pensando – "Eu não sou uma sacerdotisa e nem Mulder é um rei". Começou a se vestir. "Mas, talvez – ponderou – em meu inconsciente eu veja Mulder como um príncipe, um herói... A Diana como usurpadora... Emily como um anjo." _ Bah! Chega! – ela foi para a cozinha preparar um café – " Isso é só uma desculpa para justificar meu amor platônico! Além do mais, eu sou estéril, não poderia ficar grávida numa noite! E também não é possível que depois de tanto tempo, tanta espera, tanto sofrimento, se finalmente eu e Mulder ficássemos juntos, algo tão terrível acontecesse. Não seria justo que eu o perdesse." Sentada na cadeira, segurando sua xícara na mão, ela concluiu que o destino não poderia ser tão cruel. Se eles realmente viessem a fica juntos, como de fato ela sonhava, com certeza nada os separaria. "Claro que não. São apenas lendas, histórias. Fantasias." Ela pegou sua bolsa e as chaves. Preparou-se para sair, disposta a arcar com as consequências que toda escolha implicaria, pois eram as regras da vida, e encerrou esse assunto em sua mente. PS: Talvez Chris Carter seja a reencarnação de uma divindade impiedosa.