Weird – Parte Final FAN FICTION ESCRITA POR: Bellefleur X (bellefleur_x@hotmail.com) DISCLAIMER: Os personagens desta estória pertencem a seus criadores. Amy, Rosita e Edu são meus e deles não abro mão... CATEGORIA: Shipper (ma non troppo, como sempre!), flertando ligeiramente com a Mitologia e tomando algumas liberdades para com a dita cuja. CLASSIFICAÇÃO: Censura livre (aqui não tem nada que não se veja igual ou pior na novela das 6) SPOILER: Mais uma pós-Réquiem. Da oitava temporada, apenas o nome de John Doggett e sua participação nos Arquivos X. SINOPSE: Continuação de Weird – parte 2. A geometria estava certa e as duas paralelas por onde se deslocavam Sully e Weird/Mulder finalmente se encontram no infinito, com conseqüências bastante interessantes. ADVERTÊNCIA: Essa fic continua não recomendada para diabéticos e pacientes em dieta de restrição de açúcares. AGRADECIMENTO: Um sincero obrigado a todas as minhas quinze leitoras (se cuida, Agamenon, que eu chego lá...) pelos feedbacks que me incentivaram a continuar essa estória. AGRADECIMENTO ESPECIAL: À Graça, pelas idéias que continua me dando e pela estmulante impaciência que tem demonstrado em ler e opinar sobre essa tralha. NOTA: Feedbacks (positivos ou negativos) são sempre bem vindos. Weird – Parte Final "O paraíso está por toda parte e toda estrada nos leva lá se seguirmos por ela tempo suficiente." Henry Miller Virtual Insanity Café – Washington, DC 12/10/2005 – 03:15 PM O rosto no espelho estava pálido como uma folha de papel, o olhar vazio e sem expressão. As mãos crispadas agarravam-se ao mármore da pia com força. Ela respirou fundo, uma, duas vezes. Aos poucos as paredes foram parando de girar a sua volta. Pronto, agora sentia-se melhor. Lentamente, Scully abriu a torneira e deixou que a água fria corresse sobre suas mãos trêmulas. Passou-as molhadas pela pele fria de seu rosto, as gotículas de suor brotando na linha dos cabelos. Ao secá-lo, percebeu que a pequena mancha arroxeada em sua testa, suvenir do desmaio da noite anterior, com a qual gastara uns bons vinte minutos pela manhã usando de toda sua técnica de maquiagem para disfarçar, estava novamente à vista. "Droga!" pensou, enquanto procurava na bolsa o frasco de corretivo. Sentira novamente aquele mal-estar, aquela vertigem. Precisava marcar sua consulta anual de revisão com o oncologista, já seis meses atrasada. Desde que Amy começara com suas febres súbitas, toda a atenção de Scully voltara- se para os cuidados com a filha. Acabara por negligenciar sua própria saúde e agora temia o preço que poderia pagar por essa negligência. Ao menos, o mal-estar não ocorrera às vistas de ninguém, não gostaria de deixar os Pistoleiros preocupados com sua saúde. Prometendo a si mesma que ainda naquele dia agendaria uma visita a seu médico, ela deixou o banheiro feminino. O salão do cyber café não era grande, as dez mesas redondas dispostas de maneira estudadamente aleatória em seu centro eram rodeadas por outras tantas quadradas, encostadas às paredes, sobre as quais estavam os computadores. Uns poucos freqüentadores espalhavam-se pelo local, essencialmente, jovens navegando pela Internet. Byers e Frohike, sentados em uma das mesas redondas, bebiam café fraco e morno em grandes canecas coloridas, enquanto discutiam sobre o último lançamento do Jamiroquai, em XMP4. - Não, definitivamente Virtual Insanity é melhor que Space Cowboy que, por sua vez, é melhor que qualquer coisa que tenha sido lançada nos últimos tempos. - argumentava Byers. - Você é um reacionário, Byers. Vive de passado, rejeita o novo. – reagiu Frohike, puxando a cadeira para que Scully se sentasse. – Tudo bem, agente Scully? – indagou, notando-lhe a palidez. Ela acenou afirmativamente com a cabeça, enquanto, com os olhos, seguia Langly que andava a esmo por entre as mesas, espreitando os monitores por sobre os ombros dos freqüentadores. - Alguma coisa até agora? – perguntou ela, sorvendo um gole de seu chá gelado. - Nada de muito concreto. – respondeu Byers. – Segundo o gerente, esse horário em que foram enviadas as mensagens é um dos mais concorridos aqui do café. É que as aulas de uma escola de inglês para estrangeiros aqui perto terminam a essa hora. Basicamente os freqüentadores são adolescentes de outros países que vêm estudar o idioma e se utilizam dos computadores daqui para contactar seus amigos e familiares. A cada seis meses, mais ou menos, mudam-se as turmas e, com isso, as caras por aqui. - Compreendo... – murmurou Scully, ainda olhando ao redor. As informações de Byers pareciam corretas. O café começava a se encher de rapazes e moças com idades que variavam dos quinze aos vinte anos, alguns conversando entre si no que Scully imaginou que deveriam ser suas línguas natais. Iam ocupando as mesas do centro do salão e revezando- se nas dos computadores. - Agente Scully... – chamou Frohike, apontando para Langly. Este indicava com a cabeça um dos computadores ocupado por um rapaz de cabelos negros. Prontamente, ela se levantou e dirigiu-se até lá. Esticou-se um pouco para poder ver a tela do computador. "D_Scully@fbi.gov" estava escrito no campo relativo ao destinatário da mensagem cujo texto era: "A raposa é esquiva. O galinheiro começa a ficar irritado. Acautele- se." Era ele. Ali estava o responsável por aquelas mensagens esquisitas. Apenas um milésimo de segundo depois que o dedo do rapaz pressionou o botão de Enviar, Scully sacou a insígnia. - FBI. – disse ela em voz baixa. – Eu gostaria de lhe fazer umas perguntas. A tentativa de se levantar do garoto foi imediatamente contida pela mão de Langly em seu braço. - Calminha aí, rapaz. A moça só quer bater um papo com você. - Ah, se vai conversar, libera a máquina... – reclamou uma lourinha sentada em uma das mesas próximas, aparentando pouco mais de quinze anos, que mascava chicletes e falava com sotaque engraçado. - Sua colega tem razão. Acompanhe-me até aquela mesa. Scully caminhou em direção à mesa onde estavam os dois outros Pistoleiros, sendo seguida de perto por Langly que arrastava atrás de si o garoto. - Por que e para quem você estava enviando aquela mensagem, moleque? – indagou Langy, sentando-se ao lado do rapaz, ainda sem largar-lhe o braço. O menino olhava para os quatro ocupantes da mesa com os olhos esbugalhados, a boca aberta, abobalhado. Tinha cerca de dezesseis anos, cabelos e olhos negros, pele dourada. - Você está me entendendo? Fala inglês? Hablas español? – perguntou Byers diante da mudez do rapaz. O garoto acenou com a cabeça que sim, engolindo em seco. Scully sorriu e procurou tranquilizá-lo, colocando sua mão sobre a do menino e falando pausadamente com voz mansa. - Olhe, não precisa ficar assustado. Você não está sendo preso ou algo assim. Nós só queremos lhe fazer algumas perguntas. Eu sou a agente especial Dana Scully, do FBI. E esses são meus amigos Byers, Langly e Frohike. Como é seu nome? - E-e-eduardo. A-álvares. – gaguejou em resposta. - Mas pode me chamar de Edu. - De onde você é? - De São Paulo. Fica no Brasil. – disse o menino já mais calmo. - Ah, por favor, não digam nada ao meu pai. Ele é capaz de me matar se souber que me meti em encrencas com os federais americanos. Por favor... - Fique tranqüilo. – apaziguou a agente. – Só queremos saber sobre aquela mensagem. Você sabe por que e para quem a estava enviando? - Ora, porque a mulher me pediu. Ela dá o texto e o endereço de e-mail do destinatário e pede que a mensagem seja enviada anonimamente. – respondeu Edu. Depois, parou e olhou para Scully por um longo momento, seus olhos se arregalando, lentamente. – "D_Scully"... Dana Scully? FBI? Ai, meu Deus! Era para você, então? Me desculpe, me desculpe mesmo. Scully sorriu diante do arrependimento aparentemente sincero do rapaz. - Mas quem é essa mulher? – insistiu Frohike. - Não sei. – respondeu. – Não a conheço. Ela me manda um envelope com as informações para enviar a mensagem e um cheque. Sabe, ela me paga cem dólares por cada mensagem enviada. Meu pai é pão-duro e esse dinheiro é muito bem vindo para complementar a minha mesada... - E você não achou estranho tudo isso? – perguntou Byers. - Bem, para falar a verdade, achei um pouco, sim. O envelope aparece na caixa de correio de onde eu moro sem selo, nem nada, sabe? Mas... – deu de ombros. - O mais esquisito mesmo é o caminho que o e-mail tem que percorrer... - Como assim? – indagou Scully. - Sabe, ela me deu uma lista de endereços IP por onde o e- mail deve ser encaminhado e exigiu que a mensagem seguisse exatamente por aquele caminho, naquela ordem. Muito esquisito... Deu um pouco de trabalho para fazer o script, mas depois de feito, é mole, é só rodar. – completou exibindo um sorriso orgulhoso. - E como essa mulher, que, segundo você mesmo diz, você não conhece, o encontrou? - Achou que foi por causa dos anúncios que coloquei em alguns quadros de avisos em mercados e lanchonetes, me oferecendo para fazer "trabalhos na Internet". Eu estava pensando em home pages e essas coisas, mas, aí, ela me ligou oferecendo isso e a grana era alta, sabe... Os quatro adultos se entreolharam, desanimados. Parecia que Edu não tinha mesmo muito mais a acrescentar. Afinal, era apenas um garoto tentando ganhar um trocado. - Obrigada, Edu. Se você se lembrar de mais alguma coisa que ache importante ou se a mulher entrar em contato com você outra vez, ligue para mim, ok? – disse Scully, entregando um de seus cartões de visita ao rapaz. Já ia se levantando, quando acrescentou: – A propósito, você é do Brasil, não é? – o rapaz acenou positivamente com a cabeça. – Conhece o Rio de Janeiro? Como é lá? - Uau... – disse o garoto, abrindo um largo sorriso. – Lá é maneiro, meu! - Maneiro!? – Scully meneou a cabeça, com um ar divertido. – Obrigada mais uma vez. Maneiro... – repetiu pensativa enquanto se encaminhava para a porta. Washington, DC 13/10/2005 – 11:10 AM Weird vagava a esmo pelas ruas de Washington a algumas horas. De todas as cidades por onde já passara, essa era, sem dúvida, aquela onde ele sentia- se mais à vontade. Sentia uma familiaridade com suas ruas, prédios, monumentos, como não lhe ocorria em qualquer outro lugar. Talvez já tivesse morado ali, quem poderia saber? Andava sem rumo, mas, aos poucos, foi se tornando claro para ele onde seus pés o queriam levar. Um certo jardim de infância freqüentado por uma certa garotinha de cabelos vermelhos estava a apenas duas esquinas de distância, ele sabia. Não que aquele fosse conscientemente seu destino, porém era onde as pernas o conduziam. Estacou. Queria, sim, queria muito ir até lá, vê-la, sua boquinha miúda, as bochechas rosadas, os olhinhos vivazes. Mas, ao mesmo tempo, acreditava firmemente que não devia. Tinha a certeza de que, se a visse, por um instante apenas que fosse, não poderia mais separar-se de Amy. Deu meia volta e afastou-se na direção contrária, com passos hesitantes, perdendo-se novamente nas calçadas da cidade. Smithsonian Institution - Museu Nacional de História Natural – Washington, DC 13/10/2005 – 01:30 PM Ao lado do ônibus escolar, Sally Mattern tentava bravamente organizar sua turma em uma fila. Árdua tarefa em se tratando de um bando de selvagenzinhos de cinco anos de idade excitados ao extremo pela perspectiva de ver os tais "disnossoros" que havia no museu. - Ai, ai, ai! – exclamou irritada. – Quem não estiver na fila de mãos dadas com um coleguinha quando eu contar três, vai ficar no ônibus esperando o resto da turma visitar o museu, ok? – disse, em uma tentativa desesperada de imprimir ordem ao caos. – Um... dois... três! Como num passe de mágica, ao final da contagem, todas as dezesseis crianças estavam alinhadas aos pares numa fila bem ordenada. Sorrindo satisfeita, "tia" Sally conduziu seus alunos para o interior do imponente edifício. Numa alegre balbúrdia, foram percorrendo os diversos salões repletos de fósseis de animais pré-históricos. A organizada fila que entrara no museu havia se transformado, ao atingirem o segundo andar, num bando de crianças que se amontoavam em torno da guia, ouvindo-lhe atentamente as explicações e, em troca, enchendo-a de perguntas a todo momento. Os outros poucos visitantes do museu não pareciam incomodar-se com a divertida confusão promovida pela passagem das crianças. O Insect Zoo, o salão dos insetos, era o favorito de Amy. Já havia estado ali outras vezes com sua mãe e o conhecia muito bem. Fascinada por uma colméia com "abelhas vivas de verdade" colocada em um caixote de vidro, a menina acabou por afastar-se de seu grupo sem que fosse notada. - Eu acho essa colméia a coisa mais interessante do museu. – disse o homem de cabelos castanhos que observava a vitrine parado ao seu lado. - Eu também. – respondeu a menina sem desgrudar os olhos dos insetos. – Minha mãe disse que as abelhas têm uma das sociedades mais organizadas entre os insetos... – fez uma breve pausa na qual encarou firmemente e desconhecido, estudando-o. - Mas ela não gosta muito de abelhas... Eu gosto! – acrescentou sorrindo. - Você tem bom gosto. – sorriu ironicamente o estranho. – Meu nome é Alex. – completou, estendendo a mão vestida com uma luva negra. - Eu sou Amy. – retribuiu o cumprimento. O homem passou a mão pela gola da camisa, afastando-a do pescoço. Olhou em torno, como se procurasse por algo no ar, antes de encará-la novamente. - O aquecimento aqui está forte demais... Está quente aqui dentro, não é? – disse aproximando-se da menina. – Acho que vou tomar um sorvete. Você quer um também? A criança olhou ao redor procurando sua turma de escola, mas eles já haviam deixado o salão sem dar por sua falta. - Não, obrigada. – Amy começava a ficar ressabiada. - Mamãe sempre diz para eu não aceitar nada de estranhos. - Mas eu não sou estranho. – replicou Krycek, aproximando-se ainda mais da menina. – Eu até conheço sua mãe! Ela é Dana Scully, não é? – perguntou ele, segurando o braço de Amy que começava a recuar, a escapar do estranho. - Ei! Solte meu braço, moço... – reclamou assustada, tentendo desvencilhar- se do aperto da mão enluvada em seu braço. Krycek ajoelhou-se diante dela, segurando-a agora pelos ombros e trazendo-a para perto de si. Seu olhar deixava entrever toda a crueldade de que era capaz. - Olhe, Amy, acho bom você ficar bem quietinha e vir comigo como uma boa menina, se não quiser que sua mamãe fique machucada. – ameaçou com voz rouca, sua boca roçando a orelha de Amy enquanto falava. Abriu ligeiramente a jaqueta de modo a deixar à mostra, apenas por um momento, a pistola presa ao coldre sob seu braço esquerdo. Amy estremeceu. Ela sabia o que era uma arma e o mal que uma daquelas era capaz de fazer. Sua mãe já lhe explicara diversas vezes porque crianças não deviam mexer em armas. A menina lembrava-se de uma vez, havia alguns meses, em que a mãe chegara em casa com um braço enfaixado pendurado em um tipóia e de que lhe contara como aquele ferimento fora produzido por uma arma. Desde então, Amy temia armas. Intimidada pela ameaça contra sua mãe, a menina acabou por seguir Krycek. - Sorria, meu bem. – disse ele ao perceber o ar nervoso da menina. Caminhando de mãos dadas com Krycek, a garotinha tentava afetar naturalidade, ao mesmo tempo em que procurava desesperadamente localizar com o olhar a professora e os coleguinhas de escola. Num dado momento, avistou a "tia" Sally ao longe, no final de um longo corredor, e teve a impressão de que a professora olhava diretamente para ela. Respirou mais aliviada, imaginando-se salva, quando a "tia" e toda a turma desapareceram por uma porta do corredor sem ao menos vê-la. Krycek andava rápido, praticamente arrastando atrás de si Amy que se esforçava para acompanhar o ritmo feroz das passadas do adulto com suas perninhas curtas. Mas ninguém parecia perceber o que se passava. Próximo à saída do edifício, a menina avistou o que parecia ser sua última esperança de salvação. Um guarda de segurança de cara emburrada parado junto à porta olhava atentamente todos que passavam por ele. Numa tentativa desesperada de chamar sua atenção, Amy começou a fazer a única coisa que lhe ocorrera: caretas. Obteve sucesso em atrair a atenção do segurança, arrancou-lhe um sorriso. Mas, para azar seu, atraiu a de Krycek também. - Engraçadinha... – disse ele com um sorriso forçado, aumentando a pressão com que apertava a mão da menina. Já haviam ganho o lado de fora do edifício e andavam pela calçada em direção ao estacionamento, quando Amy viu um homem alto, sentado, de costas para ela, em um banco do outro lado da rua. Seu coração pulou descontrolado dentro do peito. Do outro lado da rua, Weird sentava-se em um banco num ponto de ônibus, imaginando para onde ir. Já havia passado pelo Monumento a Washington, pelo Memorial de Lincoln e a Casa Branca, vagando atordoado por entre as lembranças confusas que aqueles locais lhe despertavam. Rostos e nomes iam e vinham em sua cabeça sem que ele pudesse associá-los entre si. Garganta Profunda, X, uma mulher com longos cabelos louros, Diana, o homem com o cigarro, Melissa, Samantha... Depois de muito vagar, finalmente, chegara ali, ao Smithsonian. Contemplara longamente a imponente construção com suas altas torres de tijolos vermelhos e, depois, sentara-se para descansar. Um leve arrepio em sua nuca o fez girar o pescoço e olhar para trás, antes mesmo que ouvisse seu nome sendo gritado. - Weeiird! – berrou a menina, arrancando com um puxão a mãozinha do forte aperto de Krycek. Weird levantou-se com um salto, bem a tempo de ver Amy correr em sua direção perseguida por um homem que usava óculos escuros. O perseguidor agarrou a garotinha pela cintura e a ergueu do chão como se não pesasse mais do que uma pluma. A menina, que lutava bravamente para desvencilhar-se de sua prisão, conseguiu arrancar-lhe os óculos do rosto, revelando- lhe os olhos verdes estreitados pela ira. Weird atravessava a rua sem se preocupar com o tráfego, corria por entre os automóveis sem desgrudar os olhos de Amy e seu agressor. A visão daquele rosto provocou uma avalanche de recordações dolorosas em sua mente. - Krycek, maldito! – rosnou por entre os dentes, subitamente reconhecendo num lampejo seu antigo desafeto. Ao dar de olhos com Mulder, correndo por entre os carros, Krycek saiu em disparada para o estacionamento, carregando Amy. Mulder alcançou a calçada próxima, no momento em que o outro homem jogava a menina para dentro do automóvel. Ao percebê-lo a poucos passos do carro, Alex Krycek sacou sua pistola e disparou contra o homem que corria, pulando, a seguir, no interior do carro e deixando o local em alta velocidade. Mulder havia se desequilibrado na tentativa de escapar do disparo. Tentou ainda, por um quarteirão inteiro, perseguir o automóvel em fuga. Correndo às cegas, acabou se chocando com um pedestre que caminhava em direção contrária e caindo, estatelado, no pavimento. - Mulder!? – tartamudeou um incrédulo Byers que se erguia do chão, limpando as calças. - Sim, acho que sim... – murmurou Mulder, ainda atordoado. - Byers, dos Pistoleiros Solitários! – disse, indicando a si próprio com um gesto. – Lembra-se de mim? Acenando com a cabeça, Mulder erguera-se do chão e começava a andar com ar perdido na direção em que o automóvel de Krycek havia desaparecido. Sem nada entender, o Pistoleiro o deteve, segurando seu braço. - Onde você vai? - Krycek... – murmurou Mulder, num fio de voz. – ... ele pegou a filha de Scully... Sede do FBI - Washington, DC 13/10/2005 – 03:58 PM - Agente Scully, eu não compreendo... – Skinner olhava para Scully sentada do outro lado da mesa, em seu gabinete, tentando imaginar o que se passava na mente da agente de cabelos vermelhos. – Por que precisa localizar Marita Covarrubias, depois de tanto tempo? Scully suspirou desanimada. Tantas vezes antes, nos últimos anos já se prestara àquele mesmo papel, que já perdera as contas. Não era a primeira, mas ela sinceramente esperava que fosse a última vez que vinha pedir ao diretor assistente Skinner informações aparentemente disparatadas que ela esperava conduzirem até Mulder. Ele devia achá-la louca a essa altura dos acontecimentos. Que fosse! O fato é que não desistiria até encontrar o parceiro. Pacientemente, começou a explicar tudo novamente. - Como já lhe falei, senhor, tenho recebido esses e-mails estranhos... - Que me parecem ser apenas trotes, mais uma vez... – interrompeu Doggett com ar entediado. Seu aparte infeliz foi silenciado pelo olhar fuzilante de Scully que começava a se perguntar por que o convocara, também, para aquela reunião. - Por favor, agente Scully, continue. – incentivou o diretor adjunto percebendo a irritação que começava a tomar a mulher. - Pois bem. – continuou ela. – Com a ajuda dos Pistoleiros Solitários, consegui rastrear os e-mails até sua origem e acabei encontrando o menino brasileiro de que lhe falei, que foi pago para enviá-los. - Se o Congresso, ao invés de ficar se preocupando com soja transgênica, já tivesse aprovado as leis de regulamentação da Internet, poderíamos enquadrá-lo... – bufou Doggett, interrompendo mais uma vez. - Doggett!? É apenas uma criança! – replicou Scully irritada. Tentando ignorar o homem sentado ao seu lado, ela prosseguiu. – O menino foi pago por uma mulher desconhecida para enviar essas mensagens. Uma mulher exigente que não se fez conhecer ao menino, mas deixou uma espécie de assinatura na forma do caminho que exigiu que as mensagens percorressem. - Como assim? – indagou Skinner, intrigado. Doggett tamborilava impaciente os dedos nos braços da cadeira. Às vezes aquelas atitudes paranóicas da parceira o deixavam profundamente irritado. Cinco anos já haviam sido gastos em buscas inúteis por Fox Mulder. Por que ela não desistia daquela procura idiota e se convencia de uma vez por todas de que o homem estava morto? Por que ela insistia em prosseguir naquela cruzada solitária por alguém que a havia voluntariamente abandonado? Por que ela teimava em não perceber que era ele, John Doggett, quem estava ali, ao seu lado, disponível, disposto a protegê-la, consolá-la, amá-la? Os dedos apertaram fortes os braços da cadeira. - Uma lista de endereços IP, - continuou Scully, - cada um em uma cidade diferente pelo mundo. Veja, senhor. – disse ela, indicando uma folha de papel sobre a mesa. – Andei pensando muito sobre isso. Marquei os pontos no globo e no planisfério, procurando por padrões, mas foi em vão. Até que me ative apenas à lista de nomes em si. - Mas o que isso tem a ver com Marita Covarrubias? Ainda não consegui acompanhar sua linha de raciocínio, Scully. - Observe, senhor: Washington, Santiago, Atenas, Iekaterinburgo, Berna, Udine, Riad, Recife, Adis Abeba, Varsóvia, Oslo, Copenhague e Washington. - Huumm? – Skinner olhava para a folha sem nada entender. - Agora, remova Washington do início e do final da lista e considere apenas a letra inicial de cada nome, senhor. - S-A-I-B-U-R-R-A-V-O-C... Covarrubias, se lido ao contrário! – exclamou Skinner. - Sim! – incentivou Scully. - ...E as mensagens falam em raposa... Fox... Mulder! – completou o diretor, feliz com uma criança que acabou de encaixar a última peça de um quebra-cabeça. - Isso, senhor! Compreende agora porque preciso encontrar Marita Covarrubias? É muito provável que... O ruído agudo da campainha do telefone celular sobressaltou Scully. Ela, que havia esquecido de desligá-lo quando entrara na reunião, como sempre fazia, ficou imediatamente apreensiva quando percebeu que a chamada provinha da escola de sua filha. – Desculpem-me um instante. – levantando-se e afastando-se para um canto da sala para atender o telefone. – Scully. ... Sim... – sua fisionomia ia se modificando com o que era dito do outro lado, a voz se tornando mais grave, preocupada. - Mas como ela pôde?... Não, não... Compreendo... Estou indo já para lá! Obrigada. Scully respirou fundo tentando permanecer calma, a agente especial do FBI lutando para manter sob controle a mãe de Amy. Os dois homens na sala assistiam àquela batalha interior que se travava na mulher, sem nada dizer. Quando ela falou, sua voz lhe saiu rouca, carregada de preocupação. - Preciso ir. Amy desapareceu durante um passeio da escola. - Há algo que possamos fazer para ajudá-la, Scully? – perguntou Doggett, reassumindo outra vez o papel de colega solícito. Ela apenas sacudiu a cabeça, negando, o olhar inexpressivo. - Vá, Scully. – ordenou suavemente Skinner, percebendo a gravidade da crise. - Caso precise de algo, qualquer coisa, é só dizer, ok? Ela assentiu distraída com a cabeça, enquanto deixava a sala. Seus pensamentos já voavam muito longe dali, imaginando o que poderia ter acontecido à menina. Rezava com toda força para que fosse apenas uma traquinagem da filha, mas seu coração insitia em lhe dizer o contrário. Amy sempre fora uma criança bem comportada, obediente, um pouco distraída, às vezes, mas não deixaria voluntariamente de atender ao chamado da professora. Algo havia acontecido, algo sério, ela tinha certeza. Afinal, a contabilidade de suas perdas tinha um saldo tão alto, tão pesado, que ela tremia apenas em pensar nas possibilidades. Lutava contra as lágrimas enquanto dirigia seu carro para o Smithsonian. Ia revivendo toda a angústia pela qual passara em Sacramento, procurando sua filhinha em meio às ambulâncias. Mas, ao contrário daquela ocasião, dessa vez não sabia exatamente aonde procurar. A menina simplesmente havia desaparecido sem deixar vestígios. O museu era apenas um ponto de partida para a busca. Tão imersa estava em seus pensamentos e angústias, que por pouco não ouviu o toque do celular. - Scully. – atendeu sem convicção. - Aqui é Frohike, agente Scully. – disse a voz do outro lado da linha. – Você precisa vir até aqui imediatamente. - Impossível, Frohike. Amy desapareceu... – a voz era pouco mais que um sussurro. – Preciso procurá-la. - É justamente por causa disso que precisar vir aqui. - Ela está aí? – perguntou esperançosa. - Não, mas... O telefone ficou mudo. Irritada, Scully percebeu que a carga da bateria do celular havia acabado antes que ela conseguisse obter mais informações de Frohike. O que ele saberia sobre o desaparecimento da menina? Imediatamente, tomou o rumo do QG dos Pistoleiros. QG dos Pistoleiros Solitários – Washington, DC 13/10/2005 – 04:33 PM Vista pelo olho mágico, Dana Scully parecia ainda menor do que realmente era, refletia Frohike. Brincava nervosamente com os botões de seu blazer enquanto ouvia o estalar das dezenas de fechaduras, trancas e travas da porta do QG dos Pistoleiros. Quando a última das trancas foi desfeita e a porta finalmente se abriu, a mulher praticamente saltou para dentro da sala, obrigando Frohike a recuar assustado. - Muito bem, Frohike. Desembuche! – ordenou imperativa. – Onde ela está? As grossas lentes do óculos faziam com que os olhos do Pistoleiro parecessem ainda mais esbugalhados. - Calma, agente Scu... - Calma? Como posso ficar calma? – descontrolou-se ela. – Minha filha desapareceu. Eu estou indo procurá-la e você me liga dizendo para vir para cá com urgência. E agora fica aí me olhando com esse olhar apatetado. Tenha a santa paciência, homem! – O tom de sua voz ia se tornando cada vez mais agudo à medida que dava vazão a todo o seu nervosismo. – Por Deus, Frohike... Diga alguma coisa! A mão que pousou com suavidade em seu ombro, roçando de leve seu pescoço, fez a voz morrer-lhe na garganta. Não quis acreditar em suas sensações. Por dezenas de vezes havia sentido aquele toque em seus pensamentos. Mas fora apenas isso, sua imaginação lhe pregando peças. Dessa feita, porém, o toque parecia bastante real. Ela forçou-se a virar-se lentamente para encarar o dono daquela mão, como se temesse seu própro gesto. - Oi. – ele disse simplesmente, parado de pé diante dela. Vestia jeans e camiseta, emprestados dos Pistoleiros. A barba por fazer acentuava a magreza dos rosto cansado. Estava exatamente do modo como ela costumava vê-lo nos loucos sonhos que sempre tivera sobre seu retorno. Aqueles em que ela atendia a porta de seu apartamento e lá estava ele, parado, com um "oi" e um sorriso, como se nada houvesse acontecido. Ela o fitava, muda, paralisada. Mesmo que a voz lhe saísse da garganta, não saberia o que dizer. Mesmo que conseguisse se mover, não saberia o que fazer. - Não maltrate o pobre Frohike assim, Scully. – ele sorria. A mão, inicialmente pousada no ombro da mulher, agora deslizava pelo braço dela, fazendo uma breve parada em seu cotovelo. – Se você o deixasse falar, talvez ele conseguisse lhe dizer o que você quer saber. – continuou. A mão voltara a mover-se e agora segurava a mão de Scully, deslizando os dedos longos numa gentil carícia pelas costas da mão dela. - Mulder... – ela pronunciou finalmente, a voz sufocada. - Sim. – respondeu, rouco. – Embora Weird ainda faça visitas esporádicas. – completou, com um sorriso sem graça, envolvendo-a em um abraço terno lavado pelas lágrimas quentes e silenciosas que ambos não mais desejavam conter. Ela aninhou a cabeça ao peito de Mulder, aprisionando-o com os braços, como para que evitar que se evadisse. Ele enterrava seu rosto na sedosa cabeleira de Scully, aspirando-lhe o perfume profundamente, enchendo seu peito de vida com a fragrância da mulher. Langly e Byers, que a tudo observavam de um lado da sala, disfarçavam, remexendo a esmo nos objetos da bancada a sua frente, enquanto Frohike sorrateiramente enxugava uma furtiva lágrima. - Amy... – ela falou finalmente, afastando a cabeça do peito de Mulder e erguendo-a para olhá-lo nos olhos. - Eu sei... – disse penosamente. – Eu vi... Alex Krycek... Tentei impedir... – seu semblante contraía-se em desespero, impotência, enquanto falava. - Não consegui... Os olhos de Scully desmesuradamente abertos faíscaram irados. - Maldito! Maldito! Maldito! Scully respirava com força. Havia se desprendido dos braços do parceiro à menção do nome de Krycek e agora andava de um lado para o outro pela sala, as mãos outra vez brincando nervosas com os botões do casaco. Tinha as mandíbulas contraídas e ventos de tempestade varriam o oceano azul de seus olhos. Estacou de súbito, um profundo sulco vincando sua bela fronte. - Covarrubias! Eu devia ter desconfiado... Aquela loura dissimulada não podia andar muito longe do rato que é seu amante. – sibilou. - Não entendi... - É uma longa história... - E começou a relatar todo o episódio das mensagens, passando por Edu Álvares e pela relação de endereços IP e respectivas cidades. Ele ouvia a tudo silencioso e atento. Quando o relato se encerrou, ela quase podia ouvir o ruído das engrenagens do cérebro do parceiro lutando para processar rapidamente as informações recebidas. Deus, como ela sentira saudades de observá-lo naquela atitude, totalmente absorto em pensamentos e divagações até que se saía de repente com alguma conclusão esdrúxula... - É a mim que eles querem, Scully. A mim... – ele disse finalmente, seu semblante transtornado pela crueza da constatação. Para reforçar seu ponto, foi a vez dele relatar o episódio com os dois homens, o ataque e a tentativa de assassinato que sofrera dias atrás. – Droga! – completou ele ainda mais transtornado. - Eles não têm o direito de usar sua filha para me pegar... "Sua filha!? NOSSA filha!", ela teve vontade de gritar. Mas controlou- se, não era o momento apropriado para que tais sutilezas semânticas. A conclusão a que Mulder chegara, no entanto, não fora esdrúxula em absoluto. - Pode ser... – ela acrescentou pensativa. – Mas quem seriam "eles" e por que quereriam pegar você? - Eles, Scully, o Sindicato. Pelos mesmos motivos de sempre. Devem me considerar uma ameaça de alguma espécie, sei lá! - Mulder, o Sindicato foi extinto, juntamente com todos os seus membros, há cinco anos atrás pelos homens sem face, lembra? – ela falou pacientemente. - Extinto, não. Restou o Canceroso. E Krycek. - O Canceroso está morto, Mulder. – ela falou em voz baixa. - Muita coisa aconteceu nesses últimos cinco anos... Uma sombra de melancolia perpassou o semblante de Mulder ante às muitas possibilidades veladas nas palavras de Scully. Quantas revelações indesejáveis, ao menos para ele, poderiam estar ocultas por trás daquelas palavras... Para ele, Mulder, o relógio parara em algum instante naquela floresta em Bellefleur, no Oregon, e somente retomara seu tique-taque convencional havia alguns meses. O tempo para o resto do mundo e, principalmente, para Scully, o foco de sua atenção, no entanto, prosseguira inexorável em seu fluxo normal. A vida continuara. Por exemplo, se havia uma filha, ela devia ter um pai e Scully, possivelmente, um marido. Talvez aquele seu antigo amante, o médico. David, Daniel, não lembrava o nome ao certo. Talvez outro qualquer. Quem a poderia culpar? Cinco anos eram muito tempo. As coisas mudam... As pessoas mudam... Os sentimentos mudam... Ele procurou afastar aqueles pensamentos angustiantes de sua mente e mantê- la focada no problema imediato que urgia ser resolvido. - Enfim, Amy está desaparecida e Krycek a levou. Disso eu tenho certeza. – falou, procurando imprimir um tom de conclusão às palavras. – Além disso, a única outra pista que temos são essas mensagens que conduzem a Marita Covarrubias. Como podemos localizá-la? - Pedi ajuda a Skinner para obter essa informação. Vou ligar para ele, ver se conseguiu algo. - Nós podemos tentar rastreá-la na rede. – interferiu Langly. – Ela deve ter algum registro, cartões de crédito, conta em banco, qualquer coisa... Condado de Bowie, Maryland 13/10/2005 – 05:42 PM O automóvel descia vagarosamente a rua, procurando pelo número correto. 435, 437, 439... - É essa! - exclamou Mulder, diante do número 441. Scully estacionou o veículo diante da bela casa térrea. Um bem cuidado gramado arrematado por frondosas roseiras plantadas sob as janelas estendia-se desde a calçada até o pórtico. Uma ampla varanda em cujas quinas pendiam delicados sinos de vento arrematava a fachada elegante, pintada em tom de salmão claro. Mulder e Scully tocaram a campainha ao lado da grande porta laqueada em branco encimada por uma bonita aldraba de metal dourado e aguardaram. Fora mais fácil do que eles poderiam supor obter o endereço de Marita Covarrubias. Um simples telefonema de Scully ao Diretor Assistente havia sido suficiente para tanto. "Fácil demais", remoía Mulder em seus pensamentos. - Si? - indagou a roliça senhora de cabelos negros e olhos amendoados que lhes abriu a porta. - FBI. - disse Scully, mostrando-lhe a insígnia. - Procuramos pela senhorita Covarrubias. - Deve haver algum engano, senhora. Esta é a residência dos Fletcher. - respondeu polidamente a mulher. - Fletcher? ... A sra. Fletcher por acaso não se chamaria Marita, chamaria? - perguntou Mulder, com aquele sorriso estudado que ele exibia quando queria derreter o coração das mulheres. O truque funcionou. A mulher de aparência hispânica exibiu um sorrisinho tímido de virgem recatada. - Ah, si! - seu rosto iluminou-se em um sorriso largo. - Si, o nome de solteira de Doña Marita é Covarrubias, como não? Essa cabeça oca falha de vez em quando. Me desculpem. Soy apenas uma pobre velha. - justificou- se, ainda sorrindo. - E a senhora Fletcher está em casa? Poderíamos vê-la? - Ah, si, senhora. Doña Marita está lá na copa, dando de comer a los chicos. Entrem, por favor. - respondeu, abrindo-lhes passagem. - Por favor, diga a ela que os agentes Mulder e Scully, do FBI, desejam lhe falar. - Mi nombre és Rosita. Aguardem aqui um instante que irei chamar Doña Marita, si? Enquanto a mulher desaparecia por uma porta de vidro com passos surpreendentemente macios para alguém com seu peso, os dois agentes se entreolharam espantados. - Chicos? - comentou Mulder divertido. - Acho que batemos em porta errada, Scully. A única resposta da ruiva foi uma risada abafada, uma vez que Rosita já entrara na sala outra vez com seus passinhos leves. - Doña Marita pediu que eu os leve até ela. - falou, sempre sorrindo. - Sigam-me, por favor. - disse, novamente desaparecendo pela porta. Os visitantes tiveram que se apressar para não perder a pequenina mulher de vista no interior da casa espaçosa e decorada com requinte e conforto. Não havia uma parede sem quadros ou uma mesinha ou aparador que não ostentasse um belo jarro com flores frescas. Todos os aposentos eram sóbrios e elegantes como se saídos de uma revista de decoração. Encontraram Marita Cavorrubias, agora Fletcher, em uma ampla sala de almoço com paredes forradas de papel listrado em branco e verde musgo. Uma mesa redonda cercada por seis cadeiras laqueadas em branco dominariam a cena, não fossem pelos três cadeirões, cada qual com se respectivo ocupante. Três lindos e rechonchudos bebês com vivos olhos negros e basta cabeleira loura disputavam, aos berros, suas colheradas de comida. Quem conhecera Covarrubias como Representante Especial do Secretário Geral das Nações Unidas, sempre trajada em elegantes tailleus de caimento impecável, invariavelmente assinados por costureiros famosos, não a reconheceria ali, em seu vestido caseiro estampado de flores miúdas. As manchas de sopa de tomates espalhavam-se por seu colo, seus braços e seu rosto, a cada nova tentativa de alimentar os inquietos pequeninos. - Doña Marita, os visitantes. – introduziu Rosita. - Gracias, Rosita. Você pode ir agora. – disse, aguardando a saída da empregada. – Agente Mulder, Agente Scully. Há quanto tempo não os vejo! A que devo a honra de sua visita? - Belos bebês! São os seus, Marita? Que idade têm? – perguntou Mulder, novamente exibindo seu sorriso sedutor. - Obrigada! Os trigêmeos vão fazer um ano no próximo mês. – respondeu gentilmente. – Mas quanta indelicadeza a minha! Sentem-se, por favor. – disse, apontando as cadeiras. Scully sempre se irritava quando o parceiro usava daquelas técnicas de sedução em seus entrevistados. Irritava-se, especialmente, quando se tratava de entrevistadas. Por muito tempo não quisera admitir, mas agora seria capaz de assumir abertamente que seu mal eram ciúmes. - Não estamos aqui em visita social, Covarrubias. – atalhou ríspida. – Onde Krycek está escondendo minha filha? A expressão de espanto da loura foi real. - Desculpe-me, mas não faço a menor idéia do que você está falando. Eu nem... - Você é uma péssima mentirosa, Covarrubias. Onde está minha filha? – impacientou-se Scully, já avançando em atitude belicosa em direção à outra mulher. Assustados pelo tom da conversa, um após o outro, os bebês começaram a chorar. Mulder deteve a parceira, segurando-lhe o braço, enquanto Covarrubias tentava silenciar as crianças. O olhar que Scully dirigia à loura era puro fogo do inferno e danação. - Calma, Scully. Vamos ver o que ela sabe antes de atacar. – sussurou Mulder em seu ouvido. Em vão, Marita tentava acalmar os pequenos. Mesmo quando conseguia fazer com que um deles parasse de chorar, o simples fato dos outros dois estarem ainda em prantos era o suficiente para fazer com que o primeiro retomasse o berreiro. Além do que, no máximo, cabiam dois bebês em seu colo, tornando- se impossível silenciar os três simultaneamente. Num rasgo de desespero, a mãe tomou o bebê vestido em vermelho e o entregou a Mulder. - Huey. – disse ao homem, enquanto ele o tomava no colo. - Ssshh, nenenzinho... – murmurou ele, balançando a criança. - Dewey. – apresentou Marita, entregando a criança de azul a Scully, que encarregou-se imediatamente de embalar o bebê. - E esse é Louie. – acrescentou pegando no colo o menino vestido de verde. Mulder e Scully entreolharam-se, enquanto Marita ocupava-se do bebê. Huey, Dewey e Louie, essa não... Dessa vez, foi fácil acalmar os pequenos. Como que por encanto, passados dois ou três minutos de embalos e palavras suaves, estavam calados e sonolentos. Um a um foram recolocados em seus lugares pela mãe que, vencida, acabou por chamar Rosita para terminar de alimentá- los. Conduziu, então, os dois agentes de volta à sala onde haviam aguardado quando chegaram. - Desculpem-me pelo inconveniente. É difícil controlá-los quando ficam assim. – disse, limpando os respingos de sopa do rosto e dos braços com um paninho. Scully estava visivelmente irritada com aquela situação. Agitava-se impaciente ao lado de Mulder. Antes que pudesse dizer algo, o parceiro apertou forte sua mão e tomou a palavra. - Muito bem, Marita. O que nos traz até aqui é que Alex Krycek seqüestrou a filha de Scully e... - Filha, agente Scully? Eu não sabia que você tinha uma... – interrompeu Covarrubias, obtendo como resposta apenas as fagulhas do olhar da outra mulher, cuja mão Mulder ainda segurava, tentando conter seus arroubos. - Sim. - continuou ele. – E tudo nos leva a crer que você, Marita, pode saber de seu paradeiro. - Não, juro que não. Por Deus, - acrescentou, fazendo o sinal da cruz, - podem acreditar que não sei de nada. Há cerca de quatro anos rompi com Alex e, desde então, não tenho mais notícias dele. Um pouco mais tarde, conheci Adam Fletcher, um empresário do ramo de seguros. Um homem maravilhoso que me ama pelo que sou, do jeito que sou, sem interessar-se por meu passado. Casei-me e, depois, vieram os trigêmeos... Sou outra pessoa agora. Sou uma mulher feliz e vivo em função de meu marido e meus filhos. – olhou nos olhos de Scully. - Acredite-me, Scully, nada sei sobre as atrocidades de Alex e, se soubesse de algo, o que quer que fosse, tenha certeza que você seria a primeira a saber. Raptar uma criança? Ele deve ter enlouquecido... Imagino se fossem meus filhos... Que dor imensa você deve estar sentindo... – completou com os olhos marejados. Por mais incrível que parecesse, Scully acabou por convencer- se da sinceridade de Marita, quando esta tomou-lhe as mãos entre as suas e as apertou, numa tentativa de transmitir-lhe força e alento. - Desculpe insistir, Marita. Mas você que conviveu com Krycek por tanto tempo, não teria um palpite a nos dar sobre onde ele poderia estar escondendo Amy? – insistiu Mulder. - É difícil... Alex é uma criatura imprevisível... – sua expressão era pensativa. – Não, não posso imaginar. Sinto muito. – O choro agudo de uma das crianças se fez ouvir naquele instante. - Se houver algo mais que eu possa fazer... - Obrigada, Marita. Do fundo do coração... – agradeceu Scully mansamente. – Vamos, Mulder? – sua expressão era de total desconsolo. O homem assentiu com a cabeça e levantou-se, envolvendo com um dos braços os ombros da parceira, como se a amparasse, enquanto dirigiam-se de volta ao carro estacionado. Marita Covarrubias observou pela janela o casal que entrava no automóvel e partia sob a luz sanguínea do crepúsculo. - Ah, Alex, Alex... – murmurou consigo mesma. – Será que não vai haver um fim? Arredores de Washington, DC 13/10/2005 – 07:52 PM O automóvel percorria veloz as largas avenidas fartamente iluminadas que conduziam ao centro de Washington. Seus ocupantes seguiam silenciosos, ensimesmados cada qual em seus pensamentos. Scully esforçava-se por manter-se concentrada no ato de dirigir pelo caminho de volta. Lutava para manter sob controle as emoções que insistiam em querer dominá-la. Sabia que precisave ser fria, racional, conservar a mente alerta, se quisesse encontrar pistas que a conduzissem à filha. Mas não podia evitar de ter os olhos constantemente rasos d'água da angústia que a consumia. Por que tinha sempre de ser assim? Reencontrava o homem de sua vida, mas, em troca, devia dar sua filha... Não teria ela direito à felicidade? Por que Deus lhe negava esse direito? Por que estar ao lado de Mulder implicava sempre em perda e sofrimento para ela? Não, não estava sendo justa. Ela o seguira por vontade própria nos sete anos em que trabalharam juntos. Não poderia imputar a ele as perdas que havia sofrido naquele período. Ele não a havia obrigado a segui-lo em sua cruzada. Ela o fizera por que assim o quisera, por curiosidade, por vaidade... Não era justo querer culpá-lo. Ele lhe dera o que ela tinha de mais precioso em sua vida: Amy. Depois, devolvera-lhe Amy das chamas. Devolvera-lhe a fé na vida, no amor. Scully tinha medo de olhar para o lado, de encará-lo. Temia descontrolar- se, dar vazão ao pranto que com tanta dificuldade vinha contendo. Não precisava ver seu rosto para perceber sua angústia. Ele sofria como ela. Sentado no banco do carona, Mulder seguia imerso em pensamentos. As memórias voltavam-lhe aos poucos. A culpa, que lhe oprimia pesada o coração, voltava com elas. Quantas perdas infligira à mulher sentada ao seu lado por sua teimosia, seu egoísmo, sua insana busca por uma verdade que não havia? Melissa, Emily, seu câncer... Agora sua filhinha, Amy... Quanto sofrimento havia causado àquela mulher que amava tanto! Como poderia sentir-se ofendido se ela tivesse outro alguém agora? Como, se nunca lhe dissera que a amava, se durante tanto tempo nem para si mesmo fora capaz de dizê-lo? A vira sofrer e compartilhara de seu sofrimento. A vira fenecendo, apagando-se lentamente diante de seus olhos e quisera morrer com ela, por ela. Mas nunca, nem diante de sua tristeza, nem diante de sua alegria, fora capaz de pronunciar as três palavras que teriam o mágico poder de mudar sua vida. "Eu te amo." Tão pouco... Tanto... A única verdade que havia ficado de sua busca... Fora um fraco, um covarde. E agora era tarde demais para mudar aquela situação. Rua 46 – New York City, New York 13/10/2005 – 08:08 PM - Sim, é verdade. Ele o fez. – dizia o homem do cachimbo ao telefone. Estava sozinho no escritório, sentado na confortável cadeira de couro. De costas para a bela escrivaninha de mogno entalhado, observava as luzes dos arranha-céus lá fora através da janela. – Sim... Eu disse aos outros. Ele enlouqueceu. ... Concordo que Fox Mulder pode ser perigoso para nossas operações, mas raptar uma criança... Seu rosto se contraiu com o que ouvira pelo telefone. Voltou- se bruscamente para a escrivaninha, tomando uma caneta nas mãos. – É claro que não foi com nossa aprovação! Não é assim que agimos atualmente! Batia nervosamente com a caneta na escrivaninha. – Como quiser... – rabiscava agora furiosamente no bloco de notas. – Faça como quiser! Desde que não nos envolva nisso, pode tomar a providência que quiser! – completou, recolocando o telefone no gancho com força. Sua expressão contrariada revelava toda sua irritação. - Droga! Droga! Droga! – murmurou para si mesmo. Arredores de Washington, DC 13/10/2005 – 08:33 PM Estava escuro, muito escuro. A escuridão era tão densa que ele a podia sentir infiltrando-se pegajosa por seus olhos, seus ouvidos, sua pele. Caminhava às cegas, tropeçando em obstáculos invisíveis que se interpunham entre ele e seu objetivo. Avançava penosamente em meio à escuridão, tentando vencer os percalços, buscando. Sabia que ela estava lá, podia senti-la. Por isso avançava, a qualquer custo. Subitamente, a escuridão total encheu-se de uma luz branca, tão clara que queimava suas retinas. Ele conhecia aquela luz. Ele a temia. E, por essa razão, a despeito da intensa dor que a claridade provocava, não fechou os olhos. Precisava localizá-la antes que a luz o fizesse. E foi então que a viu, sentada encolhida em um canto. Seus olhinhos cinzentos olhavam diretamente para dentro dos seus e pareciam dizer "Estou aqui". - Mulder. – chamou Scully, tocando de leve em seu braço. – Você está bem? Ele estremeceu, arrancado do transe. Estava pálido, a testa e o contorno do lábio superior perolados por um suor frio. Sentia-se cansado, sem forças, como se submetido a um grande esforço. - Eu a vi... – murmurou com dificuldade. Scully aproveitou a parada em um sinal vermelho para observá- lo com cuidado. Tinha a fisionomia transtornada, os olhos esgazeados. - Amy? – ela perguntou com um fio de voz. Ele simplesmente concordou com a cabeça e estremeceu mais uma vez. No instante seguinte, começou a vasculhar a rua com o olhar alucinado, agitando freneticamente a cabeça, como um louco. Ela temeu por sua sanidade. O sinal abriu e ela movimentou o automóvel. - Entre à direita, Scully. Aqui! – ordenou subitamente. Ela obedeceu, por impulso. - Por quê? – inquiriu em seguida, a razão voltando a falar mais alto. – O caminho de volta ao QG dos Pistoleiros era seguindo em frente... - Não sei porquê. – ele disse com uma voz distante, sem entonação. – Apenas sinto... Haviam saído da larga avenida iluminada que vinham seguindo e avançavam por ruas cada vez mais estreitas e escuras seguindo as orientações de Mulder. Rodavam por ruas desertas, repletas de galpões abandonados e construções em ruínas. O lado feio, triste e sujo da metrópole. Prosseguiam vagarosamente. De tempos em tempos, o homem no banco do carona estremecia, para, em seguida, agitar-se freneticamente, procurando. E transmitir mais uma direção. "Direita. Esquerda. Em frente." A campainha aguda do celular de Scully cortou o silêncio. - Mamãe... – disse a vozinha assustada no outro lado da linha. - Amy? Você está bem? – o coração parecia querer saltar-lhe pela boca ao ouvir a voz da filha. – Onde você está? - Estou bem, mamãe... - Agora chega! – fez-se ouvir a voz de Krycek. - Filho da mãe! – disse Scully, rilhando os dentes. Uma gargalhada ecoou no telefone. - Agente Scully! Sempre tão agradável... – disse o homem com ironia. - Onde está minha filha, Krycek? – Eu tenho uma coisa que você quer. – ele continuou, a ignorando. - Você tem uma coisa que eu quero. Proponho uma troca... - Onde ela está? – ela quase gritava ao telefone. - Aqui... – murmurou baixinho Mulder, segurando seu braço. Apontava para o parque de diversões abandonado diante do qual ela havia parado o carro. - E então, Dana? O que você me diz? – dizia a voz de Alex Krycek ao telefone. – Uma garotinha bonita e inteligente como a sua Amy não vale uma troca? Antes que ela pudesse responder, Mulder já havia tomado o telefone de suas mãos. - É a mim que você quer, não é mesmo, Krycek? – sua voz era firme. Os olhos cinzentos ostentavam o brilho característico do olhar de Fox Mulder. – Diga apenas onde e quando. A gargalhada novamente se fez ouvir do outro lado da linha. - Mulder? Não perde essa mania de parecer tão estóico, hein? – o sarcasmo das palavras destinava-se a irritar o outro homem. - Quando e onde, Alex. – atalhou Mulder. - Amanhã, às dez da manhã. No Memorial a Lincoln. - Ok. - E, Mulder? - Sim. - Sem truques ou essa bela princesinha não vai viver para dar seu primeiro beijo na boca... – ele acrescentou, desligando em seguida. Scully, ao lado de Mulder, mordia os lábios nervosamente. A expressão transtornada retornara ao seu rosto. Os olhos azuis muito abertos fitavam- no inquisidores. - Ele quer trocar Amy por mim. Amanhã de manhã, no Memorial. A decepção ensombreceu o semblante da mulher. - Precisamos agir, Scully. E rápido. – ele continuou. - Mas fazer o quê? – as mãos acompanhavam as palavras, desoladas. – Não sabemos onde ela está... Os olhos dele voltaram-se para o parque de diversões abandonado, perscrutando as sombras. - Ela está aqui, Scully. Acredite. – disse apontando o local e voltando-se para ela. – Eu sinto. Ela o fitava sem expressão. - Podemos pegá-lo de surpresa. - Mulder, o parque é enorme! Está escuro. – ela contemporizou. – E nem ao menos temos certeza de que eles estão realmente aí... - Eu sei, Scully! – cortou ele com convicção. – Chame de intuição, premonição, cognição psíquica ou do que quiser. O fato é que eu sei! Da mesma forma que sabia durante o incêndio na Califórnia. Abriu a porta do automóvel e saltou. Ela o acompanhou, postando-se ao seu lado. - Você fica. – disse ele, segurando-a pelo braço. – Chame reforços. Gentilmente porém com determinação, Scully afastou a mão que a retinha e a tomou entre as suas. - É MINHA filha, Mulder, lembra? Eu vou. – afirmou segura. Ele a encarou, olhos nos olhos, por um longo momento, sua expressão indecifrável. Depois, deu de ombros. - Faça como quiser. Você é a autoridade legalmente constituída nesse caso. – disse, recomeçando a andar em direção ao parque. - Espere! – ela voltou ao carro e remexeu no espaço entre os bancos. Quando se voltou para ele, tinha uma pistola nas mãos. – Ainda sabe como usar uma destas? - Acho que sim. – respondeu, tomando a arma e a enfiando na cintura, sob a camisa. Avançaram lado a lado, vagarosamente, em silêncio, pelo parque abandonado. Além da claridade pálida da lua cheia, a única outra luz disponível provinha da lanterna de bolso de Scully. Seu facho iluminava parcamente o chão para que não tropeçassem nas pilhas de lixo e escombros pelo caminho, mas não era suficiente para iluminar os brinquedos. Estes, quebrados e depredados, pareciam saídos de um conto de terror. Parcialmente ocultados pelas sombras, os cavalinhos do carrossel haviam se transformado em gárgulas pelo jogo de claro-escuro da parca iluminação. Avançavam lado a lado, como nos velhos tempos. Obstinados, destemidos, investigando, procurando. Maníacos, alienígenas, espíritos, demônios, conspirações. Esquiva, fugidia, intangível, inexorável, a verdade, lá fora. Desta vez, no entanto, era diferente. O que buscavam era real, era vivo. Era parte de cada um dos dois de mil maneiras diferentes. Sua pequenina Amy. Uma verdade em carne e osso, a única e absoluta verdade. Avançavam lado a lado, os passos, os gestos em sincronia. Como sempre fora. Como nunca deveria deixar de ser. Como se não houvessem estado um dia sequer separados. Parceiros, amigos, almas complementares. Mulder seguia guiado pelas sensações mais que pelos olhos e pela razão. A cada passo, as vibrações de Amy iam se tornando mais intensas em sua cabeça. Scully havia abandonado toda sua racionalidade para apenas acreditar, incondicionalmente, nas sensações do parceiro. De repente, parecia-lhe a coisa certa a fazer e sua intuição a compelia a aceitar a situação. Mulder estacou, estendendo o braço ao lado para conter Scully. Debalde. Ela havia parado ao mesmo tempo que ele. Sincronismo. - Aqui. – ele murmurou com voz rouca. Os restos do que um dia havia sido o Túnel do Amor jaziam diante dos agentes. As paredes de folhas de flandres cuja pintura descascada retratava corações e cupidos e flores e cisnes pareciam bizarras no contexto dos fatos. Os carrinhos, que outrora transportavam os casais apaixonados através dos cantinhos românticos e escuros do brinquedo, amontoavam-se quebrados na boca do Túnel. Com um sinal, Mulder indicou a Scully que procurasse uma outra entrada nos fundos da estrutura. Ela obedeceu sem discutir, a confiança no parceiro maior do que nunca. Transpondo com cuidado os montes de carrinhos, ele penetrou no interior do brinquedo. Estava escuro, muito escuro. A escuridão era tão densa que ele a podia sentir infiltrando-se pegajosa por seus olhos, seus ouvidos, sua pele. Caminhava às cegas, tropeçando em obstáculos invisíveis que se interpunham entre ele e seu objetivo. Avançava penosamente em meio à escuridão, tentando vencer os percalços, buscando. Sabia que ela estava lá, podia senti-la. Por isso avançava, a qualquer custo. Tateando pelos corredores tortuosos, ele foi guiado por suas sensações até que estacou. Amy estava ali, ele sabia. Por mais que se esforçasse, no entanto, a escuridão era profunda demais para que seus olhos se acostumassem a ela e conseguissem divisar um vulto que fosse. Ele aguçou os ouvidos. Havia mais alguém ali, podia ouvir-lhe a respiração. A tentativa de avançar mais um passo em direção ao som converteu-se no estrondo de coisas caindo quando Mulder tropeçou num obstáculo invisível. O facho de uma potente lanterna atingiu em cheio seu rosto, cegando-o, ao mesmo tempo em que ressoava nas trevas a gargalhada sarcástica de Alex Krycek. - Tinha certeza que você tentaria nos fazer uma visita surpresa, Mulder. Pena que não tive tempo de preparar um chá! – exclamou com ironia, sempre mantendo a lanterna apontada para os olhos do agente. - Weird. – fez-se ouvir debilmente a voz assustada de Amy. - Fique calma, meu bem. – disse com doçura na esperança de tranquilizar a menina. Ao que acrescentou: - Liberte a menina, Alex. Você já tem o que quer. Eu estou aqui. - Eu ia fazer exatamente isso, sabe, Fox? – respondeu da escuridão a voz de Krycek. - Até que me ocorreu que, com os pais que tem, Amy pode ser o primeiro híbrido humano-alienígena bem sucedido que conhecemos. Ela pode ser a resposta para todas as pesquisas que o Sindicato vem desenvolvendo a anos. Os olhos de Mulder faiscaram de ódio. - Ela é uma criança, seu desgraçado. Não é uma cobaia para suas experiências. – urrou, tentando novamente avançar em direção à luz da lanterna. Uma vez mais, tropeçou caindo com estardalhaço na pilha invisível de escombros. – Você já tem a mim. Leve-me para suas malditas experiências, mas deixe-a ir, Alex. Eu imploro... – suplicou aflito. Outra vez a gargalhada de Krycek cortou a escuridão. - Tolo prepotente é o que você é, Mulder. – sua voz era gélida. – Você não vale absolutamente nada para mim, Fox. Mas essa princesinha aqui pode ter um valor incalculável... Pensando bem, você até vale algo, sim. Só que morto... – o clique da arma sendo engatilhada ecoou nas trevas. O facho da lanterna começou a se deslocar da cabeça para o peito de Fox Mulder e depois de volta a cabeça, como se passeasse em busca do ponto certo para o tiro fatal. Subitamente, a escuridão total encheu-se de uma luz branca, tão clara que queimava as retinas de Fox Mulder. Ele conhecia aquela luz. Ele a temia. E, por essa razão, a despeito da intensa dor que a claridade provocava, não fechou os olhos. Precisava localizar Amy antes que a luz o fizesse. E foi então que a viu, sentada encolhida em um canto. Seus olhinhos cinzentos olhavam diretamente para dentro dos seus e pareciam dizer "Estou aqui". Mulder saltou ágil por sobre as pilhas de escombros e lixo até alcançar Amy e protegê-la com seu corpo, tentando escondê-la, afastá-la do círculo de luz. Com a garotinha nos braços, ele também encolheu-se num canto, sua respiração forte e ofegante, as batidas agitadas de seu coração retumbando em seus ouvidos. Foi somente quando ouviu a voz de Krycek que se deu conta do que acontecia. - Ei, não! Vocês estão pegando a pessoa errada. Não sou eu, é a ele que vocês querem. – gritava Krycek agitado. Os estampidos de muitos tiros soaram, abafando os gritos de Krycek, terminando por restar apenas o clique do pente descarregado da pistola. Mulder atreveu-se, então, a olhar em direção à luz, a tempo de ver Alex sendo arrastado à força para o centro do círculo por dois dos alienígenas sem face. Apenas um instante depois, um zunido alto encheu os ares e a luz desapareceu, levando consigo os três homens. - Mulder. – chamou Scully de um canto, somente identificável pela fraca luz de sua lanterna. - Mamãe! – exclamou Amy, levantando a cabeça que jazia enterrada no peito de Mulder. - Scully, aqui, à sua direita. Orientada pela voz do parceiro, ela os encontrou. Amy, envolta pelos braços de Mulder, tinha a cabeça apoiada em seu ombro e acariciava seu rosto magro. Ele mantinha os braços solidamente em volta do corpo frágil da menina, enquanto carinhosamente beijava-lhe a testa e os cabelos. Scully levou a mão trêmula ao rosto da filha numa suave carícia, como quisesse certificar-se de que ela era real. A seguir, repetiu o gesto com o parceiro. Sim, era real. Finalmente. Com a parca luz de sua lanterna, ela guiou-os para fora do Túnel do Amor. Somente no exterior, tomou a filha nos braços e a apertou forte contra seu corpo, os olhos azuis deixando correr livremente a torrente de lágrimas, agora de alívio e alegria, que vinha represando desde cedo. Mulder observava a cena calado. Uma vez mais, colocava-se voluntariamente no papel de espectador, quando, em seu coração, desejara ardentemente ser protagonista. Desejou que não fosse tarde demais, que fosse possível mudar o passado, que nunca houvesse sido levado pela curiosidade a examinar aquele círculo de luz em Bellefleur, cinco anos atrás. Desejou ter dito e feito coisas que jamais fez ou disse naqueles sete anos que antecederam sua abdução. Mas era tarde. Não percebeu que o local ia aos poucos enchendo-se de agentes do FBI, até que a voz serena de Scully o despertou. - E Krycek? – perguntou ela. - Foi levado... – ele respondeu com um suspiro. - ... pelos homens sem face. Mais uma vez não haverá evidências... - O ruído intenso... A luz... – disse ela, compreendendo finalmente o que havia visto e ouvido. Mulder apenas assentiu com a cabeça, voltando a suas divagações. Uma frase dita por Krycek voltava a sua mente como um incômodo visitante. "Com os pais que tem, Amy pode ser o primeiro híbrido humano- alienígena bem sucedido que conhecemos. Com os pais que tem..." Sua mãe era Scully, não havia como negar os cabelo ruivos, o queixo diligente. Mas quem poderia ser o pai de Amy? Pelas palavras de Krycek, certamente um abduzido... Skinner! - Mulder? É você? – ouviu a voz de Skinner às suas costas. Encarou o diretor assistente procurando em suas feições alguma semelhança com a menina. O homem apertou sua mão com força, depois o envolveu em um abraço caloroso, como se quisesse garantir que era Mulder, em carne e osso. Seus olhos sorriam com sinceridade por trás das lentes dos óculos. Algo, no entanto, ciúmes talvez, congelava a expressão de Mulder impedindo-o de sorrir de volta. Skinner dirigiu-se, em seguida, a Scully e Amy. Um nó apertado formou-se na garganta de Fox Mulder. - Como ela está? – perguntou o diretor, alisando os cabelos da menina. - Estou bem, tio Walter. – respondeu a garotinha com um sorriso cândido. – Ele me salvou. – completou, apontando Mulder. "Tio Walter", o nó se desfez momentaneamente na garganta de Mulder e ele, finalmente, conseguiu retribuir o sorriso caloroso de Skinner. Ao menos, não era ele. - E você, como está, Dana? – indagou uma voz masculina que Mulder não reconheceu. O tom era gentil, preocupado, quase amoroso. - Ok, John. – respondeu Scully, com um sorriso cansado. "Dana... John..." As garras do ciúme outra vez se cravavam no coração de Fox Mulder. Lendo o olhar de Mulder e Doggett, Skinner adiantou-se, apresentando os dois homens. - Fox Mulder, John Doggett que assumiu os Arquivos X junto com a agente Scully depois de seu desaparecimento. Apertaram-se as mãos. O cumprimento de Doggett era firme, seco. Seu rosto de linhas duras e os cabelos cortados muito curtos deram a Mulder a impressão de um homem rígido, cético. Olharam-se nos olhos por um interminável momento. Mediam-se, avaliavam-se, desafiavam-se. Dois cavaleiros, com suas lanças em riste, cada um em sua extremidade da cancha, nos instantes que precedem a uma justa. Ambos sabendo que apenas um poderia permanecer vivo ao final do embate. A tensão no ar era quase palpável. - Oi, tio John. Tem um caramelo? A pergunta da criança esfacelou a tensão em um milhão de pedaços. "Tio John", pensou Mulder aliviado. - O que aconteceu aqui? – perguntou Skinner, despindo-se da faceta de amigo e outra vez incorporando o diretor assistente do FBI. - Alex Krycek, o Sindicato, alienígenas sem face... Nenhum rastro, nenhuma evidência... O habitual. – falou Mulder com ar blasé. – Vai constar tudo no relatório da agente Scully, senhor. Skinner o olhava com os lábios retorcidos em um meio sorriso divertido. "O Mulder de sempre." Doggett não conseguia disfarçar o ar desaprovação. "Nem um pouco profissional." - Vamos para casa. – Scully chamou Amy que, já no chão, começava timidamente a se aventurar em explorações da área longe da mãe. A menina correu de volta ao grupo e agarrou a mão que a mulher lhe estendia. Como Mulder não se movesse de onde estava, a criança segurou sua mão e a puxou com força. - Venha! – ordenou autoritária. Ele apenas a seguiu, o contato da mãozinha quente na sua enchendo de vida e calor seu peito amargurado. - A propósito, agente Mulder... – chamou Skinner, quando os três já haviam se afastado alguns passos. – Feliz aniversário. - Obrigado, senhor. – respondeu Mulder com um aceno de mão, voltando- se para o diretor. - Eu havia me esquecido. Me desculpe, Mulder. Feliz aniversário. – Scully colocou-se nas pontas dos pés e depositou um suave beijo na bochecha do parceiro. Seguiram seu caminho. Quando desapareceram nas aléias do parque, Mulder levava Amy escanchada em sua cintura, gargalhando feliz como se voltasse para casa após uma alegre ida ao parque de diversões. Scully caminhava ao seu lado, uma das mãos segurando seu braço, conduzindo homem e criança por entre os escombros. Doggett e Skinner os observaram até sumirem nas sombras. - Fim da linha, amigo. – murmurou Skinner, meneando a cabeça. A John Doggett restara apenas o sabor amargo da derrota. Arredores de Washington, DC 13/10/2005 – 10:45 PM O clima tenso que imperara no automóvel durante o retorno da casa de Marita Covarrubias estava novamente presente. Apenas a tagarelice de Amy que, alheia ao constrangimento dos adultos, palrava alegremente no banco de trás, perturbava o silêncio. A pequena contava feliz o que vira no museu de história natural numa algarvia à qual os adultos não davam a mínima atenção. Mulder remoía em pensamentos as palavras de Alex Krycek. "Com os pais que tem... Com os pais que tem..." Tinha ciúmes. Queria Amy e Scully para si, mas elas já pertenciam a outro. Tinha ciúmes. Queria gritar, implorar que ela deixasse o outro homem, que seguisse com ele, que fosse sua. Tinha ciúmes. Tantos, tão intensos que não lhe permitiam recordar- se do que acontecera no motel em Sacramento quando ele ainda era Weird. Tinha ciúmes. Sentia-se vazio, tentando imaginar como refazer sua vida. Sabia ser impossível retomá-la do ponto onde a havia deixado. O mundo continuara a girar, o tempo passara. Talvez conseguisse de volta seu posto no FBI. Não nos Arquivos X, parecia claro para ele que estes já tinham novo dono. Um cargo burocrático talvez, preenchendo papelada. Qualquer coisa para ajudá- lo a sobreviver, a passar os dias com a mente mergulhada em uma ocupação qualquer. Para não enlouquecer. De ciúmes. Scully o observava pelo canto do olho. O sentia distante, querendo fugir. Tantas coisas ela precisa lhe dizer, tantas explicações precisa dar, tantas estórias precisava contar. Ela podia compreender a necessidade que ele tinha de ouvir, de saber. As coisas se jorravam em sua cabeça, borbulhavam em seus lábios. Mas não sabia por onde começar. Ele tinha os olhos tristes como poucas vezes ela havia visto. Ela queria confortá-lo, resgatar em seu rosto aquele lindo sorriso de menino. Mas não sabia como fazê-lo. Amy continuava em seu descontraído monólogo no banco traseiro, quando Mulder, voltando-se para ela, pegou de leve em sua mão. A garotinha calou- se instantaneamente, tocada pela gravidade da expressão no semblante do homem. - Você pode me dar uma carona até os Pistoleiros, Scully? – sua voz era monocórdia, inexpressiva. - Você quer ficar lá? – indagou ela, a despeito da obviedade da pergunta. – Fique conosco... – acrescentou num murmúrio. Ele pareceu não ter ouvido a última frase. - Acho que vou pedir a eles um canto para passar a noite... – o tom era desanimado, o semblante sombrio. – Afinal, não devo mais ter um apartamento, tenho? Ela suspirou. - Não. Uns meses atrás, quando Amy ficou doente, as despesas ficaram muito altas para que eu pudesse continuar pagando dois aluguéis. – ela se desculpou, encolhendo os ombros. Mulder a olhou, surpreso. - Você manteve meu apartamento alugado por cinco anos? Vazio? Ela concordou com a cabeça, seu olhar fixo na rua. - Às vezes eu ia até lá, tirava a poeira, dava de comer aos peixes... Amy ia comigo. Ela adora seu aquário... – a voz de Scully denotava cansaço. - Por quê? – ele a encarava incrédulo. – Por que fez isso? ... Manter meu apartamento? - Tinha certeza de que você voltaria. – suspirou Scully. Sua voz era baixa, rouca. – Fique conosco... – ela insistiu, - ...ao menos até conseguir outro lugar... Mulder balançava a cabeça, atônito. Seus olhos vagavam do rosto de Scully, para a rua, para Amy e de volta à parceira. - Não... não compreendo... Por quê, Scully? Ela enfiou o pé no freio com força, parando o carro bruscamente no meio da avenida deserta. Esmurrou o volante com força, o olhar fixo na rua vazia à sua frente. - Droga, Mulder! Porque amo você! – voltou-se e o olhou nos olhos. – Amo você. Deus! É assim tão absurdo? É tão difícil de entender? Pronto! Ela havia dito. Dissera o que estava entalado em sua garganta por toda uma vida. Ele permaneceu imóvel por longos instantes, a respiração suspensa, o olhar perdido na imensidão dos olhos azuis de Dana Scully. Ela havia dito, ele mal podia crer em seus ouvidos. Ela havia dito o que ele sempre esperara ouvir. Ele queria tomá-la nos braços, beijá-la loucamente, gritar ao mundo que ela o amava. Mas permanecia estático diante dela, os braços e as pernas e o rosto formigando estranhamente. Quando por fim conseguiu vencer a inércia que o dominava e mover-se, tomou o rosto da mulher que amava entre as mãos e aplicou-lhe o mais terno dos beijos. - Você vem para casa com a gente, não vem, papai? Por favor... – suplicava Amy. "Com os pais que tem... Papai..." Um abduzido. Ele? Como que atingido por um raio, Mulder quedou paralisado. Os lábios formavam palavras mudas que a boca entreaberta não conseguia pronunciar. Os olhos se transformaram em dois imensos discos cinzentos, transbordando dúvidas e incredulidade. Scully apenas acenou com a cabeça afirmativamente, sorrindo. "Papai..." Um abduzido. Ele! O lindo sorriso de menino que ela ansiara tanto poder rever, minutos atrás, estampou-se na face de Fox Mulder, tão radiante, tão resplandecente que pareceu iluminar a noite. - Vamos para casa. – falou ele. Georgetown – Washington, DC 13/10/2005 – 11:13 PM A chave girou na fechadura, destrancando a porta do apartamento de Scully. Ela entrou, acendeu a luz e jogou a bolsa sobre o aparador. Estava exausta. As sombras escuras sob seus olhos eram acentuadas pela palidez de seu rosto. Seu corpo implorava por um bom banho morno e pela quente maciez de sua cama. - Onde a coloco? – sussurrou Mulder parado atrás dela, trazendo Amy adormecida e enfim quieta em seu colo. Num instante, ela se recordou porque, a despeito do cansaço, sentia-se tão leve, como se seus pés mal tocassem o chão. Sorrindo, o conduziu até o quarto da menina. Um aquário, seu aquário, dominava a cena, repleto de peixinhos coloridos, alegre, cheio de vida. Ele sorriu ao reconhecer o enfeite em forma de disco voador que subia e descia do fundo ao sabor das bolhas. Uns poucos brinquedos, alguns bichinhos de pelúcia e bonecas, estavam cuidadosamente organizados em um canto do quarto. Muitos, muitos livrinhos infantis amontoavam-se sobre praticamente todos os móveis. Com cuidado, Mulder depositou a menina sobre a cama cujas cobertas Scully acabara de afastar. Examinou-lhe o rostinho infantil. Tinha teias de aranha presas aos cabelos, um bocado de poeira nas bochechas, mas dormia feliz. A mãe livrou-a das roupas sujas das aventuras do dia e vestiu-a com o pijama favorito, aquele cor-de-rosa com ursinhos. Quando ajeitava as cobertas em torno da menina, no entanto, ela despertou, meio confusa. - Está tudo bem, querida. Volte a dormir. – sussurrou Scully, beijando-lhe a testa. - Boa noite, mamãe... E boa noite, papai... – sorriu sonolenta para Mulder que assistia a tudo de um canto do cômodo. Ele se aproximou e beijou-lhe ternamente o rosto, seu coração dava pulos de alegria dentro do peito. - Durma com os anjos, meu bem. – disse com a voz embargada. Já com os olhinhos fechados, a menina abraçou uma boneca que ele reconheceu como Samantha e adormeceu imediatamente, o sono tranqüilo dos inocentes. No pequeno espelho sobre a cômoda de Amy, Scully pôde observar que as teias de aranha que ela tão cuidadosamente removera dos cabelos da filha também espalhavam-se por seus próprios cabelos. Sorriu ao reparar, pelo reflexo, que uma delas mantinha-se teimosamente suspensa na ponta do nariz do parceiro parado atrás dela. - Acho que seria uma boa idéia se você tomasse um banho. – disse, removendo a teia com cuidado e a exibindo como um troféu. – Tenho algumas de suas roupas guardadas em meu armário... - Ora, ora, ora, agente Scully... Que espécie de fetiche é esse? – ironizou ele. Ela sorriu, timidamente. - Achei que seria um desperdício dar aos pobres aqueles seus ternos caríssimos, Mulder. Os estava guardando para meu futuro genro, quem sabe? Com uma das mãos, ele segurou o queixo de Scully, a obrigando a olhar para cima. - Desconhecia esse seu lado econômico. – disse inclinando-se para beijar- lhe suavemente os lábios. – Mas o adoro... Que tal se economizássemos água, também, tomando um único banho os dois, hein? – completou com a voz carregada, empurrando-a gentilmente pelos ombros em direção ao banheiro. - Mulder, Mulder... Pelo tom de sua voz, não me parece que iremos economizar coisa alguma... – ela acrescentou feliz. Mais tarde... - Estou faminta. E você? – indagou a ruiva vasculhando a geladeira. Ele pensou muito antes de responder, esforçando-se para lembrar-se dos gostos gastronômicos da parceira. Algo lhe dizia que não combinavam exatamente com os seus. Um brilho de reconhecimento perpassou seus olhos, simultaneamente com um franzido irônico dos lábios. - Contanto que não seja um daqueles seus gelados de arroz integral, eu comeria qualquer coisa. – respondeu em tom jocoso. As respostas de Scully foram uma pequena careta e uma risada gostosa. Incrível como ela ficava ainda mais bela quando estava assim, à vontade... - Ok... Tenho uma lasanha congelada aqui. - Ótimo para mim! Ele sentava-se no sofá da sala ainda um tanto desconfortável com a nova situação. Sentia-se de certa forma intruso na intimidade, na vida de Scully. Observou a mulher enquanto ela colocava a comida no microondas e movimentava-se de um lado para o outro, pegando pratos e talheres. - Vai ficar aí sentado a noite toda enquanto a criadagem prepara a mesa para o banquete, majestade? - ironizou Scully, com uma profunda reverência. – Pegue os copos, por favor... E há uma garrafa de vinho na porta da geladeira... Ela percebera o desconforto de Mulder e tentava pô-lo à vontade. - Guardar vinho de pé na geladeira, Scully? – ele perguntou franzindo a testa. – Muito me admira você fazendo algo assim... - Com a palavra Fox Mulder, o sommelier... – atalhou ela com expressão marota. Uma lasanha e alguns copos de vinho depois, Mulder sentia-se relaxado, em paz consigo mesmo. Ele e Scully riam e conversavam abobrinhas, as mãos dadas por sobre a mesa, como dois adolescentes. - Você realmente precisava ter visto a cara de mau que Langly fez, segurando o garoto pelo braço no cyber café! – ela deu uma risada. O abatimento que suas feições exibiam quando entrara em casa aquela noite fora substituído por bochechas rosadas e um par de olhos brilhantes. – "Ela só quer bater um papo com você, rapaz." – continuou, engrossando a voz na tentativa de imitar o Pistoleiro. Mulder olhava para ela distraído. Ela quase pôde ouvir o "click!" no cérebro do parceiro. Os olhos cinzentos se estreitaram, o cenho se franziu. - Me ocorreu uma coisa agora, Scully. Sobre os e-mails que você recebeu... - O que tem eles? – mal podia esperar para ouvir outra teoria maluca de Mulder. - Se não foi Marita Covarrubias, quem foi o mandante? – o computador que ele chamava de cérebro funcionava tão intensamente que Scully juraria ouvi- lo zunindo. – Aquela relação de cidades... você ainda a tem? - Agora, Mulder? – perguntou desanimada. - Por favor... – lá estava ele usando aquele seu jeito sedutor... Ela remexeu sua bolsa até pescar de lá uma folha de papel meio amassada que entregou a ele. Mulder pediu uma caneta, que ela lhe entregou com um suspiro, e depois ficou olhando para o papel por intermináveis minutos, resmungando e rabiscando. Scully começava a sentir as conseqüências do dia agitado e das taças de vinho. Suas pálpebras estavam pesadas, ela apoiava o queixo na mão, ainda assim, porém, cabeceava. - Achei, Scully! Veja! – ele exclamou alto, quase gritando. - Sshh... Amy está dormindo. – reclamou a mulher. Ele se desculpou enquanto estendia a folha rabiscada para ela. - Veja! – disse postando-se ajoelhado ao lado dela. – O remetente não está no nome das cidades, mas dos países onde elas se situam. Observe... "Santiago – Chile Atenas - Grécia Iekaterinburgo - Rússia Berna - Suíça Udine - Itália Riad - Emirados Árabes Recife - Brasil Adis Abeba - Etiópia Varsóvia - Polônia Oslo - Noruega Copenhague - Dinamarca" dizia a lista. - C-G-R-S-I... Não... não percebi onde você quer chegar, Mulder. - Esqueça esse "I" de Itália, rearranje as iniciais e voilá! C.G.B. Spender! O Canceroso, Scully. ELE enviou as mensagens. – ele completou com um sorriso triunfante. - Spender está morto, Mulder. Eu já disse a você. – atalhou impaciente. – Pergunte a Skinner, se não acredita. Ele foi ao funeral do Canceroso... – seus olhos pesavam. Ela suspirou exausta. – Ah! Deixa para lá. É tarde. Vamos dormir... Ele deu de ombros e sorriu em resposta. Piscou um dos olhos. - Dormir? Eu tinha outros planos para essa noite... O olhar de Mulder era insinuante enquanto suas mãos massageavam languidamente a nuca dolorida de Scully que, ronronando como uma gatinha manhosa, sentia-se desmanchar sob as mãos gentis do homem amado. A noite prometia... Mount Pleasant, Pennsylvania 14/10/2005 – 05:56 PM As copas já quase nuas das árvores do lado de fora da janela sacudiam- se com o vento forte e gélido que se encarregava de arrancar- lhes as últimas folhas. Fazia frio lá fora. Dentro da sala, no entanto, as chamas brilhavam na lareira, fazendo estalar as achas úmidas de lenha e enchendo o ar com seu cheiro acre. Sentado numa confortável poltrona de couro próxima ao fogo, o homem falava ao telefone. - Fiz o que tinha de ser feito. Krycek se excedeu, não havia outra solução. ... Ele foi útil aos nossos propósitos por muito tempo, sim. Mas ultimamente o poder lhe subiu à cabeça. Que lhe sirva de lição. O timbre levemente agudo da voz sintetizada era, por vezes, incômodo aos ouvidos. - Sim, você certamente merece um prêmio da Academia por sua performance no café, Edu. Eles nem desconfiaram! ... Seu tempo acabou? ... Compreendo... Mas você já tem alguém preparado para deixar em seu lugar, não é mesmo? ... Huumm... Alberto Rodrigues é o nome dele? ... Dezesseis anos? ... Sim... Não, se a Organização o recomenda, estou de acordo... Apenas avise-o que aguarde um contato meu antes de qualquer coisa. De repente, o homem foi acometido por um acesso de tosse que o deixou sem fôlego. - Me desculpe. – disse ao telefone, quando conseguiu retomar precariamente o ritmo de sua respiração. - A propósito, tenho um último servicinho para você antes de partir. Sim, para ela mesma. O texto é o seguinte: "A grande e a pequena raposa estão a salvo agora que o rato caiu em sua própria armadilha. Mas não convém descuidar-se. Lembre-se: a verdade está lá fora." ... Obrigado e adeus. – completou, recolocando o fone no gancho. A mão magra e ossuda estendeu-se até a mesinha próxima onde repousava o maço de Morley. Tomou um cigarro da embalagem e o acendeu, tragando com prazer a fumaça mal cheirosa. - Ah, esse fantásticos e prestativos meninos do Brasil... – murmurou C.G.B Spender para si mesmo com um sorriso satisfeito. Tinha o rosto magérrimo, a pele malicenta e olheiras profundas. Atado ao pescoço na altura da garganta, um minúsculo sintetizador captava e ampliava o volume de sua voz. Num cacoete, coçou, com a mão desocupada, a pequena cicatriz avermelhada na base de seu pescoço. Sua garantia de vida contra o câncer. - Alex Krycek... – seu rosto se crispou numa máscara irada. – Achou que podia fazer mal à minha netinha? Idiota! Mas, Fox... Preciso fazer alguma coisa para que não interfira novamente nas operações do Sindicato... T O B E C O N T I N U E D . . . [Calma. É brincadeirinha... Continua aqui embaixo.] Rio de Janeiro, Brasil 26/10/2005 – 06:00 PM Fox Mulder contemplava absorto a pequena Amy brincando na areia da praia à sua frente. Ela corria para um lado e para o outro na beira d'água, soltando gritinhos de êxtase quando as ondas molhavam seus pezinhos. Seus cabelos ruivos presos em maria-chiquinhas acentuavam-lhe o ar de menina sapeca. Fora excelente aquela idéia que Scully tivera de usar parte dos pagamentos atrasados que o FBI devia a Mulder para fazerem aquela viagem ao Brasil. A despeito da crônica antipatia que Bill Scully nutria por ele, as pequenas férias pareciam estar fazendo muito bem à mulher de cabelos vermelhos. Ela, que andava pálida e abatida e exibia olheiras profundas ao deixarem Washington, tinha outro aspecto agora, a pele levemente dourada, as bochechas coradadas enchendo-se de carne outra vez. Quanto a Bill Scully, não era um incômodo tão grande que sua simpática família e um bom hote à beira mar não pudessem compensar... - Um centavo por seus pensamentos. – disse Scully, pousando a mão levemente sobre seu braço. - Ah! Não me vendo assim tão barato. – respondeu ele com uma careta. Depois, mais sério, quase tristonho, indicou com um ligeiro movimento do queixo a menina que brincava feliz com o mar. – Pensava no tempo de vida que me foi roubado com essa estória toda. Nesse limbo no qual estive mergulhado por sei lá quanto tempo, vagando... sem rumo, sem nome, sem lembranças... Vazio. Sozinho. A mão de Scully procurou sua mão e os dedos se entrelaçaram com força. De seu próprio modo, ela compreendia-lhe os sentimentos. Também ela experimentara aquele vazio, aquela solidão da qual ele falava, pelo tempo em que Mulder estivera desaparecido. Por outro lado, tivera Amy como alento, a fragilidade da criança a compelindo a lutar, sua fé inabalável a impulsionando adiante pelo caminho. - Por outro lado... - acrescentou Mulder com aquela sobrancelha erguida que pontuava a ironia em sua voz. – Por outro lado, esse limbo me poupou da parte ruim dessa estória. - E qual seria essa "parte ruim"? – perguntou Scully intrigada. - O que vi na casa de Marita Covarrubias, o berreiro incessante, as mamadeiras no meio da madrugada, as fraldas sujas, o regurgitar daquela sopinha de beterraba nos momentos mais impróprios... – respondeu ele com uma risadinha. - Você certamente não perde por esperar. – ela acrescentou, tomando a mão de seu parceiro e a pousando gentilmente sobre seu ventre. Mulder voltou-se para ela, lentamente. A incredulidade fazia seus olhos parecerem querer saltar das órbitas, a boca entreaberta. Atônito, seu olhar saltava sem parar do rosto para o ventre da companheira e de volta para os olhos e para a barriga outra vez, uma, duas, mil vezes. As articulações de seus dedos retesados se desenhavam muito brancas contra a pele de sua mão que repousava com a suavidade do toque de uma borboleta sobre a barriga de Scully, mal a tocando. O sol se punha por trás do Morro Dois Irmãos, tingindo o céu de tons de que iam do rosado ao vermelho vivo. Do alto do Corcovado, o Cristo Redentor estendia suas mãos abençoando a cidade. Por um instante, Scully teve a impressão de que a estátua gigantesca sobre o morro dirigia seu olhar para ela, que a abençoava também. Por fim, como que atingido em cheio pela compreensão do fato, Foc Mulder engoliu em seco e piscou os olhos algumas vezes, como se despertasse. Seus olhos se fixaram nos de Dana Scully, sua eterna parceira, amiga, amada. Seu rosto se iluminou num sorriso resplandecente. - Amo você, Dana Scully! O paraíso, finalmente, estava à vista. F I M NOTAS FINAIS: NOTA 1: Cabe aqui uma explicação. Como foi dito na parte 1 da fic, a amnésia de Mulder foi do tipo "pós-traumática" ou "retógrada", segundo a própria Dana Scully M.D.! Pesquisei um pouquinho na Internet sobre essa manifestação da doença antes de escrever e o que descobri que essa é uma forma de amnésia comum em vítimas de acidentes ou de violência. Ela não encontra no tratamento com as drogas conhecidas um bom resultado. As memórias do indivíduo afetado retornam paulatinamente e há casos em que um novo episódio traumático acelera esse processo. Mas como não sou médica, então... Fantasiando um pouquinho, foi isso o que tentei descrever na fic através dos sonhos de Weird / Mulder e das recordações despertadas pelos locais a ele familiares em Washington. Se não for bem assim, passo a palavra aos doutores de plantão. NOTA 2: Huey, Dewey e Louie, para quem não se lembra, são os nomes em inglês dos sobrinhos do Pato Donald, Huguinho, Zezinho e Luizinho aqui na Terra Brasilis. Na ocasião em que escrevi a cena da visita dos agentes à casa de Marita Covarrubias, eu estava escrevendo, ao mesmo tempo, uma fic cômica denominada "Trash People" com a Sky e fiquei meio contaminada por essa onda trash. Daí a idéia de castigar a "loura sonsa" com trigêmeos pestinhas como os sobrinhos do Donald. Mil perdões aos fãs da moçoila. NOTA 3: Dessa vez acabou mesmo. Não vai ter Parte 4 (eu acho...). Peço sinceras desculpas e agradeço do fundo do coração a todos que esperaram pacientemente pela continuação (ou devo dizer pelas continuações?) dessa fic e mandaram os feedbacks tão fundamentais no encorajamento de seu desfecho. Sorry, se o final não foi do jeito que alguns esperavam, se ficou meio previsível ou coisa e tal. Mas foi a idéia que me ocorreu para terminar esta estória. Se alguém tiver outra sugestão, que se sinta à vontade para escrever uma "Weird – Parte Final – Solução Alternativa". ;) Podemos até instituir um "Você Decide" das fanfics, que tal? Eu vou adorar ler!