Weird – Parte 2 FAN FICTION ESCRITA POR: Bellefleur X (bellefleur_x@hotmail.com) DISCLAIMER: Os personagens desta estória pertencem a seus criadores. (Embora eu creia que, no caso específico de X-Files, os criadores é que passaram a pertencer a seus personagens!) CATEGORIA: Shipper (ma non troppo) CLASSIFICAÇÃO: Censura livre (aqui não tem nada que não se veja igual ou pior na novela das 6) SPOILER: Mais uma pós-Réquiem, com uma pincelada de Redux. SINOPSE: Continuação de Weird. A vida segue rumos aparentemente divergentes para Scully e Weird/Mulder. Mas como a autora gosta de finais felizes e segundo a geometria duas paralelas necessariamente se encontram no infinito, esses rumos não são tão divergentes assim... ADVERTÊNCIA: Essa fic continua não recomendada para diabéticos e pacientes em dieta de restrição de açúcares. Embora dessa vez eu tenha tentado ser mais rigorosa no uso do açucareiro. AGRADECIMENTO: Diferentemente do Agamenon Mendes Pedreira, eu ainda não tenho dezessete leitores. Mas agradeço, ainda assim, a todas as minhas sete leitoras (aí, gente, só faltam dez para eu alcançar a marca do Agamenon...) pelos feedbacks que me incentivaram a continuar essa estória. AGRADECIMENTO ESPECIAL: À Graça, pelas idéias que continua me dando e pela paciência de ler e opinar sobre essa tralha. NOTA: Feedbacks (positivos ou negativos) são sempre bem vindos. MAIS NOTA: Atenção. Nessa segunda parte, a informação sobre locais, datas e horas que consta do início de cada segmento é importante para a compreensão da estória. Depois não digam que eu não avisei... Weird – Parte 2 Motel Super 8 – Sacramento, Califórnia 12/08/2005 - 08:30 AM Sentada no carro parado no estacionamento do motel, Dana Scully sorria, enquanto dava a sua filha Amy as últimas instruções sobre como se comportar durante o dia. Weird as observava parado de pé ao lado do carro a apenas um passo de distância, o corpo ligeiramente inclinado em sua direção. - Este homem a está incomodando, senhora? – perguntou o policial que se aproximava a pé, indicando Weird com a cabeça, a mão direita já estrategicamente colocada sobre o coldre. O "em absoluto" da resposta morrera antes de sair da garganta juntamente com o sorriso, enquanto Scully, desviando o olhar da filha, via Mulder fugindo em disparada pelo estacionamento do motel e atravessando a larga avenida em frente, sem se preocupar com os veículos que por ali cruzavam em alta velocidade. - Policial... NÃO! – ela conseguiu gritar para o homem que iniciava sua corrida em perseguição ao fugitivo, já com a arma em punho. – Deixe-o ir. – acrescentou, vendo Mulder desaparecer em um beco do outro lado da rua. O policial estacou e voltou-se para ela, sua expressão aturdida e contrariada, a mão lentamente recolocando a arma no coldre enquanto caminhava em direção à mulher de cabelos de fogo. - Eu pensei que... – disse o homem, confuso. - Não pense! FBI. – atalhou Scully, rispidamente, exibindo a insígnia. – O fugitivo era meu... amigo. Um tanto quanto perturbado e assustadiço. Mas não oferecia perigo algum. – sibilou por entre os dentes, os olhos azuis faiscando de raiva. - Me de-desculpe, se-senhora... – gaguejava o policial subitamente sentindo-se minúsculo diante daquela mulher. Apesar de ser muitos centímetros mais alto que ela, sentia-se como que olhando de baixo para cima para a ruiva baixinha que, em sua fúria, agigantava-se diante dele como uma deusa pré-colombiana de pedra. Examinando-o melhor agora que estava mais próximo, Scully pôde perceber que o assustado policial era muito, muito jovem, provavelmente recém saído da academia e talvez em sua primeira ronda. Com os olhos castanhos arregalados, o pobre rapaz fitava Scully quase que com pavor, uma expressão estúpida estampada em seu rosto. A cena toda era tão disparatada, ver um representante oficial da lei em seu uniforme tremendo como um garoto de escola que foi flagrado espiando o banheiro das meninas, que Scully teve de conter a vontade de rir que tomou conta dela, a despeito da gravidade da situação. - Tudo bem. – disse ela, suavizando o tom. – Pode ir agora. Muito provavelmente aquilo era tudo o que o rapaz desejava ouvir naquele momento. Sem mais uma palavra, ele afastou-se rapidamente, quase que a correr, do cenário daquele episódio patético e desapareceu dobrando a primeira esquina. Olhando novamente na direção em que Mulder desaparecera, a compreensão do que acabara de ocorrer e de suas conseqüências se abateu sobre Scully como um pesado fardo. Uma sombra dominou seu semblante enchendo- lhe de tristeza os olhos azuis. Os ombros arquearam-se como se um grande peso se abatesse sobre eles. Aos poucos, seus olhos iam ficando rasos d'água e ela sentiu-se o mais miserável dos seres humanos, exatamente da mesma forma como se sentira um dia num hospital de Washington, quando Skinner lhe confirmara sobre o desaparecimento do parceiro naquela floresta do Oregon. Mas, assim como ocorrera naquela ocasião, um pequenino algo lhe reacendeu a chama da esperança. A mãozinha quente e macia de Amy envolveu três dedos de sua mão direita. E suas palavras agiram como um bálsamo sobre a ferida reaberta em seu coração. - Não chore, mamãe. – consolou meigamente a menina, estreitando os dedos da mãe com toda a força de sua mãozinha. – Ele vai voltar... Sede do FBI - Washington, DC 07/10/2005 – 08:05 AM A sala do porão do edifício J. Edgar Hoover que abrigava os Arquivos X havia tantos anos ainda estava escura quando Scully abriu a porta. Doggett ainda não havia chegado. Como havia feito tantas vezes nos últimos cinco anos, a agente ficou parada por alguns instantes diante da porta aberta, contemplando a escuridão do interior da sala. Imaginava que, quando acendesse a luz, encontraria Mulder sentado em sua velha cadeira, os pés sobre a mesa, arremessando lápis como dardos para se fincarem no forro do teto. Depois, sem interromper essa sua interessante atividade, dirigiria à parceira um rápido olhar e murmuraria um "bom dia, Scully" por entre um meio sorriso de garoto. Triste ilusão, pensou ela, sacudindo a cabeça como que para afastar tais pensamentos. Ao menos agora o sabia vivo, ainda que não tivesse a menor idéia de onde ele poderia estar. Acendeu a luz e observou a sala vazia. A mesa que outrora fora de Mulder, agora pertencia a Doggett e estava impecavelmente em ordem, cada lápis, caneta e folha de papel em seu próprio lugar como se tivesse acabado se ser arrumada. A própria aparência geral da sala refletia a disciplina quase que militar de seu atual parceiro. Nada de livros fora das estantes, revistas empilhadas sobre os ármários baixos, lápis fincados no teto. Tudo limpo, organizado, impecável, como se o encarregado pela limpeza houvesse acabado de passar pela sala. Nada que lembrasse Fox Mulder. A não ser pelo velho poster, na parede, com a imagem do OVNI. "I want to believe", o lema da busca de Mulder. Doggett havia tentado arrancá-lo quando ocupara a sala, mas ela o impedira, os cantos do papel levemente rasgados, testemunhos daquela tentativa de profanação. Scully caminhou pesadamente até sua mesa. Andava cansada, sonolenta. Não que as crises noturnas de Amy a estivessem impedindo de dormir. Pelo contrário. Desde de que haviam voltado da Califórnia, de seu encontro com Mulder, tanto os pesadelos quanto as febres repentinas da menina haviam desaparecido completamente, como que por encanto. Apenas sentia-se cansada. Estava precisando de férias, era isso. Sentada, começou lentamente a examinar os papéis colocados na caixa de madeira marcada "Entrada" sobre sua mesa. Formulários de prestação de contas de sua última viagem e memorandos sobre o uso racional das copiadoras e contra o desperdício de papel (!?) atulhavam a caixa. No fundo, escondida, sob a pilha de baboseiras inúteis e futilidades burocráticas, estava uma pasta identificada por M7682/2000 – o relatório semanal sobre as investigações sobre o desaparecimento de Mulder. Abriu-a com os dedos trêmulos, uma sensação desagradável de frio na barriga, como acontecia todas as semanas. Nada, apenas um grande e vazio nada. Nenhuma pista, nenhum sinal de Mulder ou do homeless Weird, nenhum John Doe surgido em hospitais ou necrotérios pelo país que se aproximasse das características do parceiro. Nada. Deixou cair, desanimada, a pasta sobre a mesa. No fundo, não esperava que fosse diferente. A reintensificação das buscas fora solicitada por Skinner. Ela sempre tivera a impressão de que ele, de alguma forma, sentia-se culpado pelo desaparecimento do agente, por não tê- lo impedido de sair andando sozinho por aquela floresta. Como se fosse possível impedir Mulder de fazer exatamente o que ele queria! Alguma coisa no peito de Scully lhe dizia agora que as buscas seriam inúteis. Algo (ousaria admitir que era sua intuição?) lhe sussurrava incessantemente que, no momento certo e somente então, Mulder reapareceria em seu caminho, sem que houvesse necessidade de procurá-lo. Era questão de esperar. Mas por quanto tempo? Preguiçosamente, Scully abriu a pasta onde guardava seu notebook e o instalou sobre a mesa, conectando-o à rede. Era cedo ainda, poderia checar e responder seus e-mails com tranqüilidade e ainda dar uma espiadela nas manchetes da edição online do Times, antes que alguém aparecesse no escritório. Mais tarde terminaria de escrever o relatório sobre o último caso. Começou a examinar seus e-mails um a um. O primeiro de uma velha amiga dos tempos de residência, Debbie Norrigan, agora casada com um famoso neuro- cirurgião, participando o nascimento de seu quinto filho, Michael. Pobre Debbie, cinco filhos! Enviou duas ou três de linhas pouco inspiradas de felicitações como resposta e passou ao próximo. Era de seu irmão Bill, agora adido naval do consulado americano no Rio de Janeiro, convidando a ela e a Amy para passarem o Dia de Ação de Graças com sua família. Humm... Brasil, sol, calor, praia! Poderia pedir uma semana de férias e dar-se a esse luxo, imaginava. Até que não era má idéia. Fora isso, mais bobagens burocráticas, memorandos endereçados a "todos os usuários" sobre o uso racional das listas de distribuição nos e-mails corporativos (!?) e o usual: spams pedindo doações para crianças imaginárias com doenças incuráveis, as indefectíveis charges e piadas, um blá-blá-blá sem fim que ela ia removendo sem ler. No meio desse caos, o dedo já pronto para pressionar a tecla DEL congelou-se a meio caminho. Uma mensagem lhe chamou a atenção, tanto o assunto quanto o remetente estavam em branco. A despeito de todos os alertas que começavam a dardejar em sua mente sobre o perigo dos vírus, sentiu-se compelida a abri- la. Alguma coisa lhe dizia para fazê-lo, uma vozinha em sua cabeça, seu demônio interior. Sem maiores delongas, posicionou o cursor sobre a mensagem e... Click! Click! "A volta da raposa pode assustar o galinheiro." Apenas isso. Sem remetente ou assinatura. Releu a mensagem, intrigada, uma dúzia de vezes, mas não atinou com um sentido para ela. A "raposa" do texto estaria se referindo a Fox Mulder? Mas, nesse caso, quem ou o quê seria "o galinheiro"? Seria apenas mais um trote como tantos outros que já recebera nos últimos anos? O toque do telefone interrompeu seus pensamentos. - Scully. – atendeu ela. – Sim... Em uma hora? Mas por que a pressa repentina por esse relatório preenchido? – perguntou, franzindo o cenho. - ... Ahnn! Auditoria interna? ... Compreendo... – acrescentou com uma careta. - Ok, senhor. Terá o relatório em sua mesa em meia hora. – completou, desligando o telefone. Olhou uma vez mais para a enigmática mensagem em seu computador e a fechou em seguida. Mais tarde voltaria a ela. Por ora, precisava terminar o relatório sobre o caso anterior e preencher o formulário de prestação de contas de viagem que encontrara em sua caixa de entrada para entregá- los a Skinner. E pôs-se a trabalhar. Bedford Hills, New Jersey 07/10/2005 - 02:40 PM Weird aproveitava aquele raro dia quente de outono, sentado num banco da pracinha. Ao seu redor, crianças brincavam escoltadas por suas babás. Eram obviamente crianças ricas, podia-se concluir pela sofisticação da vizinhança onde a bem cuidada pracinha se situava. Belas casas enormes em estilo vitoriano, cercadas por bem cuidados jardins, enfileiravam-se pelas ruas simetricamente dispostas do bairro. O olhar de Weird vagava sem rumo por sobre as crianças que brincavam, sem deter-se em nenhuma, sem realmente interessar-se por nada. Procurava pelo que sabia que não iria encontrar. Um par de olhinhos cinzentos emoldurados por uma rica cabeleira ruiva, tudo arrematado por um cândido sorriso que iluminava todo o rostinho angelical. Amy, sua pequena Amy. Com que direito ousava chamá-la de sua? Talvez com o direito que conquista o prisioneiro de denominar sua a cela que o encarcera. Sentia sua falta, buscava seu olhar nos olhinhos das outras crianças, buscava seu sorriso em seus rostos. Mas ela não estava lá. Sabia onde encontrá-la, ela havia lhe contado, com seu jeitinho infantil, que morava em Washington. Além disso, ele lembrava-se exatamente da localização do jardim de infância onde a havia visto pela primeira vez, observando as formigas no parquinho. Mas faltava-lhe coragem para se reaproximar. Naqueles dois meses, tivera tempo de sobra para refletir sobre tudo o que havia acontecido. A despeito de ter vivido com elas os melhores momentos da vida de que conseguia se lembrar, continuava sendo um sem teto, sem nome, sem futuro. Não era justo. Weird não notou quando o automóvel negro parou em frente a uma das casas que rodeavam a pracinha. De dentro dele, saltou um homem alto, bem vestido, de cabelos castanhos. Os olhos verdes amendoados olharam em torno e estreiaram-se quando viram o homeless sentado na praça. Tinha as mãos calçadas em finas luvas de couro negro, apesar da temperatura agradável daquele dia, e uma delas se contraiu furiosamente diante da visão do outro homem. Os lábios comprimiram-se em uma fina linha que imprimia, juntamente com o olhar feroz, uma expressão assustadora àquele belo rosto. Observou ainda por mais alguns segundos o homem que lhe causara tão intensa reação e virou-se de súbito, dirigindo-se apressadamente à porta da casa que se abriu segundos antes dele atingir o pórtico e fechou-se tão logo ele desapareceu em suas entranhas. Lá dentro, reunidos em uma sala ricamente mobiliada, estavam cinco homens, cujas idades variavam entre os cinquenta e os setenta anos. A sobriedade de seus trajes elegantes e a seriedade da expressão de seus semblantes indicavam que aquela era uma reunião de negócios. Suas fisionomias adquiriram ares de preocupação e ansiedade quando o homem mais jovem entrou. - O pior de nossos pesadelos se tornou realidade, senhores. Fox Mulder está de volta. – disse Alex Krycek com irritação. 10/10/2005 – 03:28 AM Deitado na cama confortável, Weird tinha Dana Scully aninhada em seus braços, encolhida como um bebê. Ele a percebia frágil sob seu abraço, sob os beijos suaves que lhe aplicava nos cabelos, no rosto pálido. Um ligeiro tremor percorreu o diminuto corpo feminino. Ele respirou fundo, como se tomasse coragem para dizer o que tinha a dizer. - Quero que você vá para casa. – falou em voz baixa. - Eu vou ficar bem. – ela sussurrou em resposta. - Não. Eu estive pensando sobre tudo. Olhando para você, hoje, segurando aquele bebê... Percebi tudo o que foi tirado de você. A chance de ser mãe... e sua saúde... e aquela criança. Eu acho que... Não sei... talvez eles estejam certos. – respondeu, a voz hesitante, cheia de dúvidas. - Quem? - O FBI. Talvez o que eles dizem seja verdade, embora pelas razões erradas. São os custos pessoais que estão altos demais. Com um suspiro, Scully começou a chorar mansamente. Ele a podia sentir cada vez mais frágil, cada vez mais distante. - Há tantas coisas que você precisa fazer com sua vida. – Weird sussurrou em seu ouvido, enquanto seus dedos acariciavam suavemente o rosto da mulher que chorava. – Há tantas coisas mais além disso... – Fez-se uma longa pausa. - Tem que haver um fim, Scully. Ele beijou-lhe carinhosamente a bochecha e se aconchegou mais contra seu corpo, sentindo que seu próprio calor fluindo para o corpo pequeno em seus braços ia exercendo, pouco a pouco, um efeito calmante sobre a mulher. Mas ainda assim, embora ali aprisionada por seu abraço, ela a sentia escapar- lhe lenta e inexoravelmente, como areia escorrendo por entre seus dedos. Apenas um momento depois, ele estava de pé, cercado por árvores altas na mais absoluta escuridão. Uma luz branca que brilhava extremamente forte a curta distância o atraía. Ele encaminhou-se em passos lentos para ela. Rostos familiares o aguardavam no interior do círculo de luz. Os nomes surgiam em sua mente sem que ele realmente soubessem quem eram. Teresa, Ray, Billy. Mais um instante, e Weird se viu deitado, atado a uma mesa de aço, em algum lugar que se assemelhava a uma sala de cirurgia. Instrumentos os mais variados estavam conectados a seu corpo. Estava nu e sentia frio, muito frio. E outra vez a luz branca se acendeu, o cegando. E a dor começou, forte, incessante. Cada vez mais forte, mais forte... Aaahh! Acordou banhado em suor, os olhos muito abertos tentando perceber, através da escuridão, aonde estava. Aos poucos, foi acostumando-se às trevas e pôde determinar que estava deitado em um abrigo construído com o papelão de velhas caixas, num beco, em algum lugar, o mesmo lugar onde se adormecera havia algumas horas. Ufa! Tivera aquele sonho recorrente outra vez. A angústia, o medo, a dor tão reais no pesadelo que podia sentir seu coração ainda disparado. Passou instintivamente as mãos pelas pequenas cicatrizes circulares que ainda formigavam em seu rosto. Há tempos tivera aquele sonho pela primeira vez. Começara apenas com a claridade ofuscante da luz branca, a dor insuportável. Aos poucos, porém, o pesadelo fora ganhando mais detalhes, a mesa de aço, a sala com seus equipamentos. Mais tarde, a floresta e o círculo de luz passaram a fazer parte dele também, acompanhados por aquelas pessoas todas. Aparentemente, ele as conhecia, até mesmo sabia seus nomes! Elas pareciam tão reais... Seriam sua família, seus amigos que aos poucos iam ressurgindo em sua memória? Por mais que se esforçasse, não conseguia se recordar. Dessa vez, no entanto, houvera algo de novo no sonho. Sim. Algo bom... Era Dana Scully aninhada em seus braços, tão pequena, tão delicada. Podia ainda sentir-lhe o perfume dos cabelos, o calor de seu corpo miúdo. Ela parecia tão assustada, tão debilitada no sonho. Tão diferente de quando a conhecera na Califórnia. Weird lembrava-se de como o corpo dela era sacudido por calafrios no sonho. Como se estivesse doente ou com medo. Pensou em suas próprias palavras ditas a ela, "quero que você vá para casa"... Por que a afastava de si até mesmo em seus sonhos e, ainda assim, a estreitava nos braços como que para evitar que se fosse? Tantas contradições... Uma repentina rajada de vento frio fez Weird estremecer. Ele ajeitou o velho sobretudo em volta do corpo e encolheu-se em uma bola para tentar se aquecer. Fechou os olhos e a imagem de Dana Scully, impressa a fogo e paixão em suas pálpebras, se fez visível. Precisava tentar dormir novamente. Para sonhar com ela. Rua 46 – New York City, New York 11/10/2005 – 01:45 PM Os anos haviam sido generosos com Alex Krycek. A não ser por umas raras linhas de expressão um pouco mais marcadas, pouco mudara sua aparência desde a última vez em que vira Mulder, no escritório do porão do FBI, havia cinco anos. O rosto continuava belo, mas com um quê de crueldade que ele algumas vezes deixava transparecer naqueles frios olhos verdes. Mas se a aparência não mudara de maneira muito evidente, o mesmo não se poderia dizer, no entanto, de seu status quo e de seu papel dentro do Sindicato. Deixara de ser um matador de aluguel, um simples joguete, um mero instrumento nas mãos daqueles homens. Desde a morte de C.G.B. Spender, Krycek havia usado de doses alternadas de cordialidade e intimidação, simpatia e brutalidade para conquistar para si a posição ocupada pelo falecido. E conseguira. Exercia agora com mão de ferro o papel que outrora fora do Canceroso e usava de seu poder e influência junto àquele grupo para manter seus numerosos inimigos sob controle. Afinal, escrúpulo não era palavra que constasse do vocabulário de Alex Krycek. - Precisamos acabar com ele. Fox Mulder não pode continuar vivendo. – falou incisivo aos membros do Sindicato reunidos em torno da mesa da sala de reuniões. Os aparentemente veneráveis senhores do Sindicato entreolharam-se em desconforto. - Mas, Alex, nossos informantes no FBI já garantiram que ele está desmemoriado. Não sabe quem é, não se lembra de nada. Vive como um sem teto, nas ruas das grandes cidades. Que ameaça pode alguém assim representar para nossas operações? – arriscou o homem de óculos. - Sim. – acrescentou hesitante o homem do cachimbo. – Que perigo um mendigo pode nos oferecer? Principalmente, se como nos foi informado, o próprio FBI não consegue ou não quer localizá-lo? - Senhores, digo que Mulder SEMPRE representa uma ameaça. Ele já foi subestimado no passado e todos nós sabemos qual foi o resultado. – redarguiu Krycek com veemência. – Será que preciso lembrá-los de todo o esforço que nos custou para retornarmos ao ponto em que estávamos depois de sua última intervenção em nossos negócios? Será que preciso lembrá-los do quão custoso foi atingir o ponto em que estamos agora? – olhava ao redor, encarando cada um dos homens na sala enquanto dizia aquelas palavras. - Será que preciso enumerar as diversas vidas que foram perdidas nesse processo para convencê-los? Um silêncio opressivo dominou a sala quando Krycek calou-se. Com a mão enluvada, ele segurou o copo d'água pousado sobre a mesa a sua frente. Ergueu-o lentamente, o levando aos lábios, seu olhar hipnotizado pelos movimentos precisos do membro artificial que sustentava o copo. "Tunguska...", pensou com rancor. "Maldito Mulder!" - Mulder DEVE ser eliminado. – sibilou, esmigalhando o copo com os dedos. Sede do FBI - Washington, DC 11/10/2005 - 04:55 PM Aquele fora apenas outro dia de tédio burocrático para Scully. Já perdera as contas de quantos formulários e relatórios já havia preenchido desde o início da auditoria interna havia dois dias. Isso sem falar na reunião- sermão de Skinner com todos os agentes sob seu comando para "lembrá- los mais uma vez sobre a importância de preencher e entregar toda a papelada o quanto antes após o encerramento de um caso, e blá-blá- blá"... Enfim, apenas perda de tempo. Olhou rapidamente para o relógio de pulso e suspirou. Felizmente, já era quase na hora de ir embora. Enquanto arrumava as coisas sobre a mesa, planejava todas as inúmeras tarefas que ainda tinha a executar naquele dia: buscar Amy na escola, uma breve passada no supermercado no caminho de volta para casa para providenciar os ingredientes do jantar, prepará-lo, lavar e passar roupas, etc. "Rotina de dona de casa, mãe de família", pensou ela, suspirando saudosa pelos velhos tempos quando podia se dar ao luxo de ter pregüiça e simplesmente jantar um sanduíche da lanchonete ou passar em casa para tocar de roupa e sair para correr e desanuviar a cabeça... Mas havia a compensação. Não havia mais noites solitárias quando tudo o que desejava era ter alguém ao se lado para conversar, para abraçar... Sem Mulder, se Amy não houvesse acontecido em sua vida, provavelmente teria se consumido em loucura. Mas a filha era um pequenino Mulder em muitos sentidos. Nos olhos cinzentos tão profundos que se poderia mergulhar em sua vastidão, nas tiradas irônicas com que se saia apesar da pouca idade, no jeitinho maroto de arquear a sobrancelha. Um "biip!" agudo a arrancou dos devaneios. "Você tem correspondência" dizia a janelinha na tela de seu notebook. Outra vez, uma mensagem sem remetente ou assunto. Estranho. Não hesitou em abri-la. "A raposa voltou. O galinheiro sente-se ameaçado e prepara uma reação." Com a confusão e o estresse gerados pela presença dos auditores no Bureau, ela havia acabado por esquecer-se da mensagem anterior. Agora, com o recebimento de mais outra no mesmo estilo, concluiu que precisava tomar alguma providência, tentar descobrir quem estava lhe enviando aquelas mensagens e por quê. Sem maiores delongas, encerrou seus preparativos e partiu. QG dos Pistoleiros Solitários – Washington, DC 11/10/2005 - 08:15 PM - Mais um cachorro quente bem passado saindo para minha princesinha! – exclamou Frohike, desmanchando-se em sorrisos ao entregar o sanduíche a Amy. - Muito obrigada, tio Frohike! – respondeu a menina já com a boca cheia de pão. - Amy, quantas vezes preciso lhe dizer que não se deve falar com a boca cheia? – ralhou Scully sob o olhar encantado de Frohike. - Sinto muito, mamãe. – desculpou-se a garotinha com um muxoxo. - Não ligue, meu bem. – consolou Frohike alisando a cabecinha ruiva. – Às vezes eu também me esqueço e acabo falando com a boca cheia... Scully sorriu, enternecida com o carinho que o homem demonstrava pela menina. Desde o desaparecimento do parceiro, os Pistoleiros Solitários a haviam aceitado como uma igual e se tornado seus melhores amigos, incansavelmente burlando leis, invadindo computadores do governo e vasculhando seus arquivos secretos à procura de Mulder. Somente haviam diminuido o ritmo frenético de sua investigação a pedido da agente após uma vez em que quase haviam sido presos pela invasão dos computadores do Pentágono. Na ocasião, ela fora obrigada a recorrer a Skinner e este a seus contatos entre os todo-poderosos deuses da guerra que imperavam naquela casa para evitar a prisão dos Pistoleiros por atentado contra a segurança nacional. Um sufoco! Aqueles homens haviam se revelado os guardiães de seu bem- estar durante a gravidez, como se fossem os responsáveis por sua saúde na ausência de Mulder. Quando Amy nascera, a primeira visita que recebeu fora a dos Pistoleiros. Byers com um buquê de flores, Langly surpreendenetemente vestido com algo que não uma camiseta de banda de rock, os cabelos cuidadosamente penteados, e Frohike parecendo um pinguim apertado em um terno preto. O encantamento desse último pela menina iniciara-se no primeiro momento em que lhe pusera os olhos e, desde então, o "tio" Frohike nunca deixara de enchê-la de presentes em seu aniversário e no Natal. - Bingo! – a exclamação de Byers chamou-lhe a atenção de volta ao que viera tratar ali. - Encontraram alguma coisa? – indagou ansiosa, aproximando-se dos dois homens inclinados sobre seu computador. - Não! – respondeu Langly com ar desolado. - Sim e não, agente Scully. – corrigiu Byers. Às vezes era assim, eles a deixavam completamente atarantada com suas respostas contraditórias. - Como assim? – ela insistiu. – Sim ou não? - Não, não conseguimos identificar quem é o remetente das mensagens. – respondeu Langly com um suspiro. - E sim, - acrescentou Byers, - conseguimos rastrear as mensagens até o local de onde foram originalmente enviadas. - E... – apressou a agente, diante do silêncio dos dois homens. - Bem... – continuou Byers, - antes de chegarem até o servidor de correio eletrônico do QG do FBI, as mensagens passaram por computadores em Santiago, Atenas, Iekaterinburgo, Berna, Udine, Riad, Recife, Adis Abeba, Varsóvia, Oslo e Copenhague. Mas foram originalmente enviadas de um cyber café aqui mesmo em Washington. Aqui está o endereço. - Grande! – exclamou Scully com um sorriso, examinando o endereço anotado que lhe passaram. – Posso contar com vocês para me ajudarem nessa investigação? - Claro! – responderam os três Pistoleiros em uníssono. - Ótimo! Que tal amanhã às nove na porta do cyber café? - Nove da noite? – indagou Frohike, irônico, recebendo como resposta um careta de Scully. - Três da tarde foi o horário aproximado de envio das duas mensagens. Sendo assim, estaremos às duas horas lá e não se fala mais nisso, ok, agente Scully? – emendou Langly, taxativo. Apartamento de Scully – Washington, DC 11/10/2005 - 10:05 PM - Mamãe... Eu estava pensando numa coisa... - Huumm? – perguntou Scully distraída, enquanto abotoava o pijama cor- de- rosa estampado com ursinhos de Amy. - É que... Bom... – hesitava a menina. – Eu queria perguntar uma coisa para você... - Sim, meu bem. – respondeu Scully, ainda concentrada nos minúsculos botões cor-de-rosa que insitiam em escapulir por entre seus dedos. - Quando o senhor Weird voltar, ele pode ser meu pai? – soltou Amy de sopetão, após mais um instante de hesitação. O inesperado da pergunta deixou Scully sem ação, muda. Aparvalhada seria a descrição correta para seu estado. Precisou recorrer a todos os seus anos de experiência como agente do FBI para reagir com rapidez àquela situação. - Como assim, querida? – disse numa tentativa mal sucedida de manter sua voz firme, esforçando-se para não demonstrar sua confusão. - Eu estive pensando... Todas as crianças da escola tem um pai e elas sempre contam, no dia do "mostre e conte", sobre as coisas que fizeram com seus pais ou em que eles trabalham e as coisas legais que dizem e esse tipo de coisa. Aí, eu pensei que deve ser legal ter um pai. E então, eu perguntei à tia Sally o que era exatamente um pai. - E o que ela disse? - Scully fitava o rosto da filha com ternura. Imaginava os curiosos olhos cinzentos da menina ao fazer a pergunta à professora. - A tia me explicou que um pai é um homem que a gente gosta muito de uma maneira muito especial e que gosta da gente da mesma maneira. Ela também falou que, geralmente, é alguém de quem a mamãe gosta muito e que gosta muito dela também. Aí, eu pensei: eu gosto muito, muito mesmo do senhor Weird e ele me disse que gosta muito de mim. – Scully acompanhava atenta a lógica inocente da filha. – Além disso, eu percebi que você gostou muito dele, mamãe, e achei que ele gostou de você também. Aí, eu resolvi que queria que ele fosse meu pai. Pode ser, mamãe? A mulher ruiva sorriu em resposta, os olhos úmidos diante da explicação da menina. Embora de um ponto de vista simplista aquilo tudo fizesse bastante sentido e fosse exatamente o que ela própria desejava por sua vez, as coisas não eram assim tão simples... - Bem, meu anjo, por mim, tudo bem. Mas entenda que o senhor Weird precisa querer também... - Ah, mamãe! – interrompeu a garotinha. – Eu tenho certeza que ele vai querer. Vai sim! – completou com convicção. - Então vamos combinar o seguinte, - atalhou Scully ante a certeza da menina, - quando ele reaparecer, nós vamos conversar com ele sobre isso e ver o que acha, está bem? – Amy concordou com a cabeça, mal contendo um bocejo. – Mas, por agora, já passou da hora de uma certa garotinha dormir, não acha? A menina pulou contente na cama macia. Depois de ajeitar as cobertas e beijar-lhe a testa, a mãe apagou a luz, desejando-lhe boa noite e deixando o quarto. Enquanto se preparava também para dormir, Scully não pôde deixar de sorrir ao lembrar das palavras da filha. A perspicácia e a sensibilidade da menina sempre a surpreendiam. Mas, como qualquer criança, suas idéias eram freqüentemente mirabolantes. Como se fosse assim tão simples fazer de Weird seu pai somente porque gostava dele... Ah, se fosse... Que bom seria! Olhava-se no espelho do banheiro e escovava os cabelos, lembrando do reflexo de uma outra Dana Scully que vira num espelho de motel na Califórnia havia uns poucos meses atrás. Uma mulher feliz porque sabia que amava um homem e era correspondida. Lembrou-se de como haviam se amado apaixonadamente, do quanto fora bom. Lembrou-se de como sentira-se realizada, rejuvenescida então. Sorriu para si mesma. Mas nem sempre fora assim naqueles últimos cinco anos. Nem sempre era aquela imagem de mulher viçosa e confiante que se apresentava a ela no espelho. Houveram tantas ocasiões em que nem ao menos pudera reconhecer-se no reflexo pela manhã... Uma delas, em especial, voltava-lhe à mente, de tempos em tempos, como uma amarga memória... Willamina, Oregon 28/03/2003 – 03:25 AM Scully abriu os olhos ligeiramente, fixando o teto. A cabeça lhe doía, latejava como se fosse um bigorna golpeada ritmicamente por um martelo. "Droga de whisky barato!" O vento quente e seco do aquecimento ressecava- lhe as narinas e produzia arrepios na pele de seu corpo nu. Lentamente, ainda com os olhos semicerrados, foi tentando recordar os acontecimentos que a conduziram até ali. Primeiro, foram as informações sobre avistamentos de luzes fortes, movendo- se rapidamente e depois desaparecendo da mesma forma sobre a floresta próxima a Willamina, Oregon. Alguns dias mais tarde, recebeu um telefonema do xerife da cidade, informando sobre um homem desmemoriado e com marcas de queimaduras pelo corpo que fora encontrado à beira da estrada que atravessava a floresta. "Mulder!", pensou ela, a chama da esperança uma vez mais reacesa. Afinal, Willamina ficava a cerca setenta quilômetros de Bellefleur, onde a abdução ocorrera. Menos de quatro horas depois, estavam a caminho, ela e Doggett. No princípio, quando Doggett fora designado para trabalhar com ela, não gostara dele. Sua presença no escritório no porão do FBI parecia-lhe uma heresia, uma violação à memória de Mulder. Aos poucos, porém, fora se acostumando ao jeito seco e cético do novo parceiro. Com a evolução de sua gravidez, ele havia se demonstrado um bom companheiro de trabalho, poupando-a de esforços e encobrindo suas eventuais falhas. Acostumou- se com ele. Mas isso era tudo o que tinham, uma boa relação de trabalho. Não gostava da idéia de tê-lo ao seu lado nos momentos em que se sentia mais frágil, como a cada nova malfadada investigação sobre o paradeiro de Mulder. E fora justamente isso que mais aquela jornada se revelara ser. Mais outra desilusão. O homem encontrado na estrada era apenas um bêbado que havia sofrido ferimentos e queimaduras após adormecer sobre uma fogueira na floresta. As luzes misteriosas que os habitantes do local supunham ser OVNIs não passavam de aviões militares em treinamento de camuflagem noturna. Resumindo: nada de Mulder, apenas outro balde de água fria nas esperanças já tão combalidas de Scully. De volta ao hotel, ela não se lembrava exatamente porque se iniciara seu pranto. Tudo o que sabia era que, de repente, não conseguia parar de chorar. Sentia-se cansada após trinta horas sem dormir, desamparada, sem esperanças nem forças para continuar. - Para acalmar. – disse Doggett, estendendo-lhe um copo cujo conteúdo ela bebeu de um só gole. O whisky desceu queimando sua garganta. Mas a sensação foi boa. Fê-la sentir-se viva por um instante. E ela estendeu-lhe o copo, pedindo outra dose. E outra e mais outra. Não sabia ao certo quantas doses havia bebido quando percebeu-se nos braços do parceiro. Sentia-se meio tonta, a cabeça leve, girando, flutuando. Ele a enlaçava com um dos braços, protetoramente, enquanto o outro deslizava por suas costas abaixo. Beijava-lhe, também, o pescoço e a nuca. O que fazia não era certo, mas a sensação era tão boa... E ela não resistiu, deixando- se levar pelos instintos. A intensidade das últimas lembranças fez com que ela abrisse os olhos de sopetão, temendo olhar para os lados. Sentou-se vagarosamente na cama, sem desgrudar os olhos do teto. Respirou fundo para adquirir coragem de olhar e então o viu. Doggett dormia nu, ao seu lado na cama. Apartamento de Scully – Washington, DC 11/10/2005 – 10:25 PM Tentando apagar as incômodas lembranças, Scully sacudiu a cabeça. Ainda sentia-se como se sentira na ocasião, um misto de culpa e arrependimento lhe oprimia o coração. Sentia-se suja. Lembrou-se de que, na ocasião, havia entrado debaixo do chuveiro e lá permanecido por não sabia quanto tempo. Como se as agulhadas da ducha fria pudessem não apenas lavar seu corpo, mas também limpar sua alma da culpa. Lembrou-se de como ficara aliviada quando, ao sair do banheiro, constatara que Doggett não estava mais lá. Por todo o restante da madrugada até o raiar do dia, Scully havia rolando na cama, insone, remoendo o sentimento de culpa. Lembrou-se de seu próprio reflexo no espelho na manhã seguinte, a face pálida, os lábios descorados, os olhos sombreados de púrpura pela noite não dormida. Um triste fantasma de si mesma. Lembrou-se da forma como tratara Doggett depois, fria, quase agressiva, durante os dois dias subseqüentes, até que ele tocara no assunto e lhe pedira desculpas, alegando estar ele, também, já um pouco afetado pelo álcool. Ela aceitara-lhe as desculpas, acrescentando que o melhor era esquecerem o acontecido. Ele concordou e, com isso, deram o assunto por encerrado. Mas ela jamais conseguira livrar-se do arrependimento. Envolta naquelas desagradáveis sensações do passado, deixou a escova escapar-lhe das mãos e cair no chão com estardalhaço. "Espero que não tenha acordado Amy..." pensou, enquanto se abaixava para pegar o objeto. Ao levantar-se, porém, subitamente seus ouvidos começaram a zunir, as paredes começaram a girar à sua volta. Ainda tentou agarrar-se à pia, para tentar alcançar a parede e escorar-se, mas foi em vão. Os braços não lhe obedeciam, as mãos não tinham força, as pernas foram ficando moles. Até que tudo ficou escuro e ela caiu no chão desacordada. 12/10/2005 - 05:27 AM O quarto estava escuro quando ele entrou. Ela jazia na cama, adormecida ou inconsciente, ele não podia dizer ao certo. A luz fraca dos painéis dos equipamentos acentuava a palidez do rosto da mulher. Ela estava doente, muito doente, ele concluiu à vista do sem número de tubos e cateteres e eletrodos que uniam o corpo feminino às máquinas em volta da cama. E havia aquele cheiro... O cheiro característico de hospitais que se mesclava sutilmente a outro odor... o cheiro repugnante da morte, grudando- se em suas narinas... Oh, Deus... Ela estava morrendo... Vencendo a dor e o medo, ele caminhou lentamente até a lateral da cama. Viu o sofrimento estampado no semblante de Dana Scully, a pele da cor de cera, os lábios descorados, as feições encovadas emolduradas pelo vermelho dos cabelos descuidadamente espalhados sobre o travesseiro. A mão hesitante tocou-lhe os cabelos, ajeitando gentilmente uma mecha rebelde que lhe tombava sobre a testa, como se pudesse, com aquele gesto, reparar tudo o que havia de errado com ela. Tomou-lhe a mão entre as suas. Estava fria. Ela estava morrendo... "Oh, Deus! Por que ela? Por quê? Não a leve, por favor, eu imploro." A sensação opressiva da perda iminente apertava-lhe o peito como uma tenaz. Não pôde impedir que os joelhos se vergassem, que as lágrimas corressem de seus olhos. Caiu ajoelhado ao lado da cama. "Eu suplico, ó Deus, não a leve. Não a tire de mim..." A pressão em seu peito aumentava, o ar começava a lhe faltar. "Não a leve, por favor, não, nããão..." Weird abriu os olhos assustado, sufocando. Lutou para controlar sua respiração ofegante. Agora sabia que havia sido outro pesadelo. Mas fora tão assustadoramente real... Ainda trazia nos olhos as lágrimas que vertera no sonho. Ainda trazia no peito a angústia de perdê-la. Fechou os ohos com força, tentando resgatar a imagem de uma outra Dana Scully, aquela linda e confiante que conhecera e que trazia gravada nos recônditos de sua mente. Mas não conseguiu visualizá-la. Alguma coisa, uma espécie de intuição o forçava a manter-se alerta e o obrigou a abrir os olhos outra vez. Mal teve tempo de rolar para o lado quando o desconhecido vestido de negro saltou sobre ele. O homem, surpreendido pelo movimento brusco de Weird, caiu estatelado no chão. Weird levantou-se com um salto e tentou correr, mas foi retido pela mão de um segundo homem às suas costas que apertava seu braço. O reflexo fê-lo virar- se de repelão e atingir com o punho fechado o rosto do agressor que lhe soltou o braço. Liberto, Weird seguiu em disparada na direção da linha férrea, tropeçando nos trilhos pelo caminho, escorregando na brita molhada pela chuva fina que começava a cair, numa desenfreada corrida de obstáculos. De relance por cima do ombro, percebeu que os dois desconhecidos o seguiam de perto. Ouviu o som de disparos atrás de si. Apertou o passo, seguindo ainda os trilhos, a regularidade do posicionamento dos dormentes já não representando um percalço tão grande uma vez que conseguira ajustar suas passadas a eles. Mas os homens não desistiam de sua perseguição. Num último esforço, Weird conseguiu alcançar com um pulo um vagão plataforma do trem que iniciava sua viagem diante dele. Mal teve tempo de respirar e o primeiro homem já saltava, também, sobre o vagão e sobre ele. Na luta encarniçada que se iniciou então, não tiveram tempo de ver o momento quando o segundo perseguidor, na tentativa de pular, também, sobre o vagão, resvalara na plataforma molhada e caíra, sendo tragado pela escuridão e pelas rodas vorazes do trem. Weird e seu agressor rolavam atracados sobre a plataforma aberta do vagão enquanto o trem ganhava velocidade. Ajudado por um solavanco um pouco mais brusco do caminho, Weird conseguiu se livrar das mãos do homem que se estreitavam como garras em torno de seu pescoço e atingir com um salto o vagão subseqüente. Galgava com dificuldade os degraus molhados pela chuva da escada metálica, tentando chegar ao teto do vagão, quando percebeu que seu atacante havia conseguido segurá-lo por um dos pés. Chutou repetidamente o vazio na tentativa de desvencilhar-se do agressor, mas acabou sendo vencido pela força superior do inimigo e deixando o apoio onde se agarrava escapar de suas mãos. Caiu. Não poderia precisar se fora a mão de Deus ou da sorte. O fato é que sua queda foi interrompida por algo que se prendeu em seu sobretudo. E Weird ficou pendurado por essa mão invisível no vão entre os dois vagões, os pés quase tocando os trilhos a poucos centímetros abaixo. Desesperadamente, procurava um apoio qualquer onde se agarrar, enquanto, apesar do barulho ensurdecedor do trem, ouvia (ou sentia, talvez) o ruído do tecido de sua roupa se rasgando milímetro a milímetro. O homem desconhecido de pé no vagão diante dele tinha os lábios retorcidos em um sorriso raivoso. O cano de aço prateado da pistola em sua mão reluzia sob os primeiros pálidos reflexos da aurora. O dedo semi- flexionado contraía-se no gatilho quando um novo solavanco, seguido de uma redução brusca na velocidade do trem, arremessou o agressor para frente, de encontro ao corpo de Weird. A arma sumiu no vão entre os vagões, onde o homem, agarrado firmemente ao sobretudo de Weird, lutava para não desaparecer também. O peso extra acelerava o rasgar do tecido. Com um dos braços, Weird conseguiu finalmente agarrar-se outra vez à escada e, balançando o corpo, virar-se o suficiente para apoiar os pés num de seus degraus. As mãos do homem escorregavam pelo tecido molhado de seu sobretudo. Com esforço, Weird conseguiu galgar mais um degrau da escada, apoiando-se melhor. - Segure minha mão. – disse, estendendo o braço livre ao homem que escorregava cada vez mais. Numa tentativa desesperada, o homem arrojou-se em direção à mão que lhe era oferecida. Mas apenas conseguiu agarrar-se à manga do casaco. Um grito ecoou na madrugada quando o tecido se rompeu e o homem foi engolido pelos trilhos. Minutos mais tarde, encolhido no interior do vagão fechado onde conseguira se alojar, Weird refletia sobre os acontecimentos. A princípio, imaginara que os homens que o atacaram apenas desejavam se apossar de seu abrigo, seu casaco ou seus sapatos, uma atitude relativamente comum entre a população de rua movida pela necessidade de sobrevivência. Mas não fora isso o que ocorrera. Aqueles homens estavam armados, tentaram matá-lo. Não fazia sentido algum. Por que diabos alguém iria querer matá-lo? Lá fora, a chuva havia parado e o céu tingia-se dos tons alaranjados da aurora. Os primeiros raios tímidos de sol não tardariam a aparecer. O trem seguia veloz em direção a seu destino, algum lugar, Weird não sabia onde. Mas qualquer lugar devia ser melhor do que aquele onde desconhecidos queriam eliminá-lo. T O B E C O N T I N U E D . . . NOTA: Já sei! Vocês devem estar dizendo "essa mulher tá de onda com a nossa cara! To be continued, outra vez?" É, pessoal... Sinto muito. A intenção não é deixar ninguém furioso, só fornecer mais material para vocês passarem o tempo. Se alguém ficar com vontade de acabar com meus dias por causa disso, just shoot me. Ih! Mas, isso é outro seriado! MAIS NOTA: Conforme eu avisei no início, espero que vocês tenham prestado atenção nas datas e horas. É que fazer narração em flashback sem recursos visuais, como no cinema ou na TV, pode ser meio complicado. A cena entre nossa heroína e seu novo parceiro Doggett foi escrita a pedido da Graça. Portanto, se vocês quiserem xingar alguém sobre esse particular, eis a destinatária ( gracap@bol.com.br ).