Weird FAN FICTION ESCRITA POR: Bellefleur X (bellefleur_x@hotmail.com) DISCLAIMER: Os personagens desta estória pertencem a seus criadores. (Embora eu creia que, no caso específico de X-Files, os criadores é que passaram a pertencer a seus personagens!) CATEGORIA: Shipper (ma non troppo) CLASSIFICAÇÃO: Censura livre (aqui não tem nada que não se veja igual ou pior na novela das 6) SPOILER: Mais uma pós-Réquiem. SINOPSE: Após cinco anos de separação, Scully reencontra Mulder numa estranha situação. Como ela deve proceder para tê-lo de volta? ADVERTÊNCIA: Essa fic não é recomendada para diabéticos e pacientes em dieta de restrição de açúcares. Sorry, eu detesto essas coisas melosas, mas não pude evitá-las. Deve ser meu lado Janete Clair aflorando. AGRADECIMENTO ESPECIAL: À Graça, pelas idéias que me deu inicialmente e pela paciência de ler e opinar sobre essa coisinha melosa. NOTA: Feedbacks (positivos ou negativos) são essenciais para determinar a continuação dessa estória. Ou não... Weird Sacramento, CA 12/08/2005 - 11:20 AM A confusão de estridentes sirenes e luzes piscando era enlouquecedora. Bombeiros moviam-se apressados, desenrolando as pesadas mangueiras e apontando seus fortes jatos para a casa em chamas. Outros, saindo da casa com as crianças resgatadas nos braços, dirigiam-se rapidamente aos paramédicos e ambulâncias que também congestionavam o local. Policiais isolavam a área das dezenas de curiosos que se apinhavam nas proximidades, querendo saber mais detalhes sobre o incêndio. Pudera! Incêndios são sempre situações angustiantes. Imagine, então, um incêndio em um jardim de infância! Felizmente, segundo as informações dadas pela polícia à TV local, todas as crianças já haviam sido retiradas com vida da casa. Subitamente, um homem magro, encurvado, sujo rompeu o isolamento sem que os policiais pudessem impedi-lo e penetrou no inferno em chamas em que se transformara a casa. A multidão que assistia à cena ficou atônita! - Louco! - disseram alguns. - Suicida. - ecoaram outros. Dentro da casa, o homem, alheio às chamas, procurava por algo. Ia andando de cômodo em cômodo com passos firmes. Nesse momento, não era mais o mendigo encurvado que entrara ali, mas um gigante, forte e destemido. Sentia como se uma mão invisível o conduzisse por entre as labaredas altas com um propósito que ele desconhecia. Ainda. De repente, por entre o rugir do fogo e os estalidos característicos que precedem o colapso das construções em chamas, ouviu o débil choro de uma criança. O ruído não era mais do que um murmúrio, mas o homem seguiu decidido em sua direção. E, então, a viu. Encolhida em um canto, trêmula e assustada, estava uma menina de cerca de quatro anos. Ao perceber a proximidade do homem, ela ergueu a pequenina cabeça coroada de cabelos ruivos e, depois de um breve exame com seus olhinhos cinzentos, se atirou em seus braços. Ele a aninhou contra seu peito com todo cuidado e iniciou seu caminho para fora, protegendo-a do fogo com seu corpo. Ao redor deles, as chamas consumiam os brinquedos transformando os ursinhos de pelúcia em bolas ardentes e os rostos sorridentes dos palhacinhos em grotescas faces deformadas de monstros. Pedaços do teto começavam a ruir, mas ele marchava com firmeza por entre o caos, conduzindo seu precioso tesouro para a segurança do exterior. 11:55 AM - FBI. - disse Scully, apresentando com as mãos trêmulas a insígnia a um dos policiais responsáveis pelo isolamento da área do incêndio. Sua face estava turva pelo medo. Esforçava-se para manter a aparência fria e profissional que sempre a caracterizara, mas era quase impossível. Andava com passos incertos por entre o tumulto de homens e mangueiras e macas, procurando por ela, examinando sobressaltada cada rostinho de criança que via pelo caminho. Apenas uma olhada na direção da casa em chamas foi suficiente para que quase desfalecesse de terror. Amy Scully, sua filha estava naquela casa onde, até aquela manhã, funcionara um limpo e organizado jardim de infância. Por que fora trazê-la consigo naquela investigação? Por que não a havia deixado com a avó como inicialmente planejara fazer? Washington DC 08/12/2004 - 11:28 AM Scully fora chamada com urgência ao jardim de infância de Amy. A menina tinha febre alta e chorava sem parar. Scully levou a filha às pressas ao pediatra, mas ao examiná-la, cerca de meia hora mais tarde, o médico constatou que a febre havia passado sem deixar vestígios. Aparentemente, Amy voltara a ser a criança saudável que sempre fora. Receitou-lhe um antitérmico, caso a febre voltasse, e um exame de sangue. No dia seguinte e por todos os subseqüentes desde então, o quadro voltou a se repetir, iniciando-se sempre em torno de 11:30 AM e indo embora sem necessidade de medicação alguma cerca de meia hora depois. Infindáveis consultas médicas e intermináveis exames não conseguiram revelar nada de errado com a saúde da menina. No entanto, a febre sempre aparecia e desaparecia à mesma hora com a precisão de um relógio suíço. De resto, Amy continuava sendo a garotinha esperta e alegre de sempre. O diagnóstico final dos especialistas foi de um tipo de distúrbio de origem psicossomática e o tratamento prescrito, o acompanhamento psicológico. Como aconteceria com qualquer mãe, o coração de Scully não se satisfez com aquele diagnóstico vago e impreciso. Entretanto, sua mente racional e científica, aliada à sua formação médica e às suas experiências profissionais passadas, foram forçados a aceitar o parecer dos médicos e proceder com o tratamento. Assim, desde então Amy vinha freqüentando o consultório de uma terapeuta infantil sem, no entanto, apresentar nenhuma melhora. Washington DC 26/07/2005 - 2:36 AM Scully foi acordada pelo som do choro convulsivo da filha no quarto ao lado. Correndo até lá, a encontrou sentada na cama. Acreditando tratar-se de sonambulismo, tentou despertá-la gentilmente, mas Amy tinha a pele fria e os olhos arregalados e não reagia a estímulos externos. Era como se estivesse em transe, presa em algum pesadelo assustador. Abraçou a menina com ternura, tentando acalmá-la com palavras suaves, e assim ficou até que ambas adormeceram. Sacramento, CA 12/08/2005 - 12:59 AM Scully parecia hipnotizada pelas chamas que ainda consumiam a casa, estava imersa nas recordações dos acontecimentos que a fizeram trazer a filha consigo naquela investigação. Desde aquela primeira noite, havia duas semanas, quando Amy a acordara com seu pranto, o evento vinha se repetindo noite após noite. Somente envolvida pelo abraço da mãe é que a menina se acalmava. E acabavam ambas por adormecer assim, abraçadas. Sentia a filha carente como nunca. Desde seu nascimento, Scully esforçava- se por suprir todas as necessidades afetivas que a menina pudesse ter pela ausência do pai em sua criação. Scully tentava ser, ao mesmo tempo, mãe e pai de Amy, alternando seu próprio modo de ser e pensar com o modo como imaginava que Mulder se comportaria em cada situação. Racional e passional, fria e apaixonada, cética e fervorosa, ela procurava mostrar à filha todas as diferentes nuances do mundo. Quando Skinner a designara para aquele caso na Califórnia, foi por um triz que não pedira para que ele mandasse outro agente em seu lugar. Porém algo, no fundo de sua alma, a fez desistir de pedir o afastamento. Algo que não saberia definir, uma daquelas intuições inexplicáveis que aprendera com o parceiro desaparecido a não desprezar. Como não lhe pareceu correto deixar a filha na casa de sua mãe naquele estado tão carente em que se encontrava, resolveu levá-la consigo. Por indicação de uma amiga que já morara na cidade, conseguiu deixar Amy durante os dias em que estivesse ali no jardim de infância que agora ardia como os fossos do inferno. Um telefonema da polícia recebido em seu celular avisando-a do incêndio a fez correr para o local. O esbarrão de um bombeiro a despertou do transe em que se encontrava. Recomeçou a vagar a esmo por entre as ambulâncias e paramédicos sem encontrar a filha. Decidiu abordar um policial que, aparentemente, estava coordenando as operações de resgate. - Procuro por Amy Scully. - disse ela, mostrando a insígnia ao policial. - Ali. - respondeu ele, depois de examinar uma planilha em uma prancheta. E apontou na direção de uma das ambulâncias. Com o coração como que apertado por tenazes de gelo, ela dirigiu-se com passos trôpegos na direção indicada. Uma criança com a cabeça enfaixada jazia dentro da ambulância. Usava uma máscara de oxigênio que cobria quase todo o seu rosto. Scully engoliu em seco, estreitando os olhos na tentativa de enxergar através da penumbra do interior da ambulância. Uma mecha de cabelos muito louros que escapava por entre as ataduras da cabeça libertou seu peito do completo desespero que a consumia apenas para fazer retornar a angústia que a trouxera até ali. - Quem a senhora procura? - indagou solícito o paramédico que cuidava da criança de cabeça enfaixada. - Minha filha, Amy Scully. - respondeu com um fio de voz. - Ah! Ela está bem. Está ali fora, no gramado. - procurou acalmá-la o gentil paramédico, sorrindo. Para um coração de mãe, não basta ouvir, é preciso ver com os próprios olhos. Ela dirigiu-se, então, com passos incertos até o gramado indicado. Nele, havia um homem de cabelos curtos castanhos sentado de costas para ela, com as pernas cruzadas em posição de lótus. Podia-se notar que tinha as costas largas, apesar de seus ombros estarem encurvados como se estivesse muito, muito cansado. Scully estremeceu. Por um instante, julgou tratar-se do parceiro desaparecido. Mas qual! Era apenas um mendigo, com as roupas sujas e esfarrapadas, mais um homeless entre outros tão comuns naqueles tempos. Mais dois passos, e ela divisou os finos cabelos ruivos de Amy, sentada sobre uma das pernas do homem. Podia ouvi-la rindo, aos arrancos, como costumava fazer quando estava se divertindo muito. Um arrepio de felicidade percorreu seu corpo. O coração, outra vez liberto das tenazes do medo, permitiu que ela soltasse um suspiro de puro alívio. Despindo a capa de profissional super competente que normalmente portava para deixar a descoberto a figura da mãe amorosa que era, Scully deixou que as lágrimas rolassem livremente por sua face. - Amy? - chamou, já ao lado da filha. Homem e menina voltaram-se para ela a um só tempo. Amy tinha um brilho radiante nos olhos, sorria feliz como havia tempos não fazia. A menina, normalmente tímida como a mãe, sentava-se no colo daquele estranho com uma das mãozinhas colocada sobre seu peito como se fossem velhos conhecidos. Por entre as lágrimas, ela percebeu que o homem também sorria. - Minha filhinha... - murmurou Scully, pegando a filha no colo e a estreitando em seus braços enquanto cobria seu belo rostinho de beijos. As lágrimas que toldavam a visão de Scully começavam agora a se dissipar. Colocando Amy no chão, ela começou a examiná-la minuciosamente à procura de algum ferimento que tivesse passado desapercebido aos paramédicos. - Ela está bem! Pode acreditar. - disse o homem, calmamente. A voz daquele homem, aquela voz que por cinco longos anos ela desejou tão ardentemente escutar, fez seu coração descompassar-se. Mulder! Não podia ser ele... Sua imensa saudade mais uma vez lhe pregava peças... Ela respirou fundo uma, duas vezes, até conseguir reunir coragem para levantar a cabeça e encarar a verdade. Fosse qual fosse. Era ele! Por debaixo daquela camada de sujeira e das roupas rasgadas. Seu rosto, de tão magro, estava desfigurado. Os ombros encurvados para a frente sugerindo um extremo cansaço. Mas os mesmos olhos cinzentos onde tantas vezes ela desejara se perder e que agora escondiam-se por trás de olheiras profundas não deixavam dúvidas. - Mulder... - ela murmurou, sorrindo. - Como? - perguntou ele, sem entender. - Mulder? É você? - ela repetiu mais alto. - Acho que me confunde com outra pessoa, senhora. Me desculpe! - respondeu ele com um sorrisinho amarelo. Scully ficou desconcertada. Seria possível estar fazendo tamanha confusão? Tinha certeza de que não. Seu coração o dizia. Talvez devido ao choque ele não se lembrasse... Amnésia traumática, dizia a médica que se abrigava na parte posterior de sua cabeça. - Sou eu quem deve se desculpar, senhor...? Como é mesmo seu nome? - Pode escolher, senhora. Tenho tantos nomes que já nem sei ao certo qual é o meu nome... - disse ele, tomando agora o embaraço para si. - Os outros homeless andam me chamando de Weird... Por causa das estórias que conto, sabe? - Tinha agora um sorriso irônico nos lábios. - Pode me chamar assim, se quiser. Ou de qualquer outro modo que deseje. - Weird... - ela repetiu sorrindo. "Weird" fazia sentido, em se tratando de Mulder. Descrevia-o perfeitamente. - Gostaria de lhe agradecer pelo que fez por Amy... - Não foi nada, senhora...? - Scully, Dana Scully. - respondeu ela estendendo-lhe a mão que ele tomou em um aperto forte e decidido. O aperto de mão de Mulder. Sentiu um nó se formando em sua garganta. - Amy é uma garotinha muito especial... - disse ele com um sorriso cândido, afagando gentilmente os cabelos da menina, subitamente mergulhando em pensamentos... Washington DC 08/12/2004 - 10:15 AM As crianças brincavam no parquinho no pátio do jardim de infância. Algumas corriam como loucas, umas atrás das outras, num pique onde todos eram ao mesmo tempo perseguido e perseguidor. Outras voavam nos balanços e gangorras. Ao longe, podia-se ouvir suas risadas e gritinhos felizes. Felizes e despreocupadas como todas as crianças deveriam ser. De pé, na esquina do outro lado da rua, um homem observava a cena. Weird, era como o chamavam os outros mendigos com quem dividia o abrigo dos pedaços de manilha em um canteiro de obras nas redondezas. Seu verdadeiro nome já nem sabia mais. Ou, talvez, nunca soubera, desde que podia se lembrar. Na verdade, suas lembranças eram confusas, não conseguia posicioná-las no tempo com precisão. Tinha a impressão de que sua vida começara naquele dia em que acordara em um quarto de hospital em Denver, Colorado. John Doe, dizia a ficha presa ao pé da cama. "É. Esse devo ser eu.", havia pensado na ocasião, aceitando aquele nome como seu uma vez que não se lembrava de outro. Mais tarde, quando a enfermeira saiu para o corredor dizendo que precisava chamar os policiais para identificá-lo, fugiu. Não era uma sensação agradável a de não saber quem era, mas envolver-se com os tiras tampouco lhe parecia uma boa idéia. Desde então, havia vagado sem rumo de uma cidade para outra, vivendo nas ruas. Escondendo-se da polícia e de si mesmo. Observar as crianças brincando proporcionava-lhe uma agradável sensação de bem-estar. Sua alegria o fazia esquecer do frio e da fome e da melancolia de ser quem era. Uma garotinha, em especial, atraía sua atenção. Ajoelhada sobre um canteiro, com os cabelos ruivos a esconder-lhe o rosto, estudava atentamente a atividade de um formigueiro, alheia à algazarra que reinava ao seu redor. Parecia tão compenetrada nessa ocupação que não atendeu ao chamado da professora avisando sobre o fim do recreio. - Amy! - chamou a mulher. Somente então a menina ergueu os olhos do chão e, por um instante, encarou Weird que ainda a observava. Os olhos cinzentos da menina, curiosos e inquisitivos, ao invés de se desviarem dos do homem, sustentaram seu olhar por um longo minuto, como que penetrando nos recônditos de sua alma, inspecionando e avaliando seu conteúdo. Por fim, ela abriu- lhe um largo sorriso, levantou-se do canteiro e desapareceu correndo no interior do jardim de infância. Ainda com o frescor daquele sorriso a iluminar-lhe a alma, Weird afastou-se a passos lentos em direção ao seu abrigo. Nos dias que se seguiram, ele voltou por diversas vezes àquela esquina. Mas a luz do sorriso de Amy não estava mais lá. Entristecido, Weird decidiu que já era tempo de ir-se embora daquela cidade. Sacramento, CA 12/08/2005 - 02:08 AM - ...muito especial. - falou Weird, com que saindo do transe. "Sim, ela é tão especial quanto o pai. Você!", Scully pensava confusa. - Comportou-se como uma mocinha durante todo esse tempo. Tem bons motivos para orgulhar-se dela, senhora Scully. - continuava ele. "Scully... O modo como ele pronuncia meu nome me enlouquece... É como uma carícia. Oh, Deus!" Precisava fazer algo. Precisava recuperar a compostura e o sangue frio. "Calma. Pense como Scully, a agente do FBI, não como Dana, a mulher apaixonada." Respirou fundo. Ele continuava a falar, agora com Amy, mas ela já não os ouvia. "Em primeiro lugar, é necessária sua identificação positiva como Mulder. Como?" - E como é o nome dela? - perguntou Weird, segurando com carinho a boneca que Amy lhe estendia. - Samantha! - a menina respondeu sorrindo. Por um instante, Scully pensou ter visto uma sombra de melancolia pairar sobre o olhar de Weird, enquanto ele deixava a boneca escapar de suas mãos. Scully a apanhou no ar, tomando cuidado para não tocar os braços por onde ela havia segurado a boneca. - Desculpe-me... - ele murmurou com a voz amargurada. - Não pretendia... - Ah, não tem problema. - atalhou Amy, sorrindo. - Às vezes também deixo cair as coisas. Minha mãe diz que sou estabanada. - Senhor Weird, pode tomar conta de Amy para mim por um instante? Preciso cuidar de alguns detalhes burocráticos com os policiais, assinar alguma papelada dizendo que recebi minha filha em perfeita saúde e todo esse blá blá blá. Sabe como é? - Claro! - respondeu ele, já recuperado. - Pode ir sossegada que estaremos bem aqui quando voltar. Carregando a boneca de Amy como um precioso tesouro, ela encaminhou-se a um dos carros de polícia próximos. Apresentou mais uma vez a insígnia e requisitou o envio das digitais obtidas dos braços da boneca para identificação pelos computadores do FBI. - Já estamos enviando. Em dez minutos, no máximo, teremos o resultado. - falou o policial. - Estarei ali, com minha filha. - disse Scully, voltando para junto de Amy. O homem e a menina continuavam rindo, conversando e brincando como se conhecessem um ao outro por toda a vida. "E de certa forma, isso é verdade", pensava Scully distraída, observando sem ousar interferir. - Agente Scully! - chamou o policial, estendendo-lhe uma folha de papel com o timbre do FBI, onde estava escrito: "Agente Especial Fox W. Mulder. Nascido em 13/10/1961 - Chilmark, Massachusetts Desaparecido em 21/05/2000." Era ele. Era ele! E novamente ela tremia. Mas desta vez, não era a desagradável sensação de medo de quando procurava por Amy entre as ambulâncias. Era um tremor de prazer, as pernas meio frouxas, uma vontade doida de abraçar aquele homem sujo de pé a sua frente e levá- lo para casa. "E será NOSSA casa, dessa vez." Mas como fazê-lo? Por não se lembrar quem era, ele não aceitaria de bom grado que ela o ajudasse. Scully o conhecia muito bem. Amnésia implica em perda de memória, não de personalidade. Além disso, não fazia muito sentido a agente especial Dana Scully do FBI, profissional séria e conceituada, arrastar à força um mendigo qualquer da rua para sua casa. Mesmo que ele tivesse salvo sua filha. Mesmo que ele fosse Fox Mulder... Procurou se controlar. Precisava ganhar tempo para elaborar alguma estratégia. E, principalmente, precisava não deixá-lo se afastar e desaparecer outra vez. - Tudo resolvido! - exclamou, dobrando o papel e o fazendo desaparecer em um dos bolsos rapidamente. E, olhando para Weird, afetando naturalidade, acrescentou: - Senhor Weird, Amy e eu ficaríamos muito felizes se o senhor nos acompanhasse em um lanche. Afinal, - disse examinando rapidamente o relógio - a hora do almoço já passou há muito tempo e nós estamos com uma fome de leão, não é, Amy? - completou, piscando um dos olhos para a menina. - Acho que não devo... Não gosto de incomodar... - replicou ele, sem graça, enquanto dava dois vacilantes passos para trás. Scully gelou. Ele estava fugindo. Não podia deixar aquilo acontecer. Tinha que fazer alguma coisa. Mas foi Amy quem salvou a situação. - Ah... Por favor, venha com a gente... - falou com meiguice, segurando-lhe a mão. - Mamãe vai nos dar sorvete depois, não é, mamãe? - Claro! Muito sorvete! - respondeu, respirando mais aliviada ao perceber que a mãozinha da filha impedira-lhe a fuga. - Por favor... - acrescentou a menina, olhando suplicante para ele. - Ok... - ele respondeu conformado, já sendo rebocado pela mãozinha diligente de Amy em direção ao carro de Scully. Ancil Hoffman Park - Sacramento, Califórnia 04:50 PM Sentado na mesa de piquenique do parque, Weird observava distraído Scully e Amy tagarelando à sua frente. Sentia-se tão feliz quanto jamais se sentira durante toda a vida de que podia se recordar. Era como se elas fossem sua própria família. Família... Talvez ele tivesse tido uma algum dia. Uma casa branca com um pequeno gramado na frente e uma perua na garagem. Apenas mais uma igual a tantas casas iguais no emaranhado de ruas idênticas em algum subúrbio de uma cidade qualquer. Dentro dela, esperando que ele chegasse do trabalho, uma esposa adorável, dois ou três filhos em idade pré-escolar e um cão labrador abanando o rabo deitado ao pé da televisão. Haveria uma família assim esperando por ele, um membro da família que nunca voltaria? Ou quem sabe ele fosse apenas mais um solteirão bem apessoado, vivendo em um pequeno e mal arrumado apartamento no centro de uma cidade qualquer, desfrutando apenas da companhia silenciosa dos peixinhos de seu aquário e de um armário atulhado de fitas de vídeo pornô e exemplares antigos de Playboy e Hustler? Quem poderia saber? O certo era que, naquele momento, ele gostaria de ter uma família. Aquela família! O que sentia por Amy era impossível de exprimir em palavras. Era como se ela fosse uma parte dele mesmo. Sim, uma parte de si próprio. Isso talvez pudesse explicar o que o compelira a entrar naquela casa em chamas e seguir procurando por algo, em meio àquele inferno ardente, que ele não fazia a menor idéia do que fosse. Apenas sabia que devia continuar procurando e seguira as estranhas vibrações que o haviam conduzido até Amy. E, ao encontrá-la, não tivera a menor dúvida de que era exatamente o que procurava. Desde a primeira vez em que a vira, naquele parquinho em Washington, havia um milhão de anos atrás, ela o havia cativado com aqueles olhinhos curiosos. Sentia que seria, para sempre, prisioneiro daquele olhar. Já aquela mulher ruiva lhe causara um emaranhado de sensações confusas. Era como se fossem muitas mulheres reunidas em um único corpo. À primeira vista, a temera por seu comportamento inquisitivo, quase que policial. A maneira com que ela o olhava, examinando-o, avaliando-o, era tão incômoda... Quando Amy lhe contara, orgulhosa, que a mãe era agente do FBI, ele pôde compreendê-la melhor. Depois, no carro, vindo para o parque, novamente sentiu-se engolfado por outro turbilhão de emoções desconexas. Estar ali, no banco do carona do carro que rodava por uma estradinha, observá-la pelo canto do olho, dirigindo tão atenta à estrada, os dedos tamborilando o volante no ritmo da música que fluía do rádio... Foi como um dejá-vu. Como se já houvesse passado por aquela situação antes, não apenas uma, mas um sem número de vezes. Agora, ali, no parque, era ainda outra mulher que se sentava diante dele. Despreocupada, relaxada, sorrindo e brincando com a filha. Tão diferente, tão bonita... "Sim... Eu poderia amar essa mulher...", devaneava. Uma súbita rajada de vento despenteou os cabelos ruivos de Scully. O cheiro daqueles cabelos impregnou as narinas de Weird, um cheiro tão seu conhecido e havia tanto tempo esquecido... Num flash, pareceu-lhe recordar de como seria enterrar o nariz naquela cabeleira, da textura de seda sob seus lábios em um beijo. E ele foi invadido pela sensação de que também a conhecia por toda a vida. - Poderia me ajudar aqui, sr. Weird? - pedia-lhe Scully, interrompendo seus devaneios. Ela havia se levantado e tentava alçar Amy até um galho alto de uma árvore próxima. Ele aproximou-se e a ajudou a levantar a menina. Ao fazê-lo, seus dedos inadvertidamente roçaram os de Scully e um arrepio brotou da base de sua espinha, percorrendo todo o caminho até sua nuca. Seus olhos se encontraram e ele pode ler naquele olhar que o toque provocara nela reação semelhante. Sustentando Amy no ar, enquanto a menina tentava apanhar uma maçã presa ao galho, os corpos de ambos ficava perigosamente próximos, o espaço entre os dois preenchido ainda pela eletricidade do contato anterior. Parecendo tentar se equilibrar melhor, Scully deu um pequeno passo adiante, diminuindo ainda mais a já pequena distância entre os dois, ao mesmo tempo em que, ajeitando as mãos sobre o corpo de Amy, enlaçou seus dedos aos de Weird. Ela parecia provocá-lo! - Peguei! - o gritinho estridente da menina quebrou o clima que havia se criado. Amy sorria, indiferente ao turbilhão de emoções estampado nos rostos dos adultos. - Para você! - completou ela, estendendo a maçã recém apanhada para Weird. Desconcertado pelo gesto, bruscamente alterando seu foco do desejo para a ternura, ele tinha os olhos úmidos. Ajoelhando-se, envolveu a menina em um abraço que encheu seu coração com a melodia de um coro de anjos. Beijou-a suavemente na testa e guardou a fruta com cuidado no bolso. - Hora de ir! O parque já está fechando. - disse Scully, começando a juntar os restos do piquenique. - Vamos? - indagou ao acabar. No carro, no caminho de volta para a cidade, o sol se punha, colorindo o céu com reflexos alaranjados e rosados. Essa luz avermelhada filtrada pelo párabrisa do carro, conferia tons rosados à pele de Scully, tornando-a ainda mais bela. Ela o impressionara profundamente. Um simples toque em sua pele fora o suficiente para arremessá-lo a um mar de desejos e paixões furiosas que nunca havia conhecido. A sensação de dejá-vu tornara-se ainda mais intensa depois daquele contato. - É, Amy. Precisamos pensar no que vamos fazer com você para que a mamãe possa trabalhar amanhã... - dizia Scully, tentando parecer despreocupada. Em sua cabeça, as idéias jorravam aos borbotões, tentando encontrar um modo de não permitir que Mulder se afastasse. - Tive uma idéia, mas preciso de sua ajuda, sr. Weird. - continuou, esforçando-se para manter o tom natural. - Em que poderia ajudá-la, senhora? - perguntou ele, estranhando. - Sabe, o jardim de infância se incendiou e só consegui uma vaga temporária nele para Amy porque uma amiga me indicou. Acho que será praticamente impossível arranjar vaga em outro lugar qualquer para ela amanhã. Não tenho com quem deixá-la, não conheço ninguém na cidade e preciso de apenas mais um dia para encerrar meu trabalho aqui em Sacramento. - Olhou de relance para o banco do carona onde ele acompanhava tudo com atenção, tentando entender aonde ela queria chegar com toda aquela longa explicação. - O senhor poderia fazer isso por mim? Por nós? Tomaria conta de Amy enquanto trabalho amanhã? - Com isso, tentava ganhar mais um dia até poder achar uma solução para seu problema. Por mais que a idéia de passar um dia inteiro na companhia de Amy lhe soasse maravilhosamente agradável, Weird não conseguia entender uma coisa. Como podia Scully, que já havia demonstrado ser uma mãe tão amorosa e dedicada, possivelmente confiar em deixar sua filhinha a cargo de um completo desconhecido como ele? E, para colocar as coisas sob uma ótica fria e calculista, considerando-se que ele era apenas uma morador de rua, sem nome ou identidade, o que a levaria a inferir que ele não iria seqüestrar a menina, maltratá-la ou, até mesmo, ele sabia bem que existiam pessoas capazes daquilo (se é que se pode considerá-las pessoas), até mesmo matá-la? Algo não soava correto naquilo tudo, não soava mesmo. - Veja, senhora... eu... eu não posso... - ele gaguejava, extremamente confuso. - Não... não posso... não devo... - a imagem de policiais e algemas e celas de prisão já desfilando aterradoramente diante de seus olhos. Pelo canto do olho, Scully pôde perceber sua expressão assustada, todo ele encolhendo-se contra a porta do automóvel como se fosse pular pela janela a qualquer momento. - Ah, por favor, Weird... - suplicou Amy suavemente, esticando-se toda para colocar as mãozinhas em seus ombros. O calor do toque daquelas mãozinhas unido à suavidade e à súplica na voz foram o suficiente para fazê-lo colocar de lado todos os medos e desconfianças e esfumaçarem-se as imagens assustadoras que invadiam sua mente. - Seria o maior prazer do mundo, sra. Scully. - respondeu ele comum sorriso tímido nos lábios. - Ótimo! - Scully exclamou aliviada. - Façamos o seguinte. Passaremos em sua casa para que pegue suas coisas e depois iremos para o motel onde estamos hospedadas. Gostaria de hospedá-lo lá por esta noite para a eventualidade de eu ser chamada numa emergência no meio da noite e Amy ter que ficar sozinha. Concorda? - Não precisa se preocupar em passar em minha casa, senhora. Não tenho casa. Tudo o que tenho, carrego comigo em meus bolsos. - disse ele, enfiando as mão nos bolsos e de lá tirando um canivete suíço enferrujado, - Minha arma de defesa e minha caixa de ferramentas. - um chaveiro com uma réplica em plástico da Enterprise, - Meu veículo para viajar. - um punhado de sementes de girassol, - um lanchinho para a hora da fome - e, finalmente, a maçã que Amy lhe dera no parque. - Meu tesouro mais precioso. Scully sorriu, os olhos rasos d'água. "Sementes de girassol e a Enterprise!!" Definitivamente, aquele era Mulder. Super 8 Motel - Sacramento, Califórnia 08:38 PM Quem os visse ali, sentados, na mesa da lanchonete, diria tratar-se de uma família em férias, jantando feliz. Muitas estórias sendo contadas, infalivelmente encerradas por boas risadas. De banho tomado e barba feita, usando jeans, camiseta e moleton que Scully havia comprado para ele em uma loja de departamentos próxima, Weird havia se transformado novamente em Mulder. Pelo menos, na aparência. Apesar do rosto magro e marcado pelo sofrimento e pelos cabelos um pouco mais longos do que costumava usar, era Mulder sentado ali, com seu jeito irônico de falar, suas estórias malucas e aquele modo todo seu de erguer sarcasticamente a sobrancelha quando fazia uma pergunta obviamente idiota. Vê-lo sentado à sua frente, ao alcance da mão, tão contente conversando com a filha, deixava Scully confusa. Ela lutava bravamente contra a vontade de abraçá-lo e chamá-lo por seu verdadeiro nome e revelar-lhe toda a verdade sobre seu passado. Mas, como médica, sabia que não devia fazê-lo e que, mesmo que o fizesse, isso provavelmente em nada o ajudaria a recuperar a memória. Amnésia retrógrada pós-traumática, esse era o nome de seu mal. Havia algumas drogas que poderiam ajudá-lo a se lembrar, mas seu efeito era temporário. Como para todos os problemas psíquicos, não havia fórmula mágica de cura para o caso de Mulder. O melhor remédio era o tempo. A conversa que tivera com Skinner, mais cedo pelo telefone, tampouco a ajudara a decidir o que fazer. O diretor falara em internação, ainda que forçada, de Mulder em alguma instituição psiquiátrica. Quando Scully tentara lhe explicar sobre a ineficácia dos tratamentos convencionais, ele chegara até mesmo a citar um ou dois nomes de hospitais conhecidos pelo pioneirismo de suas pesquisas. Ela, a princípio, rejeitara a idéia. Não queria submeter Mulder, já tão maltratado pelas circunstâncias que o haviam levado até aquele ponto, a novos sofrimentos, mesmo que a intenção fosse boa. Não seria justo com ele. Mas acabou sendo convencida por Skinner de que aquela seria a melhor atitude a ser tomada. Decidiram que, quando ela retornasse ao motel no fim do dia seguinte, traria consigo uma equipe médica para auxiliá-la, caso necessário, na remoção e internação de Mulder. Secretamente, porém, ela ainda tinha esperanças de que houvesse outra solução. - O jantar estava ótimo, mas já é hora de dormir, Amy! - Ah, mamãe! Ainda é cedo e eu tenho tanto para conversar com Weird... - protestou, inconformada, a menina. - Não, querida. Amanhã você terá o dia todo para conversar com o sr. Weird. - Scully atalhou com autoridade. - Sua mãe tem razão, meu bem. Amanhã o dia será todo nosso! - ele prometeu, piscando um olho maroto para a menina. Scully havia conseguido para ele um quarto ao lado do seu e de Amy, de modo que a porta de comunicação entre os quartos pudesse ser aberta para que ele ficasse com a menina, caso ela precisasse se ausentar durante a noite. De pé, na porta do quarto, Weird observava Scully colocando Amy na cama. O modo como ela ajeitava as cobertas cuidadosamente sobre a menina e depois beijava-lhe carinhosamente a testa. - Mamãe, posso pedir um beijo de boa noite ao Weird também? - perguntou Amy, olhando para o vulto parado na porta. Scully se voltou para ele e sorriu, piscando um dos olhos. Ele se aproximou da cama e beijou ternamente a testa da garotinha. - Boa noite, Amy. - sussurrou. - Durma com os anjos. - Eu amo você, mamãe. E você também, Weird. - ela murmurou já adormecendo. Sileciosamente, os dois adultos deixaram o quarto para o corredor avarandado do motel. Instalaram-se em um banco comprido de ferro que, colocado ao lado da porta junto a uma mesinha também de ferro, dava ao corredor um ar de casa do interior. Contemplaram silenciosos a noite fria e estrelada de outono, imersos cada qual em um sem fim de pensamentos. Mulder quebrou o silêncio. - É uma garotinha incrível... Scully hesitou, pensando no que dizer. Havia tantas coisas a serem ditas... - Sim. - foi tudo o quanto conseguiu articular. - Ela me disse que você trabalha para o FBI. - ele continuou. Scully exultou. "Eis minha deixa." - É verdade. - começou a falar, mais animada. - Em uma divisão que trata de casos estranhos, que o fluxo normal de investigações não consegue elucidar. São os chamados Arquivos X. - Como assim, estranhos? - ele interrompeu com curiosidade. - Basicamente, tratamos de casos que as abordagens lógica e científica convencionais não conseguem explicar. Paranormalidade, fenômenos extra- terrestres, esse tipo de coisas. - ela continuou, a cada segundo mais entusiasmada pelo interesse que ele demonstrava. - Muito interessante. Já deve ter visto coisas extraordinárias, então. - Ah, sim. Já presenciei alguns fenômenos inexplicáveis à luz da razão. Por exemplo, uma vez... E começou a contar, empolgada, fatos de casos que haviam investigado juntos, na esperança de que ele se recordasse de qualquer coisa. Por vezes, imaginava vislumbrar em seu olhar um fugaz lampejo de recordação que desaparecia tão rapidamente quanto havia surgido. Então, ela forçava- se a tentar relatar os casos sob a ótica como imaginava que Mulder os veria. Ele ouvia interessado, fazendo uma pergunta aqui outra ali, como Mulder faria. Mas, para sua frustração, depois de duas horas de relatos, ainda era Weird sentado ali ao seu lado. Por fim, pareceu esgotar-se seu repertório de arquivos X. Esforçava-se diligentemente, mas não conseguia lembrar de mais nada para contar. E calou-se. Pairava entre os dois um silêncio profundo que fez com que cada um mergulhasse outra vez em pensamentos. No silêncio, a presença um do outro, sentados lado a lado no banco estreito, tornou-se mais intensa, mais definida. Uma repentina lufada da fria brisa da noite fez Scully estremecer. Mulder percebeu e cobriu os ombros dela com o casaco que tinha jogado sobre seus próprios ombros. O calor dele a envolveu por inteiro, com uma carícia. Ela estremeceu novamente, desta vez de desejo. Um desejo surdo, forte, latente após tantos anos de separação, foi se apoderando lentamente de todo o seu ser. E ela reagiu a ele. Ela moveu o braço e cobriu com sua mão a mão dele que descansava sobre o assento do banco. Foi a vez dele estremecer com o toque, e estremeceu mais ainda quando ela enlaçou seus dedos com os dela, apertando-os com força, como se quisesse uni-los para sempre. Com todo cuidado, Scully deslocou-se no banco, aproximando-se mais de Mulder. Ele não fugiu e ela, então, aproximou-se ainda mais, tocando coxa com coxa. Ele tremia, sua respiração pesada, uma veia pulsava visivelmente em sua têmpora. Ela também tinha a boca seca e o coração disparado. Era como se cada molécula do ar que ele exalava com dificuldade provocasse uma descarga elétrica no corpo dela que se propagava por sua mão e se transmitia de volta para ele. Num impulso, Scully ergueu-se, sem afrouxar a pressão com que segurava-lhe a mão, e o conduziu gentilmente para o quarto ao lado daquele em que Amy dormia. Ele a seguia dócil, atônito com a atitude daquela quase estranha, desconcertado por sua ousadia, mas, ao mesmo tempo, encantado com as possibilidades que se descortinavam diante dele. Mas, impulsivamente, preferiu deixar de lado as divagações e as dúvidas e os temores que assaltavam seu peito e entregar-se às sensações que o momento lhe propiciava. Tinha a impressão de estar vivendo um momento pelo qual esperara por toda a vida. Cuidadosamente, fechou a porta atrás de si e se voltou para a mulher ruiva para encontrar-lhe o olhar turvo de desejo, do modo como ele mesmo se sentia. Sem tirar os olhos dele, Scully tomou-lhe a mão, cujos dedos ainda detinha entre os seus, e colocou-a sobre seu peito, seu coração descompassado. Ele tomou-lhe a outra mão e fez o mesmo. Foi um momento de mágica comunhão, seus corações marcando em descompasso a sinfonia da paixão. Em total sincronia, ela elevou-se nas pontas dos pés, ao mesmo tempo em que ele se inclinava, e seus lábios se encontraram no meio do percurso. 13/08/2005 - 07:15 AM O reflexo da jovem mulher ruiva no espelho era de alguém feliz. Bem diferente daquele outro, no dia anterior, quando uma mulher envelhecida e desiludida mal olhava para sua própria imagem enquanto escovava os cabelos. Rejuvenescida, era como Scully se sentia aquela manhã. Rejuvenescida e feliz como não estava havia tempos. Haviam se amado, ela e Mulder, com urgência, como se fosse a primeira vez. E, de certa forma, era, ao menos para ele. Depois adormeceram nos braços um do outro. Já passava de uma da manhã quando ela acordou. Deixou-se ficar ali, quieta, sem abrir os olhos, apenas desfrutando do aconchego daquele braço que a envolvia e do calor do peito másculo onde sua cabeça repousava. "Amy está sozinha!", chamou, finalmente, a voz da razão em sua cabeça. Com cuidado para não acordá-lo, moveu-lhe o braço para o lado e levantou- se. Ele gemeu e acomodou-se, sem acordar. Ela juntou suas roupas do chão e as vestiu silenciosamente, de costas para ele. Ao olhar de relance no espelho, porém, deu com um belo par de olhos cinzentos fitos nela. Scully virou-se devagar. Ele a olhava fixamente, a examinava. E, então, um sorriso maroto brincou em seus lábios. Ela corou. "Leviana, ele deve estar pensando. Afinal, para ele, não foi com Mulder que dormi, mas com Weird. Uma total estranha indo para a cama com um desconhecido no primeiro encontro. E por iniciativa minha! Leviana, no mínimo." Uma onda de vergonha a varria agora, toda sua educação católica repressora, os anos em colégios de freiras voltando-lhe à mente de um só golpe. "Vadia, leviana.", repetia para si mesma. - Por favor, não me compreenda mal. Eu... eu... - tartamudeou confusa, o rosto queimando de vergonha. - Sshh... - fez ele, colocando-lhe um dedo sobre os lábios e a surpreendendo com o gesto. Ela estava tão atordoada que não percebera que ele havia se levantado e estava agora parado ao seu lado, com um lençol envolvendo a cintura. - Não precisa dizer nada, não precisa se explicar. Não há ninguém para julgar ou ser julgado aqui. Não deixe a velha moralidade católica cobrir de pecado e vergonha algo tão absolutamente belo e puro como o que houve esta noite. Era Mulder falando. Mulder com seus psicologismos, lendo sua mente e dissecando suas emoções. Delicadamente, ele ajeitou uma mecha de cabelos vermelhos que insistia em cair-lhe sobre os olhos e sorriu um sorriso luminoso que dissipou todas as angústias que consumiam o coração de Scully. - Vá! Já é tarde e Amy está sozinha. - ele completou, dando- lhe um delicado beijo na testa. - Mamãe... - a vozinha sonolenta de Amy no quarto a arrancou diretamente das lembranças de volta para o tempo presente. Antes de deixar o banheiro, ela ainda sorriu para sua própria imagem no espelho ao lembrar das últimas palavras que ouvira murmuradas na noite anterior quando deixava o quarto. "Ei, eu te amo." 08:30 AM Sentada no carro parado no estacionamento do motel, Scully dava a Amy as últimas instruções sobre como se comportar. Weird as observava parado de pé ao lado do carro a apenas um passo de distância. Ainda não era capaz de compreender e analisar tudo o que havia acontecido nas últimas vinte e quatro horas. O que o havia impelido ao interior daquela casa em chamas, diretamente para o local onde estava Amy? Por que Dana Scully decidira lhe confiar ao cuidado da menina druante aquele dia, tão contrariamente ao que havia de mais lógico e razoável? Sim, porque aquela mulher, pelo pouco que pudera observar e pelo muito que ele acreditava compreender da natureza humana, definitivamente, fazia o gênero "atitudes lógicas e razoáveis". Mais, o que havia levado a mulher que ela parecia ser, tão séria e recatada, a seduzir e entregar-se por inteiro a um desconhecido como ele? Seria ela uma ninfomaníaca em pele de puritana? Não, algo no interior de Weird lhe dizia que não, que havia algo oculto em toda aquela situação que ele ainda não conseguira distinguir. Ele reagira à sedução da noite anterior como qualquer macho adulto da espécie humana faria, por instinto, tesão. Mas por todo o tempo em que haviam estado juntos, feito amor, aquela sensação de dejá-vu que vinha sentindo desde a primeira vez em que vira Scully no local do incêndio se tornara ainda mais e mais intensa. Era como se fossem velhos conhecidos, antigos amantes consumindo-se em um ato por muito tempo reprimido, embora desejado e esperado por toda a eternidade. E, ainda, por que em sueus pensamentos a chamava de Scully e não Sra. Scully ou Dana, como a recém criada intimidade entre os dois poderia permitir? Perguntas demais e nenhuma resposta. Tudo o que sabia era que gostaria de poder permanecer com elas para sempre. Ia perdido em devaneios, imaginando as coisas que gortaria que fizessem juntos, os lugares que lhes mostraria, as brincadeiras e gargalhadas que compartilhariam... - Este homem a está incomodando, senhora? - perguntou o policial que se aproximava, indicando Weird com a cabeça, a mão direita já estrategicamente colocada sobre o coldre. De súbito, Weird foi arrancado de seus devaneios pela dura realidade de sua condição. Um mendigo, sem lar e sem destino, sem passado nem futuro. Um ninguém. Menos que nada. O que poderia lhes oferecer? E desatou a correr, tão rápido quanto podia e ainda um pouco mais. Corria às cegas, as lágrimas toldavam-lhe a visão. Mas era melhor assim. Melhor não ver por onde ia, para não saber como voltar. T O B E C O N T I N U E D . . .