Titulo: Voltando ao passado Autora: Meggie Feedback para: wm3@uol.com.br Disclaimer: Não são propriedade minha e aquela ladainha toda que vocês já sabem. Classificação: Shipper Spoiler: Triângulo, mas é muito pouco, só menciono o episódio. Resumo: Mulder resolve voltar no tempo para ajudar Richard e Elise, mas no passado tem uma surpresa inesperada, que pode alterar o rumo de sua vida. Baseado no livro Em Algum Lugar do Passado. Nota: Vou resumir o livro aqui para que vocês possam entender a historia, se alguém não quiser saber o final, não leia a fic. Outra, o filme homônimo é um pouco diferente do livro então para quem assistiu aviso: "Não é a mesma coisa, o livro é dez milhoes de vezes melhor" Lá vai o resumo: 1971: Richard Collier, 35 anos, descobre ter um tumor no cérebro e decide abandonar a casa do irmão, Robert, aonde mora para seguir sem rumo, enquanto escreve sobre seus últimos dias. Chateado e aparentemente por acaso, vai parar em um hotel antigo perto de San Diego e lá vê a foto de uma antiga atriz de teatro, nascida em 1867 e morta em 1953. Se apaixona pelo retrato e procura saber tudo sobre sua amada, Elise McKenna. Intrigado com a vida da bela mulher ( e sem nada melhor para fazer) ele descobre um jeito de voltar para 1896 e conhecer Elise, que naquela época se encontrava no mesmo hotel no qual ele se achava . Consegue seu intento e ele e a atriz vivem um fulminante caso de amor ( dois dias ). Richard planejava se manter no passado e viver lá com ela, mas para isso não podia ter em sua mente e corpo nada que o lembrasse a época de onde ele veio ( 1971 ). Só que por acaso, esquecida em um dos bolsos do terno de época que ele alugara especialmente para sua volta ao passado, ele encontra uma moeda dos anos 70. E essa moeda o faz incapaz de permanecer em 1896. Ele volta, então, ao futuro, morrendo lá alguns meses depois. Elise, depois da perda do amado, se torna uma mulher reclusa, totalmente dedicada a carreira, até morrer, velha e solitária. O livro está em primeira pessoa e tem muitas notas de Robert, irmão de Richard, em que ele diz não acreditar que o parente tenha realmente voltado no tempo, apesar de ter encontrado indícios disso. Nota II : Bom, gente, o livro ficou muiiiiito resumido, não falei de muita coisa, senão iria perder a graça para qualquer um que resolvesse se aventurar na leitura. ( Apesar que eu já contei o final, né?) Só disse o estritamente necessário para entender a fic, maiores explicações estão contidas na historia em si. Voltando ao passado Apartamento de Fox Mulder 14 de Agosto de 2000 Domingo 01:23 AM Mulder lia interessado as ultimas páginas do livro que trazia nas mãos. Era uma historia incrível e estava totalmente envolvido. Não conseguia entender como passara quase quarenta anos sem entrar em contato com aquele clássico do romance e da ficção. Seus sentimentos variavam entre angustia e tristeza profunda quando terminou. Acreditava na veracidade da historia contada como acreditava em Scully, e na existência de seres extra terrestres, completamente. Na capa do volume em azul podia-se ler, Em Algum Lugar Do Passado, Richard Matheson. Mulder, assim como o personagem central, já havia voltado no tempo, sabia que isso era possível. Gostaria de ter podido evitar o triste fim dos protagonistas daquele drama, era mesmo uma pena que...Um pensamento começou a formar em sua mente. Por que não, afinal? Era Domingo e não teria nada pra fazer. Nada o impedia. Ligou para o FBI e pediu todas as informações que eles pudessem ter sobre Richard e Robert Collier. Tinha certeza absoluta que eles existiam, ou pelo menos existiram, sentia que aqueles dois irmãos não eram apenas personagens inventados por um autor criativo. Telefonou também para os pistoleiros, Frohike atendeu de mal humor. - O que você quer a uma hora dessas, Mulder? - Informações. - De que tipo? – Perguntou o baixinho mais interessado. - Tudo o que vocês encontrarem sobre Richard e Robert Collier. - Não acredito, Mulder, você andou lendo Em Algum Lugar Do Passado? Aquilo é ficção, meu chapa, ficção. Eles não existem de verdade, só na cabeça da gente. - Tá, pode ser, mas eu quero ter certeza. - Eu não acredito que você me acordou as duas da manhã só pra me fazer pesquisar sobre pessoas que não são pessoas e sim personagens de um livro muito bom do Matheson. - Daqui a pouco eu ligo pra saber o que vocês descobriram. Se sentindo meio incerto, ligou novamente para o Bureau e recebeu noticias agradáveis. - Richard Collier nasceu em Nova York, 20 de Fevereiro de 1935, se formou em 1957 em Jornalismo, ganhava a vida escrevendo roteiros para a TV, morreu em 1971 graças a um tumor no cérebro. Robert Collier, nasceu dia 30 de Outubro de 1921, serviu na Segunda Guerra. Depois que voltou se tornou publicitário e se casou com Mary Taylor, com quem teve quatro filhos. Ele ainda vive, num asilo em Los Angeles,. - Pode me dar o endereço desse asilo? Mulder estava exultante. Sabia, tinha certeza que aquela historia era real, Richard Collier havia realmente voltado no tempo para reencontrar seu grande amor, Elise McKenna. Agora Mulder tinha que dar um jeito de ir falar com o irmão dele e voltar ao passado também, para ajuda-los. Se Scully ficasse sabendo dos seus planos certamente o internaria no manicômio mais próximo, não pode deixar de sorrir com a idéia. Logo Frohike ligava de volta, parecia chocado e excitado. - Não dá pra acreditar, Mulder, não é que eles existem de verdade? - É claro que existem, é uma historia real, meu chapa. - Só tem um probleminha na sua teoria. - E qual seria? - Não encontramos nenhum registro de Elise McKenna. - É claro que não, provavelmente Matheson mudou o nome dela para publicar o livro, pra que ninguém pudesse associa-lo com a realidade. Mas se vocês procurarem direitinho vão encontrar uma atriz com as mesmas características que ela, só que outro nome. Vai por mim. - Achei – Langly se intrometeu na conversa – Elize Parker, é incrível como a biografia das duas batem. - É claro que batem, Langly, são a mesma mulher. - Tá, mas o que você quer com isso, Mulder? - Ah, depois eu explico, tchau. - Lá vai você se meter em encrenca de novo. Mas Mulder não escutou, já havia desligado. Tinha ainda que comprar uma passagem para Los Angeles, falar com Robert Collier, voltar ao passado e ajudar Elise Mckenna, na verdade, Elize Parker, e Richard Collier a ficarem juntos. Não tinha nada melhor pra fazer mesmo. A verdade é que estava tudo um tédio, Scully havia viajado para ficar com a família porque a avó estava doente, Mulder nem sabia que Scully ainda tinha avó, quanto mais que elas podiam ficar doentes. Skinner aproveitara para lhe dar folga também. Como se ele quisesse folga. Mas agora isso lhe seria útil. Asilo Eleanor Stuart Los Angeles 09:05AM O asilo Eleanor Stuart era um lugar bonito e agradável, havia vários velhinhos passeando pelo jardim acompanhados de suas famílias. Outros, com caras tristes, sentados a porta de seus quartos, esperavam parentes que não viriam. Mulder ficou deprimido, provavelmente, se vivesse até lá, acabaria como aqueles homens, solitário. Com a diferença que ele nem teria família para esperar que o visitassem. Talvez Scully estivesse lá com ele, se alegrou mais com a idéia, mas depois a baniu da mente. Scully merecia mais que isso, certamente merecia. Era melhor não ficar divagando sobre aquilo, tinha que se concentrar para falar com Robert. Ele devia estar com 79 anos. Esperava sinceramente que estivesse completamente consciente de suas faculdades mentais. A recepcionista estranhou a visita, Collier não recebia ninguém a não ser a filha mais moça a muito tempo. - Certamente ficará feliz em vê-lo. – Comentou uma das enfermeiras do local, Ruth – Eles gostam muito de receber visitas, mas a maioria ficam abandonados aqui. É muito triste. Mulder somente concordou com a cabeça, aquele ambiente não estava lhe fazendo bem, já podia se imaginar ali, sentado em sua cadeira preferida, lendo jornais e falando para as paredes sobre suas teorias. E quanto mais falasse, mas as pessoas pensariam que ele estava caduco e se afastariam. Já pensavam isso dele enquanto jovem imagina quando envelhecesse? Só Scully mesmo o suportava. "Será que ela viria me visitar?" Sorriu meio triste "Desde que não traga o marido." Robert Collier estava sentado sozinho em um banco debaixo de um salgueiro. Olhava para o nada com uma expressão compenetrada. Era um homem de porte distinto e cabelos brancos penteados para traz. Sorriu ao vê-los. - Oi Ruth. – Cumprimentou simpaticamente a enfermeira – Você está linda hoje. - Você é muito gentil, Bob. Também está lindo. Sabia que tem visitas hoje? Os olhos do homem brilharam enquanto seu sorriso se alargava. - Quem? O agente resolveu se manifestar. - Fox Mulder, senhor Collier. Ruth sorriu e se afastou, deixando-os a sós. - Bem, Fox, se não me falha a memória, não nos conhecemos, não é? - Não, Sr. Collier. - Pode me chamar de Bob. Venha rapaz, sente-se aqui e me conte porque veio me ver. Mulder se sentou, contente com a acolhida de Robert. - Pode parecer esquisito, Bob, e certamente é, mas eu acredito na historia do seu irmão. - Como? – Das coisas que Collier esperava ouvir aquilo não fazia parte da lista. - Vou tentar me explicar melhor. Sou agente do FBI, investigo casos que desafiam a compreensão cientifica. Comprovei eu mesmo a possibilidade de uma volta no tempo e acredito firmemente que seu irmão fez isso para se encontrar com Elize Parker. - Fez sua lição de casa, não é, filho? Mulder apenas sorriu. Robert continuou. - Nunca acreditei realmente que meu irmão houvesse conseguido voltar ao passado mas sempre desejei que fosse real. Enfim, o que você quer de mim? Por que veio me procurar? Poucas pessoas descobriram, ou tiveram o interesse de procurar a veracidade dos personagens envolvidos naquele livro. Matheson era amigo de Richard e quando soube dos manuscritos do meu irmão quis publica-los. Mas eu preferi que ele fizesse isso como ficção, não queria gente na minha porta procurando por ele e incomodando minha família. – O velho sorriu – Claro que eu ganhei uma parte nos lucros mas a verdade é que nunca esperamos que fosse fazer tanto sucesso. E como eu ia dizendo, não foram muitos os que ousaram duvidar do caráter ficticio do livro. - É que eu sou meio estranho mesmo. - E então? - Quero voltar e ajudar seu irmão , Bob. Robert não pode deixar de rir. - Ai, meu filho, você não tem nada melhor pra fazer do que desenterrar velhas historias, não? - Não. E realmente gostaria de ajudar Richard e Elize. - Tudo bem, Fox. Mesmo que você conseguisse voltar no tempo, não daria certo porque estamos em agosto e tudo se deu em Novembro. Você tem que estar no dia certo. Você certamente se lembra que segundo as teorias de meu irmão o tempo existe numa dimensão paralela, quer dizer que hoje, dia 14 de agosto de 2000, estamos aqui conversando e nesse mesmo momento alguém está vivendo também em 14 de agosto de 1900, 1800 e 1896, e se dois espaços coexistem você pode ir visita-lo. - Estou a par disso, Bob. - Pois então. Se Elize e Richard se conheceram em Novembro e estamos em Agosto, não vai poder encontra-los. - Eu sei, mas estou querendo voltar para 61 e não para 1896. Quero avisar Richard sobre a moeda, apenas isso. Não preciso que os dois estejam juntos para avisa-lo do que vai dar errado na sua viagem no tempo. - E se depois de já estar no passado, supondo que isso seja possível, não conseguir voltar para o futuro? - Voltar pra cá é fácil, dificil é chegar lá. - Sabe, Fox, acho que você é louco. Está aqui comigo fazendo planos para uma mera viagenzinha a 1961. O agente apenas sorriu. Depois começou sério. - O que eu quero saber é aonde Richard estava nesse período em 61, para eu poder falar com ele. Robert ficou subitamente triste. - Me lembro, me lembro perfeitamente que ele havia viajado naquela época, para a Espanha, creio, para conhecer o cenário para uma de suas historias. - Droga! – Mulder estava ficando desapontado. – Não vou conseguir acha-lo na Espanha. Os dois homens ficaram em silêncio por um momento, ambos absortos em seus pensamentos. - Aquele hotel ainda existe? – Perguntou o mais novo de repente. - Existe, por que? - Acho que vou voltar para 1896 e falar com Elize. - Ah, meu caro, se você está assim tão convencido que pode voltar porque está fazendo isso por Richard e não por você mesmo? Certamente deve haver algo na sua vida que você gostaria de concertar. - Dois 'eus' não podem coexistir no mesmo espaço ao mesmo tempo. Por isso que eu iria voltar para 61, pouco antes de meu nascimento, e não 71 como seria aconselhável, já que é a época da viagem de Richard. E nós não temos o direito nem a capacidade de alterar o rumo da historia da humanidade. - Eu sei, você não poderia matar Hitler nem nada do gênero porque envolve muitas pessoas. - É, mais ou menos isso, eu apenas fiquei sensibilizado com o drama dos dois e acho que seria interessante voltar no tempo. O velhinho o fitou condescende e passou a falar de amenidades, ficaram assim uma hora, só conversando sobre suas vida. De um como agente federal, do outro como publicitário. Mulder prometeu visita-lo para contar dos resultados de sua volta no tempo. Com um pouco mais de pesquisa Mulder traçou seus planos. Para uma regressão satisfatória para o século dezenove ele teria que estar vestido a caráter, em um ambiente que lembrasse muito aquela época. Depois teria que fazer uma auto-sugestão hipnótica, levando seu cérebro a acreditar firmemente que havia conseguido viajar através das décadas. Quando todo seu ser estivesse crente disso seu objetivo seria alcançado e ele estaria finalmente em 1896. O problema é que se ele fizesse essa auto sugestão em Los Angeles, voltaria no tempo para Los Angeles e isso não lhe interessava já que Elize, em Agosto daquele ano, se encontrava em San Diego ensaiando uma peça. Teria que ir para San Diego, se hospedar no mesmo hotel em que ela se hospedara naquela época e assim poderia falar-lhe rapidamente e voltar pra 2000, pra Scully e pros Arquivo X. San Diego 14 de Agosto de 2000 03:07 PM Satisfeito com seus projetos Mulder seguiu adiante, alugou um terno de época numa loja de fantasias, comprou notas do século passado para que pudesse contar com dinheiro ao chegar lá, foi ao hotel em que Elize se hospedara, arrumou um quarto, e tratou de começar logo sua aventura no tempo. Fechou todas as cortinas da antiga suite do hotel deixando-se ser totalmente tragado pela atmosfera do lugar, olhando a decoração tinha-se mesmo a sensação de estar em outra época. Deitou-se relaxado na cama, já vestido com o velho terno, e começou a auto hipnose. Certamente, ele teria mais facilidade do que Richard para fazer isso já que era psicólogo e estava acostumado a essas coisas. Permitiu que todo seu corpo ficasse leve. "Hoje é Domingo, 14 de Agosto de 1896. Hoje é Domingo, 14 de Agosto de 1896" Disse isso cem vezes "Elize Parker está agora no Hotel" Mais cem vezes "Cada momento me deixa mais perto de Elize." Cem Vezes "Agora é 14 de Agosto de 1896" (Sessenta e uma) Ele começa a sentir um... "Senso de...impermanencia. Como se...fosse realmente um ...homem de 1896....tentando alcançar... O que? Curiosa sensação. Não oponha resistência. Chegando. Eu o sinto chegando... Flutuando. Pesado. Estou........................................................ ............................... Pesado. Hotel Rose San Diego 14 de Agosto de 1896 09:53 PM Abriu os olhos devagar sentindo no corpo um entorpecimento característico de quem bebera demais. Mas ele não havia bebido, seu estado se devia a outro motivo. Exultante, tentou se levantar. Ficou tonto, o quarto começou a girar. Estava fraco. Tudo bem, previra que isso aconteceria. Richard enfrentara o mesmo problema, logo seu corpo se adaptaria. Sentou-se com cuidado, observando o lugar ao seu redor. Havia poucas mudanças em relação ao quarto de 2000, as mesmas cortinas, a cama de madeira, os moveis pesados, só que...Ops, não esperava por aquilo. Outra pessoa ocupava aquele quarto. Claro, como não pensara naquilo logo, se ele podia ficar com o quarto no futuro alguém também podia no passado. Droga, tinha que se levantar e sair dali antes que o ocupante daquela suite voltasse. Se levantou, o mundo começou a sair de foco de novo. "Anda, Mulder, reage." Antes que pudesse dar um passo, no entanto, ouviu a chave sendo girada, a maçaneta mexer-se e a porta se abrir. Ao ver quem acabara de entrar Mulder arregalou os olhos e emitiu um sussurro inaudível enquanto tudo rodava ainda mais rápido. Caiu inconsciente. A mulher parada observava tudo em estado de choque, a ultima coisa que esperava ao entrar na sua suite era encontrar um invasor, muito menos um invasor que caísse desmaiado ao primeiro sinal de perigo, muito menos ainda que esse invasor fosse tão lindo. Ainda meio abalada ela trancou novamente a porta e foi socorrer o larapio. Clarissa ainda não estava bem certa do porque de ao invés de gritar e chamar os guardas do hotel, se fechara naquele quarto com um estranho inconsciente. Realmente não saberia dizer. Talvez fosse por causa da sensação de familiaridade que o rosto dele lhe trazia, como se fosse um velho amigo. Tocou o rosto bonito do homem caído no chão, estava pálido e frio. Ficou preocupada. Correu até o banheiro e voltou com um pano úmido. - Senhor? Ei, senhor, acorde. Vamos, levante-se daí. Devagar, muito devagar a voz feminina foi entrando na cabeça de Mulder. Sorriu levemente. Era tão suave e reconfortante, lhe trazia sensações agradáveis e boas lembranças. Abriu os olhos, ainda em estado semi consciente. Scully? O que Scully estava fazendo ali? Piscou, mas a imagem continuava lá. Aquilo não podia ser! Estava em 1896. - Anda, senhor, acorde e levante-se daí. Então a realidade desabou em sua mente com força total. Aquela não era Scully, não a sua Scully de verdade, mas eram idênticas. Os mesmos cabelos ruivos, só que os da mulher a sua frente deviam ser longos e estavam presos em um complexo emaranhado de pentes e grampos, os olhos azuis que tanto adorava, os lábios que...bem, era melhor nem falar dos lábios. Ela estava falando com ele, o que mesmo que ela estava dizendo? Se levantar, sim, precisava se levantar. - Consegue se mover? – Ela perguntou. Mulder apenas fez que sim com a cabeça. Com a ajuda da mulher ruiva, foi novamente deitado na cama. Se sentindo melhor, seu cérebro começou a pensar com mais clareza. Era incrível como Scully conseguia estar em todo lugar, estava naquele navio na década de 30 e estava ali agora em 1896, usando um lindo vestido de época que deixava o colo a mostra e demarcava a cintura com perfeição. Ela ficava linda naquele vestido, parecia uma noiva, uma deusa, não saberia descrever. Quem seria de verdade? Quem ele seria? Se perguntava Clarissa fitando o homem deitado em sua cama, e o que, pelo amor de Deus, ele fazia no seu quarto aquela hora da noite? - Muito bem, senhor, agora que parece mais recuperado creio que já seja capaz de me dar explicações. Sim, devia explicações a ela, mas o que iria dizer? Não podia simplesmente falar a verdade, sua Scully não acreditaria. Bom, talvez se contasse a verdade em partes. - Meu nome é Fox Mulder, Senhorita. Clarissa ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços. Era estranho mas não conseguia se sentir intimidada na presença daquele sujeito. Tinha a impressão de conhece-lo a tanto tempo. Era como se pudesse ler na sua alma, ver que era bom e não lhe faria mal. Mas, obviamente, esses pensamentos eram uma loucura. O que acontecia ali era um escândalo. Estava SOZINHA, no seu quarto com um HOMEM, e pra piorar, um homem que nem ao menos sabia o nome, quer dizer, só sabia o nome. - E o que o Sr. Fox Mulder está fazendo aqui no meu quarto? - Eu, ah, me enganei de local. - Se enganou? – Ela continuava céptica. - É, eu...peguei a chave mestra porque a do meu quarto sumiu, então entrei no seu sem querer. Não sei o que me deu, eu estava meio tonto, passando mal, então quando a Srta. chegou tudo começou a girar. Mulder se levantou, desta vez tomando muito cuidado para que não desmaiasse novamente. - Sinto muito pelo susto, Srta.? - Clarissa Bergman. - Srta. Clarissa. Bem, nos vemos por aí. - Ei, Sr. Mulder, está se sentindo melhor? Quer que eu o acompanhe até seu quarto? – Clarissa corou ao fazer a pergunta, não acreditava que estava se oferecendo para fazer isso. O que ele iria pensar dela? Mas Mulder não notou seu constrangimento. Não estava acostumado a uma Scully do século passado e nem reparara que não era natural para época que uma mulher acompanhasse um cavalheiro a qualquer lugar que fosse, ainda mais sozinha, a noite e se o tal cavalheiro fosse um completo desconhecido. - Não se preocupe Srta. Clarissa. Já me sinto melhor. Adeus. Então, com naturalidade, ele tomou-lhe a mão beijando-a. Permitiu que seus lábios ficassem descansando na pele macia mais tempo que seria recomendável. Sempre quisera fazer aquilo, mas as oportunidades surgiam somente em momentos ruim, como leitos de hospitais, e ele nunca podia aproveitar. Sorriu para uma chocada Clarissa antes de sair. Era mesmo um rematado covarde. Por que sempre aproveitava as Scullys de outra época para matar seus desejos? Por que não fazia aquilo com sua parceira em tempo presente? Covarde, covarde. Decidindo-se, como sempre fazia, a não pensar mais nisso, Mulder resolveu procurar Elize Parker. Tinha que falar com ela e voltar o mais rápido possível. Era uma pena porque gostaria de ficar mais tempo com Clarissa "Scully" Bergman. Claro que isso também não era nem um pouco recomendável. Esqueça Mulder, vá falar com Elize. Chegou ao hall do hotel. Observou tudo com encantamento infantil. Era incrível, as pessoas em suas roupas de época, as mulheres desfilando em seus enormes vestidos, cheios de rendas e babados, cavalheiros de chapéu e bigodes esquisitos. Era tudo maravilhoso e ele estava adorando. Mas precisava encontrar Elize. Se ela já estivesse dormindo teria que alugar um quarto e passar a noite em 1896. O recepcionista o observava interessado e Mulder se sentiu impelido a falar com o homem. - Boa Noite. - Começou o agente. - Boa noite, senhor. Gostaria de um quarto? - Sim, por favor. - Quanto tempo deseja permanecer? - Apenas essa noite. É aqui que Elize Parker apresentará uma peça de teatro, não é? - Sim, senhor. Eles estão ensaiando no anfiteatro central. A apresentação é amanhã a noite. Gostaria de alugar uma mesa? E agora, será que devia ficar ali para ver Elize se apresentar? Lembrou-se de Clarissa Scully. Será que ela iria? - Gostaria sim. Reserve-me um bom lugar. O senhor poderia me informar se Srta. Elize já se recolheu. - Se recolheu sim, mas seu agente Sr. William Robinson, ainda se encontra no Salão. - Obrigado. Mulder assinou o livro de hospedes, cumpriu as formalidades e ficou com o quarto 22. Dispensou o carregador, afinal não havia trazido nenhuma bagagem, e seguiu para o 22. Tentaria evitar o agente de Elize o máximo possível. Ele era bruto e ciumento, não gostava que os fãs se aproximassem de sua estrela. Havia uma nota no livro em que Richard escrevera sobre a relação entre Robinson e a atriz. Ele dizia: "Pergunto-me se a amou. Deve tê-la amado. Quase posso captar o sentimento dirigido a ela. Sem instrução, rude, talvez nunca tenha lhe falado sobre o que sentia, em todo o período do relacionamento de ambos, esforçando-se ao máximo para mante-la elevada e, desta forma, certificando-se de que também permaneceria inatingível para outros homens" Às vezes Mulder também se sentia assim em relação a Scully. Ela não era para ele mas também não suportava que fosse de nenhum outro. Precisava parar com isso. Ele iria acabar velho e sozinho, ela não. Pôs a chave na fechadura e já iria entrar quando escutou um grito feminino vindo do quarto vizinho. Alarmado, bateu a porta do 21. - Está tudo bem aí? O que está acontecendo? Srta.? Sra.? Abra a porta. Mulder girou a maçaneta, não estava trancada. Entrou. Deparou-se com uma deliciosa surpresa. Era Clarissa, que coincidência! Ela estava em pé, no sofá, vestida numa camisola branca que ia até os pés. Era uma lingerie estupenda, tampava tudo mas colava-se ao corpo sobremaneira que quase nada deixava a imaginação. Mulder começou a respirar com dificuldade. Até se esquecera do motivo que o trouxera ali. Clarissa se sentiu mais aliviada por vê-lo. - Olhe, Sr. Mulder, é um monstro! Ela sussurrou assustada, enquanto apontava para uma enorme e gosmenta barata. Mulder riu. Sua Scully nunca faria aquele escândalo por um inseto. Por mais nojento que fosse. Matou o bicho. - Pode descer daí, Srta. Clarissa. Está tudo bem agora. Ela sorriu aliviada. Um sorriso lindo. Era tão difícil ver Scully sorrir e...Ela não é a Scully, Mulder. Se chama Clarissa Bergman. - Odeio baratas. – Explicou e seus olhos se encheram de lágrimas. Mulder fez sua cara de pânico enquanto ela se encolhia sentada no sofá e enterrava a cabeça nas mãos, chorando como uma criança. Ele não estava acostumado com isso. Ela não podia estar chorando, Scully não chora, quer dizer, não muito. Ai, o que fazia agora? O que um homem do século dezenove faria? Lenço, isso, ofereceria um lenço. Ele devia ter um em algum lugar. "Achei". Aproximou-se dela, ajoelhando-se ao seu lado. - Ei, Srta. O que foi? Não precisa chorar, era só uma barata e já está morta. Ele tocou os cabelos ruivos com a intenção de faze-la lhe encarar. Queria lhe entregar o lenço. Doía-lhe vê-la chorar. Não suportava ver Scully sofrendo em nenhuma época. Quando seus olhos verdes se encontraram com os azuis, imensos e úmidos, ele não resistiu. Abandonou o lenço e fez o que Mulder faria se encontrasse sua parceira naquele estado. Abraçou-a carinhosamente. Clarissa se deixou envolver. É claro que aquilo era um absurdo, uma completa e total loucura. Mas não se importou, havia nos olhos dele uma preocupação, ternura e amor tão grandes, que ela simplesmente o abraçou também. Se sentia segura ao lado daquele sujeito. Como se fosse uma parte sua, seu cais. Todas as lembranças ruins e tristeza que lhe viam a alma desapareceram no calor daqueles braços. Deixou que as lágrimas corressem, abandonando-se no corpo de um desconhecido. Quando ela se acalmou, Mulder pode perguntar, suavemente, o que lhe incomodava. - Então, Srta. Clarissa, não quer me contar o que aconteceu? Ela fungou, pegando o lenço dele que havia caído no chão e limpando o nariz. Sorriu levemente. - Não gosto de baratas. Trazem-me más lembranças, coisas pelas quais eu não gostaria de ter passado. - Quer me contar? Ela fez que sim e Mulder se sentou ao lado dela no minúsculo sofá, sentindo seu corpo macio e perfumado perto do seu. "Controle-se, homem, não é hora para isso" Se concentrou no que ela iria dizer. - Eu e meu pai morávamos em uma casa horrível, parecia um porão. – Mulder sorriu levemente se lembrando de sua sala no FBI, parecia que Scully estava destinada àqueles lugares. Mas logo se arrependeu do pensamento e voltou a atenção ao relato. – Era cheia de ratos e baratas e não importa o que fizéssemos eles subiam em nós a noite... - E a sua mãe? - Ela morreu no parto. Meu pai era um bêbado, ele gastava todo o dinheiro que ganhava com alcool. Um dia, eu tinha 14 anos, ele estava muito endividado e não tinha como pagar. Então ele me vendeu para o Sr. Fingerman...Na casa do Sr. Firgerman também tinha baratas, muitas, por toda parte, quando eu consegui fugir me juntei a companhia de teatro, e agora estou aqui. - Você é atriz? - Sou. Você vai ficar e me ver atuar? Ela fitou-o esperançosa e ele sentiu que seu coração parava. - Não perderia isso por nada no mundo. Sorriram um para o outro. Estavam muito próximos, podiam sentir suas respirações se confundindo, Deus, ele era louco por aquela mulher. Completamente maluco por ela. Deixou que seus lábios chegassem perigosamente perto. Tocou-os delicadamente. Passou os braços por sua cintura estreitando-a com carinho, ela entreabriu a boca e ele colou suas línguas, seus dentes, seus lábios, tornando-os um só. Foi o beijo de um homem e uma mulher que se aceitavam sem reserva, entregando corpo e alma. Clarissa, se estivesse em condições de pensar se repreenderia, devia estar louca. Homens não traziam nada mais que sujeira e sofrimento. Só queriam sexo, e aquilo machucava. Mas sua mente estava entorpecida, concentrada inteiramente no homem ao seu lado. Mulder sentiu os dedos dela em seus cabelos, trazendo-o ainda para mais perto. Mas depois, Clarissa recuou, respirando ofegante, expressão temerosa. O que ele haveria de estar pensando dela? De certo que era uma libertina, uma... Ele leu todas as duvidas no olhar azul, como faria com a Scully do século XX e sorriu. Beijou de novo os lábios dela. - Eu te amo, não estou chocado, eu te amo assim mesmo. Do jeitinho que você é. - Você não me conhece. - Conheço e te amo. Os olhos dela exibiam todo medo, duvidas e desejo que corriam por sua alma. Toda sua essência. Mulder esperou que ela se decidisse se o mandaria embora ou não. Torcia com todas as suas forças para que ela o deixasse ficar. Queria mostrar-lhe, queria que ela soubesse o quanto poderia ser bom. Outra lagrima correu dos olhos azuis enquanto ela se jogava nos braços dele. Aliviado, carregou-a até a cama. - Não tenha medo, eu nunca te machucaria. – Ele sussurrou enquanto se deitava em cima dela. – Eu te amo, lembra? Clarissa fitou os olhos verdes e soube que era verdade, mas soube também que ele iria embora, que partiria e levaria junto o seu coração. Mas era tarde demais para voltar. Queria aquela noite para eles. Abraçou-o, enquanto experimentava novamente o gosto de sua boca. Ela sentou-se levemente inclinada, repousando a coluna nos travesseiros. Mulder aproveitou para soltar-lhe os cabelos, jogando os grampos no chão, um por um. Só descansou ao ver os cachos ruivos serem libertos, caindo cascateantes pelos ombros da mulher. Ele sentia-se tremulo, sua respiração era descompassada e seus terminais nervosos estavam extremamente sensíveis. A imagem de Clarissa "Scully" recostada na cama, os olhos muito brilhantes, o rosto pálido emoldurado pelos cabelos ruivos ficaria pra sempre em sua mente, guardada em um local muito especial. Desceu a camisola devagar, escorregando-a pelos ombros, exibindo a pele alva. Descobriu os seios com calma exemplar, apesar de seus hormônios implorarem para que tudo andasse depressa. Beijou um dos mamilos, ouvindo os murmúrios que saiam dos lábios vermelhos. Enquanto a peça de seda ia sendo retirada ele beijava o pedaço de corpo exposto. Clarissa apenas gemia, mal conseguindo respirar quanto mais pensar. Ele se afastou um pouco para admira-la só de calcinha. Observou, chocado, as marcas em sua cintura. - O que é isso? Quem fez isso com você? Ele perguntou nervoso, disposto a matar o cretino que a havia machucado daquela forma. Ela apenas sorriu. - Não foi ninguém, Fox. São as marcas do espartilho. Mulder abriu os olhos estupefado e enterrou o rosto na barriga dela, beijando os sinais. - Não use mais isso. É um pecado que qualquer coisa machuque a sua pele. Ele desceu ainda mais, puxando a calcinha levemente, até finalmente arremessa-la no chão. O contraste do corpo feminino nu com o dele vestido era delicioso. Clarissa umedeceu os lábios, inverteu as posições. Queria despi-lo também, e beija-lo, como Fox havia feito com ela. Suas mãos estavam tremendo quando alcançaram a gravata, mas trabalhavam rápido e logo ambos estavam entregues um no corpo do outro. "Sentir-se dentro dela, sentir o corpo febril sob o seu, sentir-lhe a respiração quente em seu rosto... Sentir seus gemidos de angustiada paixão...Sentir-se explodir em suas entranhas e tê-la em espasmos violentos contra si, que suas costas pareciam prestes a quebrar-se , suas unhas encravando-se e arranhando-lhe a carne, numa expressão de supremo êxtase no rosto, quando experimentou o que poderia ter sido o seu primeiro e completo orgasmo na vida – tudo isso era quase mais do que poderia suportar a pobre fragilidade humana. Ondas de escuridão turvaram-se sobre Mulder, ameaçando-o fazer perder a consciência. O ar estava carregado de calor e energia pulsantes. Então, tudo ficou imóvel, em calmaria."* Clarissa deitou-se sobre o peito dele, chorava suavemente, feliz. Ergueu-lhe os olhos azuis lacrimejantes. ""* essa parte entre aspas foi adaptada e transcrita do livro EM ALGUM LUGAR DO PASSADO, fielmente. - Eu te amo. – Disse enquanto beijava o ombro masculino. – É muito estranho mas eu te amo. - Estranho por que? – Ele perguntou virando-se, para ficar por cima dela, entre suas pernas abertas. - Eu te conheço a ....- Olhou o relógio no closet .- Quatro horas. Ele riu, era uma verdade, parcial, mas não deixava de ser verdade. - É como se fosse a vida toda. – Ele comentou com os lábios em um de seus seios. - Fox... - Sim? - Você vai embora, não é? Mulder ergueu o rosto para fitar os olhos molhados. Ela continuou. - Não vá. Por que você precisa ir? Não me deixe aqui, Fox. Por favor. Ela chorava abertamente, o agente se sentiu um monstro, cruel e insensível, abraçou-se ao corpo pequeno com toda a sua força. - Leve-me com você. – Ela pediu em um fio de voz. – Ou fique comigo. - Eu não posso. – Ele chorava também. - Por quê? – O coração dela se apertava, cheio de dor e desespero. – Você disse que me ama. - Eu amo. - Então por que? Por que você tem que ir? Você é casado? – Ela perguntou preocupada enquanto agarrava- se ao pescoço dele. - Não. Mulder lembrou-se de Scully, sua Scully, os cabelos curtos, os olhos cépticos, seu sorriso raro, a honestidade, o caráter. Seu amor. - Não posso ficar, Clarissa. Eu...tenho que voltar. - Leve-me, então. Os olhos verdes se encheram de pesar. Queria evitar que ela sofresse, mas não sabia como evitar o que se seguiria. - Você não pode ir para o lugar de onde eu vim. - Por que? - Porque, ah, Clarissa, confie em mim. Você não acreditaria se eu te dissesse. Apenas saiba que eu te amo e se eu pudesse, se eu pudesse, eu juro que a levaria comigo. Acredite. Ela acreditava, mas queria um motivo. - Conte-me, Fox. Por que você tem que voltar? - Tem alguém lá que precisa de mim, que vai sentir minha falta. - E eu? Eu também vou sentir a sua falta. - E eu a sua. Mas não posso abandona-la. - Abandonar quem? - Scully. - E quem é Scully? Mulder sabia que iria magoa-la mas tinha que dizer. - Scully é a mulher que eu amo. Os olhos azuis se encheram novamente de lágrimas. Ela tentou se afastar. - Me escute, Clarissa. Eu a amo, mas te amo também. - Não se pode amar duas mulheres, Fox. - Mas vocês não são duas, são uma só. - Como assim? – Ela gritou. E ele lhe contou toda historia. Contou sobre sua parceria com Scully, sobre sua viagem no tempo, sobre Richard e Elize. Contou tudo. E no final, ela ainda chorava mas parecia ter acreditado. - É a verdade, Clarissa. Eu juro. Ela sentia que podia morrer, tamanho peso que apoderara-se de seu peito. - Fique comigo, Fox. Ela pode sobreviver sem você. – Murmurou em uma ultima tentativa. Mulder olhou para a linda mulher deitada a sua frente, sentiu-se morrer por ter que dizer não a ela, mas não podia deixar Scully. Seu peito não aceitava aquela possibilidade. - Tenho coisas incompletas lá, Clarissa. Aqui não é a minha época, não é o meu lugar. Eu...não posso ficar. Não posso deixa-la lá, lutando sozinha. Não posso. Clarissa o abraçou fortemente, beijou seus lábios com sofreguidão e tristeza. Ficaram lá, apenas se sentindo, se decorando. Chorando. Consolando. O dia desceu calmo, contrariando os sentimentos do casal do quarto 21. - Eu posso te apresentar Elize se você quiser. – Ela disse, tocando os cabelos castanhos do homem os seu lado. - Eu agradeceria. - Você ainda vai ficar para me ver atuando? – Ela perguntou tímida. - Eu já disse, não perderia isso por nada. As lágrimas voltaram para os olhos dele. - Se eu pudesse... – - Shiii, não pense nisso. Venha, vamos tomar café. Desceram separados para que ninguém os visse. Encontraram-se no restaurante do hotel. - Veja... – Clarissa apontou para uma mulher bonita, de cabelos castanhos – É Elize. Vamos tomar café, depois eu a chamo com uma desculpa qualquer e você conversa com ela. - Obrigado, Clarissa. Se não fosse você eu não saberia como me livrar de Robinson e da mãe dela. - Não tem importância. Que pelo menos uma de nós seja feliz. - Não diga isso. – Mulder segurou a mão dela, tentando- lhe transmitir apoio. – Você será muito feliz. Ela sorriu tristemente. Não iria mais pedir para que ele ficasse pois seria inútil mas também não iria iludi-lo. Não era possível ser feliz sem Fox. Uma hora depois Mulder subiu até o quarto 21 enquanto Clarissa ia procurar Elize. - Bom dia, Sr. Robinson. Sra. Parker. – O empresário e a mãe da atriz responderam cortesmente o cumprimento. – Bom dia, Elize. Será que você poderia subir ao meu quarto por um instante? Preciso de sua ajuda. - Claro. – A mulher de cabelos alourados se levantou- Com licença Mamãe, William. As duas atrizes se afastaram. - Aconteceu alguma coisa, Clarissa? - Sim, você verá quando chegarmos. Mulder foi uma surpresa para Elize. - O que ele está fazendo aqui? – Perguntou chocada. - Eu vim apenas lhe dar um aviso de amigo, Srta. Elize. - Escute-o, Elize. – Pediu Clarissa. A morena fez que sim com a cabeça pedindo para que continuasse. - Srta. Elize, daqui a alguns meses a Srta. vai conhecer um homem muito bom, Richard, e vai se apaixonar por ele. Ela parecia reticente. - Escute, Srta., é importante. Eu viajei de muito longe só pra lhe dizer isso. Esse homem, bem, quando a Srta. e ele estiverem sozinhos e ele estiver dormindo. Elize corou com a insinuação mas Mulder não permitiu que ela replicasse. - A Srta. vai ter que olhar nos bolsos dele e um deles vai haver uma moeda, é muito importante, Elize, tem que pegar essa moeda e joga-la fora, joga-la um lugar em que ele nunca encontre. Se a Srta. fizer isso tudo vai ficar bem. Elize achou tudo um absurdo. - O Sr. deve ser louco. – E deu meia volta e saiu. - Elize... – Clarissa chamou. - Deixe Clarissa. Quando ela conhecer Richard vai se lembrar do que eu falei e tudo vai ficar bem. - Tem certeza? - Tenho. Agora vamos...você tem uma peça para apresentar hoje a noite. Os dois saíram de mãos dadas. Anfiteatro do Hotel Rose San Diego 09:01 PM 15 de Agosto de 1896 Mulder olhava ansioso para o palco. Estava muito curioso, queria ver Clarissa atuar. Seria ela uma boa atriz? Alguma coisa lhe dizia que sim, Scully era boa em tudo que fazia. As cortinas se abriram devagar, o primeiro personagem entrou, era Elize. Todos aplaudiram. Ela começou um monologo mas Mulder não prestava atenção. Queria que Clarissa entrasse logo. Seu coração começou a saltar descontrolado ao vê-la. Estava tão linda! Os cabelos ruivos presos, o vestido negro, parecia triste. Estava de luto. Cinco minutos depois o homem de olhos verdes concluiu que ela era maravilhosa. Totalmente. Não era mais Clarissa, era a personagem, puramente. No final todos o publico delirava, jogavam pétalas de rosas sobre os atores e assobiavam. Elize e Clarissa saíram juntas. Mulder correu para o camarim para cumprimenta- las. Queria dizer o quanto estiveram maravilhosas, especialmente sua Clarissa. Queria também se despedir, dizer adeus. Encontrou-a no corredor abraçando os colegas. Ao vê-lo foi em sua direção jogando-se em seus braços sem se preocupar com que os outros falariam. Não tinha importância. - Venha, Fox, vamos sair daqui. – Sussurrou em seu ouvido. - Vamos. Se esconderam no jardim, entre as árvores. Sentaram-se em um banco acolhedor. Mulder segurou-lhe as mãos com carinho. - Você é incrível. Estava perfeita. A mais perfeita de todas. Ela riu, feliz. - Você deve estar mesmo muito apaixonado. - Muito. Clarissa foi parar no colo dele, tocou seus lábios com os dedos. As lágrimas voltaram a correr macias. Agarrou-se a ele, soluçando. - Vou sentir muito a sua falta, Fox. Muito. - Eu também, Clarissa. Vou te amar pra sempre. – Ele se segurava para não chorar também. Não podia se prender ali. Levantou-a, pressionando o corpo macio contra o tronco de uma arvore. Beijaram-se, querendo se absorverem, precisando que suas essências ficassem gravadas uma no corpo do outro. Suas almas se encontraram. Era o ultimo beijo, tudo que um ultimo beijo precisa ser, uma promessa, um adeus. Mulder separou-se bruscamente. Tinha que ir embora e daquele jeito não conseguiria. Virou-se e não olhou para trás. Podia sentir o sofrimento da mulher ruiva em sua carne e aquilo o deixava arrasado, com vontade de abandonar tudo e voltar. A cada passo as lágrimas caiam mais abundantes pelo rosto bonito do homem. Mas ele não olhou para trás. Nenhuma vez. Chegou a suite 21 e caiu na cama. Tinha que começar o processo de auto hipnose. Alugara o quarto 22 a toa, não precisaria dele. Sentiu o cheiro de Clarissa nos lençóis. As duvidas martelando seu cérebro incessantemente. Talvez devesse ficar, casar-se com ela, ter uma vida normal. Era uma forma de Ter Scully para si....Não, Mulder, não seja covarde. Você não pode deixa-la lá, preocupada, pensando que você desapareceu. "Tenho que voltar" Engoliu o choro que chegava, apertou muito os olhos e começou a repetir, eternamente, em uma litania. "Hoje é dia 15 de Agosto de 2000 Hoje é dia 15 de Agosto de 2000... Clarissa escutava tudo, chorando abraçada aos joelhos, do outro lado da porta. Seus gemidos abafados pelo tecido da saia enquanto seus sentimentos mais nobres eram massacrados. Só se levantou muito depois que a voz do homem dentro do quarto não podia mais ser ouvida. Entrou, não havia ninguém lá. Apenas um cheiro característico, um que nunca esqueceria. O cheiro de seu amor. Sorriu, tristemente. Hotel Rose Quarto 21 16 de Agosto de 2000 01:20 AM Mulder olhou em volta. Os barulhos da enorme cidade em que San Diego se tornara entrando pela janela. Tudo voltara ao normal. Virou a cabeça correndo o olhar ansioso pelo criado-mudo. Sorriu, não havia nenhum livro lá. Bom sinal. Queria dizer que havia conseguido seu intento. Richard e Elize haviam ficado juntos, em paz, em 1896. Ligou para o FBI para confirmar. Os arquivos estavam todos lá. Elize e Richard Collier, casados, quatro filhos. Com a boca seca perguntou também por Clarissa Bergman, queria saber o que havia acontecido com ela. - Clarissa Bergman, era atriz mas abandonou a carreira em 1896 quando ficou gravida... - Gravida?!? - Sim. - Ela se casou? - Não, era mãe solteira. Dizia que o pai do menino havia morrido. - E qual era o nome do garoto? - Que engraçado, agente Mulder. - O que? - Ele tem o seu nome. Fox Bergman. Mulder ficou pálido. - E o que vocês tem sobre ele? - Foi policial, casou-se mas não teve filhos. Morreu a 15 anos. - Obrigado, foi muito útil. - Disponha. Mulder sorriu. Tivera um filho! Quem diria? Um filho. Clarissa...será que ela ficara feliz ao saber da noticia? Nunca saberia. Resolveu ir para casa, aquele lugar estava lhe deixando esquisito. Arrumou suas coisas, ainda se sentindo meio confuso. O recepcionista estava com cara de sono. - É o senhor Mulder? – Perguntou antipático. - Sou eu sim. - Tem uma carta aqui para o senhor. - Pra mim? - É, está aqui a muito tempo. E lhe entregou um envelope antigo. A letra era bonita e escrita ainda com caneta tinteiro. Mulder sentou-se num sofá do hall e começou impaciente. "Querido Fox, Sei que dia 15 de Agosto de 2000 você estará aqui nesse hotel, estará aqui tentando mudar a vida de Richard e Elize e mudando a minha. Portanto, receberá a minha carta, mais cedo ou mais tarde ela chegara a você. Primeiro quero que saiba que seu plano maluco funcionou e Richard está muito bem, se casou com Elize e eles vão Ter um bebê. Eu vou ser a madrinha! Também temos um bebê, Fox. Ele é tão lindo, é a sua cara, os mesmos cabelos. Mas tem os meus olhos. Ah, Fox, você não imagina a minha felicidade quando descobri que estava gravida. Pelo menos eu não passaria a vida sozinha, teria um pedacinho seu para amar para sempre. Meu, quer dizer, nosso, pequeno Fox. Vou dizer para ele que você morreu mas não se preocupe, ele vai te amar tanto quanto eu. Espero que seja feliz, meu amor, junto da sua Scully. Você me tornou feliz. Sua Sempre Clarissa" Mulder chorava quando terminou. Havia anexada a carta uma foto em preto e branco de Clarissa e um garoto de mais ou menos 10 anos. O menino era mesmo muito bonito e Fox se sentiu feliz, por ela e por ele. Pagou o Hotel, pegou suas malas e saiu. Enterraria o passado ali. Não queria voltar nunca mais. Mas antes teria que falar com Robert e... Mas que bobagem, Robert não se lembraria de nada. Afinal, para ele, seu irmão era desaparecido e Bob nunca recebera os manuscritos com as anotações de Richard, que mais tarde se tornariam o livro Em Algum lugar do Passado. É, tudo estava morto agora. Olhou para a cidade a sua frente, lembrou-se de Scully. Ela estava em algum lugar por ali, cuidando da avó doente. Ligou para o celular dela. - Scully. – Ela disse com voz calma. – O que você quer a uma hora desta, Mulder? - Como você sabia que era eu? – Ele perguntou rindo, subitamente alegre por Ter voltado. - Ora, são duas da manha, quem mais seria? - E o que você está fazendo acordada? - Estava sem sono. - Que ótimo, quer me levar pra conhecer a cidade? - Mulder, você está em Washington. - Pra falar a verdade estou em San Diego. - E o que você está fazendo aqui? - É uma longa historia. E então, quer fugir comigo? - Claro, Mulder. Claro. Quando que eu consegui dizer não pra você? - Bom, teve uma vez que... - Cala boca, Mulder. São 2 da manhã e eu não quero discutir. Ambos sorriram, estranhamente satisfeitos. Cabô. Gente, ficou super longa, eu sei. Sei também que vocês estão cansados de ler e tudo mas...me manda um feed. Por favor, é importante. Manda, nem que seja só pra dizer que leu.