Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, esta história destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: Drama / Shipper Nome do fan fiction: Vingança aos Inocentes Spoilers: Surpresa no natal; Emily. Resumo: Um suicídio leva os agentes Mulder e Scully a se depararem com situações inusitadas, dentre elas, ficarem presos no telhado de um prédio, fatos relacionados ao caso, que investigavam, acabam por trazer à tona assuntos delicados para Scully. Seriam os suicidas, nesta história, inocentes? Vingança aos Inocentes A noite caía como um manto negro salpicado de estrelas sobre a capital do país, Washington. As pessoas em suas vidas atribuladas, depois de um longo dia de trabalho, voltavam para seus lares para reencontrar aqueles que lhe importavam ou para cair no silêncio e no abraço da solidão, que é não ter com quem compartilhar as suas vidas. Dentre elas, um rapaz não muito alto, de cabelos e olhos castanhos, caminhava pelas ruas silenciosas em direção ao lugar em que morava. Quando chegara em frente ao prédio de seu apartamento, procurando dentre suas chaves a da porta para poder entrar, um homem como que materializado do nada saiu das sombras, assustando-o e antes que pudesse emitir qualquer palavra, viu-o tocando o seu ombro com uma das mãos, paralisando-o, o rapaz reconheceu- o, mas não conseguia reagir, só sentir uma dor intensa a percorrer-lhe o peito, de repente tudo escureceu ao seu redor. Depois de um tempo que não saberia precisar, abriu os enormes olhos felinos, ainda era noite e estava caído em frente à porta de seu prédio, ergueu-se meio atordoado, tentando recordar o que acontecera, não lembrava, pegou seu molho de chaves do chão e dirigiu-se ao seu apartamento. Sentia uma dor angustiante que não conseguia explicar, sentou-se em sua escrivaninha, pegando uma caneta e um pedaço de papel pôs-se a escrever algo nervosamente. Em seguida, caminhou até o terraço da sala, subiu sobre o parapeito, fitando o céu estrelado enquanto se equilibrava para não cair, suspirou profundamente, de seus olhos escuros deslizavam silenciosas algumas lágrimas amargas, admirou mais uma vez do vigésimo andar o céu e a cidade que começava a adormecer, depois voltou sua atenção em direção ao asfalto das ruas lá embaixo para, enfim, poder fechar os olhos e descansar. Tararan...tararan... Governo Nega Ter Conhecimento A Verdade Está Lá Fora __________________________________________________________ Washington D.C. Necrotério de Quântico 10:30 a.m. Abriu uma porta que levava à sala de autópsias, encontrando o parceiro à sua espera. - Bom dia, Mulder! - Bom dia, Scully! Você demorou. - Fiquei presa no engarrafamento - respondeu enquanto se dirigia à mesa metálica, onde repousava um corpo coberto, pegando uma prancheta que se encontrava próximo ao cadáver - Qual é o caso? - Mark Keaton - apontou para a mesa - Pulou de seu apartamento no vigésimo andar ontem à noite, depois de escrever um bilhete em que deixava claro o porquê de seu suicídio. - Qual o problema? Acredita que não se trata de um suicídio? - lia algumas informações na prancheta. - Não há dúvidas quanto ao seu suicídio, houve testemunhas, o corpo de bombeiros chegou a ser acionado - esperou a próxima pergunta da parceira. - Então, se é apenas um suicídio, e mesmo que não fosse, qual o interesse nosso nisso, para os arquivos-x? - fitou-o, esperando a outra parte da história que ele ocultara. - Leia o bilhete - entregou-lhe a pasta parda aberta que até então segurava. Scully observou a letra nervosa no papel, alguns borrões e rabiscos, lendo com atenção as palavras desesperadas no bilhete: Não posso mais, a dor da culpa não me permite conviver comigo mesmo, tirei a vida de um garoto tão jovem, de tantos sonhos, coloquei fim a eles, não posso mais, é terrível sentir o que estou sentindo, e não consigo encontrar outro nome para isso senão culpa, culpa, culpa...não posso mais viver assim, não consigo, não tenho direito à vida, perdi este direito no momento em que privei outra pessoa dele. Me perdoe mãe, pai, amo muito vocês. Adeus. Ass.: Mark - Certo, Mulder, não há nada aqui além de uma confissão desesperada de culpa, qual é a outra parte da história? - Houve mais dois suicídios este mês - pegou a pasta das mãos da parceira, lendo os nomes - William Hunter e Christian Connor, ambos ao cometerem suicídio estavam com um bilhete no bolso, em que explicava o motivo de se matarem, e também havia menção à culpa de terem matado um garoto, se quiser vê-los - mostrou-os para a parceira. - Quem era o garoto? - perguntou enquanto passava os olhos pelos dois outros bilhetes. - John O'Nell, tinha 17anos quando morreu num acidente de carro há seis meses. - Os três foram os responsáveis pelo acidente? - Eles eram amigos e estavam no carro que, segundo consta no relatório, colidiu com o carro em que estava o garoto e o pai, mas não foram responsabilizados pelo acidente, não houve culpados, foi uma fatalidade. - Houve testemunhas nos outros dois suicídios? - encarou o parceiro. - Hunter se jogou na frente do trem, nos trilhos, testemunhas, que estavam na plataforma na hora, afirmaram que ele estava só quando pulou. E Connor se matou no trabalho, na frente de seus colegas, com a própria arma, era policial. - E os laudos da autópsia? - abriu a pasta parda novamente. - Os resultados de Hunter e Connor não indicaram nenhuma droga ou substância estranha no organismo deles, eles cometeram o suicídio deliberadamente. - Não é comum um suicídio coletivo decorrente de um arrependimento e sentimento de culpa em grupo. É nisso a sua dúvida, Mulder? - Não diria que este caso não é só incomum, mas também muito estranho e suspeito. - O arquivo-x está no "estranho". Acredita que os suicídios podem não ter sido espontâneos? Verificaram se os bilhetes não foram forjados, se eram legítimos? - Não há dúvidas quanto aos bilhetes, a caligrafia realmente era deles. Agora, já os suicídios, acredito que eles possam ter sido induzidos. Segundo os amigos e familiares das vítimas, eles não demonstraram qualquer sentimento de culpa ou comportamento depressivo após o acidente, e muito menos nestes últimos meses, que viessem a culminar com seus suicídios. E por que esperar seis meses depois para se sentir culpado por um acidente, que segundo a perícia, não houve responsáveis, nem culpados? - Se considerarmos que não foram "suicídios espontâneos", digamos assim, então, talvez alguém ache que o acidente e a morte do garoto não foram apenas uma fatalidade, e que os culpados de alguma maneira teriam de pagar com a própria vida. Talvez o pai do garoto que estava no carro, no acidente, tivesse este interesse, o de fazer justiça com as próprias mãos, mas mesmo assim por que esperar tanto tempo para se vingar da morte do filho? E como o pai do rapaz teria sido o responsável pelo suicídio deles? - Vou investigar a vida do pai do garoto enquanto você faz a autópsia, talvez encontre algo que passou despercebido nos outros corpos pelos legistas - Mulder se preparava para sair. - Sei que há muitas lacunas neste caso, Mulder, mas talvez não seja nada, a não ser o óbvio. - O problema, Scully, está neste "talvez". Temos de averiguar - dirigiu-se à porta - Pego você mais tarde. Saiu porta afora antes que pudesse ouvir o tão conhecido suspiro resignado da parceira, quando tinha que realizar alguma autópsia. _____________________________________________________________ ____________ Necrotério de Quântico 6:30 p.m. Mulder inseriu a chave no contato, dando a partida no automóvel, quando este se colocou em movimento, perguntou para a parceira acomodada no assento ao lado: - Conseguiu algo com a autópsia? - possuía a atenção voltada para a estrada. - Nada incomum, Mark Keaton teve múltiplas fraturas, morrendo vítima de uma hemorragia interna - segurava uma pasta parda nas mãos - E o que descobriu sobre o pai de John O'Nell? - Harrison O'Nell foi socorrido pelos próprios homens que se suicidaram, o lado do motorista foi o mais atingido, matando o garoto na hora. O'Nell teve um ferimento grave na cabeça, ficando em coma vários dias, após recobrar a consciência não lembrava com nitidez a noite do acidente. - Como reagiu à notícia da morte do filho? - observou o parceiro interessada na resposta. - Entrou em depressão, recusava-se a fazer qualquer coisa, incluindo comer, foi internado numa clínica pela família até se recuperar, teve alta há um mês e meio. - E a mãe de John O'Nell ? - Mora em outra cidade, na Califórnia, sendo divorciada de O'Nell há 7anos - fez uma pausa - Os dias em que ocorreram os suicídios, ela não estava em Washington, eu verifiquei. _____________________________________________________________ ____________ Subúrbio de Washington 7:40 p.m. Um carro sedan prateado estacionou em frente a um prédio residencial de vários andares, as portas do automóvel se abriram, dando passagem a duas pessoas que se dirigiram ao interior da construção. Tomaram um elevador para o último andar, somente os dois lá dentro juntamente com o silêncio que os acompanhava, o que não os incomodava, pois era mais um cúmplice, um aliado na relação deles. Quando o painel indicou o número do andar esperado, a porta do elevador se abriu, saindo eles para o corredor. Enquanto seguiam para o apartamento de número 44, pela porta deste saia um homem alto. - Senhor O'Nell? - perguntou um deles se aproximando do estranho - Sou o agente Mulder, e esta é minha parceira, agente Scully... Mal terminara as apresentações e o homem colocara-se a correr velozmente em direção às escadas, estas levavam ao terraço do prédio, os agentes foram em seu encalço, Mulder, com as pernas mais compridas, pulava os degraus de dois em dois para alcançar o fugitivo, Scully vinha logo atrás, tentando acompanhar os passos do colega. No alto da escadaria havia uma porta escancarada, pela qual provavelmente o homem alto passara, pois era a única saída, os agentes de arma em punho separaram-se no terraço para procurá-lo dentre as armações de ferro, as parafernálias inomináveis e as sombras, já era noite, e ventava muito, principalmente no telhado do prédio em que se encontravam. Scully, com passos silenciosos, cautelosos, deslizava pelas sombras, atenta a qualquer movimento, ruído, a qualquer batida mais acelerada de coração ou a uma respiração mais sôfrega, que viessem a denunciar a posição do estranho. Enquanto a mulher ruiva passava por um enorme caixote, uma mão saída da penumbra tocou-lhe o ombro, era o estranho homem, que a amparou entre os braços antes que o frágil corpo caísse no cimento frio, Scully sentira com o contato uma corrente elétrica e dolorosa a percorrer-lhe o peito, perdera completamente o controle de seus sentidos, não conseguia sequer emitir um gemido, não sentia seu corpo, nada ouvia, apenas via aquela face que a observava com olhos tão escuros, como se a íris e a pupila fundissem-se numa só estrutura, formando dois buracos negros, sem fundo, permitindo-se a exposição da própria alma. Ele a repousou no chão de concreto cuidadosamente, sem deixar de fitá-la, pegando em seguida uma das mãos dela e descansando-a sobre seu peito, Scully sentiu novamente uma dor lancinante, aguda, queria poder tirar a mão de sobre ele, mas não possuía forças, os olhos azuis que estavam fixos nos tão tristes dele, fecharam-se vagarosamente até que a pálida agente mergulhasse na mais profunda escuridão. O homem alto soltou a mão dela gentil, levantando-se em seguida, mas antes pegou-lhe a arma, que ficara presa aos dedos paralisados da outra mão. O telhado era extenso, Mulder vasculhava por entre umas pilhas de caixotes de madeira apodrecida devido ao abandono em que lá estavam. Um ruído despertou-o de sua procura, correu em direção a origem dele, era a porta de aço que havia sido fechada, tentou abri-la, mas estava trancada pelo outro lado, O'Nell fugira. Percebendo a ausência da parceira, pôs-se a procurá-la angustiado. - Scully! - começou a correr dentre as sombras e os caixotes, sem deixar de gritar pelo nome dela - Scully! Uma preocupação crescente em seu peito impulsionava-o a correr e a gritar mais desesperado, até deparar-se com um corpo delicado desfalecido no chão, sua respiração ficou suspensa no ar, tamanho era o terror e o medo que o dominavam, apressou-se em direção à parceira, medindo-lhe o pulso e certificando-se de que ela estava bem. Apoiou a cabeça dela em seu colo e tentou acordá-la. - Scully, por favor, acorde - passou a mão pela face pálida e fria da parceira, pegando em seguida o celular dentro de seu sobretudo para pedir ajuda, mas o aparelho apenas chiava, impossibilitando qualquer comunicação. - Mulder, o que aconteceu? - Scully despertara, surpreendendo o parceiro que tentava inutilmente contatar ajuda pelo celular. - Não se lembra? - aconchegou-a entre os braços, fitando-a aliviado por ouvir aquela voz, que tinha o incrível dom de acalmar-lhe o espírito inquieto. - Não - possuía uma expressão de perplexidade em sua face. - Está sentindo alguma coisa? - passou a mão pelo rosto dela, afastando algumas mechas ruivas. - Estou um pouco tonta, mas estou bem - ergueu a cabeça do colo do amigo, tentando se levantar, Mulder ajudou-a. - Não está machucada? - insistiu ainda, preocupado, no bem estar dela enquanto se colocavam de pé. Scully fez um leve movimento de negativo com a cabeça, estava aturdida, alheia, como se houvesse experimentando aquele estado de sonambulismo nos primeiros instantes que se sente após acordar. - Sabe onde estamos? - segurava-lhe os ombros frágeis com suas mãos gentilmente. - Sei - observava ao redor, piscando os olhos para despertar daquele torpor do sono. - Estava vasculhando o outro lado do terraço quando ouvi a porta de acesso fechando, depois encontrei você desacordada, fomos trancados aqui, O'Nell deve tê-la atacado e fugido. - Não consigo me lembrar dele ter me agredido - levou uma das mãos à testa, forçando a memória. - Qual a última coisa de que se lembra? - Eu vindo para cá com minha arma - levou instintivamente a mão ao coldre na cintura, em seguida, passando rapidamente o olhar preocupado pelo chão - A arma não está comigo. - Deve estar com ele - soltou os ombros da amiga, voltando-se para a porta de aço - Temos de sair daqui - tentou forçar a porta com o seu corpo, mas era muito pesada, grande. - O seu celular não está funcionando? - encostou-se em um caixote para recuperar-se da tontura que ainda sentia. - Está dando interferência, chiando. Tente o seu, talvez funcione. A mulher ruiva pegou o aparelho dentro do casaco, apenas para constatar que o objeto também não funcionava. - Creio que se gritarmos não vai adiantar para que alguém venha nos tirar daqui. - Nunca se sabe, Mulder. Podemos tentar. - Vou atirar na fechadura. - Mulder, isto é propriedade particular, não podemos danificar ou destruir - sabia que seu comentário era inútil, principalmente quando se tratava de seu parceiro. - Faz parte da investigação, Scully - afastou-se da porta, mirando- lhe a fechadura, disparando duas vezes contra ela. A fechadura cedeu, caindo no chão, Mulder apoiou a mão sobre a porta, forçando-a a abrir, mas ela continuou inerte. - Droga! Tem trancas do outro lado - esbravejou o agente - Como vamos sair daqui? - Se acalme, Mulder, com certeza alguém ouviu você atirar, e não demorará muito para que a polícia seja chamada - tentou acalmar uma criança grande e impaciente. - Só que até a polícia vir, se é que ela será avisada, O'Nell já terá fugido. Precisamos agir rápido. Caminhou até o parapeito do terraço do prédio, observando os vários pontos luminosos que se estendiam pela cidade, um chão de estrelas, tudo lá embaixo era tão pequeno, tão insignificante como a vida perante o universo. A brisa noturna que lhe beijava a face, apesar de fria, era agradável, uma carícia, os cabelos castanhos desalinhados por ela. Mulder, como que tomando fôlego, respirou fundo e gritou com todas as forças que lhe eram possíveis, sentindo a garganta arranhar e a voz sair rouca. Scully que se sentara no chão, encostada na parede da porta, silenciosa, imersa em suas reflexões, sobressaltou-se com o grito inesperado do parceiro. - Incrível! Um homem em cima de um prédio, gritando como louco, não consegue chamar atenção, mas se eu já fosse um suicida, pronto a cometer uma loucura em silêncio, já teria uma multidão lá embaixo para assistir ao espetáculo, até parece que as pessoas sentem o cheiro da desgraça, sabem quando é ou não encenação. E agora que eu precisaria de que não uma multidão, mas uma única pessoa me visse e comunicasse a polícia ou o corpo de bombeiros, não aparece ninguém - desabafou ainda de costas para a parceira, debruçado no parapeito - Ei! Vou me jogar, não há ninguém que queira assistir ao meu "grand finale"?! - seus gritos fundiram-se ao assobio da ventania que se fazia bravia e forte. - Essa atração do ser humano pela tragédia ou pelo drama tanto no teatro, no cinema como na vida, é uma catarse, uma válvula de escape para sua própria tragédia pessoal. Por que esse fascínio pela tragédia e ao mesmo tempo temor dela? Fascínio pela tragédia alheia e temor da sua própria? Catarse, por isso que quando há qualquer tipo de acidente, uma multidão se acerca da vítima, com aquela curiosidade mórbida e aquele fascínio fúnebre de vislumbrar uma cena real e horrível, que é presenciar a dor, a morte do outro, e mesmo sendo a situação chocante, não se contenta em apenas imaginar o óbvio, o estado do corpo de um acidente violento, é preciso ver com os próprios olhos por mais que lhe repugne, para inconscientemente se deliciar com a tragédia do outro, aliviado por ser ele e não você em tais condições, eis aí a satisfação experimentada pela multidão ao se deparar com a desgraça alheia. A sede por um sangue que não é seu - Scully discorria sobre o assunto, mais como refletindo em voz alta do que se dirigindo ao amigo, que lhe absorvia cada palavra com atenção. - Não quero servir de catarse para os outros - não pôde evitar um comentário sarcástico que lhe era tão peculiar, afastou-se do parapeito, sentando-se ao lado da parceira, não havia muito o que fazer a não ser esperar. Um silêncio agradável pousou entre eles. Apesar de Scully não estar sentindo nenhuma dor física com o confronto que teve com O'Nell, uma outra dor pressionava-lhe o peito, angustiava-lhe a alma, algo que não conseguia explicar, sendo esta dor no espírito pior do que uma física, pois esta era diagnosticável, de possível cura, e a do seu espírito? Havia remédio para ela, sendo a alma tão difícil de se tocar? O agente de olhos verdes olhou de soslaio a amiga, percebendo-a distante, com o olhar fixo em algum ponto no infinito, pensando. - O'Nell sabe porque viemos aqui, senão não teria fugido - rompeu o silêncio - Foi ele, Scully, só não sei como, mas foi ele, não foram simples suicídios. Scully fechou os grandes olhos azuis, alguns "flashes", algumas cenas se descortinavam à sua frente, cujas pessoas desconhecia, em uma delas via o nascimento de uma criança que aos berros vinha ao mundo, na seguinte, um bebê muito saudável e rosado esticava os bracinhos para alguém, seria para ela? Não, pois falara "papa". A esta cena se sucedeu uma outra, um menino que parecia estar aprendendo a andar de bicicleta, pois alguém o segurava para que não caísse, podia ver as mãos da pessoa e o sorriso confiante que a criança lançava a quem lhe dava segurança. Vários "flashes" vieram-lhe frenéticos e rápidos, sucedendo- se uns aos outros, em todos havia a figura de um menino, fosse ele bebê, criança ou adolescente, por mais que as feições físicas mudassem, percebia se tratar da mesma pessoa em várias fases da vida em todas as imagens que lhe vinham à mente alucinantes. A última cena que culminara com aquela tempestade de lembranças, que não lhe pertenciam, foi a de um jovem adolescente de cujo ferimento na cabeça lhe escorria sangue em abundância, empapando-lhe o cabelo castanho, os olhos escuros estavam abertos, vidrados. A mulher ruiva abriu os olhos assustada, sobressaltando-se, Mulder percebeu. - O que foi, Scully? - fitou-a preocupado - Você está pálida, como está se sentindo? - Eu...- estava com dificuldades em falar, sentia o coração pulsando fora do ritmo. Por que aquele sentimento e aquela dor que lhe arrematavam o espírito? - Eu estou bem, Mulder - controlou- se, respondendo a pergunta do amigo, não queria preocupá-lo. - Não me venha com essa, Scully - irritou-se - Estou cansado de vê- la se fazer de forte a todo momento, você é humana, e está visível no seu rosto que não está bem. - Sei a dor que O'Nell deve estar sentindo - murmurou, ignorando o comentário do parceiro. - Como? - perguntou sem compreender. - Não há dor pior, Mulder, do que a perda de um filho - suspirou profundamente com os olhos brilhantes. Ele nada disse, Scully bem sabia que dor era aquela, sentira- a quando perdera Emily. Mulder sempre evitara tocar em assunto tão sensível, que remetia a feridas jamais cicatrizadas no espírito da parceira. Sentia-se culpado por tudo quanto ela passara ao seu lado, mas, apesar da culpa que se infringia, seu egoísmo o impedia de afastá-la de si, pois ela lhe era tudo, e ao invés de tentar libertá-la de sua presença, mantinha-a consigo, prejudicando-a com seu trabalho e martirizando-se por ser a causa das tragédias pessoais da mulher ao seu lado, que representava tanto em sua vida como jamais ela seria capaz de imaginar. - "Os pais não devem viver o suficiente para ver os seus filhos morrerem", Mulder, porque no momento em que os ama, acaba por tornar-se dependente deles, e não eles de você, crescerão e serão seres independentes no mundo, deixando-o, mas você jamais os deixará, este laço que une pais e filhos é intenso, sólido, indestrutível, já o que une filhos e pais é mais frouxo, para que eles possam se libertar e saírem livres, independentes a descobrir a vida por si sós - fechou os olhos por alguns instantes, abrindo-os em seguida - Perdê-los, Mulder, é como perder-se e não se encontrar nunca mais, a dor pode adormecer, mas estará sempre lá, pronta a trazer à tona lembranças que, ao invés de confortar, fazem chorar. O homem sentiu uma tristeza a espalhar-se pelo peito, não conhecia aquela dor e desejava nunca experimentá-la, sofria por aquela mulher corajosa ter passado por aquela situação sem que ele pudesse remediá-la. Ela perdera uma parte dela que ele jamais poderia lhe devolver. - Eu não me perdi, Mulder - encarou os olhos verdes úmidos do agente - Pelo menos, não totalmente - sorriu-lhe triste. - Sinto tanto, Scully, se eu pudesse... - Não, Mulder, não pense no que poderia ter feito ou deixado de fazer para mudar algo, não vale a pena pensar no que não era para ser - interrompeu-o. - Eu gostaria que você fosse mais sincera comigo quanto aos seus sentimentos - fitou-a. - Estou sendo agora. - Queria que fosse sempre, queria que você se abrisse mais para que eu pudesse saber o que sente e ajudá-la a compartilhar suas incertezas, seus medos e sofrimentos, é tão difícil carregar tudo sozinho, Scully - suspirou - Eu bem sei o que é isso, porque antes de você aparecer era assim que eu vivia, sozinho, sem ter com quem compartilhar o que pensava, sentia, sem ter em quem confiar, e agora eu tenho, você também, tem a mim, mais do que seu parceiro, sou seu amigo, Scully. - Eu sei, Mulder, mas há coisas que não podemos dividir, temos que carregar sozinhos - era muito difícil para ela expor seus sentimentos, estava até surpresa consigo mesma por falar de assuntos tão pessoais e delicados. O silêncio novamente caiu sobre eles, Mulder voltou o rosto para o céu inundado de pontos luminosos, seus pensamentos vagavam perdidos nas estrelas, o verde de seus olhos úmidos cintilava , por que aquela sensação de tristeza a embalá-lo? Havia algo que precisava ser dito, sentia isso, mas o quê? Era tão difícil traduzir em palavras sentimentos. Respirou fundo, olhando em seguida para a amiga ao lado, ela havia fechado os olhos, com a face pálida inclinada para cima, sentindo o vento gélido da noite, seus cabelos afogueados esvoaçavam ao sabor da brisa, estava tão imersa em suas reflexões e sensações que não percebia um par de olhos iluminados a observá-la. De repente a escuridão de seus olhos fechados dissipou-se, revelando-lhe um jovem de cabelos castanhos e olhos amendoados. - Sabe que não sou bom para dirigir, dirige você, eu não quero! - arremessou a chave na direção de Scully, uma mão pegara-a antes que caísse no chão. - Você é um homem, não pode ter medo de dirigir um carro, nem parece meu filho - disse uma outra voz cujo dono ela não conseguia ver - Você vai dirigir e pronto! Vamos. Observou o rapaz entrar a contragosto no carro e sentar-se na frente do volante, o desconhecido acomodou-se no assento do carona, esticando a chave para o jovem, este pegou-a irritado, ligando o automóvel que logo se pôs a andar. Enquanto dirigiam pela estrada na noite escura, um vulto passou correndo na frente deles, era um cachorro, evitando atropelá-lo, o garoto desviou para a pista do lado, indo de encontro a um outro carro que vinha na direção contrária. - Cuidado! - gritou uma voz. O carro chocou-se com o do rapaz, arremessando-o para fora da pista, rolando barranco abaixo, Scully podia ver o interior do automóvel, tudo girando alucinadamente, até parar no mais completo silêncio e escuro, aos poucos foi avistando o assento do motorista, vislumbrando o garoto com um ferimento na cabeça a escorrer-lhe sangue em abundância, empapando-lhe o cabelo castanho, os olhos amendoados escuros estavam abertos, vidrados, aquela cena a aterrorizou de um modo que não saberia explicar, uma dor insuportável mutilava-lhe a alma. Abriu os olhos azuis deparando-se com o parceiro, algumas lágrimas teimosas insistiam em deslizar-lhe pela face, virou-se para o outro lado para que Mulder não a visse chorar. - Scully, o que foi? - preocupou-se ao vê-la naquele estado, sempre tão contida em suas emoções, será que ele disse alguma coisa que a magoara? Ela não respondeu, ele lhe segurou gentil o rosto, obrigando- a a encará-lo, seus olhos se encontraram. - Eu disse algo que a magoou? Me desculpe, Scully - soltou-a, desviando seus olhos dela - Não queria feri-la com estes assuntos, sei o quanto deve ser difícil para você falar disso, me desculpe. - Não, Mulder - passou as mãos pela face, secando as lágrimas - Não é nada com você, me desculpe, não sei o que está acontecendo comigo. - Acho que seria melhor você se afastar de mim, do trabalho por algum tempo, precisa descansar, Scully - passou a mão pelos cabelos dela, alinhando-os, já que o vento os bagunçava. - Mulder, quando lhe disse que não há pior dor do que a morte de um filho, eu me enganei. Ele ficou calado, esperando-a completar o pensamento. - Pior do que a morte de um filho, é sentir-se culpado pela morte dele, é terrível, insuportável. - Você não teve nenhuma culpa quanto à morte de Emily, não se culpe... - Não, Mulder - interrompeu-o - Não estou falando de mim. - Hum? - A verdade nunca é fácil de aceitar, O'Nell achou que com a morte daqueles que estavam envolvidos no acidente aliviaria o seu sofrimento, a sua perda, mas isso não aconteceu e pior, descobriu que além de tirar a vida de três inocentes, era ele o único culpado de tudo que acontecera, pois se não fosse seu filho a estar dirigindo o carro, e sim ele, talvez o rapaz ainda estivesse vivo - fez uma pausa antes de prosseguir - É triste, Mulder, dedicar anos de sua vida a cuidar de uma outra vida, a cultivá-la como a mais rara flor para perdê-la repentinamente, e todo o tempo e sonhos dedicados a ela perdem-se numa última batida de coração. E quando você se dá conta, percebe que a maior perda não se deve ao tempo e aos sonhos, mas ao fato de ter perdido as oportunidades para dizer a esta vida o quanto ela lhe era valiosa, o quanto a amava. Infelizmente, só percebemos isso quando não há mais tempo, e então, já é tarde, restando apenas o peso de não ter dito o mais importante. Mulder limitou-se a observá-la e ouvi-la. - Sei o que O'Nell pretende - sussurrou para si mesma. - O quê? - uma ruga formou-se em sua testa. Antes que pudessem continuar a conversa, ouviram passos e barulhos por trás da porta de aço, até esta ser aberta, revelando dois policiais uniformizados e armados. Os agentes se ergueram do chão, identificando-se com suas insígnias, Mulder explicou rapidamente o que acontecera, descendo em seguida as escadas, acompanhado da parceira e dos dois policiais, que haviam ido para lá averiguar uma chamada sobre alguém estar atirando no prédio. Dirigiram-se ao apartamento do fugitivo, a porta não estava trancada, entraram no local em busca de algo que indicasse o paradeiro dele, mas não foi preciso tanto, pois O'Nell estava no quarto encolhido a um canto, apontando uma arma para a própria cabeça. - Senhor O'Nell, não faça isso - Scully tentou se aproximar. - Não se aproxime, senão me mato - pressionou mais a pistola na cabeça. Mulder puxou a parceira, colocando-se na frente dela, um homem nervoso e desequilibrado poderia ser perigoso para todos que se encontravam naquele quarto, se de repente se decidisse a começar atirar aleatoriamente. - Não tentem me impedir - voltou a sua atenção para a agente ruiva - Você sabe o que é esta dor, sentiu-a, sabe que o fim para ela é a morte, não é? Então, não tente me impedir. Scully desviou os olhos para o chão, o fim que se sucederia era inevitável, ela bem o sabia, não julgaria aquele triste homem por querer pôr fim à própria vida, ao sofrimento, sentiu a dor insuportável dele e não desejava nunca mais sentir. - Antes não ter recordado aquela noite maldita, em que meu filho morreu no meu lugar, porque era para eu dirigir a droga do carro, ele não queria - começou a chorar convulsivamente - Fiz três inocentes sentirem uma culpa que não lhes pertencia e perderem a vida, uma vingança para as pessoas erradas, agora tenho sangue em minhas mãos, a culpa é só minha - bateu com alguns golpes no próprio peito com a mão livre. Finalmente o disparo, o silêncio, o descanso, não suportara a verdade, a culpa. O corpo ficou caído no chão, o sangue espalhava-se pela face isenta de qualquer expressão da vítima. Um dos policiais saiu para tomar as providências necessárias ao recolhimento do corpo já sem vida. Mulder respirou fundo, passeando os olhos pelo local, vários porta- retratos espalhavam-se pela estante do quarto, as fotos em sua maioria mostravam um garoto saudável, de cabelos castanhos e olhos amendoados escuros. Pensou em Scully, ela não mais estava no quarto, havia saído com o outro policial para a sala, foi procurá-la. - Viu a agente Scully? - perguntou para o policial que se encontrava no telefone. - Ela acabou de sair - indicou a porta. No corredor encontrou o outro policial que esperava o elevador. - A agente Scully passou por aqui? - Ela subiu as escadas para o telhado do prédio. O policial mal terminara de falar, Mulder correra em direção às escadas, subindo-as aos pulos, tinha um mau pressentimento, chegando ao telhado ofegante, avistou a parceira apoiada no parapeito do terraço distraída, ficando aliviado por vê-la. Aproximou-se dela, posicionando-se ao seu lado. - Por que veio para cá, Scully? - Não se preocupe, Mulder, a dor dele não era minha - respondeu sem olhá-lo - Vim para cá por causa da paisagem, é muito linda a vista daqui, queria vê-la novamente antes de ir, não penso em me atirar daqui. A noite estava serena, calma, e o manto celeste salpicado de estrelas, uma brisa suave e muito fria soprava, brincando com os cabelos dos agentes. - Finalmente, ele descansou da dor, Mulder - não se voltou para ele. - Scully - começou meio hesitante. Como Mulder não continuava o que tinha a falar, Scully voltou-se para vê-lo, ele a fitava. - Não quero mais deixar passar as oportunidades. Ela ergueu as sobrancelhas sem compreender. - Scully, preciso que saiba o quanto você é importante na minha vida - aproximou-se mais dela - O quanto representa para mim como parceira, amiga e...mulher. E haja o que houver, eu estou aqui. - Eu sei, Mulder, você também é uma pessoa muito importante na minha vida - abraçou-o, beijando-lhe a face - Obrigada - sorriu, afastando-se do parapeito e do parceiro em direção à porta. Scully compreendera errado, ele não falava de amizade, não podia deixá-la partir sem dizer o que era preciso, Mulder apressou o passo, alcançando-a, segurando-lhe a pequenina e delicada mão, fazendo-a voltar- se para encará-lo. - O que foi, Mul... - virou-se, calando-se ao encontrar os olhos verdes do amigo. As palavras não eram necessárias. Olharam-se em silêncio, só a brisa noturna assobiava, Mulder passou delicadamente a ponta dos dedos pela face aveludada e pálida de Scully, depois com a outra mão, prendeu uma mecha ruiva atrás da orelha dela, antes que pudesse afastar a mão, ela apoiou a sua sobre a dele, ele escorregou a outra mão para trás no pescoço dela, trazendo-a gentilmente para mais perto, sentindo-lhe a respiração morna, aproximou o seu rosto do dela, sem desviar os olhos verdes dos azuis da amiga, seus lábios se tocaram num beijo cândido, fecharam os olhos se entregando àquele momento. O importante não havia sido dito, pois já não eram preciso palavras. 9 de Fevereiro de 2001 Fim