FAN FICTION AUTORA : Sky E-MAIL : selmasky@ig.com.br DISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo. CLASSIFICAÇÃO : Shipper/NC17 SINOPSE : Mulheres assassinadas fazem Mulder e Scully falarem sobre sexo. NOTA DA AUTORA : Pessoal, essa fic contém opiniões muito pessoais e eu não espero que todos concordem com meu ponto de vista. É apenas a minha forma de ver a vida, não tenho intenção alguma de criticar ninguém ou dar lições de moral, porque acho que cada um deve encontrar as próprias respostas dentro do que acreditam e mudar ou não segundo sua única e exclusiva vontade. Minha intenção, como escritora de fics NC17, é deixar clara a maneira como EU vejo o sexo.Acredito que, como qualquer coisa que possa viciar, deve ser praticado com responsabilidade. E agora chega de encher lingüiça. AGRADECIMENTOS : À minha querida amiga Késsia Nina que betou a fic pra mim, abrindo mão de sua preciosa hora de almoço. Obrigada Késsita, você é um anjo. OBSERVAÇÕES : Há algumas alusões a um livro ( Pequeno Príncipe ) que eu li faz alguns séculos, então me perdoem se citei algo que não corresponde exatamente ao texto original. Não esqueçam meu salário, por favor. Aguardo um Feedback com críticas, sugestões ou o que quiserem me dizer. VIDA NOVA Mulder estava deitado sobre o sofá, folheava uma revista, entediado. Um pacote de sementes de girassol estava jogado na mesa e ele apenas esticava o braço, levando-as até a boca e trincando-as nos dentes. Subitamente arremessou a revista a um canto e levantou-se, espalhando as cascas sobre o tapete. Foi até o banheiro e se despiu. Ligou o chuveiro e entrou sob a água gelada. Sua pele arrepiou-se, seus dentes se chocavam com o tremor provocado pelo frio, mas ele não parecia se importar. Desligou e saiu com o corpo molhado, a água escorrendo e encharcando o piso. Jogou-se sobre a cama, como estava, e fechou os olhos. Ele estava entediado, há alguns dias que não havia nada de novo para investigarem, seus casos estavam todos truncados, dependendo de respostas de análises da perícia, laudos de exames e, mesmo assim, nada que pudesse atrair a atenção daquela mente curiosa e sagaz. Ele e Scully estavam discutindo com mais freqüência. Mulder sabia que estava sendo um pouco irracional devido à inatividade, mas Scully não facilitava as coisas pra ele. Exigia sempre mais, cobrava-o sempre mais e ele estava exausto. Não queria discutir, mas toda vez que ela o fitava, quando ele parecia começar a se empolgar com algum caso, com aquela sobrancelha arqueada, a boca semi-aberta e a expressão de desdém ou irritação que ele tão bem conhecia, algo explodia dentro dele e, antes mesmo que ela dissesse algo, ele já se irritava. Pegou novamente uma revista na cabeceira da cama e pôs-se a folheá-la. Um desfile de mulheres nuas surgia sob seus olhos. Poses eróticas, expressões sensuais e ele começou a sentir calor. Porém, jogou a revista de lado. Aquilo não tinha a mesma graça de antigamente, queria mais. Pegou o telefone e discou o número da parceira. Uma voz sonolenta atendeu do outro lado. _ Scully ? _ Oi Mulder ! _ ela disse sentando-se no sofá _ O que houve ? _ Nada _ ele respondeu constrangido _ Estava dormindo ? Desculpe não queria te incomodar. _ Agora já incomodou _ ela brincou _ O que quer ? Mas o humor de Mulder estava péssimo, não era um bom dia para ironias e brincadeiras e ele se irritou. _ Parece que eu estou sempre te incomodando, não é Scully ? _ Estava brincando. O que há ? Pode me dizer. _ Nada, Scully _ ele respondeu irritado_ Volte pra sua cama. Mas você deveria ter coisas melhores pra fazer num sábado à noite do que dormir. _ Mulder, o ... Mas ele não a deixou terminar, desligou o telefone e voltou a caminhar pelo quarto. Parou em frente ao espelho e fitou o próprio corpo. Que diabos, sabia que não era mais um garoto. Que seus olhos não possuíam mais o brilho juvenil. Que suas feições não tinham o mesmo frescor da juventude, mas não era um homem feio. Julgava-se interessante e apresentável. Por que estar sozinho numa noite de sábado, enquanto poderia estar ao lado de um corpo quente, bonito e amoroso ? Pensou por alguns instantes. Não havia esse corpo. O único pelo qual ele aspirava, possuía, além de tudo, uma bela mente, racional ao extremo para se deixar levar por um instinto tão natural e humano. E, com ela, não poderia ser apenas um caso de troca de sensações, prazeres gratuitos e sem compromisso. Tomou novamente a revista entre as mãos e abriu-a ao acaso. Seus olhos foram atraídos para um anúncio. "JUST FOR PLEASURE – conheça nossas garotas, reviva suas fantasias, apenas por prazer." Mulder pegou o telefone e começou a discar o número. Parou no meio, desligando. Respirou fundo. Não era aquilo que preencheria sua vida, tinha certeza disso. Mas sentia-se sozinho, carente. Retomou o aparelho e apertou os números. Ao ouvir o chamado, desligou novamente. Aquilo não o satisfaria, não era o que tinha em mente sobre um relacionamento, mas que droga. Não era um relacionamento que ele queria. Isso ele já possuía de uma certa forma. Apenas faltava aquele complemento e ele não podia se privar disso. Era um homem, estava cansado de se sentir só quando a parceira se afastava para cuidar da própria vida e isso não o incluía. Não podia arriscar esse sentimento. Ela deveria tomar a iniciativa, caso contrário, ele poderia perdê-la de vez com seu arrebatamento. Discou o numero e esperou. Uma voz feminina, bastante sensual, atendeu ao chamado. _ Em que podemos ajuda-lo, senhor ? Tenho certeza de que temos exatamente o que o senhor procura. _ Eu... _ Mulder parou relutante _ Na verdade eu não sei bem o que eu quero _ respondeu sem jeito. _ É a primeira vez que se utiliza de um serviço desses ? _ ela riu compreensiva. _ Eu...há muito tempo que não faço isso...quer dizer...ligar...você compreende...mas... _ Está se sentindo só ? Quer companhia, mas não alguém permanente, com cobranças e olhos inchados pela manhã ? Que não irá cobrar o dinheiro do aluguel ou das despesas ? Que não pedirá lealdade e o impedirá de fazer o que tiver vontade ? Posso compreendê-lo, senhor, e ajudá-lo. _ É...mais ou menos isso _ ele procurou sorrir. _ O que você gostaria de encontrar numa ...mulher eu suponho ? Mulder não entendeu, a principio, e, então respondeu apressadamente. _ Sim, claro, uma mulher _ respondeu constrangido. _ Não se sinta constrangido, senhor. A satisfação de nossos clientes vem em primeiro lugar, não importam quais sejam suas preferências. _ Sim...não...uma mulher, com certeza e...olha...acho melhor esquecermos isso, ok ? _ Não gostaria de experimentar ? Tenho certeza de que irá gostar. _ Acho que não, eu...mulheres apenas bonitas não me atraem e.... _ Temos mulheres de todos os tipos trabalhando conosco. Basta me dizer... _ Sei... _ Diga-me do que gosta. Diga-me o que quer _ ela murmurava com voz sensual, incentivando-o a continuar. _ Eu...gosto de mulheres inteligentes...não necessariamente capas de revistas, mas... _ Alguém com quem sairia sem se envergonhar ? Nada chocante ou espalhafatoso, alguém como uma esposa ou uma colega de trabalho ? _ Uma colega de trabalho..._ Mulder murmurou sem pensar _ Compreendo...loira ? morena ? Mulder ainda tinha os pensamentos voltados para a pergunta anterior e seus lábios pronunciaram a frase sem pensar. _ Ruiva, inteligente, determinada e delicada _ completou para si mesmo. _ Poderia de me dar seu endereço ? Ou de algum lugar que queira encontrá-la ? _ Como ? _ Mulder voltou de seus devaneios _ Gostaria do encontro para hoje, não é ? Como gostaria de fazer ? _ Eu... _ Vamos lá, senhor, arrisque-se. Deixe acontecer _ ela o incentivava. Mulder respirou fundo, passou apenas seu segundo nome para a garota, junto com seu endereço e desligou ansioso. Voltou ao banheiro e tomou outro banho. Trocou os lençóis molhados de sua cama e tentou parecer tranqüilo. Voltou à sala e sentou- se no sofá, tentando distrair-se com a televisão, enquanto triturava as sementes nos dentes. APARTAMENTO DE SCULLY Scully desligou o telefone sem entender, tentou falar com Mulder novamente, mas o telefone estava ocupado. Pensou em ir até lá, mas desistiu. Talvez fosse o que Mulder esperasse que ela fizesse. Não iria entrar no jogo dele, também estava cansada e entediada, mas, nem por isso, descontava seu mau humor sobre ele. Bem...quer dizer...ultimamente vinha sentindo um prazer um tanto quanto mórbido em irritá-lo...Queria que ele reagisse, apenas para saírem da rotina, quebrar barreiras . Ela sorriu. Como se não fosse isso que eles fizessem o tempo todo. Esperou mais alguns minutos e voltou a ligar. _ Mulder ! _ ele respondeu prontamente _ Mulder, sou eu. _ Ah...oi...Scully _ ele respondeu hesitante. _ O que há ? Passou a crise de mau humor ? _ ela brincou. _ Eu...estou bem Scully. Pode ficar tranqüila. _ Estava pensando...não quer vir...até aqui ? _ ela perguntou tímida _ Poderíamos conversar, sei que está entediado com a falta de trabalho e... _ Não... não _ ele cortou rapidamente _ Eu estou ótimo e... _ Tem certeza ? Não quer que eu vá até aí e... _ Não... não... não Scully. Eu estou bem, é que ....quer dizer...eu vou sair e... _ Ah ! _ ela murmurou. _ Tudo bem então, nos vemos na segunda _ ela concluiu aborrecida. _ Sim, claro...segunda. Mulder desligou rapidamente. Estava mais tenso agora. Estacou no meio da sala e riu da situação. Parecia um adolescente. _ Calma, Mulder _ murmurou para si mesmo _ É só um encontro. Mulder assustou-se quando ouviu o toque na campainha, uma hora mais tarde. Levantou-se rapidamente e olhou pelo olho mágico. Afinal, sempre poderia fazer como se não tivesse ninguém em casa. Observou por um momento e prendeu a respiração. Por um instante achou que Scully estivesse parada em sua porta. Mas a impressão durou apenas um segundo, imediatamente identificou as diferenças e semelhanças. Abriu a porta e estudou os detalhes da mulher à sua frente. Quase tão alta quanto ele, ela trajava um vestido preto, justo sem parecer vulgar. O rosto estava levemente maquiado e seus olhos eram verdes e pequenos. Ela sorriu e ele perdeu o fôlego, lembrando-se das raras vezes em que vira a parceira sorrir e de como aquele sorriso se assemelhava ao dela. _ Vai me deixar entrar ? _ ela perguntou intrigada. Mulder afastou-se, fazendo um gesto que a convidava a entrar. Voltou- se para analisá-la novamente. Não parecia uma garota de programa. Se a visse na rua, talvez nem desviasse os olhos para admirá-la, apesar do corpo fantástico, ela parecia uma garota comum, atraente, sensual, mas de maneira alguma vulgar. Seus cabelos eram longos e cacheados e, a grande semelhança com Scully, ruivos e brilhantes. _ Oi _ ela disse, estendendo a mão _ Meu nome é Madeleine, Mad. Mulder estendeu a mão para ela e sorriu. _ William _ disse simplesmente _ Quer se sentar ? _ ofereceu. Ela sentou-se, deixando a bolsa sobre a mesa. Mulder foi até a cozinha, mas só havia cerveja na geladeira. Seus armários estavam vazios. Respirou fundo, pegou as garrafas, acalmou-se e voltou à sala. _ Desculpe _ começou _ Não tenho nada melhor pra oferecer. Acho que isso justifica sua presença aqui...quer dizer...não tenho ninguém que se preocupe com isso e... bom... _ Tudo bem, William. Soube que você gosta de conversar. Sente-se aqui. Mulder sentou-se ao lado dela. Não conseguia fitá-la diretamente. Ela lembrava-lhe muito a parceira e ele acreditava ver o olhar recriminador de Scully sobre ele. _ Nunca pediu por um serviço desses ? _ ela começou , aceitando a cerveja que ele lhe oferecia. _ Na verdade não faço isso há algum tempo. Meu trabalho me consome. _ E não há ninguém ? _ ela começou _ Ou melhor...desculpe a pergunta...Não sei se quer falar sobre assuntos pessoais e... _ Não tem problema _ ele sorriu _ Não há nada de muito pessoal em minha vida. Eu quase não tenho uma vida pessoal _ completou. _ Isso parece estranho. _ Este é meu sobrenome...Estranho. Ela mudou de expressão. Mulder notou que ela torceu as mãos nervosamente e desviou os olhos. _ Algum problema ? _ perguntou, tocando-lhe a mão. _ Não eu... _ ela começo hesitante, fugindo ao contato. _ Não precisamos fazer nada que você não queira _ Mulder apressou-se em dizer, vendo o olhar assustado dela. _ Você me está pagando pra isso. É só que..._ ela suspirou _ Não gosto de homens estranhos. Eles costumam ser...violentos. Mulder compreendeu. _ Não pense isso, não sou estranho dessa forma. Apenas...solitário demais, eu diria. Você não é exatamente....experiente nisso também, não é ? _ Engano seu...Convivo com isso há muito tempo _ ela contou _ Mas deixemos isso de lado _ ela cortou aproximando-se dele e passando a mão pelos seus cabelos_ O que gostaria de fazer ? Mulder finalmente olhou-a nos olhos. Parecia uma mulher frágil, inteligente e bonita e, por um instante, se perguntou porque ela escolhera aquela vida. Mas não teve muito tempo para divagações. Ela estava muito próxima, oferecendo os lábios que ele tomou serenamente. Mulder entregou-se às sensações. Ela era quente, macia, bastante experiente e ele deixou os questionamentos de lado. Levou-a para a cama nos braços e apenas se permitiu sentir. Era uma sensação diferente, não exatamente ruim, mas também não era algo especial. Não havia nenhum comprometimento, cobranças de aluguel, cenas de ciúme, porém, também não havia cumplicidade, nenhuma afinidade que não a dos corpos e ele sentiu-se satisfeito fisicamente, mas mais sozinho por dentro. Mad estava nua, deitada sobre seu peito e ele a acariciou, sorrindo. Fechou os olhos e continuou tecendo desenhos no corpo dela até que adormeceu. Acordou quando ouviu barulhos no banheiro, ela não estava mais na cama. Sentou-se e observou-a entrar novamente no quarto. Acabara de tomar banho. _ Tenho que ir _ ela murmurou _ Preciso voltar pra casa. _ Precisa ir a essa hora ? _ ele perguntou, mirando o relógio que marcava 2 horas da manhã _ Você tem alguém te esperando ? _ Não exatamente _ ela respondeu evasiva_ Mas preciso ir. _ É tarde para sair sozinha. Eu te levo _ ele ofereceu, fazendo menção de levantar-se, mas ela o impediu. _ Não _ Mad falou estendendo o braço em sinal de advertência _ Não é preciso. Já chamei um táxi. Mulder observou-a, enquanto ela movimentava-se pelo quarto, buscando suas roupas. _ Porque faz isso ? _ ele interrogou, mais preocupado em satisfazer sua curiosidade do que em ser gentil. _ Não devia fazer essas perguntas. _ ela cortou, vestindo a meia de seda _ É um homem inteligente, William, a maioria só pergunta por delicadeza. Raramente estão interessados na resposta. Não precisa fazer isso. _ Delicadeza não é o meu forte. Se perguntei, é porque estou interessado em saber. Faz parte do meu trabalho. _ E o que você faz ? _ Sou psicólogo _ ele contou, esboçando um sorriso. Raramente usava esse título, mas considerou que se apresentar como agente do FBI daria margens a desconfiança por parte da mulher e estava interessado em saber o que levava uma jovem a optar por uma vida daquelas. _ Psicólogo..._ ela o fitava pensativa _ Inteligente...extremamente sensual...ótimo amante....Realmente você é estranho. Não sei como pode estar sozinho. _ Você enumerou somente as qualidades. _ É pra isso que está me pagando, não é ? _ ela respondeu dando fim à conversa. Mulder sentiu o peso daquelas palavras. _ É isso aí _ pensou _ Tempo esgotado, pague o preço. Sentiu-se mal com a situação. Levantou-se, mas sua nudez , em frente àquela mulher completamente desconhecida o intimidou . Puxou o lençol sobre o corpo e foi até a sala. Puxou as notas da carteira e entregou a ela. Mad terminou de se vestir. Mulder aproximou-se e ajudou-a a fechar o zíper do vestido. Ela parou na porta um segundo, voltou-se para ele e sorriu. _ Se houvesse mais homens como você...se eu tivesse escolhido outro caminho...acredite...estar aqui, teria sido um gesto completamente voluntário, sem qualquer pagamento. Dizendo isso, ela abriu a porta e saiu, deixando Mulder com olhar perdido, para trás. Ele voltou ao quarto, tomou um banho e deitou-se novamente, mas ficou remexendo-se até que o dia clareou, então, vestiu um moletom e saiu para correr. APARTAMENTO DE SCULLY Scully ouviu as batidas na porta e sorriu. Já sabia quem era. _ Bom dia, Mulder _ ela falou ao abrir. _ Oi, Scully. Queria saber se não está a fim de um passeio ao ar livre. _ Passeio ao ar livre ? _ É _ ele continuou, entrando _ Poderíamos andar um pouco e almoçar no parque. O que acha ? _ Não sei eu... _ Ora, vamos lá, Scully _ ele parou com ar de dúvida _ A menos que já tenha algum compromisso... _ Não, nenhum, é só que... _ Vá lá dentro e peque um agasalho _ disse segurando-a pelos ombros e conduzindo-a ao quarto. _ Ok _ ela sorriu, estranhando a atitude dele. Saíram para a rua, caminharam até chegar ao parque. O dia estava agradável, o clima ameno. Não era bem um exercício que eles estavam fazendo, apenas caminhavam e conversavam, desfrutando da companhia um do outro e somente isso era o bastante. Almoçaram no parque, sob os protestos de Scully. _ Você chama isso de almoço, Mulder ? _ ela perguntava, olhando desgostosa para um cachorro quente. Mulder virou-se para ela, os olhos brilhando. Em seus pensamentos chegavam mensagens transmitidas por seu coração que se sentia aquecido ao lado daquela mulher. Independente de qualquer cobrança, reclamação, problemas, ou seja lá o que fosse que comporia uma vida a dois, estar com ela era um prazer do qual ele jamais gostaria de privar- se. Ele acreditava conhecer cada detalhe daquela personalidade pela qual se sentia envolvido e sorriu em resposta. _ Isso é tão você, Scully ! _ ele respondeu, passando o braço sobre os ombros dela e afastando-se da banca _ Isso não vai alterar o seu peso. Acredite em mim, essas calorias não vão interferir, você está ótima, não vai engordar . Ela suspirou e sentou-se ao lado dele para comer o sanduíche. Passaram o dia juntos como há muito não faziam. Mulder havia esquecido a noite com a garota de programas, a sensação de vazio não o incomodava mais. Pensava em como era bom e, ao mesmo tempo, assustador sentir mais prazer, mais calor em uma tarde no parque com a parceira, sem qualquer conotação física, do que com a mulher que compartilhara do seu leito na noite anterior. Sentia-se tranqüilo, quase feliz. Scully voltou para casa no final da tarde. Ainda teria que visitar sua mãe. Pensou em desmarcar para continuar ao lado de Mulder, naquela cálida intimidade, mas não podia fazer isso com sua família. Há mais de um mês que não os via. _ Quer vir comigo, Mulder ? _ convidou quando chegaram ao apartamento dela. _ Não Scully. Tenho algumas coisas pra fazer e sei que seu irmão não seria muito amistoso se eu fosse. Mas dê lembranças à sua mãe, por mim. _ Ok _ Ela respondeu meio triste. Mulder não tinha nada a fazer, mas não queria atrapalhar o momento de paz familiar da parceira. Voltou para casa e passou o resto do dia perdido em divagações, sobretudo em relação à sua amizade com Scully. SEDE DO FBI Skinner passava instruções à equipe reunida em torno de sua mesa. _ Agente Mulder, sei que isso não faz parte dos Arquivos X, mas precisamos da ajuda de vocês dois nesse caso. Até agora não conseguimos qualquer informação sobre o assassino. _ O que precisa ,senhor ? _ Gostaria que analisasse o caso e traçasse o perfil do suspeito. E você, Agente Scully, poderia fazer a autópsia do último corpo encontrado. _ Sobre o que estamos falando ? _ Mulder interrompeu, folheando a pasta com fotos e informações do caso. _ Basicamente não há correlação entre as vítimas. São todas mulheres, estudantes, entre 16 e 25 anos, bonitas, sem problemas familiares de relevância, que foram encontradas mortas em locais diferentes, de maneiras diferentes. _ Há alguma suspeita ? _ Scully perguntou. _ As famílias estão chocadas e, talvez daí, a reserva que mantém. Desconfiamos que essas garotas tenham algum tipo de trabalho...diferente... _ Garotas de programa ? _ Scully perguntou, quase certa da resposta. Mulder sobressaltou-se com a alusão. A imagem da bela mulher ruiva voltando a mente. _ Talvez...não é certo. O fato é que as mortes parecem ter ocorrido durante a madrugada. Bom...as informações estão aí. Vejam o que conseguem descobrir. Eles voltaram ao porão. Mulder estava calado e Scully imaginava saber o motivo disso. _ Algum problema, Mulder ? _ Não _ ele respondeu apressado. _ Olha _ ela disse, tocando-lhe o braço e obrigando-o a fitá- la _ Sei que isso não é um Arquivo X e que está entediado, mas temos que cooperar. _ Não é isso _ ele cortou, abrindo a pasta e retirando as fotos das garotas mortas _ Acha que sejam garotas de programa ? São tão novas e...bonitas. Acha que precisam disso ? _ Nem sempre o dinheiro é a motivação, Mulder. Às vezes, eu acho que nem elas mesmas sabem o porquê de escolherem esse caminho. O apelo sexual é muito forte em nossa sociedade. _ Mas elas poderiam sair com quem quisessem. Por que vender algo que elas poderiam ter e receber sem isso? _ Talvez estejam em busca de um sonho. Esperando encontrar nesse trabalho, alguém que as salve da escolha que elas inadvertidamente fizeram. Talvez achem estimulante ou excitante esse tipo de vida. Talvez isso lhes dê uma falsa sensação de poder, de comando, de distanciamento. Nós vivemos num mundo onde as pessoas procuram por prazeres cada vez maiores, sem ter que fazer disso um compromisso. Talvez isso evite que elas se envolvam. _ E qual o problema em se envolver ? _ Não sei ao certo _ ela começava a incomodar-se com aqueles questionamentos. Aquele era um terreno do qual ela não tinha muito conhecimento, ou melhor, um terreno no qual ela temia entrar _ Envolvimento nos torna vulneráveis. Requer responsabilidade, Mulder. Nos tornamos responsáveis por aqueles que nos amam e a quem amamos. _ Antoine Saint Exupéry _ ele completou _ Há algo mais verdadeiro ? _ Todos nós temos medo de parecer frágeis ou dependentes. Eu sei disso Scully _ ele disse, lançando um olhar significativo pra ela _ Mas o que não entendo é porque se vender assim ? O custo pessoal é muito elevado. _ Na cabeça delas talvez não vejam assim. Talvez comecem por curiosidade, ludibriadas pela busca de emoções fortes, por desafio, com a idéia de se rebelar e, quando percebem, estão envolvidas demais para sair. _ E tudo acaba voltando à questão de envolvimento... _ Nós escolhemos com o que queremos nos envolver _ ela sorriu, ante o olhar desamparado do parceiro, em busca de respostas _ Venha _ ela disse pegando a pasta da mesa e dirigindo-se para a porta _ Vou lhe mostrar a face dura do mundo, Pequeno Príncipe. _ Acho que sentirei saudades do meu baobá _ ele completou resignado. Mulder seguiu para a casa das vítimas, enquanto Scully ia ao necrotério fazer as autópsias. Algumas horas depois, Mulder entrou na sala onde Scully estava examinando um dos corpos. Fitou o semblante gélido sobre a mesa, apenas uma sombra do que deveria ter sido uma bela garota de vinte anos. Sentiu-se mal. _ Descobriu alguma coisa, Mulder ? _ Scully perguntou, vendo o ar perturbado dele. _ Nada de relevante, eu...Scully, acho que não sou a pessoa indicada para fazer essas perguntas. As mães dessas garotas estão chocadas, parecem meio envergonhadas de algo e eu suponho que seja em relação ao que as filhas faziam. Não consegui com que se abrissem. Acho que viam em mim..._ ele suspirou _ um dos responsáveis pela morte delas _ ele concluiu pesaroso. _ Acha que eu devia falar com elas ? _ Acho que seria mais produtivo. Ela assentiu com a cabeça . _ Conseguiu alguma coisa ? _ Não muito. As garotas foram esfaqueadas no peito. Um só golpe. Não há outras lesões. Sinais de luta ou coisa parecida, mas...achei mais um ponto em comum em todas elas. _ O quê ? _ Mulder perguntou interessado. _ Elas estão completamente limpas. É como se tivessem sido desinfetadas. Todas elas foram encontradas com roupas brancas, sem maquiagem ou adereço. Quem quer que tenha feito isso, fez o possível para não deixar qualquer pista. _ Isso elimina a possibilidade de terem sido mortas pelo cliente ? _ Não , significa que elas não morreram durante ou após um ato sexual. Mesmo que as tivessem lavado totalmente, haveria traços de esperma, ou resquícios de algum preservativo, em seus corpos, de um ato recente. A menos que o trabalho esteja sendo feito por algum profissional, em alguma clinica ou algo assim. Mas podem ter sido seguidas por alguém e então atacadas. _ Acha que pode ser algum fanático moralista ? O branco e a limpeza, talvez estivesse querendo purificá-las... _ Veja Mulder, não sabemos se elas realmente vendiam seus corpos. Precisamos descobrir isso, senão pode ser que os crimes não tenham qualquer ligação um com o outro e, então, podemos ter vários assassinos. Os agentes chegaram à casa de uma das vítimas. A mãe os atendeu relutante, não queria falar sobre o assunto. _ Senhora, precisamos de sua ajuda para punir o responsável pela perda de sua filha _ Mulder argumentava cauteloso. A mulher lançou um olhar magoado para ele. _ Todos são responsáveis. A televisão, os filmes _ respondeu rispidamente _ Todos vocês. _ O que quer dizer, senhora ? _ Scully interrompeu. _ Homens _ ela cuspiu _ Homens que só pensam em si mesmos. Por que acha que minha filha entrou nessa vida ? Mulder levantou-se e seu celular tocou. Ele aproveitou a oportunidade para se afastar, enquanto Scully falava com a mulher. Quando voltou, chamou a parceira de lado. _ Temos que ir. Parece que há uma vítima no hospital. Uma garota foi encontrada há pouco. Eles se despediram e voltaram para o carro. _ O que ela disse, Scully ? _ A filha fazia programas. Ela está muito abalada. Culpa todo mundo e a si mesma, por não ter percebido antes. Ela estranhava o fato de a filha, sem trabalhar, estar sempre fazendo compras e gastando muito. A garota alegava que era o pai, do qual a mãe estava separada, quem lhe financiava. Após a morte ela descobriu a verdade sem querer. Viu a agenda da filha. Uma espécie de diário. Ela me deu, junto com o cartão do "agente" que a contratava. Mas Scully não teve tempo de mostrá-lo a Mulder. Eles chegavam ao hospital. A garota estava em estado grave, dormindo sob o efeito de sedativos. Foram até o quarto e estacaram impressionados com o que viram. Ela possuía vários hematomas pelos braços, pescoço e rosto. Scully pegou o relatório médico. Mas Mulder não prestava atenção em mais nada, reconheceu os cabelos longos espalhados sobre o lençol, o rosto pequeno, agora coberto de marcas de espancamento e recuou um passo. _ Madaleine Storwm , 25 anos, solteira. Ela tem escoriações por todo o corpo, mas, seu estado, pelo menos o físico, é estável _ ela suspirou _ Que quadro assustador, Mulder _ ela concluiu fitando a garota _ O que leva um ser humano a agir dessa forma ? Mulder saiu do quarto sem falar nada. Estava transtornado, mas fazia o possível para que a parceira não percebesse o real motivo de seu estado. O policial, do lado de fora, informou que a encontraram na rua. Deu-lhes os pertences dela e eles descobriram , na agenda, o último nome e endereço anotados. Mulder sentiu o sangue fugir das faces. Provavelmente, ele também estaria naquela agenda. Chegaram ao hotel indicado. Após muita pressão, descobriram o quarto onde ela havia ido, mas o homem não estava mais hospedado ali. Fora apenas uma noite. Eles revistaram o quarto, mas ele já havia sido limpo e os funcionários interrogados, afirmaram não notar qualquer desordem fora do comum no quarto, assim como não foi registrado qualquer incidente ou barulho que chamasse a atenção. Scully teve alguma dificuldade em convencer Mulder a deixar que um carro policial fosse buscar o homem. Ela não estava tranqüila com a maneira que o parceiro via tudo aquilo e, na verdade, ela também não estava gostando de se envolver naquele caso. Havia muita degradação no meio de tudo. Voltaram ao hospital, para falar com os médicos. Precisavam saber quais as condições da garota e quando ela poderia identificar o homem. Já que o nome na agenda não significava que ele era o responsável pela agressão. Ao abrirem a porta do quarto, depararam com a garota acordada. Seus olhos fitaram os dois e se arregalaram ao fixar Mulder. Mas ela pareceu compreender imediatamente a situação ao examinar a mulher ao lado dele. Os cabelos vermelhos, o porte delicado, sem dúvida alguma, muito inteligente. Suspirou e permaneceu quieta. _ Madeleine, como está se sentindo ? _ Scully perguntou delicadamente. A garota apenas fitou-a, com os olhos marejados e Scully se aproximou mais. _ Olha, não se preocupe, tudo vai acabar bem. Você irá superar isso. Tente se acalmar _ continuou sentando-se ao lado dela, escolhendo as palavras que usaria _ Precisamos de sua ajuda .Precisamos que identifique a pessoa que te agrediu. Acha que pode fazer isso ? Ela negou com a cabeça. _ Já sabemos onde esteve Madeleine e porque. Não há o que temer. Precisamos punir o responsável. Saber se foi o mesmo homem com quem você saiu. Ela continuou negando. Scully lançou um pedido de socorro a Mulder com o olhar. Mulder alternava sua atenção para a garota machucada sobre o leito e a parceira ao lado dela. Milhões de pensamentos tumultuavam sua mente. Diante dele, duas mulheres tão parecidas e tão diferentes e distantes uma da outra, visões completamente diferentes de encarar o mundo. Uma se entregava à racionalidade da mesma forma que a outra às sensações. Ambas evitavam envolver-se emocionalmente, mas de formas totalmente diversas. Ele aproximou-se da cama. Fitou a mulher por alguns instantes, sentou- se ao lado dela e segurou-lhe a mão. _ Mad _ ele respirou fundo _ Precisa nos ajudar. Quem quer que tenha feito isso merece ser punido. As lágrimas corriam abundantes pela face desfigurada da mulher. _ Não imaginava que pudesse terminar assim _ ela murmurou _ Não era o que eu tinha em mente. _ Eu sei _ ele concordou, afastando o cabelo dela do rosto, num gesto terno _ Mas precisamos que o identifique _ ele continuou_ Sei que isso não é o bastante para resolver seu problema, mas ao menos, ele não irá prejudicar mais ninguém. Por favor, apenas olhe a foto. Ela assentiu e Mulder mostrou a foto, que ela pegou, para desabar num choro convulsivo. Scully fitava a cena intrigada. Não podia negar que a atitude incomum do parceiro, havia ajudado a garota a cooperar, mas essa não era a forma usual de ele agir. Sempre fora gentil no trato com as vítimas, costumava abraçar a dor delas como a dele próprio, porém, no caso daquela garota, ele havia ido um pouco além. Era mais do que interesse e envolvimento, ele se comovera com ela e, o que era realmente incomum, demonstrara isso. Mulder continuou ao lado dela, segurando-lhe a mão, evitando o olhar da parceira. Após se acalmar, Mad devolveu a foto para ele, confirmando com a cabeça. _ Nós voltamos depois. Descanse _ ele concluiu, levantando- se, mas ela reteve sua mão. _ Obrigada _ murmurou em voz baixa _ Estranho. O celular de Scully tocou. O suspeito já estava na delegacia. Eles foram até lá. Havia um policial interrogando o homem alto e musculoso. Ele parecia indignado, dizia não saber do que estavam falando, gesticulava e gritava. Enquanto Scully falava com o delegado, mostrando-lhe a agenda da moça com o endereço do suspeito. Mulder entrou na sala. Jogou a foto no rosto dele. Falou que a mulher o reconhecera. _ Que espécie de animal é você ? _ Mulder berrava. O homem permaneceu em silêncio, olhando a foto. _ Porque machucar assim alguém tão frágil ? O que ela te fez ? _ Mulder estava indignado com a aparente calma do sujeito. Ele fitou Mulder com olhar malicioso. Seus lábios se abriram num sorriso cínico. _ Tenho certeza de que você sabe o que uma garota dessas pode oferecer _ ele riu com gosto _ Para o trivial temos nossas mulheres. Pra isso pagamos por esse serviço. Para que elas façam o não tradicional. Mulder sentiu a sala escurecer-se sob seus olhos. Apenas a figura do homem mantinha-se presa à sua retina e ele não pensou duas vezes. Pulou sobre a mesa e o homem se surpreendeu com o soco no rosto que o arremessou ao chão e, logo em seguida, sentiu-se elevado para receber outros golpes. Mal teve tempo de reagir e foi jogado ao chão de novo. Os policiais entraram na sala, mas parecia impossível conter a ira de Mulder. Mas uma voz ecoou na sala, apenas uma palavra foi suficiente para trazer Mulder de volta à realidade e ouvi-la fazia-o sentir-se ainda mais culpado. _ Mulder ! _ Scully dizia no limiar da porta. Ele parou o ataque imediatamente. Retesou os músculos. Ficou ereto. Seus olhos pairando no ar, para encontrar com os dela. Saiu sem dizer nada, passando pela parceira como um raio. Scully o seguiu. Mulder entrou em outra sala. Pelo vidro de proteção podia ouvir os gritos do homem, enquanto os policiais o colocavam em pé. Scully entrou, fechando a porta. _ O que foi aquilo, Mulder ? _ ela perguntou ríspida. _ Ele é um animal _ ele murmurou entre dentes. _ Há algo mais do que isso Mulder. Você está agindo de maneira estranha. Primeiro a forma como tratou a garota e agora isso. _ Você viu o estado em que ele a deixou ? _ Mulder virou-se para fitá- la. _ Não minta pra mim, Mulder. Não é por isso que está agindo assim _ ela parou para respirar profundamente, antes de voltar a fitá-lo _ Você a conhecia ? _ ela perguntou, tentando ocultar o tremor da voz. Mulder permaneceu de cabeça baixa, sem coragem de encará-la, virou-se , encostando a testa na parede fria. Percebeu a aproximação da parceira e queria apenas sentir o toque gentil das mãos dela em suas costas, afirmando, pra ele, que tudo seria resolvido, que tudo daria certo, mas não foi o que ela fez. Ouviu um baque e voltou-se para olhar a agenda de Mad sobre a mesa. Não era preciso ler para saber o que estava na página aberta. A contragosto , fitou a parceira que exibia uma expressão indefinida, algo que ele identificou como mágoa, decepção, raiva, ele não sabia ao certo. _ Queria acreditar que não era isso_ ela suspirou _ Devido ao caráter pessoal que essa investigação tomou, Mulder _ Scully sentenciou em voz baixa e sem emoção _ Você deve se afastar do caso. _ Não ! _ ele quase gritou. _ Não ? _ ela interrompeu, aproximando-se dele _ Como não ? Você não tem opção Mulder. Está envolvido com a vitima e levando isso para o lado pessoal, se continuar, vai invalidar a investigação e ainda ganhar um processo. _ Scully , ouça-me _ Mulder segurou-a pelos ombros _ Eu não estou envolvido com a vítima, nós... _ Não está ? Seu nome está na agenda dela, William _ ela falou com sarcasmo _ E o seu endereço também. Todos os que estão ali a conheciam, ela foi encontrar-se com esse homem, logo após sair com você ! Como provar que não foi você quem fez isso a ela ? Mulder sentiu o golpe daquelas palavras e recuou um passo surpreso. _ Não pode acreditar que... _ Não eu, Mulder. O advogado dele, a polícia. A minha opinião é irrelevante aqui. _ É a única que importa pra mim, Scully. Não pode me afastar. Ela o reconheceu e ele admitiu que é culpado. _ Admitiu ? _ ela cortou exasperada _ Você viu o que você fez ? Agora ele poderá alegar o que quiser. Não podemos retê-lo aqui, até que ela possa fazer a identificação pessoalmente. É a palavra dela contra a dele. Quando eles saíram do hotel não havia acontecido nada. Não podemos prendê-lo baseados numa confissão conseguida dessa forma ! Quando o advogado dele tiver conhecimento dessa agenda e de que foi da casa do homem que a interrogou para denunciar o seu cliente que ela saiu. O que acha que vai alegar ? _ E se ele for o assassino das outras garotas ? _ Não é ele, Mulder. Nenhuma das outras vítimas foi espancada. Não vê ? Você está confundindo tudo. _ Scully _ Mulder respirou fundo _ Eu sei que fui um idiota, mas não me afaste do caso. Você também está personalizando isso. Está com raiva de mim e... _ Raiva de você ? A única coisa que me enfurece é a sua estupidez. _ A garota pode reconhecê-lo, Scully. Talvez eu sofra um processo por agressão, eu concordo. Mas isso não vai afetar o caso. Ela caminhou pela sala, passando a mão pelos cabelos antes de sentenciar com voz seca. _ Faça como quiser. Vou voltar ao Bureau, não há mais nada pra eu fazer aqui. Pra mim, esse caso já está resolvido. Virou as costas e saiu, deixando Mulder desolado para trás. Ela voltou ao FBI, após receber os laudos dos exames toxicológicos das vítimas. Havia traços de algum tranqüilizante no sangue delas. Quando chegou ao porão, Mulder já estava lá . _ O que aconteceu ? _ Mulder interrogou assim que ela entrou _ Onde estava ? _ Trabalhando _ Ela respondeu com ironia _ Recebi o resultado dos exames toxicológicos. Acho que elas foram drogadas antes de morrer. Mulder tomou os resultados que ela lhe estendia. Buscou-lhe o olhar, mas ela o evitou, aparentando indiferença. _ Scully, eu... _ Estou cansada, Mulder _ ela cortou _ Quero ir para casa. Skinner está cobrando o perfil do assassino. Trabalhe nisso. Amanhã nos falamos. Scully chegou em casa amargurada. Sabia que estava sendo irracional. Que Mulder não lhe devia satisfações de sua vida pessoal. De certa forma, era confortante saber que ele havia pedido os serviços de uma garota de programa, significava que ele não tinha ninguém em especial, mesmo assim, estava magoada. Claro que ele não se abriria com ela sobre aquele assunto, mas sabia o peso que a solidão tinha, às vezes. Por que não procurara por ela ? Por isso a havia dispensado na noite anterior, mas...porque correr atrás dela no dia seguinte ? Talvez ela realmente não passasse de parceira para quem ele corria quando precisava de algo. Não, Mulder tinha razão, ela estava furiosa com ele, Mulder era seu amigo, seu único amigo. Ela também se sentia solitária, mas apenas quando não estavam juntos. O prolongamento das horas de trabalho, não era exatamente, um peso. Ao contrário, livrava- a de se sentir sozinha a maior parte do tempo. Compartilhar da companhia do parceiro, seja trabalhando, discutindo ou passando o tempo, era algo do qual ela não podia prescindir. Era aconchegante, excitante e ela sentia ter que voltar para casa. Naquela noite, seu apartamento parecia ainda maior, mais frio e escuro. Mas não se sentia à vontade para procurá-lo. Sentou-se no sofá e permaneceu quieta, deixando a cabeça pender nos ombros, após uma hora, ela adormeceu naquela posição. O som do telefone trouxe-a de volta à realidade. _ Scully ? _ Mulder falou assim que ouviu a voz dela. _ Já é tarde Mulder _ ela resmungou. _ Eu sei, mas...Scully...eu...preciso de sua ajuda _ Minha ajuda ? _ ela repetiu. _ Não estou com cabeça pra fazer isso sozinho, não consigo dormir e tenho um monte de perguntas para as quais não encontro resposta. _ Não sei se posso ajudá-lo, Mulder. _ Por favor ... _ Não quero mais sair, hoje _ Eu vou até aí ...posso ? Por favor ? Ela suspirou e sentiu um certo contentamento com aquele pedido, embora não admitisse. Aquele era o seu garoto. Sabia exatamente como agir para convencê-la. Sabia que adotar essa atitude carente e frágil funcionaria melhor agora do que exigir e discutir. Mas, por que negar ? Ela estava ansiosa para vê-lo. _ Scully ? _ Mulder chamou-a novamente. _ Está bem, Mul... A campainha tocou e ela franziu a testa. Sacudiu a cabeça quando viu quem era. _ O que eu faço com você, Mulder ? _ disse sorrindo e convidando-o a entrar. _ Tem alguma coisa pra comer ? _ ele perguntou _ Vai ser uma longa noite. _ Não espera que eu vá cozinhar pra você, não é Mulder ? _ ela falou, sentando-se ao lado dele que espalhava as pastas sobre a mesa. _ Não _ ele falou com ar solene e triunfante _ Tenho meu próprio alimento _ concluiu, tirando um pacote de sementes do bolso. _ Ainda não entendi qual a sua fixação nisso _ Fetiche _ ele respondeu com ironia_ Eu acredito que, enquanto você e as sementes de girassol existirem , eu estarei a salvo. _ Não tente me comprar, Mulder _ ela interrompeu _ Ainda estou furiosa com você Mas não era verdade, estava curiosa, queria saber porque ele correra para a casa dela após dormir com aquela mulher. Porque fazia tanta questão de lhe dar satisfações e insistir em saber o que ela estava pensando dele e... Esqueça Scully ! _ ela se repreendeu _ Ele está aqui porque confia em você, apenas isso. _ O que acha sobre esse caso ? _ ela mudou o rumo da conversa. _ Acho que estamos lidando com um maníaco comum... _ Desde quando um maníaco é comum ? _ Eu quero dizer que é uma pessoa perturbada. Provavelmente com problemas para se relacionar com as pessoas, vive sozinho, sente-se incompreendido, mas acha-se atraente. Talvez tenha alguma compulsão ou mania... Scully o fitava atentamente, seus olhos possuíam um brilho de divertimento e Mulder parou de falar, percebendo o que ela estava pensando. _ Acho que esse poderia ser eu, não é ? _ ele falou sério. Ela pensou por alguns instantes. _ Não _ ela concluiu convicta _ Você jamais machucaria uma pessoa deliberadamente. Alguém que não tivesse te machucado... _ Scully, quanto a Mad... _ Você não me deve explicações Mulder. É livre para fazer o que quiser. _ Mas eu gostaria de dá-las a você. É importante pra mim _ ele confidenciou, sentindo-se bem em poder se abrir realmente com ela, precisava disso_ Eu me sinto só, às vezes, quando não estamos trabalhando, juntos, minha vida tem sido bastante vazia. E eu sinto necessidade de ter alguém perto de mim. Nós não somos mais crianças Scully. _ Eu sei _ ela murmurou. _ Nosso trabalho não permite que possamos nos envolver com outras pessoas. Ele já é arriscado demais para nós mesmos e...eu ...não quero ninguém entre nós. Foi apenas físico. Só que quando a vi, naquele estado... _ Imagino como se sente e...Deve ter sido horrível para ela, Mulder. Só de imaginar que a cada dia aumenta mais o número de pessoas que fazem o mesmo... _ Nossa sociedade contribui para isso, Scully. Você tem razão quando diz que ninguém quer envolvimento. Foi o que eu fiz, não pensei na parte moral da estória. Estava carente, contratei um serviço e paguei por ele. Simples, prático, limpo. Agora eu sei que não é assim. Antes mesmo de ver aquela garota no hospital eu já me questionava sobre a validade de um encontro desses. _ Acho que essas garotas estão iludidas, quer dizer, não há nada mais falso do que acreditar num final feliz para um caminho desses. A maioria perde a ilusão como Madeleine. Acho que só então elas percebem que a única que conseguiu foi a Julia Roberts, mas que aquilo era um filme. A realidade é bem mais dolorosa. Vemos garotas mal saídas da puberdade entregando-se a jogos de sedução e conquista para as quais elas nem sabem se estão preparadas. Há pais tão despreparados como os filhos que eles geraram, crianças concebendo outras. Buscamos tanto a independência sexual e agora estamos nos tornando escravos dela. Não há tempo para a descoberta, o aprofundamento de um relacionamento, tudo é vulgarizado e vendido nas prateleiras como uma mercadoria, apenas revestidas de um verniz de liberdade. Mas que liberdade é essa que exige que nos tornemos superficiais ? _ Tem razão. Trocamos o prazer de amar, pelo prazer fazer sexo. Eu me senti mais sozinho depois e essa sensação só passou quando passamos o dia juntos e...no fundo, é triste ter que pagar alguém pra estar conosco. _ Mulder, não tome o que eu falei como critica à sua conduta. Eu falo de todos nós. O que você fez não é mais condenável do que qualquer um faria. Apenas que, quando vemos casos como os de Madeleine e dessas garotas mortas, parece que despertamos para a realidade. As pessoas se expondo por tão pouco. Tentando desesperadamente encontrar numa cama as respostas para sua vida solitária, sem sentido. Vemos a violência ser democratizada em todos os lugares, sexo vulgarizado e televisionado. Crianças sendo maculadas, em alguns países sendo vendidas como parte de um pacote turístico, muitas vezes, pelos próprios pais. _ Não podemos responsabilizar a televisão e a comunicação pela educação de nossos filhos. Se eles procuram respostas fora, talvez é porque não a recebem dentro de casa, se a informação é deturpada ou romanceada, cabe aos pais, à família, esclarecê-los. Mas hoje, ninguém tem tempo. Talvez nós sejamos mais culpados, Scully. Nós que utilizamos esses serviços, que procuramos por eles. Quem é realmente mais condenável : as pessoas que se vendem ou aqueles que pagam por elas ? Quantos clientes não pertencem a países civilizados ? Não permitimos que nossas crianças passem por isso, condenamos e executamos a sentença sem receios. Mas não nos envergonhamos de satisfazer nossas fantasias bizarras com aqueles que se prestam a oferecê-las. _ É por isso que me sinto tão mal trabalhando nisso. Acho que enfrentar aliens, mutantes e essas coisas é mais fácil do que lidar com algo assim. _ Sei como se sente, Scully. Mas nem tudo é assim. Não há nada de mal, feio ou sujo em ir para a cama com alguém. O que está se perdendo é a razão pela qual fazemos isso. _ É sobre isso que eu estou falando, Mulder. E, sinceramente, sinto muito não poder fazer nada por essas garotas. _ Mas nós temos a chance de fazer algo. Não vamos resolver o problema, mas podemos ao menos, encontrar os responsáveis nesses casos. Mulder ficou em silêncio por alguns instantes. _ Voltei à delegacia_ ele começou, voltando a fitá-la _ O homem foi obrigado a confessar a agressão. Não era a primeira vez que ele saia com ela e ...já fez o mesmo com outras garotas. A noite começava no hotel e terminava no apartamento dele. Nós revistamos o local. Havia coisas horríveis por lá, Scully _ ele concluiu num fio de voz. _ E a agressão que ele sofreu ? Que você provocou ? _ Acho que as fotos dela impressionaram bem mais o juiz do que o olho roxo que ele tinha. E, eu confesso, Scully. Se não fosse você ali, eu seria capaz de matá-lo... O celular de Mulder tocou, ele ouviu por alguns instantes e levantou- se do sofá. _ Temos que ir. Encontraram mais um corpo, mas agora parece que o suspeito está encurralado. Eles chegaram à cena do crime alguns minutos depois. Havia uma mulher morta na sala do pequeno apartamento. O local estava cercado e eles ouviam os gritos de uma mulher. _ Qual a situação ? _ Mulder perguntou a um policial. _ Ela está ali a mais de uma hora. A vizinha ouviu ruídos no apartamento de cima. Não era a primeira vez e, nos últimos tempos, haviam se tornado freqüentes durante a madrugada. Como se alguém estivesse sendo arrastado pelo chão. Ela chamou a polícia e, quando arrombamos a porta, encontramos o corpo na sala. A suspeita trancou-se no banheiro. Não conseguimos fazer com que saia. Acho que colocou algo para bloquear a porta. _ Eu só as estava ajudando. Eram garotas perdidas. Eu as fiz puras novamente _ gritava a mulher. Mulder fitou a parceira e voltou-se para o policial. _ O que pretendem fazer ? _ Há uma equipe se preparando. A janela do banheiro é grande. Vamos invadir por lá. Apenas precisamos distrair a atenção dela. Mulder tomou a iniciativa. _ Deixe-me conversar com ela. O policial assentiu e Mulder aproximou-se da porta. _ Sra.. Fleming, meu nome é Fox Mulder. Queremos ajudá-la. _ Eu não preciso de ajuda. Minhas meninas precisam. Eu estou fazendo isso por elas. Pobres coitadas. Agora elas não sentem mais dor. Eu as salvei, você não compreende ? _ Eu sei, mas... _ Não você não sabe. Não imagina a vida miserável que elas levavam. Os animais com os quais saíam. Eram apenas meninas sonhadoras. Elas só queriam ser felizes e eu dei isso a elas. Agora ninguém mais irá toca- las. Ouviu-se um estrondo e minutos depois, uma senhora de cerca de 50 anos foi retirada. Era a figura clássica de uma matrona. Os cabelos começando a branquear, o corpo firme e robusto, os óculos pendentes. Quando passou por Mulder, ela parou e buscou-lhe os olhos. _ Sabe que eu as salvei não é ? Mulder não respondeu nada, apenas acompanhou a mulher sendo conduzida pelos policiais. SEDE DO FBI Skinner folheava a pasta do relatório. _ Quer dizer que a mulher julgava estar ajudando as garotas ? _ Sim senhor _ Scully respondia _ Ela começou a trabalhar como voluntária em um hospital, era enfermeira aposentada. Todos os dias via as mesmas garotas chegando ao pronto socorro, machucadas, grávidas, vitimas de abortos mal feitos, enfim... Em alguns casos, a família ia buscá-las, em outros, ignoravam-nas simplesmente e ela achou que poderia ajudá-las, ganhava a confiança delas, convidava-as para sua casa e as drogava. Acho que ela enlouqueceu vendo tantas coisas ruins e... _ É um mundo louco esse _ murmurou Skinner _ Obrigado pela colaboração no caso, agentes. Isso é só. Eles deixaram a sala de Skinner e voltaram ao porão. _ Mulder ..._ Scully começou reticente _ Não temos nada a fazer aqui...O que acha se nós fossemos almoçar e... _ Eu... _ Mulder parecia inseguro_ É que... _ Vá Mulder _ Scully compreendeu _ Acho que sua presença será importante pra ela. É por isso não é ? Mad sai hoje do hospital . _ Sim e...não gostaria de ir lá comigo ? Nós poderíamos almoçar depois... _ Não _ ela cortou _ Vá até lá. É o melhor que pode fazer por ela. Mulder chegou ao hospital e encontrou a garota pronta para ir embora. Havia uma senhora com ela, com cara de poucos amigos. _ Nós estamos bem agora _ a mulher falou assim que ele entrou _ Não precisamos de nenhuma ajuda. Ela já sofreu demais. Mulder parou na porta, fitando o semblante desfigurado da mulher sentada na cama. _ Não é o que está pensando, mamãe _ ela interrompeu _ O que faz aqui Estranho ? Mulder se aproximou, tentando sorrir. _ Sua mãe tem motivos para estar assim. Vim saber se precisa de alguma coisa _ disse, voltando-se para fitar a senhora ao lado dela _ Fox Mulder, senhora, agente do FBI. A mulher o olhou desconfiada. _ O que o FBI tem a ver com esse caso ? Mulder ficou sem jeito por um instante, mas respondeu rapidamente. _ Nós achamos que a agressão a ela pudesse ter alguma relação com outro caso que estávamos investigando. _ E tem ? _ a mulher retrucou secamente. _ Não, senhora. Felizmente não. _ Então acho que não há nada que o senhor tenha a fazer aqui. Nós estamos de saída. Temos um táxi nos esperando. _ Eu posso levá-las _ Mulder ofereceu. _ A que preço ? _ Mamãe, por favor ! Está me constrangendo e ele só está sendo gentil. Por favor, deixe-me falar com ele. A senhora olhou para a filha com olhar magoado, balançando a cabeça. _ Você nunca vai aprender, Madeleine ? _ murmurou ao sair. _ Desculpe _ Mad falou quando a porta se fechou _ Nem sempre foi assim. _ Ela só quer te proteger e está certa. Como está se sentindo ? _ Meu corpo ainda dói. Talvez fique com cicatrizes pelo rosto mas... Ela fitou-o com os olhos marejados. _ Não precisa ser assim, Mad. _ Mulder consolou-a aproximando-se _ Você pode mudar isso, só depende de você. Essa não é uma vida fácil. Acredite, poderia ser bem pior, você poderia estar morta. Encare isso como uma segunda chance, mude sua vida. Procure outro trabalho, você pode. _ Não é tão simples, William. Ou devo chamá-lo de Fox , ou Mulder, ou Estranho ? _ Acho que estranho seria apropriado, mas chame-me Mulder. Sei que não é simples _ ele continuou sentando-se ao lado dela _ Mas sua mãe está aqui e...eu poderia te ajudar. Ela esboçou um sorriso triste. _ Mas não da maneira que eu preciso. _ O que você realmente precisa ? _ De um sonho... _ ela completou abaixando a cabeça. _ Sonho ? _ ele repetiu sem entender. _ O sonho que vi em seus olhos quando entrou aqui com sua parceira. E que ela retribui da mesma forma. Jamais acontecerá comigo. Mulder lembrou-se do que Scully dissera. _ Não é verdade, Mad. Pode acontecer _ Mulder apressou-se em interrompe-la _ Você é bonita, inteligente, jovem ainda, pode recomeçar sua vida. _ Eu estraguei tudo, Mulder. Não sei por onde começar. O que fazer. Não imagina como me senti pequena quando vi você entrando aqui com ela. Não só porque era você, mas porque achei que não existisse algo assim, um sentimento intenso o bastante para transbordar pelos olhos. Eu sonhei com isso, mas nunca vai acontecer. _ Escute, Mad. Nós não vivemos de sonhos_ Mulder mal acreditava que era ele, o maior sonhador que conhecia, que estava dizendo aquilo, mas precisava ajudá-la, trazendo-a de volta ao mundo real, colocando os pés dela no chão, como Scully fazia com ele, sem permitir que ele se machucasse demais na queda_ Eu sei o quanto a vida pode ser dura, mas nunca estamos realmente sozinhos. Não desista . Se ainda não encontrou é porque não procurou o bastante. Acredite em mim, eu demorei mais de trinta anos pra conseguir. Você também conseguirá, mas não se machucando mais, não sufocando quem você realmente gostaria de ser. Não tema a opinião alheia, ouça a sua própria voz, ela lhe dirá o que fazer. Ela tentou sorrir. _ Obrigada. Você está sendo muito gentil comigo. Não acho que merecia tanto. _ Merece mais, Mad. Não faça isso com você . Não deixe que ninguém diminua o seu valor. A mãe dela entrou no quarto. Viu-os sentados conversando e interrompeu, mas agora não tão rude. _ Precisamos ir, Mad. O táxi nos espera. _ Deixe-me levá-las _ Mulder ofereceu, agora com convicção. _ Não, Mulder _ Mad falou colocando-se em pé com dificuldade, enquanto ele a amparava _ Se puder me ajudar a chegar ao carro, já é suficiente. Mulder providenciou uma cadeira de rodas e conduziu-a até a saída. Ajudou-a a se acomodar no carro. _ Tem certeza que não quer que a leve ? _ ele perguntou abaixando-se ao lado da porta aberta do táxi. _ Tenho _ ela sorriu, passando os dedos pelo rosto dele _ Isso só iria colocar mais sonhos em minha cabeça e... sei que não existe a menor possibilidade... _ Sinto muito _ Mulder murmurou. _ Não sinta. O que você tem é muito especial e eu o invejo. Apenas não a deixe escapar, faça-a saber o que você sente. Vá lá e diga a ela. Não procure conforto em outras mulheres quando o que você procura está nela. Eu... vou ficar bem e...quem sabe um dia...vou tentar procurar melhor...de outra forma. Ela roçou os lábios aos dele, despedindo-se e, fechando a porta do carro , pediu que ele fosse. Mulder esperou o táxi sumir no meio do tráfego e só então se virou, caminhando pela rua. Entrou no carro e respirou fundo. Deu partida e saiu sem rumo. Scully saiu da cozinha enxugando as mãos. Caminhou até a porta e olhou pelo olho mágico. Abriu a porta para encarar o parceiro que, com os braços abertos, apoiados no batente da porta, exibia feições de desalento. _ Preciso de colo _ ele murmurou, fitando-a com aquele olhar carente que tanto a comovia. _ Entre _ Scully disse afastando-se da porta _ Estava fazendo algo para comer _ continuou, jogando o pano sobre a cadeira e sentando-se ao lado dele _ Foi tão ruim assim ? Ele a fitou demoradamente, lembrando-se do que a garota lhe dissera. Realmente, há alguns anos sentia-se afortunado quando pensava em ter com quem compartilhar a vida. Mesmo sem qualquer conotação física. Scully era o seu alicerce. Ela o sustentava de todas as maneiras. Sentia-se forte ao seu lado. Íntegro. O receio de ultrapassar aquele ponto era exatamente o de perder o que já haviam conquistado e, ele sabia, ela sentia da mesma forma. _ Não exatamente ruim, mas triste. É triste ver uma vida tão nova desperdiçada dessa maneira. _ Como ela está ? _ Machucada, por fora e por dentro. Mas é forte. Acho que irá se recuperar. _ E você ? Scully o fitava com carinho. Preocupava-a a nuvem sob o olhar do parceiro e, talvez, ele houvesse se impressionado mais do que queria admitir pela garota. _ Mulder... _ ela continuou _ Se ficou assim tão impressionado _ ela respirou fundo _ Se essa mulher te abalou tanto....Talvez devesse procurá-la e... Mulder buscou o olhar da parceira. _ Me envolver com ela ? _ ele esboçou um sorriso _ Ela não quis nem que a acompanhasse até em casa. E mesmo que eu me interessasse por ela, Scully. Jamais passaria de um sentimento de amizade e compaixão. Gostaria mesmo de ajudá-la, mas não da maneira que você está imaginando... _ Às vezes, você é quem não está vendo as coisas claramente. _ Isso sempre esteve muito claro pra mim, nos últimos anos, Scully. Por isso eu procurei os serviços dela, eu não queria vínculos, eu não posso. _ Não pode ? _ Eu já me envolvi, Scully. Já me apaixonei uma vez. _ E acha impossível se apaixonar de novo ? _ Ainda estou , nunca deixei de estar. Scully assustou-se com aquela declaração. Fitou-o e esboçou um sorriso, levantando-se. _ Gostaria de tomar alguma coisa ? Pra relaxar. Mulder riu, aquela era bem a atitude que esperava de Scully. Ela voltou, colocando o vinho sobre a mesa de jantar, servindo as duas taças. Virou-se para levar até ele. Mas Mulder já estava ao lado dela, tomou a taça e brindou com a dela. _ A uma nova vida pra todos nós. Ela rebateu. _ Vida nova. Permaneceram sentados na sala de jantar, ao redor da mesa. Conversaram pela noite adentro. O vinho ajudando a baixar as defesas e eles entraram no campo das confidências, das opiniões pessoais, dos sentimentos. Scully ergueu a taça , rindo para ele e o líquido transbordou antes de chegar à boca, escorregando pelo canto do lábio. Antes que ela desse acordo de si, Mulder levou a mão até seu rosto, num gesto inconsciente e impediu que o vinho seguisse seu curso. Instintivamente, ele levou os dedos aos lábios e sorveu o liquido. Ela estremeceu com o gesto e ele se aproximou mais. Agora tocando, com seus lábios, o queixo dela, a língua correndo pela pele dela até chegar à boca. Scully acompanhava os gestos dele, sem se mover, fechando os olhos lentamente. Mulder pressionou-lhe os lábios e ela resistiu apenas um segundo, antes de permitir a exploração dele. Seus corpos adquiriram vida novamente. Scully abraçou o parceiro, acariciando sua nuca. As mãos dele deslizaram por dentro da camisa dela, soltando os botões e livrando-a da peça. Scully estava, agora, no colo dele e Mulder se acomodou entre suas pernas, os lábios explorando cada lugar até se unirem novamente, sedentos, aos dela. Com mãos trêmulas, ele retirou o sutiã que se perdeu entre as roupas no chão. Scully afastou o tronco, esbarrando na mesa que, com o tremor, fez derrubar a garrafa de vinho, ao lado dela. O liquido correu pela mesa até derramar-se sobre seu ventre. Antes que ela esboçasse qualquer reação, Mulder segurou a garrafa, olhando-a com um sorriso irônico e malicioso que mal escondia o que pretendia fazer. _ Está com sede ? _ murmurou com voz rouca, espalmando uma das mãos sobre as costas dela. Ela mal respirava, olhando-o com ar indagador. _ O quê...o quê vai fazer ? Sob o olhar malicioso dele, ela viu a mão dele entornando a garrafa sobre seu ombro lentamente. _ Matar minha sede de você. Foi apenas um gole que ele capturou sobre o seio dela, fechando os lábios ao redor dele, sugando devagar, fazendo-a gemer alto, enquanto, sem qualquer precisão, Mulder devolvia a garrafa para a mesa. O olhar dele subiu pelos ombros dela, caminho que sempre pensara em percorrer e se sentiu à vontade para estudar-lhe as formas macias . Scully sentia-lhe o olhar como se a estivesse tocando e ele voltou pelo mesmo caminho, agora não só com os olhos mas com a língua que deslizava vagarosamente sobre sua pele, a textura molhada e firme causando espasmos inspirados no peito do homem. _ Assim é bem mais saboroso _ ele murmurou entre suspiros, até fechar os lábios novamente sobre o mamilo ereto. As carícias tão dolorosamente lentas estavam levando Scully à loucura e, embora sua racionalidade, esse sentido perdido e abandonado num canto qualquer do seu cérebro, resmungasse que aquilo era totalmente natural e comum do ponto de vista científico e fisiológico, ela estava propensa a acreditar que seu corpo e sua alma havia existido apenas para vivenciar esse momento...estar nos braços firmes e apaixonados de Mulder. Os dedos dele corriam pelo ventre dela em movimentos caprichosos, seus lábios se perdiam pelo corpo, descendo dos ombros para recolher o seio, circulando a língua sobre o mamilo...aprofundando o toque com as mãos espalmadas sobre as costas nuas dela. Scully mantinha os olhos fechados, a respiração entrecortada, enquanto suas mãos passeavam entre os cabelos dele, puxando-o para si. Seus lábios se encontraram novamente, enquanto as mãos dele moldavam o caminho que descia pela cintura dela, chegando às coxas e aproximando- a até que não houvesse nenhum espaço vazio entre eles. Scully abriu os olhos para encontrar os de Mulder fixos em seu semblante. Trocaram beijos rápidos, as fisionomias tensas, sem palavras que não as ditas através da chama ardente do desejo refletido nos olhos. Mulder alcançou os botões da calça dela, afastando ligeiramente o corpo para ter mais acesso e suas mãos foram ficando cada vez mais trêmulas à medida que a peça ia sendo aberta. Scully desceu as mãos pelos ombros dele, sentindo o calor da pele nua. Chegou ao zíper da calça e correu-o lentamente, sentindo o efeito de seu toque sobre a rigidez do membro dele através do tecido macio da boxer. Seus olhos encontraram os dele e ela sorriu, fitando-o com interesse. Mulder retribuiu o sorriso, respirando tenso. _ Você está me enlouquecendo, Scully _ murmurou sobre os lábios dela. Scully tinha certeza que Mulder sabia o que aquela voz sussurrada e agora mais rouca do que nunca podia fazer com ela. E ele a provocava...pedindo...clamando...exigindo uma reação e ela não pode sufocar as exclamações que seu peito produzia com aqueles toques. _ Pedimos por essa loucura, Mulder. Agora eu só quero chegar ao final dela....com você. Não havia motivos para esperar mais. Com as pernas dela firmemente enroscadas sobre os quadris dele, Mulder ergueu-a com facilidade, chutou para longe a cadeira, virando e encostando o corpo pequeno da parceira junto à parede. Ela desceu as pernas e sua calça escorregou por elas, enquanto as mãos de Mulder trabalhavam com habilidade para retirar as últimas peças que cobriam seu próprio corpo. Scully sustou a respiração quando o viu, tal qual ela , completamente despido, mas não houve muito tempo para contemplação. Olhares urgentes varreram, no espaço de alguns instantes, todos os contornos e detalhes do corpo um do outro e o brilho de aprovação em seus olhos, assim como, o sorriso satisfeito que se espalhou na face de ambos foram suficientemente claros para que se buscassem novamente num abraço. Mulder a suspendeu e ela enlaçou os braços ao redor do pescoço dele, beijando-lhe a ponta da orelha, descendo a língua pelo caminho que conduzia ao ombro e ele gemeu alto, inspirando um sorriso aberto na parceira que murmurava em seu ouvido. _ Por que não vamos para o quarto Mulder ? _ disse, enquanto sua língua desenhava círculos ao redor do pescoço. Mulder não parecia ter ouvido, mas subitamente ele afastou o rosto para encará-la, amparando-a pela cintura, enquanto a respiração dela fazia o peito elevar-se ofegante. _ Não tenho certeza se conseguirei chegar até lá, Scully. Eu quero você...e eu quero agora. _ O que o impede ? _ ela gemeu _ Quero que me diga, Scully _ ele respirava profundamente _ O quê ? _ disse sem entender, enquanto beijava o rosto dele, o coração batendo em desvario. _ O que você quer _ ele sussurrou , deslizando a mão pelo corpo dela. Scully olhou pra ele, erguendo a sobrancelha, umedecendo os lábios com a língua, sentindo o corpo, dolorido pelo desejo, clamar para ser preenchido. _ Eu...Mulder...tenho certeza de que você... sabe. _ Sei _ ele murmurou _ Eu sei exatamente o que você quer Scully, mas quero ouvi-la dizendo, preciso ouvir. Ela segurou o rosto dele, as feições extremamente afogueadas, o olhar ,queimando de paixão, repousou profundamente sobre o dele. _ Quero você, Mulder ! Quero-o em mim ! Quero me tome e me faça sua. Nem mesmo ele esperava tanta segurança e ousadia dela e foi preciso um enorme esforço para que o poder daquelas palavras não o fizesse atingir o orgasmo antes de realmente estar com ela. Ele esmagou-lhe os lábios, beijando-a sofregamente, enquanto se acomodava para penetrá-la e Scully não conseguiu prender o grito que pulou de sua garganta. Suas unhas cravando-se nas costas dele. Mulder parou, procurando os olhos dela preocupado. _ Desculpe, Scully ! _ falou ,começando a afastar-se _ Estou agindo com um animal, não quero te machucar. Scully riu, segurando-o pelos ombros, travando as pernas ao redor dele, impedindo que se afastasse _ Não pare... por favor...nem em sonhos. Ele continuou, mas agora com mais cautela, aproximando-se devagar, penetrando aos poucos, transformando músculos em nervos afim de não se precipitar. Seus lábios colados, o corpo perolando-se de suor a cada arremetida, afastando-se para em seguida retornar mais rápido, mais quente, mais firme. Os gemidos tornaram-se mais freqüentes e profundos, as mãos de Scully percorrendo as costas dele, os dedos enterrando-se nos músculos firmes enquanto ela tentava segurar as sensações para que estivessem juntos ao final. Ela sentia-o cada vez mais tenso, mais rápido, as batidas do peito, que a esmagava contra a parede, cada vez mais fortes, as mãos dele amparando-lhe as pernas, puxando-a com urgência de encontro ao seu corpo e senti-lo dentro dela, era algo que ela ainda não conseguira definir, mas era bom... embriagante...quente... úmido... poderoso. Sem aviso, o corpo dele arqueou-se mais, soltando os lábios dela, Mulder soltou um gemido rouco, profundo e uma investida mais forte fez com que ambos suspendessem a respiração, enquanto seus corpos eram preenchidos por um arrepio trêmulo, uma sensação de calor e êxtase inebriantes, colando-se um ao outro desesperadamente até que, juntos, atingiram o orgasmo. Permaneceram abraçados, respirações ofegantes, corpos molhados...tranqüilos. Mulder escondeu o rosto na curva do pescoço dela e aspirou gostosamente o perfume. Scully não se movia, abraçada a ele que a sustentava pela cintura. Aos poucos foram serenando, as batidas cardíacas voltando à pulsação normal e Mulder sentiu as pernas fraquejarem. Escorregou até o chão, ajoelhando-se e trazendo- a com ele . Finalmente seus olhos voltaram a se encontrar. Fitaram-se por um longo tempo, até que ele levou a mão aos cabelos dela, puxando-os para trás da orelha e ela sorriu. Mulder continuou sério, os dedos descendo do pescoço para os ombros, seus olhos acompanhando o movimento das mãos. Milhões de pensamentos invadiam sua mente e ele tinha dificuldade em ordená-los. Mas todos eles diziam respeito ao percurso que ele fizera até chegar ali, íntegro e forte, devido ao concurso fiel, lúcido e generoso daquela que, agora, se acomodava em seus braços. Seus olhos repousaram na face dela. Seus dedos desenharam todos os contornos. Seus lábios depositaram beijos leves sobre os olhos, a bochecha, o nariz, sobre o queixo, até alcançarem os lábios...suavemente...sem pressa ou tensão. Ele saboreou o gosto dela, da mulher que despertara nele um sentimento impossível de se dimensionar pela grandeza que abrangia. Ela era tudo e muito mais. Dava-lhe fé, esperança, motivação para seguir em frente, amparo quando se sentia fraco, proteção quando, em sua impulsividade, colocava-se em risco. Racionalidade quando seu desejo de acreditar o enlouquecia. Estava sempre ali, guardando-o, amando-o com somente ela seria capaz. Sua mão fechou-se novamente em volta do seio dela. Ele o acariciou com as pontas dos dedos, fazendo-a suspirar, mas ele estava quieto, assustadoramente silencioso e isso a incomodava, precisava saber o que ele estava sentindo, como estava vendo o que acontecera há poucos minutos. Ela precisava de mais, precisava que ele desenhasse em palavras o que ele viveram. Precisava saber, ouvir-lhe a voz, o riso, qualquer sinal de que aquilo não fora um grande erro, embora se sentisse feliz como nunca se lembrava de ter estado, feliz e completa. Envolveu o rosto dele com as mãos, desviando a atenção do que ele fazia e que já começava a excitá-la novamente. _ Mulder ? _ ela começou com voz rouca _ O que há ? Porque está assim ? _ Assim como ? _ ele perguntou confuso. _ Assim...alheio...quieto..._ ela parou, relutante _ Quer dizer..._ ela tinha medo de perguntar se ele já se arrependera. Ele a fitou surpreso. _ Nunca estive tão presente em um ato quanto agora, Scully _ ele começou, amparando a nuca dela e trazendo-a para seu peito _ Estava pensando no que falamos sobre amor e sexo. Você está certa, Scully. Acho que é a primeira vez que realmente faço amor. Até hoje, era apenas sexo e, não há palavras para descrever isso. Estar aqui, e somente com você, me dá uma deliciosa sensação de acerto, de voltar ao lar, de onde eu nunca deveria ter saído _ Ele envolveu o rosto dela com as mãos, buscando os olhos dela _ Eu me perdi pelo mundo, procurei por respostas em outros, mas somente o fato de ter te encontrado, validou completamente minha viagem. Você se tornou a árvore da minha vida e, em suas raízes, eu coloco meu amor. Você me cativou, agora é responsável por isso _ ele concluiu, beijando-lhe a testa com ternura. Ela fechou os olhos, sorrindo, agarrando-se a ele que, envolvendo-a em seu abraço, levantou-se e caminhou a passos tranqüilos para o quarto. SEDE DO FBI Um mês depois. Mulder e Scully entraram no escritório. Sobre a mesa havia algumas correspondências. Mulder sentou-se, abriu algumas e deparou- se com um envelope, em especial. Tinha o carimbo de Washington. Ele abriu e dentro havia uma foto. Mad estava atrás de um balcão, notava-se apenas uma pequena cicatriz sobre a testa. Ela sorria. Mulder virou a foto. Atrás, escrito em letras miúdas havia uma mensagem. "Olá Estranho ! Estou tentando seguir seu conselho. Já me restabeleci completamente e estou procurando meu sonho de outra forma. Diga à sua ruiva que ela é uma mulher de sorte. Obrigada por tudo." Mad. Mulder terminou de ler e estendeu a foto para a parceira. Scully leu com semblante iluminado. Fitou o parceiro e sorriu. _ Vida nova _ ela murmurou _ Vida nova _ ele concordou, retribuindo o sorriso. FIM