FAN FICTION AUTORA: Sky E-MAIL : selmasky@ig.com.br DISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo. Os demais personagens pertencem à história e ao cotidiano da região. CLASSIFICAÇÃO : Shipper SINOPSE : Scully está triste e Mulder a leva numa viagem que pode transformar o relacionamento deles. OBSERVAÇÕES : Por favor, aguardo um Feedback. Criticas, sugestões e opiniões serão bem vindas. NOTA : Esta é uma adaptação bastante romanceada de um período da nossa história. A realidade foi, em alguns pontos, bastante diversa e triste. Mas o objetivo principal é colocar os dois agentes em contato com os personagens fictícios e não com os reais, de cuja estória, sabemos muito pouco. AGRADECIMENTOS : À Mônica, Silvia e Eriale, pelas dicas sobre a estória original. Obrigada meninas. VIAGEM INTERIOR Sede do FBI Washington DC Scully caminhava vagarosamente até sua sala, no porão do FBI. Nos últimos dias, não havia muito trabalho para os ocupar. Estavam passando o tempo revendo alguns casos antigos e organizando arquivos, sob os protestos de Mulder, na empoeirada sala que compartilhavam. A principio Mulder parecera bastante irritado com a falta de atividade. Mas há dois dias mudou de atitude, estava visivelmente empolgado e isso não passara despercebido para Scully. Ela gostava de vê-lo assim. Seus olhos brilhavam, seu sorriso surgia com facilidade, mas, ela sabia : Isso também era sinal de encrenca. Mulder estava aprontando alguma coisa e, embora não fizesse a menor idéia do que fosse, já estava começando a se preocupar. Entrou na sala a tempo de ver o parceiro desligar o telefone rapidamente. _ Alguma coisa ? _ perguntou desconfiada. _ Não...nada _ ele disfarçou _ Onde você estava até agora ? _ O que você está me escondendo Mulder ? _ Nada, Scully. Já disse. Você está atrasada. _ Eu fui ver minha mãe... _ Antigamente você era mais responsável com o trabalho, Scully _ ele provocou _ Matando o dia... _ Não comece, Mulder. Ela queira me ver... _ Algum problema ?_ ele perguntou curioso _ Novidades ? _ Não _ ela respondeu evasiva _ Tudo bem, ela só queria me ver. _ Tem certeza ? Ela riu _ Mulder você está tentando me enrolar pra não dizer o que estava me escondendo ou realmente acordou com o espírito de chefe ? _ Não estou escondendo nada _ ele falou, levantando-se e pegando o blazer sobre a cadeira _ E pra te provar que não quero bancar o chefe, eu deixo você pagar meu almoço. _ Almoço ? _ ela consultou o relógio _ É cedo pra almoçar Mulder. Podemos pedir alguma coisa aqui mesmo mais tarde e... _ Nem vem, Scully. Você matou o dia, mas eu passei a manhã toda trancado nesse escritório, preciso de ar. _ Eu não estou com fome, agora _ Ok, Scully _ ele suspirou _ Eu pago seu almoço. Não precisa ficar inventando desculpas. _ Eu não quero sanduíches _ reclamou _ Pra quem está atrasada, você está bem exigente hoje, não acha ? Mas está certo. Vou ser generoso. Você escolhe. Ela sorriu. _ Tudo isso é pra eu não ficar perguntando o que você está escondendo de mim ? _ disse, dirigindo-se para a porta. _ Você acha que sabe tudo sobre mim, não é Scully ? _ Talvez não tudo. Mas sei quando você está tramando alguma coisa. _ Ok, eu confesso. Estava falando com o Canceroso e, marcando um encontro pra jogarmos tênis. Agora fique quieta e vamos almoçar. Mas cuidado na escolha. Sabe que os agentes do FBI estão freqüentemente arruinados financeiramente. _ Sabia..._ ela o fitou com ar de desalento _ Estava bom demais para ser verdade. Eles foram a um restaurante próximo ao Bureau. Era um lugar aconchegante_ Mulder pensou_ Assim como Scully. Gostava disso nela. Da simplicidade que ela demonstrava. Sabia que gostava de lugares elegantes, boa comida, boa música. Mas ela parecia sentir-se segura e a vontade em qualquer lugar. Não era dada a afetação ou melindres. Exceto por um zelo extremado quanto à silhueta, ela não se importava em comer um sanduíche na rua. Era sofisticada e simples ao mesmo tempo. Saberia se encaixar perfeitamente, em qualquer ambiente, sem se sentir constrangida, desde que seu senso moral não fosse afetado. Ela poderia subir uma montanha com a mesma confiança natural de quem anda na rua. Realizar uma autópsia com a mesma tranqüilidade de quem cuida de um ferimento. Conversar com igual desenvoltura com um diretor do FBI ou com uma simples criança. E tudo isso em cima daqueles enormes saltos altos._ ele riu para si mesmo _ Essa era a sua garota e ele se sentia orgulhoso de tê-la ao seu lado, já não indagava mais se merecia ou não essa companhia. Não podia mais se privar dela. Almoçaram tranqüilamente, falando sobre amenidades até o momento em que ele pediu a conta. Mulder virou e apanhou um envelope de dentro do blazer. Entregou-o a ela, com ar maroto. _ A propósito, Scully, feliz aniversário. Ela sorriu, surpresa. _ Sabia que estava aprontando alguma coisa. Obrigada Mulder. O que é isso ? _ Abra ! _ Pensei que só se lembrasse dessas datas a cada quatro anos..._ ela comentou irônica. _ Mas eu sabia que você estaria esperando e aí, não teria mais graça. Na verdade, Mulder não era dado a demonstrações de afeto. Acreditava que Scully sabia de seus sentimentos e isso era o bastante. Não precisavam de quaisquer outras demonstrações. Mas vinha surpreendendo um ar de tristeza ao redor dela ultimamente. Sabia que a parceira não era propensa a falar sobre o que se passava dentro dela, com seus sentimentos, mas ele a conhecia. Via o brilho emotivo de seus olhos que se deslocavam para um ponto distante e ela mergulhava em seu próprio intimo, excluindo-o de sua vida. Ela estava triste. Disso ele tinha certeza, restava apenas descobrir o motivo. Ela abriu o envelope. Dentro havia duas passagens para o Brasil. Ela franziu a testa. _ Está me convidando para ir ao Brasil com você, Mulder ? Com que propósito ? _ É carnaval _ ele falou insinuante. _ E ? _ ela já temia saber o resto. _ Dizem que o carnaval no Brasil é maravilhoso... _ Imagino _ ela começou fazendo uma careta_ Milhares de pessoas seminuas pulando pelas ruas. Deve ser excitante para você , Mulder _ continuou com sarcasmo_ Então não é um presente pra mim. _ Vamos lá, Scully. Um pouco de sol não nos faria mal. _ ele falou empolgado. _ Mulder nós temos trabalho e... _ Estava falando com Skinner quando você entrou. Ele aceitou o nosso pedido de licença. Até gostou. _ Você já arranjou tudo ?_ perguntou arregalando os olhos _ Porque acha que eu iria com você para o meio da selva, ver um ritual primitivo de diversão ? Ele riu _ Scully, quanto preconceito. Você não conhece o país e...pensei que iria com comigo a qualquer lugar..._ disse com ironia. Gostava de flertar com ela, de ver a reação que isso causava na fria e determinada agente do FBI. Como ele imaginava, ela ficou tímida e sem jeito. _ Já ouvi muitas coisas sobre o carnaval _ ela respondeu após algum tempo. _ Nós não vamos para o olho do diabo, se quer chamar assim. Ficaremos um pouco longe da bagunça em geral. A cidade de Ouro Preto é bem mais tranqüila. _ O que tem lá então ? _ perguntou curiosa. _ História....Milhares de igrejas feitas em ouro... _ Feitas em ouro ? _ ela repetiu com ar de desdém. _ Bom, não totalmente _ disse encolhendo os ombros _ Mas li a respeito e a maioria delas são trabalhadas em ouro. Algumas chegam a ter mais de 400 quilos em suas paredes. _ Nossa ! _ ela estreitou os lábios _ E o que um ateu como você irá fazer num lugar desses ? O quê está me escondendo, Mulder ? _ Você é muito desconfiada, Scully. É um presente, se não quer aceitar, tudo bem. _ Não_ ela respondeu sem jeito _ Só quero saber onde estou me metendo. _ Ok, eu conto. Está havendo alguns boatos sobre a aparição de objetos voadores não identificados naquela região. _ Agora sim_ ela falou_ Agora estou entendendo. Então você quer que eu vá caçar alienígenas com você, no meio da selva ? Usando um pretexto sórdido de me presentear com um passeio histórico, num lugar de pessoas que dançam nuas ? Ele riu com gosto _ Não tinha pensado por esse ângulo, Scully. Mas... vendo assim... Acho que será mais divertido do que eu imaginava. Quem sabe a gente aprende alguns passos novos e se acostuma a andar mais a vontade_ completou balançando os braços e a fitando com aquela expressão de deboche e malicia da qual ela tanto gostava. Ela suspirou . Seria bom tirar umas férias... Estar com ele. Vinha se sentindo triste ultimamente e sabia que isso não passara despercebido para ele. Não sabia explicar o motivo. Talvez por estar ficando velha e solitária... Por não ver mais tanto propósito na vida que levava. Apesar de todas as aventuras e problemas que viviam diariamente, no trabalho, isso havia se transformado em rotina. Ela ansiava por algo diferente quando abandonava o escritório e não a solidão que invariavelmente a acompanhava. Queria para si o que era comum às pessoas em geral. A calmaria de um lar...um recanto tranqüilo ...alguém por quem voltar... _ Mulder...se eu aceitar...._ela começou, reticente _ Ótimo, Scully. Sabia que aceitaria. _ ele interrompeu. _ Eu não disse que aceito. Tem uma condição. _ Está me assustando. _ Eu comando a missão. Você terá que visitar todos os lugares comigo, com um sorriso nos lábios. Sem reclamações ou olhos virados e não vamos passar uma única noite ao relento, correndo atrás de ets. Você vai tentar agir como um ser humano normal. Só aceito o presente se for algo diferente do que vivemos diariamente. _ Você manda, chefe. Saímos na próxima quinta. Alguns dias depois eles embarcaram para o país do café, do carnaval, da Floresta Amazônica e, o que Mulder mais desejava, em busca de ets e do sorriso da parceira. A viagem correu sem incidentes dignos de nota. Chegaram a noite ao hotel e Scully já começava a mudar a impressão sobre a cidade. Em Belo Horizonte, cidade aonde desembarcaram, foram tratados cordialmente. Mesmo os que não falavam seu idioma, esforçavam-se para ajudá-los a se acomodar. O calor era grande, mas havia ar condicionado nos quartos, extremamente limpos e bem cuidados. Na manhã seguinte, Scully continuou surpreendendo-se agradavelmente. Disposto numa mesa extensa, estava um maravilhoso buffet de café da manhã. Com um sem número de bolos, pães, biscoitos, queijos, frutas , sucos, enfim, perfeito. Mulder aproximou-se dela, vestindo seu jeans surrado e uma camiseta. _ Acho que será impossível você manter a forma aqui _ disse. Ela sorriu, escolhendo uma mesa e sentando-se com um prato de frutas na mão. Um rapaz se chegou, trazendo leite e café e ela não pode negar que o sabor era maravilhoso. _ Sou obrigada a concordar com você. Por enquanto está superando minhas expectativas. Ele a fitou com carinho. Por enquanto, também estava superando as expectativas dele. Ela parecia mais tranqüila, mais presente. _ Falei com nosso guia agora há pouco. Ele está chegando. Disse que as estradas estarão cheias logo mais e que devemos seguir viagem agora cedo. Mal acabou de falar e entrou no salão um rapaz de uns 25 anos presumíveis. Sua pele morena, mais escura devido ao sol. Os cabelos eram crespos, cortados rente à cabeça . Era quase tão alto quanto Mulder, mas seu corpo era mais magro e flexível. Usava jeans, tênis e camiseta e parecia muito à vontade quando se aproximou deles. _ Fox Mulder ? _ ele perguntou estendendo a mão _ Meu nome é Elias _ apresentou-se num inglês perfeito, apesar do sotaque manso de quem está cansado ou tranqüilo. _ Prazer, Elias. Esta é Dana Scully. Scully cumprimentou-o e convidou-o a sentar. _ Obrigado. Como foi a viagem ? _ perguntou. _ Muito boa. Acha que devemos seguir agora de manhã ? _ Sim, é melhor. Ouro Preto não tinha tradição de carnaval há alguns anos, mas ultimamente a cidade tem ficado lotada. Scully exibiu um olhar contrariado. _ Mas não se preocupe_ Elias apressou-se em dizer_ É bastante sossegado. Reservei uma pousada um pouco mais distante do centro, assim vocês terão tranqüilidade suficiente. O que acharam da cidade ? _ Parece muito bonita. O atendimento é ótimo e a comida maravilhosa _ ela emendou Ele sorriu agradecido. _ A maioria das pessoas que vêm para cá a primeira vez, pensa em desembarcar vestindo um conjunto safári, com uma espingarda e um chapéu de caça na cabeça. Ficam surpresos ao perceber que já até aprendemos a construir prédios . Mulder lançou um olhar para Scully. _ É realmente seu país não é muito divulgado lá fora_ ele disse com ironia. _ Estamos trabalhando para mudar isso. Nós temos muitas matas ainda, locais importantes de preservação. Mas temos também lugares tão desenvolvidos como qualquer outro país do mundo. Vocês gostam de história? Scully assentiu. _ Vai gostar então da região. E ainda teremos tempo para visitar os locais onde têm sido registradas aparições estranhas, segundo os habitantes locais. E se quiserem, ainda poderão seguir algum bloco de carnaval de rua. Mulder riu olhando a parceira contrariada. Após levarem as malas ao carro, pegaram a estrada que os levaria até um mergulho no tempo...em meados do século XVIII. Scully encantou-se com a paisagem que corria pela janela. Apesar de alguns trechos bem prejudicados, a estrada estava vazia. O carro corria por entre mares de morros verdes, com vegetação rasteira que servia de pasto a centenas de cabeças de gado que caminhavam preguiçosamente pelas fazendas. _ Seu país é belíssimo _ ela comentou com Elias _ E muito farto, ao que parece. _ Sim, é uma terra abençoada _ ele comentou orgulhoso _Temos milhões de hectares de terra fértil. A água é abundante e uma das mais puras do mundo. Nosso clima é agradável. Não sofremos desastres naturais. Falta-nos apenas governantes que amem essa terra como ela merece e ensinem a população a amá-la da mesma forma. Talvez o excesso tenha nos tornado perdulários. Temos conhecimento das maravilhas aqui e talvez por isso não damos o devido valor. Em outros lugares, onde a escassez impera, cada centímetro de terra é valorizado e aproveitado, cada animal e cada área verde preservada com veneração_ ele suspirou _ Mas ainda somos jovens, tenho fé de que aprenderemos a cuidar de nosso espaço. Só espero que não seja tarde demais. Elias adotara um tom melancólico ao falar, como se não se conformasse com o desrespeito com que era tratada a terra amada. _ Entendo como se sente _ Mulder comentou, mudando de assunto _ Onde exatamente você disse que há sinais de aparições ? _ Acredita mesmo nisso ? _ o homem sorriu _ Achei que era apenas uma desculpa pra ficar com sua namorada. Mulder olhou-o com ar recriminador e Scully sorriu do embaraço dele. _ Somos parceiros _ ela respondeu_ E não se preocupe, eu já sabia que o interesse dele era encontrar homenzinhos verdes... _ Ou cinzas _ Elias comentou _ Alguns dizem que são cinzas. Que durante a noite há luzes estranhas cortando o céu, mas eu não acredito Sr. Mulder. O Brasil é um país muito místico. Há muitos cultos excêntricos e esotéricos. Aceitamos todas as manifestações religiosas. Somos conhecidos também pela facilidade com que acreditamos em tudo. _ Parece que você encontrou seu lar, Mulder _ Scully sorriu. _ Isso não é tão bom assim. Faz com que aceitemos toda e qualquer porcaria que queiram nos impingir. Nos torna frágeis de certa forma. Nem sempre é bom aceitar as coisas sem questionar... _ Mulder..._ ela arrematou irônica_ A cada minuto em aprecio mais essa viagem_ e virando-se para o guia pediu _Continue Elias. _ Mas tem um lado bom. Aqui não temos guerras ou terrorismo por causa de religião, preconceitos raciais, política e essas coisas. Nós não partilhamos da intolerância do mundo, pelo menos não no sentido amplo. Claro que temos preconceitos, mas isso não nos faz chegar à segregação radical. Não fosse a miséria e suas conseqüências, acredito que seriamos um povo privilegiado. Eles passavam agora por uma região onde a terra vermelha, tornava-se quase negra em alguns pontos. As montanhas estavam sendo escavadas e tinhas suas entranhas expostas aos visitantes. A estrada, as placas, as árvores, tudo, enfim, tinha um colorido avermelhado. _ Há muitas minas aqui, não ? _ Mulder perguntou. _ Sim, no século XVII isto era um formigueiro. Havia 120 mil habitantes em Ouro Preto. Hoje não parece muito se considerarmos a população de algumas cidades, mas, naquela época, a cidade era considerada uma das maiores do mundo. Pra se ter uma idéia, Nova York contava com 20 mil habitantes no mesmo período _ ele sorriu de leve _ Viram ? Nós já fomos uma megalópole. _ Você é muito bem informado, Elias. Trabalha apenas como guia local ?_ Scully perguntou. _ Na verdade, meu trabalho principal é a restauração de monumentos e obras da região. Estudo História na Faculdade Federal. O trabalho de guia é apenas para complementar a renda. As restaurações aqui não funcionam da mesma forma que em outros lugares do mundo. Há muita burocracia. Não há investimentos em arte e preservação do patrimônio. Eles se calaram, apreciando a paisagem local. Alguns minutos depois, entraram na cidade. Elias parou em frente a um casarão em estilo colonial. Era um prédio belíssimo, pintado em branco com as janelas arqueadas e sacadas azuis. As portas eram altas e o assoalho rangia silenciosamente enquanto eles se encaminhavam à recepção. Uma senhora miúda, de feições simpáticas e sorriso acolhedor, aproximou-se para atendê-los. _ Bom dia, Dna Iva , como está ?_ O rapaz perguntou, aproximando-se e beijando-lhe a face_ Trouxe os americanos para os quais fiz a reserva a semana passada. A conversa entre eles alongou-se por alguns minutos, com as formalidades de praxe. Ao voltar para eles, Elias exibia um sorriso de contentamento. _ A Dna. Iva, dona da pousada, acabou agora os trabalhos de restauração do casarão. Ela reservou um dos melhores quartos para vocês, com mobiliário da época. Vocês se sentirão de volta ao século XVIII, mas com os recursos do século XXI. O quarto tem TV , telefone e uma pequena geladeira. Vamos até lá ? Mulder e Scully se olharam, enquanto uma garota de vinte e poucos anos aproximava-se do balcão, observando Mulder atentamente, sem conseguir reprimir o brilho de cobiça nos olhos. _ Elias, acho que não entendeu _ Scully acrescentou, meio sem jeito _ Nós queremos dois quartos. Eles viram a confusão no olhar do rapaz. _ Mas.... Mulder explicou. _ Somos parceiros, Elias, não um casal. Trabalhamos juntos somente. A apreensão surgiu nos olhos de Elias e Mulder percebeu. _ Qual o problema ? Não há mais acomodações disponíveis. _ Não ...é que...só um minuto. Ele voltou ao balcão e começou a conversar com as duas mulheres que trocavam olhares furtivos, ora para Elias, ora para o casal parado no meio do salão sem entender uma palavra do que eles diziam. Após alguns instantes, Elias começou a rir, balançando a cabeça, enquanto a mulher mais jovem desatava numa gargalhada maliciosa. _ Scully é impressão minha ou nós estamos sendo o motivo de tanta alegria ? Scully, que até então se mantinha distraída na observação da casa voltou-se para ele e, em seguida para o balcão. Seus olhos se encontraram com os da jovem que não fazia muita questão de esconder a boa impressão que Mulder lhe causara e, mesmo tentando parecer indiferente, o humor da ruiva alterou-se imediatamente. Aproximou-se deles. _ Elias ? Pode nos dizer o que está acontecendo ? _ Desculpe, senhora _ ele apressou a explicar _ É que estamos no carnaval. Todas as acomodações estão tomadas. Deu um trabalho imenso conseguir esse lugar, tão em cima da hora. A proprietária abriu uma exceção, oferecendo este quarto que ela acabou de restaurar e não tinha a intenção de voltar a ocupar, deixando-o como um local de visitação. Como eu coordenei os trabalhos, ela permitiu que vocês ficassem. _ Mas...?_ ela incentivou, percebendo a dúvida dele. _ Não há outro quarto disponível. Poderíamos acomodar um de vocês no outro sobrado, onde Raquel_ ele apontou a moça _ Filha da proprietária, mora. Ela está sozinha lá e...Já que a acomodação aqui é melhor...a senhora poderia ficar e seu parceiro...Sinto muito_ ele desculpou-se_ Eu não havia entendido o que significava parceiro, achei que era uma maneira de tratar a esposa...Desculpe-me. Mulder parecia bastante tranqüilo com a situação. Não chegara nem a tirar os óculos escuros que protegiam seus olhos do sol forte lá fora. Limitou-se a fitar a parceira. _ Para mim não há problemas, Scully _ falou com sinceridade _ Você pode ficar com o quarto. Ela voltou a fitar a garota que não desgrudava os olhos de Mulder e, antes que qualquer atitude lógica pudesse nortear suas ações, completou rapidamente. _ Podemos ficar no mesmo quarto, Mulder _ disse apressada, vendo o olhar surpreso do parceiro que deixava cair os óculos pelo nariz e a fitava por sobre eles . Ele deu de ombros, mas pareceu gostar do arranjo. Um sorriso teimava em se formar no canto de seus lábios. Disfarçando, ele tirou os óculos e falou com Elias. _ Problema resolvido. Podemos ir até lá ? O guia suspirou aliviado e não pode deixar de sorrir ao ver o olhar decepcionado da garota. _ Ela não é tão boba quanto você pensava, Raquel _ provocou- a, falando em português. Raquel suspirou e seguiu na frente para mostrar o caminho. O casarão tinha o cheiro de casa nova, porém, em todos os recantos era possível ver resquícios da construção antiga. As paredes pintadas eram muito grossas, as janelas e portas extremamente altas, enfeitadas com bandôs de renda, o assoalho liso e lustroso, a iluminação fraca dos corredores, guarnecidos com diversos aparadores, as paredes decoradas com quadros das paisagens da cidade, saletas aconchegantes com poltronas macias . Chegaram ao último quarto no final do longo corredor. Raquel abriu e seguiu para a janela, abrindo-a para deixar entrar o ar quente do meio dia. _ Nós temos ventiladores, para o caso de sentirem muito calor _ ela surpreendeu-os falando em inglês _ Não foi possível instalar ar condicionado, devido aos danos que causaria às paredes. O casarão faz parte do patrimônio histórico da região e não pode ser modificado. Mulder agradeceu, enquanto ela mostrava o resto do lugar. Scully estava impressionada com a beleza do quarto, do mobiliário, da paisagem que se descortinava através da janela. _ Há um pequeno sacrilégio _ Raquel segredou, encaminhando-se para uma porta lateral _ Tivemos que perder uma das salas para fazer isso _ ela mostrou o banheiro. _ Porque perder uma sala ? _ Vocês não iriam gostar de ter que sair durante a noite . Antigamente, havia apenas um banheiro em cada andar. Talvez em seu país não haja tanto problema, mas aqui, com esse calor úmido, ficar sem banheiro no quarto é um problema, além de se perder muito da privacidade. Bom, espero que fiquem bem instalados, se precisarem de algo, toquem a campainha na recepção. Minha mãe não fala seu idioma, mas se eu não estiver, ela saberá orientá-los sobre onde comer, o que ver e essas coisas. Usem a linguagem das mãos _ ela terminou sorrindo. _ Eu tenho que combinar nossa visita ao lugar das aparições. É uma gruta fechada, precisamos autorização para entrar. De qualquer maneira, acho que irão gostar de descansar um pouco, talvez só possamos ir amanhã. Aproveitem para conhecer alguma coisa da cidade, almoçar...a Raquel poderá indicar-lhes um bom local. Nos vemos depois_ concluiu Elias, que os acompanhara até o quarto. Eles agradeceram e se olharam quando ficaram sozinhos. Scully passeou os olhos pelo quarto. Era amplo. Possuía a mesma decoração do resto da casa. As janelas eram feitas com portas-balcão, que davam para uma varanda estreita feita em madeira com balaústres em ferro trabalhado e pintado, decorado com pequenos vasos de onde pendiam flores miúdas de um rosa intenso . Havia uma pequena mesa de madeira escura e lustrosa encostada numa das paredes, duas cadeiras com estofamento cor de vinho de espaldar alto e encosto desenhado. Um pequeno tapete feito de barbante estava na porta do banheiro que, ao contrário do resto do ambiente, era bastante moderno, com azulejos brancos e violetas na janela, flores que estavam espalhadas por todo o quarto, em pequeninos cachepôs pintados à mão. Um sofá de dois lugares estava num outro canto, formando uma espécie de saleta de leitura. Mas o charme do quarto não residia em sua decoração simples, mas muito agradável, o que chamava a atenção era a cama de casal. Tinha pés altos, porém não muito grande. Estava forrada com uma colcha branca, cheia de bordados lilases formando pequenos arabescos. O colchão era alto e parecia muito macio. Mas o que ela tinha de realmente encantador era o dossel que a complementava. As quatro colunas erguiam-se em desenhos caprichosos, entalhes harmoniosos sobre a madeira escura. As cortinas que a circulavam e que estavam amarradas às colunas por laços de fita, eram feitas de tecidos leves e rendados que não escondiam a beleza do interior que convidava ao repouso ou ao amor. O acabamento superior era feito do mesmo tecido das cortinas e imitava um teto abobadado. Podia-se sentir o aroma suave e adocicado que vinha de dentro dela, talvez provocado pelos dois pares de travesseiros altos, provavelmente feitos com ervas. Mulder quebrou o silêncio contemplativo da parceira. _ Você escolheu _ disse quando a parceira o fitou com a sobrancelha erguida _ Agora eu não saio desse quarto nem que você me implore. _ Esta cama é maravilhosa, Mulder. Não imaginei encontrar algo assim, aqui. Foram interrompidos pelas batidas na porta. _ Desculpe incomodá-los _ Raquel entrou _ Vim trazer as toalhas. _ Tudo bem _ Scully respondeu _ Esta mobília é muito bonita. _ Alguns itens são apenas réplicas para dar uma idéia de como eram os móveis naquela época. Mas esta cama é original. Elias ajudou a restaurá-la, embora não houvesse muito a fazer. A madeira é de excelente qualidade. Dizem que pertenceu a uma antiga dama da sociedade. Tivemos apenas que substituir o tecido do dossel que estava rasgado e manchado. Aproveitamos para usar tecidos mais leves, uma vez que, aqueles tecidos aveludados usados antigamente, não se aplicam aqui. Tornaria o leito muito quente. Fiquem à vontade. A garota saiu e Mulder se jogou na cama . _ Scully _ ele sorriu com malícia _ Não sei quanto a você, mas eu vou adorar dormir aqui. _ Está vendo aquele sofá ali, Mulder ? Eu sei que você adora sofás... _ Nem pensar...eu disse que poderia ficar na casa da Raquel _ ele riu zombeteiro _ Agora não vou dormir no sofá... _ Ok ! _ ela falou resignada _ Eu posso ficar lá . _ Você é quem sabe, Scully ! Mas se mudar de idéia, tem espaço pra nós dois aqui. Ela não disse nada, foi ao banheiro, desfez a mala, enquanto ele permanecia deitado, vendo-a se movimentar. Ao terminar ela sentou-se aos pés da cama. _ O que vamos fazer ? _ Não faço idéia. Você é a guia, está lembrada ? _ Poderíamos comer alguma coisa... Ele concordou e após alguns minutos estavam na recepção. _ Raquel _ Mulder perguntou _ Sabe um lugar onde poderíamos almoçar ? A mulher indicou um restaurante no mapa, avisou para que eles escolhessem os pratos da região, que eram a especialidade , que não exagerassem na quantidade, uma vez que, eram comidas fortes e muito diferentes do que eles estavam acostumados. Antes de saírem, a mulher olhou para Scully e os trajes que estava vestindo. _ Senhora _ Ela chamou-a _ Se posso dar-lhe um conselho, acho que deveria colocar algo mais leve _ comentou, olhando para o conjunto negro que ela usava, não muito social,mas muito pesado para o local _ E, principalmente, trocar os sapatos por outros mais baixos. As ruas aqui são muito íngremes e o calçamento é feito de pedras, poderá machucar-se. _ Estou acostumada, Raquel, obrigada, mas tem razão quanto à roupa, vou voltar e deixar o casaco no quarto_ falou dirigindo-se a Mulder. _ Deixe-o aqui, pode pegar na volta. Ela assentiu e saíram para a rua. _ É um lugar agradável, Mulder _ ela começou _ Parece que voltamos ao passado. Ao chegarem ao final de uma rua, viram a cidade aos seus pés. Ouro Preto está encravada entre os montes. No alto, pode-se ver as igrejas dominando a paisagem. As ruas estreitas de calçamento irregular, aliadas às construções altas e geminadas, as calçadas de pedra amarelada, os telhados escuros de telhas côncavas, as paredes brancas, as sacadas floridas de alguns casarões, davam um aspecto romântico ao lugar. _ Tem certeza de que não quer trocar esses sapatos, Scully ? _ Mulder perguntou olhando para a ladeira e novamente para os pés dela. _ Eu estou bem, Mulder. Começaram a descer. O sol estava a pino e logo eles estavam começando a sentir os efeitos da diferença de temperatura. Scully escorregou nas pedras, mas Mulder ainda teve tempo de ampara-la. _ Tem certeza ? _ ele perguntou novamente. _ Eu não tenho nada melhor do que isso para usar, Mulder. Se soubesse que não iríamos caçar e sim escalar montanhas teria vindo preparada _ respondeu mal humorada. Ele não rebateu. Preferiu mudar de assunto. _ Segundo o guia, o restaurante fica logo depois da praça Tiradentes. Quando chegaram à praça, pararam para recuperar o fôlego e olhar ao redor. Havia um monumento no centro, com a estátua de um homem no alto. A praça era circundada por casarões antigos, cujo primeiro andar era tomado por lojas e restaurantes. Nos pavimentos superiores ficavam principalmente hotéis e pousadas. Havia uma construção maior num dos cantos. Como um museu. Começaram a descer a rua, ainda mais íngreme e o salto de Scully prendeu-se numa das pedras, ao retirar o salto ela perdeu o equilíbrio e caiu de costas no chão, antes que Mulder pudesse socorrê- la. ¨Ela caminhava por um corredor estreito e muito limpo, finamente decorado. Retratos nas paredes lembravam cenas cotidianas ou imortalizavam o perfil dos moradores. Havia flores frescas nos vasos sobre os aparadores encostados às paredes. No final do corredor, ela viu uma porta entreaberta e a curiosidade levou-a até lá. Entrou de mansinho. Uma mulher idosa, os cabelos completamente brancos, a face enrugada, fitava o céu à distância através da janela aberta. Seus olhos estavam úmidos e ela pode ver que chorava. Sobre seus joelhos, estava um envelope e algumas folhas espalhadas. Um sentimento que ela não conseguia explicar a impelia a seguir em frente e ela parou ajoelhando-se e tomando as mãos trêmulas da senhora entre as suas. Seus olhos se encontraram e ela pode ver toda a tristeza que se espelhava naquela face venerável. A mulher puxou-a de encontro ao peito e deu-lhe um abraço apertado e, quando deu por si, choravam juntas." _ Scully ? _ Mulder chamava apreensivo, vendo que ela abria os olhos lentamente _ Com está ? Me reconhece? Scully abriu totalmente os olhos, balançando a cabeça. Estava deitada no chão, vendo a expressão apreensiva e zangada do parceiro sobre ela. Ele apoiou a cabeça dela na perna, ajudando-a a sentar-se. _ Você está bem ? Ela confirmou com a cabeça. _ Estou Mulder. O que aconteceu ? _ Ela perguntou passando as mãos pelo rosto _ Onde está a senhora ? _ Que senhora ? _ ele perguntou apreensivo _ Não há nenhuma senhora aqui. Você caiu e perdeu os sentidos por alguns segundos. É melhor procurarmos um médico. _ Não _ ela interrompeu _ Eu estou bem. _ Culpa desses malditos sapatos _ ele praguejou, tirando-os dos pés dela. Scully não teve tempo de prever a reação dele que, segurando um deles pela frente, bateu o salto com força sobre a guia da rua, arrancando o salto, processo que se repetiu com o outro pé. _ Mulder ? _ ela ia protestar, levantando-se quando sentiu a dor no tornozelo e gemeu baixinho. _ Torceu o pé, não foi ? _ ele concluiu, mesmo com o esforço dela em manter-se indiferente _ Vamos voltar ao hotel e ver se conseguimos alguém pra ver isso _ Ele concluiu, apoiando-a pelos ombros. Scully não reclamou. Apenas seguiu-o mancando até um táxi. O homem entendeu o que eles queriam pelos gestos que faziam e levou- os até o endereço do hotel que Mulder lhe mostrou. Na recepção, Raquel veio ao encontro deles, deduzindo, pelos sapatos sem saltos que ela calçava, assim como pelo modo como mancava, o que havia acontecido. _ Sinto muito _ ela começou _ Isso é bastante comum por aqui, por isso avisei. _ Eu sei, mas a doutora aqui sempre sabe o que faz _ ele respondeu contrariado. Scully não disse nada. Tentou pisar no chão mas não conseguiu e Mulder percebeu-lhe as feições de dor. _ Pode abrir a porta do quarto pra mim ? _ pediu à recepcionista, enquanto suspendia Scully nos braços _ E você _ falou buscando os olhos dela _ Fique quieta ! Seguiram silenciosos pelo corredor e Raquel abriu a porta. _ Acho melhor chamarmos um médico para dar uma olhada. Na maioria dos casos, é apenas uma torção que amanhã não estará mais doendo, mas não custa prevenir. _ Eu mesma cuido disso, Raquel _ Scully falou pela primeira vez. Mulder agradeceu a garota e levou-a até a porta. _ Obrigado Raquel. Ela é médica. Poderia apenas me conseguir um analgésico ? A garota saiu deixando os dois sozinhos. Mulder sentou-se ao lado dela na cama. _ É grave ? _ perguntou vendo-a examinar o pé. _ Não, apenas uma torção, uma bolsa de gelo e um analgésico resolverão..._ ela o encarou _ Desculpe. Ele a fitou arrependido. _ Eu é que tenho que pedir desculpas, fiquei preocupado quando você desmaiou. Tem certeza que não sente nada na cabeça ? _ ele perguntou, levantando-se e passando a mão pelos cabelos dela em busca de ferimentos. _ Eu estou bem...Sério _ ela afirmou, olhando para ele_ A dor está passando e..._ a expressão dela modificou-se_ Você tem idéia de quanto custou aqueles sapatos sem salto agora ? Ele riu, pegando um deles no chão. _ Estão mais apropriados desse jeito. _ Me deve um novo par. Ela foi interrompida pelas batidas na porta. Raquel trazia um comprimido e uma bolsa de gelo. _ Acho que será útil _ ela falou, apoiando o pé da mulher numa almofada _ Não quer tomar um banho e trocar essa roupa ? Seria melhor tirar a meia calça. Mulder saiu silenciosamente, enquanto Raquel ajudava Scully. Voltou à recepção e encontrou Elias. _ Que bom que está aqui, Sr. Mulder. Não foram almoçar ? _ Minha parceira machucou o pé _ Ele contou _ Saiu com aqueles saltos ? _ ele perguntou com ironia. Mulder balançou a cabeça concordando. _ Mulheres... _ disse somente. _ É uma pena. Consegui que abrissem a gruta hoje para vocês darem uma olhada. Não sei se será possível depois. Há muitos turistas chegando e... _ Não cancele. Eu vou com você. _ Ok. Eu ia convida-los para dar uma volta pela cidade, mas... _ Eu preciso de algumas coisas. Talvez você possa me ajudar... Raquel voltou ao quarto minutos depois, para avisar a Scully que Mulder saíra com Elias e que pedira para que trouxessem algo para ela almoçar. Ela suspirou. Não teria o que fazer. Almoçou no quarto e acabou adormecendo sob o efeito do analgésico. ¨Ela estava no meio da rua, caminhando pela calçada, mas era como se não estivesse lá. As pessoas se cumprimentavam cordialmente quando seus passos se cruzavam no caminho, sorrisos amáveis, acolhedores, por vezes apressados, mas sempre correspondido. Porém ninguém a notava, ela era mera espectadora do que acontecia. Achou estranho. Parecia estar numa festa à fantasia. Até que chegou à praça e seus olhos não acreditaram no que via. Algumas carruagens cruzavam em todos os sentidos. Homens passavam apressados, vestindo casacas e botas, outros vestidos rudemente, com trajes simples de algodão. O mesmo se passava com as mulheres, que arrastavam seus longos vestidos, uns simples em tecido rústico, outros ornamentados com fitas, laços e flores. A pele branca protegida por sombrinhas leves. Havia muitos negros que ela entendeu serem escravos, pois faziam todos os trabalhos. Desde as mulheres que carregavam potes de água amparados nos quadris ou perigosamente apoiados à cabeça, aos homens musculosos que traziam aos ombros a haste que apoiava espécies de liteiras onde mulheres com olhar enfastiado ou homens de feições sisudas eram carregados. Ela fechou os olhos, acreditando que sonhava, mas ao abri-los a mesma cena continuava à sua frente. As casas eram as mesmas, porém novas e bem cuidadas, o movimento era intenso. Seus olhos foram atraídos para uma mulher em particular. Era uma bela jovem de cabelos negros, presos à nuca por laços. Sua pele era muito branca, seu corpo esbelto e pequeno davam-lhe um ar gracioso. Sem que percebesse, ela começou a segui-la, como se estivessem presas por algum laço invisível. A garota desceu algumas ruas após aa praça e entrou numa igreja. Ela a acompanhou. A construção era feita no mesmo estilo dos casarões, com suas paredes grossas e brancas. Possuía duas torres, onde os sinos tocavam estridentes. Ao entrar, ela parou analisando a beleza arquitetônica da obra. A segunda porta estava fechada e ela logo percebeu o motivo. Do teto pendiam três lustres magníficos, feitos com pingentes que, ao receberem as luzes vindas das velas, brilhavam como prismas, irradiando um brilho prateado sobre a nave. Não havia bancos e ela estranhou, mas continuou caminhando. Pessoas chegavam de quando em quando, seus escravos traziam pequenos bancos para seus amos se sentarem, mas não permaneciam no recinto, de cabeça baixa e com os ombros caídos, eles saiam rapidamente, esboçando um gesto respeitoso em sinal de cruz, com os olhos assustados e tristes. A igreja era muito nova, sentia-se ainda o cheiro da tinta nas paredes. O teto era pintado com cores e símbolos que homenageavam passagens bíblicas e as armas da coroa. Mas os mais impressionantes eram os nichos onde se encontravam imagens de santos tão bem talhadas que pareciam estar mesmo presentes ao culto. Eram imagens simples em suas concepções, mas grandiosas na expressão e maestria com que tinham seus semblantes retratados, cada músculo e gesto demonstrando adoração ou sofrimento. Cada nicho era feito dentro do estilo que ela acreditou ser o barroco, dada à quantidade de detalhes e rebuscamentos, além da enorme quantidade de tinta dourada que adornava pilastras, vestes e detalhes entalhados. O altar era também uma obra preciosa. Retratando anjos e santos e tendo ao centro a imagem de uma santa. Ela notou a disposição em que as pessoas se colocavam. As mulheres ao centro, os homens ao lado, junto à balaustrada feita com pequenas pilastras retorcidas em forma de espiral. À frente, os lugares pareciam reservados ao clero. Um padre ricamente trajado deu inicio ao culto. Mas ela não o escutava, viu a garota com gestos contidos, orar de cabeça baixa. Ao término da celebração, ela continuou acompanhando-a até que na porta da igreja, viu-a se dirigir a um rapaz alto e esguio, vestido elegantemente. Ele ofereceu-lhe o braço e ela pode ouvir o que falavam. _ Chegaste atrasado novamente _ ela o repreendia. _ Perdoe-me senhorita. Tive uma reunião e fiquei retido. _ Algo novo sobre o ... Ele calou-a com os dedos. _ Não fale sobre isso. Sabe dos perigos. Não a quero envolvida e já me arrependo de ter-lhe segredado. _ Sabes que concordo e apoio totalmente sua causa. É a única solução cristã a ser tomada. Não podemos continuar vendo essas pobres criaturas serem maltratadas e mortas. Os pesados tributos, que somos obrigados a pagar, já nos tem onerado consideravelmente e a coroa nada faz para melhorar o estado das coisas. _ Por favor, minha bela, cala-te. Não vê o perigo ao qual tuas palavras nos expõem ? Não se deixe levar pela paixão, essa não é uma luta romântica. _ Logo tu, vens me dizer isso ? Sei o quão apaixonado és por essa causa. _ Estais certa _ ele sorriu, beijando-lhe a mão, ao se aproximarem do portão _ Trouxe-lhe o trecho de algo que escrevi pensando em ti _ concluiu estendendo-lhe um papel _ Nos vemos logo mais. Ela tomou o papel nas mãos e entrou sorridente. Scully a acompanhou. Ela entrou no quarto distraída, uma garota negra que parecia ter a mesma idade que ela aproximou-se curiosa. _ Sinhazinha foi vê o sinhô ? _ perguntou curiosa. _ Sim, Dalva _ ela sorriu _ Deu-me este poema. Queres que o leia pra ti ? A menina balançou a cabeça afirmando sorridente. _ Sente-se aqui _ a moça convidou. A outra parou assustada. _ Sinhazinha sabe que aí não é meu lugar. Não posso sentar junto da sinhazinha. O sinhô pode ralhar. _ Você é minha amiga, Dalva, sabe que não concordo com isso. Não a tratei sempre como minha amiga ? A moça sorriu e ela continuou. _ Pois então, já que não posso mudar as coisas lá fora, faço- as em meu mundo. Aqui, no meu quarto, a minha vontade prevalece. Venha fique junto de mim. A garota aceitou e ambas riram e sonharam juntas com as estrofes do poema delicado e apaixonado. Mas a porta abriu-se com estrondo e ambas se assustaram, assim como Scully que sentiu como se a estivessem sugando do lugar.¨ Abriu os olhos assustada e sentou-se imediatamente na cama. Seu rosto estava perolado de suor. Encontrou os olhos aflitos do parceiro sobre ela. _ O que aconteceu ? Você está bem ? Ela passou a mão pela testa. Buscando as imagens de segundos antes. Levantou-se rapidamente, mas ao tocar o chão, lembrou-se do pé machucado e sentiu uma pontada de dor. _ O que está fazendo ? _ Mulder impediu-a de seguir, segurando-a pelo braço. _ Tinha me esquecido do pé _ ela explicou _ Pode me ajudar a chegar até a janela ? _ O que tem lá ? _ Nada. Só quero ver uma coisa. Ele estendeu-lhe o braço e ela apoiou-se chegando à janela e vendo a cidade iluminada pela lua. Mas não era a mesma como que sonhara. Alguns carros passavam apressados e podia-se ouvir claramente o barulho de tambores e sons vindos da praça. Ela fechou os olhos e balançou a cabeça, como se quisesse afastar um pensamento _ Scully, o que foi ? Está se sentindo bem ? Ela olhou para ele. _ Sim, tudo bem Mulder. Que barulho é esse ? _ O carnaval. Cheguei agora e passei pela praça. Você precisa ver aquilo, Scully _ ele falou com ironia _ Totalmente primitivo _ riu com gosto. _ Onde esteve até agora ? _ Estava com o Elias. Nós fomos até a gruta. _ Encontrou seus homenzinhos cinzas ? _ ela perguntou com sarcasmo _ Se bem me lembro este era o meu presente e eu passei o dia trancada aqui, sozinha _ ela enfatizou. _ Da próxima vez, procure ouvir os conselhos dos nativos. Se estiver bem e usar um sapato adequado, poderemos visitar suas igrejas amanhã. _ Só que meu sapato foi destruído numa crise de nervos, esqueceu ? _ Só trouxe aquele ? _ E de quantos pares de sapato acha que eu precisaria ? _ Puxa Scully, não conhecia esse seu lado econômico. Quando formos viajar de novo, vou pedir pra que arrume minha mala...Mas não tem problema, eu tenho o controle da situação_ ele sorriu, pegando algumas sacolas no chão. _ Pra mim ? _ ela sorriu, os olhos brilhando _ Presentes ? Ele riu do jeito dela. Afinal não passava de uma garota. Conseguia ser pratica, racional e equilibrada, mas seus olhos brilhavam infantis quando recebia algum presente, como qualquer adolescente. _ Veja se servem. Tive que usar a imaginação. Ela abriu a sacola. Havia uma caixa com um par de tênis, tipo keds. _ Ótimo _ ela brincou _ Vai ficar perfeito com um tailler. _ Continue _ ele interrompeu. Na outra havia um outro sapato, um scarpin preto de salto baixo e na última, uma calça jeans e outra de tecido leve, semelhante a um linho rústico, com um cordão no cós de cintura baixa. _ Obrigada Mulder _ ela agradeceu, experimentando os sapatos que serviram muito bem_ Agora estou preparada para escalar qualquer coisa _ sorriu. _Quer jantar ? _ ele convidou _ Pedi para trazerem algo para comermos. Não é regra na casa, mas eles abriram uma exceção devido ao seu estado. _ Ou devido ao seu charme _ ela brincou. _ Como assim ? _ A Raquel está encantada com você ... _ Está brincando ? _ Não diga que não notou, Mulder. _ Eu já estou acompanhado, apesar de que, só de olhar para aquele sofá _ ele apontou _ Me dá vontade de aceitar o convite que ela fez. Você fez de propósito, não é ? _ Como assim ? _ Machucar o pé...Só pra eu ficar com dó de deixa-la dormir no sofá. _ Eu posso dormir lá, Mulder _ ela tornou conciliadora _ Você não caberia ali. _ Depois vemos isso _ ele concluiu Jantaram tranqüilamente. Mulder contou o que tinha feito. Foram até a gruta, ficaram lá estudando o local, mas não havia nada que denotasse a presença de alguma manifestação estranha. _ Vou voltar lá depois. Acha que estará bem para caminhar amanhã ? _ Eu já estou bem, Mulder. _ Tem certeza ? Você não parece bem. _ Porque ? _ Não sei, apenas não me parece bem. Quer sair um pouco ? Poderíamos dar uma olhada no carnaval _ ele perguntou sorrindo. _ Ver o Carnaval ? _ É Scully, pode ser divertido... _ Não vejo diversão em ficar no meio desse barulho ensurdecedor, vendo pessoas se contorcerem como se estivessem pegando fogo. Ele riu. _ Não é bem assim, Scully. Até que tem um ritmo gostoso. E pegar fogo de vez em quando não é totalmente ruim... Scully estava pensando em outra coisa. Nos sonhos tão reais que estava tendo. Quem seria aquela senhora e a garota que ela vira ? Porque uma estava tão triste e porque se irmanara com ela na dor ? Sentia seu peito dolorido pelo sofrimento da mulher, como se ambas sofressem do mesmo mal. Estava triste, não sabia exatamente o motivo. Havia gostado da cidade, estar com Mulder já era suficiente, mas algo a incomodava. _ Scully ??? _ Mulder a fitava intrigado. _ Sim ? Ah ! Mulder vá você, não estou com disposição para ver isso. Vou me deitar, estarei bem. Mulder suspirou. O que ela estaria escondendo ? Era claro em sua expressão que algo a estava incomodando. Será que estava irritada por estar ali, por ter que dividir um quarto com ele, machucado o pé ? Não saberia dizer, mas ela não estava bem como queria fazê-lo acreditar. A reclusão a que ela se relegara voluntariamente o magoava de certa forma. Queria saber o que ela sentia, o que a preocupava e alegrava, mas ela raramente permitia que ele soubesse. Era obrigado a usar todo o seu conhecimento psicológico para descobrir, adivinhar por pequenos olhares e gestos. Era com se estivessem num divã em que a retraída paciente apenas olhava os minutos do relógio escoarem anunciando o fim da sessão e saísse sem dizer nada. Enquanto ele tinha que analisar um sem número de insinuações e expressões que poderiam significar tudo ou nada. Na maioria das vezes, conseguia ao menos se aproximar, mas desta vez, ele não fazia a menor idéia e aquilo o angustiava. Talvez ela simplesmente estivesse cansada de tudo aquilo. De correr atrás de monstros e fantasmas e talvez a presença dele, o sentimento de lealdade que os unia, estivesse impedindo-a de conseguir mudar. Porém esse pensamento, longe de dar-lhe alívio, deixou-o ainda mais preocupado. Ela estava na janela e seus olhos repousavam num monte à distância. Perdeu-se em pensamentos e ele apenas ficou olhando-a, querendo, mas sem saber o que falar. Scully nem se deu conta de que ele havia saído. Somente percebeu que não estava no quarto quando ouviu o chamado vindo da rua. Ele acenava para ela. _ Não vá se resfriar ficando na janela. Pegue um cobertor, dizem que a noite é fria aqui. Não vou demorar. Ela acenou com a cabeça e ficou observando-o até sumir na curva da rua, em direção à praça. Voltou-se para o interior do quarto e hesitou entre a cama e o sofá. Decidindo-se, deitou-se lentamente e fechou os olhos, após alguns instantes, sua respiração tornou-se lenta e compassada. Estava sonhando novamente. "Ela ouvia a discussão vinda da sala. Encaminhou-se para lá a tempo de ver a mesma garota caminhando de um lado para o outro. _ O senhor não podia ter feito isso ! _ ela gritava _ Componha-se menina. Sou seu pai e sei o que é melhor para você. _ Ela era minha amiga ! _ ela retrucou, os olhos molhados de pranto. _ Negros não são nossos amigos _ ele vociferou _ São nossos escravos. Minha filha não vai se misturar a essa raça ! _ Somente mentes pequenas e mesquinhas como a do senhor meu pai e seus conterrâneos poderiam pensar dessa forma. Mas a resposta foi tão surpreendente quanto dolorosa. O homem desceu a mão sobre a face da filha, tão violentamente que a fez cair. A mãe, que até então se mantinha encolhida num canto da sala, tentou aproximar-se mas ele a deteve. _ Afasta-te. Deixe-a aí até aprender a respeitar e honrar seu pai e seu nome _ disse e voltando-se para ela continuou _ Seu noivo é pessoa respeitável e temo que ele venha a descobrir teus desatinos adolescentes. Avia-te imediatamente para não colocar a perder o contrato que tão arduamente conseguimos para ti _ cortou saindo da sala, com a esposa soluçante atrás. Os olhos de Scully estreitaram-se perigosamente. Sentia-se impotente, mas como tinha vontade de avançar sobre o homem e apertar-lhe o pescoço com as próprias mãos. A garota soluçava encostada ao sofá, enquanto lamentava-se silenciosamente. Scully podia ouvir-lhe o pensamento _Ah, Tomás, graças dou diariamente por saber-te contra tais pensamentos odiosos. Minha pobre Dalva, minha insolência a afastou de mim...perdoa-me minha amiga...sinto não poder socorrer-lhe nesse momento. Mas um brilho novo surgiu em seus olhos. _ Talvez não eu, mas tenho certeza de que meu Tomás poderá fazer algo. Ela levantou-se passando a mão pelo rosto dolorido. Foi ao seu quarto e, vestindo uma capa e apanhando a sombrinha, saiu para a rua. Foi bater à porta de um enorme casarão, numa das ruas que surgia da praça. Um escravo veio atendê-la e ela pediu para falar com o noivo. Minutos depois era introduzida numa sala de aspecto sóbrio e elegante. As estantes forradas de livros, a enorme mesa de madeira sólida que ocupava grande parte do ambiente, assim como, os tecidos escuros que cobriam as janelas, mostravam que ali era um local de trabalho e estudos. _ Minha cara ! _ o jovem aproximava-se dela _ Quanta honra receber-te em minha casa. O que houve ? _ perguntou notando a face avermelhada da garota. _ Senhor, preciso de teu conselho e auxílio se possível. _ Tens em mim um ouvinte atento. _ Lembra-se de Dalva, não é ? Minha camareira ? _ Sim, claro que me lembro. Tantas vezes ela foi o correio que nos uniu. _ Pois então. Estava ensinando-lhe as primeiras letras e meu pai descobriu. Fui insubordinada e temo que minha rebeldia a fará sofrer. Meu pai mandou açoitá-la pela soberba e vende-la. A pobre deve estar sofrendo agora nas mãos dos feitores e meus argumentos foram todos vãos. Tomás andava pelo escritório, tal qual ela quando estava em casa. Seus dedos estavam enterrados nas palmas. Que situação odiosa aquela. Quando iria terminar ? Precisavam de liberdade, todos precisavam, inclusive eles. _ Não te aflijas. Mandarei um homem até o mercado e mandarei comprá- la. Aqui em casa estará em segurança. Mas nada posso fazer quanto ao castigo. _ Sabia que poderia contar com seu socorro. Quando isso irá acabar ? _ Ainda é cedo para dizer. Há muitos interesses em jogo e a coroa não será generosa. Conversaram um pouco mais e ela voltou a casa mais tranqüila. Scully se viu numa outra cena. Vários homens se reuniam e ela compreendeu que tramavam algo às escondidas. As discussões acirradas, os discursos acalorados davam idéia do que estava se preparando. Em seus sonhos, ela era capaz de entender o que eles planejavam, compreendia o idioma falado, como se estivesse sendo dito diretamente à sua alma. Era uma conspiração para derrubar o governo e libertar os escravos e, entre os conspiradores, ela reconheceu a figura de Tomás, noivo de sua misteriosa amiga. Numa outra cena, viu-os conversando sobre um futuro matrimônio. Ele adiava o compromisso justificando-se perante a família dizendo querer estar em condições estáveis para oferecer o melhor à jovem noiva, apesar da destacada posição que já desfrutava junto ao governo. Mas ela sabia que não era essa a razão e sentia-se aflita. _ Tomás, sei que tens planos. A conjuração está próxima. Posso senti- la, embora não me digas nada. Porque não me coloca ao seu lado ? Sabe que se descobrirem algo, estaremos em lados opostos, mas se já for tua esposa, nada poderão fazer. Atravessaremos os conflitos juntos. _ Não posso permitir que faças isso. Não a quero envolvida. O que estamos tentando é muito arriscado. Você deve permanecer em segurança. Se algo me acontecer... _ Nada irá te acontecer. Por favor, não aumente minha agonia. _ Escute-me, por favor _ ele cortou segurando-a pelos ombros _ Se algo me acontecer, quero que siga sua vida, que guarde de mim os poemas que lhe escrevi, é tudo que poderei te deixar. _ Não me peça isso... _ Senhorita ! Sabes dos meus sentimentos, não me torture dessa forma. Não podemos nos arriscar. Ela tinha os olhos molhados, mas muito determinados. _ Esperarei o tempo que for necessário. Jamais pertencerei a ninguém que não a você. ¨ Mulder saiu para a rua meio desanimado. Aquilo não era de maneira alguma o que esperava daquela viagem. Passara a tarde e o principio da noite olhando o céu sem qualquer sinal, nenhuma pista a seguir. Scully não estava com ele e alguma coisa no jeito dela dizia que não estava bem. Caminhou e misturou-se à multidão que cantava e pulava, sorrindo pelas ruas. Esperava que toda aquela balburdia pudesse aplacar a infelicidade que se instalava confortável dentro dele. Reconheceu Elias, sentado no monumento no meio da praça e seguiu para lá. _ Olá, forasteiro _ Elias cumprimentou e Mulder notou que ele já estava um pouco mais alegre que o costume _ Veio ver nosso ritual ? Mulder sentou-se ao lado dele, para conseguir ouvi-lo. _ Precisava de um pouco de ar _ ele explicou. _ Onde está a bela ruiva ? Mulder sorriu com tristeza. _ Está no quarto ... Elias olhou para ele e levantou-se chamando-o. _ Venha . Acho que estamos sofrendo do mesmo mal. Vou ajudá- lo a aliviar a dor, ou pelo menos torná-la mais divertida. Eles seguiram para um bar numa das esquinas. _ Você vai provar a melhor bebida da região _ Elias falou pedindo ao atendente o que queria. _ Você está bem ? _ Não, e você também não está. Então vamos comemorar. Mulder ergueu as sobrancelhas. Elias estava começando a ficar embriagado, seja lá o que fosse que estava bebendo. _ Aconteceu alguma coisa ? _ perguntou _ Acabei de levar um chute memorável. _ Ah ! _ Mulder levantou a cabeça em sinal de entendimento. _ E esse é para você ! _ disse oferecendo um copo pequeno com um líquido transparente e meio amarelado para ele. _ O que é isso ? Eu não estou precisando de uma bebida... _ Ah , está sim. Vai me dizer que vir para esse fim de mundo, com uma mulher linda com quem convive diariamente e que não quer dividir um quarto com você e dizer que está procurando alienígenas ,não é sinal de que está precisando de uma boa dose ? Mulder riu da conclusão dele. _ Pensando por esse lado... _ ele experimentou a bebida. Era ardente mais muito saborosa. _ E aí ? Não é boa ? _ Sim, mas acho que não devo beber mais, caso contrário, não passarei a noite nem num sofá. _ Ela é brava assim ? _ Uma fera, eu diria _ Mulder riu _ Vai perceber imediatamente que eu estive bebendo. Mas é minha amiga, a única que tenho. _ As mulheres são o diabo, não é ? _ Nem me fale. Acho que nunca entenderemos o que elas querem de nós. _ Bom...no seu caso, mesmo estando bêbado com estou, eu sei dizer o que ela quer. _ O que quer dizer ? _ Em que vocês trabalham para serem parceiros ? _ Somos investigadores do FBI. _ Uau ! Mas admiro que você ainda esteja vivo. É mais cego que um poste. _ Elias, acho que você já bebeu demais. _ Só um cego não perceberia o que aquela mulher quer. Pelo amor de Deus ! Atravessar um monte de países pra caçar ets nos quais ela nem acredita ? Você deve estar brincando. _ Ela é minha amiga. Gosto que seja assim. _ Ah ! Claro ! Então porque está aqui, tomando a terceira dose, preocupado com o que ela vai pensar ? _ Nós não temos o envolvimento que você imagina. _ Pela sua cara, deve ser só porque ela não quer. _ Temos muito a perder e acho melhor mudarmos de assunto. O que tem pra fazer nessa cidade ? _ Ok, você manda ! Mas se ficar nessa moleza...Venha, vamos atrás de alguma que nos queira. _ Elias _ Mulder parou _ Não vim procurar isso. Minha parceira está aqui por minha causa, não vou sair caçando aventuras. _ Acho que você não bebeu o bastante. Ela não está dando a mínima pra você mesmo, não é ? Quem sabe você arranja um lugar melhor pra dormir ? Com seu tipo não vai ser difícil. _ Acho melhor voltar para o hotel. _ Não fique aqui. Ok, ok, não vamos falar de mulheres, parceiras ou seja lá como diabos você queira chamá-las. Vamos ficar aqui apenas conversando. _ Acho que pra mim já chega. Boa noite Elias. Mulder se levantou e atravessou a praça. Olhares insinuantes caiam sobre ele. Algumas garotas chegavam a esbarrar nele que permanecia impassível. Alguns sorrisos e pedidos de desculpa foi tudo o que conseguiram. Ele caminhou sozinho por alguns minutos. Não queria voltar ao hotel. Scully estaria dormindo e ele teria que se ajeitar naquele minúsculo sofá. Elias tinha razão, só não partilhavam o mesmo leito porque ela não queria, nunca deixara transparecer que o quisesse realmente. Nada do que tinham vivido juntos poderia levar à conclusão de que ela queria ser mais do que sua parceira. Ele suspirou, colocou as mãos nos bolsos e seguiu para junto dela. Não havia nada que quisesse fazer ali, sozinho. Abriu a porta devagar e sorriu ao vê-la deitada no sofá. Era pequeno até para ela. Estava encolhida quando ele se aproximou. Seus olhos se moviam rapidamente. Deveria estar sonhando e não parecia nada muito agradável, dada a sua agitação. Ele tirou as roupas que usava, colocou uma camiseta sobre as boxers e voltou ao quarto. Hesitou um momento pensando no que fazer, mas por fim, tomou-a nos braços e estendeu-a sobre a cama, cobrindo-a em seguida. Sentou-se na cadeira ao lado e apoiou os pés sobre a cama, observando-a até adormecer. _ Mulder ? Ele abriu os olhos devagar e encarou a parceira. _ Mulder o que faz aí ? _ Ai _ ele reclamou esticando os braços _ Estou quebrado. Acho que meu pescoço nunca mais vai voltar ao lugar. _ Porque não ficou na cama ? Eu estava bem no sofá. _ Estava toda encolhida, Scully. Ela balançou a cabeça e suspirou. _ Está bem. Então deite-se aqui. Não vai conseguir andar amanhã se dormir desse jeito. _ Eu já não estou conseguindo _ ele resmungou _ E você, aonde vai ? _ Como você disse, há espaço bastante para nós dois aqui. Ele aceitou imediatamente, pulando na cama . Scully afastou- se, seu coração estava acelerado. Um certo constrangimento instalou- se , até que ele quebrou o silêncio. _ Boa noite, Scully. _ Até amanhã, Mulder. Na manhã seguinte Elias veio buscá-los. Estava com cara de poucos amigos. Uma terrível dor de cabeça deixando-o mais irritado ainda. _ Ele está sofrendo os efeitos da noite passada _ Mulder sussurrou para Scully. _ Estava com ele ? _ Eu o encontrei na praça. Estava deprimido pelo fora que levou. _ E você o acompanhou ? _ ela perguntou buscando os olhos dele. _ Nunca dormi tão bem Scully. Estou na posse de todo o meu bom humor. Havia muitos lugares para se ver. Conheceram as igrejas ao redor da cidade, impressionados com a rica arquitetura delas. _ É por isso que a restauração aqui se torna complicada. Na época em que foram construídas, o ouro era mercadoria comum, mas hoje, gastaríamos milhões para recompor tudo. _ Imagino _ Scully falou impressionada _ Mas há uma outra igreja que não vimos, não há ? _ Sim, há várias, mas vamos até a Nossa Senhora do Pilar e uma das mais ricas. Eles foram até lá e Scully sentiu um aperto no coração. Era a mesma com a qual ela havia sonhado. Os mesmos nichos, o altar imponente, as figuras sacras, tudo igual, apenas um pouco deteriorado pelo tempo. _ Não havia bancos aqui antes, não é ? _ Não, como sabia ? Cada pessoa tinha que trazer seu próprio assento, caso contrário, ficaria em pé. _ Nem tampouco os negros poderiam participar do culto... _ A senhora se informou bem. Os negros participavam da construção da igreja, mas quando a obra estava terminada, só podiam entrar para arrumar os assentos de seus amos, não podiam assistir ao culto. Eles tinham que construir a própria igreja. Em Mariana ainda há um pelourinho original onde os escravos eram castigados. Foram tempos terríveis. _ Mas nem todos concordavam com esse tipo de trabalho. Algumas pessoas se levantaram contra isso. _ Sim, mas as lutas que se travaram aqui, demoraram vários anos para terem o fim desejado. Scully caminhou até os primeiros bancos da igreja. Sentou-se fixando a imagem e, fechando os olhos, perdeu-se em meditações. Os dois homens conversavam baixinho, enquanto andavam pelo local. "Ela estava no quarto da garota, mas ele estava vazio. Havia muito barulho do lado de fora. Na sala o pai dela gritava impropérios. _ Não adianta. Você não vai procurar aquele homem infame. Indigno da confiança depositada nele. _ Mas meu pai, ele é meu noivo. _ Será que você tem algum problema ? Não vê que não existe mais noivado. Jamais permitirei que minha filha se case com um traidor abolicionista. _ Ele precisa de mim _ ela chorava aflita. _ Ah , os desvarios da juventude. Acaso não te ocorreu que se mantivermos contado com ele, seremos acusados de cúmplices dessa conspiração odiosa ? A nossa sorte é que tenho amigos influentes na administração da vila. _ Pai, deixa-me ao menos vê-lo uma última vez _ ela implorava. _ Não tente sair dessa casa, menina. Se fizeres qualquer coisa a esse respeito, eu a internarei num convento. Vá para o seu quarto e não saia de lá. A garota seguiu chorosa até lá. Não podia acreditar que todos os seus sonhos estavam arruinados. Tomás estava preso e seria enviado ao degredo em ilhas distantes, assim como vários de seus amigos. Pior ainda, um simples alferes seria enforcado e esquartejado. O horror daquela barbárie chocava a mente sensível da mulher. Caiu num choro convulsivo, mas sabia que precisava ver o homem amado antes que ele partisse. Um barulho na janela chamou-lhe a atenção. Correu até lá para ver Dalva andando disfarçadamente na rua. Fez um sinal para ela e a moça entendeu que precisavam se falar. Ela encheu-se de coragem e voltou à sala. Seu pai conversava com alguns homens. _ Senhor meu pai _ ela pediu cerimoniosa _ Levei muito em conta tudo o que me disseste e gostaria de pedir-lhe perdão. Sei que estás com a razão quanto às decisões que tomou. Apesar disso, sinto-me muito infeliz aqui e gostaria de pedir-lhe permissão para ir até a casa da Srta. Antonieta, minha amiga. Talvez a distração me traga algum alento. O pai não quis parecer intransigente diante dos amigos e permitiu que ela fosse, desde que sua mãe a acompanhasse. Ambas saíram minutos depois e chegaram a casa desejada que ficava numa das esquinas da praça principal, seguidas de longe pela, agora, escrava da casa de Tomás. Uma vez lá, a garota trancou-se com a amiga no quarto e contou-lhe suas dores. Embora sob protestos, Antonieta ajudou-a a ludibriar a fiscalização da mãe, que se distraia em conversa com a dona da casa e ela pode sair para a rua. Caminhou apressada até uma rua deserta e Dalva veio ao seu encontro. _ Ah , sinhazinha. Que desgraceira ! O pobre do sinhozinho está que dá pena. Uns homens chegaram lá ainda agorinha e ele só teve tempo de me pedir pra entregar isso pra sinhazinha. A garota pegou o papel com mãos trêmulas, reconheceu a caligrafia do homem amado, escrita às pressas. ¨ Minha preciosa Maria Joaquina, estrela de minha vida. Amada Marília de meus versos e minha devoção. Tudo daria para ver-te ainda um momento, mas não posso arriscar tua vida e reputação. Sou agora um homem sem recursos, sem nome, sem honra. Jamais mancharia tua cândida beleza com minha desventura. Saiba porém que, aonde quer que meus passos me levem, trarei comigo a lembrança de tua beleza etérea, de tua personalidade ardente e querida. Peço-te não me esperes. Sei o quanto minhas palavras a fazem sofrer, mas não tenho mais nada a oferecer-te além do meu mais imaculado sentimento. Terras além-mar me aguardam com tristes presságios. Talvez não viva para voltar a fitar teu semblante amoroso. Talvez meus olhos jamais repousem novamente na terra abençoada que adotei e amei. Terra que fez brotar almas generosas e adoráveis com a sua. Procura esquecer-me e seguir o destino que a vida traçou para ti, assim como eu procurarei seguir o que minha consciência chamou de dever com meus compatriotas. Meus sinceros cumprimentos, Seu eterno Dirceu, Tomás A. Gonzaga ¨ Marília terminou de ler a carta com os olhos muito abertos. Nenhuma lágrima caiu de seus olhos. Caminhou resoluta até sua casa e se trancou no quarto e lá, deu larga ao seu desespero. ¨ Scully abriu os olhos lentamente. Estavam úmidos e ela tentava disfarçar sua emotividade caminhando apressadamente até a porta. _ Scully ? _ Mulder chamou Mas ela continuou andando, quase correndo. _ O que está acontecendo com você ? _ Mulder segurou-a pelo braço, quando ela transpunha a segunda porta. _ Não é nada, Mulder _ ela respondeu passando a mão pelos olhos _ Apenas precisava de ar, estou sufocando aí dentro. _ Quer voltar ao hotel ? _ ele perguntou preocupado. _ Não...vamos continuar. Eu...estou bem. Eles percorreram mais alguns lugares, até pararem sobre uma ponte. Elias desceu e mostrou-lhes a construção ao longe. _ Ali viveu a noiva e musa inspiradora de Tomás Antonio Gonzaga _ explicou _ Maria Joaquina era seu nome, mas ele a chamava de Marilia nos poemas que fez, em homenagem a ela, com o pseudônimo de Dirceu. Scully tinha os olhos grudados em Elias. _ O que aconteceu a eles ? _ perguntou hesitante e num tom de voz muito baixo. _ O poeta era ouvidor e participou da Inconfidência Mineira. Eles tramavam derrubar o governo imperial, mas um dos seus os traiu e todos foram presos. Tomás foi degredado, Tiradentes foi enforcado e... _ Esquartejado _ Scully completou num murmúrio. _ Isso mesmo _ Elias concordou _ Seu corpo foi exposto por toda a região e sua cabeça foi colocada no local onde agora está a estátua dele, na praça. Dirceu, ou Tomás nunca voltou ao país, casou- se com outra mulher em Moçambique, aonde veio a falecer. _ Casou-se ? _ Scully cortou incrédula _ Sim. _ Mas e Marília ? _ Eles não puderam mais se casar. Os pais dela não permitiram. Mas ela jamais se ligou a outra pessoa. Morreu aos 91 anos, segundo dizem, de desgosto ao descobrir que seu Dirceu havia se casado. _ Que estória horrível _ ela balbuciou, mal contendo as lágrimas que teimavam em aflorar em seus olhos. Mulder a fitava surpreso e apreensivo. _ É apenas uma estória, Scully _ ele falou _ Como tantas outras de romances infelizes. _ Ele não podia ter feito isso _ ela cortou asperamente e saiu caminhando à frente deles. A casa de Marília era agora um colégio. Ela não quis entrar, apenas parou em frente à construção e pareceu ainda ver a bela mulher de cabelos negros e pele branca caminhando pelos corredores. Deu meia volta e seguiu apressadamente para o carro. _ O que há com ela ? _ Elias perguntou _ Parecia tão fria e agora está emocionada com uma estória dessas? _ Não sei _ Mulder balançou a cabeça _ Sinceramente não faço a menor idéia. Eles entraram no carro e permaneceram e silêncio. Mulder a olhava furtivamente. _ Quer voltar, Scully ? _ perguntou receoso. _ Faça como quiser, Mulder _ ela respondeu distraída, os olhos fixos na estrada. Mulder voltou-se para Elias que deu de ombros. _ Poderíamos ir até a gruta _ ele começou _ Talvez consiga que abram para vocês visitarem hoje. Scully não falou nada e eles seguiram para lá. A estrada estava vazia. Os montes brilhavam devido às rochas de mica que pontilhavam as encostas. Alguns quilômetros à frente eles viram as minas de onde se extraiam pedras semipreciosas, mas não quiseram parar. Já era quase final de tarde quando chegaram. _ É aqui que se encontram seus aliens ? _ Scully perguntou, saindo do mutismo em que se colocara e tentando parecer mais animada. Um garoto de quinze anos se aproximou. _ A gruta está fechada, Elias _ resmungou. _ Eu sei, Rafa, mas será que você não poderia abrir só pra eles darem uma olhadinha ? _ Eu não posso ficar aqui. Meu pai vai me levar à cidade. _ Você abre e depois eu deixo a chave lá. _ De jeito nenhum, meu pai me mata se eu perder outra chave. _ Eles vieram de longe, Rafa . _ Ele já veio aqui _ apontou para Mulder. _ Mas ela não. _ Tá bom _ ele resmungou _ Vou abrir e volto depois pra fechar. Eles caminharam até lá. Na entrada havia uma capela e Elias não se conteve. _ Isto é o que chamamos um sacrilégio . Essa capela não existia, a forma original da gruta era bem mais interessante. Há sete salões aqui, mas três foram bloqueados quando uma mineradora explodiu alguns trechos em busca de pedras. O celular de Elias tocou e ele afastou-se para atender. _ O que há de interessante aqui, Mulder ? Parece apenas mais uma caverna, nada demais. _ Não viemos aqui pela paisagem interna, Scully. Segundo Elias, algumas noites há um espetáculo à parte no céu da região. Eles fotografaram alguns deles, as fotos estão no carro. Podemos esperar até anoitecer ? _ Até que horas você pensa ficar aqui ? Ele a fitou inocente. _ Nunca pensou em fazer um acampamento ? _ Aqui ? Isso deve ficar gelado a noite, Mulder. _ Não ficaremos a noite inteira. Apenas algumas horas e depois voltamos pro hotel, por favor Scully ! Ela o fitou por alguns instantes e sorriu. _ Você sempre consegue o que quer, não é ? _ Nem tudo, Scully _ ele sorriu em retribuição _ Nem tudo _ Há algum problema se eu os deixar aqui ? Minha mãe não está se sentindo bem e eu preciso leva-la ao hospital. _ Precisa de ajuda ? _ Scully ofereceu. _ Não . ela é diabética e tem hipertensão, somente no hospital vamos conseguir estabilizar a situação. _ E como iremos embora ? _ Mulder interrogou. _ Eu vou deixar o carro, apenas vou tira-lo da estrada. Há uma vila aqui perto, eu consigo uma carona até em casa. Eles concordaram e Elias voltou alguns minutos depois, deixando a chave e os documentos do carro. Caminharam para o interior da gruta, Era totalmente arejado, a iluminação fraca mais constante. Passaram para o segundo e terceiro salões esgueirando-se pela entrada estreita. _ Mulder, porque estamos entrando aqui dentro se o que te interessa está lá fora ? Já está escuro. _ Não queria conhecer ? Achei que seria legal. Mas, de repente, as luzes se apagaram e eles se assustaram. _ Mulder, o que está acontecendo ? _ Scully perguntava sem enxergar nada _ Onde você está ? _ Continue falando, Scully. Eu alcanço você _ ele respondeu, tateando no escuro _ Talvez tenha acabado a força, ou sei lá. Vamos sair daqui _ disse chegando perto dela _ Me dê sua mão _ pediu estendendo o braço no escuro até encontrar a mão dela. _ Como vamos chegar até lá, Mulder ? _ ela estava irritada _ Não estou enxergando nada. _ Por acaso você não tem uma lanterna, não é Scully ? _ Tenho _ ela respondeu com raiva _ Em Washington. Lembre-me de usa-la em você quando chegarmos lá. Ele riu. _ Estava com saudades de te ouvir assim... _ Assim como ? _ Irritada. Pelo menos sei que está aqui e não há quilômetros de distância como passou o dia inteiro. Os gritos que eles deram não foram de nenhuma valia. O local estava deserto. Tateando no escuro e se orientando pelas imagens que tinham em mente, eles foram caminhando para a saída. _ Mulder como sabe que estamos indo no caminho certo ? _ Já estive aqui outra vez, Scully. Não há muito mais para se ver. Estamos no terceiro salão. Deve haver uma entrada logo à frente _ ele explicava com uma das mãos estendidas _ Aqui _ exclamou _ Teremos que nos abaixar... Ela o seguiu. _ Será que tem morcegos aqui, Scully ? _ ele brincou. _ Se tiver, Mulder, vão te morder primeiro e eu vou te deixar morrer aqui dentro. Ele resmungou. _ Teria coragem de me deixar aqui ? _ Você teve coragem de me trazer pra essa caverna, Mulder e ainda ficar me assustando. Sabe que morcegos são perigosos, não sabe ? _ Eu te protejo, Scully_ ele disse enfático _ Nenhum drácula irá macular seu pescoço_ riu. Chegaram à outra passagem. Era bem estreita e eles tinham que tatear as pedras úmidas pra chegar ao outro lado. Scully praguejava. No novo salão, Mulder parou para orientar-se. Não era difícil, mas a ausência total de luz dava-lhes uma certa insegurança. _ Scully _ ele começou _ O Elias me contou que aqui se escondiam escravos fugidos. Já imaginou passar alguns dias nesse lugar adorável. Ela não respondeu imediatamente. Lembrou-se das cenas que vira no sonho. Os negros andando descalços, carregando seus senhores aos ombros, sendo castigados em praça pública e humilhados de todas as maneiras possíveis. Suspirou. _ Acho que estavam bem melhor aqui, Mulder. Pelo menos a escuridão da natureza não é tão dolorosa quanto à dos corações humanos. _ Nossa, Scully ! Está filosófica hoje ! Bem... _ ele mudou de assunto _ Acho que aqui é o trecho em que há uma rampa _ ele explicou _ Se bem me lembro, há alguns degraus. Venha aqui _ ele chamou. _ O que vai fazer ? Ele sorriu na escuridão. Mesmo sem ver o rosto dela, podia imaginar as feições assustadas e a sobrancelha erguida. _ Vou te segurar pra não cair. _ E quem garante que você não vai me derrubar ? _ ela respondeu estremecendo de leve. _ Scully, você não confia em mim ? Ele pode ouvir o riso baixo dela e tinha certeza de que podia vê-la balançando a cabeça. Aproximou-se e ele passou a mão em sua cintura. Mesmo que não estivessem se vendo completamente, suas respirações denunciavam o que estavam sentindo. Com passos pequenos e firmes eles foram descendo, não havia aonde apoiar a não ser um no outro. Demoraram a chegar, mas estavam agora na entrada da gruta. A iluminação tênue vinha da belíssima lua que penetrava pelo portão gradeado. _ Acho que não sabiam que estávamos aqui e fecharam a entrada _ ele resmungou. _ E a caixa de luz está ali, do lado de fora _ ela respondeu apontando _ O que vamos fazer ? _ ela perguntou, lavando as mãos e o rosto sujos de terra, na bica de água que descia ao lado do altar da pequena capela. _ Suas orações estão em dia ? Scully sentou-se no banco e enterrou os dedos no cabelo. _ Porque eu sempre deixo você me meter em encrencas, Mulder ? _ perguntou resignada. _ Não é de propósito, Scully_ ele respondeu magoado _ Eu sei que tinha te prometido não passar a noite ao relento, mas...Bom, pelo menos estamos protegidos e teremos uma bela visão dos OVNIS daqui. Só não poderemos correr atrás deles _ disse segurando as grades de ferro do portão. Como ela não respondia, ele voltou-se e aproximou-se do banco. Sentou- se em frente a ela e ficou em silêncio. Scully havia se esticado no banco e fechado os olhos. Parecia cansada e ele não conseguia entender a atitude dela. Em outras oportunidades teria esbravejado e resmungado muito mais, mas dessa vez permanecia quieta, com se não se importasse com o acontecimento, como se nada importasse. ¨ Scully viu o alvoroço nas ruas. Na praça pessoas passavam apressadas, umas com expressão de assentimento, outras com ar de reprovação, mas todas, sem exceção, bastante chocadas. Ela desviou os olhos para o meio da praça. Um cenário assustador descortinava-se em sua frente. Alguns homens erguiam a cabeça decepada de um homem sobre um poste. Mulheres passavam chorando, crianças olhavam assustadas e ela ouviu o som de passos cadenciados. Seus olhos foram atraídos para a mulher escondida por uma capa. Sabia que era Marilia, apesar do rosto completamente coberto. Seguiu a direção de seus olhos e viu alguns soldados circulando um grupo de prisioneiros e, entre eles, ela reconheceu Tomás. A face desfigurada e abatida, a barba crescida, os passos trôpegos daquele que antes caminhava com tanta altivez e segurança. Por um breve momento ela encontrou-lhe os olhos e pôde ver a agonia travada naquele momento, sentimento que tomou proporções alarmantes quando ele notou a presença da mulher amada. Podia-se ver o brilho das lágrimas que desciam abundantes pela face de Marilia e Scully acompanhou-a nas lágrimas. O sombrio cortejo seguiu até que os prisioneiros foram acomodados em carroças para o que seria uma longa viagem até o cárcere e dali ao desconhecido. Marilia fez um gesto de aproximação, dando um passo à frente, mas os olhos do homem amado a retiveram, ela estacou entendendo o que aquele olhar torturado significava, mas respirou fundo e continuou. Seus passos, porém, foram bloqueados pela figura paterna. _ Se deres mais um passo, seguirá com ele ao degredo e lá poderás esquecer que, um dia, teve família, amigos e honra. Os olhos dela correram do pai para o noivo e dali para a imagem assustadora da cabeça pregada sobre o poste. Fechou os olhos, apertando-os com força. Ao abri-los, a carroça já se punha em movimento. O pai estendeu-lhe o braço e ela aceitou hesitante. Estava acabado. Scully foi transportada para a primeira cena do sonho que tivera. A velha senhora, que agora ela reconhecia como Marilia levantou-lhe o rosto com as mãos enrugadas. _ Filha querida. Tudo o que te fiz passar até agora, todas essa recordações dolorosas para mim, foram única e exclusivamente para te impedir de cometer o mesmo erro que eu. Esqueça as diferenças, os preconceitos, todos os temores. Viva, filha, intensamente o momento de hoje, porque o amanhã pode se tornar doloroso. Talvez, em breve, ele seja levado ao degredo e você ficará como eu...sozinha... _ Mas porque me diz isso ? _ Scully perguntava sem entender. _ Se eu tivesse rompido com todas as regras, se tivesse insistido e me aproximado dele, poderíamos ter sido felizes além-mar. Assim como imagino que ele foi com a mulher que o aceitou da maneira que ele era, na pessoa que o transformaram. Meu orgulho, meu medo falaram mais alto. Eu poderia ser a noiva bem aventurada de um ouvidor, mas jamais aceitar o criminoso aos olhos da lei, embora eu partilhasse dos mesmos ideais. Tive medo de me expor, tive medo de seguir o meu coração e enfrentar os olhares reprovadores. _ Mas você tentou, ele não quis, seus pais não deixaram... Marilia a interrompeu, sorrindo com amargura. _ Ele ainda ficou por três anos em terras brasileiras, mas eu não fui vê-lo, meus pais escondiam as cartas que ele me escrevia, contando-me sua amargura e eu me julguei esquecida, senti-me abandonada quando fui eu quem o abandonou.Quem nos impede de fazer algo, a não ser nós mesmos, minha cara ? Quem conseguiu te impedir de estar com seu Dirceu até hoje ? Quantas vezes você quebrou todas as regras para permanecer ao lado dele ? Eu tive medo...muito mais medo do que você e por isso eu te peço que não desista agora. Faltam apenas alguns poucos metros para que você alcance a praia e...eu tenho certeza...ele estará te esperando. _ Dirceu não a esperou... _ ela murmurou sentida _ Ele a esqueceu...como sabe que não acontecerá o mesmo comigo? _ Jamais, filha. Ele sempre esteve comigo, ele nos imortalizou através de seus versos. Marilia e Dirceu sempre estarão juntos, eles foram feitos um para o outro. Nada, nem ninguém irá separá-los. Quanto a mim, amarguei até o último instante a minha escolha...sim _ ela prosseguiu rapidamente vendo que Scully a interromperia _ Sim, eu escolhi. Talvez levada pelas circunstâncias, pela época, não sei...mas meu pai me deu uma escolha e eu recuei. Você tem a chance de tornar Marília e Dirceu, uma parte da realidade. Vocês são reais. Não tema a escolha. As imagens foram ficando cada vez menos nítidas, perdidas nas brumas que envolviam aquela mulher de aspecto resignado e distante. As últimas impressões que ficaram foram a das ondas lambendo tranqüilamente a areia de um mar distante e a da senhora fitando o céu com ar melancólico, e, nessa face, a ruiva não via mais Marília, mas a si mesma. ¨ Scully abriu os olhos de onde as lágrimas desciam pausadamente e repousou-os no parceiro que a fitava atentamente, estudando preocupado as transformações de sua face. Ela sentou-se, mas não fez qualquer gesto para impedir que as lágrimas parassem de correr. Apenas estendeu os braços e murmurou lentamente. _ Me abraça . E antes que fechasse os lábios, ele estava ao seu lado , os braços cruzados em suas costas, as mãos subindo em direção à sua nuca, enquanto ela enlaçava-lhe o pescoço e fechava os olhos. Nenhuma palavra foi dita. Permaneceram assim por um tempo que não podia ser medido pelo relógio, poderiam ser segundos ou horas, até que ela afastou-se ligeiramente. Mulder alisou-lhe os cabelos com ternura. _ O que está acontecendo com você, minha amiga ? Porque está tão infeliz ? Ela não respondeu, abaixou a cabeça e levantou-se. Começou a caminhar pela capela, escondendo-se na escuridão. Mulder não se moveu, continuou aguardando que ela se manifestasse, mas nada aconteceu. Como sempre, ela não havia suportado e deixara cair as defesas, mas se recuperava no instante seguinte, recolhendo tímida e orgulhosamente suas emoções e trancafiando-as naquele lugar escuro e empoeirado onde nem mesmo ela tinha coragem de entrar, um lugar tal qual o que ela se encontrava agora , que a deixava segura por escondê-la nas sombras. _ Sinto muito tê-la trazido até aqui, Scully _ Mulder começou, falando à distância , procurando distinguir os traços e expressões dela na escuridão_ Imaginei que vir a um local distante daqueles em que já estivemos e nos quais passamos tantas coisas ruins, poderia ser um bom presente. Mas talvez não seja o lugar. Talvez seja a companhia que a faz sofrer. Talvez o problema esteja em mim. Estar comigo te causa dor, te faz recordar o que gostaria de esquecer. Talvez esteja na hora de mudarmos o curso de nossa vida, seguir por caminhos diferentes. Scully avançou para a luz apenas alguns pequenos passos. Ele podia divisar o contorno de seu rosto, as mãos soltas ao longo do corpo, os ombros retos em sinal de alerta. Fora difícil para Mulder dizer aquilo. Estar com ela era o único alento que o sustentava além da busca incessante e obstinada pela qual viva. Mas não era o mesmo para ela. Scully sofria a cada golpe contra sua racionalidade, contra seu senso de justiça. A cada olhar torturado que lhe dirigiam num pedido de ajuda que ela não era capaz de proporcionar. Antes esses golpes a fortaleciam, assim como a ele que, com uma surda determinação, aliada à sua capacidade de soterrar as mágoas num canto qualquer que não pudessem machucá-lo, seguia adiante mirando apenas o ponto luminoso à sua frente e que ele chamava de verdade. Mas se ele continuava firme nesse propósito, ela chegava ao limite. Talvez porque ele a sobrecarregara com uma carga extra. Para os outros, aqueles com os quais duelava diariamente, que o ridicularizavam e ignoravam, ele continuava vestindo a armadura da indiferença, mas, com ela, permitia-se ser ele mesmo, mostrando sua alma apaixonada e irrequieta em toda a sua profundidade, colocara suas emoções nos braços dela e nunca pensara no quão pesada poderia ser essa carga, uma vez que, ela agora mal suportava a sua própria. Tentara dividir com ela esse peso, mas Scully se fechava sempre a qualquer manifestação emotiva e ele agora só poderia ajudá-la livrando-a do fardo que ele colocara em suas mãos. Pareceu-lhe um longo momento de divagações, no entanto, esses segundos foram o suficiente para que ela se aproximasse e ele pudesse sentir o contato frio das pontas de seus dedos sobre o cabelo. Ergueu os olhos para fitá-la, estaria pronto para qualquer que fosse a decisão que ela tomasse. _ Mulder _ ela começou serenamente _ Todos os bons momentos que vivi nos últimos anos estão relacionados a você , de alguma maneira. _ Mas os piores também, Scully. É disso que eu quero poupá- la. Ela sorriu de leve. _ Se eu busco esconder meus sentimentos através da racionalidade, Mulder. Você transforma todos os seus em culpa. Não pode armazenar todas as misérias humanas dentro de você como se fossem filhas da sua vontade, ao contrário, elas só agonizam porque você ousou tocá-las, porque você se preocupa em nos livrar delas. Minha... infelicidade surge exatamente no ponto em que... eu imagino _ ela suspirou _ imagino que não o terei para sempre comigo _ ela falou atropeladamente e sorrindo em seguido _ Me protegendo dos moinhos de vento que tentam me engolir. Mulder pareceu mais tranqüilo. Fitou-a por um momento antes de responder meneando a cabeça e sorrindo de leve. _ Terá sempre, minha doce Dulcinéia _ ela puxou-a de encontro ao peito _ Estar com você não é passível de discussão... não é algo que possa ser negociado, faz parte da única certeza da qual eu não abro mão. As feições dela suavizaram-se. _ Não quer falar ? _ ele tomou o rosto dela nas mãos _ Se abra comigo, Scully. Confie em mim para contar o que está te deixando assim. Scully respirou fundo. Levantou-se e sentou-se no banco atrás do dele. Jogou a cabeça para trás e alisou os cabelos. Seus olhos repousaram sobre ele, enquanto inclinava-se para frente. Começou a falar relutante. _ Tenho tido sonhos estranhos desde que chegamos aqui... _ Sonhos ? _ ele repetiu, sem entender. _ Sim, na verdade... parecem mais visões...Há uma mulher, que hoje eu descobri ser a mesma que ocupou aquele casarão que abriga uma escola. _ Marília ? Ela assentiu, esperando que ele dissesse algo, que fizesse algum gracejo, dizendo que não acreditava na cética Scully falando sobre visões, mas não foi isso que ele fez, continuou sério e compenetrado, olhando-a. _ Sei que isso não é comum em mim, Mulder..._ ela justificou- se esboçando um sorriso acanhado, esperando que ele a interrompesse em concordância. _ Não se preocupe com minha opinião, Scully _ ele falou, adivinhando os pensamentos dela _ Hoje não direi nada, quero apenas te ouvir _ disse apoiando o queixo sobre as mãos cruzadas no banco. Ela ficou tensa. Talvez se ele brincasse, ela deixasse para trás a apreensão e tristeza que lhe atravessavam o peito. Era fácil lidar com Mulder quando ele zombava de suas teorias e temores. Fazia como que ela enterrasse seus questionamentos e seguisse adiante. Mas ele não estava fazendo isso, ao contrário, ele queria saber. Mostrava-se tão solícito e terno que ela não tinha certeza se conseguiria contar-lhe sem se entregar totalmente, sem que ele percebesse que, o que a deixava infeliz era considerar sua vida como a de Marilia, uma eterna espera. Mas cedeu. Contou-lhe da mulher nos diferentes estágios de sua vida. Do amor, do ideal, da punição, dos sentimentos que se misturavam dentro dela com relação ao que estava vendo passar diante dos seus olhos como um filme. Da indignação pela atitude do pai de Marilia, do orgulho solidário pela personalidade determinada dela, da simpatia e admiração por Tomás, que se transformara em desprezo quando ele desistiu tão facilmente da antiga amada. _ Lembrei-me daquele homem que tentava fotografar a morte. Ele me disse que o amor dura setenta e cinco anos, foi o quanto ela resistiu, mas acho que o dele não chegou a durar tanto, se é que ele a amou algum dia, talvez tenha amado apenas um ideal. _ Talvez ele a amasse tanto que não queria que ficasse presa a ele, Scully _ Mulder finalmente a interrompeu. Scully levantou a cabeça e seus olhos se encontraram com os dele. Lembrou-se das últimas palavras de Marilia, que ainda não havia dito a ele. _ Pense em quanto deve ter sido difícil para ele abandonar seu mundo... _ Mulder continuava _ Sua vida, para seguir ao exílio conquistado por seus ideais. Por querer justiça, por amar a verdade. Scully encarou-o com os olhos muito abertos. Aquela bem poderia ter sido a estória de Mulder. Abandonara o mundo em busca dos seus ideais, tudo o mais passou a ser insignificante frente à necessidade de conhecer a verdade. De repente tudo era muito claro para ela. Identificara-se com a estória da Marilia porque era muito parecida com a sua própria. Acreditava, lutava pelos ideais de Mulder, mas tinha medo de demonstrar os motivos pelo qual fazia isso. Mulder entendera imediatamente a mensagem . Ele não falava mais de Dirceu, falava de si mesmo. _ O que ele poderia oferecer a ela se, em seu egoísmo, a tivesse levado para um mundo desconhecido, que a faria sofrer não só por si mesma, mas por ele também ? _ Quem pode decidir isso, Mulder ?_ ela agora sentia necessidade de mostrar-lhe que não o seguira por imposição, queria estar ali, não imaginava outro lugar para estar _ Quem pode escolher os riscos que nós aceitamos encarar ? Como saber se ela não teria sido mais feliz ao lado dele, em seu exílio, do que foi aqui ? Esperando diariamente que ele voltasse, sem saber o que lhe acontecia. Simplesmente assistindo a vida passar, para acordar com uma triste certeza de que esperou em vão ? _ Scully, eu acho que ele estava certo em romper todos os laços. Sei que seria o melhor a fazer porque ...eu fiz o que ele não se permitiu. Não medi as conseqüências e hoje, a pessoa mais cara pra mim está sofrendo por essa escolha. Eu não te fiz feliz ao envolvê-la em meus ideais, em minha luta e talvez por isso esta estória tenha te impressionado tanto. Já parou para pensar talvez seja a hora de você se libertar das amarras que te prendem a uma causa que não é sua ? Que é tempo de deixar esse passado e recomeçar, sem culpa, sem medo. Seguir um outro caminho, feito por suas próprias mãos ? Talvez fosse isso que ela quisesse te dizer contando-lhe sua estória. Que não vale a pena , que é preciso seguir adiante deixando para trás o que nos causa dor. Ela balançou a cabeça negando. Seus olhos brilhavam emotivos. _ Não Mulder, não foi isso que ela quis me mostrar _ ela respirou fundo _ Ela queria me dizer para não ter medo do mar, para transpor a tempestade e chegar do outro lado. Partilhar ideais não é o bastante, é preciso ir além. Ela deixou que ele fosse sozinho, deixou o medo, o orgulho, a racionalidade falarem mais alto do que o que seu peito gritava em desespero e ficou só, quando deveria ter abraçado não só os ideais mas o idealizador. _ Ela sofreria ali, Scully. Assim como você sofre por estar ao meu lado. Você veio comigo e... _ Não Mulder _ ela o interrompeu _ Não fui com você...fiquei com os seus ideais, mas você partiu sozinho... _ Do que está falando ? _ ele perguntou sem entender. Ela recolheu-se novamente. Talvez tivesse ido longe demais. Ele não agüentou esperar a resposta dela. _ Se fez o mesmo que ela, Scully... _ ele continuou _ Se não se envolveu o bastante, embora eu não pense assim...Porque isso a deixou tão infeliz ? Você acordou a tempo...pode seguir adiante. _ E para onde eu iria, Mulder ? Eu não quero terminar da mesma forma que ela. Eu tenho a segurança da praia, mas anseio por me lançar ao mar. Em terra, o que me espera é tão somente a solidão. _ Mas você pode ser surpreendida pela tempestade, Scully. Talvez o mar não seja tão generoso quanto você imagina. Talvez ele possa te ferir mais do que você é capaz de suportar. Ela sentiu o coração acelerar-se ainda mais. Os dedos trêmulos tocaram de leve a face do parceiro que inconscientemente cerrou os olhos. _ Eu não tenho medo das águas Mulder. Eu sei que eu posso vencê-las. O que me apavora é saber se haverá alguém me esperando além- mar, se não será tarde demais. Ele abriu os olhos e pressionou a mão dela em seu rosto.Era esse o medo dela ? Um sorriso sereno estampou-se na face dele. _ Tenha a certeza de que haverá alguém, Scully. Alguém que há alguns anos não abandona a praia, ansiando divisar seu vulto. Ele se senta lá todas as manhãs, e vê no nascer do sol, esse mesmo brilho avermelhado _ disse passando a mão pelos cabelos dela _ No mar , esse olhar que o ampara e fortalece. Nas ondas a carícia do seu toque raro e suave e ele aguarda pacientemente, não importa o quanto o sol possa queima-lhe a pele, ou o vento castigar sua face e a noite ele continua lá, apenas esperando por você. Ele não sabe se merece, nem se é justo, mas...ele está lá, sozinho _ continuou, passando a mão sobre a nuca dela e trazendo-a para si _ Ansioso, saudoso e a cada dia mais apaixonado. Ele permanecerá além dos mares, Scully, somente esperando por você. Seus lábios se juntaram ternamente. Um beijo doce, como se estivessem cheios de saudade, após um longo tempo de separação. Um toque tímido de lábios que se separaram em seguida. _ Obrigada por me esperar Mulder _ ela murmurou. _ Obrigado por atravessar o mar, Scully. E dessa vez ele levantou-se, passou para o banco em que ela estava e a abraçou apertado no peito, os lábios se escondendo em seus cabelos, enquanto se inclinava sobre ela, obrigando-a a escorregar no banco. Apoiou a corpo dela no assento longo e ficou observando-a, receoso do que fazer, mas o desejo acabou decidindo por ele. Com beijos suaves pelo rosto ele encontrou seus lábios e o que se seguiu não foi de maneira nenhuma um beijo casto ou tímido. Ele ardia de desejo e queria que ela soubesse, que correspondesse e Scully aceitou sem hesitar, entreabrindo os lábios para que suas línguas se encontrassem. As mãos dele começaram a descer ao longo do corpo dela e, mesmo sem querer, Scully foi obrigada a recuperar o bom senso. _ Mulder _ ela o interrompeu afastando-o e levantando-se _ Estamos numa capela ! _ repreendeu-o. Ele se aproximou, mas não voltou a beijá-la. Apenas colocou as mãos em torno dela para que não pudesse fugir. _ Não estamos não, Scully _ ele sorriu malicioso _ Você ouviu o que o Elias disse . Essa capela é uma heresia para a natureza. Ou talvez seja mesmo uma capela...eu estou me sentindo abençoado. A luz surgiu subitamente. Eles desviaram os olhos para a entrada e viram o olhar apreensivo de Elias. _ Perdoe-me. Santo Deus! Eu vou matar aquele moleque _ disse abrindo a porta _ Vocês estão bem ? Eu voltei ao hotel e... _ Elias percebeu a situação, vendo Mulder abraçado a Scully e ficou ainda mais sem jeito, enquanto eles se afastavam e levantavam-se _ Eu... soube que vocês não haviam retornado, rodei a cidade. Ah, por favor, me perdoem. Eu os levo de volta. Está frio. _ Calma, Elias _ Mulder interrompeu-o _ Nós estamos bem, não há com que se preocupar. Esse incidente foi bastante oportuno _ completou sorrindo e colocando a mão nas costas da parceira _ Vamos embora. _ Não conseguiram ver nada, não é ? O céu está tão claro. Hoje é um dia propício para acontecerem coisas estranhas _ Elias falou. _ É _ Scully assentiu, sentindo a mão quente de Mulder em suas costas _ Coisas estranhas aconteceram_ continuou, fitando o céu e depois o parceiro que lhe sorria com o canto dos lábios. Elias estava com um outro carro e eles se separaram. _ Pode ir para casa _ Mulder falou dirigindo-se a ele _ Acho que conseguimos chegar ao hotel sozinhos _ completou. Seguiram para a cidade que deveria ficar a uns quinze minutos de onde estavam. Nada foi dito, cada um absorvido em seus próprios pensamentos. Mas o silêncio não os incomodava, ao contrário, ajudava- os a reordenar o que haviam passado nos últimos anos e que os feito chegar até ali, mais próximos do que nunca. Chegaram à cidade, mas não conseguiram atravessar a praça, ela estava lotada de foliões. Mulder estacionou o carro. _ Poderíamos ir a pé ? _ ele perguntou voltando-se para ela. Scully deu de ombros, abrindo a porta. Contornou o carro e esperou que ele saísse. _ Porque quis ficar aqui ? _ ela perguntou virando-se para ele. _ Pra conversarmos_ ele sorriu, pondo-se ao seu lado sem, no entanto, tocá-la _ Antigamente, minha bela Marilia, flertava-se primeiro...convidava-se a garota para sair...andava-se de mãos dadas pelas ruas... oferecia-lhe um jantar e depois se acompanhava a mulher até o portão de casa. Ela riu, aceitando os dedos que se entrelaçavam aos seus. Caminhavam devagar, atravessaram a praça, entretidos com a folia que reinava ali. Os blocos animados, tocavam velhas marchinhas, seguidos por centenas de pessoas que se preocupavam apenas em não esquecer o ritmo da música. Chegaram ao hotel e começavam a sentir-se tensos. Só haveria os dois naquele quarto, apenas aquela bela cama esperando para ser partilhada por aqueles que já não eram mais simplesmente parceiros. Encontraram Raquel e algumas garotas à porta. _ Ah ! Que bom que chegaram _ ela começou _ Elias esteve procurando por vocês há pouco. _ Nós já falamos com ele _ Scully respondeu _ Boa noite. Eles começaram a entrar, mas Raquel chamou por Mulder. _ Senhor... será que poderia nos dar uma ajudazinha ? _ começou. Ele virou-se para fitar a garota e suas amigas que o olhavam com interesse. _ É que a fechadura da porta delas está emperrada e eu não estou conseguindo abrir....será que...Talvez uma mão masculina seja mais eficiente... Mulder desviou os olhos para a parceira que encolheu os ombros. _ Vá lá _ ela disse baixinho _ Estão loucas para saber o que você pode fazer com as mãos _ sorriu _ Preciso mesmo tomar um banho _ Scully concluiu afastando-se dele. Mulder seguiu-a pelo corredor com os olhos e Scully sentiu-se aliviada de certa maneira. Poderia pensar melhor no que faria quando o visse, no quarto. Ela pegou algumas coisas, seu pijama e foi para o banheiro. Estava nervosa, não podia negar. Ligou o chuveiro e meteu-se embaixo dele, mas se seu corpo encontrava alívio do calor e poeira, sua mente trabalhava incessante. Queria chegar àquela cama, mas não tinha a menor idéia de como faria. Não trancara a porta, ou melhor, trancara, mas voltara duas vezes para abrir e trancá-la novamente e depois voltar a destrancar. Será que ele entenderia o convite ? Ou não...Talvez apenas zombasse dela. _ Deus do céu ! _ ela resmungou _ Pare com isso, Scully. Está parecendo uma adolescente, que droga! Tentou esquecer o ¨depois ¨, procurou concentrar-se no banho, em sentir a água correr pelo corpo e nada mais. Mulder entrou minutos depois no quarto. Ouviu o barulho no chuveiro. Tirou os sapatos e jogou a carteira e um livro sobre a mesinha. Seus olhos se fixaram na porta lateral à entrada. Aquela que ficava na parede oposta à cama e que escondia a parceira. Seguiu até lá, com um sorriso maroto nos lábios. Levou a mão à maçaneta, mas não a girou. Retrocedeu, caminhando pelo quarto. Não sabia o que fazer. _ E se ela não gostasse da invasão ? _ ele pensava _ E se o julgasse leviano ou precipitado ? Não tinha dúvidas do que aconteceria aquela noite. Seu corpo e sua mente não pensavam em outra coisa, mas...e ela? Talvez preferisse esperar, mas não ... Ele voltou até a porta. Voltou ao meio do quarto. Olhou-se no espelho. Estava como sempre...os cabelos caindo sobre a testa. Talvez precisasse de um corte _ pensou _ Não, assim parecia mais jovem. Alisou a camiseta. Pensou em tirá-la e até levou as mãos à gola na parte de trás, mas desistiu. Não poderia entrar lá nu e simplesmente atacá-la. Bom...não pensava em atacá-la, apenas tocar, de leve. Ver- lhe o corpo molhado, como quando estiveram naquela base de descontaminação. Mas agora queira ira além. Chegou novamente à porta e começou a rir. Rir de si mesmo. A última vez que se lembrava de sentir-se assim, Samantha ainda vivia com eles. Lembrava-se claramente da discussão que tiveram porque ela o gozava, dizendo-o apaixonado. De fato, gostava da menina que brincava na casa ao lado, sua vizinha. Sorriu ao se lembrar claramente dela. Tão ruiva com a outra atrás da porta. _ Talvez seja destino _ murmurou para si mesmo. Lembrava-se de como recuara e avançara, igual ao que fazia ali, naquele momento e então tomara coragem para dar-lhe um beijo tímido. Ela havia gostado e ele mais ainda. Era a primeira vez que sentira-se à vontade com alguém. Mas ela fora embora em pouco tempo e lá estava ele sozinho novamente. Depois disso veio a abdução de Samantha e uma série de acontecimentos infelizes que ele preferia deixar de lado. Se Scully não quisesse que ele entrasse ali_ concluiu_ certamente teria trancado a porta. Esse seria o sinal e ele avançou para lá. Segurou a maçaneta e, então, ela desligou o chuveiro. Ele voltou, sentou-se na cama e aguardou que ela saísse. Scully demorou, limpou o espelho com a toalha e olhou para si mesma. Nada de diferente. Nem melhor, nem pior. Apenas ela mesma. Mas será que seria o bastante ? _ pensava. Penteou o cabelo e pegou o pijama. Escolhera a lingerie com cuidado, mas não podia fazer nada quanto ao pijama e ele parecia tão deselegante e sem atrativos...Era a maneira que tinha de manter-se longe do olhar atento do parceiro, mas, agora, não queria se manter afastada, ou contrário, queria parecer melhor, mais bonita e ... _ Ah ! Scully _ resmungou baixinho _ Seja apenas você ! Mesmo assim, ela não colocou o pijama. Vestiu a calça que ele lhe presenteara. Ajustou-se perfeitamente em seu corpo. Vestiu uma blusa de linha clara e, respirando fundo, saiu do banheiro. Seus olhos repousaram sobre o parceiro. Estava muito atraente com aquele cabelo mais comprido e aquele ar de menino. Sorriu ao vê-la. _ Resolveu o problema das garotas ? _ ela perguntou quebrando o gelo. _ O imediato, sim... _ disse malicioso. _ Ah ! _ ela exclamou _ Talvez tenha trabalho mais tarde... _ Não. Elas saíram, foram pular carnaval... _ Ficaram decepcionadas porque você não as acompanhou ? Ele riu mais alto. _ Gostaria que eu tivesse ido ? _ respondeu com uma pergunta que a deixou embaraçada. _ Não...quer dizer _ ela abaixou a cabeça sem jeito. _ Vai sair ? _ ele mudou de assunto. _ Não...vou _ ela disse olhando para si mesma. Precisava dizer alguma coisa _ Eu...vou até a recepção...Deixei meu casaco lá e...você sabe...esqueci e...depois vou acabar não encontrando.... _ Ah ! _ ele respondeu balançando a cabeça _ Ficou bem em você... _ O quê ? _ ela não entendeu. _ A calça _ Mulder apontou _ Ficou bonita. Ela sorriu. _ Sim, serviu muito bem. Obrigada. _ Quer que eu vá buscar ? _ Buscar ? _ Seu casaco _ ele tentava disfarçar o sorriso que surgia em seus lábios. Ela estava tímida e ele adorando deixá-la assim. _ Não...eu...eu vou. Quero ver se consigo uma água e...Pode tomar banho _ ela indicou o banheiro _ Se quiser...é...está muito bom... _ Ok _ ele concluiu, puxando a camiseta sobre a cabeça. Ela desviou os olhos e caminhou para a porta. Mulder passou por ela, notando-lhe o embaraço. Sorriu novamente e voltou sobre os próprios passos. Queria provocá-la. Ergueu-lhe o queixo e beijou-lhe os lábios de leve. _ Não demore _ murmurou _ Ou melhor...não fuja _ concluiu soltando-a e entrando no banheiro sem olhar para trás. Ela ficou no meio do quarto. Sem ação. Sentiu a boca seca e o coração aos pulos. Precisava de água...precisava de ar...Estava começando a suar novamente. Abriu a porta e saiu apressada. Scully demorou mais do que o necessário. Quando voltou, encontrou o parceiro deitado na cama, folheando um livro. Ele a fitou. _ Achei que já estaria chegando em Washington a essa hora _ Brincou. _ Bom... _ ela continuou _ Eu tentei. Mas não havia mais vôos disponíveis hoje. _ Está com medo ? _ ele perguntou a queima roupa. Ela desconcertou-se. Era evidente que ele havia notado e ela não queria demonstrar o que sentia, mas surpreendentemente, pegou-se balançando a cabeça em sinal de afirmação. _ Eu também ,Scully _ ele suspirou, repousando o livro nas pernas _ Não precisamos fazer nada que você não queira. Aquela era uma frase batida, mas ele estava sendo sincero. Não a queria daquela maneira. Não a queria se isso fosse distanciá- los ao invés de unir. Não se importava realmente de ir com calma, como um colegial. Aprendendo a conhecê-la, fazendo-a confiar nele aos poucos, como no trabalho...da maneira que ela quisesse. _ Venha aqui _ ele convidou, batendo a mão na cama _ Quero te mostrar uma coisa. Ela sorriu. Isso realmente estava ficando ridículo. Mulder entendeu o que ela estava pensando e desatou numa gargalhada. _ Não é o que está pensando _ explicou _ A Raquel me emprestou um livro que deve te interessar. Scully sentou-se ao lado dele e pegou o livro. Reconheceu com sendo um poema, mas não entendia o que dizia. _ O que há aqui ? Mulder pegou o livro de suas mãos e virou a página. _ Ela o está traduzindo. Não é a mesma coisa que o original, perde um pouco da estrutura porque não há rimas, mas serve pra você entender o que está escrito. Ele a fitou com carinho. _ É a estória de Marilia e Dirceu. Na verdade chamavam-se Maria Joaquina e Tomás Antonio Gonzaga. Ele escreveu os poemas para ela. Acho que era isso que você via ele entregando a ela. O que Marilia lia para sua escrava. Scully tomou o livro com alguma reverência. Leu alguns trechos da tradução e emocionou-se. Era uma belíssima declaração de amor. _ É muito bonito, Mulder _ ela falou olhando para ele. _ Imaginei que iria gostar. Ficaram se olhando por alguns instantes sem saber o que dizer. Ela levantou-se e foi até a geladeira. _ Quer água ? _ ofereceu de costas pra ele. A resposta veio ao seu ouvido, muito mais surpreendente e rápida do que ela imaginava. _ Quero _ Mulder murmurou, virando-a para si e beijando-a com sofreguidão. Ela soltou o copo sobre a mesa e circulou o pescoço dele.Mulder colocou a mão sobre sua nuca e afastou o rosto, puxando-lhe a cabeça para trás. _ Diga-me que também quer _ exigiu. Ela afirmou com a cabeça, mas ele queria mais. _ Quero ouvi-la dizendo, Scully. Há anos que ouço sua voz me dizendo tudo, menos o que eu mais desejo ouvir. Diga-me. _ Quero amar você, Mulder _ ele sussurrou _ Quero que me ame. Ele voltou a beijá-la, sem qualquer cortesia, com urgência. Suas mãos descendo e subindo pelo seu corpo. Scully aceitou apertando o corpo contra o dele e Mulder excitou-se mais. Colocou a mão sob sua blusa e passou-a pela cabeça. A visão da pele branca deixou-o atordoado. Estava indo rápido demais e não poderia, não queria que acabasse assim. Respirou fundo e segurou-lhe o rosto entre as mãos. _ Desculpe _ disse _ Não quero me exceder e te machucar _ continuou beijando suavemente os lábios já avermelhados dela. _ Temos tempo, Mulder _ ela falou em resposta. E sua voz calma e segura, quente e úmida o acalmou. Começou a acaricia-la devagar, meticulosamente até que seus dedos enroscaram-se no cordão da calça. Voltou a fitá-la e puxou o laço. Agora ela estava apenas coberta pelo lingerie. Ele tirou a camiseta e a levantou nos braços. Scully afundou no colchão, sob o peso dele. Suas mãos explorando a musculatura firme dos ombros, descendo pelas costas, caminhando pela cintura e escondendo-se sob suas boxers. O resultado foi imediato. Mulder a fitou, quase sem respirar. O volume entre as pernas crescendo firme e seguramente sobre suas coxas. Ele passou a explorá-la com a língua, apoiando-a nos travesseiros. Perdera a pressa, mas não a intensidade. Aquele momento ficaria gravado neles, mesmo que ela fosse embora, desaparecesse, se afastasse, ele estaria gravado na memória e em seu corpo. Não o carinho inocente de um garoto de doze anos, mas o calor adulto do homem no qual ele havia se transformado. Scully fechou os olhos , quando a mão dele, repousou sobre o bojo do sutiã, afastando-o para tocar-lhe o mamilo com os lábios e mesmo mordendo a boca, não conseguiu reprimir completamente o gemido que saiu em reação. Ele sorriu e voltou ao seu pescoço, a língua serpenteando pelas curvas e depressões onde a respiração se mostrava irregular. _ Fale comigo, Scully _ pediu. Ela abriu os olhos fixou nos dele com ar indagador. Estava sendo bom demais para estar acontecendo com ele, precisava saber se era real. _ Eu a reconheço pela voz. Poucas vezes senti seu toque, nunca com tanta intensidade. Preciso saber que é realmente você _ murmurou próximo à sua boca. _ Não... _ ela gemeu _ Mulder... não sei o que te dizer _ concluiu arfante. As mãos dele desceram novamente, passaram pelo seu busto, chegaram ao estômago, sentindo os ossos salientes da costela, numa carícia minuciosa sobre a pele quente. Sentia-a arrepiar-se sob seu toque, a penugem dourada eriçar-se em seus dedos. Novamente ele voltou a fixar-lhe o semblante. _ Diga-me o que sente _ exclamou, guiando sua mão para dentro do lingerie rendado, sentindo os músculos das pernas dela ficarem tensos, para relaxarem em seguida. _ Ah! Deus ! _ foi tudo o que ela conseguiu dizer, agarrando-lhe a nuca e beijando-o com avidez, enquanto sentia-o tocá-la cada vez mais profundamente, para depois, tomar o tecido rendado e destruí- lo entre os dedos. Ela queria retribuir, embora não tivesse mais nenhum controle sobre seu corpo. Procurou erguer-se, pressionando o corpo sobre o dele , fazendo-o deitar-se de costas sobre o colchão e ele deixou, fechou os olhos enquanto ela passeava pelo seu tórax. Inclinou-se para beijá-lo no pescoço, a língua descendo pelo peito e agora era ele quem apertava o lençol entre os dedos. Ela continuou, encostou o tronco ao dele, as pernas ao redor de seus quadris, sentindo a pressão cada vez maior sobre seu ventre. Havia se livrado do sutiã e roçava-lhe o corpo nu. _ Scully _ ele gemeu e abriu os olhos para encontrar com os dela, sorrindo para ele _ Você está me fazendo perder o pouco juízo que eu tenho _ murmurou. Erguendo a sobrancelha, ela sorriu maliciosa e respondeu bem próximo aos seus lábios . _ Ainda sou eu, sabia ? Preciso de provas... Mulder sorriu e abraçou-lhe a cintura, elevando o corpo e ficando de joelhos entre as pernas dela. Scully procurou apoio na coluna trabalhada da cama e segurou-a com força enquanto ele beijava-lhe os ombros, os seios e começava a penetrá-la devagar. A respiração dela estava irregular, difícil. Mulder era grande e ela começava a sentir o corpo molhado de suor e desejo. Agora não precisavam palavras. Estavam ocupados com as sensações de dar e sentir prazer. Ele estremeceu quando viu que ela chegava ao clímax. Beijou- lhe o rosto, apertou-a com força e acelerou os movimentos. Scully escondeu o rosto em seu pescoço, mas Mulder afastou a cabeça e não desgrudou os olhos de sua face até que ela explodiu e desabou extenuada em seus braços. Somente aquilo seria suficiente para que ele a acompanhasse, mas ainda era cedo. Quando Scully voltou a fitá-lo, ele sorria como menino. Tirando-lhe os cabelos que colaram em seu rosto. _ Agora você _ ela murmurou. Mulder deitou-a no colchão, afundando sobre ela e recomeçando a movimentar-se devagar, para dentro e para fora, preenchendo-a completamente, aumentando o ritmo, pedindo, exigindo cada vez mais. Continuaram sua dança até que ele ficou subitamente quieto, um gemido rouco surgindo de seus lábios e ele também atingiu o orgasmo, esquecendo-se de respirar para tão somente sentir o corpo sendo liberado de toda a tensão, desejo e paixão dentro da mulher amada. Descansou a cabeça nos ombros da parceira e lá permaneceu até que sua respiração tornou-se mais compassada, seu coração diminuísse o ritmo louco em que estava batendo. Após um momento ele apoiou-se nos cotovelos e ouviu o gemido dela sorrindo. _ Desculpa _ gracejou _ Foi nossa primeira e será a última vez se eu continuar te esmagando. Scully sentiu a brisa fria que entrava pela janela atingir seu corpo quando ele se afastou ligeiramente e resmungou, após ouvi-lo. _ Estava tão bom _ reclamou _ Agora estou com frio. Ele a abraçou colocando-a sobre si . Deslizou os dedos por sua face, afastando os cabelos. _ Posso te esquentar de novo _ brincou. _ Rápido assim ? _ ela riu _ Nossa ! Ele a acompanhou no riso. _ Podemos namorar um pouquinho _ disse devolvendo-a ao colchão e ficando de joelhos sobre a cama. _ O que vai fazer ? _ ela perguntou intrigada. _ Diminuir seu frio _ explicou. Ele soltou os laços que prendiam as cortinas e puxou-as. Ficaram protegidos pelo fino tecido e Mulder voltou-se para fitá-la. Seus olhos deslizando pelo corpo pequeno. Ela se intimidou. Ia puxar o lençol, mas ele a impediu. _ Deixe-me vê-la, Scully. Talvez quando chegarmos em Washington, você recupere o bom senso e...eu preciso de provas para saber que isso realmente aconteceu. Ele inclinou-se. Seus lábios tocaram-lhe os ombros e começaram um movimento preguiçoso e inebriante sobre a pele alva, seguindo pelo extenso osso da coluna, sentindo-a contrair os músculos quando seus dentes encontraram a carne macia de suas nádegas e terminando em seus pés para, então, recomeçar o caminho de volta, agora a virando de frente, até chegar aos seus lábios. Amaram-se ainda uma vez, entre risos e carícias, até chegarem novamente ao ponto final do prazer. Scully levantou-se. Foi até a geladeira e virou-se para fitá- lo. _ Fique aí _ disse sorrindo _ Não ouse de aproximar. Estou com sede. _ Pensei que já estivesse saciada. Ela não respondeu. Pegou a garrafa gelada e voltou à cama. _ Quer ? _ ofereceu. Ele tomou a garrafa de suas mãos e sorveu o líquido. Scully passeou os olhos ao redor do quarto e recolheu a peça destruída pelas mãos ansiosas do parceiro. _ Sabe _ ela começou _ Acho que isso não vai dar certo. Você irá me arruinar. Em dois dias, perdi um par de sapatos e...agora isso _ falou jogando a peça aos pés da cama. _ Você pediu provas _ ele brincou. _ Provas, Mulder...não vítimas _ ela acompanhou-o no riso, deitando-se sobre seu peito. Ele pareceu preocupado. _ Te machuquei ? Scully ergueu-se nos cotovelos e franziu a testa. _ De maneira nenhuma. Não te imaginava tão... _ ela parou procurando a palavra certa _ tão cuidadoso, tão delicado _ concluiu tocando-lhe os cabelos. _ Então, perdeu algumas peças, mas ganhou um amante apaixonado. Não é uma boa troca ? Ela sorriu. _ Parece justo...perfeito. Scully acordou sozinha na cama e suspirou infeliz. Afinal não passara de um sonho. Mas olhando atentamente ao redor, viu que as cortinas da cama voavam tranqüilas com o vento. Puxou o lençol e ainda estava nua sob eles. Um sorriso dançou em seus lábios quando percebeu a figura alta delineada junto à janela. Ele a observava. _ Dormiu bem ? _ Mulder perguntou, sem se mexer. _ Não me lembro de ter dormido tão bem . O que faz aí ? _ ela perguntou, enrolando-se no lençol e pondo-se em pé aproximou- se dele. _ Te observava _ ele explicou simplesmente. Ela riu tímida. _ E a que conclusão chegou ? _ Que você não faz a menor idéia de onde e com o que se meteu _ disse estendendo o braço para envolvê-la. _ Está arrependido ? Ele franziu a testa e a apertou. _ Nunca. Mas talvez você se arrependa quando perceber o quanto é difícil viver comigo. _ Não pode ser pior do que trabalhar com você _ ela provocou _ E nós temos nos saído muito bem. Ele agarrou-a pela cintura e apertou-a junto ao batente da janela entreaberta. _ Melhor impossível _ ele concordou. Mulder tocou-lhe os lábios, procurando-lhe a língua , subindo as mãos pelas pernas, acariciando-lhe o corpo e ela riu, afastando-o. _ Mulder _ repreendeu _ A janela está aberta ... _ A parede é grossa _ ele respondeu e, sem se importar com a recusa dela, começou a puxar o lençol que a cobria. Os protestos dela eram insípidos e abafados por seu próprio desejo. Aquilo era uma loucura, pensava, mesmo assim, não reclamou quando ele a suspendeu e simplesmente cruzou as pernas sobre os quadris dele.De repente uma fisionomia surgiu em sua mente. Afastou-se e buscou o rosto do parceiro. _ Acha que ela teria sido feliz...além-mar ? Mulder afrouxou o abraço e fitou-a com ar indagador. _ Quem ? Marília ? Ela balançou a cabeça. _ Scully _ ele tornou sério _ Marilia sempre foi feliz. A musa de Dirceu sempre se sentiu amada. Mesmo que para o verdadeiro casal não tenha durado, acho que ela foi feliz naquele tempo, quando o tinha ao seu lado. Nunca poderemos saber como seria depois... Talvez você possa responder isso daqui a algum tempo, quando eu tiver te enlouquecido totalmente. _ Você me faz lúcida, Mulder. Jamais seria completamente feliz se não tivesse cruzado essa linha _ ela contornou o pescoço dele e o trouxe para si _ Se não tivesse eliminado esse espaço... Prometa-me que não irá sem mim...pro exílio. _ Estive exilado até agora, Scully. Você me trouxe de volta ou...encontrou-se comigo na praia. _ Estava me esperando ? _ Sempre. Ele beijou-a no rosto e voltaram a se abraçar. Enquanto isso, a brisa agitada brincava com as folhas do livro esquecido aos pés da cama, assoprando ao ouvido da noite, as liras memoráveis de um poema escrito pelo coração e eternizado pela vida. FIM Observações : Como, disse a princípio, eu não pesquisei muito, como deveria, para escrever a estória. Estava mais preocupada em relacionar os personagens mineiros com os nossos agentes. Muita coisa do que foi escrito, são apenas suposições e uma adaptação muito superficial do que foi esse período da nossa estória. Alguns fatos são bem mais dolorosos. Segundo me informaram, Tomás e Maria Joaquina, nunca foram noivos, porém, vários relatos, inclusive em Ouro Preto, os apresenta como noivos, talvez para dar maior credibilidade à estória . Não se sabe se Tomás era ou não abolicionista, provavelmente não, porque ele era rico e, portanto, senhor de escravos e todos os senhores eram contra a abolição, por motivos óbvios. Então as opiniões e criticas são minhas e não dos personagens, assim como a carta que ele escreve, despedindo-se dela. Tomás recuperou a fortuna casando-se com a filha de um rico mercador em Moçambique. Talvez, para ele, Maria Joaquina tenha sido apenas um ideal, mas, sem dúvida, ela foi a inspiração das liras e, portanto, ele teve tê-la amado. Ele foi condenado a dez anos de degredo e, poderia ter voltado se não estivesse preso a outro compromisso, o do matrimônio e abrir mão dele, significaria, voltar à miséria. Ele morreu em Moçambique. Não se sabe qual foi a vida de Maria Joaquina, dizem que ela morreu solteira, aos 91 anos, segundo a crença popular, de desgosto ao saber , por amigos, que Tomás havia se casado no degredo. Por fim, e essa é uma opinião bastante pessoal, Tiradentes só morreu porque era um simples soldado. Foi tornado o mentor da Inconfidência quando, na verdade, a idéia surgiu entre os ricos, que não queriam mais pagar impostos para a Coroa. Quaisquer outras falhas, peço que me perdoem . Uma coisa é inquestionável. Eu estive em Ouro Preto e lá a poesia está em cada lugar, tanto na romântica decoração dos lugares como no falar manso e adorável dos habitantes locais. A principio, achei que o Tomás foi um traidor insensível e interesseiro , mas escrevendo os pensamentos do Mulder, acabei mudando de idéia, ou pelo menos ficando na dúvida. Quem sabe ele tenha sido um sujeito idealista, como todo poeta ? Tenha amado aquela mulher e, preocupado em envolvê-la na conspiração, preferiu manter-se longe, amando-a através dos seus versos, como era tão comum para os intelectuais daquela época, que preferiam o romance idealizado ao real ? E, pensando assim, acho que eles se assemelham muito aos nossos agentes, que fizeram a mesma opção. Demonstrar amor de uma maneira velada, mas nem por isso, menos intensa ou verdadeira. Bom, segue um trecho do poema , não o coloquei na integra porque ele é imenso. Mas se quiserem ler podem encontrar o texto completo na Internet . Sky Marília de Dirceu Tomás Antonio Gonzaga Lira IX Chegou-se o dia mais triste que o dia da morte feia; caí do trono, Dircéia, do trono dos braços teus, Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! Ímpio Fado, que não pôde os doces laços quebrar-me, por vingança quer levar-me distante dos olhos teus. Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! Parto, enfim, e vou sem ver-te, que neste fatal instante há de ser o teu semblante mui funesto aos olhos meus. Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! E crês, Dircéia, que devem ver meus olhos penduradas tristes lágrimas salgadas correrem dos olhos teus? Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! De teus olhos engraçados, que puderam, piedosos, de tristes em venturosos converter os dias meus? Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! Desses teus olhos divinos, que, terno e sossegados, enchem de flores os prados enchem de luzes os céus? Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! Destes teus olhos, enfim, que domam tigres valentes, que nem rígidas serpentes resistem aos tiros seus? Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! Da maneira que seriam em não ver-te criminosos, enquanto foram ditosos, agora seriam réus. Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! Parto, enfim, Dircéia bela, rasgando os ares cinzentos; virão nas asas dos ventos buscar-te os suspiros meus. Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! Talvez, Dircéia adorada, que os duros fados me neguem a glória de que eles cheguem aos ternos ouvidos teus. Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! Mas se ditosos chegarem, pois os solto a teu respeito, dá-lhes abrigo no peito, junta-os cos suspiros teus. Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus! E quando tornar a ver-te, ajuntando rosto a rosto, entre os que dermos de gosto, restitui-me então os meus. Ah! não posso, não, não posso dizer-te, meu bem, adeus!