Título: "Vá sem Mim" Autora: Sunflowers E-mail: xsunny@terra.com.br Censura: Tema adulto. Crianças, não leiam. Classificação: História, MT, MA, SA, MSR Spoilers: Quase não aparecem. Sinopse: Mulder é baleado em um tiroteio com o Caçador de Recompensas Alienígena e cabe à Scully encontrar seu parceiro ferido. Feedback: Serão recebidos com carinho e respondidos o mais rápido possível. Disclaimer: Mulder, Scully, Skinner e todos os outros personagens que aparecem nessa história são propriedade de Chris Carter, de sua Ten Thirteen Productions e da Fox Broadcasting Company. Não há intenção de violar os direitos autorais - o objetivo aqui é apenas diversão, não ganhar $$$. Notas: Dedico essa fan fiction à Kessia, ao CA e a todos os autores que se dedicam à arte de escrever essas maravilhosas histórias. Kessia, só escrevi essa fic por causa do Desafio. Você é a culpada! (Risos) ***** Vá sem Mim ***** "Scully, vá sem mim!" "Não! Vem comigo!" Ela começou a puxá-lo, agarrando seu braço com toda a força de que era capaz. Mesmo assim não surtiu efeito, seu peso e tamanho sendo acrescidos de sua resistência. As marcas de sangue agoram tocavam sua delicada blusa de seda. Aquilo não podia estar acontecendo. Era um pesadelo. "Vem, agora!" Num movimento súbito, Mulder sacou sua arma. Apontou na direção de sua parceira. Ele estava determinado a ficar. "Vai! Sai daqui!" Ele gritou. "Se você não for agora, eu atiro!" Scully o encarou, atordoada. Seu melhor amigo, seu parceiro, lhe apontava uma arma. Ela não temeu por sua segurança um instante, mas pela do homem ferido a seus pés. Ela trocaria sua vida pela dele a qualquer momento, mas naquele instante ela sabia que o melhor seria deixá-lo fazer a escolha. Foi se afastando, então, lentamente, em nenhum momento deixando de encará-lo, com medo de que se quebrasse contato visual ela o perderia para sempre. Chegou ao final do corredor, e dobrou em direção aos outros apartamentos. De lá, encostada na parede e chorando, ouvia a respiração ofegante de seu parceiro. Ele estava sozinho e desprotegido e ela não estava lá para ajudá-lo. Ela se deixou resvalar para o chão, sentando-se encostada na parede. Segurava a arma com as duas mãos, como se aquilo fôsse salvar a vida de Mulder. Ouviu com apreensão a campainha do elevador e o barulho de portas se abrindo. Aquilo era demais para ela, deixá-lo indefeso e à mercê do Caçador de Recompensas Alienígena. Mas aquela havia sido uma decisão tomada por ele e, após sete anos de convivência e amizade, ela havia aprendido que não deveria invadir seu limite. Deveria respeitá-lo em suas escolhas, por mais erradas que elas pudessem parecer. Mesmo assim era doloroso deixá-lo. Ainda no chão e chorando muito, ela venceu o medo e a raiva e ousou olhar para o outro lado do corredor. Fox Mulder jazia no centro de uma poça de sangue apontando uma inútil arma para seu inimigo, que vinha andando calmamente em sua direção. Era uma dor insuportável para ela a calma com que o monstro estava indo pegar a sua presa. Ela podia sentir a agonia de seu parceiro sabendo de seu futuro e não podendo se defender. Ou não querendo. Ela percebeu, então, o completo silêncio com que a cena toda ia se desenrolando. O único som que escutava era o das batidas de seu próprio coração. Fizera a escolha certa? Teria salvo sua vida e a de seu parceiro ou entregue o homem que amava nas mãos de um destino cruel para salvar-se? Olhando para as duas figuras no meio do corredor ela ao mesmo tempo pesava escolhas passadas e futuras. Era difícil acreditar que tomara a decisão certa quando era Mulder quem estava lá à espera do assassino e era ela quem se escondia no corredor. *** Mulder agora abaixava a arma, ciente de que seus esforços seriam inúteis. Ele jamais colocaria a vida de Scully em perigo, e se isso significasse ter que apontar uma arma para ela, mesmo que sem balas, era isso que iria fazer. Não havia tempo para qualquer outra medida menos drástica, o importante era tirá-la de lá naquele momento. Ele não ofereceu resistência quando o Caçador o ergueu do chão, pegando-o em seu colo. Apenas deixou-se levar pelo estado de torpor em que se encontrava, a consciência o deixando aos poucos. Lutou até o fim para não deixar escapar um ruído sequer, esforçando-se por não chamar Scully, sua salvadora. Não faria nada que indicasse àquele homem que ele não estava sozinho. Seus últimos pensamentos antes de perder a consciência foram para ela, se ela conseguira se salvar. *** Ele acordou no banco de trás de um carro que seguia em alta velocidade pelo que parecia ser uma estrada deserta. Não havia barulho de outros carros, não havia qualquer barulho exceto o ronco monótono do motor. *Onde estou? Como vim parar aqui?* Ele começou a recordar-se aos poucos de frases soltas e ações desordenadas, as memórias do que havia acontecido voltando aos poucos. Mas algumas perguntas teimavam em atormentá-lo: Scully estava mesmo segura? Ela teria sido vista pelo monstro? Mulder tentou, então, colocar em ordem os acontecimentos que haviam culminado naquela situação em que se encontrava. Começou lembrando-se do estranho telefonema que recebera ainda no escritório, dizendo que fôsse até seu apartamento, onde encontraria provas sobre segredos do governo. O discurso habitual, aquelas mentiras nas quais ele não mais acreditava. Ele fôra, não pelos "segredos", mas para saber quem planejava a armadilha, e Scully fôra junto mesmo contra a vontade dele. "Você realmente acha que vou deixar você ir sozinho?" "Scully, eu sou um homem adulto, posso cuidar disso sozinho." Ele tentara convencê-la de que era um assunto seu, que não havia a necessidade de envolvê-la, mas ao final ele acabou aceitando sua presença. Ela sabia ser persuasiva. "Sem discussão, Mulder. Eu vou, você querendo ou não." "Ai, que saudade daqueles tempos em que conseguia enganá-la e fazer o que eu queria." "Pois eu tenho uma surpresa pra você, eu sempre descubro onde você está, não importa onde." Ele se levantara para pegar o casaco e a beijara levemente nos lábios no caminho. Era teimosa e ele a amava por isso. "Pois saiba que um dia eu vou conseguir me esconder em algum lugar e você não vai me achar..." Ele abriu a porta da sala para ela passar. Não resistiu e colocou a mão em suas costas, como sempre fazia. "Não aposte sua vida nisso, senhor Agente Federal." Essas memórias de sua doce Scully o deixavam menos apreensivo. Ela lhe trazia paz mesmo distante. *** Eles chegaram ao edifício e ele subiu até seu apartamento, deixando-a vasculhando o térreo antes de subir. Combinaram que, caso qualquer coisa saísse errada, eles pediriam reforços. Mas era apenas o procedimento padrão. Nada sairia errado. *** O carro fez uma curva mais fechada e Mulder sentiu seu corpo ser jogado para a esquerda, as algemas o impedindo de segurar-se. Quase caiu no chão, uma onda de náusea o paralisando. Teve que contar até dez para não perder a consciência mais uma vez. *Droga, preciso ficar acordado, contar o tempo até onde estamos indo... Scully seria mais forte, eu sei...* O motorista não perdeu tempo examinando o que a curva fizera ao "passageiro" no banco de trás. Continuou dirigindo com toda a frieza e precisão de um matador profissional. *** Chegando em seu andar, Mulder encontrou a porta de seu apartamento aberta, embora seu interior parecesse intocado. Ele viu um vulto fugindo pela escada e o seguiu sem perder um segundo sequer até o terraço. No caminho esbarrou em um vizinho desatento. "Droga, sai da frente!" "Desculpe." Ele chegou até a escada dos fundos, ainda procurando a figura misteriosa, mas esta desaparecera. Ele já estava voltando para o prédio, preocupado em deixar Scully sozinha com os possíveis invasores quando se dera conta: e se o invasor jamais houvesse deixado o prédio? Era impossível que tivesse simplesmente evaporado. Então lhe ocorreu uma idéia: apenas alguém com uma habilidade transmodificadora como o Caçador de Recompensas poderia tê-lo enganado. Só podia ser ele, o desgraçado que fazia parte de um obscuro plano mundial que escondia certas verdades da população a qualquer preço. *Mas por onde ele passou se não vi ninguém?* Ele correu de volta para o prédio, e foi recebido pelo mesmo vizinho, que agora lhe apontava uma arma. Sua surpresa não durou mais que alguns segundos. O homem começou a atirar em sua direção. Mulder se escondeu na escada, as balas passando zunindo ao seu lado. A figura agora voltava à sua verdadeira forma. *Droga, droga, droga...* Eles começaram uma troca de tiros, Mulder preocupando-se apenas em defender-se, os eventuais efeitos que uma bala produziria no corpo de seu agressor sendo temporariamente deixados de lado. Seria melhor lidar por hora com as conseqüências de uma intoxicação com o sangue alienígena do que com a completa falta de defesas. E caso conseguisse acertar na nuca do monstro, seus problemas estariam resolvidos. O problema era como fazer isso. O tiroteio não tardou a se mostrar injusto: o Caçador estava bem armado e contava com silenciador e pentes intermináveis de balas, enquanto Mulder tinha apenas sua arma e munição normal. Era óbvio que o Cçador viera preparado para enfrentá-lo. A única saída era tentar se defender e esperar até que as balas de seu inimigo acabassem. *** Àquela hora Scully já havia decidido ir atrás de seu parceiro. Ela pegava o elevador quando ouviu os tiros. *O que diabos está acontecendo?* *** No momento em que parou para recarregar a arma Mulder sentiu uma dor lancinante atravessando seu corpo e o impacto que o fez cair de costas na escada. Os segundos que se seguiram foram de extrema confusão, a adrenalina fazendo-o subir o mais rápido que pôde as escadas até o seu andar. Não se preocupou com a insistente dor na altura de seu peito, apenas com a doce dama de cabelos vermelhos que estaria chegando lá a qualquer momento. Teria que avisá-la, teria que salvá-la daquele homem. Não havia tempo a perder. *** No carro, aos poucos ele saiu de seu estado de entorpecimento e atreveu-se a perguntar para onde estava sendo levado. Era o mínimo que podia fazer. "Aonde estamos indo? O que você quer comigo?" A falta de respostas o deixou ainda mais apreensivo. Ele sentia muito frio naquele banco de trás, o metal de suas próprias algemas em seu pulso não colaborando em nada na sensação de desamparo que sentia. Tentou se levantar, apoiando as mãos no banco de couro do carro, mas aquilo pressionava ainda mais o ferimentoe a dor era insuportável. Passou a testar a porta. Trancada, como ele esperava que estivesse. Mais algumas tentativas e logo o cansaço começou a vencê-lo. Pensaria no que fazer mais tarde. Haveria outras chances de tentar uma fuga. O homem dirigindo parecia não se incomodar com a movimentação no banco de trás. "Para onde você está me levando? Vamos, me responda! Não sabe falar a minha língua, seu canalha?!" Não houve resposta às provocações, apenas o barulho do motor e o ruído de rodas deslizando pelo asfalto. A falta de respostas logo cansou Mulder. Ele sentia que ficava mais fraco a cada minuto, e não perderia tempo e energia com perguntas que não seriam respondidas. Sempre que sentia que começava a perder a consciência, pensava em Scully. Queria que, caso não acordasse em seguida, seus últimos pensamentos fossem para ela, no quanto a amava. *** Scully. Ela chegara ao quarto andar seguindo o rastro de sangue deixado por Mulder nas escadas, seu coração batendo rápido, prevendo o que encontraria ao chegar em seu andar. Ela estava certa, fôra uma cena chocante: no corredor, perto da porta do apartamento 42, estava Fox Mulder, caído de costas no chão e tentando desesperadamente recarregar a sua arma. "Droga, droga, droga..." Ele não a vira, e continuara tentando a trocar o pente de balas vazio. Não havia sinal de mais ninguém por perto. Imagens do Sr. X invadiram sua mente e Scully correu em direção a seu parceiro, ajoelhando-se ao seu lado. "Mulder, você está bem? Oh, meu Deus! Eu vou te tirar daqui!" Ela lhe falava em um tom aflito enquanto o abraçava, tentando puxá-lo para dentro do seu apartamento. "Não!" Ele tentou desvencilhar-se das mãos de Scully que o puxavam, mas ela o segurou com mais força. "Mulder, vem!" Ela olhou de relance para o elevador, que mostrava agora em seu marcador que alguém estava subindo até o quarto andar. Fizera bem em subir pelas escadas. "Vem, não temos tempo!" "Vai, me deixa aqui, se esconde!" "Não vou te deixar aqui, não importa o que você faça!" "Scully, não há tempo, é o Caçador de Recompensas..." Eles se olharam por uma eternidade, mas que não fôra mais que alguns segundos. O tempo sempre tivera um peso diferente entre eles, e naquele instante ele pediu para que ela partisse. Ela recusou-se. "Scully, vá sem mim!" "Não! Vem comigo!" *** Nesse momento, o carro parou. Mulder tentou levantar-se mais uma vez no banco de trás, mas a fraqueza o impediu. Ela estava aumentando e a cada novo esforço que fazia ele sentia mais dor e mais tontura. Concentrou-se, então, em ouvir o que se passava ao seu redor. Era uma troca rápida de palavras entre seu captor e alguém ao lado do carro, possivelmente o guarda de alguma instalação militar. Ele riu. *Talvez eu seja conhecido em "todas" as bases militares americanas, talvez eles tenham fotos minhas nas portarias...* Mas a conversa tinha acabado e agora o carro estava em movimento novamente. A dor que sentira tão forte há algum tempo tornara-se mais suave, uma dormência que se estendia desde a área ferida no lado esquerdo de seu corpo até à sua mente. Apenas o frio o incomodava. O frio... e o medo. Medo de que jamais pudesse estar ao lado de Scully novamente. Estavam juntos há muito tempo, mas era como se cada dia ele a amasse mais, a cada dia se surpreendendo mais com sua beleza e inteligência. Lembrou-se de quando se conheceram, aquele dia chuvoso em que ela pisara em seu escritório pela primeira vez. Ela conquistara ali seu lugar não somente naquela sala onde ficavam os arquivos X, mas também em seu coração. Ele sabia que jamais conseguiria ir adiante sem ela. Por mais que ele negasse no início, aquela linda espiã tinha mexido com ele desde a primeira vez em que se viram. *E pensar que eu não confiava nessa mulher... Quanto tempo perdido...* O cansaço começava a vencê-lo novamente, e ele tentou mais uma vez se concentrar em como havia ido parar ali e como faria para escapar. *** As equipes de policiais e um time do FBI não tardaram a chegar ao prédio. Um agente federal havia sido ferido e seqüestrado em seu próprio edifício. Um crime brutal para todos os presentes no local. Os moradores haviam seguido o procedimento básico para casos de emergência como aquele e permaneceram em seus apartamentos durante todo o tiroteio. Graças a isso não haviam corrido perigo, mas também pouco ou nada sabiam sobre os detalhes do incidente. Policiais interrogavam moradores enquanto a equipe técnica recolhia balas e amostras de sangue no local. O andar todo estava sendo interditado como cena de crime. Em meio a toda aquela confusão uma linda mulher ruiva com olhos muito azuis se destacava, sua postura controlada e decidida. Ela colocara os policiais a par do que havia acontecido e fornecia detalhes sobre o agente desaparecido com a frieza de uma agente treinada. "O agente Mulder mora no aprtamento 42, correto?" "Sim." "Estado civil, parentes que devam ser avisados?" "Estou cadastrada como contato em casos de emergência. O agente Mulder é solteiro e não creio que haja mais ninguém que deva ser comunicado." O policial a olhou com pena. Devia estar sendo difícil para ela responder àquelas questões, mas esse era seu trabalho e ele devia perguntar sobre todos os detalhes. "Você poderia descrever mais uma vez o que encontrou ao chegar aqui?" Scully respondera a todos as perguntas, narrando aos policiais tudo que ocorrera mais uma vez. Era doloroso mas todos os detalhes de que pudesse se lembrar certamente ajudariam a achar Mulder mais rápido. Ela declinara rapidamente o oferecimento para que um médico a examinasse, explicando, em voz baixa mas diretamente, que não estava ferida, o sangue em sua blusa pentencente a seu parceiro desaparecido. Ela estava agindo como uma agente treinada deveria agir, dando os dados racionalmente e coloborando com tudo que soubesse, mas na realidade sentia que estava desmoronando por dentro, cada pergunta feita uma faca afiada cortando seu corpo. Não passara despercebido a Walter Skinner a maneira como sua subordinada estava agindo. Ele acompanhou a cena por alguns momentos antes de lhe falar diretamente. Sabia que ela estava em seu limite e queria preservar ao máximo o que ainda lhe restava de auto-controle. Ele aguardou que ela terminasse seu testemunho preliminar para só então ir encontrá-la. Não deixou de passar por sua mente como ela parecia linda com as manchas de sangue em seu rosto. De alguma forma, o vermelho realçara ainda mais seus traços delicados e seus olhos azuis. Skinner desejou que Mulder estivesse lá para vê-la, a força com que ela se comportava certamente o deixaria orgulhoso. No momento em que Skinner se apresentara ela finalmente se deixara levar pelas lágrimas. Sentia-se segura ao lado do chefe e amigo. O que ainda lhe restava de força a deixou no momento em que viu nos olhos de Skinner a pena e a preocupação que ela própria sentia. Todos compreendiam que ela estava ainda em estado de choque, e ninguém estranhou quando ela simplesmente sucumbiu ao abraço que seu chefe lhe oferecia. Naquele momento não havia mais o exclusivo clube masculino da força policial, e sim olhares solidários de oficiais que sabiam que a situação pela qual aquela mulher estava passando era extremamente estressante. Era um momento de fraqueza completamente aceitável para uma agente que acabara de presenciar o parceiro ser baleado e não pudera nem ao menos prestar socorro. Dana Scully ficou abraçada a seu amigo e deixou que as lágrimas rolassem soltas, quentes. Aos poucos começou a controlar o desespero que sentia. Era hora de dizer o que sabia a Skinner. Repetiu toda a história para ele, dessa vez adicionando elementos que apenas ele compreenderia, como a real origem do criminoso. Os policiais no local jamais aceitariam uma explicação que envolvesse um homem que podia se transformar em qualquer pessoa e muito menos uma que envolvessse alienígenas. "Scully, vá pra casa, agora. Qualquer notícia eu ligo." "Eu..." Ela fôra interrompida pelo barulho estridente da fita amarela sendo colocada ao redor do corredor, se estendendo até o apartamento 42. Por pouco não perdera o controle. Agora ela sentia mais uma vez que o que acontecera ali era real e não um pesadelo. Skinner sentiu a mulher à sua frente estremecer e colocou seu braço ao redor de seus ombros, confortando-a o máximo que podia. Por mais que fôsse uma agente treinada, uma médica, uma mulher respeitada, ele sabia que naquele momento ela era apenas uma menina em meio a uma guerra. Ele sabia, mais que ninguém, que ela acabara de perder não apenas seu parceiro, mas alguém infinitamente mais importante em sua vida. Ele a soltou e continuou falando com palavras doces, tentando trazê-la de volta das cruéis recordações do que acabara de acontecer. "Vá pra casa. Tome um banho. Descanse. Nada será feito sem o seu conhecimento. As equipes estão vasculhando a área, há barreiras nas estradas. Eles não podem ter ido muito longe..." "Senhor, se eu tivesse ficado, se eu tivesse enfrentado aquele homem..." "Estaria morta, agora, assim como Mulder estaria também." "Mas... Teria encontrado uma maneira..." "Isso não é mais um pedido, agente Scully, é uma ordem. Vá para casa." Scully pensou em argumentar, pedir para ajudar nas buscas, mas seria inútil. Ela sabia que seu chefe tinha razão. Em seu estado, não ajudaria em nada. *** O carro continuava em sua trajetória, agora em velocidade mais baixa. Mulder há muito já tinha se deixado levar para o estado de inconsciência que há tanto tempo aprendera a esperar. Era um lugar seguro, longe de toda a dor e culpa do mundo. Era um lugar familiar. Ele não viu quando foi arrastado para fora do carro e para dentro da indústria química que funcionava naquela zona afastada da cidade, nem quando seus braços foram soltos e sua jaqueta lhe foi tirada. Ele não viu quando foi abandonado no chão de uma antiga sala dum dos escritórios desativados da indústria. *** Dana Scully chegou em seu apartamento e andou com passos perdidos pela sala. Deu voltas e mais voltas, absorta em seus pensamentos. *Por quê? Por que não fiquei lá? Eu teria achado um meio, teria ajudado...* Após alguns minutos dirigiu-se ao quarto, abandonou as roupas em cima da cama e entrou no chuveiro. Um banho quente certamente a ajudaria. Queria livrar-se do que sentia, queria tirar aquele peso de suas costas. Queria... queria Mulder de volta. A água vermelha que escorreu pelo ralo assim que ligou o chuveiro não a deixou esquecer por um segundo o que acontera. Sentou-se no chão do box e abraçou seus joelhos, repousando a cabeça sobre eles, deixando a água quente a abraçar. Estava com medo, medo de perder o homem que amava. Ela estava cansada de sentir medo, de viver com uma ameaça contante rondando ela e as pessoas que amava. Ela chorou aberta, francamente. Chorou por seu parceiro, chorou por sua irmã, por sua filha. Chorou por tudo que tinha perdido e por escolhas há muito tomadas e sem volta. Revisitar todas as culpas e frustações era ao mesmo tempo uma experiência dolorosa e catártica, chegar ao fundo do poço para depois ressurgir. Ela sabia disso e não tentou fugir da profunda trsiteza que sentia. Chorou até não ter mais lágrimas, até o cansaço a vencer. Até decidir levantar e agir. Desligou a água, enrolou-se na toalha e caminhou até a frente do espelho em seu quarto. Como ela havia mudado nesses anos. Não era mais a menina que queria provar o quanto era capaz, mas uma mulher que conseguira sucesso profissional e o respeito dos colegas. Tivera que sacrificar coisas importantes em sua vida por essas conquistas, mas o fizera sabendo das conseqüências. Sacrificara desde amizades até sua vida amorosa. Isso até envolver-se com Mulder. Tivera diversos romances mas nenhum amor verdadeiro. Até encontrá-lo. Era como se sua vida tivesse ganho novas cores ao lado dele. Graças a ele, ela aprendera a valorizar-se ainda mais como profissional e mulher. Ele a ensinara que a opinião alheia, fôsse da família ou dos colegas de trabalho nada valia, o importante sendo o que ela pensava sobre si própria, se ela estava satisfeita ou não. Parecia simples, mas esse entendimento havia sido conquistado ao longo de diversas conversas e até algumas brigas. Mulder podia ser a eterna criança curiosa, mas guardava uma sabedoria que sempre a surpreendia. Ao pensar nele lembrou-se da violenta cena que presenciara há tão pouco tempo e contemplou a escolha que fizera. Optara por segui-lo em suas convicções. Optara por deixá-lo. *Nós somos as escolhas que fizemos...* Sentou-se na cama, observando a noite que chegava. Eles estariam saindo do serviço àquela hora, estariam indo jantar ou pelo menos tomando alguma coisa no bar perto do escritório, nenhum dos dois querendo separar-se até o dia seguinte. Ela começou a lembrar-se de todos os momentos ao lado dele, todas as palavras doces que ele sempre lhe dizia. Aquilo lhe trazia muita paz. Não queria lembrar-se, naquele momento, dos acontecimentos daquele dia. Queria lembrar-se de tempos felizes. Lembrou-se do primeiro café na cama que ele lhe fizera, quando ela ficara doente em um de seus primeiros casos juntos. Ela pegara um resfriado numa vigília noturna e resolvera ficar no quarto na manhã seguinte. Como era domingo e não havia refeições no hotel ele mesmo fôra até o mercado e comprara os ingredientes para o café da manhã, cozinhando na cozinha da casa do gerente. Era um mistério como ele havia convencido o pobre homem a ceder sua cozinha a um hóspede em pleno domingo de manhã. *Ah, Mulder... Você queimou as torradas.* Passou a recordar-se da primeira vez que se beijaram de verdade, numa noite de ano novo. Como eles haviam demorado para aprender a lidar com seus sentimentos. O beijo havia sido iniciativa dele, como ela desejara. Eles eram destinados um ao outro, e, no fundo, ela sempre esperara que ele fôsse o primeiro a expressar essa realidade absoluta. *Um para o outro... Minha raposa, minha própria raposa. Como queria pegá-la no colo, nesse instante...* Ela agora começava a chorar de novo. As lágrimas eram doces, ternas... Lembrava-se com carinho de todos os momentos lindos ao lado de Mulder. E não eram poucos. Desde o início ele não quis machucar seus sentimentos, não queria que ela se sentisse pressionada a tomar uma decisão quanto a ficarem juntos ou não. Teria que ser uma decisão conjunta, um passo a ser dado pelos dois. Quando finalmente conversaram sobre o assunto, sua decisão fôra imediata, e ele lhe confidenciara mais tarde que se tivesse esperado um segundo sequer pela resposta dela teria enlouquecido. Já bastavam os sete anos de amizade, ele não suportaria mais ficar longe dela. A primeira noite juntos. Ele era um romântico, era inevitável. No dia seguinte ela acordara com flores por toda a cama, por todo o quarto. Ela lembrava agora do doce aroma das rosas, girassóis e margaridas com que acordara aquela manhã. Era o final perfeito de uma noite perfeita. Ruborizou-se ao lembrar de quando Skinner descobrira sobre eles. Um dia ele os surpreendera no escritório muito próximos, trocando olhares e gestos quase explícitos. Eles tentaram argumentar, mas tudo que seu chefe lhes dissera na ocasião fôra que não se preocupassem. "Não digam nada, agentes. Eu não estive aqui, não vi nada." Após aquele dia Skinner agira normalmente, como se realmente não soubesse do que acontecia. Eventualmente ele conversara em particular com os dois, explicara que eles deveriam continuar mantendo as aparências e respeitando as normas do Bureau. Mas, em seus encontros fora do ambiente de trabalho, dera todo o apoio à relação, mostrando-se amigo e confidente. Às vezes ficava um clima estranho durante as reuniões, principalmente naquelas em que haviam discussões sobre a conduta de Mulder, os três se controlando para não rir da insólita situação. Era como se o pai da noiva reclamasse da comportamento do genro. *** Aos poucos ela passou a pensar no que deveria fazer a seguir. Perder-se em lembranças enquanto Mulder estava lá fora em perigo não o traria de volta. Ela sabia que deveria ajudar nas investigações, ligar para Skinner mas, ao mesmo tempo, tinha medo de descobrir que era muito tarde. Imagens de Mulder ferido invadiram sua mente, a sua impotência diante da cena rapidamente tranformando-se em fúria. Ela não podia nem pensar na possibilidade de ser tarde demais. "Não! Nós somos as escolhas que ainda faremos!" Naquele momento ela prometia a si mesma que acharia seu parceiro a qualquer preço. Levantou-se, vestiu-se e rumou para a sede do FBI. Encontraria Skinner lá e juntos achariam uma maneira de encontrar Mulder. *** Ele ficou ali por quinze minutos, a consciência voltando aos poucos. Notou, com certa esperança, que não fôra amarrado novamente. Mas então ele se deu conta: por que o abandonariam livre em uma sala? Provavelmente porque sabiam que não viveria o bastante ou não teria forças para tentar uma fuga. E o pior, eles estavam certos. O simples movimento de virar-se para procurar a única porta da sala já lhe custou mais esforço do que poderia dispor. Jazia agora de lado, olhando a porta e tentando, com a força do pensamento, chamar por Scully. Telepatia. Exatamente o tipo de coisa em que ela não acreditava. Ele tentou gritar por socorro, mas a falta de fôlego frustrou seus planos. Mulder segurou o ferimento, com esperança de que a dor ao menos diminuísse, mas tudo o que conseguiu foi sujar suas mãos de sangue. Teria que esperar a cavalaria médica e seus milagrosos medicamentos se quisesse ter sossego. Ou apenas desmaiar. *Por que diabos eu não desmaio quando preciso?* Por fim, deixou-se ficar lá, esperando pelo inevitável. Que o monstro voltasse e acabasse logo o serviço. *** Enquanto passava pelo detector de metais Scully teve uma idéia. Era arriscada e ela teria que contar com o apoio e colaboração de seu chefe, mas valia a pena tentar. Ao chegar ela nem precisou ser anunciada. Kim a levou direto ao encontro de Walter Skinner, não sem antes oferecer seus sinceros sentimentos. Ela encontrou o escritório repleto de agentes de campo, pessoal da parte técnica e estrategistas. Estava sendo traçado o plano de buscas. Scully alegrou-se ao ver que todos naquela sala tinham apenas uma preocupação: achar seu parceiro. "Senhor..." "Entre, agente Scully. Estávamos discutindo que medidas tomar, por onde devemos começar as buscas. Alguma sugestão?" Skinner a colocou a par dos rumos que seriam tomados, o que não deixou de surpreendê-la. Este era o mesmo homem que há apenas algumas horas a havia obrigado a deixar as investigações. Talvez ele soubesse que o melhor seria não deixá-la de fora, já que sendo útil às investigações seria mais fácil lidar com a perda de seu parceiro. Ficou decidido que seriam efetuadas buscas em todos os locais onde o suspeito fôra visto anteriormente, assim como em aeroportos e propriedades da região. Era o procedimento padrão do FBI acrescido da preocupação sincera de todos os envolvidos na operação. Ainda que Fox Mulder fosse estranho, todos tinham pelo menos uma boa memória a seu lado, e todos reconheciam seus gestos de heroísmo e dedicação ao Bureau. Scully sentiu-se reconfortada. *** Uma casa com cercas brancas e cortinas na cozinha. No jardim, uma menina de longos cabelos negros empurrava uma menor ruiva no balanço de madeira. Ambas riam e se divertiam. Da varanda, ele acompanhava toda a cena ao lado de Scully, sentados juntos em uma espreguiçadeira. Sua mãe e Maggie preparavam o jantar, enquanto Bill e seu pai discutiam política na sala. O mundo era perfeito. Não havia ameaça, não existiam Consórcios ou Caçadores Alienígenas. Sua irmã estava lá, sua família estava lá... Scully estava lá. Ele estava seguro e feliz. *** Mulder sentiu uma presença na sala e abriu os olhos, tentando focalizá-los na figura parada a sua frente. "Vejo que a bela adormecida acordou." "E por que você não se morfa em alguém menos horroroso, seu..." "Devagar, meu amigo. Você sabe do que eu sou capaz." "Quer brigar lá fora? Eu digo brigar de verdade, e não usar esses seus truques de palhaço de circo!" "Mulder, encare o fato, você vai morrer. E embora eu até goste de você, isso pode demorar horas ou ser rápido e indolor. Será uma decisão sua." "Oh, já que a decisão é minha, eu..." Seus bruscos movimentos o causaram uma onda de dor que se estendeu por todo o corpo, fazendo-o encolher-se e instintivamente segurar o ferimento. Suas mãos mais uma vez se sujavam com seu próprio sangue. O Caçador olhou sarcástico para ele. Como alguém em sua posição poderia ter coragem de dizer coisas como aquelas? Seria esse homem tão determinado e louco como diziam? Ele lembrou-se do encontro que tiveram anos antes, num submarino no Alasca. Mulder o seguira até os confins do gelo e arriscara sua vida para saber o paradeiro de sua irmã. Sem dúvida ele devia ser louco, ou muito corajoso, já que não desistira de perguntar sobre ela nem mesmo quando sentira a morte iminente. O homem deitado no chão frio do escritório acalmara-se, seus movimentos ficando mais lentos até que cessaram. Fizera bem em não algemá-lo novamente, pensou friamente o homem que o vigiava. Ele não conseguiria fugir dali nem que quisesse e não havia necessidade de mais crueldade. Iria morrer, mesmo. *** O Caçador não o fizera antes por mera formalidade. Cumpria ordens e elas eram específicas: ele deveria trazer Fox Mulder até a indústria até que seu destino fôsse decidido. Não importava como. A companhia era apenas mais uma das dezenas de propriedades destinadas a pesquisas sobre clonagem e desenvolvimento de uma vacina contra o óleo negro do Consórcio. Sua localização fora da cidade, numa área afastada, já havia sido aproveitada diversas vezes em operações como aquela. Os cientistas que lá trabalhavam nem mais estranhavam quando eram avisados para deixar os laboratórios às pressas. Eles nada sabiam do que era feito nessas ocasiões pois não tinham uma visão total do projeto, o que contribuía ainda mais para o sigilo em torno dos objetivos dos donos da companhia. O Caçador o levara para lá exatamente por isso. Estava agindo conforme o combinado, tinha arrastado aquele homem para lá, onde jamais seriam achados, até que seu destino fôsse traçado. Saiu então da sala e foi saber quais seriam as próximas medidas a serem tomadas. *** As buscas continuavam mas não havia notícia do paradeiro de Mulder e do desconhecido. Scully e Skinner sabiam que encontrar alguém que se transformaria em outra pessoa à simples visão de um policial não era uma tarefa fácil. A isso se acrescia a certeza de que ele contava com a ajuda de pessoas importantes e poderosas, pessoas que não hesitariam em usar sua influência para esconder o fugitivo e seu refém. A sós no carro com Skinner enquanto iam de um local de buscas à outro, Scully aproveitou o momento para propor a seu chefe sua idéia. "Senhor, tenho uma idéia, e gostaria de contar com a sua ajuda." "Diga, agente Scully." "Esse homem, esse Caçador de Recompensas, ele é ligado à CGB Spender e..." "Vejo aonde quer chegar, mas não acho que Spender seja de qualquer ajuda nesse caso. Ele não teria porque nos ajudar a encontrá-lo." "Depois de todos esses anos, digo, ele poderia ter nos matado a qualquer momento, mas... nós estamos aqui hoje, e por mais que seja duro admitir, ele teve a sua parte nisso. Ele vai nos ajudar." "Scully..." Skinner suspirou, preocupado com sua subordinada, e acima de tudo, com sua amiga. "Não podemos nos arriscar a esse ponto. Talvez ele não saiba onde Mulder esteja, ou pior, ele saiba." "Temos que arriscar, senhor." "O que você acha que Mulder faria?" "Ele encontraria alguma fonte secreta, senhor, e iria atrás de qualquer pista que essa fonte lhe desse. Ele seria impulsivo e encontraria o que procurava. E é por isso que quero tentar." Nos segundos que se seguiram, Walter Skinner contemplou o peso da decisão que estava para tomar: entrar em contato com um inimigo em potencial, alguém que tiraria a vida de seu agente sem pensar duas vezes - e pediria ajuda a essa pessoa. "Scully, me dê uma hora. Vou ver o que posso conseguir." Ele a deixou em seu apartamento prometendo entrar em contato assim que tivesse uma resposta. *** Alguns minutos mais tarde, a porta da sala foi aberta, os passos lentos do novo visitante irritando Mulder. Logo a sala foi infestada pelo cheiro de fumaça. O Canceroso caminhou até onde estava o corpo encolhido no chão. O sangue que inundava a camisa branca e a palidez denunciavam o estado de Mulder. O ferimento parara de sangrar, mas por experiência própria ele sabia que qualquer pequeno movimento daria início a nova hemorragia. Ele próprio fôra baleado diversas vezes em seus muitos anos dedicados à causa. Ele contemplou aquele homem, como ele parecia mais jovem, quase um garoto. Mais uma vítima do jogo iniciado há 50 anos. Mais uma vida que seria tomada impunemente. O homem agora virava-se em sua direção. Spender notou os movimentos lentos, difíceis. Definitivamente, ele não tinha muito tempo. *** Mulder sentiu a raiva e a impotência tomando conta de seu corpo quando virou-se para encarar o novo visitante. A vontade de matar aquele homem à sua frente era quase insuportável. Mas não era isso que o desgraçado queria, depois de tudo? A sua raiva, o seu medo, a sua morte? O homem passou um bom tempo apenas fumando e olhando-o, baforadas lentas e olhares que escondiam perfeitamente suas reais intenções. Ele caminhava calmamente ao redor de Mulder, como que apreciando uma obra de arte. "Veio testemunhar minha morte? Chegou tarde, não vou durar muito..." "Senhor Mulder, há quanto tempo. Aposto que sentiu saudades de nossos encontros." "Você, seu..." Mulder fôra interrompido por uma onda de tontura. Quando voltou a si, viu um olhar preocupado naquele de quem só esperava desprezo. "Preocupado que eu morra antes que você aprecie mais o show?" "Mulder, após todos esses anos você realmente acredita que quero o seu mal?" "Não, acredito que você atira em todos que ama!" "Jamais perde seu senso de humor, não? Mas não estou aqui para conversar. Estou aqui para ajudá-lo." Mulder começou a tossir violentamente e um filete de sangue escorreu pelo seu queixo. Lembrou-se de Scully, de sua irmã, de sua casa na árvore, tudo que o impedisse de entrar em pânico. Seu pior pesadelo estava acontecendo, estava indefeso e na presença daquele homem que aprendera a odiar há tanto tempo. Quando a tosse subsidiu, o homem de pé começou a falar de novo. Ele estava calmo, mas alguma coisa em sua fisionomia chamou a atenção de Mulder. Por mais improvável que pudesse parecer, ele parecia... preocupado. "Não tenho muito tempo. Tenho inimigos que querem vingança e virão atrás de mim." "Seus subordinados não andam respeitando o chefe? Oh, que pena." Mulder disse, sarcástico. O Canceroso continuou, não dando atenção à provocação. "Tenho um legado a deixar, e existem aqueles que acreditam que não seja mais necessária a minha intervenção em certos assuntos." "Esses assuntos não me interessam! Você está tendo o que sempre mereceu, é o castigo por seus crimes." "Mulder, assim você fere meus sentimentos..." "O pobre senhor Spender está triste... Por que será que ninguém gosta dele?" Mulder carregava na ironia. "Escute aqui, meu horário é caro, e francamente, não estou com a mínima disposição de começar uma sessão agora." O Canceroso riu da ironia involuntária, afinal Mulder era mesmo um psicológo, com especialização em mentes perturbadas de criminosos. "O que você quer? O que eu fiz que te deixa tão feliz em me ver morrer na sua frente? Que mal foi esse?" "Não há mal, Fox." Mulder se controlou ao ouvir seu nome usado por aquele assassino. Eram poucas as pessoas que podiam chamá-lo por seu primeiro nome, e ele definitivamente não era uma delas. Até mesmo Scully, seu maior tesouro, normalmente o chamava pelo sobrenome. "Após todos esses anos vigiando-o à distância, aprendi a admirá-lo. Sua força, sua determinação, sua coragem. Você teria dado um bom participante ao nosso lado..." "E você teria sido como um pai para mim..." "Não me entenda mal, mas você teria continuado o meu legado." "Legado de tirar vidas e esconder a verdade das pessoas? Muito obrigado, prefiro continuar aqui no chão sangrando até a morte!" "Não seja melodramático. Você não vai morrer. Não aqui nessa sala com cheiro de éter. Você tem muitas verdades para caçar ainda, filho." *** Ele agora se sentia como que colado ao chão, seus movimentos ainda mais difíceis. Ele tentou expulsar de sua mente a explicação de que estava assim por causa do sangue em sua roupa e ao seu redor. Ao contrário do que podia parecer, ele detestava ver sangue. Ainda mais o seu. Acompanhar as autópsias com Scully não era a melhor parte de seu dia, e o fazia porque a curiosidade era grande. E porque... sentia-se seguro ao lado dela. A médica, a doutora, a forte. A mulher que ele amava. Ele a admirava e imaginava como uma mulher tão delicada conseguia fazer tudo que ela fazia. Ah, a coragem que tivera para finalmente se declarar, seu medo de que ela não dividisse os seus sentimentos. Ele treinara dias e dias, mas na hora a declaração havia sido completamente diferente da decorada. O discurso fôra completamente romântico e apaixonado. Graças aos Céus ela sentia o mesmo. Ele não poderia esperar um segundo que fôsse pela decisão que ela teria que tomar. Mas ela também se declarara e ambos acabaram selando seu amor com um beijo, às margens do rio Potomac. Ele ouviu na ocasião as palavras mais bonitas que jamais sonhara ouvir. Palavras de amor vindas daquela linda mulher que amava tanto. Depois daquele dia, a vida a dois se tornara sua maior felicidade. Lembrou-se de seus momentos juntos, momentos divididos com Scully, e rezou para que houvessem muitos outros ainda. Queria voltar para ela, queria trazer mais cafés na cama, queria fazê-la rir, queria fazê-la cada dia mais feliz. Queria mais momentos felizes ao seu lado. Desde a primeira vez quando descera até seu escritório no porão, nova e desconhecida, traidora e misteriosa, ela lhe chamara a atenção. Ela tinha alguma coisa que o intrigava, uma enorme força interior mesclada a sinceridade e delicadeza. E era linda, como era linda. Ele foi conhecendo-a aos poucos, e junto à amizade e ao respeito mútuos foi crescendo também o amor que sentiam um pelo outro, mas que demorara tantos anos para aflorar. Após os sete anos juntos, ele finalmente criara coragem e declarara-se, mesmo que com receio de não ser correspondido. Ambos tiveram medo de perder uma amizade tão forte, mas, assim como ele, ela acreditava que assumirem um relacionamento era o próximo passo natural, já que os dois compartilhavam um mesmo sentimento. Havia sido uma decisão muito bem pensada e estudada. E esperada. Desde então sua vida fôra perfeita. Ele recordava-se agora dos primeiros dias juntos, namorando escondido no escritório como dois adolescentes com medo de serem pêgos. E acabaram pêgos. Skinner descobrira por acaso sobre eles, o que acabara aproximando os dois ainda mais de seu chefe. Tornaram-se ainda mais amigos dele. Skinner era o único que sabia do relacionamento no ambiente de trabalho e era alguém com quem podiam sempre contar. *** "Então, por que estou aqui?" "Você não vai ficar aqui por muito tempo. Não deixaria que isso acontecesse. Você está aqui por causa de uma espécie de... erro de julgamento." "Que erro de julgamento é esse? Que devia ter sido 'removido' há mais tempo? Me poupe de suas mentiras, você me tem agora onde sempre quis, está se divertindo com toda essa situação!" "Não, ao contrário do que você pensa, não estou. Não fui eu quem ordenou que lhe trouxessem para cá. De fato, estou trabalhando em um meio de tirá-lo daqui em segurança." Foram ouvidos passos no corredor. Passos largos, decididos. Assustadores. Após alguns momentos o Caçador de Recompensas entrou na sala. Mulder conteve a expressão de pavor. Pensou em sua casa na árvore, pensou em Samantha. Pensou em Scully. *Não! Não vou trazê-la para esse inferno nem em pensamento! Que aconteça o que tiver que acontecer, não posso lembrá-lo de Scully.* Ele parou e olhor sarcástico para Mulder, claramente se divertindo com a idéia de ter aquele impertinente a sua mercê. O Canceroso apontou para a porta. Eles seguiram para fora da sala, indo conversar longe dos ouvidos do prisioneiro. *** "Tenho ordens para acabar o serviço. Ele não será mais útil." "Mudança de planos, ele fica onde está. Ele ainda será muito útil, sim. O que restou do Sindicato precisa entender que um trabalho desenvolvido ao longo de anos não pode ser descartado sem mais nem menos." "Você não está entendendo, velho. Ele vai morrer de qualquer maneira, é só uma questão de tempo." "Receio que sim, mas você não o conhece tanto quanto eu. Eu já o vi morrer muitas vezes, apenas para reaparecer mais forte e com maior determinação. Ele fica onde está." "As ordens que recebi diziam que ele fosse tirado do caminho. Duvido que ele sobreviva... Ele perdeu muito sangue, ficou sem cuidados médicos por muito tempo. Faça o que quiser com o tempo que lhe resta, Spender. Volto mais tarde para me livrar do que restar dele." Dizendo isso, o Caçador de Recompensas se retirou. Havia cumprido a sua parte. Que o velho fizesse o que quisesse com aquele homem. Não houve uma resposta, apenas uma baforada demorada de cigarro. "O poder é daqueles que sabem como utilizá-lo..." *** Dana Scully estava apreensiva. Skinner havia saído há mais de uma hora para tomar providências e até aquele momento não havia retornado. Será que era realmente tarde demais? Será que ela arriscara a vida de seu amigo e chefe quando lhe pedira ajuda? Ela tentou acalmar-se, mas a idéia de perder dois amigos, duas pessoas que amava no mesmo dia a deixava apreensiva demais. Resolveu, então, ela própria sair à procura de Skinner. Já era madrugada quando saiu de seu apartamento e dirigiu de volta ao escritório, a procura de pistas, qualquer coisa que não houvesse sido pensada até aquele momento. Entrou pela porta lateral, os dois guardas de plantão estranhando sua presença no prédio àquela hora. "Agente Scully, caiu da cama?" Perguntou o mais velho dos dois, um sorriso amistoso iluminando seu rosto. "É, Robbie, caí da cama..." "Você é a agente Scully?" O segunda guarda perguntou, sem jeito. Ele era novo, quase um adolescente. Ela não o conhecia. "Sim." "Eu... queria... Eu queria que soubesse que todos nós esperamos que o agente Mulder retorne logo..." Scully foi tomada por uma onda de tristeza. Era doloroso demais pensar que talvez ele nunca voltasse. Ela olhou para o garoto de cabelo muito loiro a sua frente e respondeu com palavras vindas do fundo da alma. "Eu também... Eu também." "Boa noite, agente Scully." "Boa noite, Robbie. Boa noite." Ela foi até o elevador sem olhar para trás, uma lágrima caindo de seus olhos. Teria que encontrá-lo, de qualquer maneira. *** Caminhou até o escritório e, por um segundo, esperou encontrar seu parceiro sentado na cadera giratória com as pernas em cima da mesa, comendo sementes de girassol e lendo algum relatório de um novo caso. A realidade foi cruel: nada de Mulder, e um escritório que fôra vasculhado. Ela tocou na suave moldura com seu nome na mesa, acompanhando com os dedos os entalhes que formavam o nome "Fox Mulder". *Mulder, estou com você. Vou achá-lo. Não desista de lutar, onde quer que esteja.* Começou, então, a vasculhar o escritório à procura de pistas. Uma coisa era verdade: mesmo com toda a bagunça produzida pela equipe técnica, o escritório não conseguia ficar mais bagunçado do que Mulder já o deixara. Ele era oraganizado, sim, mas era uma organização própria, que seguia categorias diferentes das usuais. O pensamento a fez sorrir. Continuou vasculhando. *Telefones, cartas, relatórios... Oh meu Deus, Mulder, quando você vai arrumar essa mesa? Fotos, fita de vídeo...* Ela foi até o computador. Checou e.mails, arquivos, qualquer coisa que parecesse fora do normal. Foi então que encontrou o envelope pardo, vindo de um laboratório que ela não conhecia. Ela tinha certeza que aquele envelope não estava lá aquela manhã. *O que é isso? Exames?* O envelope era de uma certa "TSC Laboratórios", nome que ela jamais ouvira antes. Scully abriu o envelope. Vazio. Estranho, já que Mulder jamais mandaria fazer qualquer análise sem que fosse nos laboratórios do FBI ou com seus três estranhos amigos. Ela procurou algum remetente no envelope mas não havia. A única coisa escrita era o nome de Mulder em letra cursiva e a frase "análise de produtos" impressa logo abaixo do logotipo da empresa atrás do envelope. Ela passou, então, a pesquisar nos arquivos do Bureau informações sobre a companhia, e não foi difícil descobrir o endereço da sede. A medida em que baixava os arquivos pelo computador a sua certeza de que havia alguma coisa errada com aquela companhia ia se confirmando. Os relatórios de produção e fabricação de produtos pela TSC estavam incompletos e alguns arquivos estavam tendo acesso negado. Mas ela já tinha descoberto o que precisava. *** "Voltou? O papo com seu amigo não estava agradável?" "Não, prefiro conversar com você." Mulder tentou rir, sarcástico. Ou pelo menos o mais próximo disso. "Conversemos, então. Meu nome é Fox Mulder, moro na Virgínia e não gosto de você. Ah, minha irmã foi abduzida quando eu tinha 12 anos. Mas acho que também já sabe disso." O Canceroso não respondeu à provocação. Permaneceu fumando seu cigarro em silêncio, fitando o homem a seus pés. Sentou-se calmamente numa das cadeiras do escritório, como que esperando por alguma coisa. A cada dia ele admirava mais aquele homem. Ele era tão certo de suas convicções, tão idealista... Como ele mesmo fôra um dia, antes que o cinismo e as regras do jogo o transformassem. Após um longo silêncio, ele perguntou, pensativo. "Mulder, você realmente acredita nessa sua 'Verdade'?" "Acredito que há coisas sendo escondidas, coisas que poderiam estar aliviando o sofrimento de muitas pessoas." "E se você estiver sendo apenas egoísta nessa história? Ao que me consta você só começou essa jornada por causa de sua irmã..." Mulder ficara em silêncio, refletindo sobre as palavras que acabara de escutar. Não deixava de fazer sentido, ele tornara-se o que era graças à abdução de Samantha. Com sorte, se nada daquilo tivesse acontecido, ele seria apenas mais um na população alheio às verdades que sabia hoje. "Mas isso aconteceu, e não pode ser mudado. Somos o que somos, e temos que conviver com isso." "Você mudaria tudo se pudesse voltar ao passado?" "Eu... eu... Eu não sei mais..." A confissão fizera com que seus olhos se enchessem de lágrimas. Se realmente pudesse voltar ao passado poderia mudar o destino de Samantha, mas, por outro lado, jamais saberia tudo o que sabia e seria apenas mais uma pessoa enganada em meio à multidão. Estaria alheio às ameaças do mundo, mas nem por isso elas não estariam lá. Seus pais certamente estariam vivos, sua irmã estaria com ele, sua vida seria normal e pacata. E, pricipalmente... não teria conhecido Scully. Teria se tornado psicológo, montado um consultório, construído uma casa perto da de Sam e jamais entraria para o FBI. Não a conheceria. Ela era a variável que tornava a equação injusta. Queria ter a a chance de mudar o passado desde que ela estivesse presente no novo futuro. Ele não queria demonstrar fraqueza na frente do Canceroso, mas a pergunta que fôra feita o abalara, isso era claro. Ele sentia-se pouco a vontade em partilhar seus sentimentos mais profundos com aquele homem, mas, estranhamente, ele não se preocupava mais com isso. Para o diabo com tudo, ele não tinha muito tempo, mesmo. "Eu não sei mais em quê acredito, ou em quem..." "Mas você acredita em sua parceira, você confia nela." "Sim. Eu confio nela e..." Ele agora falava para si mesmo, completamente alheio ao mundo exterior. "Ela é muito especial. Ela é alguém em quem... confio." "E pra você confiança é como amor... E você a ama." "Sim... Amor e confiança..." "E você acha que ela conseguiria encontrá-lo digamos... aqui, por exemplo?" "Não... eu..." Mulder riu-se da ironia da pergunta. "Eu finalmente achei um lugar em que ela não me encontrará." O Canceroso estranhou a mudança no humor de Mulder, como ele podia rir em meio à situação em que se encontrava. "Mas nós sempre podemos contatá-la." "O quê?" "Você sabe, trazê-la para cá para lhe fazer companhia." De repente ele lembrou-se de onde estava e com quem estivera falando. Uma onda de ódio vermelho e quente tomou conta de seu corpo. Não devia jamais ter se exposto dessa maneira, jamais mostrar seu ponto fraco, ainda mais para CGB Spender. Era óbvio que ele planejava usá-lo como isca para chegar a Scully. Ele não poderia ter dito o quanto ela era importante e o quanto a amava. Por mais que fôsse suposto, poucos sabiam de seu envolvimento com Dana Scully e agora ele colocara a vida de sua amada em perigo. A súbita culpa fez com que sua cabeça girasse. *O que foi que eu fiz?!* Ele respondeu em tom furioso. "Jamais, jamais encoste nela, seu desgraçado! Eu te mato!" "Você está ouvindo o que está dizendo, garoto? Você não está em posição de ordenar nada." O tom informal dera lugar a ameaças. A fúria era evidente também na voz do seu interlocutor. "Spender, você sabe que o problema é comigo, eu que venho atrapalhando esse seu projeto desde o início! Deixe ela fora disso!" "Eu faço com ela o que quiser, Mulder." Seu tom agora era desafiador. Ele levantou-se da cadeira e parou na sua frente, sua voz agora atingindo um tom ameaçador, abaixo da altura normal. "E você não poderá fazer nada para impedir!" Mulder fechou os olhos e começou a chorar abertamente. Ele estava certo, não estava em posição de defendê-la. O medo o paralisou, não conseguia falar mais nada. A sensação de frio e desamparo era insuportável. Queria morrer logo, que fosse dado mais um tiro, fatal. Não poderia viver com tamanha culpa, arriscando a vida da mulher que transformara a sua vida. A mulher com quem tivera poucos mas maravilhosos momentos de intimidade, a mulher com quem queria passar o resto da eternidade. Seus soluços ecoavam por toda a sala vazia, seu desespero crescendo ao ponto de completa loucura. O que fizera para passar por isto? Que mal tão grande era esse? Por que não a deixavam em paz, sendo ele o culpado por todos os erros já cometidos? Por que ele sempre acabava colocando a vida dela em perigo? *** Scully tentou avisar a Skinner aonde estava indo, mas o celular dele estava fora de área. Ele não havia voltado de seu encontro e ela temia que ele não tivesse encontrado o que procurava. O céu agora clareava, a manhã de mais um dia nublado se pronunciando. Os pensamentos de Scully eram quase como um mantra, entoados sem sentido, mais rápidos do que o carro que corria pela estrada deserta. *O tempo está passando, preciso encontrá-lo, Mulder, cadê você? preciso encontrá-lo, rápido, Mulder, eu te amo, vou te achar, vou te salvar, vamos ficar juntos, o tempo está passando...* Ela seguia sozinha para a sede da TSC Laboratórios e rezava para que Deus a ajudasse a encontrar seu parceiro ainda vivo. Os momentos que passaram juntos haviam sido tão poucos, ela queria mais felicidade ao lado dele. *Não é justo perdê-lo, não é!* O doce som de sua voz pela manhã, o suave toque de suas mãos em seu corpo, as brincadeiras, seu sorriso. Não podia perdê-lo, não agora que descobrira a felicidade de estar ao seu lado. A todo momento ela vasculhava seus conhecimentos médicos, avaliando em que estado o encontraria depois de passado tanto tempo e nas condições em que ele havia sido levado. Era provável que seu estado fôsse crítico. A enciclopédia em seu cérebro previa qual seria o melhor tratamento que seria aplicado assim que ela o encontrasse, assim como o tamanho do estrago com o qual ela teria que lidar. *Vamos dar um jeito, já o encontrei em situações piores e deu tudo certo. Tem que dar certo! Eu sou médica, droga! Não há nada que a gente não possa resolver!* Scully rompeu o círculo vicioso de seus pensamentos e tentou ligar mais uma vez para Skinner, mas ouviu a mensagem padrão da companhia telefônica dizendo agora que era o seu celular que estava fora de área. Pensou por alguns momentos se deveria voltar pela estrada até um ponto, distante dali alguns quilômetros, onde seu telefone ainda pegara ou se deveria seguir em frente e pedir reforços mais tarde. Seguiu sua intuição e continuou dirigindo. Pensaria no que fazer no futuro. O importante era chegar à sede da companhia e descobrir se Mulder realmente estava lá. *** O Canceroso levantou-se e caminhou até Mulder, que ainda chorava muito, perdido em seu inferno particular de culpa e medo. Ele agachou-se ao seu lado, e estendeu a mão para tocá-lo. Mulder o empurrou, o movimento brusco o deixando ainda mais tonto. O homem tentou tocá-lo novamente e dessa vez não encontrou resistência. Ele colocou a mão em sua testa, pegando em seguida o seu pulso. Isso fez com que a confusão de Mulder ficasse ainda maior. Ele resolveu não resistir, mas o que o Canceroso queria, afinal? "Mulder, não temos muito tempo. Fique aqui. Eu já volto." O tom ameaçador, venenoso, havia abandonado completamente a sua voz, sendo substituído por um tom preocupado, quase paternal. Mulder nem tentou compreender o que lhe era dito. Sua cabeça agora dava voltas, o simples esforço de manter os olhos abertos demais para ele. Por fim, a exaustão fez com que desmaiasse. *** Scully se aproximou da sede da companhia e notou apreensiva que haviam cercas eletrificadas e guardas na entrada. Aquilo era muito suspeito, ainda mais em uma companhia afastada da cidade. Quando se aproximou da guarita Scully teve que parar o carro, sendo recepcionada por dois guardas fortemente armados. "Sou a agente especial Dana Scully, do FBI. Solicito autorização imediata para entrar no prédio." "Sinto muito, agente. A entrada nessa área é proibida. Vou ter que pedir que a senhora se retire." E num gesto para comprovar o que dizia, o guarda segurou firmemente a arma. O recado estava dado, ela teria que arranjar outro jeito de entrar. A hipótese de arrombar a cerca e invadir os portões estava descartada, uma vez que o guarda acabara de avisar veladamente que os dois não hesitariam em atirar. Durante os poucos segundos em que pensara qual seria a melhor decisão a tomar uma providencial mudança de planos se configurava. O segundo guarda, que fôra atender a um telefonema dentro da cabine enquanto o outro conversava com ela, retornava agora e batia no vidro do carro. "Agente Scully? A sua presença está sendo aguardada. Siga em frente pela estrada principal." Ela nem se dignou a responder. Acelerou o carro e passou em alta velocidade pelos dois homens fardados. *** A estrada de asfalto que levava à TSC cortava uma floresta densa, o caminho sendo repleto de curvas sinuosas. O carro deslizava rapidamente, e ela chegaria ao seu destino em apenas alguns minutos. Era sem dúvida o lugar ideal para pesquisas secretas em áreas da ciência pouco convencionais. E também o lugar ideal para esconder alguém que não deveria ser encontrado. *** Chegando a seu destino, Scully passou a analisar atentamente as instalações. Eram novas, obviamente recém construídas. Havia muitas vagas de garagem e detalhes que apontavam para uma companhia com capital, como o jardim bem cuidado e o gramado muito verde. Causou-lhe surpresa que a porta principal não estivesse apenas destrancada, mas aberta. A entrada era bem guardada, com vidros anti-balas e portaria e recepção integradas. O prédio todo era monitorizado por câmeras, espalhadas por todas as salas e corredores. As portas eram automáticas e com senha, e um avançado sistema de computadores fazia a segurança do local. Alguém deveria obviamente estar à sua espera, ou pelo menos tomado a iniciativa de facilitar seu acesso. Não deixou de chamar a atenção de Scully que o prédio parecia estar completamente vazio, com exceção dela e dos guardas na distante entrada. Ela pudera até mesmo checar os monitores que estavam na sala da recepção. Nada, nenhum movimento nas salas e nos laboratórios. Ela não esperava encontrar pessoas trabalhando, mas a simples falta de vigias e guardas a surpreendeu. Alguma coisa estava errada. Ela mexeu nos computadores da recepção, procurando por salas que não estivessem aparecendo nos monitores. Era pura intuição que ele estivesse em alguma sala desativada. Foi quando ela encontrou o que procurava. A imagem fria de seu parceiro transmitida pelo monitor em preto e branco a levou a dois extremos em um lapso de segundo: se por um lado ela havia conseguido encontrá-lo, por outro a forma como ele se encontrava sozinho e abandonado naquela sala podia indicar que era tarde demais. Ela subiu correndo as escadas, testando cada porta no caminho. As que levavam à ala dos laboratórios estavam trancadas, as únicas apenas fechadas sendo as de escritórios no primeiro e, depois, no segundo andar. *** "Mulder?" Ela repetia a pergunta em um tom baixo a cada sala em que entrava, cuidadosamente vasculhando o local. Nada. Só mobília cara e salas impecavelmente limpas. *** Em uma sala no final do segundo andar ela finalmante o encontrou, desacordado. Uma exclamação de desespero escapou de seus lábios ao ver o estado em que ele se encontrava, deitado inerte em meio a muito sangue. A mesma imagem com que ela se deparara no corredor horas antes. A mesma imagem que a chocara. Ela correu e ajolhou-se ao seu lado, a segunda vez em menos de dois dias. "Mulder? Mulder, fala comigo!" Ela rapidamente desengatilhou a arma e começou a buscar freneticamente por batimentos cardíacos em seu pescoço. Quando finalmente encontrou uma pulsação, ainda que fraca, ela se permitiu suspirar profundamente. Pelo menos essa graça ela havia recebido, ainda havia tempo de salvá-lo. Scully o tomou em seu colo, examinando rapidamente o ferimento em seu peito. A bala fizera um grande estrago, atingindo o pulmão e certamente algumas costelas no caminho. Alguns poucos centímetros acima e Mulder não teria tido chance alguma. *Ainda bem que você é tão alto...* Ela pensou e sorriu, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. A bala por pouco não atingira seu coração. Logo seu lado médica assumiu de novo, e, na fraca iluminação do local ela pôde notar como ele estava pálido, como sua pele estava fria. Não restava dúvidas de que a falta de atendimento médico imediato seria fatal. Ela teria que achar um jeito de tirá-los de lá o mais rápido possível. A sua preocupação era agora achar um meio de movê-lo sem piorar seu estado. Estava muito debilitado e não teria condições de descer os dois lances de escada, nem mesmo com a ajuda dela. Scully passou a um exame mais minucioso do ferimento. Desabotoou a camisa aos poucos, cuidando para não machucá-lo. "Oh, meu Deus!" O ferimento era da gravidade que ela esperava, mas no fundo ela ainda tinha esperança de que não fôsse tão sério. Ela arriscou o celular, mas ele não funcionou. Teria que tentar um telefone na própria sala, talvez na recepção. "Eu vou nos tirar daqui, não importa como..." Ela improvisou com sua própria jaqueta um cobertor e o cobriu. Ela não queria deixá-lo sozinho enquanto procurava por socorro, mas por fim decidiu que teria que ir, e o mais rápido possível, se não quisesse perdê-lo. Ela acariciou seu rosto, despedindo-se. Fechou os olhos e baixou a cabeça, fazendo uma pequena prece para que a ajuda não tardasse a chegar e ela pudesse estar ao seu lado o quanto antes. Foi quando ouviu a voz de Mulder, um sussurro chamando por seu nome. Ele estava acordando, e ela partiria apenas quando tivesse certeza de que ele estava bem. Antes de ir ela o avisaria que sairia de seu lado apenas o tempo necessário para procurar socorro. "Scully... Scully, é você?" "Sim, sou eu, estou aqui..." "Scully..." "Estou aqui com você, vai dar tudo certo." "Você não deveria estar aqui... É perigoso..." Ela sorriu. Sempre preocupando-se com ela, mesmo sendo ele quem estava ferido. Era uma atitude tão dele, preocupar-se primeiro com os outros. "Viver com você é que é perigoso. E além do mais, quem iria trazer café na cama pra mim se eu não viesse te buscar?" Ele riu. Ela riu. Eles se olharam por um longo tempo. Era estranho como tudo parava ao redor quando se olhavam, o grau de comunicação entre eles funcionando como um canal aberto de respeito e amor. "Como... como me encontrou?" "Não importa, eu te encontrei. Precisamos achar um meio de sair daqui." "Ele está aqui, Scully, o Caçador está aqui." Ele viu seu próprio pânico refletido nos olhos dela. Eles não tinham armas contra aquele ser indestrutível. "Mulder, eu vou descer e procurar ajuda. Meu telefone não está pegando e o seu... " Ela interrompeu a sentença. *... o seu ficou destruído no meio do tiroteio.* Percebendo que ela ficara sem jeito, ele completou a sentença por ela. "O meu vai ter que ser substituído... logo!" Ele sorriu, tentando fazê-la sorrir, mas tudo que conseguiu foram duas lágrimas que rolaram pelo seu rosto. *Como ele consegue tentar me fazer sorrir numa situação dessas?* Ele passou os dedos pelas lágrimas no rosto dela. "Scully, antes que você vá..." Eles se beijaram levemente. Ela sabia que ele tentava acalmá-la naquele instante, mas o gosto de sangue que sentiu serviu apenas para deixá-la ainda mais apreensiva. O contato fôra interrompido quando Mulder sentiu-se subitamente fraco demais, fazendo com que sua cabeça resvalasse no colo de Scully. Suas forças estavam se exaurindo rápido. "Scully... senti tanta saudade de você..." "Mulder, não fale, só descanse. Eu volto assim que achar um rádio, um telefone, qualquer coisa que possa nos tirar daqui..." Ele agora falava com muito esforço, sua respiração rápida denunciando seu verdadeiro estado. Ela sabia que ele desde o início fingia estar melhor do que realmente estava para não preocupá-la. Mas ele não poderia esconder para sempre. "Spender... ele está aqui." Scully lembrou-se do pedido que fizera a Skinner. Seria a presença do Canceroso graças a seu chefe? "Você o viu? Falou com ele?" Ele riu quase sarcástico. Ela o censurou com um olhar. Não era hora de perder tempo discutindo a relação daquele homem com os dois. "Sim, pudemos até colocar nossos assuntos em dia." Ele ficara sério. "Scully, havia alguma coisa errada com ele, ele parecia preocupado com alguma coisa... Se não o conhecêssemos tão bem até diria que ele estava aqui para..." Ele parou, pensando no que estava prestes a dizer, mas ela o completou antes. "Ajudá-lo..." Ele fez que sim com a cabeça. "Mulder, vou descer agora." "Por favor, tome cuidado, ele... eles estão aqui." "Vou tomar cuidado, não se preocupe." Ela ia deixando a arma no chão ao lado dele quando ouviu sua voz suplicante. "Não, Scully, leve a arma." "Fique quieto! A arma fica e eu já volto. Ouviu, Mulder? Mulder...?" Ele perdera a consciência por alguns instantes, voltando a acordar quando ela o chamou. "Ahn? O quê?" Ele estava claramente desorientado, e sua respiração difícil começava a preocupá-la novamente. "Eu já volto." Ela começara a se levantar quando passos foram ouvidos vindo em direção à sala. "Scully, por favor, saia daqui agora..." Em um tom calmo mas ao mesmo tempo repleto de desesperado ele implorava que ela o deixasse e se escondesse. "Não! Eu nunca mais vou te deixar pra trás. Ficamos e enfrentamos quem quer que entre por aquela porta." "Por favor, saia daqui... Eu não suportaria saber que coloquei sua vida em perigo... mais uma vez..." O tom na voz de Mulder refletia uma enorme preocupação, mas não pela sua vida, e sim pela de Scully. E ela sabia disso. Aquilo a deixava ainda mais apreensiva. "Ssshhh... Ele está vindo." O ruído seco da arma de Scully sendo engatilhada foi ouvido em toda a sala. Os passos pararam por alguns momentos. *** Os segundos pareciam uma eternidade. Scully apontava a arma em direção a porta, protegendo Mulder com seu corpo, meio abraçando-o, meio escondendo-o atrás de si. Os passos não eram mais ouvidos, o que significava que o invasor sabia de sua presença. Ele estava sendo mais cuidadoso agora que sabia da presença de alguém armado na sala. A demora deixava Scully cada vez mais apreensiva, queria enfrentar logo quem quer que fôsse o invasor, qualquer coisa menos aquela espera aflitiva. *** De repente o invasor entrou na sala, arma em punho. Ele e Scully se encararam e por um triz ambos não atiraram. O homem logo reconhecera as figuras no chão. Eram Scully e Mulder. Ela também reconhecera Walter Skinner. Os dois suspiraram em uníssono, agradecendo a chance de não ter cometido um erro fatal. "Scully, que bom encontrá-la aqui." Ele caminhou até onde os dois estavam, Scully segurando Mulder fortemente como que para protegê-lo do susto que ela mesmo levara. "O mesmo digo eu, senhor." "Vim assim que pude, não sabia que ia encontrá-la aqui." Ele se agachou ao lado deles, e com a proximidade Scully viu que ele também estava ferido, provavelmente resultado de uma briga. "O senhor está bem? O senhor está ferido!" Ela apontou para as marcas roxas em seu rosto. "Está tudo bem, agente Scully... Vamos sair daqui, ele pode voltar a qualquer momento!" "Ele quem senhor? O que houve?" "Eu fiz o que combinamos e entrei em contato com CGB Spender. Descobri que Mulder havia sido trazido para cá. Tentei entrar em contato com você para pedir reforços mas não consegui..." Scully lembrou-se que seu celular também deixara de funcionar no caminho para aquele local. "...e achei melhor averiguar o endereço que Spender me dera imediatamente." Ela agora se levantava, e, juntos, começaram a carregar Mulder para fora da sala. "Como descobriu este endereço, Scully?" Eles agora percorriam os corredores desertos da indústria, passando por salas e laboratórios. Mulder era carregado pelos dois, seus braços em torno dos ombros de Scully e Skinner. Estava fraco demais para correr ao lado deles, embora quisesse. "Havia um envelope aberto na mesa de Mulder com o timbre da TSC. Pesquisei no banco de dados e... "Não me diga, apareceram dados suspeitos..." Scully assentiu com a cabeça. Mulder ia e voltava do estado de incosciência, seus olhos semi-cerrados acompanhando o movimento das luzes no chão bem encerado, teimando em procurar alguma coisa que desviasse seu pensamento da dor que sentia. "Chegando aqui fui levado ao encontro de Spender, ele me indicou onde Mulder estava." Ao pronunciar a última palavra ambos olharam para Mulder, que havia mais uma vez desmaiado. Eles diminuíram a velocidade de seus passos enquanto Scully se certificava que tudo estava bem. Dentro do possível estava, e eles mais uma vez apressaram o passo. "Estava chegando à sala quando encontrei o Caçador, como vocês o chamam..." Um arrepio percorreu o corpo de Scully. "... e, após uma rápida 'troca de idéias'..." Eles se olharam. "...encontrei Mulder. Admito que seu estado me alarmou. Ele estava desacordado quando cheguei, e o deixei para pedir reforços. Eles devem estar a caminho, agora." Aquela notícia dera alguma esperança a Scully. Era uma questão de tempo até que finalmente deixassem aquele infero para trás. Eles chegaram até a entrada do prédio. Até ali havia sido fácil. Fácil demais. "Scully, fique aqui com ele, vou me certificar que estamos sozinhos aqui na recepção." Eles colocaram Mulder em um sofá dentro da sala da segurança, trancando a porta que levava aos escritórios de onde tinham vindo. Skinner fôra certificar-se de que não havia nenhuma outra entrada fora a entrada pricipal. "Hummumm..." "Mulder, calma, a gente já vai sair daqui, os reforços estão quase chegando." As estridentes sirenes de ambulâncias e carros de polícia já eram ouvidas. *** De repente, com um estrondo, a porta da sala foi aberta. O Caçador entrou atirando, só dando tempo a Scully de deitar-se sobre Mulder para protegê-lo. Ele agora se dirigia à pequena sala da segurança, atirando incessantemente contra o vidro de proteção. O que se seguiu foram segundos de confusão e desespero, Scully reagindo e atirando na direção daquele homem e protegendo-se atrás do vidro anti-balas da portaria que os separava do monstro. Ele esperou a munição de Scully acabar e então deu calmamente a volta pelo vidro. Parou a apenas dois metros dos dois, Scully escondendo Mulder atrás de si. *Meu Senhor, me ajude...* *** Silêncio. O mundo em câmera lenta. Luzes brancas. Confusão. Medo. *** Scully achou que tivesse sido baleada quando a cena passara a desenvolver-se em câmera lenta. Acreditara que sua hora, assim como a de Mulder, havia chegado. E sentiu uma leveza que quase a fez flutuar. De repente, gritos. Seus próprios gritos. A cena voltava a sua velocidade normal, alucinante. Ela demorou até compreender o que se passara ao seu redor. *** Skinner ouvira a troca de tiros e voltara correndo, encontrando os dois encurralados no canto da sala e protegidos apenas pelo vidro anti-balas que já começava a rachar. Ele aproveitou um segundo de falta de atenção do Caçador e atirara em sua nuca. Um único tiro, certeiro. O inferno chegara ao fim. *** Confusão, perguntas, ordens sendo gritadas e luzes coloridas. Scully demorou a acreditar que a cavalaria havia finalmente chegado. As ambulâncias estacionaram no local e em poucos minutos os paramédicos já estavam cuidando de Mulder e dos ferimentos de Skinner. As ordens dos médicos competiam com os berros dos policiais vasculhando o local. Eles começaram as buscas pelo sequestrador e por qualquer coisa de anormal na companhia. Saíram com uma lista de irregularidades, como uso de materiais químicos sem autorização e de equipamentos restritos ao governo, além de pedidos de mandatos contra os resonsáveis pela companhia por seqüestro e tentativa de assassinato de um agente federal. Sem dúvida eles haviam descoberto serviço para um bom tempo. O caso da TSC estava apenas começando. Aquilo era apenas a ponta do iceberg. Scully acompanhou seu parceiro na ambulância, deixando Skinner sendo atendido no local e dando as explicações necessárias. Ela própria não sabia se havia sido ferida no tiroteio, e francamente não dava a mínima. Ela iria com Mulder para o hospital, e entraria até na sala de cirurgias se fôsse necessário. Jamais o deixaria sozinho novamente. Nunca mais. *** Passaram-se alguns dias e as coisas finalmente começavam a se normalizar. Mulder havia deixado o hospital e tinha prognóstico favorável. Logo poderia dedicar-se a trabalhos de campo novamente. Ele havia se mudado definitivamente para o apartamento de Scully, a decisão final sendo tomada após sua saída dos hospital. Assim, ela poderia vigiá-lo de perto e dividir com ele mais que apenas o escritório. Algo dizia aos dois que a estadia dele no apartamento dela serviria para mais coisas do que apenas tratamento médico. Ele manteve seu apartamento, alegando que para o bem da saúde mental de Scully ele passaria alguns dias da semana lá. *Ou quando passarem as maratonas de ficção científica.* No serviço, por hora ele ficaria tomando conta apenas dos relatórios e da parte burocrática. A parte divertida ficaria com ela. Eram comuns os pedidos dele para acompanhá-la, mas ela era irredutível: nada de caçar monstros, pelo menos pelos próximos meses. Ele havia quase morrido, e seu corpo ainda não estava totalmente recuperado. E Skinner concordara com ela. "Ah, vai, deixa eu ir com você, prometo não fazer nada..." Ele podia não conseguir, mas não desistia de tentar. "Não, você vai ficar aí onde está." "Mas eu já estou melhor, já até tirei as bandagens... Ou melhor, você tirou, lembra?" Agora ele apelava para seus comentários maliciosos. "Divirta-se, Mulder. São apenas pequenos relatórios. Você ficou com a melhor parte do trabalho." E apontou para uma pilha enorme de relatórios em cima de sua mesa. "Scully, você sabe ser cruel..." *** Scully dedicava-se a tomar conta dele e dos arquivos X, e, francamente, não sabia qual dos dois dava mais trabalho. Um estava profundamente entediado e o outro continuava envolvendo as descobertas de coisas estranhas habituais. Ela sabia que muito de sua impaciência era a falta dele ao seu lado. Era ele que tornava o trabalho tão estimulante e desafiador. Mas logo as coisas se normalizariam e eles poderiam trabalhar juntos novamente. Seria o melhor dos mundos: ficariam juntos o dia todo. *** "Mulder, está pronto?" "Não, vem me ajudar a me vestir..." Ela sorriu. Ele não mudava. "Não posso, estou com minhas mãos ocupadas... Elas estão num lugar bem quente, sabia?" Ela falava do forno. E ele sabia. Mas fazia parte da brincadeira ser ambígua. Agora ela também sabia como jogar seus joguinhos maliciosos. Sem dúvida a convicência estava sendo um grande aprendizado. "Ah-ha. Que engraçadinha. Vem me ajudar, sério. Larga esse fogão e vem pra cá." Ela foi, achando graça como a intimidade entre eles não mudava certos aspectos de seus comportamentos. Ela continuava bancando a difícil, ele não cansava de suas brincadeiras. E continuavam se chamando de Mulder e Scully. *** A campainha tocou e Scully atendeu a porta. Era Skinner, que chegava com sua nova namorada para o jantar. "Entre, senhor..." Skinner fingiu um olhar de repreensão. Scully sorriu e fingiu um ar de desculpas. "Walter, Kessia. Entrem, por favor." Kessia era agente da área médica e candidata ao posto de senhora Skinner. Eles haviam se conhecido no dia do resgate de Mulder, Kessia sendo quem prestou os primeiros socorros a Skinner, tomando conta dos machucados em seu rosto e mãos. Ela era uma companhia encantadora, e desde o início também conquistara o coração dos dois amigos de seu namorado. A noite seguiu agradável, os quatro conversando sobre variados assuntos. *** Após o jantar o assunto inevitavelmente chegara até o dia do seqüestro. Era inevitável que conversassem sobre o que acontecera. Embora Mulder falasse com desenvoltura sobre o assunto, Scully sabia que aquilo o magoava, assim como a todos os presentes. Havia sido um dia repleto de medo, de terror. Mas eles sempre acabavam conversando sobre aquele dia, primeiro por ter sido um dia tão difícil, depois por ser uma memória ainda muito viva. Kessia estava a par do que acontecera, tanto porque estivera na fábrica na hora do salvamento, tanto pelo carinho que compartilhava com seus novos amigos. "Existem coisas que até hoje não compreendo... Como o Canceroso sabia onde eu estava?" "Ele tem seus contatos. Quando o procurei para saber sobre o seu paradeiro, ele parecia já saber onde estava, mas foi lá para se certificar de que não fariam nada com você." Skinner respondeu. "E como você chegou lá, Scully? Esse envelope com o meu nome... Eu não o vi aquela manhã..." "Mulder, posso estar enganada, mas acredito que ele deu um jeito de deixar esse envelope lá, talvez antes mesmo que Skinner entrasse em contato com ele." Kessia também tinha as suas dúvidas. A partir daquele dia ela passara a fazer parte do trabalho dos três, assumindo a parte técnica em alguns casos. Era uma maneira de passar mais tempo ao lado de seu namorado e seus amigos, além de ser uma área completamente nova e fascinante de trabalho. "Mas esses dois homens não trabalhavam juntos? Por que razão esse tal CGB Spender ajudou vocês?" "Ele tinha algum interesse por trás de suas ações, pode ter certeza, Kessia. Aquele homem não faz nada que não seja calculado." Mulder sabia que haviam outros motivos, mas não se atreveria a pensar neles agora. Queria acreditar que a ajuda que recebera não estava ligada a culpas e pecados do passado que vinham da época de seu pai. "Então ele descobriu o que acontecera e deixou uma pista para Dana, o envelope..." "E depois foi se certificar de que haveria tempo suficiente de Skinner chegar ao local depois de seu contato. Ele sabia que se deixasse Mulder lá, sozinho, não haveria tempo de chegarmos ao local." Scully completara a linha de raciocínio de Kessia. Mulder parecia pensativo. "Ele retirou os guardas da fábrica, lembro-me de ter ouvido alguma coisa a respeito... Logo depois Scully chegou." "Eu estive com você também, Mulder. Não se lembra?" Mulder fez que não com a cabeça. Havia lacunas que estavam sendo preenchidas aos poucos com os relatos que ouvia. Se lembrava apenas de estar dentro do carro e depois com Scully. Sua próxima memória já se referia ao pronto socorro. Todos ficaram em silêncio por um bom tempo. O que eles passaram havia sido realmente muito estressante. Seriam precisos anos para que as feridas se fechassem. Embora aqueles momentos de pavor tivessem trazido muitas coisas boas, como o encontro entre Skinner e Kessia e o aparente fim do Caçador de Recompensas, a simples lembrança fazia com que todos se sentissem mal, tensos. *** Aos poucos o clima foi desanuviando e eles passaram a conversas sobre coisas mais amenas, como os casos em que já haviam trabalhado. Kessia gargalhava com as histórias que eles contavam, das situações absurdas que já haviam vivido e dos monstros que já haviam caçado. Pareciam histórias inventadas, de tão incríveis. "... e então vieram os zumbis, mas Scully chegou bem a tempo. Não que eu não fôsse achar uma maneira de sair de lá, mas..." "Mulder!" "Eu sei, eu sei. Foi graças a você, estava só brincando!" "Você sabia que nós já fomos engolidos por uma planta gigante?" "E aquela vez dos homens mariposa, Scully?" Skinner somente balançava a cabeça e ria, confirmando as histórias. Em algumas eles caíam em contradição, para deleite da novata. Era incrível como os dois pensavam exatamente o oposto e ao mesmo tempo eram feitos um para o outro. "Scully, nem vem, o detetive tinha uns dentes tortos horrorosos!" "Você que estava com implicância! Ou acha que não percebi que era ciúme?" Eles fingiam estar brigando, mas no fundo todos sabiam que era uma grande brincadeira. Eles se amavam, e os últimos acontecimentos haviam servido apenas para demonstrar, mais uma vez, a força desse amor. E eles continuaram se chamando pelos sobrenomes a noite toda. E em todas que se seguiram. E continuaram se contradizendo. E continuaram sendo completos opostos. E continuaram adorando isso... Definitivamente, certas coisas jamais mudariam. ***** FIM ***** Notas Finais: E não é que a bichinha virou um monstro? (Risos) Obrigada a todos que leram até aqui - valeu mesmo! E um muito obrigada especial à Kessia, por cobrar essa história e me dar a maior força sempre - Menina, você é demais!!