Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, esta estória destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: Drama/ Shipper Nome da fan fiction: Um último adeus Resumo: Fan fiction shipper. Um final para Mulder e Scully nos arquivos X. Um último adeus Chega um momento em que é preciso parar. E este momento chegou. As respostas que busquei, algumas encontrei, outras não, e aquelas que me foram reveladas penso se não teria sido melhor que permanecessem ignoradas. Descobri que a verdade nelas contida de nada me valem posto que nada posso fazer, pois é mais forte do que a vontade de todos os homens juntos, está além da compreensão humana, é algo superior a nós contra o qual não podemos lutar, restando apenas a espera, o futuro é uma incógnita com data marcada, não há o que fazer a não ser esperar por esse dia. Sinto-me impotente, frustrado diante dessa situação. Desde o dia em que enveredei pelos arquivos-x o fim era o mesmo, todos os caminhos levavam a essa mesma e única verdade superior que me foi revelada, não sei se o futuro será a nossa redenção ou crucificação, e essa incerteza é o que mais me atormenta, corroendo a minha paz. Somos insignificantes, somos um grão de areia, não num deserto, mas no infinito universo, e o infinito nos anula. Possuo os olhos voltados para o céu, para as estrelas, para uma parte do universo, e essa beleza exposta antes me era tão leve, me era um alívio para as minhas noites solitárias e tristes, agora me é um peso esse toldo negro salpicado de estrelas a cair sobre mim, a envolver-me, a envolver a Minha Esperança e o Meu Milagre, a ameaçá-los. Quero viver, não me importa que esse futuro não esteja tão distante, nunca senti tanta vontade de viver como a sinto neste momento, talvez porque o tempo me tenha mostrado que ao invés de viver, passei a minha vida a correr atrás de uma verdade que eu não deveria saber, apenas esperar, e ao descobrir que com essa verdade nas mãos nada podia fazer, parei e olhei para trás, vendo com assombro o meu passado repleto de cruzes e de sangue, um campo estéril sem nada cultivado ou construído, não vivi, passei anos anestesiado por uma busca cega, o que me impede de dizer que a minha vida foi vazia e uma constante perda de tempo é o fato de tê-la conhecido, porque você foi a Esperança que trouxe luz e água a um espírito seco e árido, permitindo ao fino fio de seiva e vida regar o deserto de que eu era feito, preparando-me aos poucos assim como se prepara a terra para a semeadura, lançando em seguida com suas mãos delicadas e pálidas as sementes que viriam a germinar e a encher minha alma de vida novamente. Mais do que me trazer esperança, você me permitiu amar, me permitiu o milagre de ser pai. Estará você ouvindo o que digo no silêncio da noite, aqui sozinho, nesse imenso deserto em que me encontro? Onde estará você? Será que vela como eu? Que chama como eu? Estou cansado de verdades, de sentir saudades, de sofrer. Estou voltando para minha paz. Tararan...tararan... Governo Nega Ter Conhecimento Não quero mais acreditar Uma luz dourada infiltrava-se por entre as cortinas, esparramando-se sobre os móveis e o chão da sala organizada, o que emprestava ao ambiente um ar nostálgico e melancólico. A porta do pequeno apartamento abriu-se, permitindo a entrada de uma mulher ruiva com um bebê adormecido em seu colo, com dificuldade fechou a porta, atravessou a sala e seguiu por um corredor até alcançar o quarto decorado com temas infantis. Depois de colocar o bebê no berço com o cuidado de não acordá-lo, voltou para a sala com uma pasta parda nas mãos, acomodou-se numa poltrona confortável e começou a folhear o relatório, quando uma folha solta caiu no assoalho. Ao agachar-se para pegá-la, notou um envelope branco jogado no chão próximo à porta da sala, não o havia reparado antes. De repente sentiu sob a pele a pulsação acelerada de seu coração e caminhou hesitante até o envelope, segurando-o nas mãos trêmulas, reconheceu a caligrafia, perturbando-a mais ainda, a carta não possuía remetente, nem selo ou carimbo, apenas a inscrição de um nome, "Scully". Fitou o envelope por alguns segundos como se temesse abri-lo, esperara tanto tempo por uma notícia, e agora que a tinha nas mãos não a queria mais. Soltou um suspiro pesado, tomando coragem, então, decidiu-se a rasgar o envelope e pegar a carta que havia dentro, desdobrou o papel vagarosamente, lendo as duas únicas linhas escritas. Enquanto lia, uma linha de preocupação formava-se em sua testa lívida. - "Traga o William" - leu em voz alta a última frase, que a inquietou ainda mais. Não havia assinatura na carta, mas sabia que a caligrafia era de Mulder, além do código escrito: "Não Confie em Ninguém", que afirmava a autenticidade do autor da mensagem. Guardou o envelope no bolso de seu sobretudo, conferindo em seguida o horário no seu relógio de pulso, 6:20 p.m.. - Falta um pouco mais de uma hora para encontrá-lo - murmurou para si mesma. Oculto em meio às pilastras do aeroporto, observando atento o vai e vem da multidão, sentia-se prestes a estourar de ansiedade, o coração batia rápido sob o peito, e quanto maior a aproximação dos ponteiros do relógio nos números decisivos na sua vida, mais angustiante tornava-se a sua espera. De repente, algo aconteceu, sua espera acabou, ali estava ela caminhando sobre o piso liso e lustroso, os saltos de seus sapatos ecoavam juntamente com vários outros saltos apressados, lentos, firmes, hesitantes. Deteve os olhos verdes e brilhantes na visão de Scully, que trazia William no colo, surpreendeu-se ao vê- lo tão crescido e sentiu-se culpado pelos meses que permanecera ausente, não participando da vida de seu filho. Quantas saudades, quantas noites insones passara pensando neles. Sentia-se vivo ao vê-los, eles justificavam sua existência, davam sentido a ela. Conteve-se com esforço para não correr até eles, Scully não o havia visto, estava em pé, parada no local combinado do saguão do aeroporto, procurava preocupada o rosto conhecido que fora encontrar, quando finalmente os olhares se encontraram e sua busca cessou. Um sorriso tímido desenhou-se nos lábios da mulher ruiva enquanto Mulder caminhava em sua direção a passos lentos e controlados, com uma expressão parva no rosto como se o que visse não fosse real; a imagem de Scully e William pareciam-lhe tão distante, que não pôde controlar a ansiedade de abraçá-los e de senti-los reais por muito tempo, então, correu o mais que suas pernas permitiram, jogou a maleta que segurava no chão, envolvendo com os longos braços aqueles que lhe eram tão caros, vitais. O bebê fitava sem compreender aquele homem gigante, que abraçava com tanto sentimento sua mãe e ele. Permaneceram por muito tempo calados, abraçados, sozinhos no meio do saguão lotado de pessoas, antes de Mulder afastar-se relutante de Scully e de William para melhor ver-lhes o rosto. - Há tanto a dizer, Scully - fitou os olhos azuis dela com os seus repletos de ternura e saudade - Mas não agora, mais tarde - pegou a maleta que havia largado no chão - Precisamos ir, nosso vôo já vai sair. - Precisamos ir? - ergueu as sobrancelhas. - Mais tarde eu lhe explico, nosso vôo para Austrália vai sair daqui a pouco - lançou um olhar para o relógio de pulso que usava. - Mulder, o que está acontecendo? - inconscientemente recuou um passo, atitude essa que não passou despercebida ao homem alto. - É o único meio que vejo para proteger você e o William - apoiou carinhosamente a mão livre sobre o ombro dela - Enquanto vivermos nesse país como Mulder e Scully, nunca teremos paz, seremos sempre seguidos, vigiados. Ela nada disse. - Não quero isso para nosso filho, para nós, quero ter uma vida com vocês. - Você quer dizer que precisaremos mudar de identidade e de país, isso significa esquecer o passado? - estava assombrada com a realidade com a qual se deparara. - Para nossa segurança teremos que cortar toda e qualquer relação com o nosso passado. A mulher ruiva não estava preparada para fugir de sua antiga vida para construir em outro lugar uma nova, não podia romper com o passado, com as pessoas que amava, com sua mãe, era sua vida. O que faria? Mulder estava ali, na sua frente, com passagens e identidades novas, certo de que ela o acompanharia, e isto a encheu de uma raiva impotente, surda, pois ele não a consultara, tomara todas as providências para aquela viagem durante os meses de ausência, deixando-a no escuro. Havia muitas coisas inacabadas nessa sua vida para que começasse outra, não podia partir. A voz feminina no alto-falante anunciou para que os passageiros se dirigissem ao portão de embarque, de onde partiria o vôo para a Austrália, tornando a situação de Scully mais angustiante. - Vamos, Scully - chamou-a - Quer que eu segure o William? - Mulder, não posso - murmurou. - Como? - sentiu a respiração falhar, temendo as próximas palavras dela. - Não posso ir - fitou os olhos desesperados de Mulder com os seus angustiados. - O que está dizendo, Scully? - sua voz saiu com dificuldade. - Talvez essa mudança de vida não seja a melhor opção para nós, podemos estar nos precipitando. - Creio que essa opção é a única possível senão quisermos passar o resto da vida tendo medo de que façam algo contra nós, contra o William. - Sempre teremos medo, Mulder, por mais que nos iludamos com a sensação de segurança que essa mudança possa nos oferecer - argumentou com a sua veterana racionalidade. - Scully, sei que passarei todas as noites da minha vida em claro, apreensivo, com medo de que me levem você e o meu filho se eu de repente fechar os olhos, mas sinto que o perigo de que isso aconteça se torne menor com essa mudança, há a possibilidade de que nunca nos descubram - algumas lágrimas se equilibravam nos seus olhos verdes - Só o tempo dirá se essa foi a melhor escolha, mas para isso precisamos fazer uma tentativa, pode dar certo, por favor, venha comigo - implorou. Algo se rasgou no interior de Scully, ela sabia que iria sofrer. O bebê não estranhara o pai que mal vira na sua recente vida, sorria para o homem alto de mãos grandes que o segurava no colo e a todo momento ajeitava-lhe o pequeno cobertor, beijando-lhe a testa delicada. O pai olhava a criança maravilhado com o milagre da natureza, sentia-se um pouco Deus por ter parte na existência daquele pequenino ser perfeito, admirava a mãozinha apoiada na palma de sua mão gigantesca, os dedinhos enrugados e bem feitos, pensou não haver nada mais belo no mundo quando seu filho lhe lançou um sorriso banguela. Como era possível um ser tão pequeno despertar tanto amor num homem vazio como ele? E despertar tanta felicidade com um simples sorriso? Já amava tanto aquele filho, que por ele se tornaria o mais elevado dos homens ou o mais abjeto deles. Observou os olhinhos azuis do bebê, vendo a mãe neles, então, com o canto dos olhos espiou a mulher calada ao seu lado. Ela estava com o rosto voltado para a janela do avião, mas não apreciava a paisagem, as nuvens brancas, e sim, perdia-se nelas com seus pensamentos. Mulder podia ver na testa franzida, no olhar perdido, a concentração de Scully. Seriam mais de 15horas de vôo até que alcançassem os seus destinos, Scully teria muito tempo para refletir, para tentar digerir aquela situação, mas instintivamente sabia que tempo algum seria suficiente para esquecer o passado. Recordou o dia em que saíra de casa para ir morar sozinha, seu pai, o capitão Scully, olhava-a em sua posição imponente, com saudades dos tempos em que ela ainda era uma garotinha e ele tinha o controle da vida de seus filhos, depois aproximou-se dela, abraçando-a, a casa ficava vazia, os filhos um a um iam embora construir as suas vidas, as suas famílias. Antes de partir, sua mãe Meggie disse-lhe que ela sempre teria para onde voltar e que eles sempre estariam lá para sua filha Dana, seu pai já não estava mais lá para recebê-la e sua mãe...mordeu o lábio inferior. Não poderia enterrar o passado com tanta facilidade como o homem ao seu lado o fazia. Por que não podemos ter ao nosso redor todos aqueles que amamos? Por que o ser humano sempre é obrigado a fazer escolhas? Os olhos azuis brilharam com as lágrimas que não conseguira sufocar, mas não permitiria que Mulder as visse, precisaria ser forte, confiar nele, na promessa de paz que a viagem lhes oferecia. Ela não pôde ser livre, mas seu filho seria. Como custava caro a liberdade e a segurança ou pelo menos, a ilusão delas. As horas de vôo foram silenciosas, Scully encerrara-se tanto em si que Mulder não ousara perturbá-la com suas palavras. Ao desembarcarem no aeroporto da Austrália somente com a roupa do corpo, uma maleta, a bolsa de William e uma promessa de paz, seguiram de táxi para um modesto hotel. Logo que a mulher ruiva se encontrou só com Mulder no quarto impessoal de hotel, resolveu sair de seu silêncio. - Mul... - Não - interrompeu-a - Meu nome é John Carter, você precisa se acostumar com ele, Lana. - Você disse para que eu não fizesse qualquer pergunta enquanto não estivéssemos sozinhos, agora que estamos, preciso de respostas, Mul...John - mencionou o nome contrariada. - Muitas coisas aconteceram desde o dia em que eu parti - colocou com cuidado o bebê adormecido, que até então segurava, sobre a cama - Quando parti aquele dia, eu não imaginava o quanto insuportável me poderia ser a revelação da verdade. - Que revelação foi essa? - perguntava-se no íntimo se desejava realmente ouvir a resposta. - Não vou lhe dizer, não quero que saiba - fitou os imensos olhos azuis surpresos diante de si - Confie em mim, sei o que estou fazendo. - Quero saber o que aconteceu, se essa revelação é insuportável para você, será melhor compartilhá-la comigo. - Será pior se souber - aproximou-se dela - Quero protegê-la. - Não quero que me proteja da verdade, que me mantenha na ignorância dos fatos. - Às vezes a ignorância é o único meio para se alcançar um pouco de paz. - Prefiro a inquietação de espírito à cegueira - replicou impaciente. - Lembra-se de que quando o homem vivia no paraíso nada lhe faltava, e os males da caixa de Pandora lhe eram inexistentes, até que um dia ousou comer a maçã proibida e abrir a caixa, então a venda de seus olhos caiu, ele saiu da ignorância para cair no sofrimento - observava a ação de suas palavras sobre a face pálida e aveludada à sua frente - Todos dizem preferir a luz à escuridão, mas depois de verem a luz e descobrirem nela, a tormenta, arrependem-se, desejando voltar para a paz que havia na escuridão. - Nem parece que é você quem está falando, vai contra tudo o que acredita - seu tom era de incredulidade. - Não quero mais acreditar, quero apenas viver com aqueles que amo - soltou um suspiro pesado - Depois que a verdade me foi revelada e a minha busca chegou ao fim, resolvi me dedicar realmente àqueles que me importavam, então, entrei em contato com o Byers que arranjou toda a documentação necessária para começarmos uma nova vida. - Há quanto tempo você estava organizando essa viagem? Alguém mais além do Byers sabia sobre você? - tentou ocultar a mágoa que sentia por ter sido mantida no escuro. - Um pouco mais de três meses. O Byers era o único que sabia sobre mim, contatei ele por ser o mais racional e discreto do trio - Mulder percebera o ressentimento nas perguntas de Scully - Me perdoe por tê-la deixado por tanto tempo sem notícias, mas não queria colocar você e o William em perigo. - Está tudo bem - desviou o olhar do de Mulder. - Detesto quando diz isso, Scully. - Lana, meu nome é Lana Carter - corrigiu-o num tom ríspido sem querer, inevitável. - Sei o quanto deve estar sendo difícil essa situação, porque também está sendo para mim, principalmente por vê-la sofrer com isso - aproximou-se mais dela, estendendo a mão para tocar-lhe o rosto, mas não ousou, recuando. - Me desculpe - ergueu os olhos para ele - Não queria ter sido grossa com você, ainda estou muito confusa com tudo isso, estou com medo. - Eu também - envolveu-a num abraço morno e macio, beijando os cabelos ruivos, permaneceram por algum tempo abraçados num suave balançar até que os espíritos se acalmassem - Amanhã viajaremos até uma cidadezinha no interior da Austrália, onde há uma casa nos esperando - murmurou próximo ao ouvido de Scully - Seremos felizes, eu prometo. - Nunca me contará o que aconteceu? - apoiava o rosto no peito de Mulder. - Justamente por amá-la tanto que não contarei. - Essa verdade diz respeito a mim? - Diz respeito a todos nós, a toda humanidade, mas esqueça, não vale a pena saber - afastou-a de si para admirar-lhe os traços, desenhando com os dedos o contorno suave do rosto de Scully, as linhas finas dos lábios carmins - Pela primeira vez na vida vamos pensar só em nós, sem monstros, sem fantasmas - aproximou seus lábios dos de Scully, tocando-os num beijo repleto de significados, de saudades. Um choro manhoso pôs fim à atmosfera de calmaria que havia se instalado no quarto, William despertara. - Acho que está na hora da mamadeira dele - o homem alto caminhou a passos largos em direção ao bebê, segurando-o no colo, acalmando-o - Pode deixar que eu dou mamadeira para ele, preciso me acostumar, depois você precisa me ensinar a trocar fraudas, quero ser o melhor pai do mundo para o meu filho - beijou com carinho a cabecinha de William. - Só temos a roupa do corpo, precisamos sair e fazer algumas compras - Scully abriu a bolsa de William, pegando a mamadeira com chá e entregando-a para Mulder. - Depois da mamadeira, eu saio para comprar algumas roupas que substituam as que estamos vestindo enquanto você descansa um pouco - estava sentado na cama, dando mamadeira para o bebê de olhos azuis. - Por que a Austrália? - acomodou-se numa poltrona, observando pai e filho, mas não conseguia sorrir, ficar feliz diante de uma cena tão bela, merecedora de uma pintura para registrá-la, pois sentia-se triste, cansada, o que mais desejava no momento era poder fechar os olhos e dormir por muito, muito tempo, ao contrário dela, Mulder pareceu-lhe tão leve, cheio de esperança, como se o futuro se desdobrasse em toda sua clareza aos seus olhos, aos dela, só a nebulosidade das incertezas. - A Oceania sempre me pareceu o mais distante, oculto, inexplorado dos continentes, além da língua falada na Austrália ser o inglês, o que facilita a nossa integração, não sei lhe dizer a razão exata, simplesmente senti que este era o lugar. - Eu não disse um último adeus àqueles que amava - murmurou para si mesma, pensando nos seus vivos e nos seus mortos tão distantes. - Como? - não ouvira. - Nada - lançou-lhe um sorriso triste. - Graças ao Byers e às falhas nos sistemas informatizados do governo americano, poderei lecionar psicologia em alguma universidade ou trabalhar como psicólogo com toda a documentação correta, sem falhas, você também poderá exercer a medicina se quiser, se alguém procurar averiguar nossos documentos, nossa vida, nada irá encontrar de suspeito, Fox Mulder e Dana Scully não existem mais, só John e Lana Carter. - William será o único nome que poderemos preservar. - Será o nosso único elo com o passado. Os dias passam vagarosos, lentos, já faz tanto tempo que estamos aqui, uma, duas, três, quatro semanas, um mês, moramos numa casa ainda vazia. Mulder, quero dizer, John está lecionando numa faculdade de psicologia, encontrou um grupo de colegas que desenvolvem trabalhos na área de parapsicologia, não conseguiu romper definitivamente com o passado, o desconhecido continua a atraí-lo. Ele já aprendeu a trocar as fraudas do William, Mulder conversa muito com o nosso filho, contando-lhe estórias fantásticas, parece ter se encontrado nesse país, já eu ando perdida, tento esquecer o passado, mas não consigo, sou resultado da estória que vivi, enterrá-la significa me enterrar, me anular. Penso tanto nas praias em cujas areias caminhava com meu pai, nos mares em que navegava com ele, lugares onde não poderei levar o meu filho, penso tanto nos meus mortos, nos meus vivos, na minha mãe, como estará você? Não quero que sofra, que pense que estou morta, é tão desesperador esperar dia após dia o retorno de um filho que nunca chega, acho que esqueci o meu coração e a minha alma em nossa terra, restando aqui apenas um corpo vazio. Tento ocultar minha tristeza aos olhos de Mulder, mas ele sabe, está sempre roubando flores no vizinho para me dá- las, contando piadas, estórias engraçadas para me alegrar, não consigo rir, apesar de me esforçar em lhe dar um sorriso, mesmo que triste, ele me abraça, diz tantas vezes que me ama, eu sei que me ama, preciso apenas de algum tempo para me adaptar, um mês não foi o suficiente, me sinto uma estrangeira, sou uma estrangeira, uma estranha nesse país, ainda não saí para procurar um emprego na minha área, não quero deixar o William com estranhos. Acordar para mim é tão difícil, não finjo que estou feliz, também não demonstro que estou triste, fico apenas distante, quando a manhã chega e sou obrigada a me levantar para não preocupar Mulder, a mesa do café já está posta e o William acordado, tomando mamadeira no colo do pai. Passo o dia inteiro dentro de casa, sem sair, e mesmo assim, Mulder consegue passar mais tempo com o nosso filho do que eu. Sei que não estou bem, que preciso reagir, meu lado racional me alerta para o estado de depressão em que estou imergindo, só levanto da cama quando William chora e Mulder está prestes a voltar da faculdade à tarde, então preparo algo para o jantar. Cuido do meu filho, limpo-o, dou-lhe comida, sei que é pouco, William passa muito tempo sozinho brincando no cercadinho que deixo ao lado da minha cama, sei que precisa de mais atenção, carinho, mas os meus olhos pesam, e eu acabo cedendo ao sono, aos sonhos, lugares mágicos em que encontro e abraço aqueles que amo e estão tão longe, por isso durmo, pois é o único momento em que me encontro. Não consigo chorar, faz tanto tempo que não choro. Mulder parou de fazer piadas, de tentar me alegrar, está preocupado comigo, não quero que se preocupe, diz que estou emagrecendo, para não o preocupar mais, eu como alguma coisa na frente dele, não sinto fome, não tenho vontade de comer, sei que estou emagrecendo, que preciso pedir ajuda, reagir. Ele me olha triste, não quero que fique triste por minha causa, sorrio para ele, meu sorriso forçado parece machucá-lo mais ainda. O William é o único que consegue arrancar algum sorriso à expressão preocupada do pai. Ele me abraça, me beija como se temesse me perder, contudo não diz nada, seus olhos dizem tudo, então, digo que preciso de um tempo para me adaptar, sei que não acredita nas minhas desculpas, mas respeita meu silêncio, meus sentimentos. Não posso esquecer o passado, me perdoe, sou um conjunto de lembranças, lembranças de meus irmãos, de minha família, de minha infância, do capitão Scully, de Moby Dick, de Ahab e Starbuck, lembranças de mim. A casa agora está silenciosa, coloquei William para dormir no berço, estou deitada na minha cama, ouço um barulho de porta se abrindo, Mulder chegou do trabalho, ouço seus passos vindo em direção ao quarto, parecem de repente se apressar, a porta do quarto se abre com barulho, estou acordada, mas não consigo abrir os olhos, estão pesados, estou tão cansada de sentir dor, uma dor aguda como se um punhal afiado estivesse penetrando no meu peito vagarosamente, demoradamente. Uma onda de luminosidade enche o quarto, sinto a claridade, Mulder abriu as cortinas, as janelas, voltou muito cedo do trabalho, por quê? - Scully. Ouço ele me chamar, Scully não, Scully não existe, agora sou Lana Carter, Mulder, John. - Scully. Por que está nervoso? Não, estou com frio, não tire as cobertas, o que está fazendo? Não quero abrir os olhos, estou cansada, Mulder. Por que voltou tão cedo? Ainda não está na hora de eu levantar. - Scully, por favor. Você está chorando? Há lágrimas na sua voz, no seu chamado. Por que está chorando? Não quero que chore. Tenho que abrir os olhos. Os olhos azuis abriram-se com dificuldade devido à luminosidade do quarto, depois de se acostumarem à luz, pararam no rosto torturado à sua frente, nos olhos verdes repletos de lágrimas. - Ah, Scully - suspirou aliviado. - Sou Lana - falou baixo. - Não, você é Scully, minha Scully - passou os braços por trás das costas e por baixo dos joelhos de Scully, erguendo-a da cama. - O que está fazendo, John? - Sou Mulder, Scully - caminhou em direção ao banheiro, entrando debaixo do chuveiro e abrindo-o, a água quente caiu sobre os corpos vestidos - Não vou perdê-la. Não, Mulder, não quero despertar desse torpor, ele é tão anestesiante, por favor, desligue o chuveiro, a água está me despertando. - Scully, precisa sair dessa apatia - escorregou as costas pela parede até o chão, sentando-se com a mulher ruiva nos braços enquanto a água os encharcava - Devia ter feito alguma coisa faz tempo, mas pensei que o tempo a ajudaria, contudo ele só fez você piorar. - Me perdoe. - Pelo quê? - Por não poder esquecer quem fui, quem sou. - Nunca quis isso de você - passou a mão pela face úmida e pálida dela, acariciando-a - Está sofrendo, morrendo, definhando a cada dia, não vou permitir isso, estou morrendo também. - Sou egoísta, Mulder, não consigo esquecer as pessoas que deixei para trás. - Não, Scully, eu fui o egoísta, as pessoas que eu amava estavam todas enterradas e as lembranças não eram bonitas como as suas, por isso foi muito fácil para eu deixar a minha vida, e eu sabia que você me seguiria, mas esqueci que você tinha lindas recordações e uma família, não pensei no quanto sofreria com a mudança, não a consultei, não tomamos a decisão juntos, simplesmente a tomei sozinho e a comuniquei a você, pensei só em mim - apoiou seu rosto sobre a cabeça da mulher ruiva - Me perdoe, Scully. - Saudade é um sentimento tão doloroso, Mulder - sentiu as lágrimas chegarem quentes aos seus olhos, finalmente chorava. - Eu sei, senti essa dor durante os meses de ausência, durante os meses em que não estive com você e o William - apertou-a nos braços. - Eu só queria ter dito um último adeus para os meus mortos, para a minha mãe, queria ter dado um último abraço nela e nos meus irmãos, quero que não se preocupem comigo, que fiquem bem, eu precisava somente de uma despedida para encerrar a minha antiga vida e começar uma nova. - Voltaremos, Scully, não para uma despedida, mas para ficarmos lá, essa mudança foi um erro, quase a perdi pelo meu egoísmo, e perdendo você, eu me perderia para sempre. Prefiro ser vigiado, perseguido, ameaçado, morto, a vê-la nesse estado novamente - sua voz saiu embargada pelas lágrimas. - Não, Mulder - afastou-se dele, fitando-o nos olhos - Temos que continuar aqui pela segurança do William, sinto saudades de minha mãe, de meus irmãos, e essa saudade me dilacera, me maltrata, mas a esperança de encontrá-los um dia num futuro melhor vai me consolar, porque acredito nisso, por mais que você pense o contrário - soltou um suspiro pesado - Mulder, hoje cheguei no fundo do poço, e não havendo para onde ir, só me restou voltar, e aqui estou de volta, estou bem agora, pode acreditar, mas não vou mentir para você, poderá haver outros momentos em que eu caia no fundo do poço novamente, e precisarei contar com a sua ajuda para poder sair. - Conte comigo, Scully, estarei sempre aqui para você. - Eu sei, por isso voltei. - Estava com saudades de você. - Também estava com saudades de mim - os dois sorriram, não foram sorrisos tristes, havia esperança neles. FIM? Não. UM COMEÇO.