ISTO NÃO É UMA FANFICTION POIS NÃO MENCIONA NENHUM PERSONAGEM DE SERIADOS, FILMES OU LIVROS. É APENAS UMA HOMENAGEM ÀS MINHAS AMIGAS QUE NUNCA TIVERAM NENHUM OUTRO INTERESSE EM NOSSA AMIZADE QUE NÃO FOSSE A NOSSA AMIZADE. OBRIGADA MENINAS POR EXISTIREM E POR EMPRESTAREM VIDA E BRILHO ÀS MINHAS PERSONAGENS. NÃO PRETENDO COLOCAR ESTA HISTÓRIA NA REDE MAS VOCÊS PODEM PASSÁ-LA A QUEM QUISEREM POR E-MAIL, ELA É DE VOCÊS, FIQUEM À VONTADE. OBVIAMENTE DEDICO ESTA HISTÓRIA A VOCÊS, CLAUDIA, CLARISSA, KÉSSIA E ALEXANDRA, MINHAS AMIGAS. SILVIA OS EVENTOS DESTA HISTÓRIA ACONTECEM UM OU DOIS ANOS ANTES DE "TRAIÇÃO". DESCULPEM POR QUALQUER INCONGRUÊNCIA TEMPORAL. TRIBUTO À AMIZADE CLÁ O rapaz subia devagar pelas ruas desertas de Segóvia em direção à imponente construção que dominava todo o vale em sua majestosa altura. Ele trazia sua inseparável mochila de viagem às costas e passava despercebido onde quer que estivesse. Um estudante em férias, nada além disso. Ninguém jamais desconfiaria que por trás do rosto de adolescente se escondia uma arma mortal. A manhã mal despontava no horizonte no frio inverno europeu mas os guardas que tomavam conta do Alcázar de Segóvia estavam a postos como sempre. Ao avistarem o rapaz se aproximando, um deles deixou seu posto com a clara intenção de barrá-lo mas foi impedido pelo companheiro que rapidamente abriu os portões externos permitindo sua entrada sem uma palavra. Ele não pôde deixar de sorrir ao imaginar que tipo de favor o jovem guarda deveria para a pessoa que o aguardava dentro da construção medieval que já tinha sido uma fortaleza moura e mais tarde fora transformado em castelo pelos reis católicos. Mais alguns metros e ele estava na entrada lateral. Parou por um instante no primeiro degrau da escada imaginando se havia feito bem em atender ao chamado dela. Talvez fosse mais sensato dar meia volta e esquecer aquela mulher que o perturbava tanto. Ele fechou os olhos por um momento e lembrou-se do sorriso franco dela. Do abandono com que se entregava a ele e tomou sua decisão. Com um suspiro pesado ele começou a escalar os degraus. Ela olhava para o vale que despontava com os primeiro raios do sol e imaginava como deveria ser a vida dos moradores daquele castelo séculos atrás. Hoje as salas de pedra tinham aquecimento e as aberturas nas paredes que serviam de janelas tinham grossos vidros impedindo os ventos inclementes que vinham do vale de penetrarem no castelo. A vida daqueles homens e mulheres não devia ser fácil e ainda sim eles lutavam por seus lares e terras. E ela? Pelo que lutava? Pelos sonhos de outros. Seus próprios sonhos nunca foram levados em consideração. Era uma ladra desde que aprendera a andar. E assim que foi possível se virar sozinha, fugira daqueles que se entitulavam seus pais e nunca mais os vira. Nos últimos dois anos ela finalmente encontrara sua família. Sua verdadeira família. Pessoas que se preocupavam com ela, de verdade. Era muito bom poder fazer parte de alguma coisa importante. Mesmo lutando pelos interesses de outras pessoas, agora ela tinha seu quinhão. E suas companheiras nunca a abandonariam, ela sabia disso. Perdida em seus pensamentos, ela só notou que ele estava no salão quando escutou o barulho da mochila dele sendo jogada no chão. Ela pôde ver o reflexo dele desenhado no vidro à sua frente e já teria ficado satisfeita apenas em poder olhá-lo mais uma vez. Mas nesse momento ela precisava de mais, queria mais. Virou-se devagar e ficou frente a frente com ele. Ambos em silêncio. Ela sabia que ele não falaria antes dela mas sua voz estava presa na garganta, as emoções chegando em ondas avassaladoras. Ela demorou um minuto para se acalmar e encontrar finalmente a voz. _ Fico feliz que tenha vindo. Ele acenou com a cabeça sem levantar os olhos _ Lugar interessante... _ Lindo não é? Fico imaginando como um lugar como este enfrentou tantas guerras e destruições e continua em pé... _ Clá, não me chamou aqui para conversarmos sobre história medieval... Ela ficou séria _ Não Sam, eu queria me despedir. Estou partindo em dois dias. Ele ficou preocupado. Pessoas como eles nunca se despediam. Partiam em suas missões e pronto. Era difícil um terrorista experiente como eles sofrer alguma coisa durante as missões. Ferimentos leves eram perfeitamente normais entre eles e nunca constituíam motivos para preocupações. A menos que... ele gelou. _ Clá, para onde vocês vão? Ela o encarou séria _ Para Sarajevo. Ele arregalou os olhos _ A missão suicida? Está maluca? Ninguém aceitou esta missão! O Comando enlouqueceu por achar que algum de nós poderia se infiltrar naquela cidade e sabotar as armas dos Sérvios. _ Nós podemos Sam e vamos fazer isso. _ Por que Clá? Pelo dinheiro? Não deve ser porque você não precisam de dinheiro. Têm mais do que podem gastar. É apenas pelo orgulho da Claudia não é? Ela gosta de provar a todos que o grupo dela tem mais capacidade que os outros. _ Sam, não é nada disso. A Claudia não é assim. Nós nunca precisamos provar nada para ninguém. Nós somos as melhores e sabemos disso. E se tem alguém que pode entrar naquela cidade e sair vivo, somos nós. Ele balançava a cabeça inconformado. _ Então por que quis me ver? Nunca se despediu de mim antes. Você simplesmente desaparece... _ Você também faz isso. E eu nunca reclamei. _ Não estou reclamando, estou preocupado. Ela não queria acreditar que ele realmente se preocupava com ela e preferiu esconder-se na ironia. _ Preocupado comigo Sam? Ou preocupado porque vai perder a única garota que aceitou ficar com um canalha como você? Ele suspirou irritado _ Se me chamou aqui para nos agredirmos é melhor eu ir embora. Abaixou-se para pegar sua mochila mas a voz sarcástica dela o impediu. _ Estamos nos agredindo? Imagina Sam...você nunca discute comigo, nunca brigamos. Eu posso ficar horas gritando com você que não escuto uma palavra da sua boca. Ele endireitou o corpo e sorriu para ela _ Prefiro quando você decide fazer as pazes comigo. Clá ficou totalmente sem ação. O sorriso o deixava ainda mais jovem do que ele era e ela sentiu o coração disparar no peito. Ainda sorrindo ele abriu os braços para ela que não resistiu e correu para eles. Ficaram abraçados, esquecidos de tudo à sua volta até que ele abaixou a cabeça e seus lábios se encontraram. Ele separou suas bocas apenas alguns milímetros para sussurrar _ Eles não abrem este lugar ao público? Ela respondeu com malícia, colando sua boca à dele _ Ainda temos duas horas... SIL A igreja de Santa Maria dei Fiore estava praticamente vazia àquela hora. O imponente "Duomo" da cidade de Firenze recebia milhares de turistas todos os dias mas no inverno, o sol se punha muito cedo e as pessoas preferiam os aconchegantes e aquecidos restaurantes às frias e escuras igrejas. Algumas poucas senhoras rezavam no lugar reservado para orações. Um pouco afastada delas uma mulher mais jovem passava as contas cor- de-rosa do terço entre seus dedos delicados. Havia muito tempo que ela não rezava. Há anos deixara de ter esperanças que Deus a perdoasse pelos seus pecados. Várias vezes havia começado uma confissão mas sempre desistia de ir até o fim. Para se confessar era preciso estar arrependida de seus atos e ela não conseguia se arrepender das coisas que fizera em sua vida. Por isso parara de rezar. Não pedia proteção a Deus quando partia com as amigas pronta para matar ou morrer. Sabia que não merecia pedir. Mas desta vez ela pedia. Não por ela mas pelas companheiras. Ela não queria morrer mas se alguma delas tivesse que morrer que fosse ela. Mesmo que tivesse que descobrir que o inferno realmente existia. Ela terminou a última conta do terço, fez o sinal da cruz e levantou-se devagar sob o olhar aprovador das senhoras. Ela imaginava o que elas diriam se vissem sua arma escondida por baixo das pesadas roupas de inverno. Saiu da igreja para a noite que já estava bem escura e respirou com prazer o ar frio da noite. Caminhou devagar entre turistas e moradores até seu restaurante favorito. Foi recebida efusivamente pelo maitre que conhecia seus pratos preferidos. Ele ficou consternado pelo restaurante estar cheio mas ela disse que não tinha importância. Conversavam em italiano e o maitre falava muito alto como sempre fazendo-a ter vontade de rir da espontaneidade dele. Quando estava pronta para sair do restaurante ouviu uma voz em inglês às suas costas _ Se não se importar, eu adoraria dividir minha mesa com você. Ela virou-se e deparou com um rapaz louro, de olhos muito verdes que lhe dirigia um sorriso cheio de simpatia. Ela pensou por um momento e decidiu que não tinha nada a perder. Afinal, estava faminta e o rapaz era muito simpático. Sentou-se com ele e em poucos minutos de conversa descobriu que ele não era americano mas espanhol. Ele ficou encantado quando ela começou a falar com ele em sua língua natal e o brilho nos olhos claros deixava óbvias as intenções dele. Ela não costumava se envolver com desconhecidos. A segurança do grupo dependia da discrição de todas elas. Mas enquanto o rapaz falava ela imaginava se conseguiria voltar da missão suicida que Claudia aceitara em nome do grupo. Nenhuma delas havia contestado a líder. Sabiam que se alguém teria condições de entrar em Sarajevo, sabotar as instalações secretas dos Sérvios e sair vivo, seria o Azul Celeste. Sil nunca tivera medo de nada antes. Durante os oito anos em que trabalhavam juntas, elas nunca recusaram uma missão por mais complicada e difícil que fosse. Mas desta vez, todos os terroristas que operavam independentes na Europa haviam recusado a "Missão Suicida" como ficara conhecida. Alguns integrantes do IRA se ofereceram mas eles costumavam fazer muito estardalhaço de suas operações e o Comando não queria publicidade a respeito disso. Fora então que Claudia, que havia recusado a missão em primeira instância, procurara o Comando e aceitara ir com seu grupo para a Bósnia. Elas estavam separadas na ocasião, cada uma realizando uma missão em um local da Europa quando Claudia as chamara de volta a Roma. Agora tinham dois dias para se encontrarem e partirem juntas. Inferno! Se aquela fosse sua última chance de estar com alguém ela não queria que fosse com um desconhecido que sequer saberia seu nome. Não valia a pena. Decidida, ela encerrou o jantar despedindo-se do rapaz e ignorando a expressão de decepção dele, saiu caminhando rapidamente pelas ruas estreitas do centro histórico da cidade. Logo chegou ao apartamento pequeno onde se hospedava quando estava em Firenze. Começou a arrumar suas coisas quando ouviu seu anfitrião às suas costas. _ Pretendia ir embora sem despedir- se "bella" ? _ Claro que não Marco! Eu só queria deixar tudo pronto. Esperava você para me despedir. Ele se aproximou sorrindo _ Por que não vai amanhã de manhã? O tempo está bom, não há previsão de neve e você chegará em Roma bem cedo. Ela quase riu alto quando percebeu as intenções na voz dele. Será que quando estamos perto de morrer, Deus decide que devemos aproveitar bem nossos últimos momentos? Dois convites em tão pouco tempo. Logo ela que fugia dos envolvimentos românticos. Bem, ao menos Marco a conhecia. Sabia que não devia esperar nada dela. Droga! Por que não? Pensou irritada. Se era um aviso de que ia morrer, ao menos era um aviso agradável. Suspirando deixou sua mochila já arrumada aos pés da cama e sorriu para o rapaz que aguardava sua resposta com expectativa no olhar. "_ Va Bene Marco. Partiró domani. Questa sera rimano com te." Um sorriso iluminou as feições bonitas de Marco quando ele adiantou-se para tomá-la em seus braços. ALE O Transiberiano tinha um mistério e uma magia inexplicáveis. Apenas quem já estivera naquele trem que atravessava o Cáucaso sabia o quanto era fantástica a paisagem que se desenhava na noite enluarada. As sombras se moviam e criavam formas. A lua iluminava as montanhas majestosas cobertas de neve. Ale tinha o rosto quase encostado no vidro gelado. Apesar do aquecimento dentro dos vagões ser perfeito, ela podia sentir o frio das montanhas do Cáucaso que atravessava o vidro e desafiava o calor artificial. Tinha os olhos perdidos na paisagem escura enquanto sua mente viajava para longe. Pensava nas amigas, tão longe umas das outras. Anos de companheirismo e amizade criara um laço indissolúvel entre elas. E as meninas...há apenas dois anos no grupo e ela as tinha como filhas. Preocupava-se com elas mas tentava não demonstrar. Sabia que a missão para a qual estavam indo seria muito perigosa mas confiava no discernimento de Claudia. Ela nunca arriscaria o grupo se não acreditasse que teriam sucesso. Ale sabia disso. O toque suave tão conhecido não a assustou mas ela estremeceu ao se lembrar que havia decidido manter distância daquele homem. Ela voltou a cabeça e indicou o lugar ao seu lado para ele sentar. Ele segurou o queixo dela e a obrigou a olhá-lo nos olhos _ Arrependida? Ela fugiu ao toque perturbador _ Do que? Da vida que levo? Claro que não! Eu escolhi. Não sou o tipo de mulher que se arrepende das decisões que toma. _ Não estou falando disso Ale... Ela baixou os olhos _ Não, não me arrependi. Foi uma semana maravilhosa Igor mas não pode acontecer de novo. _ Eu sei. Concordamos em nos separar como amigos. Mas dois anos sem ver você é muito tempo. Eu não resisti ele concluiu, o tom da voz demonstrando o quanto estava triste. _Se isso o faz sentir-se melhor, eu também não resisti. E não estou arrependida só que nosso tempo acabou. Em dois dias parto com as meninas para Sarajevo e preciso me concentrar nesta missão. Ele tomou as mãos dela entre as suas. Era estranho que ela sempre pensasse em quantas pessoas aquele homem tão gentil já havia matado todas as vezes que ele a tocava. Ela imaginava se ele pensava o mesmo a respeito dela mas nunca havia tido coragem de perguntar. _ Ale, estou preocupado com esta missão. Não com vocês. Sei que, se existe alguém que pode fazer isso são vocês. Mas ficaria mais tranqüilo se soubesse que só vocês três estarão lá. Aquelas duas garotas são muito jovens, muito inexperientes, podem cometer erros fatais no campo de batalha. Ela suspirou impaciente e puxou as mãos com força. _ Igor, eu treinei pessoalmente aquelas duas. Sei que elas estão prontas para esta e para qualquer outra missão. Eu era bem mais jovem do que elas são quando me juntei à Sil e à Claudia e elas nunca duvidaram da minha capacidade. _ Você treinou na Sibéria com elas.... _ Apenas por um ano. Tudo o que sei hoje, aprendi com minhas amigas e ensinei tudo o que era necessário para aquelas duas sobreviverem neste nosso mundo maluco. _ Sei disso mas... _ Igor, ela o interrompeu. _ Não pretendo passar meus últimos momentos de paz, discutindo com você. Preciso pensar com calma e preciso de silêncio para isso. Quando chegar em Roma teremos pouco tempo para delinearmos o plano de ação e quero estar preparada. Dizendo isso ela virou novamente o rosto para a janela dando a conversa por encerrada. Ele ainda levantou a mão com a clara intenção de acariciar seus cabelos mas desistiu a milímetros de tocá-la. Ale não viu o gesto pois estava com os olhos fechados. Apenas quando ouviu os passos dele se afastando dela é que tornou a olhar para a paisagem de fora do trem. Lá fora as montanhas geladas refletiam o frio que se encontrava seu coração cujo calor se esvaía nas lágrimas que ela não conseguia mais conter. KES O Parque Guel estava praticamente vazio. Restava pouco mais de quinze minutos para o fechamento dos portões e já começava a escurecer. Os dois jovens apressavam o passo para terminarem seu circuito antes que os seguranças viessem avisar que teriam que sair. Terminaram o percurso aos pés da escadaria que levava ao jardim superior. Sem parar de correr subiram os degraus e só começaram a diminuir o ritmo quando chegaram lá em cima. Nenhum dos dois falou nem uma palavra até que ambos sentaram- se nos bancos de pedra enfeitados com os maravilhosos mosaicos coloridos criados pela genialidade de Gaudi. Todo o parque era criação do excêntrico arquiteto e Kes adorava ficar lá quando estava em Barcelona. Respirando um pouco mais rápido que o normal devido ao exercício ela virou-se para o rapaz sentado a seu lado _ Ivan, eu estou partindo amanhã. Ele arregalou os olhos castanhos preocupado _ Mas...já? Você chegou só há três dias! Nem tivemos tempo de matar as saudades... _ Eu não tenho tempo, tenho trabalho a fazer. _ E que trabalho é esse Kes? Você sumiu por dois anos e quando volta fica fazendo mistérios em torno desse seu trabalho. Que espécie de trabalho você arrumou que não pode contar para ninguém o que é? _ Se eu pudesse já teria contado a você. Ela viu o rosto bonito dele se contorcer em uma careta de desgosto. _ Você não se importa comigo. Eu não tenho valor para você não é? Só importa esse seu trabalho misterioso. Kes, que nunca havia cultivado a virtude da paciência se irritou com o comentário. _ Se eu procurei você é porque me importo. Se o segredo fosse só meu, eu contaria a você mas não é e não posso trair a confiança de pessoas que me tratam como uma irmã. Se você não aceita que seja assim, então eu vou embora agora mesmo. Ele se levantou ao mesmo tempo que ela e segurou-a pelo braço com força. Apesar dele ser dez centímetros mais alto que ela, Kes era quase tão forte quanto ele e poderia derrubá-lo em um segundo mas ao sentir o calor da mão dele em seu braço não teve forças para isso. _ Não Kes, não quero que você vá assim. Eu fiquei desesperado quando você sumiu há dois anos. Foi horrível ficar sem notícias. Ele abaixou a cabeça triste _E eu nem podia ir à polícia. Kes sentiu o coração apertar. Ele sabia que ela era uma ladra quando a conhecera em Roma e aceitara os riscos de ficarem juntos. Mas Kes havia mentido sua idade para ele e lembrava-se do desespero do jovem quando lhe contara que tinha apenas quatorze anos e não dezoito como afirmara. Ela era alta para sua idade e isso ajudara no engano. Ele acabara aceitando contrariado a idéia de se envolver com uma criança que ainda por cima era uma criminosa. Mas Kes tinha certeza que ele ficara apaixonado por ela e só por isso aceitara a situação bizarra. O relacionamento durara um ano. Então ela e Clá haviam encontrado Claudia, Sil e Ale e se juntado a elas. Não havia dado satisfações nem notícias para ele e só agora percebia o quanto isso o deixara magoado. Ela não resistiu e abraçou-o com força. _ Desculpe por fazer você sofrer Ivan. Você merecia alguém melhor que eu. Ele soltou-a e segurou a cabeça dela entre as mãos _ Kes, eu amo você e faria qualquer coisa, qualquer coisa mesmo que me pedisse. Ela riu e seu olhar endureceu _ Faria mesmo? Você mataria por mim? E ante o olhar assustado dele completou. _ Você deixaria sua vida para trás para vir embora comigo neste momento? Ele baixou os olhos _ Kes eu... _ Não, não precisa responder. Sei que não faria isso. Você me ama desde que eu concorde em ficar aqui ao seu lado quietinha e comportada. Eu não sou assim cara, e você sabe disso. Ele voltou a encará-la e sorriu tristemente. _ É...eu sempre soube que você passaria na minha vida como uma tempestade de verão que chega sem avisar e acaba de repente. Ela jogou-se no pescoço dele e beijou-o no rosto e na boca várias vezes enquanto falava. _ Então, que tal aproveitar a tempestade antes que ela acabe? Eu quero passear pela cidade. Quero ir ao centro comer chocolates e ver os artistas que se apresentam na La Rambla. Quero caminhar de mãos dadas pela Plaza Catalunya.... Ele finalmente começou a rir. _ Ok, ok, está bem Kes. Vamos passear. Esta noite será a melhor noite da sua vida, eu prometo. Encararam-se por um momento e ele traçou o contorno do rosto delicado dela com a ponta do dedo. Ela sorria e ele imaginou se algum dia conseguiria esquecer aquele sorriso maravilhoso que ela tinha. Ela o puxou pela mão e começaram a descer as escadas em direção à saída do parque. Já escurecera completamente e eles podiam ver as luzes da cidade acesas proporcionando um espetáculo único, maravilhoso. Kes sabia que a missão para a qual partiria de manhã era muito arriscada e perigosa mas não tinha medo de morrer. Ela sempre vivia cada momento de sua vida como se fosse o último e esta noite não seria diferente. Amanhã era um outro dia. Ela pensaria no amanhã, quando o amanhã chegasse. CLAUDIA A escadaria de Trinitá dei Monti estava lotada como sempre. Turistas, estudantes e moradores locais se misturavam sentados nos degraus de pedra. De onde estava, ela observava o movimento dos turistas que lotavam a Piazza di Spagna e a Via Condoti que abrigava as mais caras lojas de grifes do mundo. Japoneses, alemães, americanos, todos se rendiam ao consumo e se enchiam de sacolas e mais sacolas, esbarrando uns nos outros em seus passos apressados. Enquanto fixava a rua, ela percebeu com o canto do olho o homem se aproximando. Sem olhar para ele começou a falar rápido e baixo. _ Você está atrasado, me dê o pacote. Ele parou na frente dela mas não lhe entregou o pacote esperado. _ Ei! Calma aí moça! Precisamos conversar antes. _ Já conversei o que precisava com o Comando. Me dê o pagamento e suma da minha frente. _ Você sabe que não é política do Comando pagar adiantado um serviço ainda mais depois que você pediu o dobro do que oferecemos. _ E você aceitaram. Eu não vou colocar meu grupo na linha de fogo sem garantias seu idiota. Você precisam de nós. Mesmo oferecendo mais que o usual, ninguém aceitou esta missão maluca. Eu negociei o dobro e adiantado e vocês aceitaram. Agora paguem ou o trato está cancelado. _ Eles me pediram para negociar metade agora e metade quando vocês retornarem da missão. Ela o encarou por trás dos óculos escuros e riu sarcástica. _ E é claro que, se não retornarmos, vocês economizam o dinheiro não é? Ele pareceu desconcertado e ela levantou-se encarando-o furiosa. _ Escuta aqui seu palhaço! Eu só vou falar uma vez. O Comando me conhece e sabe que não pode brincar comigo desse jeito. Você tem exatamente cinco segundos para me dar o dinheiro combinado e sumir da minha frente ou eu vou acabar com você aqui mesmo diante de toda esta gente. Ele arregalou os olhos assustado e tirou dois pacotes brancos de dentro do sobretudo. As mãos tremiam quando ele passou os pacotes para as mãos enluvadas dela. Claudia percebeu que ele tinha ordens de tentar convencê-la a aceitar apenas metade do dinheiro e ficou com mais raiva ainda do infeliz que tremia à sua frente. _ Está tudo aqui? _E-está. Ele deu dois passos para trás enquanto falava mas podia sentir o olhar dela queimando-o por trás do óculos escuros. _ Se estiver faltando um centavo nestes pacotes, a central do comando vai pelos ares entendeu bem? Ele acenou a cabeça apavorado _ Eu juro que está tudo aí! Eu juro! Eu só fiz o que me ordenaram. P-por favor! Ela se segurou para não rir do homem que parecia que ia ter um colapso na frente dela. Dando um passo adiante, ela imprimiu à voz o tom mais ameaçador que tinha. _ Seu tempo acabou. Por que ainda está aqui? O homem virou-se em completo pânico e subiu a escadaria em uma velocidade incrível. Claudia tinha um de seus raros sorrisos no rosto quando tomou a direção oposta, terminando de descer as escadas e começando a caminhar pela praça lotada de gente. Pensava na sua equipe e na maldita missão que aceitara. Ela mesma não entendia porque aceitara uma missão suicida que tinha pouquíssimas chances de sucesso. Não...claro que ela entendia. Ela sabia que poderiam fazer e o chamado do desafio havia sido irresistível. Claudia sabia que conseguiriam. Já havia escurecido e ela pegou um táxi até seu pequeno apartamento localizado em frente à Fontana di Trevi. Apesar do movimento constante de turistas no local, o prédio de dois andares era muito seguro. Subindo as escadas estreitas ela entrou na sala aconchegante e, contando rapidamente a pequena fortuna que recebera do Comando, guardara o dinheiro e abrira os mapas e planos em cima da mesa para estudá-los mais uma vez. Havia feito um esboço pois sabia que Ale teria algo planejado assim que colocasse os pés em Roma. Era assim que funcionavam. Quase sempre suas idéias combinavam. Era quase como se lessem os pensamentos umas das outras. As meninas, Clá e Kes apenas executavam as missões mas o índice de falhas delas em dois anos tinha sido praticamente nulo e Claudia tinha certeza de que teriam êxito total em Sarajevo. As batidas na porta a assustaram um pouco pois com as outras fora de Roma, o prédio estava vazio já que todas moravam no mesmo local. Então lembrou-se de Max, o vizinho da esquerda. Ele era um hacker que trabalhara para a maioria dos grupos terroristas da Europa antes de completar dezoito anos. Já fazia algum tempo que ele se afastara dos outros e trabalhava exclusivamente para o Azul Celeste. Elas tinham passaportes e documentos válidos de quase todos os países do mundo graças às habilidades de Max. Ele adorava trabalhar com as cinco mulheres e nos raros momentos de paz que tinham elas gostavam de passar no apartamento dele, divertindo-se no computador ou com vídeo games. Até onde Claudia sabia, ele nunca se envolvera com nenhuma das outras o que ela considerava estranho pois Max era um rapaz muito atraente. Depois de guardar seus papéis ela abriu a porta. Ele tinha uma garrafa de vinho e dois copos nas mãos e um sorriso cativante no rosto. Ela o convidou a entrar e pouco depois estavam sentados no tapete da sala ouvindo o barulho dos turistas lá embaixo que jogavam moedas na Fontana di Trevi e tiravam fotos como recordação. _ Onde estão as meninas? _ Estão se divertindo. Clá e Kes estão na Espanha. Terminaram uma missão há cinco dias e eu as liberei. Achei que mereciam alguns dias de folga. A Ale estava na Rússia entregando alguns relatórios para nossos antigos camaradas. A esta altura deve estar a caminho de Roma. A Sil foi para Milão ajudar Ollie e Nill a tirar algumas daquelas peças que desapareceram misteriosamente da oficina de restauração do "Duomo". Aqueles dois jamais conseguiriam sair de Milão sozinhos. Eles se perdem na esquina da casa deles. Eles riram juntos pois Max já trabalhara com os dois irmãos atrapalhados. Quase sempre eles precisavam ser salvos pelos companheiros. _ Então ela deve estar chegando. Vi Ollie ontem na loja daquele nosso amigo antiquário... _ Ela parou em Firenze por alguns dias. Deve chegar amanhã cedo. Claudia lembrou-se de Marco, o contato que lhes dava abrigo em Firenze. Ele sempre desejara Sil e ela duvidava que a amiga recusasse o rapaz esta noite já que estariam sozinhos. Distraída, pensando na amiga ela sorriu consigo mesma. Quando levantou os olhos percebeu que ele havia se recostado nas almofadas e olhava fixamente para o rosto dela. _ O que tem de tão interessante no meu rosto Max? Ele estava sério quando respondeu. _Você tem idéia do quanto fica linda quando sorri? Ela corou e ficou furiosa consigo mesma. Desde quando corava como uma adolescente ao receber uma cantada tão velha? _ Pare de brincadeiras Max, você não precisa disso para manter seu emprego. Ele riu mas sua expressão demonstrava mágoa _ Então acha que estou dizendo isso para agradar a chefe? Eu sei que não preciso disso Claudia. Estou falando com sinceridade o que penso. Você é uma mulher muito bonita quando está relaxada e sorrindo. Pena que não faz isso com muita freqüência. _ Se eu tivesse motivos para rir, não levaria a vida que levo. _ As outras levam a mesma vida e não são assim. Mesmo a Sil que tem os olhos sempre tristes, consegue sorrir. Mas em você isso é tão raro que fica até estranho. Ela apoiou-se para levantar do chão mas ele segurou seu braço obrigando-a a sentar-se de novo. _ Por que ficou zangada? Só porque acredita que ninguém pode gostar de você? Você é bonita, inteligente, esperta e uma grande amiga. Só um idiota não perceberia a mulher maravilhosa que você é. Ela riu amarga. _ Você não imagina como existem idiotas no mundo... _ Quem é o cara? _ O que? _ O cara que fez pensar que não é uma mulher desejável? Ela ficou em silêncio lembrando-se de como Alex a havia magoado com sua traição e sua palavras cruéis. _ Ninguém que valha a pena Max... _ Então porque deixa alguém que não vale a pena estragar algo que poderia ser maravilhoso? Claudia olhou para o rapaz espantada. Anos de convivência com bandidos e mercenários a ensinaram reconhecer de longe um mentiroso e Max estava sendo completamente sincero. Ela não queria acreditar mas era impossível escapar ao magnetismo dos olhos azuis dele. Mesmo porque seria tão bom se fosse verdade. Max aproximou seu rosto e sussurrou baixinho antes de tomar- lhe a boca _ Tu sei bella Claudia. Parecia que o mundo deixara de existir. O ruído dos turistas desapareceu, a pequena sala não existia e ela sentia-se como que flutuando no ar nos braços fortes que a envolviam. Quando ele a soltou ela demorou alguns segundos para perceber onde estava e o que estava acontecendo. Ele sorria debruçado sobre ela aguardando apenas seu consentimento para continuar. Ela hesitou apenas um segundo, tempo suficiente para esvaziar sua mente de todos os problemas que enfrentariam dali a dois dias. Depois presenteou o rapaz com um sorriso que o deixou sem fôlego. Pela janela fechada entravam os ruídos abafados dos turistas que iam e vinham a todo momento mas nenhum dos dois estava escutando. SILVIA PENHALBEL