Título: Traição Autora: Rosa Orofino e-mail: rosaorofino@openlink.com.br História baseada no episódio "Trindade" (3) e inspirado pela beleza, mistérios e encantamento de uma das mais belas cidades do mundo: Veneza, na Itália. O texto, em negrito, que abre e fecha a fan fic é uma música da autoria de Antonio Carlos Jobim. Categoria: romance e suspense. Atenção: NC-17 Aviso: Os personagens contidos nesta história pertencem legalmente a 20th Century Fox e a Produtora de Chris Carter, o autor da série X Files. Não há intenção em usá-los comercialmente. Sinopse: Uma bela e estranha mulher transforma as férias dos nossos agentes num pesadelo. Traição, ciúmes e perigo numa história de suspense e paixão. Traição "Chega mais perto, moço bonito Chega mais perto meu raio de sol A minha casa é um escuro deserto Mas com você ela é cheia de sol Molha tua boca na minha boca A tua boca é meu doce, é meu sal." Sede do FBI - Washington A sala, repleta de papéis e relatórios estava quieta, iluminada ainda por alguns raios de sol que já desvaneciam no céu de Washington e que entravam pela janela de vidro do porão, onde se localizava o escritório do Arquivo X. A luz da tela do computador iluminava placidamente o rosto jovem e bonito de Dana Scully. Dana se esforçava em terminar um relatório sobre o último caso de Arquivo X, resolvido pelos agentes. Seu semblante estava sério e ela se concentrava para cumprir com a exigência do FBI, quanto a relatórios esmiuçados e conclusivos que a agente, na maioria das vezes, era quem escrevia. O silêncio era total no escritório e ouvia-se apenas o toque seco dos seus dedos no teclado do computador. De repente, alheio a todo e qualquer momento de concentração, Fox Mulder, seu parceiro entrou de forma espalhafatosa pela porta da sala. - Férias! Eu não posso acreditar, Scully. Nós conseguimos tirar nossas merecidas férias! Eu e você. Nós dois juntos! Já se deu conta disso? – falou Mulder animadamente, para que, não só Scully, mas todo os andares do Bureau pudessem ouvir. A primeira conseqüência de seu ato, foi fazer com que Scully perdesse completamente o rumo do que estava escrevendo, seguida de uma taquicardia violenta por causa do susto. Após alguns segundos de lenta compreensão sobre o que estava acontecendo - se São Francisco tinha finalmente sucumbido a um terremoto ou se era apenas seu parceiro entrando na sala – o rosto de Dana modificou-se drasticamente. - Mulder! Porque entrou assim? Você me assustou! Precisava fazer isso? – suas perguntas disparavam sem controle e ela, contrariando seu temperamento discreto, pulou da cadeira correndo na direção de Mulder, pronta para demonstrar toda a sua irritação através de um bom safanão. Percebendo suas intenções, Mulder abaixou-se e desviou-se dela como uma serpente. Ao mesmo tempo em que dava boa gargalhada, diante da total frustração de Scully em agarrá-lo. - Mulder, você vai ver quando eu conseguir te pegar. – dizia ela, em tom infantil, mas ainda irritadíssima. - Calma, mulher! Eu trouxe uma boa notícia e você me recebe deste jeito! Nós estamos de férias! – disse Mulder, num momento de trégua, abrindo os braços como sempre fazia. - Mulder, eu ainda não consegui ficar feliz com a notícia, porque meu coração disparou e não quer parar. Eu estava concentrada no meu trabalho. Será que você não pode ser mais tranqüilo nas suas abordagens? Enfim, depois de algumas tentativas e nenhum sucesso, Dana desistiu da sua vingança e sentou-se de volta em sua cadeira, tentando voltar a concentração inicial. Mulder ainda ria sem parar e segurava o rosto com as duas mãos, tentando diminuir a dor que os espasmos do riso causavam aos músculos do seu rosto. Uma criança de sete anos não faria melhor... Sua expressão de divertimento diante da ira da sua Scully estava delineada e marcada em seu rosto harmonioso e ele ainda estava inseguro em aproximar-se da parceira, temendo que a tempestade tivesse apenas se acalmado por alguns instantes. Mas, Scully, determinada a terminar seu trabalho, voltou os olhos para a tela, esquecendo-o completamente. Mulder se aproximou dela, devagar, e implicantemente, começou a ler o que Dana estava escrevendo. Em voz alta! Desde que tinham assumido seu relacionamento, estas brincadeiras eram constantes. - Por fim, diante das evidências adquiridas durante a investigação, podemos concluir sem dúvida, que o suspeito... blá-blá-blá-blá-blá-blá. – Mulder parecia querer provocar Scully de qualquer forma. Mas, ela não se alterou até o momento que pontuou finalmente seu relatório; datou e enviou-o para a impressora. Mulder continuou atrás dela, aguardando mais alguma deixa para continuar sua brincadeira. Ao notar que Scully ignorava-o propositalmente, ele abaixou o rosto até o pescoço de Dana e mordiscou sua nuca levemente. Scully, até então, alheia ao que o parceiro fazia, contorceu-se diante do prazer que esta sensação lhe causara, mas logo se voltou para Mulder, aplicando- lhe um belo beliscão no braço que o fez gritar de dor. A reação dele foi rápida, agarrando-a pelo estômago, com tal força que elevou os pés dela do chão, fazendo-a agitar-se como um peixe fora d'água. Logo que Mulder a pôs no chão, Dana, como revanche, empurrou seus cotovelos para trás, atingindo-o no lugar mais sensível do homem. Diante da dor, Mulder desequilibrou-se para trás, caindo sobre uma mesa de apoio e levando Dana junto com ele. Sentados no chão, ainda assustados, os agentes olharam- se perplexos pelo que tinham feito e Scully soltou por fim um riso incontrolável. Mulder, somente agora, bastante irritado com o golpe baixo da parceira, apenas fez uma careta, contorcendo-se ainda com dor. - Mulder, eu o machuquei? Desculpe, mas... você pediu isso. – disse Scully com total ironia e já em pé, ajudando o parceiro a se levantar. - Não tem graça nenhuma, Scully. Isso vai ter volta... – disse Mulder muito sério. - Bem... eu venci. – disse Dana limpando o pó da saia - Agora me diga, Skinner nos deu então as férias tão merecidas? Quanto tempo? Dois meses, eu espero... – disse Dana, mudando completamente de assunto e fingindo não ligar para as expressões de descontentamento que Mulder fazia, ao dirigir-se a sua mesa. - É, - disse ele finalmente – ele nos deu um mês de férias. Juntos! E eu até pensei em te convidar para passarmos estas férias juntos mesmo, afinal, fora daqui, o FBI não pode proibir nosso relacionamento. Mas, depois do golpe baixo, acho que vou viajar sozinho, para matar você de raiva... Boas férias, Scully! - Como é que é, Mulder? Quanta arrogância! Acha mesmo que eu vou ficar chorando se você não for comigo? Eu sempre gostei de tirar férias sozinha, lembra? Você é que ficava me ligando o tempo inteiro... - Eu??? Ta bom, eu ficava sim. Mas, se você ficar boazinha comigo, eu vou pensar em te levar. – Mulder acrescentou se divertindo; e abrindo uma das gavetas de sua mesa, ele falou - Para onde gostaria de ir , Scully? Europa? França, talvez? Itália? Sim, Itália me parece interessante! - Mulder! - disse Dana, já mais séria – Eu adoraria conhecer Veneza, na Itália! Eu já lhe disse isso, não disse? Vamos pra lá? Vamos?! - Vou pensar no seu caso... Dana olhou-o, contrariada, desligou o micro, pegou as chaves do carro sobre a mesa e saiu, apagando as luzes. Mulder apressou-se em segui-la, reclamando do comportamento malcriado da parceira. Mesmo sentindo-se vencido, ele a perdoava por qualquer coisa. Alcançou-a no corredor e colocando-se à sua frente, impediu que ela continuasse. Apesar de várias tentativas para passar por ele, Dana viu-se impedida de ir em frente e empurrada gentilmente contra a parede, tentou visualizar o que Mulder movia de um lado para outro, bem na frente de seus olhos. - Eu já me decidi, lindinha! Vou levar você na minha viagem. – E quando finalmente parou de balançar o que tinha nas mãos, ele falou – Sabe o que é isso? - Duas passagens aéreas. – Scully respondeu rápido e ansiosamente. - Roma, Veneza, mio amore! É pra lá que nós vamos! Surpresa? - Mu-i-to... Como adivinhou que este era meu sonho? - Você me contou, lembra? - Mas, Mulder. Você se lembra de tudo que eu falo? - Tudinho. Suas palavras são a minha doutrina. – ele falou entre divertido e sério e um abraço foi a única demonstração de afeto que eles puderam demonstrar dentro do Bureau... *** Roma Dois dias depois. A viagem de avião transcorreu normalmente, apesar da turbulência que parecia perseguir Scully em todos os vôos que ela e o parceiro faziam. A chegada a Roma foi tranqüila e eles estavam ansiosos como um casal em lua de mel. O fascínio que a bela cidade italiana estava causando aos dois agentes era tão grande, que eles estavam há dez minutos sem nada dizer um ao outro. Uma mudez conseqüente da constatação da beleza clássica que compunha cada detalhe da cidade eterna. Quantas vidas já tinham passado por aqueles caminhos e quantas vidas ainda preenchiam as praças de Roma com seus destinos. Para Dana, tudo era maravilhoso, mas andar de mãos dadas com Mulder em Roma, era indescritível. Ela se sentia a mulher mais amada e feliz do mundo! Ela desejava que suas férias não terminassem nunca. Queria saborear cada momento, cada abraço, cada beijo naquele lugar e eles ainda não tinham chegado a Veneza, a cidade dos românticos, de Casanova. Dana tinha que reconhecer que estava se sentindo realizada ao lado do homem que escolhera e por quem esperara tanto tempo. E Dana tinha que reconhecer também, que Mulder era um romântico, que lhe dava flores e presentes, apesar de seu temperamento divertido. Pois se era este jeito brincalhão dele que a conquistara desde o primeiro momento que o conhecera! Apesar de tudo que Mulder sofrera, ele conseguia manter seu senso de humor apurado, pronto para finalizar conversas com o mais puro sarcasmo, sempre na medida certa... Ela não dizia isso a ele, mas a sua fisionomia de felicidade valia, para Mulder, mais do que mil palavras. Eles ficaram apenas um dia em Roma, mas foi o suficiente para conhecer suas grandes atrações. Os dois agentes seguiram então para Veneza e Scully não cabia em si de contentamento. Nada escapava do olho mecânico da sua máquina fotográfica e Mulder estava zonzo de prestar atenção a tantos detalhes que Scully apontava sem parar. A chegada à cidade de encantamento foi uma grande aventura, com a descoberta de um mundo tão diferente daquele que os agentes conheciam nos Estados Unidos. O velho e o novo se mesclavam com harmonia e Mulder nem se lembrava de conspirações ou alienígenas. Queria passear de mãos dadas pela praça de San Marco e aproveitar todos os minutos de suas férias. Nada parecia atraí-lo mais do que os olhos azuis que Scully lhe dirigia, repletos de paixão. A tarde já descia no horizonte, encantando os dois agentes por sua beleza natural. Ao chegarem ao hotel, Mulder pediu um quarto para os dois e sorriu, pensando em quantas vezes eles tinham dormido em quartos separados antes de assumirem seu relacionamento. O quarto era decorado com peças antigas, mas seu interior era limpo e claro, cheirando a essência de sândalo. A primeira reação de Scully foi andar até a sacada que permitia o contato dela com o mundo exterior. Feitiço era o nome certo para o que ela sentia. Feitiço pela realização de um desejo e pela paixão que ela tinha por Mulder. Ele, por sua vez, a seguiu, após dar a costumeira gorjeta ao rapaz que trouxera as malas. Encostou-se na sacada da janela, olhando a vista que premiava seus olhos; e admirando o rosto radiante de Dana, ele a abraçou fortemente. - Tudo parece um sonho, Scully. Espero não acordar com outro beliscão... – disse ele, embevecido, sentindo-se temeroso só de pensar em perder Dana. - Mulder, você não imagina o quanto eu estou feliz de estar aqui, com você... Mulder a fez calar-se com um beijo apaixonado. - Eu quero conhecer a cidade, andar pelos canais, de gôndola, com tudo que tenho direito. – disse Scully, alegre como uma criança. - Nós temos muito tempo pra isso. Agora eu quero ficar sozinho com você. Tomar um banho e rolar nesta cama. – ele respondeu jogando-se com força sobre a cama previamente arrumada. - Mas, Mulder... - Nem mais, nem menos. Você é minha prisioneira neste quarto. Só sairá depois que satisfazer meus desejos. - Quanto machismo da sua parte! Você não pode me obrigar a nada... - E quem disse que eu vou te obrigar... Será por sua livre e espontânea vontade. – disse ele, tirando o paletó e jogando-o de qualquer jeito sobre algum móvel do quarto. Enquanto se livrava dos seus sapatos e das roupas de Dana, Mulder a beijava loucamente, arrastando-a para a cama. A noite estava apenas começando e as férias também. Nada parecia perturbar a paz daqueles dois. Pelo menos se nenhum fator externo interferisse, naquele lugar mágico, porém tão longe de seu país. *** Os raios fortes do sol da manhã insistiam em entrar pela janela aberta da sacada. O quarto estava quente e ...desarrumado. Além das malas recém abertas, outras peças de roupa ocupavam todo o chão, jogadas de qualquer maneira devido à urgência do amor. Mulder, deitado na cama, ainda dormia, mas um feixe de luz o incomodava fazendo-o apertar os olhos ciganos. Abraçada com ele, Dana fixava seu olhar azul num ponto inexistente além da janela aberta. Ela tinha um sorriso quase eterno nos lábios. A fome atormentava seu estômago, implorando por uma solução. Ela virou-se para Mulder e sussurrou em seu ouvido. - Acorda, honey... Eu estou morrendo de fome! Como nenhuma reação dele se fez perceber, Dana decidiu mudar sua estratégia. Deslizou sua mão sobre o peito de Mulder, acariciando-o, mas com isso, ela conseguiu apenas um meio sorriso em seus lábios. O seu lado criança decidiu então radicalizar; começando a fazer-lhe cócegas por todo o seu corpo, sem piedade. Mulder moveu-se em agonia, mas não abriu os olhos. Quando finalmente, Scully desistiu de despertá-lo e levantou-se para se arrumar, Mulder a agarrou pela cintura fazendo-a voltar a cama; debatendo-se e gritando, Scully implorava que ele a soltasse, mas diante da força física que Mulder impunha a ela, suas chances eram nulas. Por fim, decidiram terminar com a brincadeira e após alguns minutos, eles desciam para almoçar. No restaurante, o maitre indicou-lhes uma mesa reservada e ofereceu- lhes o cardápio. - Macarronada! – falou Mulder – Vir à Itália e não saborear uma massa seria um pecado capital. Você me acompanha, Scully? Ou vai preferir o seu gelado de arroz integral? Certamente, eles não têm isso aqui... - Claro que não, Mulder. Só que eu quero uma massa mais leve. Não este prato gorduroso que você vai pedir. Talvez, um rondelli de ricota. Mulder levou a mão à cabeça, movimentando-a negativamente. - Será que não pode esquecer sua dieta por uns dias? Está pretendendo ter o corpo de uma deusa do Olímpo? Eu gosto de seu corpo do jeitinho que ele está. Sem mais nem menos... - E é exatamente para manter este corpo do jeitinho que "eu" gosto e que você gosta, que eu quero um prato mais leve. – e mudando de assunto, concluiu – E então Mulder, podemos andar pela cidade, agora? Eu estou excitada para conhece-la. - E eu fico excitado o tempo todo que estou ao seu lado... – ironizou Mulder, olhando Dana com malícia. Eles riram e fizeram seu pedido quando o maitre voltou. *** Veneza é uma cidade cheia de encantos. Toda a sua arquitetura provém do século XV. Os canais que ligam toda a cidade, transportam seus habitantes e turistas por meio de lanchas e através das famosas gôndolas, que tanto atraem os casais apaixonados. Estas embarcações, feitas artesanalmente com três diferentes tipos de madeira, ainda mantêm o estilo original. As construções dos prédios e dos hotéis são originais também. A famosa praça de San Marco é um ponto de encontro das pessoas que a procuram para passear, namorar e se deliciar com os vários bares e restaurantes, que mantêm mesas com barracas coloridas e músicos enlevados pelo som dos violinos, em toda a volta da praça. Além de sua beleza, e de seus contrastes, Veneza mantém um certo ar de mistério e encantamento. Tinha sido porto e passagem para nossos antepassados navegantes e se tornara uma das mais belas cidades do mundo! Dana e Mulder admiravam-se com cada detalhe que viam, embora o seu mundo particular formasse, de certa forma, um invólucro que os separava do resto. A amizade que um nutria há tanto tempo, pelo outro, os tornava unidos, e o amor recém descoberto os tornava cúmplices e definitivamente íntimos. Nada ao redor parecia perturba-los. O dia já estava terminando quando eles se aproximaram do hotel em que estavam hospedados. Cansados, mas conversando animadamente, não notaram logo uma pequena concentração de pessoas sobre uma ponte. Todos olhavam para baixo, agitados e gesticulando muito. Mulder foi o primeiro a notar a confusão e instintivamente puxou Dana pela mão, obrigando-a a acompanhá-lo. Ao chegarem ao local, puderam constatar que havia o corpo de um homem boiando na água. - O que será que aconteceu aqui? – Mulder disse a Dana. - Não, não, Mulder. Vamos deixar isso para a polícia local. Nós estamos de férias, lembra? – Dana falou quase gritando, tentado se fazer ouvir para Mulder, que não tirava os olhos da cena. - Mas, Scully. Nós somos agentes federais e temos o dever de ajudar, nestas situações! - Mulder! – Dana falava impacientemente, puxando-o pelo braço – Mulder, nós somos agentes americanos; estamos num país estrangeiro e não temos obrigação de nos envolvermos com casos de polícia. Por favor, Mulder, vamos voltar para o hotel. Não vá estragar nossas férias! - Espera um pouco, Scully, eu já estou indo. Deixe-me saber o que aconteceu... - Tudo bem, mas você vai ficar sozinho. Eu vou voltar. – e dizendo isso, largou a mão dele e tomou o caminho do hotel. Mulder voltou-se para Dana, por alguns instantes, indeciso, e depois, dirigindo-se para mais perto do local em que estava o corpo, pode ver a chegada da polícia local abrindo passagem entre os curiosos. Mulder ouviu as conversas em torno e descobriu que o homem era um comerciante da cidade e que parecia alguém querido dos habitantes daquela área. Enquanto estava observando tudo, sentiu que alguém lhe olhava insistentemente numa das margens do canal. Levantou o rosto nesta direção e viu uma mulher jovem e bonita, de cabelos acobreados e compridos. Ela vestia-se sem muita discrição, mas com roupas finas e caras. Das suas mãos, pendia um ramalhete de flores. Mulder não se enganara. O olhar fixo dela sobre ele, o fez agir da mesma forma, a espera de alguma reação. Além do mais, as lágrimas que corriam pelo rosto dela lhe diziam que aquela mulher parecia conhecer a vítima. A beleza dela era estonteante e Mulder sentiu-se incomodado com isso, sem saber exatamente porque. Finalmente, ele se libertou daquele momento hipnótico e desviou o seu olhar na direção das mãos dela quando a viu deixar cair na água o ramalhete vermelho que segurava. Imediatamente, a mulher esgueirou-se através da pequena concentração de pessoas e desapareceu. Mulder tentou acompanhar sua pista, mas desistiu. Resolveu então, voltar ao hotel e a Scully. Quando estava em frente à porta do hotel, ele a avistou novamente vindo em sua direção. Seus cabelos esvoaçavam com o vento e sua figura parecia flutuar com um andar ensaiado. Ele parou e esperou que ela se aproximasse e quando estavam quase lado a lado, Mulder adiantou-se na frente dela, tentando faze-la parar. A mulher pareceu assustar-se e da sua mão caiu uma sacola. Mulder abaixou-se para ajuda-la e impressionou-se com o conteúdo da mesma. Pintada com cores acobreadas e adornada com plumas em tom púrpura, ele pode ver uma belíssima máscara veneziana. Por alguns segundos, Mulder se deteve sobre a peça enquanto a mulher mantinha-se parada perto dele aguardando. Por fim, levantou-se, entregou a sacola de volta a ela com um pedido de desculpas, em italiano. Mulder perguntou então em inglês, misturando palavras do idioma dela, se a mulher conhecia o homem morto. A expressão do rosto dela modificou-se completamente, como se a pergunta a estivesse aborrecendo. Mulder analisou seu rosto e não entendeu exatamente o que via, enquanto a mulher o olhava desconfiada, e se distanciava dele com pressa. A porta do quarto do hotel se abriu e Mulder entrou cabisbaixo. Dana saiu do banheiro vestida informalmente e estranhou o jeito do parceiro. - O que houve, Mulder? Por que demorou tanto? Descobriu alguma coisa? - Não. Não descobri nada que esclarecesse a morte daquele homem. A polícia estava lá investigando... Ele deitou-se pesadamente sobre a cama, como se estivesse desanimado. - Porque não vai tomar um banho para nós jantarmos? Mulder, está me ouvindo? - Estou sim. Scully. Sabe, eu acho que aquele homem não foi atirado no canal. - Como tem tanta certeza disso? – quis saber Dana, curiosa mais ao mesmo tempo, intrigada com o interesse do parceiro no crime. - Eu não tenho nenhuma certeza. Ainda... Dana ficou observando Mulder atentamente, mas sua irritação voltou ao lembrar que eles estavam de férias, juntos, e que este incidente atrapalhara os seus planos. Conhecia Mulder. Sabia como ele queria esclarecer qualquer caso que era posto em suas mãos, mesmo que isso tivesse acontecido ao acaso. Dana chegou perto de seu parceiro, e ainda o observando, segurou-o pela mão tentando ergue-lo da cama e anima-lo. O que ela não sabia era que os pensamentos de Mulder ainda estavam presos a figura daquela mulher exótica que ele tinha encontrado na cena do crime. Nem ele mesmo se dava conta de que não parava de pensar nela. - Mulder! Vamos! - Eu já vou, Scully! – e parecendo acordar de seu torpor, ele olhou com carinho para Dana e a puxou para si num abraço apertado, encostando seu rosto no colo da mulher que ele amava perdidamente. - O que você tem? – Dana quis saber, acarinhando os cabelos castanhos de Mulder – Você voltou quieto, triste, não sei bem... - Eu, triste? – Mulder ergueu o olhar para Dana, aquele olhar de criança insegura que ele fazia quando se sentia perdido – Como poderia estar triste tendo você ao meu lado? Eu te amo, Scully! Quantas vezes vou precisar te dizer isso? - Eu não estou duvidando, Mulder. Apenas estou te achando estranho! - Estranho? Estranho, eu sempre fui! – e riu com vontade, acabando com o clima que se impusera desde que ele voltara. Eles desceram e jantaram a luz de velas, ao velho e romântico estilo europeu. Dana só tinha olhares para Mulder e quer queira, quer não, Veneza estava transformando nossos dois destemidos agentes em dois eternos apaixonados. O incidente daquele dia tinha sido esquecido, pelo menos, por enquanto... *** Já era dia claro, mas ainda muito cedo. Batidas na porta do quarto acordaram Mulder que se levantou para ver quem era. Ao abrir, um rapaz do hotel lhe entregou um ramalhete de flores com um cartão. Scully despertou e interessou-se em saber para quem eram as flores, assumindo um ar de felicidade ao pensar que Mulder as tinha encomendado. O agente mexeu com os ombros admitindo não saber de nada e assim abriu o envelope que acompanhava as mesmas. Seu semblante ainda amarrotado pela noite de sono transformou-se em pura seriedade. Ele olhou para Scully, inseguro, sem saber o que dizer. Scully estranhou sua reação e arrancou o cartão das mãos dele. Leu em voz alta o conteúdo, do mesmo, escrito em inglês. - Obrigado por estar presente naquele meu momento de dor. Estas flores são para demonstrar minha gratidão. Não me entenda mal. Se quiser conversar, eu tenho uma loja de máscaras no número 50, no final deste canal. Isabella. – Dana leu o cartão e releu silenciosamente várias vezes antes de voltar-se para Mulder – O que é isso, Mulder? Quando você conheceu esta mulher e do que ela está falando? Conversou com ela? - Ela... ela estava no local do crime, ontem, do outro lado do canal e me olhava de maneira estranha... ela jogou um ramalhete de flores, como este aqui, dentro do canal – e apontou para as flores ainda em sua mão – e depois... desapareceu. Quando eu voltava para o hotel, eu a vi novamente vindo em minha direção; nós... nós nos esbarramos e ela deixou cair uma sacola. Bem, eu a ajudei e... eu perguntei se ela conhecia o homem morto, pergunta esta que a fez fugir apressadamente... – Mulder falava gaguejando, escolhendo as palavras como se estivesse muito consternado com o que acontecera. - Eu não sei o motivo destas flores ou deste cartão. Apenas acho que ela conhecia o morto... Fez-se um silêncio mortal entre eles. Dana olhava para Mulder, tentando alcançar a extensão daquele fato, sentindo-se traída, apesar de acreditar no que ele dizia. Talvez, sua intuição feminina lhe alertava sobre algo maior além do que Mulder lhe contara. Talvez pela reação dele, que estava inquieto, perturbado, andando pelo quarto, de um lado para o outro. O silêncio continuou no quarto, enquanto Dana se aprontava e só foi quebrado quando Mulder decidiu falar. - Ouça, Scully, eu nada tenho a ver com isso. Esta mulher deve ser louca ou então está querendo gozar com a minha cara... - Eu não estou dizendo nada, Mulder. – Dana apressou-se em argumentar – Eu acredito em você! - Está bem. Vamos esquecer isso, então? - Claro que sim... Vamos, arrume-se para descermos. Dana sentou-se na cama, de cabeça baixa, um tanto angustiada como se tivesse sentindo algo precioso lhe escorrer pelos dedos. Talvez ela estivesse sentindo a tristeza querendo tomar o espaço da felicidade pelo amor que tinha por Mulder. Mas, havia muita força dentro do físico aparentemente frágil de Scully e ela não desistiria dele de jeito nenhum. "Mas, o que eu estou pensando? Não me venha com essa Dana. Não vá achar que todas as mulheres são uma ameaça ao seu relacionamento! Seja forte, droga..." – Scully estava ainda perdida em seus pensamentos quando Mulder a abraçou levando-a para fora do quarto. Eles saíram logo após o café da manhã. O dia estava ensolarado, e Veneza parecia ainda mais linda e mística do que no dia anterior. Não havia mais nenhum vestígio do incidente, mas Mulder e Scully ficaram perturbados ao passarem pelo local. O passeio durou até a hora do almoço. Eles estavam tão excitados com a cidade que mal se lembravam de comer. Por fim, pararam num bar da praça de San Marco, com cadeiras verdes e músicos tocando trechos clássicos. Pediram algo leve e conversaram. Em determinado momento, o garçom aproximou-se de Mulder e lhe entregou um papel branco dobrado ao meio. Falou que uma moça tinha pedido para entregar e apontou para outra mesa, distante um pouco de onde eles estavam. Mulder e Scully se entreolharam e procuraram a tal moça que o garçom indicara. Scully voltou a olhar para Mulder, sem entender, mas o parceiro estava sério e detinha-se fixamente na mulher. Tratava-se da mesma pessoa que ele conhecera na frente do hotel e que lhe mandara as flores pela manhã. - Mulder, você a conhece? – perguntou Dana, temendo já saber de quem se tratava. - Sim, eu a conheço. É a tal de Isabella que enviou as flores... - Mulder, me dê este bilhete! – Dana pediu o papel que Mulder ainda segurava nas mãos. Scully leu o bilhete e seu rosto transformou-se em puro desgosto. Ela olhou com ira para o parceiro e falou nervosa. - Mulder, eu não quero participar disso. Vamos embora? - Espere, Scully. O que tem neste bilhete? Deixa eu ler... Eu preciso saber se esta mulher tem algo a ver com o crime. - Mesmo que tenha, Mulder, não cabe a você desvendar. Nós viemos aqui para passear e para ficarmos juntos. Não deixe que isso estrague nossa festa. – Scully já falava com os olhos úmidos de lágrimas e raiva, pela inércia do parceiro, fazendo menção de levantar-se. - Fique, Scully. – ele a segurou pelo pulso com certa pressão – Eu quero que você fique comigo. Eu não vou embora por causa dela. Estou bem aqui e aqui vou continuar. Dana livrou-se do aperto da mão dele e falou quase chorando: - Pois fique você. Eu não quero participar disso, já disse. Você tem que escolher. Nós ou sua obsessão pela verdade, ou por outras mulheres. – Dana falou, tentando ser cruel com ele e se afastou sozinha. Mulder continuou sentado, olhando Scully ir embora; e vendo o bilhete, deteve-se na sua leitura. "Sei que vai achar estranho, mas preciso conversar com alguém e fiquei muito impressionada com você." O agente voltou-se para a mulher, sério. Pediu ao garçom que a chamasse para sua mesa. Depois ele viu o garçom passar seu recado e não estranhou quando a mulher misteriosa veio em sua direção. Quando ela se aproximou da mesa, Mulder a olhou sem emoção, irado pelo que ela havia provocado a Scully. Ela puxou uma cadeira e sentou-se. Só então Mulder pode perceber toda a grandeza de sua beleza, como se só naquele momento, ele a tivesse visto verdadeiramente. - O que você pretende? O quer comigo? – Mulder perguntou formalmente. - Eu já disse. Você me impressionou muito desde a primeira vez que o vi. Eu sou uma pessoa muito solitária e costumo dar atenção as minhas emoções... – respondeu a mulher num inglês cheio de sotaque italiano. - Sei. – Mulder sorriu com sarcasmo e continuou – Eu não estou sozinho, como pôde perceber. - Eu notei. Ela é sua namorada? – ela quis saber curiosa. - Ela é tudo para mim. – Mulder deu uma pausa assimilando todo o conteúdo daquelas palavras e falou em seguida – Sra. Isabella. É esse seu nome, não? – e sem esperar resposta, continuou – eu sou um agente federal, sou americano e estou de férias, de passagem... Como estava passando pelo local, parei para verificar o que estava acontecendo e, ao vê-la, achei que pudesse ter alguma ligação com o caso. Estava certo? - Sim. Você está certo. – Isabella abaixou o rosto, parecendo triste – o homem que vimos no canal... ele se chamava Giulio e era meu... namorado. Nós estávamos separados há dois dias e ele queria voltar, mas, eu não volto atrás nas minhas decisões. Eu não sei o que aconteceu com ele, mas apesar de estarmos estremecidos, eu gostava dele...Mas, não quero que me interprete mal por ter-lhe abordado, bem, como é mesmo seu nome? ... - Mulder, pode me chamar de Mulder. - Então, como lhe disse, eu sigo minhas emoções e você me atrai muito. Por isso e para lhe agradecer, eu lhe mandei aquelas flores. Sinto muito se causei algum transtorno no seu relacionamento, mas eu achei que estava sozinho... E, bem, mesmo sabendo que você tem alguém, eu gostaria de lhe convidar para conhecer minha loja de máscaras. Elas fazem parte da cultura de Veneza e eu tenho algumas bem interessantes... Se quiser me visitar à noite, eu também moro no mesmo endereço, numa cobertura em cima da loja. - Obrigado pelo convite, mas não acho que minha mulher queira conhecer sua loja... – Mulder falou um tanto constrangido com a sinceridade de Isabella. - De qualquer forma, fica o convite. – E ela olhou fixamente nos olhos de Mulder, passando seus dedos finos no rosto dele e terminando em seus lábios, como uma carícia. – Adeus, Mulder. Espero nos vermos novamente. Mulder nada respondeu e ficou olhando para aquela estranha se afastando. Ela tinha um misto de ousadia e recato, e, mesmo que ele não admitisse, provocara uma inquietação em todo seu ser. Mulder levantou-se, pagou a conta e voltou para o hotel. Ao entrar no quarto, ele viu sua mala aberta sobre a cama e parte de suas roupas dentro dela. Scully surgiu do banheiro com uma pequena valise nas mãos e os olhos vermelhos. - Scully! O que está fazendo?? Por favor, para com isso. – ele tirou uma camisa de suas mãos, segurando-a pelos pulsos. - Será que você pode me largar? Eu estou arrumando suas coisas. Já pedi outro quarto, aqui mesmo neste andar... – e enxugou uma lágrima que teimosamente mostrava-se em seu rosto - Eu acho melhor nós ficarmos sozinhos até que esta situação se resolva. - Que situação, Scully? Vamos, olha pra mim. – Mulder segurou seu rosto com as duas mãos obrigando-a a dirigir seu olhar ao dele – Acha mesmo que eu vou trocar você por uma mulher que nunca vi na minha vida? Eu quero apenas tirar informações dela... - Mas, como você pode ser tão cínico. Ela está interessada em você e você vem com essa conversa fiada pra mim. Logo pra mim, que o conheço tão bem? - Scully, se você me conhecesse, saberia que o que estou dizendo é verdade! Eu quero você, eu amo você. Não sou esse mulherengo que você está querendo me rotular. Dana livrou-se de seus braços e continuou a jogar as roupas dele na mala. Mulder se colocou novamente na sua frente, agora mais nervoso, vendo que Scully não estava brincando. - Scully, escuta, por favor. Se você está achando mesmo que eu vou atrás dela, porque está nos separando? - Simples. – ela respondeu – porque eu não quero continuar presenciando cenas entre vocês. Flores, encontros oportunos. Resolva este problema e nós voltaremos a ficar juntos. Por favor, Mulder, agora saia. Seu quarto fica do lado deste. Eu não posso conviver com isso... - Está bem, eu vou esperar que se acalme e nós conversaremos. Eu vou sair, mas estarei por perto, Scully. – Mulder suspirou, pegou sua mala já fechada e saiu. Scully permaneceu durante alguns segundos, parada no meio do quarto, sem mover-se. Toda a força que ela tinha em seu interior, parecia ter se extinguido quando Mulder batera a porta. A decisão da separação tinha sido dela, mas isso não queria dizer que ela a suportaria. Deitou-se na cama, cansada e triste e chorou muito até adormecer. Dana dormiu até o dia seguinte, e quando abriu os olhos diante do sol da manhã que agora, parecia lhe incomodar, percebeu que a dor do dia anterior ainda estava lá, dentro do quarto, dentro do seu peito, machucando... Ela se sentiu um pouco perdida por estar num país distante e diante deste desentendimento com Mulder. Seria difícil continuar e Dana, por alguns instantes, arrependeu-se de ter brigado com ele. Mas, o seu orgulho falou mais alto e sua decisão se manteve. No quarto ao lado, a desordem era enorme. Mulder tinha largado a mala aberta numa cadeira, e grande parte das suas roupas espalhadas pelo quarto. Parecia ter passado um tornado por lá. O sol também insistia em entrar pela janela, mas Mulder dormia com o travesseiro sobre a cabeça, ignorando completamente aquela invasão do novo dia. De repente, ele abriu os olhos, como se ele tivesse sido ligado a uma tomada. E assim permaneceu por alguns segundos, com o pensamento totalmente voltado para Dana, arrependido por alguma coisa que não tinha feito, como se ele a tivesse traído em pensamento. Agoniado, socou o colchão várias vezes e derrubou algumas lágrimas, alucinadamente verdes, de raiva e de angústia. Como podia ter feito isso com Scully? Ao mesmo tempo, revoltava-se com a decisão da parceira em separa-los. Orgulho ferido. Se for assim que ela queria, ele não contestaria, embora seu peito estivesse estourando de dor. Levantou-se decidido a se ocupar do crime acontecido perto do hotel. Iria procurar a polícia local e oferecer ajuda. Precisava trabalhar, ocupar sua mente, para não pensar... Vestiu-se e saiu do hotel sem ao menos tomar seu café da manhã. Ao chegar a delegacia policial da área, procurou a pessoa responsável e identificou-se, querendo saber detalhes do crime. O delegado de plantão olhou-o desconfiado e perguntou se Mulder tinha um visto para trabalhar em Veneza, ao que ele esclareceu que tinha vindo a passeio, mas que gostaria de ajudar a polícia nas investigações. Mostrou sua identidade e sua carteira do FBI, a fim de tranqüilizar o delegado. Quando tudo se esclareceu, alguns detalhes do caso foram relatados ao agente que ouvia interessado o policial. - A vítima chamava-se Giulio de Luca, solteiro, 30 anos e era um comerciante aqui mesmo da jurisdição; parece que ele se envolveu em alguma confusão pessoal, conforme relataram algumas pessoas vizinhas à loja dele e os amigos que o viram meio desorientado, alguns dias antes de sua morte. – o delegado fez uma pausa para pegar a ficha do caso e continuou – Estou aguardando o resultado da autópsia e do exame toxicológico para continuarmos com as investigações. Segundo depoimentos, ele era um homem pacato e trabalhador. - Ele não tinha família? Namorada? - Ah, sim. A família mora em Gênova e ele era visto sempre sozinho nos últimos meses, embora os amigos mais próximos tenham contado que o rapaz estava se encontrando com uma mulher, também comerciante. Eles não a conheciam... Mulder lembrou-se imediatamente da afirmação de Isabella sobre conhecer a vítima; ela era a namorada; mas porque ele a escondia? Resolveu manter este detalhe com ele até que tivesse alguma outra informação. Sua mente incitava-o a procura-la, ao mesmo tempo em que a sua intuição dizia o contrário. A primeira pretensão venceu. Mulder parou em frente à vitrine da loja de máscaras, observando o encanto que envolvia aquelas peças originais que eram exibidas por trás do vidro. Algumas delas denotavam alegria, outras espanto, outras profundos sofrimentos não percebidos, mas havia uma que lhe chamava a atenção. Seus adornos vermelhos, dourados e azuis que emolduravam a máscara, que tinha uma expressão mordaz o fizeram lembrar-se da peça que ele derrubara das mãos de Isabella, naquele encontro. Esta máscara, como aquela o impressionara, não só por sua beleza, mas por alguma outra razão que Mulder não podia entender, naquele momento. Resolveu então entrar na loja e logo um cheiro suave mas incisivo o envolveu. Um vendedor aproximou- se dele e ofereceu ajuda. O homem, jovem e forte olhou Mulder de forma enigmática. - Eu gostaria de falar com a Sra. Isabella. Diga-lhe que é Fox Mulder. - Um momento que vou chamá-la. – e dirigiu-se ao interior da loja voltando poucos minutos depois. Isabella vinha logo atrás dele e dirigiu um sorriso aberto quando avistou Mulder. - Ora, ora! Que bom que veio! Não pensei que aceitaria meu convite. - Eu não vim lhe fazer uma visita, mas preciso lhe fazer algumas perguntas, se não se importa. - Claro. Porque não vamos até minha sala? – finalizou Isabella mostrando o caminho a Mulder. Eles entraram numa grande sala onde trabalhavam várias pessoas na confecção de máscaras de todos os tipos e cores. Logo chegaram a uma outra sala menor, bem decorada e com um suave perfume de flores. Mulder entrou na frente, enquanto Isabella trancava a porta atrás de si. O agente a olhou, sério e desconfiado, mas nada comentou. - Sente-se Mulder. Posso lhe oferecer uma bebida? - Não, obrigado. – e após uma pausa, continuou – o fato de que a vítima do canal era seu namorado e o depoimento de amigos dele dizendo que ele se encontrava às escondidas com uma mulher comerciante me fizeram pensar que há algo muito estranho nesta história. - O que o faz pensar assim? Não há nada de estranho! A explicação é simples. O Giulio era um comerciante conhecido, assim como eu e não queríamos chamar a atenção. Por isso, nos encontrávamos aqui ou em minha casa. - Entendo... E vocês se davam bem? - Claro que sim. Nossa separação aconteceu por causa de ciúmes, por parte dele. Infundados, se quer saber... - Será que eram mesmo? - Mulder, o que está querendo insinuar? - Nada. Estou apenas juntando fatos. Já se casou alguma vez, sra. Isabella? - Sim. Duas vezes. - Desculpe-me a indiscrição, mas porque os casamentos terminaram? - Simplesmente porque meus dois maridos morreram. Eu sou viúva duas vezes. - Sei. E quanto a namorados? - O que tem eles? - Porque não está com ninguém? Se me permite, você é uma mulher muito atraente para estar sozinha! - Olha, Mulder. Obrigado pelo elogio, mas eu acho que minha vida particular não está em julgamento aqui, não é? Porque não deixamos estes assuntos aborrecidos para depois e falamos de coisas mais agradáveis. Dizendo isso, Isabella saiu de sua cadeira e encostou-se na mesa, de frente para Mulder, provocando-o com uma saia curtíssima e com olhares exploradores. Mulder fez menção de levantar-se, mas a mulher o empurrou firmemente de volta. E sem pedir permissão, sentou- se sobre suas pernas, envolvendo seu pescoço, com os braços. Mulder pretendia sair dali e ir embora, mas algo mais forte o prendia ao olhar de Isabella, como um ímã. Diante desta concessão, Isabella segurou o rosto dele e beijou-lhe o queixo, os olhos e a boca. Seu beijo, a princípio suave, intensificou- se, culminando com uma mordida em seu lábio inferior, fazendo-o soltar um gemido de dor. Foi então que quase jogando Isabella no chão, ele dirigiu-se a porta e exigiu que a mesma fosse destrancada, o que foi obedecido por ela. Ainda mantendo um sorriso malicioso na boca, ela ameaçou: - Você voltará, Mulder. Você voltará... O agente encontrou o caminho de volta para a rua, enquanto mantinha um lenço sobre o lábio ferido. Ele estava irado e revoltado com a sua tolerância. Ao chegar ao hotel, encontrou Scully falando com o atendente na recepção, que ao vê-lo andou em sua direção. - Mulder, onde você esteve? Há um recado para você na recepção. Mulder movia-se rapidamente, tentando não encarar Dana. Mas, mesmo evitando olha-la, ela percebeu o lábio ferido e perguntou o que tinha acontecido. Mulder inventou que tinha se machucado, simplesmente, mas não convenceu a astuta Scully. Em seguida, ele se dirigiu a recepção, e verificou que o delegado de polícia queria falar-lhe. Ao pegar o caminho de volta, ele encontrou novamente Scully à sua espera, que o seguiu até o quarto. Ele desejava enfiar-se num buraco para não enfrentar a mulher impaciente que Dana se tornara nos últimos dez minutos, mas não se sentia seguro para dizer a verdade. - Mulder, o que o delegado quer com você? - Eu estive lá no posto de polícia para me interar do caso ocorrido aqui em frente. Eu precisava trabalhar, ocupar minha cabeça... - Então, você assumiu de vez que se envolver no caso era mais interessante que ficar comigo. - Quem está dizendo isso? – Mulder retrucou, olhando-a com indignação – Por acaso, é a mesma mulher que me expulsou do quarto hoje pela manhã? - Não, Mulder, quem está falando é a sua mulher que foi obrigada a passar por uma situação humilhante diante daquela mulherzinha vulgar que está atrás de você. - Eu não tive culpa... Mas, você não pode perdoar, não é mesmo? Seu orgulho é maior do que sua vontade de compreender. - E o seu orgulho, Mulder? Será que não o está jogando na lama, sujeitando-se aquela tal? - Scully. Eu não quero discutir com você. Eu gosto de você, mas precisa confiar em mim! - Eu confio, Mulder. Mas, você tem que me dar sua palavra de que vai esquecer este caso e que vai continuar suas férias comigo! – disse Dana, suavizando a voz. - Eu não posso. Não agora. Eu já estou envolvido no caso e, você me conhece, vou até o fim... - Ok! Tudo bem. Como quiser. Então, não se espante se não me encontrar no quarto, pois eu também vou me envolver com algo interessante... - O que quer dizer com isso, Scully? - O que você ouviu, Mulder. – e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Mulder a seguiu até o corredor e segurou-a pelos braços. Ele sentia-se carente, ávido de momentos de amor com Dana, mas havia alguma coisa perturbando seus sentidos. Sentia-se levemente zonzo e cansado e achou melhor deixar tudo como estava. Scully soltou-se dos seus braços, olhando-o fixamente e afastou-se. Desta vez, ele não a seguiu. Mulder deitou-se um pouco, tentando amenizar a indisposição que estava sentindo. Sentia falta da atenção e do cuidado que Dana lhe dedicava todas as vezes que não estava bem. Queria sentir ela perto dele, fazendo-o tomar um comprimido ou simplesmente ficando ao seu lado até que tudo passasse. Pensando nela, ele adormeceu, só despertando às sete horas da noite. Levantou-se assustado, arrumou-se e saiu para conversar com o delegado. *** O policial era um homem bruto, um tipo mafioso, acostumado a lidar com bandidos no seu dia-a-dia. A truculência era sua defesa e seu ataque. Ele não conhecia outros métodos, mesmo porque um policial precisa ser frio para lidar com tanta miséria e marginalidade. Ele viu em Mulder alguém em que pudesse confiar para ajuda-lo neste caso. Mulder era o mentor da dupla. O agente contou ao policial sobre Isabella e das suas desconfianças. Disse que Isabella tinha sido namorada da vítima e que estivera no local do crime. - Delegado, nossas investigações devem começar por ela. Não acha? - Concordo com você, agente Mulder. Mas, nós podemos ouvi-la, não indicia-la... - É Verdade. Precisamos de provas. E como eu suspeito de que ela sabe mais do que está dizendo, eu me disponho a servir de isca para pegá-la. - Sabe que não pode, agente. Mesmo que eu aceitasse esta idéia, nós não poderíamos ir adiante. Você é estrangeiro. A embaixada americana me fritaria os miolos... - Mesmo assim, eu insisto. Sou um profissional experiente. Trabalho há muitos anos com casos perigosos. - Mas, você é um agente especial. Não um policial, que está acostumado à malandragem das ruas. Servir de isca seria muito arriscado. - Ora, vamos, delegado. Trata-se apenas de uma mulher e não está claro que ela seja uma assassina. Ela tem algum envolvimento com o caso que eu ainda não consigo entender. Para isso, eu preciso conquistar sua confiança, como homem, para tirar-lhe as informações que precisamos. Sei que me entende... O homem vivido que estava à frente de Mulder coçou a barba por fazer, pensativo e resolveu aceitar a proposta dele. Mostrou-lhe então o resultado da autópsia, que acusava como causa-mortis, afogamento. Estou começando a descartar um crime e a aceitar um suicídio. O homem não tinha nenhum motivo aparente para o suicídio. Ele era um empresário bem sucedido. E não apresentava nenhum problema mental! - Mesmo que o homem tenha se suicidado, a tal mulher ainda é suspeita, já que estava presente no local do crime. Eu estive conversando com ela, e não demonstrou muito espanto ou sentimento pela morte do tal Giulio. Além disso, ele pode ter sido empurrado no canal. - Eu acho que não. Mas, se puder me trazer mais informações, eu agradeceria. Mas, que isso fique apenas entre nós. Sabe que não pode estar metido nesta investigação. O delegado pediu ao agente que o mantivesse informado e eles se despediram. Mulder saiu caminhando pelas ruelas e pontes de Veneza, sem coragem para voltar ao hotel. Ele pensou em colocar o plano dele e do policial logo em prática. Sentia-se angustiado todas as vezes que pensava em Scully, mas um desejo maior o impelia a procurar Isabella. Ele temia, delirando, que seus pensamentos fossem ouvidos pelas pessoas que cruzavam com ele, pois sabia que o que estava fazendo era errado. Ele tinha vindo a Veneza para agradar Scully e estava amando suas primeiras férias junto com a parceira. Por que então estava fazendo isso? Por que insistia tanto em solucionar um caso tão longe de seu país, e pior, sozinho. Pensou que talvez fosse porque não queria pôr a vida de Dana em perigo, mas logo sorriu com sua hipocrisia. Mulder sabia, muito bem, a razão desta impulsividade. Sabia, não, melhor, sentia dentro de si quão urgente era estar próximo de Isabella, ouvindo sua voz e admirando sua beleza. Mulder estava terrivelmente confuso, como se não fosse dono de sua mente, como se estivesse sendo manipulado. "Por quem?", pensava. Isso não faz sentido. Nada fazia sentido desde que conhecera Isabella. Conhece-la tinha desvirtuado o caminho do agente. Tinha certeza, em seu coração, de que amava a pequena ruivinha, sua amiga e parceira de tantos anos; mas sentia um desejo sufocante de ter Isabella, de senti-la. "Um desejo violento", ele mesmo qualificou em seus pensamentos. Continuou sua caminhada até a frente da loja e tocou a campainha da casa de Isabella. Nos minutos que se seguiram, Mulder travou uma luta conflitante entre seguir seus instintos de homem ou a sua intuição, ficar ou ir. Logo, a presença de Isabella na sacada o fez resolver a questão. Ele ficaria... Ela o recebeu vestida apenas com uma camisola curta, preta e semitransparente, e um longo sorriso cínico nos lábios. Mulder sabia o que aquele sorriso significava. Ela profetizara sua volta, certa do que dizia. Ele sentiu-se um tanto usado por aquela mulher, mas o plano que havia combinado com o delegado tinha que ser posto em prática e, além disso, seu corpo arrepiava-se somente com a proximidade dela. Depois de lhe indicar o caminho, Isabella subiu as escadas na sua frente; seus movimentos eram lentos, mas precisos como os de um animal. Sua roupa esvoaçava com o vento que vinha do vitral aberto no topo da escada e Mulder sentia sobre si o perfume que ela exalava, inebriando seus sentidos. Ele já se sentia prisioneiro, daquela casa, daquela mulher. Um prisioneiro voluntário, embora assustado. Ao chegarem ao topo da escada, Mulder visualizou um ambiente amplo, pouco mobiliado, com uma luz tênue que parecia sair das paredes. O lugar também tinha cheiro de incenso e ela lhe indicou um divã preto de veludo para que ele se sentasse. - Fique a vontade, Mulder. O que quer beber? - Qualquer coisa. – ele assentiu, automaticamente. - Eu vou lhe preparar um drink típico daqui, delicioso. - Tudo bem. Acho que sabe porque eu estou aqui... - Sim. Eu sei. Sabia desde o início que voltaria, mesmo saindo tão zangado, da última vez que esteve aqui. - Bem, porque não me fala um pouco mais de você? – Mulder disse, tentando ganhar tempo na conversa que poderia lhe fornecer provas – Deve ser triste ficar viúva tão jovem, não? - Na verdade, Mulder. Eu já convivo com esta situação. Perdi dois maridos e os homens que passaram por minha vida depois disso... bem, também não tiveram sorte... - O que quer dizer com isso? - Mulder, eu sou uma pessoa vivida. Entendo de amores, de paixões, mas sempre tive minha felicidade ceifada pela morte. - Quer dizer que eu corro alguma espécie de perigo, me envolvendo com você? É isso que quer dizer? Está me contando que todos que se aproximam de você tem algum final fatídico? Não espera que eu acredite nisso, espera? - Pense o que quiser... O que está insinuando? Que eu matei meus amantes, como uma... viúva negra? - Ainda não sei exatamente quem você é, mas acho que tem algum mistério a sua volta. - Porque não tenta descobrir o que é, Mulder? – Isabella falou languidamente, provocando-o. - É para isso que estou aqui. – disse ele bebendo mais um gole do seu drink. Mulder sentia-se infame dizendo isso, mas afastou logo estes pensamentos, tratando de pensar rápido numa forma de conquistar a confiança da mulher sensual que estava sentada em frente a ele, observando-o. No seu íntimo, sabia bem porque estava lá... Sua mente logo retornou ao lugar onde seu corpo estava quando Isabella aproximou-se, tirou o drink de sua mão e fez ele se levantar. Depois o abraçou com volúpia, acariciando seus cabelos. Mulder a enlaçou pela cintura e esqueceu de tudo, beijando seu pescoço e estremecendo diante do desejo que o consumia. Eles tiraram suas roupas lentamente, olhando-se nos olhos e satisfazendo suas ânsias com carícias cada vez mais ávidas. Isabella guiou os passos de Mulder até o quarto e ele a jogou sobre a ampla cama, sem muita delicadeza. Seus corpos tinham urgência de se conhecerem e nada os fariam parar. De repente, Mulder sentiu-se atirado para o outro lado da cama por uma força espantosa. Mais rápido do que ele pudesse entender e ver, a mulher fez um balé esquisito no ar, movimentando suas pernas com tal agilidade que, em segundos, Mulder estava sob o corpo dela. Ele sentiu-se zonzo, sua vista embaçada por alguma espécie de distúrbio visual. Apenas via o vulto ágil de Isabella movimentar-se, sentindo-se imobilizado completamente pelas pernas dela. Lentamente seu corpo enfraqueceu diante da fortaleza sobre humana em que ela se transformara. Sem conseguir perceber os próximos passos, ele sentiu seus braços serem atirados para cima da sua cabeça, agarrados pelos pulsos por uma pressão intensa que a mão dela exercia sobre eles, enquanto Isabella movia-se freneticamente fazendo com que os dois atingissem o prazer máximo em segundos. Quando Mulder acordou sob os lençóis, Isabella não estava lá. Ele já enxergava normalmente, mas seu corpo doía tanto como se tivesse sido infligido por alguma espécie de dominação; seus músculos estavam retesados e ele se sentia fraco demais para mover-se. Tentou sentar-se na cama, mas uma tonteira o fez cair novamente sobre o travesseiro. Assustou- se com sua condição e naquele momento, ele teve certeza de que Isabella não era humana. A força que ela demonstrara não era conhecida e parecia absurdo que ela tivesse dominado um homem tão alto e forte como Mulder. Mas o que mais o preocupava era a debilidade que ele sentia em todo o seu corpo. Precisava sair de lá, voltar ao hotel e falar com alguém... Depois de uma hora ou mais, em que adormecera, Mulder conseguiu levantar-se e vestir-se. Era como se suas forças estivessem voltando lentamente. Saiu do quarto, passando pela grande sala, observando tudo, pensando encontrar Isabella pelo caminho, embora não desejasse que isso acontecesse; e assim, ele alcançou a rua. A lua podia ser vista como uma esfera branca e brilhante, iluminando o caminho estreito, que estava alagado devido à maré alta daquela noite. Mulder então resolveu utilizar-se de uma barca que passava, veículo que servia de transporte para a população. Dentro da barca, ele estranhou ver um homem mais velho que ele, com cabelos grisalhos e roupas simples, àquela hora da madrugada. Sentou-se ao seu lado e olhou para um rapaz que viajava no banco em frente a eles. O rapaz era bem jovem e mantinha seu olhar perdido nas casas que passavam como um filme monótono e escuro, pelas janelas da lancha. Mulder ainda sentia-se estranho e recostou-se no banco para descansar. Foi quando ouviu o homem ao seu lado, falar num dialeto do italiano. Ele abriu os olhos e olhou para o lado, quando o rapaz a sua frente dirigiu-se a ele, em inglês, traduzindo o que o velho tinha dito. - Meu pai lhe pergunta se está se sentindo bem. - Fala a minha língua, rapaz? Estou bem, mas porque seu pai se interessa por mim? Ouviu o garoto conversar em italiano com o pai e logo em seguida olhar para ele, traduzindo. - Ele disse que o senhor deve se afastar da mulher que vende máscaras. Sua vida corre perigo. Nós o vimos saindo da casa dela. – novamente o jovem olhou para o velho, que falava mais alguma coisa enquanto Mulder mantinha-se desconfiado com aquela conversa. - Pergunte a ele porque corro perigo ao lado dela. – Mulder falou, curioso. - Meu pai é artesão de máscaras e conhece bem esta mulher chamada Isabella. Ela destruiu minha família quando meu pai se apaixonou por ela. – e o rapaz olhou um tanto magoado para o pai, que mantinha os olhos baixos. - Mas, isso não explica o "perigo" do qual falam... Os dois continuavam conversando em italiano diante de Mulder que esperava pacientemente. Por fim, acrescentou. - Senhor, minha mãe adoeceu e veio a falecer por causa da fraqueza de meu pai. Foi assim que meu pai destruiu nossa família. Mas, segundo ele, existe algo mais além disso. Papai me contou a respeito de uma lenda local que fala de uma máscara veneziana que traria infortúnio para todos que a possuíssem ou que tivessem contato com aquele que a possuísse. - Como assim? O que tem a ver a máscara com Isabella? O velho falou novamente com o filho e este olhou sério para Mulder, concluindo. - Meu pai pede apenas que se afaste dela, se tem amor a sua vida. - Pergunte-lhe se ela é alguma assassina. - Pelo que sei – disse o jovem, por conta própria – ela não mata, mas leva à morte... Mulder olhou atônito para o rapaz, ainda sem entender a verdadeira influência de Isabella. Porém, no seu íntimo, ele sabia que ela não era uma mulher normal e acreditou no velho, sem fazer mais perguntas até o final da viagem. Em poucos minutos estava na porta do seu hotel. Ao desembarcar, cambaleou um pouco, tentando equilibrar-se. A impressão que veio a sua mente, é que sua energia vital tinha sido sugada. Depois de pegar sua chave, ante o olhar atento do recepcionista, ele subiu devagar os degraus da escada estreita que levava aos quartos, apoiando-se no corrimão de madeira. De vez em quando, sentia-se zonzo e por isso a subida foi bastante penosa para ele, naquele momento. Enfim, passando pela porta do quarto de Scully, Mulder parou, por alguns segundos e sentiu-se muito mal por tê-la traído. Já dentro do quarto, procurou urgentemente tomar uma ducha fria antes de ir para cama. A água do chuveiro batia vigorosa em seu corpo, transmitindo-lhe uma sensação fina de dor, como se toda a sua pele estivesse sensível ao toque. Ele apoiou-se na parede de azulejos, com as duas mãos e permaneceu com a cabeça debaixo d'água, sentindo-a deslizar pelos seus braços, costas e pernas musculosos e tensos. Depois esfregou o rosto molhado enquanto tentava afastar o amontoado de pensamentos confusos que passavam pela sua mente. Sabia o que tinha feito e ao mesmo tempo, não sabia porque tinha feito. Scully, que agora dormia profundamente, tinha estado visitando vários lugares turísticos durante as horas em que Mulder estivera fora. Sua última parada tinha sido num Café tradicional de Veneza, onde se impressionara com a fidelidade dos donos à decoração original da época em que o prédio fora construído. Embora estivesse encantada com tudo que via, Mulder não saía de seu pensamento. No seu quarto, onde já dormia há bastante tempo, o telefone tocou e ela acordou sobressaltada. - Sra. Scully? – ouviu-se uma voz masculina, num inglês latinizado, do outro lado da linha. - Sim? Quem é? - Quem está falando é o recepcionista. A senhora me pediu que a avisasse quando o Sr. Mulder chegasse. Pois então, ele já subiu para seu quarto e... - O que foi? Ele está bem? - Não, ele não me pareceu muito bem... - Obrigado, senhor. Scully desligou o telefone, colocou um penhoir sobre a camisola e saiu do quarto. Bateu algumas vezes na porta do quarto de Mulder. Quando finalmente ele atendeu, tinha os cabelos molhados e vestia-se apenas com uma calça folgada. Seu rosto mostrava sinais de cansaço. - Scully? O que houve? – disse ele. - Eu é que pergunto, Mulder! Você está bem? – e aproximou-se dele, passando a mão em seu rosto, ato que fez Mulder desviar-se dela. - Estou só um pouco cansado. Por que não vai dormir? Amanhã nós conversamos. – Mulder não conseguia encarar Dana de jeito nenhum e vendo que ela continuava ali, recuou alguns passos, jogando-se pesadamente sobre a cama. - Mulder, você está horrível. Parece que está doente. Quando vai me contar o que está acontecendo? - Nada está acontecendo, Scully! Eu só quero dormir. – ele disse sem ao menos abrir os olhos. - Quer que eu acredite nisso? – Dana falou depois de fechar a porta do quarto e acender o abajur perto dele – Deixe-me examina-lo, Mulder! - Não, Scully. Eu estou bem. Só estou com sono... Mesmo diante da teimosia do parceiro, ela examinou seu rosto detalhadamente, tirou sua temperatura com as costas das mãos e mediu sua pulsação. - Sua pressão está baixa Mulder. Por isso está prostrado deste jeito. Eu vou buscar um remédio no meu quarto e você vai toma-lo. Dana voltou logo depois e o encontrou do mesmo modo que o deixara, esparramado na cama, com os olhos fechados. Forçá-lo a tomar o remédio foi uma tarefa árdua, mas meia hora depois, Mulder estava sentado, encostado na grade de cabeceira da cama. Ele mantinha os olhos baixos e não dizia nenhuma palavra. Scully, sentada numa cadeira, de frente para ele, o observava, preocupada. - E então, vai me contar agora o que houve? – disse Dana, pacientemente. - O que quer saber, doutora? - Não brinque Mulder. Eu nunca o vi assim. Você está com sintomas de anemia: fraqueza, sonolência e apatia. Em que esteve metido, se hoje pela manhã, você estava ótimo? - Eu realmente me sinto como se tivessem me tirado as energias vitais. – ele repetiu o que já sabia, olhando rapidamente para Dana. Ela levantou-se de onde estava e caminhou até ele, forçou-o a erguer o rosto e olhou-o com um ar desconfiado. - Está me escondendo algo muito sério, Mulder. Eu o conheço mais do que a mim mesma! E tenho até medo de perguntar o que é. – Dana disse, ainda segurando o rosto dele. - Eu não estou escondendo nada! – e depois de alguns segundos em silêncio - Posso dormir agora? – disse ele, apressando-se em deitar novamente. Dana voltou à cadeira e acomodou-se o máximo que pode. Ela iria ficar com ele o resto da noite, velando seu sono. Estava muito desconfiada do que pudesse ter acontecido e sua intuição feminina lhe sussurrava coisas que a faziam sofrer. Mas, porque ele estava neste estado? Isso, ela não conseguia entender. A luz fraca do abajur impediu que ela visse a expressão de angústia que tomara todo o rosto do parceiro... Já eram nove da manhã quando Mulder acordou. Virou-se na cama na direção onde Scully estava e não a viu. Porém, logo ela entrou silenciosamente no quarto, com medo de acorda-lo. - Oi, já acordou? Está melhor? – as palavras de Dana eram secas embora ela demonstrasse profunda preocupação em seus olhos. - Estou sim. Obrigado. Scully? - O que é? - Me desculpe por ontem... Eu fui grosseiro com você. Fez-se um silêncio difícil entre eles e nenhum dos dois, cada um pelos seus motivos, conseguia falar alguma coisa. Mulder levantou-se ainda cambaleante e Scully ajudou-o até o banheiro. Enquanto ele molhava o rosto com a água fria, ela permaneceu encostada no portal, com os braços cruzados, a espera de alguma explicação, por pior que ela fosse, mas esta explicação não veio. Mulder passou por ela, sem dizer nada, mas Dana segurou sua mão, tentando atrair sua atenção. Seus olhos já se enchiam de lágrimas e Mulder a abraçou forte, tremendamente sentido com aquela situação. Sem larga-la, ele falou: - Scully, o segredo sobre o que estou fazendo serve como minha proteção. Eu preciso resolver este crime; eu prometi. E não vou colocar sua vida em risco por causa da minha obsessão em seguir com o caso. Eu lhe peço que confie em mim. Por favor. Ao soltar Scully, viu seus olhos mareados de lágrimas. Ele sabia que ela estava sofrendo pelo silêncio dele, mas se Mulder contasse tudo, ela sofreria muito mais. Talvez ele contasse, depois que tudo terminasse, mesmo correndo o risco de perde-la. Mulder sabia disso. Tinha ido longe demais, mas sentia- se fraco e de certa forma, revoltado com si mesmo. Scully desviou-se dele e saiu apressadamente, antes que ele a visse chorar. Alcançou seu quarto e fechou a porta. Enquanto isso, ainda triste por Dana, mas determinado, ele ligava seu laptop para descobrir mais alguma coisa que pudesse ajuda-lo nas investigações. *** Mulder já estava na sala do delegado e lhe contava o que descobrira a respeito da mulher misteriosa. - Delegado, sei que vai duvidar de mim, mas eu tenho uma teoria. – Mulder disse já esperando a impaciência dele e sabendo que não teria Scully para racionalizar, se possível, a sua teoria. - Diga, estou ansioso para resolver este caso, pois o povo gostava muito deste comerciante e as pessoas da área me cobram uma solução. - Bem, eu acho que a mulher chamada Isabella – e Mulder fez uma pausa, vendo que não sabia seu nome completo – bem, eu acho que ela atrai a morte. Todos que se aproximam dela, tem um fim trágico. - Se estiver certo, agente Mulder, nesta sua teoria, quer dizer que está correndo perigo de vida? Não, não! É absurdo demais! Como assim, atrai a morte? - Talvez ela tenha o dom de sugar energias de outras pessoas, como o fez com os pobres homens que estiveram ao seu lado... - Sugar energias?? Eu não compreendo. - Eu explico. – Mulder sorriu diante da estranheza do delegado e passou a mão na testa, tentando achar as palavras certas. - Existem pessoas que absorvem as energias de outras, as vampirizam e as repassam da mesma forma. Nunca se sentiu cansado demasiadamente ou deprimido quando permaneceu ao lado de alguém que está deprimido também, ou que está sempre triste ou mal humorado? - Mas, agente Mulder. Quer dizer... sim, eu já me senti numa situação destas, embora não tenha notado que a causa pudesse ser a outra pessoa. Mas, você não me disse que ela é uma mulher alegre e cheia de vida, de humor... tremendamente sadia? – e o delegado sorriu maliciosamente diante do que dissera. - Sim, eu disse. Mas, talvez ela faça isso acontecer propositalmente, tal qual um vampiro! Talvez, ela precise da energia de outras pessoas para continuar vivendo... - Mas, vampiros não existem, agente Mulder! O suspeito que está tentando construir é uma lenda. Nunca iriam aceitar estas explicações. - É, eu sei muito bem disso... Mas, este fenômeno foi experimentado por mim, ontem, depois que nós estivemos juntos... - Bom, ela deve ser uma super mulher, uma exceção à fragilidade feminina, mas nunca uma mulher-vampiro! Me desculpe, mas eu não compreendo... Acho que não podemos incrimina-la mas, podemos ouvi-la e outra coisa, agente, de qualquer forma, eu estou temeroso de que você esteja correndo alguma espécie de risco. Talvez tenha que retira-lo do caso. - Não! - gritou Mulder, recriminando-se por ter se exaltado, e logo acalmando-se – Eu posso continuar e ainda vou lhe provar que estou certo. - Está bem. – disse o delegado, depois de pensar sobre o problema. – Esta noite, eu mandarei um vigilante ficar na frente da loja e da residência da Sra. Isabella. Se você demorar demais lá dentro, eu serei avisado e entrarei em ação. - Está bem. Obrigado. Dana passou o dia inteiro em total agonia. Mulder não voltara ao hotel e isso a estava deixando muito preocupada. Porque ele escondia alguma coisa dela? Eles nunca tiveram segredos! "Droga, Mulder, o que você está tramando?", pensou ela, sentindo-se impotente diante da situação e reconhecendo que sentia muito ciúme de Mulder. Finalmente, decidiu fazer alguma coisa, depois de tantas horas de preocupação. Pediu a chave do quarto de Mulder, inventando um desculpa qualquer. Ao entrar, estranhou o fato de que seu micro estava ligado e aproximou-se da escrivaninha da melhor forma que podia, devido à bagunça que ainda reinava naquele lugar. Censurou o parceiro e a si mesma pelo caos. Sobre a mesa, ela pode ver algumas folhas impressas com manchetes de jornais locais. Em todas elas, falava-se de homens que teriam aparecido mortos, sem explicação. E em todos os artigos, o nome de Isabella era citado como esposa ou namorada da vítima. Dana estranhou muito isso e preocupou-se com o parceiro, embora não conseguisse ainda ligar os fatos, exatamente. Ela levantou as folhas de papel que estavam sobre a mesa e notou uma folha dobrada, debaixo do micro. Abriu-a e viu que se tratava de um texto com a letra de Mulder. E assim, ela o leu. "Scully, Eu resolvi escrever o que não consigo falar. Estou envolvido demais neste caso, mais do que você possa imaginar e acho que corro perigo, porque se estiver certo em minha teoria, eu terei o mesmo destino dos homens que passaram pela vida da mulher que você conheceu na praça e que era amante do homem achado morto. Eu espero que esteja errado... Eu poderia lhe pedir ajuda como tantas outras vezes, mas, neste caso, não posso! Talvez hoje, tudo se esclareça, de uma forma ou de outra. De qualquer maneira, eu quero lhe pedir que compreenda minha fraqueza e me perdoe. Quero lhe dizer também que eu amo você, como nunca amei mulher nenhuma, na minha vida. Você é tudo pra mim! E é verdade, Scully! Tudo! Eu não tenho como explicar o que sinto por você. Um beijo, Te quero, Mulder" Scully segurou o papel com força, apertando-o entre os dedos, depois que o leu e releu. Ela sentia, sabia que Mulder estava em perigo. E precisava ajuda-lo, vendar os olhos a qualquer tipo de coisa que ele estivesse escondendo dela e procura-lo. - Mulder, Mulder. Espero conseguir perdoa-lo... – disse Dana, para si mesma. O primeiro passo foi encontrar-se com o delegado com quem Mulder estava se comunicando e assim o fez, depois de deixar o hotel. Quando chegou a delegacia de polícia, estava ansiosa e não sabia por onde começar. Apresentou-se ao chefe de polícia. - Boa noite, senhor. Eu sou Dana Scully, parceira do agente Mulder. - Ah, sim. Como vai? Me desculpe, mas eu não sabia que ele estava acompanhado. Pelo que me contou, ele veio a passeio. - Sim, nós dois viemos passar as férias em Veneza. – disse Dana, com firmeza. - Sei... – o policial a olhava, custando a entender a situação – mas, logo, desculpando-se, ofereceu uma cadeira a Dana. – Em que posso ajuda-la? - Acho que sabe porque estou aqui. Mulder se envolveu, contra a minha vontade, neste caso, e eu achei no seu quarto, algumas manchetes de jornais locais, com datas diferentes, falando de mortes não resolvidas na cidade e associando estas mortes a tal Isabella sei lá de que. Eu tenho razões para achar que Mulder está correndo risco de vida e quero que o faça parar ou me leve até onde ele está. - Compreendo, sra. Scully, mas ele me pediu para mantê-lo no caso pois pensa que está chegando a uma conclusão. Me falou de uma teoria maluca de vampiros e sugadores de energias. O fato é que ele me pediu para somente vigia-lo até que ele consiga pegar a tal mulher. Eu vi o resultado dos exames toxicológicos da vítima e não há vestígios de drogas em seu organismo. Aparentemente, ele suicidou-se, mas porque? O agente Mulder acha que esta sra. Isabella tem uma ligação íntima com as mortes, e por isso ele quis se aproximar dela para que consigamos alguma prova. - Ouça, delegado, eu acredito que ele corra perigo de verdade. Tenho motivos para acreditar que esta mulher leve seus homens a morte, mas não sei como. Talvez ela provoque algum tipo de depressão e fraqueza que leve estes homens ao suicídio! Eu não sei explicar... – Dana falou, nervosa, entendendo que Mulder tinha descoberto a razão verdadeira dos crimes. - Mas, senhora, não pode ser. Eu apenas preciso de uma prova para prender a mulher vendedora de máscaras. O agente Mulder está me ajudando nisso. - Não podemos esperar, delegado. Entenda, nós, Mulder e eu trabalhamos juntos há muitos anos e eu entendo os menores gestos e palavras dele. Precisa me levar até lá. Ele corre perigo. Por favor. - Está bem, está bem. Eu vou ficar louco com a forma de vocês, americanos, trabalharem... *** Enquanto isso, Mulder voltara à casa de Isabella. Ela o recebera, como sempre, com muita atenção. Desta vez, trajava um conjunto preto de cetim curtíssimo e desculpara- se por ter deixado Mulder sozinho na noite anterior. Ele fingira entender e perguntara onde ela estava. - Eu estava no terraço. Precisava de um pouco de ar depois da loucura que fizemos. Não sentiu o mesmo, Mulder? – quis saber, interessada. - Se quer saber se eu gostei, a resposta é sim. Mas... - Mas... – ela acrescentou em seguida. - Acho que você tem uma força anormal para uma mulher... Gosta sempre de subjugar os homens com quem faz amor? - Não, só gosto de dominar aqueles que eu sinto que farão o mesmo comigo. - Acha que eu a subjugaria? Tenho cara de violento? - Talvez sim, talvez não, mas se levantou esta questão, quer dizer que não gostou da noite de ontem? – ela disse, dando um passo na direção de Mulder. - Não, não me interprete mal. – Mulder ficou alerta, pois Isabella continuava se aproximando dele, mas continuou provocando-a - Tem uma outra coisa que não entendo, Isabella. - E o que é? – neste momento, ela já tinha os braços sobre os ombros de Mulder, mantendo-o junto dela com uma leve pressão em suas costas e o olhar fixo no dele. - Bem, é que eu me senti muito estranho depois que fizemos amor. - Estranho, como? – a pressão sobre suas costas aumentava. - Exausto. Sem forças. Como se você as tivesse sugado de mim... – Mulder esboçou um sorriso nervoso, sentindo-se em perigo, diante de sua última observação – Isabella, temo não estar diante de uma mulher comum. Você me perturbou desde a primeira vez que eu a vi e me atrai sempre de volta a sua... - A minha o quê? – insinuou-se Isabella. - A sua... teia! – Mulder já disse estas últimas palavras, sentindo-se novamente esquisito, como se estivesse dopado e esperou alguma reação violenta dela. Mas, ao invés de reagir, Isabella voltou as costas para ele e andou pela sala, parecendo flutuar aos olhos dele. Mulder manteve-se alerta a qualquer movimento. O silêncio dela o fez concluir que estava certo em sua teoria e desejava que não estivesse. Num segundo ele a viu próximo à janela e no segundo seguinte ela havia sumido, fazendo Mulder rodar em torno de si, procurando-a e achando que não estava esperto o suficiente. Antes que seus olhos pudessem perceber, Isabella estava atrás dele, enigmática, calada, mas exalando sexualidade, encarando-o nos olhos. Por um momento, Mulder sentiu-se tonto e no instante seguinte estava em seus braços, mais amparado do que num abraço, tendo sua boca sugada pela avidez de Isabella. Quando abriu os olhos, ela tinha sumido novamente e ele teve quase certeza de ver um vulto passar rapidamente ao seu lado. A coisa estava se complicando. Mulder não gostava de perder o domínio sobre seus sentidos, mas era o que estava acontecendo. Constatou isto ao sentir suas pernas dobrarem e cair sobre um dos joelhos, fraco, mas lutando para não perder a mulher ou seja lá o que fosse, de vista. Ela surgiu novamente na sua frente, e também ajoelhada, livrou-o lentamente da camisa branca que ele usava, abrindo cada botão com leveza, para logo depois, alterada, rasga-la com violência. A mulher levantara-se rapidamente e afastara-se de Mulder, que a esta altura, já estava com metade do corpo jogado sobre o divã, sentindo as forças o abandonarem, mas atento ainda a cada gesto que ela fazia. Precisava prolongar bastante aquela situação pois sabia que o delegado estava a postos, mas ele não imaginava ver Scully entrar com ele, repentinamente. Assim que Isabella avistou o delegado e Scully dentro da sala, ela reapareceu junto de Mulder como um morcego ágil em sua cegueira. - Sai de perto dele, sua vadia. Não me obrigue a atirar. – Scully gritou, ameaçando-a. - Ele não é mais seu, garota. Esqueça. Reconheça que perdeu. - Cala essa boca. O que é você afinal? Um vampiro? Isabella sorriu com vontade, agarrando Mulder por trás, para transforma-lo num escudo ou para mostrar que era ela quem o possuía. Só Isabella sabia porque. E depois de alguns segundos, respondeu a Dana. - Eu, um vampiro? Ora, não me faça rir. Os vampiros não existem! Eu sou muito mais do que isso. Tenho poderes que me fazem ser especial, em todos os sentidos. Porque não pergunta ao seu namoradinho? Tenho certeza de que ele nunca vai esquecer nosso momento de amor. Scully empunhava a arma, irada, ferida mas sem tirar os olhos dela e do parceiro, quase inerte em seus braços. - Eu adquiri poderes incomuns, aprendi a abrir minha mente para o inexplicável. Eu aprendi a usa- la para atrair forças para mim. Sou especial e tenho consciência da minha superioridade e me sirvo dela. Sou mais bela, mais esperta, mais envolvente do que você. Pode ter certeza disso. Mas, agora, me equiparando aos vampiros da lenda, eu também preciso me alimentar, entende? Eu preciso sorver energias para continuar como sou. Por isso, uso meus homens como posso, tiro-lhes a mais ínfima molécula de energia, a minha fonte de força, e depois, - ela disse sorrindo sarcasticamente, fazendo Scully ficar alerta – eles não me servem mais. - Não me venha com essa conversa. Você não passa de uma louca. Solte-o! Afaste-se dele ou eu atirarei – disse Dana apontando a arma, mas sabendo que a mulher não mentia. Dana estava pensando como Mulder pensaria e ele tinha chegado perto demais da verdade. - Não, você não vai leva-lo de mim! Eu o possuo. Seu homem é diferente! Mulder é aberto ao inexplicável, como eu. Ele tornou a minha busca mais interessante, porque descobriu o que eu fazia. Os outros eram tolos, ele não! Scully continuava mirando em Isabella enquanto a sala era invadida por vários policiais ao comando do delegado. Vendo-se perdida, desesperada, mas não vencida, Isabella tomou uma decisão drástica e dolorosa para Mulder. - Está bem. Se ele não pode ser meu... Tão pouco será seu! - Não! – gritou Scully prevendo o pior. Isabella utilizou então toda a sua força para atirar Mulder com violência contra a parede oposta da sala, como se fosse um boneco de pano. Ele caiu inconsciente, com o rosto sangrando. Scully correu para socorre-lo, mas antes que conseguisse alcança-lo, foi atirada ao chão, ferozmente com a passagem desastrosa de Isabella em sua forma incomum e sinistra, que atravessou a janela e desapareceu pelos telhados das casas vizinhas. *** Quando Dana desejou viajar para Veneza, não podia prever que passaria alguns de seus dias de férias num hospital. Seus ferimentos, devido à queda, logo sararam, mas Mulder estava em piores condições. Ele ficara muitas horas inconsciente devido a pancada que sofrera e Dana só descansara depois de terem sido feitos todos os exames que comprovassem a integridade física dele. O perigo maior passara, mas ele ainda estava sendo submetido a um tratamento intensivo de recuperação. Apesar dos exames apontarem o contrário, Mulder ainda estava fraco física e mentalmente. Não tinha forças nem para falar. Não conseguia se alimentar direito e estava sendo acompanhado por um neurologista. Finalmente, depois de alguns dias, os médicos se convenceram a lhe dar alta. Scully o acompanhou até o hotel e o manteve sob constante atenção. Com o amanhecer do dia seguinte a sua alta, sua vontade de viver parecia surgir novamente. Mulder sempre via Scully ao seu lado, mas só naquele momento, ele a notou verdadeiramente. - Scully? Você está com um ar cansado. Por que não vai descansar um pouco? - Não, Mulder. Eu vou ficar aqui com você... Como está se sentindo? - Como se tivesse nascido de novo. – ele falou sorrindo e erguendo-se um pouco na cama, mas logo ficou sério – Eu não mereço o que está fazendo por mim... Dana não respondeu, limitando-se a olha-lo seriamente. - Eu... eu estou muito envergonhado pelo que fiz e pelo mal que te causei. - Eu sei disso. Eu o conheço, ou melhor eu achava que o conhecia até que foi atrás daquela mulher-vampiro. - Ela não é uma mulher-vampiro. Não na essência da palavra. Ela é um ser dotado de extravagâncias em todos os sentidos. Ela é mais forte do que qualquer um de nós e usa seus poderes para conseguir o que quer. Poderíamos chamá-la de "viúva- negra"; esperta, ágil e altamente maligna; mas há um ser humano por trás disso tudo. - Você ainda a defende, Mulder? – irritou-se Scully. - Não. Estou apenas tentando mostrar que ela é uma mulher infeliz que escolheu o poder para vencer. Só não entendo como ela conseguiu este poder. Talvez, ela precisasse ser estudada. - Ela desapareceu, Mulder. A sua loja de máscaras ainda funciona no mesmo lugar, mas não há nenhum sinal dela. - Scully? - O que é? - Eu não estou tentando justificar meus atos com estas explicações. É muito difícil falar neste assunto e tenho medo de lhe pedir que me perdoe, confesso. – Mulder abaixou os olhos e continuou sem olhar para Dana – Acho que eu a machuquei demais... - É verdade, Mulder. Você me magoou demais, tanto que fico confusa quando leio e releio este bilhete que achei na mesa do seu quarto. – e deu a Mulder o bilhete que ele próprio havia escrito. - Eu estava desesperado e o que escrevi aqui é a mais pura verdade... Sei como está confusa com tudo isso e não a recrimino por não acreditar, embora eu desejasse que você esquecesse o que aconteceu. - Eu acredito no que diz no bilhete, Mulder. Só não consigo acreditar no que fez comigo. É antagônico, entende? - Entendo. - Além do mais, esquecer o que fez é muito difícil! – Dana virou- se de costas para ele, tentando controlar-se diante da enxurrada de emoções conflitantes que a assolavam naquele momento – Ainda não consigo entender porque se deixou levar por um desejo tão... tão... - Tão carnal? É esta a palavra que procura? - É. E sabe o que mais, Mulder? Nós estávamos juntos, felizes, e eu não consigo ver um motivo coerente para que procurasse uma outra mulher! Ela dominou você, em todos os sentidos. - Isabella não é uma mulher comum. Eu me deixei levar, eu fui fraco, reconheço... - Estamos juntos a tão pouco tempo, Mulder! Quem me garante que isso não tornará a acontecer de novo? - Scully, isto é insegurança sua! É de você que eu gosto. Você foi a mulher que eu escolhi... O que aconteceu com Isabella não foi amor! Eu nem consigo explicar o que foi! - Insegurança, Mulder!! – Olhou-o um tanto irritada, e continuou – Olha, não importa o que tenha levado você a cair nos braços dela. Você me traiu, como se eu não existisse ou como se não ligasse a mínima para o que sinto por você! Foi traição, Mulder! Mesmo que tenha acontecido dessa forma tão estranha, foi uma traição! Eu me senti atraiçoada também pelo amigo, pelo companheiro. Você tinha que ter lutado contra o que te levou adiante. Não podia ter se envolvido com um caso que não era sua responsabilidade resolver. Se tivesse pensado antes, nada teria acontecido. É muita loucura para minha mente tão racional... - Está bem, está bem. – Mulder sentia-se tremendamente desconfortável com a conversa, seu peito se apertava de dor e ele nunca imaginara qual seria a reação de Dana; ele ficou alguns instantes calado, tentando achar um pedido de desculpas convincente para o que tinha feito, mas não encontrou – Scully, eu tenho consciência de que feri os seus sentimentos e só o que posso dizer agora a você é que eu te amo, sinceramente. Mulder não sabia como reverter aquela situação, mas ficou em pânico ao sentir que talvez ela não pudesse ser revertida. Dana o ouviu com os olhos molhados e se dirigiu a sacada da janela, permanecendo ao sol por alguns instantes, observada por Mulder da cama. A decisão era difícil para ambos, porque, apesar de implicar em fatos concretos, em traição, também envolvia sentimentos muito fortes entre eles. Dana não sabia o que fazer. Não podia perdoa-lo naquele momento, mas não queria se separar do homem que aprendera a amar. E Mulder não podia interferir na decisão dela, já que era a causa de todo o problema. Ele tinha consciência absoluta de que teria que reconquista-la. *** Mesmo abalados, eles resolveram continuar em Veneza, voltando aos passeios e as férias interrompidas. Mulder acompanhava Dana a todos os lugares, evitando falar sobre o relacionamento deles. Mas o fato era que um não podia viver longe do outro e assim, tentavam continuar as férias sem tocar no assunto. Talvez a ferida se curasse sem remédios. Ainda dormiam em quartos separados e Mulder não tentara se aproximar intimamente de Dana. Ele a respeitava e estava sendo paciente. Num destes passeios, eles encontraram o artesão com quem Mulder tinha conversado na barca. Após entreolharem-se com desconfiança, eles não puderam deixar de apreciar o trabalho dele, que era de um bom gosto extremo. Com a ajuda do filho, o homem lhes contou várias histórias interessantes que envolviam as máscaras. Disse-lhes que as máscaras tinham um significado especial para os venezianos que as utilizavam nas festas populares, como o Carnaval, por exemplo. Falou-lhes sobre festas típicas de Veneza, onde o uso das fantasias e das máscaras resultavam numa mistura de teatro e carnaval, de faz- de-conta e realidade, sempre seguindo um enredo específico. Todo este mundo era estranho aos agentes. Um mundo remanescente de uma época antiga que se recusava a abandonar a cultura do seu povo. Os dias se passavam sem que Dana pudesse perdoar Mulder, mas ela sabia o quanto sofria com este conflito interior. Numa manhã quente de sol, como tantas outras, Mulder desceu de seu quarto e indagou na recepção sobre a parceira. O recepcionista apontou para a área externa do hotel. Nesta área podiam ser vistas belas plantas floridas rodeando as mesas e cadeiras brancas de ferro, primorosamente arrumadas, Mulder a encontrou tomando seu café da manhã, tranqüilamente. - Posso te fazer companhia? – ele perguntou para a distraída Dana. - Claro, Mulder. Senta aí. Tome um café comigo. Como está? - Bem melhor! E você, Scully? Dormiu bem? - Relativamente... - O que quer dizer? – Mulder perguntou, franzindo o cenho. - Deixa pra lá... Não é nada. – Dana falou olhando nos olhos dele, longamente. - Bem, acho que já vimos a maioria dos pontos turísticos da cidade. – Mulder falou animado, tentando quebrar o clima de tristeza que se instalara entre eles – Hoje, eu gostaria de visitar as ruelas e canais de Veneza. Podemos ir de gôndola! O que acha da idéia? - Eu adoraria. – Scully ainda mantinha o ar triste – Se não se importa, eu vou me aprontar e encontro com você aqui mesmo. Dizendo isso, Dana levantou-se na direção do interior do hotel. Mas, ao passar por Mulder, foi detida por ele, que a segurou pelo pulso. Os dois se olharam, sentindo o misto de prazer e angústia que o contato lhes causava. Scully voltou-se para ele, olhando-o e esperando o que viria depois. - Tenho sentido muito a sua falta, Scully. – finalmente, Mulder falou, inseguro. - Eu também, Mulder. – ela respondeu – eu também. - Porque precisamos ficar separados, se tudo que queremos é estarmos juntos. Eu sinto isso nos seus olhos, Scully. Eu preciso de você. Quando vai me perdoar? Não acha que já fui muito castigado? – Mulder falava sem parar, impedindo qualquer resposta imediata de Dana. - Mulder! Não se trata de castigo nenhum. Acontece que eu ainda não estou preparada para te perdoar. É muito difícil para mim. Você precisa entender e aceitar. Eu aceitei continuar em Veneza, porque... simplesmente porque não conseguiria ficar longe de você. Mas, perdoar o que fez é uma decisão que exige mais tempo. Não tente acelerar as coisas. No momento, eu prefiro deixar tudo como está. Isto é, se você concordar... - É claro que eu concordo. Mas, não custa tentar... – e sorriu como um menino. Dana saiu e Mulder continuou pensativo e com o sorriso nos lábios. Tinha muita esperança de reconquista-la. Agora, mais do que nunca. A gôndola que os levava pelas ruelas de Veneza era preta com detalhes em vermelho. Ela, como todas as outras eram feitas artesanalmente, com seis tipos diferentes de madeira e era um atrativo turístico importante, além do seu sentido romântico. Não havia palavras para descrever a sensação de deslizar pelas águas silenciosas do canal. As casas muito próximas que passavam aos seus olhos tinham variados coloridos que se misturavam aos tons das roupas penduradas nos varais improvisados que iam de um lado ao outro das janelas, parecendo bandeiras tremulantes ao vento. A tranqüilidade do passeio mantinha um suave sorriso nos lábios de Dana. Mulder a olhava apaixonado, sentado em frente a ela, de costas para o gondoleiro. Ele pensava como tinha agido mal com a mulher que amava e se afligia por isso. Depois eles voltaram ao centro de Veneza e resolveram conhecer as praias da cidade. Elas eram diferentes de quaisquer praias da costa americana. Eles ficaram observando o horizonte azul e limpo que chegava a ofuscar suas vistas. - Scully, você já se deu conta que a nossa frente está outro país exótico por suas ruínas e sua mitologia, que é a Grécia? – disse Mulder lembrando-se das várias histórias que lera sobre este país. - Sim, eu sei. É outro lugar maravilhoso. Quem sabe, um dia... - É claro que sim! Quem sabe nas próximas férias? – Mulder disse animadamente. Dana olhou para ele que estava bem próximo a ela e que espontaneamente, colocara o braço em seu ombro, para direcionar o olhar de Scully para um barco pesqueiro. Mulder notou o que fazia e afastou-se rápido, mas Scully continuou olhando fixamente para seus olhos verdes e, virando-se, o abraçou fortemente. A princípio, Mulder teve medo de retribuir o gesto, mas logo a enlaçou feliz, sentindo um princípio de conciliação naquele ato. Eles ficaram assim, sem nada falar, olhando o azul profundo do céu que se juntava com a água. Muitos pensamentos passaram por suas mentes e nenhum dos dois quis quebrar o encanto daquele momento. Só à noitinha, os dois voltaram ao hotel. Jantaram e subiram para seus quartos. Scully despediu-se de Mulder antes de chegar à porta do seu quarto, tirando todas as chances dele pedir para entrar também. Nenhum dos dois conseguia dormir. Dana ficou na sacada da janela até altas horas, pensando em como sua vida tinha mudado em tão pouco tempo. Mulder assistia a tv local, sem muito interesse e seu pensamento estava em Dana. No quarto de Scully, o telefone tocou estridente, assustando-a. Ela atendeu, mas não havia ninguém do outro lado da linha. Pensou que Mulder pudesse estar querendo lhe falar e no celular, discou o número do parceiro. Quase que imediatamente, Mulder atendeu do outro lado. - Scully? – disse ele, sabendo já quem ligava. - Mulder, você ligou pra mim pela linha do hotel? - Não. Porque eu o faria? - Eu pensei que... bem, ninguém falou nada... - Deve ter sido um engano. Fez-se um silêncio de alguns segundos e Mulder voltou a falar. - Scully, eu não agüento mais ficar aqui sozinho, sabendo que você está tão perto de mim. Me deixa ficar com você? – Mulder pediu insistente. - Mulder... Não me tente... Eu já te expliquei que preciso de um tempo. Se você pode se aventurar numa loucura como fez, como não sabe esperar, se eu fui tão paciente com você. Às vezes, eu tenho vontade de te sacudir e faze-lo ajoelhar-se aos meus pés, implorando meu perdão. - Eu o faria se tivesse certeza que você me perdoaria... - Mulder... Por favor... - Scully. Isso é um tormento! Eu estou tão sozinho e você nem liga. – disse Mulder, a chantageando – Porque ainda estamos aqui, longe de casa, se não podemos ficar juntos? - Você está colhendo o que plantou. Não é fácil para mim, também! – disse Scully, tentando esconder a alegria em sua voz, por causa da sinceridade do homem do outro lado da linha – e eu... eu não quero ir embora, apesar de tudo. - Está bem. Está bem... Eu tenho que me conformar. Afinal, sou a causa de tudo... - Durma bem, Mulder. - Você também, lindinha. Scully? - Sim? - Amo você. Dana sorriu, desligou o celular e deitou-se. Precisava descansar um pouco. Um tumulto do lado de fora do hotel a despertou alarmada. Pessoas gritavam e corriam na direção da ponte próxima, olhando na direção da água. Scully vestiu uma roupa por cima da camisola e desceu para ver o que acontecia. Estava sonolenta e não entendia porque só ela se preocupava em saber do ocorrido. Onde estaria Mulder? Será que ele não ouvira nada? Mesmo assim, continuou correndo em direção a porta de saída do hotel, alcançando a rua e com dificuldade, conseguiu chegar até o local onde já se reuniam várias pessoas. Enquanto tentava aproximar-se para ver alguma coisa, irritava-se com o fato de outro incidente ter acontecido no mesmo lugar que o anterior. Quando chegou a beira do canal e olhou para a água, seu rosto empalideceu, como se todo o seu sangue a tivesse abandonado. Dentro de uma gôndola, deitado inerte, ela viu um homem bastante familiar. Mulder?! Imediatamente, olhou na direção da janela de seu quarto e o terror e a revolta tomou conta de todo o seu ser. Na sacada, em pé, altiva e poderosa, estava Isabella. Ela sorria maliciosamente para Dana e no mesmo instante desaparecera para dentro do quarto. Scully quis mover-se de volta ao hotel, mas suas pernas não obedeciam. Quis gritar, mas só gemidos arranhados saíam de sua garganta. Ao voltar-se novamente para o parceiro morto dentro da gôndola, ela viu, aterrorizada que ele havia sumido e que todos a sua volta a olhavam friamente. Novamente, Dana tentou gritar, agora mais alto e forte. - Mulder! Não!! Sentiu então alguém sacudindo-a como que querendo reanima-la. Abriu os olhos e só o que viu foi o teto de seu quarto, povoado com as sombras que a luz da lua provocava também nas paredes. Levantou-se então e aliviou-se por perceber que se tratava de um pesadelo. Quando ela tirou as mãos do rosto suado, levou um choque ao ver à sua frente, Isabella e Mulder, parados, com um longo sorriso irônico nos lábios, reais, palpáveis, para logo em seguida, desaparecerem aos olhos de Dana. Novamente ela gritou, confusa e querendo ajuda. Gritou por Mulder com todas as suas forças e já estava rouca quando alguém lhe segurou pelos braços e a abraçou com força. Ao abrir os olhos molhados de lágrimas, ela viu, agora sim, completamente desperta, o rosto ansioso do seu parceiro, que passava as mãos pelos seus olhos molhados e pelos seus cabelos, tentando afugentar o pesadelo. - Mulder... Eu tive tanto medo. Você estava naquele canal, sem vida... e aquela mulher ria na sacada do seu quarto, debochando do meu sofrimento... depois eu vi vocês dois, aqui, na minha frente... Foi tão real... - Calma, Scully. Eu estou aqui, perto de você. Ouvi seus gritos. Está tudo bem! – e Mulder a acalentava como a uma criança assustada, sentado ao seu lado na cama, abraçando-a com carinho – Foi um pesadelo. Está tudo bem! Scully custou a dormir novamente e agora foi ele que permaneceu ao seu lado o resto da noite. Ao acordar, com a luz da manhã, Scully ainda podia sentir os efeitos do medo que o pesadelo causara. Levantou um pouco a cabeça e viu seu amor sentado, todo esparramado, numa cadeira em frente à cama. Ele estava tão mais bonito, ou talvez Dana o visse assim, naquele momento, que ela não resistiu. Levantou-se, sem fazer barulho, aproximou-se dele e ficou admirando-o por alguns instantes. Depois passou seus dedos sobre os lábios dele, suavemente, sentindo imenso prazer com isso. Mulder acordou com o contato e sorriu, agarrando a mão dela, puxando-a para junto de si. Scully sentou-se sobre suas pernas e o abraçou. Sem palavras. Até que Dana perguntou: - Mulder, você acha que eu sou uma mulher envolvente? – E imediatamente sentiu-se um pouco ridícula com a pergunta. - Como é que é? Se você é o que, Scully? – ele respondeu com deboche incontido. - Ah, não vem me gozar, não. Esquece o que eu disse. - Eu não só não vou esquecer, como vou responder. Scully, eu gosto de você como você é. Não tente ser outra pessoa. Nós chegamos até aqui, aceitando nossos defeitos e qualidades. Eu não mudei de opinião. Me sinto muito mal pelo que fiz, mas, desejo ardentemente que você me dê uma chance... Dana olhou o parceiro por alguns instantes, buscando as palavras como se elas já não estivessem mais do que decoradas em sua cabeça. - Eu não consigo... - Não consegue o que, Scully? – Mulder ficou esperando ela terminar a frase. - Eu não consigo viver longe de você! – Scully falava, gesticulando - Eu tentei, mas eu não posso... Droga, Mulder. Você parece um feiticeiro! Me encantou! Eu nunca me senti assim... - Até me conhecer, lindinha... - Muito convencido, mocinho. Mulder a abraçou timidamente; então, eles se afastaram, olhos nos olhos. Estavam próximos demais. Mas, apesar do desejo que impelia Mulder a tomar Dana em seus braços, sem demora, alguma espécie de receio freava seus gestos. Eles continuaram se fitando, a respiração alterada pelo conflito de emoções. Apenas se tocavam levemente, com as mãos deslizando por baixo das roupas, passeando pelos corpos que já tremiam de cobiça um pelo outro. Mulder aproximou seu rosto do dela, resvalando suavemente seus lábios na boca entreaberta e no pescoço de Dana, atiçando-a propositalmente. Seus olhos fechados formavam em sua mente, uma imagem, o objeto de seu desejo. Aquele esperar já os estava tornando ansiosos, mas o jogo de sedução parecia uma espécie de reconhecimento; de trégua na guerra fria que eles vinham travando nos últimos dias. Era necessário. Finalmente, eles abriram os olhos, numa pausa, tentando imaginar o que viria depois, mas já conhecendo a história de trás pra frente. - No seu quarto ou no meu? – Mulder quis saber. - Não importa. – Dana respondeu, confirmando o seu perdão. Mulder levantou-se segurando Scully pelas pernas enquanto ela enlaçava seu pescoço. Um beijo apaixonado os manteve ocupados até a cama. Livrar-se das roupas foi uma tarefa lenta e minuciosa para ambos. Não tinham pressa. Carícias plenas lhes davam prazer e antecipavam o ato de amor. E o jogo continuou por toda a noite, com intensidade, com paixão, como um sonho bem real, daqueles que lembramos das cores e das mínimas palavras. Não tinha mais sentido eles viverem longe um do outro; afinal, eles se completavam perfeitamente. Se havia alguma mágoa no coração de Scully, logo, logo, seria esquecida. Afinal, ela não tinha tempo nem para pensar em tristeza. Os dois estavam tão próximos que nada os perturbava. Logo estariam voltando para Washington e para o Arquivo X. Por isso, tentavam aproveitar ao máximo o final das suas férias tão conturbadas. Dois dias antes do seu retorno, uma chuva constante os manteve dentro do hotel. Relutantes, ficaram no restaurante, conversando, sem nada para fazer. - Puxa vida! Não agüento mais este marasmo, Mulder... - Quer que eu te conte uma história, Scully? – ele perguntou, tentando fazer graça – Tem aquela da Branca de Neve que se revoltou quando descobriu que tinha que arrumar a bagunça que encontrou na casa dos sete anões... - Cala a boca, Mulder! – e, deslizando um pouco na cadeira, apoiou a cabeça no espaldar da mesma, fechando os olhos – Será que teremos que ficar no hotel, sem nada pra fazer? - Eu posso te sugerir algumas coisas bem interessantes para fazer num dia chuvoso. – Mulder respondeu, sorrindo. - O quê, por exemplo? – respondeu Dana, arriscando abrir um olho para observa-lo, mas já prevendo que boa coisa não viria daquela conversa. - Bom, várias coisas... Mas, uma delas seria nós subirmos, ficarmos mais a vontade e quem sabe, mais a vontade ainda... - Chega, Mulder. Nós vamos voltar estressados para o trabalho se continuarmos neste ritmo... – e sorriu, beijando-o com paixão. - Já sei! – gritou Mulder, afastando-se de Dana – Vamos conhecer a Ponte dos Suspiros. Foi o único lugar que não visitamos e lá estaremos a salvo da chuva. - Por quê? – ela quis saber. - Esta ponte servia de acesso do prédio em que prisioneiros eram julgados e condenados, até a prisão, do outro lado do canal. E ela é coberta em toda a sua extensão. A ponte servia como um último adeus dos condenados à bela Veneza e à vida. Daí o nome dado à mesma. Vamos, Scully! Deixa a preguiça de lado... Dana assentiu com um movimento da cabeça e levantou-se. Pouco depois, os dois saíam em direção a famosa ponte. A chuva tornava Veneza mais sombria, porém não tirava nem um pouco do seu encanto. A mistura de estilos góticos, renascentistas e bizantinos decoravam os prédios com total harmonia. Era impossível andar pela cidade sem admirar-se com toda aquela beleza e mistério. Mulder protegia Scully da chuva, mantendo-a coberta com a sua própria capa, bem junto de si. Os dois agentes não se importavam com a água que cobria metade de suas botas altas. Mas, acharam ótimo quando chegaram a Ponte dos Suspiros, vendo-se livres da chuva. O seu interior estava sombrio devido à falta de sol, mas toda a arquitetura mantida através de anos e anos, o transformava num lugar intrigante, fazendo-os até esquecerem o fato de que tantas almas atormentadas de criminosos tinham passado por lá. Ao chegarem ao local onde ficava a prisão, Mulder e Scully puderam sentir no ar rarefeito, e o odor de umidade que enchia os calabouços, com celas de espaço tão pequeno, que permitiam somente se estar em pé ou agachado dentro delas. Isso causou um certo arrepio em Scully. Mulder, curioso, seguiu pelos vários corredores que davam para as celas. Detinha-se apenas na idéia do sofrimento que deveria ter ficado impregnado nas paredes úmidas daquele ambiente sombrio. Dana ficou para trás, sem que ele tivesse notado. Mas, assim que sentiu sua falta, ele a chamou, recebendo sua resposta juntamente com os ecos que o lugar provocava. Num dado momento, Mulder quis voltar e chamou pela parceira, sem obter resposta. - Scully! Onde você está? Fale para que eu possa lhe alcançar. Scully? Ta bom, já chega de brincadeiras, ouviu? Vamos voltar... Mas Dana nada respondia, o que deixou Mulder um tanto impaciente e nervoso. Ele começou a dar voltas pelos corredores que mais pareciam um labirinto e finalmente chegou a uma área mais ampla, cercada de celas, quando sentiu seu coração gelar. Scully estava parada, com uma expressão fria no rosto. Ele andou mais um pouco na direção dela, tentando ver melhor na quase penumbra que o local se encontrava, quando constatou que havia uma mulher por trás da sua parceira. - Isabella!? - Surpreso, querido. Pensou que eu não voltaria? Pensou errado. Você não me conhece o suficiente. Devia ter ficado mais tempo ao meu lado. Eu te faria muito feliz... Fico contente que esteja bem...– ao dizer estas palavras, Isabella segurou Dana pelo pescoço e a ameaçou com uma arma pequena, apontada para o seu rosto. - Não a machuque. Por favor. Se quer a mim, deve deixa-la ir. – disse Mulder, temeroso do que pudesse suceder e tentando aproximar-se devagar. - Não, Mulder. Não deixe que aconteça tudo de novo. – Dana disse, com a voz trêmula, esperando que a mente brilhante do seu parceiro tivesse alguma grande idéia. - Não se aproxime mais, senão a sua namoradinha sofrerá as conseqüências. – ameaçou Isabella. - Deixe-a ir. Não prolongue esta situação. – Mulder argumentou, tentando dialogar e dando passos lentos na direção delas. - Não!! Enquanto ela viver, você não será meu! Eu não posso deixa- la ir, pois estaria te perdendo. Não queira me enganar. – Isabella engatilhou a arma que ela apontava ameaçadoramente para Dana. Mulder temia pela vida de Scully, pois não podia fazer nada sem que pusesse em perigo fatal a vida da sua parceira. O suor começou a escorrer das suas têmporas, enquanto Isabella se agitava na sua insanidade. Os dois agentes se olharam em agonia, sem saber o que fazer. Dana tinha o terror estampado em seu rosto e Mulder sofria ao vê-la tão indefesa, sentindo-se culpado. Lamentava o fato de nenhum dos dois estarem com suas armas. Então ele fez a única coisa que poderia salvar sua Scully. - Tudo bem, Isabella. Eu não farei mal a você e te acompanharei se poupar a vida dela. - Como vou saber se não está mentindo? - Você não tem escolha. Tem que acreditar em mim. Já me teve uma vez, não foi? - Está bem! Eu vou soltá-la. – disse Isabella ainda desconfiada, mas parecendo acreditar em Mulder. Lentamente, a mulher, olhando fixamente para Mulder, baixou a arma em sua mão e empurrou Dana para o chão com violência. O momento seguinte aconteceu tão rápido que somente olhos acostumados ao perigo poderiam perceber. A mesma mão que baixou a guarda sobre Scully, levantou novamente, mirando sua cabeça. Quando Isabella ia atirar, Mulder correu e jogou- se com todo o peso de seu corpo sobre a mulher, que com o impacto, caiu sobre as grades de uma cela, ativando sua arma contra o teto. Mulder conseguiu recuperar a arma, mas Isabella ficou inconsciente por pouco tempo. Enquanto ele se levantava para acudir Scully ainda no chão, a "viúva-negra" o surpreendeu por trás, e talvez, aturdida pela ira que comandava seus sentidos e usando sua força sobrenatural, agarrou Mulder pelo pescoço fazendo-o buscar, desesperado, o ar que lhe faltava. Ele, por sua vez, se debatia muito tentando se livrar do aperto mortal, quando um tiro ecoou dentro do lugar fechado. Os dois caíram ao chão. De pé, parado na frente deles, com uma arma na mão, estava o italiano, artesão de máscaras. Ele abaixou a pistola, com um olhar estático, tentando alcançar o sentido do que tinha feito e parecendo bastante abatido. Scully correu para acudir Mulder que estava caído, mas aliviou-se por ver que ele estava se recuperando. A influência e o abraço maléficos de Isabella enfraqueceram o agente, que levou a mão a garganta, ainda sofrendo os efeitos da força que Isabella tinha imposto a ele. Mas mesmo assim, ele conseguiu voltar-se para ela, que estava deitada ao seu lado, inerte e tinha a cabeça molhada com um fio de sangue. Então, o que ele e Scully viram, surpreendeu até mesmo suas mentes, já tão acostumadas com fatos bizarros e sobrenaturais. Enquanto Scully constatava a ausência dos batimentos cardíacos em Isabella, Mulder viu, impressionado, o rosto dela mudar de cor e os seus olhos e boca abertos tornarem-se negros como se nada houvesse no lugar deles; como se apenas a escuridão habitasse aquele corpo. Imediatamente, Mulder lembrou-se da máscara mórbida que tanto o impressionara. Os três passaram várias horas na delegacia tentando explicar o que tinha acontecido. Foram precisos vários exames da perícia e a ajuda do delegado, que acompanhava o caso, para que os dois agentes se livrassem de qualquer acusação de assassinato. Finalmente, eles foram liberados, ficando provado que os três tinham agido em legítima defesa. Porém, o homem das máscaras responderia a um processo em liberdade. Ao saírem da delegacia, o artesão e seu filho contaram a Mulder e Scully que os tinham visto ao entrarem na antiga prisão e que os vinham seguindo há alguns dias, porque sabiam que Isabella não iria desistir do seu intento. Scully sentia-se profundamente irritada e descontente com tudo que acontecera e queria voltar ao hotel, mas escutou pacientemente o homem lhes contar, através do filho, a história da máscara veneziana. - Bem, o que eu sei é o que o povo conta há muitas gerações. Talvez seja só uma lenda, mas o que aconteceu hoje na antiga prisão, dá um pouco de veracidade a lenda. - E que lenda é essa? – Mulder quis saber intrigado – Parece absurdo, mas, o que vimos no rosto sem vida de Isabella faz essa história ter alguma veracidade. - É uma história triste sobre um homem condenado a prisão perpétua por ter assassinado sua amante, por ciúmes. Esta lenda é muito antiga e conta que o tal sujeito era um artesão de máscaras como eu, e que nos seus dias de agonia na prisão, decidiu fabricar uma máscara utilizando o cobre de alguns canos velhos e pedaços de lençóis e roupas que ele encontrou por lá. Segundo a lenda, a máscara ficou muito bonita e deixou a todos admirados. Infelizmente, este homem desgostoso com a vida que levava e arrependido por ter matado a mulher que amava, suicidou-se na prisão. Bem, Isabella, a dona desta loja de máscaras era uma boa e bela mulher; eu a conhecia bem. Nós nos envolvemos e tivemos um caso às escondidas. Porém, um dia ela comprou esta máscara da qual lhe falei, de um comerciante que andou por Veneza, de passagem. Até onde eu sei, ela pagou caro por ela e nunca a expôs à venda, embora estivesse na vitrine de sua loja... - Na verdade, ela pagou muito caro, pagou com sua própria vida... – acrescentou Mulder – Mas, senhor, acha mesmo que a tal peça possa ter mudado a vida de Isabella, de alguma forma? - Ah, sim. Eu acho que mudou para pior. A posse da máscara a transformou numa outra pessoa. Aqui na área, todos a temiam, porque se dizia que ela atraía a morte a todos os homens que dela se aproximavam, inclusive a mim e a você – e afastando- se um pouco de Scully, aproximou-se de Mulder, falando-lhe quase num sussurro – Eu sei do que passou com ela. Fico contente que tudo tenha acabado bem para você... – e continuou - Eu também tive uma atração fatal por ela, um caso cheio de inquietações; fiquei muito doente e deprimido quando ela disse que não queria mais ficar comigo. Abandonei minha família para tentar uma reaproximação com Isabella, mas tudo que consegui foi quase arruinar com minha própria vida. Perdi minha esposa... Eu sinto que tudo tenha terminado assim, mas Isabella não mais atormentará homem algum. Acabou-se. Não sinto nenhuma honra em tê-la matado, mas devo confessar, que me sinto aliviado. Mulder sentiu-se constrangido com o comentário do homem sobre seu envolvimento com Isabella, na frente de Scully. Mas, ela, notou a sua mudança e segurou-lhe o braço com certa pressão, demonstrando compreensão no seu olhar quando Mulder a encarou. - Bom, senhor, nós dois já estamos quase de partida para nosso país. Eu agradeço por ter salvado nossas vidas e desejo que tudo termine bem para o senhor. Que esta máscara lendária reapareça nas mãos certas e seja finalmente destruída. – disse Scully, tentando acabar com aquela conversa. - Quer dizer que acredita na lenda que lhe contei, senhora? – perguntou o artesão. - Sim. Acredito. Já vi muitas coisas que não pude explicar. E senti os efeitos desta lenda em minha própria pele. Não gostaria de passar por tudo isso de novo. – disse Scully, fitando o parceiro e puxando-o para que saíssem dali. - Obrigado, senhor. Espero que tenha bons negócios com suas peças artesanais. – disse Mulder. - Obrigado a vocês. Que Deus os acompanhe! – e continuou – a propósito, não gostariam de levar uma máscara veneziana como lembrança? - Não!! Obrigado! – responderam os dois agentes em uníssono. O caminho até o hotel foi silencioso. Eles seguiram abraçados, felizes por estarem vivos e juntos. - Scully? - Sim? - Você acreditou mesmo na história que o italiano contou? - Eu não sei. Acho que sim, realmente. Nós dois vimos o que aconteceu lá na prisão, não vimos? - Quem diria? Dana Scully aberta a todas as possibilidades... - Neste caso, Mulder. Eu preciso acreditar! - Por que? - Porque sim. – Dana olhou demoradamente para o rosto do parceiro, tentando se fazer entender somente com o olhar, como tantas outras vezes – Eu preciso acreditar para poder lhe perdoar. - Scully? Você ainda está guardando uma mágoa aí dentro do peito, não está? - Talvez. Mas, saber que você não agiu conscientemente, já alivia a sua pena... - Quer dizer que eu fui condenado? – Mulder mostrou um riso nervoso e continuou – Ouça, eu acho que nenhuma mágoa pode ficar entre nós dois. Sabe disso, não sabe? - Eu tenho consciência disso e estou lutando para mudar este sentimento. Mas, eu ainda gostaria de saber uma coisa: como você sentiu a morte daquela mulher? - Não, Scully. Deixa isso pra lá. Não importa! - Ah, para mim, importa sim! Na verdade, Mulder, você errou comigo quando se deixou levar pelo desejo de encontra-la pela primeira vez. E não pelo ato de traição em si... Porque não lutou contra sua própria vontade? - Isabella me deixou inquieto, impressionado, como se eu já a conhecesse há muito tempo. Eu sei que é absurdo o que estou dizendo, mas foi o que senti... É difícil para explicar e eu não me sinto à vontade – Mulder permaneceu calado por alguns instantes – Mas eu amo você, Scully, e sinto muito pelo que fiz... – ele fez mais uma pausa, olhando para a parceira – Sabe, Scully, você sempre consegue me deixar na dúvida. - Eu, o que eu fiz? - Nada, e nem precisa. Na verdade, é você que soluciona os casos, conseguindo provas. Por trás de toda a minha linha de raciocínio, está a agente Scully, catando os caquinhos que deixei pra trás e preparando o terreno para o grande final. - Ora, Mulder. Eu não concordo com isso. Trabalhamos juntos, intuímos juntos. E mesmo que eu dê suporte ou não a todas as suas teorias malucas, nós progredimos juntos e chegamos juntos a uma conclusão, muito devido a sua sagacidade e percepção. Você enxerga quilômetros na frente e mesmo sendo impulsivo, persegue as pistas com determinação e acerta. Exceto em algumas raras ocasiões, como por exemplo, quando discordamos sobre os dentes daquele xerife charmoso... – Scully levou a mão à boca, mostrando os dentes e sorriu diante da fisionomia aborrecida de Mulder – Vamos lá, Mulder, apesar de tudo, somos uma parceria perfeita! - É, somos sim. Eu te adoro, agente Scully! Cada vez mais. Pode acreditar em mim. - Eu acredito, Mulder! Vamos esquecer o que passamos nesses dias, ok? – Dana esticou-se para beija-lo com carinho e acrescentou, divertida – Mas, que o xerife vampiro não era dentuço, ah, isso ele não era não... Chegaram ao hotel e arrumaram suas malas. Logo, estariam num avião de volta para os Estados Unidos e não viam a hora disso acontecer. Mulder tinha colocado em perigo a paixão de Dana por ele. Mas havia a certeza de que ela não poderia viver sem ele, porque Dana pesara sabiamente as virtudes do homem que conhecia tão bem. Porém, mesmo com tudo que ocorrera, Mulder e Scully iam sentir saudades desta cidade única; um lugar inesquecível, onde tudo recende a arte, a poesia e ao amor, anseios básicos do espírito. Porém, infelizmente, eles vivenciaram também um dos mistérios que envolvem esta cidade chamada de Rainha do Mar, os mesmos mistérios que compartilham um espaço com o homem desde que ele habita a Terra. E que continuam a intrigar tanto nossas mentes abertas em busca do conhecimento e da verdade absoluta. Mas, felizmente, parodiando tantas outras conclusões existenciais, o bem sempre vence o mal e este existe para que o homem sinta a necessidade constante de buscar sempre o bem, em toda a sua caminhada. Mas quem sou eu nesta vida tão louca Mais um palhaço no teu carnaval Casa de sombra, vida de monge Quanta cachaça na minha dor Volta pra casa, fica comigo Vem que eu te espero tremendo de amor." The End 17 de fevereiro de 2001 2