Fanfic 5 11/11/2000 Título: Timeless Autora: Athena (D.Scully) Email: dana_kathy_scully@yahoo.com Nota: Arquivo X e seus personagens pertencem a Fox Network e 1013 Productions. Sinopse: Scully não existe, mas ainda assim o amor entre ela e Mulder é algo eterno. Classificação: shipper (é claro...). Spoilers: Sem spoilers. Observações: Acho que não preciso dizer que Scully não faz parte dos Arquivos X. Mas Mulder faz. Nota: Quero agradecer à minha amiga Vera Nathália pela ajuda sobre os meandros da História e pelos palpites, sem os quais esta fanfic não seria completa. Timeless Região da Prússia, 1221 d.C. A Ordem dos Templários era uma instituição religiosa da Idade Média. Tendo sua origem na França, em meados do século XII, ela era inicialmente subordinada aos dirigentes da Igreja Católica e fora criada com o intuito de proteger os peregrinos cristãos que se dirigiam para Jerusalém. As únicas pessoas aptas a fazerem parte desta instituição eram os nobres. A partir do momento em que eles entravam para a Ordem, eles passavam a viver como monges, e seguiam todas as regras impostas pela Santa Igreja a um servo de Deus. Sua hierarquia também era semelhante ao clero, sendo que todos os ordenados seguiam os mandamentos do Grão – Mestre. Eles rezavam, jejuavam e construíam igrejas belíssimas, de formato circular, que até hoje são contempladas por milhões de pessoas, em várias cidades da Europa. Mas havia uma pequena parte desta Ordem – a parte dos Cavaleiros – que iam às guerras e eram conhecidos por serem guerreiros destemidos e infalíveis. Tais qualidades foram a razão da fama que eles obtiveram por todo o continente. Eles tinham em suas mãos o poder da guerra e da oração. Mas com o tempo e as cruzadas, esta instituição cresceu e ganhou poder, se alastrando por todos os cantos da Europa. O clero o concedia autonomia suficiente para os rumores e lendas se alastrarem como pólvora. Uma dessas lendas dizia que os Cavaleiros Templários tinham encontrado, numa destas cruzadas, o Santo Graal, o cálice que recolheu o sangue de Cristo quando Ele foi flechado, em sua agonia final. Boato ou não, o certo era que eles conseguiram fama e autonomia suficiente para não se submeterem mais às ordens do clero católico. Esta história é sobre um cavaleiro templário. Eu. Meu nome é Franz Meyer. Nasci na região da Prússia, numa família nobre. Meus pais esperavam que eu me casasse com alguma donzela, igualmente nobre, mas eu preferi abdicar dos prazeres terrenos para me juntar à Ordem. Os motivos que me levaram a tomar tal decisão, eu não lembro, nem eles não são relevantes agora. O que importa são as conseqüências deste ato. Elas me perseguem pela eternidade... O grão – mestre da instituição era um homem justo, chamado Walter Schlumberger. Eu fazia parte dos cavaleiros e ele estava planejando uma cruzada até Jerusalém, para perseguirmos os não – cristãos. Eu ansiava por isso. Era a primeira vez que eu participaria de tal jornada. Eu estava montado em meu cavalo, perto dos portões da fortaleza em que vivíamos, esperando meus companheiros. Vi Anton Kieckhefer se aproximar. Também era sua primeira cruzada. Não gostava dele. Adulava os superiores para conseguir o que queria. Mas era meu companheiro de viagem e nós tínhamos que manter a paz entre nós. Vi que atrás dele vinha o grão – mestre e o restante dos cavaleiros. Estava tudo pronto. Meu coração jovem se comprazia diante de tal espetáculo... e por tudo que estava por vir. Washington D.C. – Dias atuais Eu sou o Agente Especial Fox Mulder e sou essencialmente um homem solitário. Inteligente e fechado, eu vivo em função do meu trabalho, na Unidade dos Arquivos X, no FBI. Tanta preocupação não se deve à busca incessante de promoções e reconhecimento, mas sim por causa de minha irmã, Samantha Mulder, que havia desaparecido quando eu tinha 12 anos. Desde então, minha vida se resume na minha busca. Tanto que eu não tenho uma vida social. E não sou capaz de amar. Ou pelo menos, nunca encontrei uma mulher que despertasse em mim tal sentimento. A Unidade dos Arquivos X é mal compreendida pelos meus colegas e superiores. Isso porque ela é responsável pelos casos não resolvidos do Bureau. Geralmente envolve fenômenos paranormais, ocultismo, feitiçaria, vampirismo e parapsicologia. Acho que nem eu me interessaria por tais assuntos, se eu não tivesse a convicção de que minha irmã foi levada por alienígenas e que há uma conspiração governamental para encobrir a existência destes seres. Hoje eu acordei assustado. Os sonhos estranhos estavam se tornando comuns. Neles, eu me via em épocas distantes, à procura de algo que nunca era encontrado. E havia uma imagem, que sempre era ofuscada. Parecia um quadro impressionista. Decidi que já estava na hora de procurar uma ajuda profissional. Mas no fundo, sabia que eu nunca faria isso. Não tinha tempo. Mas eu não podia pensar nisso. Não agora. Estava atrasado para o trabalho. Levantei-me e fui me preparar para mais um dia cansativo de minha pobre existência. Ao chegar no FBI, eu fui para a sala de meu chefe, o diretor – assistente Walter Skinner. Ele tinha um assunto urgente para tratar comigo. "Mulder, que bom que está aqui. Precisamos de você num caso". "Qual?". "Um colecionador de artes foi assassinado ontem à noite, no Museu de Arte de Washington. O nome dele era Samuel Brown. O museu já estava fechado, mas ele sempre entra lá quando quer, afinal, é um grande admirador de artes e conhece pessoas influentes, até mesmo o diretor geral do museu. Sempre foi uma pessoa calma e pacífica. Ninguém consegue explicar as circunstâncias de sua morte". "Um caso de assassinato? O que isso tem a ver com os Arquivos X?". "Aparentemente nada, mas ninguém sabe como o assassino entrou e saiu do prédio. As câmeras de segurança não registraram nada. Seria bom você acompanhar o caso". Sai da sala de Skinner e fui para o museu, que ficava a poucas quadras do prédio do FBI. Quase sempre passava por lá, mas nunca entrava. Estava sempre apressado para resolver algum caso. Mas isso não diminuía o meu interesse por obras de arte. Na verdade, eu me interessava por qualquer coisa, principalmente se era inexplicável. Espanha, 1499 d.C. Meu nome é Fernão Castela e Muñoz. Eu fazia parte da nobreza espanhola e era primo da rainha Isabel de Castela. Tinha 31 anos quando tudo aconteceu. A história que estou para contar não é muito antiga, ainda assim, parece que foi há uma eternidade. Agora que tudo passou, apenas sinto o alívio de ter cumprido uma parte da minha existência e a esperança de poder prosseguir... para encontrá-la. As pessoas ao meu redor me admiravam e me temiam por minhas características: corajoso, impiedoso com os inimigos de minha pátria e, acima de tudo, fiel a Deus e à religião Católica. Morava em uma província ao norte do país, chamada Huesca, onde muitas vidas eram submetidas às minhas ordens. Desde que meus pais morreram, eu era responsável por Huesca, que fica próximo à fronteira com a França e, por isso mesmo, terra de muitas lutas. O povo basco morava por perto e era um risco à integridade do meu país. Minha prima ficava mais tranqüila sabendo que eu estava fazendo o possível para manter a paz por lá. Ela já tinha muitos problemas no Novo Mundo. Meus pais. Muitas coisas deles haviam em mim. Meus olhos verde – acinzentados, eu herdei de minha mãe; meu rosto, com as feições e traços bem delimitados, lembrava meu pai; mas havia algo que nunca mudava: o olhar, de revolta e ira desde que eu perdi minha amada, refletia a alma que vive em eterno conflito e desespero, presa dentro desta essência. Mas nada disso eu sabia naquela época. Apenas que era um nobre, belo, amado e temido e que tinha que lutar até a morte pela minha pátria, minha única paixão. Nunca me casei e nunca pretendi. Só agora eu entendo porque. Minha prima Isabel insistia em me prender a princesas que eu não conhecia e nem falavam a minha língua. Tudo para estreitar os laços diplomáticos da Espanha com outros países. Mas eu era um homem solitário, por opção. Preferia servir à minha pátria de outra forma. Na religião, por exemplo. Era católico e tinha resolvido construir uma igreja na minha província. Uma igreja magnífica, à altura da Santa Igreja Católica. Bela em seus detalhes. Não poupei dinheiro para isso. E depois que ela estava terminada, percebi que falta uma coisa: beleza interior. A arquitetura já não era suficiente. Resolvi contratar um pintor para desenhar algo no teto da igreja. Ouvi dizer que havia um pintor na cidade de Toledo que era muito bom. Quis ir pessoalmente até lá. Assim, ele veria o quanto precisava de sua ajuda. Não é sempre que um nobre sai do norte do país e vai até a região central só para buscar um pintor. Mas algo me dizia que eu iria encontrar algo mais nesta cidade. E realmente encontrei. Lembro-me de ter parado em frente a uma igreja da Ordem dos Templários, quando cheguei em Toledo. Ela era de uma beleza estonteante. Entrei para ver seu interior, acreditando que aquilo se devia à minha imensa curiosidade... e inveja. Eu queria que a minha humilde igreja fosse tão bonita quanto aquela. Parei na porta e observei. Ela era toda circular. Havia vitrais dos lados e, no fundo, um altar em pedra. Olhei para o chão e vi os túmulos dos cavaleiros. Queria ficar mais um pouco, mas de repente um desespero tomou conta de mim. Não sabia explicar o que era. Um misto de tristeza, e revolta me invadiu. Tive que me controlar, pois meus instintos me diziam para depredar aquela igreja. Sentia ódio pelos Templários. Saí correndo e fui procurar o pintor. Quando eu o encontrei, percebi que ele era uma pessoa humilde em seus hábitos e princípios. O pobre homem ficou maravilhado por tão honroso convite. Quis, em troca por eu tê-lo escolhido, presentear-me com um quadro. Era uma pintura antiga, de moldura simples, que retratava uma jovem de rosto delicado. Ela estava séria no quadro, trajava roupas humildes. Provavelmente era o retrato de uma camponesa. Poderia ser a filha do pintor. Mas logo vi que não era: a jovem tinha cabelos vermelhos como o fogo e traços caucasianos. Tal criatura não poderia pertencer à latina Espanha. Eu fiquei maravilhado com o olhar de esperança e amor que a jovem tinha. Fiquei hipnotizado por ela, que tinha algo familiar no rosto. Retornamos - eu, o quadro e o pintor – para Huesca. Ao chegar em casa, coloquei o quadro no corredor ao lado da porta do meu quarto, para encher de sorte e alegria todas as manhãs que eu acordasse e o visse. Percebi que a jovem sorria. Era estranho, pois na primeira vez que tinha visto o quadro, ela estava séria. Mas o sorriso era confortante e fazia com que o quadro ficasse mais belo. Não dei muita atenção a este fato. Algumas semanas se passaram e cada vez que eu olhava para o quadro, me apaixonava mais. Comecei a perceber que a imagem se mexia, todo dia estava numa posição diferente. Era como se ela falasse comigo. E o mais estranho: eu, de alguma forma, sabia o que ela falava. Mas decidi guardar essa informação para mim, para não ser chamado de louco. A nobreza espanhola não iria tolerar um nobre insano. Nem que fosse por amor. Mas eu não tive muito tempo para aproveitar essa loucura. Os reis da Espanha, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, me convocaram para uma missão especial: ir ao Novo Mundo representando a Espanha. Eles precisavam de um nobre corajoso e solteiro, que tivesse disposição para morar em outro continente. Eu era a escolha certa. A recém – descoberta América me esperava. Aceitei o convite, pois pensava que ficaria apenas alguns meses longe de meu quadro. Infelizmente, o destino decidiu que eu nunca retornaria à minha querida pátria. Ao desembarcar na América, deslumbrado com as belezas naturais da terra, eu, Fernão Castela de Muñoz, me perdi de meus compatriotas e acabei sendo morto por um índio de uma tribo canibal. Mas, como eu disse no início, agora que tudo passou, apenas sinto o alívio de ter cumprido uma parte da minha existência e a esperança de poder prosseguir... para encontrá-la. Essa é a minha meta... o meu destino. Região da Turquia, 1221 d.C. A nossa jornada estava indo bem. Há muitos meses partimos de nossa terra natal e em todas as aldeias de mouros e judeus que passávamos, era a mesma carnificina. Matávamos em nome de Deus. Agora percebo que esse era o nosso grande erro. Matar. Pois Deus disse: "Não matarás". Acho que agora eu estou pagando por esses pecados. Antes eu me achava santo. Agora, sei que, de certa forma, mereci o castigo que me impuseram. Estávamos atravessando a Turquia quando encontramos uma aldeia de judeus. As ordens eram claras: matar todos. A tragédia começou. Casas que abrigavam famílias foram queimadas, crianças aos berros viam seus pais serem mortos para depois terem o mesmo fim. O meu coração batia rápido, certo de que o que eu estava fazendo era correto. Vi umas pessoas fugindo pela mata. Deviam ser quatro. Meu companheiro de lutas, Anton Kieckhefer, também viu. Saltamos dos cavalos e corremos na direção deles. Quando chegamos, encontramos as quatro pessoas, dois homens e duas mulheres. Agora eu sei que eram irmãos, mas naquela hora, pensei que fossem dois casais. Os homens brigaram conosco, mas foi uma briga injusta, afinal, nós tínhamos armas e eles não. As duas jovens ficaram abraçadas, chorando. Pareciam dois bichinhos assustados. Tive pena. Anton puxou uma delas e a estuprou. A outra avançou contra ele, mas eu a segurei. Ela se debatia, como se estivesse querendo fugir do próprio diabo. Mas eu não queria fazer mal a ela. Não mais do que eu já tinha feito. Olhei para ela, coloquei minhas mãos em volta de seu rosto, e disse para não ter medo. Ela não teria o mesmo fim de sua irmã. Anton a matou depois de satisfazer seus desejos e depois virou-se para mim, com uma expressão maligna no olhar. "O que tu estás esperando?", perguntou ele. Não respondi. Apenas segurava forte o braço da pobre mulher. Ela chorava em silêncio, com os olhos fixos no corpo da irmã. Mais cavaleiros chegaram. Eu sabia que eles não fariam nada com ela, que era minha prisioneira. Cabia a mim fazer o que fosse. Eles olhavam para mim, inquisidores. Falsos. Covardes. "Então, se não queres matá-la, dê-me e eu o farei", disse Anton. "Só se for por cima do meu cadáver", respondi. Era mais um pensamento do que uma afirmação. Mas Anton ouviu. "Então, que seja. Voltemos para a aldeia". Caminhamos todos para a aldeia. Deixei a jovem presa junto ao meu cavalo, de forma que, se alguma coisa me acontecesse, ela poderia fugir. Começou a luta. Eu e Anton brigamos com nossas armas, numa luta que parecia não ter fim. Éramos igualmente fortes e corajosos. Sabíamos que um sairia morto. Até que Walter Schlumberger, o grão – mestre, chegou. Ele ordenou que a briga terminasse. Obedecemos. "Sr. Meyer, o que está havendo?", perguntou ele. Mas foi Anton quem respondeu. "Senhor, este homem prefere lutar com um colega a matar aquela pagã". O grão – mestre olhou para a mulher. Ela estava de cabeça baixa, os cabelos caídos para frente. Respirava rapidamente. Estava presa ao meu cavalo branco. E estava com medo. "Senhor, eu não acho que ela deva morrer. Não é nosso direito tirar a vida de nossos semelhantes...". "Mas ela é uma pagã. Não é nossa semelhante", interrompeu Anton. "Não seria mais fácil nós aumentarmos o rebanho do Senhor, convertendo os pagãos, do que matá-los?". "Se fizéssemos isso, estaríamos camuflando lobos com pele de cordeiros. A nossa missão é exterminá-los, e não convertê- los". "Chega!", gritou o grão – mestre. "Estou farto desta discussão. Sr. Meyer, darei a ti duas opções: para continuar na Ordem, terás que matá-la". Eu não sabia o que responder. Não queria matá-la. Minha vida estava em jogo. Minha resposta foi o silêncio. Não mexi um músculo sequer. "Muito bem", disse o grão – mestre. "Acho que já fizeste a tua escolha, cavaleiro. Podes retornar daqui. Não és mais um Cavaleiro Templário. Tu envergonhaste a Ordem. Vá embora!". "Mas, senhor, não seria melhor se o matássemos?", perguntou Anton. "Não, irmão. Como ele mesmo disse: nossa missão não é matar cristãos". Todos montaram em seus cavalos e partiram. Eu caminhei até a jovem e parei em frente a ela. Ela era linda! Tinha a pele alva e os olhos azuis como o céu. Eles contrastavam com os cabelos ruivos. Ela chorava. Desamarrei a corda que a mantinha presa e deixei que ela fosse embora. Mas ela não foi. Ela permaneceu parada na minha frente. Não sabia se ela falava minha língua. Ela montou no meu cavalo e fez um sinal para eu subir. Só então entendi que ela iria para onde eu fosse. Ela devia se considerar minha escrava. Ou então, via em mim seu salvador. Montei no cavalo e voltamos para a Prússia. Washington D.C. – dias atuais Eu parei o carro e saltei. A frente do museu estava cheia de policiais, repórteres e curiosos. Abri caminho por entre a multidão e entrei no prédio. Caminhei até o delegado, que estava em pé com um copo branco na mão, e pelo cheiro parecia que estava bebendo café. Ele estava conversando com uma pessoa aparentemente bem distinta, que tinha cabelos grisalhos e trajava um terno azul escuro. "Delegado, eu sou o Agente Especial Fox Mulder, do FBI. Vim ajudar na investigação do caso". "Que bom. Agora temos um federal nos ajudando!", respondeu o delegado, a voz cheia de sarcasmo. "Delegado, qualquer ajuda é bem vinda agora. Não quero ver o nome do meu museu sujo com um assassinato", disse o homem de cabelos grisalhos. Ele virou-se para mim e continuou falando. "Agente Mulder, muito prazer. Meu nome é Stephen Elliot, e eu sou o responsável pelo museu". Nós nos cumprimentamos. "Muito prazer, Sr. Elliot. Poderia me mostrar aonde aconteceu o crime?". "Claro. Vamos lá comigo". Andamos até um corredor branco, muito largo, que abrigava várias pinturas. Dois policiais estavam no local, guardando uma área isolada por uma corda amarela da polícia, que indicava que aquele era um local de crime. Eu me abaixei para ver direito o chão ensangüentado e o corpo, que estava encoberto. Tinha pegadas de pés descalços no sangue, que haviam se solidificado. Parecia de um homem. "Essas pegadas deram alguma pista?", perguntei ao policial. "Elas são da vítima", disse um deles. Só então foi que eu vi os sapatos, encostados na parede. Olhei para cima e vi um quadro que retratava uma mulher, pintada até o busto. Ela estava séria e parecia olhar diretamente para os meus olhos. Isso me fez sentir um arrepio. A mulher parecia estar viva. Levantei e continuei olhando, como se estivesse hipnotizado. "Bonito esse quadro, não?", perguntou o Sr. Elliot, ao perceber o meu interesse. "É. Realmente, é lindo". "Não sei o que há nele que todos os homens ficam hipnotizados". Olhei para baixo e percebi que havia algo próximo à parede. Estava ensangüentado. Aproximei-me e, com uma luva, peguei. Era uma zarabatana. "Isso faz parte do acervo do museu?", perguntei. "Não", disse ele, depois de inspecionar a peça. "Mas eu sei de uma loja de antigüidades que vende esse tipo de objeto. Olhei detalhadamente para a zarabatana e vi que tinha algo inscrito nela. "Você sabe me dizer o endereço dessa loja?", perguntei. "Sei. Fica aqui perto". Eu coloquei a zarabatana dentro de um saco plástico, pois muito provavelmente, ela era a arma do crime. "Sr. Elliot, eu quero te pedir uma coisa", disse, depois de me certificar que os policiais não estavam ouvindo. "O que é?". "Diga ao delegado que essa peça é do museu". "Porque?". "Depois eu explico". Ele fez o que eu pedi. França, 1807 d.C. Minha existência nunca foi pacífica. Só agora percebo que eu sempre estive envolvido em guerras, batalhas, brigas... tudo por causa de um amor perdido. Vivi excluído, recluso em um mundo que não era meu, à espera de uma luz que iluminasse a minha vida. Meu nome é François de Montdesir. Eu era general do exército de Napoleão Bonaparte. Minha missão era cumprir as ordens do Imperador da França, meu país. Por essa causa, eu fazia qualquer coisa. Tinha 45 anos e nunca casei. Não quis ter descendentes, para que eles não herdassem as conseqüências dos meus atos. E eu também nunca encontrei alguém que me aprisionasse na pior das masmorras: a do coração. Sempre fui uma pessoa rude, rústica, nascida para a guerra. E foi por isso, pela minha coragem e bravura, que eu cheguei ao posto de general. Essa história começa no dia em que eu e minha tropa fomos para a Espanha. Soubemos que havia uma revolta dos burgueses da região de Huesca, ao norte do país, perto da fronteira com a França. Isso não seria preocupação para o Imperador, caso a Espanha não estivesse sob o domínio dele. Os burgueses, que um dia ficaram do nosso lado, agora lutavam contra nós. Não aceitavam a dominação da França. Eu não me importava com o que eles pensavam, contanto que os interesses da França fossem preservados. Ao chegarmos na Espanha, havia um grupo de camponeses e burgueses nos esperando. Lutamos incessantemente. Se era guerra que eles queriam, guerra eles teriam. Eu e minha tropa fizemos tudo o que podíamos para vencer. E vencemos. Mas antes de irmos embora, nós saqueamos as casas dos perdedores. Principalmente dos burgueses, que eram os mais ricos da região. O comércio prosperava, e eles, novos ricos, guardavam preciosidades em suas casas. E eu achei uma delas. Um quadro que estava na casa de um comerciante. Ele insistiu para que eu não o levasse, mas ao vê-lo, tive a convicção de que ele tinha que ser meu. Era o quadro de uma mulher. Uma jovem, de cabelos ruivos. Ela olhava diretamente para mim. Por um momento, desejei que ela realmente existisse. Mas a razão falou mais alto e eu parti, carregando o quadro. Com certeza o Imperador querê-lo-ia para si. Seria um ótimo presente e uma excelente demonstração da minha lealdade para com ele. Partimos da Espanha três meses depois que havíamos chegado. Os espanhóis se renderam e não havia mais nada para fazermos lá. Ao passarmos por uma região ao sudoeste da França, paramos em uma vila que havia se rebelado contra o Imperador. Era nossa tarefa acabar com a rebelião. E foi isso que nós fizemos. Mas eu não esperava que os rebeldes roubassem o quadro. Fiquei furioso e fui atrás dos ladrões, irado por tamanha ousadia. Invadi todas as casas da vila e encontrei o quadro numa delas, num local afastado da cidade. Haviam dez rebeldes lá, todos eles procurados pelo exército do Imperador. Lutamos com eles e a tropa foi bem sucedida. No final, todos os rebeldes foram presos e levados para Paris. O quadro também foi. Agora, ele representava a coragem de um homem. Um que havia morrido para que ele chegasse às mãos do Imperador. A tropa seguiu para Paris depois de enterrar seu general, François de Montdesir, morto numa briga com os rebeldes franceses. Região da Prússia, 1229 d.C. A minha vida melhorou muito depois que eu fui expulso da Ordem dos Templários. É claro que no início eu estranhei, afinal, há muito tempo eu tinha escolhido a reclusão de um monastério para viver e não estava acostumado com tanta liberdade. Nem com tanto amor. Dinah – descobri que o nome dela era Dinah Steinbruck – era uma pessoa perfeita. Com o tempo, conseguimos nos comunicar, ela aprendeu a minha língua e eu aprendi a dela. Ela era uma ótima dona de casa e nós conseguimos um lugar para viver, longe do mundo que conhecíamos. Na vila onde moramos, ninguém sabia do nosso passado. Abdicamos de nossas crenças, nossas convicções religiosas para vivermos um para o outro. Eu trabalhava na lavoura e ela cuidava da nossa casa. Vivemos felizes por um longo tempo. Oito anos. Tivemos um filho, a quem demos o meu nome. Mas ele morreu quando ainda era um bebê e Dinah não conseguiu mais ter filhos. Mas isso não impedia a nossa felicidade. Um dia, no ano de 1229 d.C., uma velha senhora apareceu na vila. Ela não tinha onde ficar e parecia muito mal. Nós resolvemos hospedá-la na nossa casa. Aprendemos muito com nossos erros. É uma pena que às vezes não vivemos para consertá-los... A senhora era muito bondosa. Ficou conosco por uns seis meses. Ela realmente estava doente, mas curou-se graças aos cuidados de Dinah. Ela a tratava como se fosse sua mãe. Mas chegou o dia desta senhora partir. Ela pertencia a um lugar e tinha que voltar para lá. Alguns dias antes de sua viagem, ela quis retribuir a nossa hospitalidade e ajuda. Ela não tinha muitas posses, mas assim mesmo arranjou uma forma de nos homenagear. Ela me deu uma zarabatana, trabalhada pelas mãos de um escultor que ela dizia ter sido seu filho. E também se ofereceu para pintar um quadro com o rosto de Dinah. Washington D.C. – dias atuais Dias depois, a polícia concluiu que o assassinato, na verdade, tinha sido suicídio. E a minha ajuda foi quase inútil. Mas não para mim. Como Stephen Elliot tinha dito à polícia que a zarabatana era do museu, a polícia devolveu depois de encerrar o caso. Ele me ligou e perguntou o que deveria fazer com ela. Disse que ia ao museu, me encontrar com ele. Ao chegar, ele estava me esperando. "Sr. Mulder, eu até agora não entendo porque o senhor me pediu para mentir para a polícia", disse ele, me entregando a zarabatana. "É que eu fiquei muito curioso com ela", respondi, pegando o objeto das mãos dele. "Diga-me, Sr. Elliot, o senhor conseguiria dizer de que século é isso?". "Não, mas neste tempo em que ela passou aqui, eu analisei e percebi uma coisa muito... estranha". "O que foi?". "Lembra daquele quadro perto do qual foi encontrado o corpo do Sr. Brown?". "Lembro. O que tem ele?". "Bom, ele tem uma inscrição atrás, em alguma língua morta de seu local de origem, a Prússia". "E o que é que tem isso?". "Bom, a mesma inscrição está nesta zarabatana". Ele virou a peça e me mostrou. Havia uma escrita ilegível, numa língua morta. "Você conhece alguém que poderia traduzir isso?". "É claro que sim. Eu trabalho com o passado, conheço várias pessoas que adorariam analisar esse objeto. Chamei uma delas quando soube que você estava por vir. Ele deve estar chegando". Ficamos um tempo esperando o tradutor. Enquanto isso, eu voltei ao local onde estava o quadro. Sr. Elliot voltou para seu escritório, pois tinha trabalho a fazer. Fiquei a contemplar o quadro. Este era lindo. É claro que se compararmos às obras dos grandes pintores, ele não deveria valer muita coisa. Seu valor era mais pelo tempo do que pela beleza ou fama. Um guia do museu me explicou que o pintor era desconhecido, mas que ele foi trazido à América pelos monges beneditinos, durante a Segunda Guerra. Ninguém conseguia explicar como um quadro com tão pouco valor material tinha conseguido resistir a tantos séculos. Nunca tinha sido restaurado e ainda assim, estava intacto. O guia voltou para o seu trabalho e eu permanecei ali, em frente ao quadro. Quando eu voltei meus olhos para ele, a pintura estava sorrindo para mim. Estranhei. Podia jurar que ela estava séria, momentos antes. Resolvi olhar as outras obras. Mas não consegui passar muito tempo longe do quadro, algo me chamava para perto dele. Voltei. Ela estava séria, olhando para a direção de onde eu tinha partido. Fiquei muito intrigado. Resolvi não sair de lá até ver se ela mexia. Mas nada aconteceu. O tradutor chegou e o Sr. Elliot nos apresentou. "Sr. Mulder, este aqui é Thomas William. Ele é historiador e arqueólogo". Nós nos cumprimentamos. "Assim que Elliot me disse do que se tratava, vim o mais rápido que pude. Desculpe-me se demorei". "Não tem nada não. Eu queria que o senhor analisasse esta zarabatana. E o quadro". Stephen Elliot pediu aos seus empregados que tirassem o quadro da exposição e colocasse na sala dele, para onde todos nós fomos. Lá, nós teríamos mais privacidade. Depois de muito analisar os objetos, Sr. William me disse o seguinte: "Com certeza os dois são contemporâneos e vêm da mesma região. A zarabatana foi muito bem trabalhada, mas não consigo imaginar quem possa ter sido o escultor. Ela tem uma frase estranha inscrita nela. Está em latim. Fala alguma coisa sobre amor, mas não está muito claro o seu significado. E a mesma inscrição está atrás do quadro". "Qual é a região de onde eles vêm?". "Algum lugar na Áustria". Eu peguei a zarabatana e a examinei. Quando olhei para as palavras da frase, vi meu nome inscrito. Assustei-me e deixei o objeto cair. Peguei ela do chão e tornei a olhar. Já não vi mais o meu nome. Deve ter sido alguma alucinação minha. Mas aquilo me deixou muito intrigado. Despedi-me dos senhores, agradeci pela ajuda e voltei para o FBI. Tinha um assunto importante para tratar com o Skinner. Há muito tempo que eu precisava tirar férias e achei que aquele momento seria o melhor. Itália, 1941 d.C. Uma guerra nunca é justa. Apenas um meio de perdermos gente, dinheiro e tempo. Eu não fui chamado para lutar graças à minha condição de monge. Nós não lutamos, nós rezamos. Mas até isso estava difícil, com tantos bombardeios próximos ao monastério. Meu nome é Federico Messina. Eu sou um monge beneditino. Nasci e morei a vida toda na Itália. Sempre quis seguir a vida religiosa e, apesar de ter apenas 31 anos quando esta história aconteceu, eu já estava há muito tempo no monastério. 15 anos. Minha função era cuidar do acervo de livros e obras de arte. São objetos milenares, que contam a história da humanidade. Minha preocupação era que algum bombardeio destruísse séculos de história. Por isso, resolvi mandar as peças mais valiosas para meus irmãos beneditinos da América. Eles cuidariam dela melhor e lá elas estariam salvas. Tinha que agir rápido e ser discreto. Aproveitava a noite para enrolar todos os quadros que iriam partir na semana seguinte. Quando todos os outros monges se recolhiam, eu pegava minha lamparina e descia até a sala de quadros com ela apagada, para não chamar atenção. Só quando chegava é que eu a acendia. Comecei pelos mais valiosos. Se dependesse da minha vontade, todos iriam, mas não haveria espaço no navio para tanta coisa. Eu tinha que escolher. Olhei para todos os quadros como se fosse a última vez que eu os veria. E então eu vi uma coisa. Um quadro. Nunca o tinha visto antes, mas devia estar lá há muito tempo. Estava atrás dos outros. Ele era um retrato de uma mulher ruiva. Ela era linda! Peguei a lamparina e a levantei, para vê-la melhor. Ela estava rindo e parecia olhar diretamente para mim. Sorri de volta. Desejei que ela existisse. E que fosse minha. Mas o meu sorriso se foi quando lembrei que era um servo de Deus e que tinha abdicado da minha vida para viver em função dele. Peguei a lamparina, a apaguei e subi para o meu quarto. Meu corpo e meus pensamentos não podiam cair em tentação. No dia seguinte, resolvi que aquele quadro tinha que ir embora. Eu não podia ficar perto dele. Sempre que lembrava daquelas feições de anjo gravadas na moldura, meu corpo tremia e eu me flagelava por ter tido tais pensamentos. Desci à sala de quadros e embrulhei aquele que estava sendo o motivo do meu pecado. Os quadros embarcaram para os Estados Unidos na semana seguinte. Eu sentia saudades daquela pintura, mas sabia que ela estaria melhor longe da Itália. E eu estava certo. Três dias depois das obras de arte terem sido despachadas, o monastério onde eu vivia foi bombardeado por um avião inglês e tudo foi destruído. Tudo acabou. A última coisa que eu me lembro antes de morrer era de ter lamentado por não ter conseguido encontrar aquele anjo.... se é que ele existia. Washington D.C. – dias atuais A viagem para a Áustria era longa. Eu pedi férias a Skinner e viajei. A parte do avião até que foi boa, mas eu tive que ir de ônibus até a região onde eu queria chegar. O Sr. William tinha me dito que a zarabatana deveria ser daquele local, e eu fui investigar. Cheguei a uma pequena vila. Não havia hotel, apenas uma pensão. As casas eram todas parecidas e o povo vivia da suas superstições. Havia uma lenda no local sobre um acontecimento dos tempos medievais. Mas eu não sabia disso. Apenas procurei a pensão que me indicaram e me instalei. A casa era grande, talvez a maior do local. A família era fechada, mas eu conseguia o que queria. Era composta por um casal, três filhos quase adultos – dois homens e uma mulher – e um idoso, que era o avô deles. Ele era um homem muito sábio e simpático. No dia seguinte, fui procurar uma família de artesãos que viviam na aldeia. Levei a zarabatana. Queria que eles me dissessem se já tinham visto algo igual nas redondezas. Para a minha surpresa, eles me expulsaram da casa deles quando viram o objeto. Não entendi o motivo. Pensei que aquela zarabatana poderia estar ligada a algum tipo de feitiçaria, bruxaria ou magia negra. Aquele povo era muito supersticioso. Nos dias que se passaram, tentei conhecer mais os costumes e a história daquela vila. Eles vivam da agricultura. Parecia que o tempo tinha parado ali e que ainda estávamos na Idade Média. Em pouco tempo, já conhecia todos os moradores. Havia uma casa que me parecia muito familiar. Ela vivia fechada e ninguém morava nela. Descobri que há 700 anos ninguém a habitava. Ela era assombrada pelos espíritos de seus antigos moradores. Isso aguçou a minha curiosidade. Queria muito poder entrar e olhar como ela era por dentro. Uma noite, estava fazendo frio e todos estavam perto da lareira. Eu estava sentado numa cadeira perto da janela, olhando para fora, com a zarabatana na mão. O patriarca da família que me acolheu chamava-se Hoffman e ele veio falar comigo. Mas, antes de dizer uma palavra, ele viu a zarabatana e arregalou os olhos. Engoliu em seco e sentou-se numa cadeira perto de mim. "Filho, posso te fazer uma pergunta?", perguntou ele, com o seu Inglês rudimentar. "Claro", respondi. "Aonde foi que você encontrou isso?". Ele apontou para o objeto que estava em minhas mãos. "Hm... lá... nos Estados Unidos. Porque?". "Você sabe de onde ela vem?". "Estou aqui para descobrir isso. Me disseram que ela veio de uma região da Prússia, na Idade Média". "Acho que você deveria saber de uma história. Uma lenda para os mais jovens, mas que os velhos respeitam muito. Essa história foi contada a mim pelo meu avó, que por sua vez a ouviu de seu bisavô. Ela começa em 1229". Comecei a ouvir atentamente a história, sem saber que ela tinha mais a ver comigo do que eu, ou o Sr. Hoffman, podíamos imaginar. Região da Prússia, 1229 d.C. Dinah ficou feliz com a oferta da senhora. Nunca tinha visto um quadro antes e ser retratada, para ela, era como um prêmio. Ela colocou seu melhor vestido e prendeu seu cabelo no alto. Seu sorriso a deixava com um aspecto angelical. A senhora trabalhou durante três dias no quadro, e ao terminar, colocou uma frase atrás dele. Lembro de Dinah me chamando para ver como o quadro estava. Ela parecia uma criança, tamanha era sua felicidade. "Franz, venha ver!", exclamou ela. Eu cheguei no estábulo e olhei para o quadro. Estava lindo. Ela me abraçou e me deu um beijo. Eu olhei atrás do quadro e vi a frase. Era latim. Arregalei os olhos quando li e fiquei sério. Coloquei o quadro no lugar e abracei Dinah, sem explicar o que era. Ela assustou-se. Ouvimos os passos de alguém entrando no local. Era a senhora. Eu me coloquei na frente de Dinah, para protegê-la. "O que tu queres? Quem és tu?". "Ora... tu não sabes? O vosso amor não era para ter acontecido". "Quem te mandou? Anton Kieckhefer... não foi?". "Isso não importa... o que importa é que vós estais condenados a viver longe um do outro". "O que tu irás fazer. Por favor, não...". Não terminei a frase. Dinah caiu e eu amparei seu corpo quase sem vida. Ela olhava para mim, com um olhar de adeus. Senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Não podia fazer nada. Toda minha força não era capaz de deter uma feiticeira. Quando seus olhos fecharam-se, eu a coloquei no chão e virei para encarar aquela que foi a culpada da minha infelicidade. "Porque? Porque isso? Tu a mataste, sua miserável!". "Se olhares para o quadro, verás que não foi apenas isso que eu fiz". Olhei para o quadro e o retrato de Dinah estava olhando para mim, com os olhos arregalados. Eu lembrava perfeitamente que ela estava sorrindo quando foi retratada. "Por favor", eu implorei, "acabe logo com esse tormento! Eu não quero que ela sofra! Deixe-a ir!". Ela não me ouviu. "Ela não está no quadro, se é isso que tu pensas. Ela morreu. E viverá sempre triste, sem amar ninguém, pois o amor que ela sente por ti está aprisionado junto com sua imagem no quadro. E se ele for destruído, ela viverá na eternidade como um zumbi: sem emoções. Mas eu ainda não acabei". Ela tirou de baixo de sua manta a zarabatana com a qual havia me presenteado. "Tu terás o mesmo fim, caro Franz Meyer. Viverás na eternidade sem amar ninguém. Serás um escravo do trabalho e nunca serás capaz de sentir o que é o amor. E isso só acabará de uma forma". Ela não disse mais nada. Pegou a zarabatana e assoprou. Um barulho estranho saiu dela e, no instante seguinte, meu corpo jazia morto, ao lado da minha querida Dinah. E o meu amor por ela, a essência do meu ser, ficou para sempre aprisionado dentro da zarabatana. Antes de ir embora, ela se aproximou dos dois cadáveres e lançou uma maldição. Áustria – dias atuais A história que eu tinha acabado de ouvir era interessante e me fascinou. Eu queria saber mais sobre o assunto e pedi ao Sr. Hoffman para me levar à casa abandonada na manhã seguinte. Ele concordou, mas disse que não iria entrar lá. Poderia apenas arranjar a chave e me acompanhar até a porta. No dia seguinte, eu acordei cedo. O espírito de aventura me animava. O Sr. Hoffman fez o que havia prometido. E antes do relógio da praça central marcar nove horas, eu já me encontrava parado na frente da porta da casa onde, 700 anos antes, havia tido um homicídio duplo por causa do amor. O Sr. Hoffman voltou para casa, depois de me pedir, pela milésima vez, para ter cuidado. Eu entrei na casa devagar. Um vento frio me acompanhou e fechou a porta. Eu olhei para trás quando ela bateu. Depois, dei uma olhada ao redor. Cada objeto naquela casa tinha setecentos anos de história para contar. Era tudo rústico, feito de madeira. Mas ainda estava tudo lá. Um machado, para a lenha, a lareira ao fundo da sala. Muita coisa tinha acontecido, mas ninguém havia mexido em nada, desde o longínquo ano de 1229. Senti novamente o vento frio e um calafrio percorreu o meu corpo ao lembrar que a porta estava fechada. Não tinha como ter correntes de ar. Tentei colocar na cabeça que aquilo era porque eu estava impressionado com a história que tinha ouvido na noite anterior, mas não deu certo. Eu senti que havia viajado no tempo. E caí sentado no chão. Ouvi a porta ser aberta e uma mulher ruiva entrar. Ela olhou para mim e disse: "Franz, venha ver!". Ela estava visivelmente feliz. Eu saí da casa e a acompanhei até o estábulo, onde uma velha escrevia com o pincel alguma coisa atrás de um quadro. "Não é lindo?", perguntou a ruiva. Eu olhei para mim e não reconheci minha roupas. Elas eram antigas. Roupas de camponês. Tornei a olhar para a ruiva e vi que ela era igual ao quadro do museu de Washington. Ela estava apontando para o quadro. O mesmo que eu achava que estava nos Estados Unidos. Isso não podia estar acontecendo. Eu não podia ter viajado no tempo. "É lindo mesmo", disse, e ela me beijou. Eu não podia deixar que tudo acabasse como antes. Ela não podia morrer. Nós não podíamos nos separar. Balancei a cabeça para ver se estava sonhando e vi que era realidade. O destino havia me dado uma segunda chance. Mas eu não pude fazer quase nada. Peguei Dinah nos braços e a levei para dentro da casa. A velha nos seguiu, carregando o quadro e a zarabatana. Quando coloquei Dinah no chão, dentro de casa, ela já estava sem vida. Avancei sobre a velha com todo o ódio que sentia por estar passando por aquilo uma segunda vez, mas senti meus movimentos pararem no ar. Não conseguia me mover. Ela falou alguma coisa, mas sua voz parecia estar muito distante para eu entender. Caí no chão, ao lado do corpo de Dinah. A única coisa que me lembro foi da velha dizendo: "A partir de hoje, as almas desses dois seres estão condenadas a vagarem pelo mundo, sem destino ou emoção, ambos procurando incansavelmente por aquilo que nunca irão achar: seus sentimentos, que estarão confinados nesta zarabatana e neste quadro. Essa maldição só será quebrada no dia em que vocês se conhecerem... e se tu, Dinah, assoprares esta zarabatana. Neste dia, que não chegará jamais, vós estareis livres". Depois disso, várias imagens me vieram na cabeça: meus aprendizados na Ordem dos Templários, a única cruzada em que participei, o dia em que encontrei Dinah, o nosso filho que morreu cedo... tudo aquilo desperdiçado por causa de uma velha feiticeira. Abri meus olhos e vi que Dinah estava me olhando. A sua boca se movia, ela parecia estar dizendo algo. Ela aproximou-se e sussurrou no meu ouvido: "No teu passado encontrarás nosso futuro". Eu abri os olhos de repente e vi que estava na sala da casa abandonada. Estava com as mesmas roupas com as quais tinha saído da pensão pela manhã. Olhei para o relógio e já eram quase dezoito horas. Eu devia ter dormido. Saí da casa correndo, como se tivesse visto um fantasma. No dia seguinte, eu estava a caminho de Viena. Não queria me envolver mais com isso. Chegando lá, comprei uma passagem para Londres, pois queria sair o mais depressa possível da Áustria e se fosse esperar pelo próximo vôo para Washington, eu teria que passar mais uns cinco dias lá. Além disso, ainda tinha uns dias de férias e algo me dizia o ar londrino me faria bem. Londres – dias atuais Numa viagem, o que puder dar errado, sempre dá. Meu vôo foi cancelado e isso significava que eu teria que passar mais três dias em Londres. Já tinha passado dois. Não estava nos meus planos gastar mais dinheiro do que eu podia, por isso, arranjei um hotel barato, Bryanston Court, no Soho, e me hospedei. Pelo menos, eu poderia aproveitar para rever a cidade. Eu sou formado por Oxford e sempre nos finais de semana ia para Londres, na época da faculdade. Lembrei que tinha uma igreja da Ordem dos Templários em Holborn e que, todas as quartas, eles faziam uma pequena apresentação com o órgão. Era aberto ao público. No dia seguinte, uma Quarta-feira, ao meio dia, eu fui à Igreja. Ela era redonda e extremamente bonita. Haviam restos mortais dos cavaleiros enterrados no chão e em suas paredes, vários vitrais contavam a história da coragem dos Cavaleiros e sobre suas cruzadas. Era difícil acreditar que eu tinha pertencido à Ordem. Haviam duas fileiras de bancos, dispostas em semi - círculo. Sentei na última, perto da ponta. Comecei a prestar atenção no concerto. Estava segurando a zarabatana, pois não tinha coragem de me afastar dela. Uma mulher estava sentada ao meu lado. Ela viu a zarabatana e se interessou. Tentou puxar uma conversa comigo. "Desculpe-me pela intromissão, senhor, mas posso ver este objeto?". Eu não respondi nada nem olhei para ela, apenas entreguei a zarabatana. Ela pegou e ficou examinado. "Você é historiadora, arqueóloga, ou alguma coisa desse tipo?", perguntei com um ar desinteressado. "Não". "E por que se interessa?". "Não sei. No momento em que a vi, o meu interesse cresceu. De onde é?". "Da Áustria". "Interessante. Você não é daqui, é?". "Não. Sou dos Estados Unidos". "Eu também". Ela me olhou pela primeira vez. Seus olhos azuis brilharam, mas foram ofuscados pelo brilho do seu sorriso. A pintura havia tomado forma humana. "Muito prazer", disse ela, "eu me chamo Dana Scully". "Fox Mulder. Você é de onde de lá dos EUA?". "Washington". "Eu também. Eu sou agente do FBI". "E eu trabalho em Quantico". "É mesmo?". Nós começamos a rir e reclamaram conosco por causa do barulho. Nos calamos. "Essa zarabatana faz algum barulho?". "Não. Porque?". "Posso soprar?". "Pode. Porque?". "Não sei. Senti vontade". Ela pegou a zarabatana e assoprou. Um barulho estranho saiu e, mesmo depois que ela parou, ele continuou. Ela soltou a zarabatana, deixando- a cair no chão e olhou para mim, interrogativa. Todos viraram e olharam em nossa direção. Ficamos parados como estátuas, até o barulho acabar. O que não aconteceu rápido. Um vento forte soprou sobre Londres e fez as portas da igreja fecharem. Era estranho, pois elas eram pesadas. De repente, algo como uma poeira saiu de dentro da zarabatana. Era branca da cor de leite e subiu no ar, formando um redemoinho. Este depois se dividiu em dois e eles tomaram rumos diferentes, uma vindo na minha direção e o outro, na direção de Dana. Eles nos envolveram e aos poucos, me senti sonolento e tonto. Até que desmaiei. Quando abri os olhos, uma pequena multidão estava em pé junto a mim. Minha cabeça doía, pois tinha batido numa pilastra. Olhei para Dana e ela também havia desmaiado. Nossos olhares se encontraram. Nos levantamos, demos nossas mãos, eu peguei a zarabatana e nós saímos, rumo ao ensolarado dia de verão londrino. Já não tinha mais nenhuma dúvida, nenhuma pergunta. A maldição tinha sido quebrada e finalmente tínhamos nos encontrado. Fim. 1 1