Goinia, 12 de junho de 2001 17:00 [pausa] 22:00 Titulo: O presente e-mail: wm3@uol.com.br Autora: Meggie Spoiler: The gift Resumo: O que aconteceu depois que Mulder voltou pra casa? Disclaimer: No so meus O presente Mulder sentia-se acima de tudo frustrado ao voltar da pequena cidade, na Pensilvnia. Tivera a chance de se curar e permitira que escapasse de seus dedos. A chuva que caia em sua volta ao lar no conseguia acalma-lo. O tamborilar suave dos pingos no capo do carro apenas deixando-o mais deprimido. S conseguia pensar em Scully, e que a deixaria sozinha. Que a abandonaria, no final das contas. Mesmo contra a sua vontade. A questo era que queria se curar. Precisava desesperadamente viver mais um pouco. Queria aquilo mais do que qualquer outra coisa naquele momento. Mas no a custa de um semelhante. No a custa do sofrimento de outro ser. Sentira-se estranho matando o comedor de almas. Scully certamente no aprovaria sua atitude. Mas no vira outro meio. Ele queria morrer, atendera, ento, seu pedido silencioso. Trs tiros a queima roupa. Esperava que a criatura estivesse bem agora, em um lugar em que no precisasse sentir aquelas terr'veis dores. Fora isso, acima de tudo , que o fizera desistir de sua salvao. No desejava para ningum no mundo a pulsao interminvel em suas tmporas. A dor que no cansava-se nunca de remoe-lo. Para ningum, muito menos para um pessoa que j sofrera tanto e h tanto tempo. O resultado de tudo que ainda estava doente. E que Scully ainda ficaria s. As lagrimas lhe vieram aos olhos traioeiras. Deus, no queria morrer. Tinha tanto ainda h fazer. Havias as palavras, uma profuso enorme delas, que precisava dizer para Scully. As frases que haviam sido caladas mas que precisavam de libertao. Talvez ainda houvesse uma chance, repetia para si mesmo interminantemente. No iria morrer. Ainda no. Sua misso ainda no estava completa. Ainda no fizera aqueles homens pagar. Ainda nem beijara Scully decentemente. No fizera amor com ela. No a convencera de que a amava. Nada. O comedor de almas era uma de suas ultimas cartas. Havia um s na manga, porm. Uma pequena chance. Mas no gostaria de Ter de usa-la. S em ultimo caso. E ainda havia tempo. Havia tempo de tentar outras coisas. Chegou em seu apartamento cansado. Muitas horas depois. Muitos soluos e medo depois do seu ultimo Arquivo X. Sentia-se to perdido. To criana. E a ironia do caso no saia de sua mente. Ele querendo desesperadamente viver. O monstro desejando loucamente a morte. A vida no era mesmo justa. Deitou-se no sof, vestido ainda. Seus crebro do'a como se fosse grande demais e no coubesse na caixa craniana. Como se milhes de formigas o devorassem devagar. A sensao de fracasso, porem, era a pior de todas. Naquelas horas, no silencio eterno de seu apartamento, era que gostaria de ligar para Scully, que gostaria de falar-lhe de suas angustias, abraa- la, enfim. Como que atendendo a seus pedidos mentais, a campainha tocou. _Mulder, voc est a'?...Abra a porta, por favor. Scully. Levantou-se, devagar. Destrancou a porta. Ela parecia preocupada. A testa franzida e o tamborilar incessante dos dedos denotavam toda sua aflio. Entrou sem esperar convite. A medo substitu'do por uma certa mgoa. _ Jesus, Mulder, onde voc estava? Eu te procurei feito uma maluca nesses ultimos dias. Odeio quando voc some sem me avisar. Ela, ento, finalmente olhou para ele. Suas feies se suavizando ao divisar o sofrimento do homem a sua frente. _ Ei, o que houve? Os olhos dele encheram-se de lgrimas, novamente. Ela era to linda. No conseguia acreditar que iria morrer e deixa-la ali. No conseguia suportar a idia de Ter que se afastar dela. _ Me abraa. As pupilas dela ficaram maiores. A respirao ofegante. O que ser que acontecera daquela vez? Sem pensar muito, foi para os braos dele. Mulder no costumava pedir colo. E tal constatao a deixava ainda mais angustiada. _ O que houve, Mulder? Me conte. Os dedos dela se engalfinharam entre os cachos castanhos. Tentando transmitir-lhe apoio. Calor. Estava conseguindo. De repente, toda a desiluso provocada pelos ultimos acontecimentos foram se dissipando. A dor de cabea continuava, mas ela estava ali, e j era um grande alivio senti-la to perto. Foram novamente para o sof, o sof negro que fora testemunha ocular de tantas dores e felicidades antes. Enquanto as mos dela corriam por seu rosto, todo tormento desaparecia. Quase se esquecia de que iria morrer. Quase se esquecia que no havia muito a se fazer para evitar isso. Mas ele tentaria. Precisava Ter esperanas. Abriu os olhos para encontrar os dela, perscrutadores. _ Onde voc estava, Mulder? Me conte, o que voc estava fazendo? Por que est chorando? No me deixe nessa duvida, por favor No importa. Scully. No deu em nada. Eu gostaria apenas de esquecer. Mulder gostaria de esquecer tantas coisas...Se Scully pudesse, apagaria todas elas da mente atormentada de seu parceiro. _ Tem certeza? _ Tenho...foi to...to horrivel. _ Shhh, est tudo bem agora. Aconchegou mais seu corpo no dele. _ Ele sofria tanto, Scully. _ Quem? _ A criatura. _ Por que voc no me chamou? No era uma acusao. _ Porque queria te proteger. _ Voc me protege mais do que deve, Mulder. _ Mas parece nunca ser o suficiente. Se eu fizesse o trabalho direito nada de tuim teria te acontecido. _ Algumas coisas no esto em nossas mos. As palavras dela atingiram certeiras sua alma. Realmente. Algumas coisas no podia controlar. No tinha poder sobre sua vida. No tinha poder sobre nenhum dos sentimentos que nutria pela mulher a seu lado. Tentara evitar a todo custo que chegassem, que tornassem-se maior que seu corao era capaz de suportar. Mas no conseguira. Como no estava conseguindo se manter vivo. Olhou para ela, mergulhando profundamente nas ris azuis. Sorriu, entre lgrimas A barba por fazer. Ainda sentindo gosto de sangue na boca e nas mos. Sangue de um homem que matara. Um inocente. Tocou o rosto dela levemente. Precisava pedir-lhe um favor. Outro, das muitas coisas degradantes que j pedira para que fizesse por ele. _ Scully... _ Sim. _ Voc poderia assinar meu relatrio sobre o caso? Scully fitou o amigo, compadecida e intrigada. Ele parecia to triste e vulnervel. To frgil. Algo de muito ruim deveria Ter acontecido. Outra daqueles Arquivos Xs que penetravam em seus medos e torturavam suas certezas. Ele estava apenas querendo apagar aquilo da mente. Nunca faria nada do gnero para outra pessoa. Mas era Mulder e sabia, sinceramente, que ele no faria nada nunca para lhe prejudicar. Por isso, sem hesitar mais que um segundo, disse sim. _ Obrigado. Te devo mais uma. _ Voc no me deve nada, Mulder. Nunca deveu. _ Obrigado assim mesmo. Por estar aqui. Scully estava sempre ali. Tal idia lhe trazia uma sensao incomensurvel de ternura e conforto. Segurana e paz. Ela era seu corao inteiro. Metade de sua alma. E era bom, muito bom, saber que ela confiava nele. Apesar das atitudes que tomava provarem que no era de confiana. Queria protege-la da dor. Lembrava-se de como sofrera quando Scully lhe dissera estar com cncer. Do desespero de suas noites desde ento. No queria aquilo pra ela. No pra ela. Segurou suas mos pequenas com carinho. _ Scully, se um dia, alguma coisa acontecer comigo, promete que vai continuar? _ No seja bobo, Mulder. Nada vai te acontecer. Nunca ouviu dizer que vaso ruim no quebra? Ele sorriu, mas se negou a levar tudo na brincadeira. Precisava faze-la prometer, caso falhasse em seu objetivo de manter-se vivo. _ Promete, Scully. _ Se alguma coisa te acontecer, eu jogo tudo pra cima, e vou viver uma vida horrivel. Ah, Scully, no faz isso comigo que meu corao no agenta. _ No. Voc tem que continuar. Nossa luta, lembra? _ Sem voc eu acho que no suporto. _ Claro que suporta, eu sempre fui o dispensvel da dupla. _ Eu que fui, voc estava indo bem sem mim. _ Sem voc, eu teria andado em c'rculos eternamente. Os olhos dela brilhavam, midos, medrosos. No gostava quando ele comeava a falar de fatalidades. Quando comeavam a entrar naquele terreno perigoso dos sentimentos incontrolaveis. _ Vai ficar tudo bem conosco. Se tudo sair como estou planejando pode estar certa que sim Era to obvio que se amavam. To absurdamente claro que se queriam. Que se precisavam. Que estariam sempre juntos, se dependesse deles apenas. To obvio que Mulder no via mais motivos. Estava morrendo. Estava carente. Amava tanto ela. Faria qualquer coisa para que nada ruim lhe acontece. Por que no podiam simplesmente quebrar todas as malditas barreiras? Estava to cansado de passar suas interminveis noites sozinhos. Principalmente nos ultimos tempos, em que suas dores de cabea no o deixavam dormir. Precisava tanto dela. Do calor de seu corpo clido. Da maciez de seus lbios vermelhos. Precisava tentar. Sabia que era injusto. Sabia que quando morresse, se estivessem romanticamente envolvidos, ela sofreria to mais. S que naquele momento, naquele sof, conseguia apenas pensar no perfume de sua pele perto da dele, que sua proximidade fazia a dor passar. Fazia o mundo melhor. S conseguia pensar que, depois de tudo, ele merecia aquilo. Realmente merecia. Trouxe o rosto dela para Proximo do seu. Sua testas tocando- se, os narizes. As respiraes mornas e ofegantes. Mulder sentia cada celula se seu corpo pulsar, antecipando o gosto da boca dela. O gosto de sua Scully. Sua garota. O corao batia em compasso parecido com o de sua mente. Frentico. Os lbios midos da mulher estavam entreabertos, ansiosos. Im veis. A deciso era dele e j havia sido tomada. Tocaram-se silenciosamente. Numa lentido e carinho merecido pelos anos de espera. Numa reverencia sublime, reconhecendo-se. A quentura das sensaes espalhando-se por seus corpos. Logo as l'nguas se encontravam, suaves. Sem pressa, intensamente. Era bom. Fazia o mundo girar, embrulhava o estomago, umedecia o sexo, estremecia o corpo. Colorido. Perfumado. A vontade suprema de tornarem-se um nico ser crescia. O beijo tornou-se profundo, seus corpos colaram-se. Os dedos acariciantes pareciam estar em todos os pontos. Em pouco tempo, no se podia mais saber a diferena entre um e outro, seus corpos nus e quentes encontrando-se pela primeira vez. Suas peles arrepiadas de excitao. Foi lento. Como se no houvesse tempo nem espao. Apenas amor. E quando os movimentos viraram calmaria, quando o corpo dele cobria o de Scully protetoramente, a cabea pousada em seu peito escutando-lhe o bater ritmado do corao. Ento, nada na vida parecia mais certo. Estava finalmente em casa. E tinha agora mais um grande motivo para continuar vivendo. S por ela. Sempre fora s por ela. Fim