DISCLAIMER: OS PERSONAGENS DESTA FANFICTON PERTENCEM A SEUS CRIADORES E NÃO HÁ INTENÇÃO DA AUTORA EM OBTER LUCRO COM ESTA HISTÓRIA QUE DESTINA-SE UNICAMENTE À DIVERSÃO DOS LEITORES. AUTORA: SILVIA PENHALBEL E-MAIL: silviascifinews@bol.com.br SPOILERS: NENHUM FEEDBACK : POR FAVOR, SERÃO SEMPRE BEM VINDOS. SINOPSE: UM SEGUNDO PODE SER A DIFERENÇA ENTRE A VIDA E A MORTE "SÓ VOCÊ" A lâmina fria do aço machuca minha pele mas não ouso me mover um milímetro sequer. Posso sentir a mão que aperta a navalha afiada contra meu pescoço tremer. Basta um pequeno movimento para minha garganta ser cortada. Poucas vezes em minha vida senti medo de morrer. Esta é uma delas. Não quero morrer, não hoje, não depois de ter ouvido de sua boca as palavras que sonhava ouvir durante todos estes anos em que estamos juntos. É engraçado como a vida nos prega peças. Sempre acreditei que você me amava mas tinha medo. Bem lá no fundo eu tinha medo de que, se me declarasse, ouviria de você uma recusa. Então eu me fechava mais e mais, me escondendo atrás de ironias e sarcasmos, tentando chamar sua atenção para mim e ao mesmo tempo tentando colocar alguma distância entre nós. Só que é impossível ficar longe de você. Você me completa, faz com que eu me sinta importante, necessário, faz com que eu me sinta um ser humano de verdade. Por isso, depois de todos estes anos, eu decidi abrir meu coração para você e a convidei para virmos até esta lanchonete tranqüila para conversarmos. Nem ao menos me lembro de como comecei a falar. Apenas me recordo de seus olhos claros se arregalando surpresos e de meu medo de ter estragado tudo com minha desajeitada declaração de amor. Só que mais uma vez você me mostrou que é uma pessoa especial. Seu sorriso foi tão radiante que ofuscou a claridade da manhã que invadia as enormes janelas ao nosso lado. Eu mal podia acreditar que estava ouvindo de sua boca a confirmação de meu maior desejo : ser amado por você. Estendi minha mão para segurar a sua e foi neste momento que nosso paraíso se transformou em um inferno aterrorizante. O homem invadiu o local completamente fora de si. Demorei alguns segundos para perceber as intenções dele e esta distração foi fatal. Antes que qualquer um de nós conseguisse pegar uma arma, a navalha nas mãos trêmulas estava na minha garganta, tão apertada que pude sentir um filete de sangue brotando na pele e escorrendo devagar por dentro da gola de minha camisa. Meus olhos captaram o desespero dos poucos fregueses que estavam lá àquela hora, correndo para fora, assustados. Apenas você ficou aqui dentro comigo e com meu captor. E agora estamos aqui, os três, sozinhos. O rapaz que me domina é grande e tem uma força descomunal, provavelmente causada pelas drogas que o deixaram fora de si. Posso escutar o barulho de carros de polícia chegando lá fora e sinto que o homem me segura com mais força, apertando a navalha em meu pescoço já ferido. A dor me faz soltar um gemido baixo e você coloca a mão em sua boca para abafar um grito. Meu captor não parece se importar e solta frases desconexas enquanto me obriga a ajoelhar no chão, ajoelhando-se comigo, usando meu corpo como um escudo. Você tenta conversar, negociar mas não há o que fazer. As drogas já destruíram toda a capacidade de raciocínio dele e eu nós dois sabemos que estamos por nossa conta neste momento crucial de nossas vidas. Ninguém poderá nos ajudar, não haverá tempo. Nossos olhos se encontram e leio neles a promessa de que você fará o impossível para nos tirar deste pesadelo. A certeza que leio em seu olhar é suficiente para me acalmar e relaxar um pouco a tensão que retesa os músculos de meu corpo. Meu captor se assusta por um momento ao perceber que não há mais resistência de seu refém e afasta a lâmina alguns milímetros. Ainda é muito pouco mas é tudo o que eu tenho e decido apostar todas as minhas fichas nesta jogada. Jogo bruscamente meu corpo para frente, me atirando no chão de ladrilhos brancos enquanto escuto os disparos de sua arma que, tenho certeza, acertaram seu alvo. Um alívio muito grande toma conta de meu corpo. Tento me levantar mas todo o lugar começa a girar e acabo caindo novamente no chão frio que agora está úmido e pegajoso. Sinto duas mãos me virarem de costas e ouço gritos mas não consigo distinguir os sons. Em um último esforço, abro meus olhos e descubro seu rosto debruçado sobre o meu, as lágrimas caindo copiosas e sua voz suave me implorando num sussurro "não morra". Eu quero atender você, me levantar e tomá-la em meus braços e nunca mais deixá-la se afastar de mim mas meu corpo não obedece aos comandos que meu cérebro enevoado tenta enviar. Consigo erguer minha mão e tocar seu rosto molhado de lágrimas enquanto num último esforço consigo murmurar "eu te amo" antes que a escuridão me envolva completamente, tirando de mim, a chance de ser feliz ao seu lado. Minha mão toca o frio do aço de minha arma mas não ouso puxá- la. Não quando é seu pescoço que está por um fio. Posso ver o filete de sangue que escorre do ferimento feito pela navalha apertada de encontro à sua garganta e meu coração se aperta. Há apenas alguns minutos atrás parecia que minha vida finalmente encontrara um significado. Ouvir de sua boca uma tímida declaração de amor foi a realização de meus sonhos mais secretos. Tantos anos guardando este amor dentro de mim, temendo que se o revelasse, você se afastaria para afinal descobrir que meus sentimentos eram recíprocos. Você não imagina a minha felicidade em saber o quanto eu sou importante para você, eu me senti mais brilhante que o sol radiante que enfeitava esta manhã. Então este maldito entrou por aquela porta e em um segundo de hesitação de minha parte ele tinha você como refém. Todos os fregueses correram apavorados e espero ao menos que um deles tenha o bom senso de chamar a polícia apesar de desconfiar que, pelo estado deste rapaz, não teremos tempo de aguardar ajuda. Olho para seu captor e percebo que está fora de si. Os olhos injetados de sangue, as pupilas dilatadas, o tremor em suas mãos, tudo indica abuso de drogas. Não sei por quanto tempo ele vai agüentar antes que suas mãos trêmulas cortem sua garganta com um só golpe. Escuto as sirenes lá fora e o rapaz fica ainda mais nervoso. Com um tranco, ele puxa você mais para junto dele, apertando a navalha em seu pescoço. Escuto você gemer e me contenho para não começar a gritar de desespero. Respiro fundo para me aclamar e encontrar uma solução. O rapaz o obriga a se ajoelhar e se protege atrás de seu corpo. Minha mão direita está firme no coldre de minha arma enquanto tento conversar com o lunático. Só preciso de um segundo de distração deste miserável, eu vou nos tirar desta Mulder, acredite nisso. Nossos olhares se cruzam e eu tento transmitir a você a certeza de que vamos sair desta encrenca. Enxergo a confiança que tem em mim em seus olhos, percebo um sutil movimento de seu captor e meu instinto me avisa que você tentará alguma loucura. O medo invade minha alma mas minhas mãos estão firmes quando coloco o homem na minha mira no exato instante em que você se atira no chão. Sem aviso minha arma dispara uma, duas, três vezes. O corpo cai para trás sem um gemido. Nem mesmo me preocupo em verificar se está morto. Eu sei que não errei nenhum tiro. Você tenta se levantar mas não consegue e eu vejo horrorizada que há uma poça de sangue embaixo de seu corpo. Com o pavor tomando conta de meu ser, eu o viro de costas apenas para constatar que a navalha afiada abriu um corte em sua garganta. No momento em que os policiais invadem o local eu começo a gritar desesperada por ajuda. O sangue jorra em profusão e eu tento contê-lo até a chegada da ambulância mas meu peito se aperta ao perceber que estou perdendo você. Seus olhos se abrem e parecem me reconhecer. Eu tento falar mas minha voz sai apenas em um sussurro angustiado. "Não morra" eu imploro como se estivesse a seu alcance fazer alguma coisa. Sinto sua mão tocar meu rosto molhado, esta mão que sempre foi forte, que sempre esteve ao meu lado me amparando quando precisei, esta mão que tantas vezes me tocou com carinho e desvelo e que agora precisa da minha força e da minha coragem que parecem ter me abandonado ao fitar seus olhos verdes já sem brilho. Meu Deus! Eu nunca lhe pedi nada com tanta fé nem com tanta vontade, não o tire de mim. Este homem é minha vida, é minha alma, é meu coração. E sem minha vida eu não posso viver, pois não posso viver sem minha alma e não posso viver sem meu coração. "Eu te amo", sua voz chega a meus ouvidos em um murmúrio fraco antes de seus olhos se fecharem e eu me encontrar sozinha, segurando seu corpo em meus braços, chorando desconsoladamente. A claridade da manhã fere meus olhos desacostumados à luz. Uma dor forte, indefinida me alerta de que não estou morto, não ainda. Não reconheço o local em que estou deitado mas o seu perfume invade minhas narinas e agora tenho certeza de que estou vivo, e que você está aqui, ao meu lado. Quando finalmente consigo abrir os olhos encontro seu rosto debruçado sobre o meu, chorando e sorrindo, aliviada e feliz. Seus lábios se aproximam dos meus e ao me tocarem o mundo deixa de existir. Para mim, neste momento só existe você, só você. Três dias sem comer ou dormir, chorando e rezando para finalmente ver seu corpo se mover na cama estreita, seus olhos tentarem se abrir e se fecharem feridos pela claridade da manhã que invade o quarto. Meu coração parece querer saltar do peito quando me aproximo do leito e me debruço sobre seu rosto. Seus olhos se abrem e você sorri para mim. E meu mundo se enche novamente de luz. Tomo sua boca na minha e todo o sofrimento e dor que já passaram pela minha vida deixam de existir. Neste momento, meu mundo se resume em você, só você.