Título: Sorvete de Flocos com Licor de Amarulla RESUMO: Mulder e Scully têm muitas coisas para discutir, coisas que vão muito além de um simples caso. OS PERSONAGENS DESTA Fic PERTENCEM A SEUS CRIADORES. AUTORAS: Graça, An@ Lúci@, Bellefleur X, Sky FEEDBACKS: Serão bem vindos. (gracap@bol.com.br; analuciaferreira@uol.com.br; bellefleur_x@hotmail.com; selmasky@ig.com.br) DATA: 20-11-2000 CATEGORIA: Depende do Parágrafo... NOTA 1: Essa Fic, em parte, começou a ser inspirada pela Silvia e pelo Henrique. Quando ela ler, vai saber qual. NOTA 2: E obrigada à Monica pelo resto das mordidas. E olha que nem ficou marcado... ;) Sede do FBI - 4:00 PM A porta do elevador se abriu. Mulder saltou em passos rápidos, deixando Scully para trás. Sua expressão estava bastante perturbada, angustiada. Passou as mãos repetidas vezes pela cabeça, como se quisesse com esse gesto remover os pensamentos ruins de sua mente. Andou sem olhar para trás, sem esperar por Scully. Scully tinha um ar arrependido. Caminhava atrás de Mulder em direção à sala de Skinner de cabeça baixa, os ombros encolhidos. Quisera não ter dito e feito o que acabara de fazer... Sala de Skinner – 4:05 PM Skinner estava em sua mesa tendo Mulder e Scully sentados diante de si. Mulder estava visivelmente distraído. Scully parecia tensa, batendo repetidamente com o lápis na palma da mão... Skinner começou a expor o caso, embora percebesse o clima tenso entre os agentes, que nem ao menos se olhavam. – Senhores, um dos donos do Hotel Plaza, em NY, ligou para o diretor Geral do FBI pessoalmente, pedindo respostas sobre o caso em seu Hotel. Já temos agentes lá investigando há uma semana, porém os relatórios não revelaram nada até agora. A princípio, parecia ser um caso comum de homicídio, envolvendo um poderoso executivo, até que mais um corpo apareceu, no mesmo andar, no quarto ao lado. A diferença é que, desta vez, a vítima estava parcialmente queimada. No entanto, nenhum alarme de incêndio foi acionado. – Os dois agentes escutavam impassíveis, sem esboçar reações. Skinner estava atônito com esse comportamento, mas continuou. - Bem, devido ao rumo que o caso tomou, designei os dois para a investigação. Vocês partem amanhã cedo para NY. Ficarão hospedados no próprio Hotel Plaza para facilitar o acompanhamento do caso. Mulder e Scully limitaram-se apenas a balançar as cabeças afirmativamente. "Nenhuma palavra, nenhuma pergunta? Há algo errado aqui...", pensava Skinner. – Está acontecendo algo que eu precise saber? – perguntou, incrédulo. - Por que os dois estão tão calados? Agente Mulder, o que houve? Não tem nenhuma pergunta a fazer? – Não, senhor! Deve estar tudo nos relatórios, como sempre, não é mesmo? – respondeu Mulder, sarcástico. Pegou as pastas com os relatórios e saiu da sala sem pronunciar qualquer outra palavra. Scully levantou- se para segui- lo. – O que houve com ele, Agente Scully? – perguntou Skinner. Percebendo o olhar perturbado de Scully e acrescentou num lampejo de compreensão. - Ou melhor, com vocês? Nunca os vi assim antes! Aconteceu alguma coisa? – Não, senhor! Deve ser estresse! – ela limitou-se a responder, pura e simplesmente, saindo da sala e deixando Skinner boquiaberto e preocupado. Ao sair, Scully já não mais encontrou Mulder no corredor. Desceu correndo até o porão apenas para também não encontrá-lo lá. Ela estava confusa, profundamente arrependida. "Meu Deus! Como poderia imaginar que o meu pedido fosse deixá-lo neste estado? O que foi que eu fiz? Fui uma idiota em pensar que alguém tão passional como Mulder fosse encarar toda essa estória de modo totalmente científico. Você é uma imbecil, Scully! O que estava pensando?! Pelo amor de Deus, era óbvio que ele não veria isso da mesma forma que você. E nem você pensa assim, senão por que diabos iria pedir justamente pra ele?" - Preciso encontrá-lo. - ela murmurou enquanto encaminhava-se para a saída. "Questão de vida ou morte. Preciso esclarecer isso, preciso que ele desculpe meu pedido e minha estupidez. Ah! Mulder, me desculpe! Mas não imaginava ninguém mais para isso a não ser você. Ela ligou para ele, mas ninguém atendeu ao celular. Deixou-se cair no banco do carro. Abaixou a cabeça sobre o volante e chorou mansamente. Bar do Harry – 10:00 PM Mulder estava sentado em uma das mesas num canto do bar. Sobre ela, já estavam dez copos vazios de tequila. Alguém se aproximou por suas costas e colocou a mão em seu ombro. - Mulder, vamos para casa! – disse Scully, suavemente. Scully ligara para Mulder diversas vezes, mas ele não atendia às suas ligações. Fora até sua casa, mas ele também não estava lá. Havia ficado preocupada. Sentia-se responsável por qualquer coisa que pudesse acontecer a ele. Afinal, ela havia provocado aquela situação com seu pedido no elevador, aquela tarde. Então, lembrou-se do bar onde Mulder costumava ir quando estava chateado. - Me deixa, Scully! - Mulder retrucou, tirando as mãos dela do seu ombro. Estava visivelmente alterado pelo álcool. - Eu não quero ir! Não tenho porque ir. Não há nada nem ninguém me esperando, isso não vai acontecer, Scully. - Acontecer o quê, Mulder? O que você quer dizer com isso? Venha, eu levo você para casa. – ela falou, tentando manter a voz calma. Mulder se levantou e virou para ela com um hálito que podia ser sentido a metros de distância. Segurou-a pelos ombros com força e começou a sacudi- la, sem mais nem menos. Ela não reagiu. - É melhor chamar a segurança. – disse um dos garçons ao barman, apontando para os dois. - Deixa para lá! – respondeu o barman. - Em briga de marido e mulher, é melhor não se meter! – completou com um ar irônico, piscando para o garçom. – O que você quer realmente, Scully? O que estava pensando? Eu realmente sou um tolo em pensar que... Acho que nem em um milhão de anos vou conseguir saber exatamente o que você quer. Por que tem que transformar tudo em objetivos, metas, razões frias? Por que não pode sentir nada uma vez na vida, senhora iceberg? – disse Mulder quase gritando, segurando-a pelos ombros. Scully se livrou de suas mãos de um repelão. Estava furiosa, as lágrimas já corriam por seu rosto. Antes que pudesse pensar no que fazia, seu braço ganhou vida própria e se ergueu, desferindo um sonoro tapa no rosto de Mulder. Ele olhou-a, surpreso. Era como se o tempo passasse em câmara lenta. Levou a mão ao rosto. Respirou fundo. A impressão dos dedos dela queimando em sua face. A própria Scully estava atônita com seu gesto. "Meu Deus, como pude?" Deu um passo a frente, tentando aproximar-se de Mulder, pedindo desculpas embaraçada. – Desculpe, Mulder! Eu não queria te ofender. Ele se afastou, repelindo-a. – Ofender!? Ah, Scully! Você não entende mesmo... Ou melhor, não quer entender, não é? – seu tom de voz era cáustico. – Você quer ter um filho? Ótimo! Acho que você tem todo direito. Mulder parecia totalmente transtornado, seus olhos disparavam fagulhas na direção de Scully. Ela escutava a tudo completamente muda. Um nó na garganta a impedia de dizer qualquer coisa. Sentia as pernas enfraquecerem, faltava-lhe fôlego. Contraiu os punhos com toda força para evitar que explodisse em lágrimas. Queria pedir que Mulder parasse, mas ele continuou a falar, amargo, cortante, cruel. - Você já perdeu muito por me acompanhar nessa minha louca busca e se essa foi a maneira que você encontrou de me fazer pagar por isso, que seja! Sabe que eu faria qualquer coisa para ajudá-la. Scully arregalou desmesuradamente os olhos. Então era isso o que ele estava pensando? Que havia feito aquele pedido como uma forma de fazê-lo pagar? "Ah! Deus, não... está tudo errado..." - Não, Mulder, foi uma idéia infeliz. Esqueça isso... - Não, Scully. Se é somente essa a maneira como você me vê... Que seja! Acha que posso lhe ser útil assim? Está certo, você manda! Afinal sempre tem razão, não é mesmo? Mulder caiu sobre a mesa, tonto. Scully limitou-se a fitá-lo já sem poder impedir que as lágrimas lhe tomassem os olhos, sem palavras que pudessem expressar o que estava sentindo. Não poderia imaginar que ele se sentisse daquela forma. Não poderia ou não queria? Estava confusa demais, abalada demais para pensar no assunto naquele momento. Depois, mais tarde, teria tempo para pensar. Agora tinha que agir. Ela pediu ajuda a um dos garçons para colocar Mulder no carro, que, embora resmungando, a acompanhava com docilidade. Enquanto dirigia pelas ruas já bastante vazias em direção à casa de Mulder, milhões de coisas passavam-se por sua cabeça. Ela olhou para Mulder desacordado no banco ao seu lado. Jamais poderia esperar dele uma reação como aquela. Sabia que ele fazia o tipo emotivo e passional, mas nunca imaginou que pudesse chegar a ser TÃO passional. Scully estacionou o carro em frente ao prédio onde Mulder morava. Chamou-o repetidas vezes, dando-lhe tapinhas no rosto, até que ele recuperasse a consciência, embora continuasse totalmente apático. Com dificuldade, ela o tirou do carro e o levou até o apartamento. Imaginava se poderia ter pedido ajuda a alguém. Talvez a Skinner. No entanto, não lhe pareceu apropriado envolver seu superior direto naquele tipo de problema. Por mais amigo que ele se tivesse mostrado nos últimos anos, era ainda um Diretor Assistente do FBI, seu superior e certamente uma das últimas pessoas no mundo que deveriam ver Mulder naquele estado de embriaguez. Depois de lutar com dificuldade para abrir a porta do apartamento e manter Mulder de pé, ao mesmo tempo, ela finalmente conseguiu entrar. Rapidamente, colocou Mulder na cama. Ele adormeceu no mesmo instante em que a cabeça bateu no travesseiro. Ela tirou-lhe os sapatos, a gravata e o cinto. Ao olhar para ele, assim tão profundamente adormecido, voltaram- lhe outra vez à mente as palavras duras que ele lhe dirigiu no bar, cortadas pelo som do tapa que ela lhe desferira. Sentiu um aperto no coração. Ah, como desejaria abraçá-lo agora e suplicar por suas desculpas... Como gostaria que ele retribuísse a esse abraço e calasse suas desculpas com beijos... Mas era tarde. Ele estava muito distante agora, embrenhado nas teias dos sonhos. "Quem sabe amanhã, no avião, tenhamos uma oportunidade de conversar..." Antes de sair, ajustou o despertador ao lado da cama para que Mulder não perdesse a hora do embarque e deixou as chaves do carro sobre a mesa de cabeceira, com um bilhete explicando onde o havia estacionado. Hesitou um momento, imaginando se devia ou não mencionar a briga e incluir um pedido de desculpas no bilhete. Decidiu que aquela não era a forma correta, o assunto deveria ser tratado pessoalmente. Olhou mais uma vez para o homem adormecido e foi embora com os olhos rasos d'água. Enquanto caminhava para o carro, a fim de voltar à sua casa, seus pensamentos se perdiam no emaranhado de acontecimentos e emoções que haviam tumultuado o pequeno espaço daquele dia. Mesmo dia - pela manhã. Scully saía da sala de exames, vestindo o blazer. O médico estava sentado à sua espera e foi começando a falar, tão logo ela se sentou na cadeira. - Dana, seu caso é delicado devido a origem da sua esterilidade que nós nunca conseguimos entender realmente. Ela o ouvia calada. - Após todos os exames e testes que fizemos, pudemos comprovar que esse material genético realmente pertence a você, mesmo que não consiga explicar de onde ele veio. - Já disse que não sei, doutor. Fui submetida a testes sobre os quais não tenho lembranças claras. Somente fiquei sabendo de minha esterilidade há alguns anos atrás, e sei que foi em conseqüência desses testes. - E por que esperou tanto tempo para pedir a análise desse material? Scully abaixou a cabeça pensativa. Nem ela mesma sabia o porquê. Desde que Mulder lhe entregara aquele frasco, durante a recuperação do câncer que tanto a fragilizara, dizendo ser um presente que ela poderia ou não usar, nunca se sentiu forte o bastante para levar aquilo adiante. Mas, após o aparecimento de Emily e sua tão trágica morte, pareceu-lhe razoável que ela tentasse descobrir se aquele material retirado dela poderia vir a gerar mais crianças como a menina. Mal contivera sua alegria e esperança quando soubera que não havia nada de errado com seus óvulos além da produção anormal, muito além da conseguida pela maioria das mulheres. E um desejo começou a se delinear em sua mente, um desejo que começou tímido e frágil, mas que foi ganhando forças quando ela sentiu a crescente aproximação do parceiro em relação a ela. Começou a imaginar com seria se ela realmente pudesse fazê-lo. Começou a imaginar, principalmente, se ele gostaria de tomar parte. Nenhum outro homem poderia entender o que aquilo significava para ela. Nenhuma outra pessoa poderia estar mais próxima para ajudá-la a realizar esse sonho que não ele, Fox Mulder, seu parceiro. Não tivera coragem de lhe contar o que estava fazendo, apenas esperara pacientemente os resultados de seus exames, enquanto via, ou pelo menos queria ver, o brilho diferente no olhar dele quando a fitava e sorria ternamente. - Dana? - o médico a chamava à realidade - Você está bem? - Ahn? Ah! Sim, estou bem. Qual o próximo passo? - Bem, - o médico sorriu - não há bebês feitos apenas de óvulos. Precisamos de um doador de esperma. Você está saindo com alguém que poderia sê- lo? Sabe que a concepção natural não será possível no seu caso. Não poderíamos reimplantar os óvulos em seus ovários. Mas será seu filho de toda maneira. Scully o fitava com olhar distraído. Sabia exatamente quem ela gostaria que fosse o pai, só não imaginava uma maneira de pedir-lhe aquilo. - Vou pensar, doutor. Ligo assim que tiver resolvido. - Se você estiver sozinha, Dana, temos um banco de esperma. Você poderá escolher as características que quer e... - Não! - ela interrompeu - Acho que preciso mais do que apenas material genético. O médico sorriu. - Para uma criança, um lar completo é sempre o ideal. Se os pais, além de existirem, se amarem e se conhecerem, é perfeito. Scully saiu do consultório pensativa. Tinha uma reunião com Skinner pela manhã, mas avisara que se atrasaria devido a uma consulta médica. Acabou encontrando Mulder no elevador do prédio e entraram juntos. - Bom dia, Scully. Como foi a consulta? Tudo bem com você? - Tudo ótimo, Mulder. - ela respondeu meio aérea, um sorriso dançando nos lábios. Ela estava feliz com os resultados dos exames. Não guardava mais a tristeza por não poder conceber um filho. Isso agora era possível e, para ela, o simples fato de ser possível era o bastante, mesmo que jamais se realizasse. Mas... e se pudesse ser... agora? Ela olhou para o parceiro que a fitava com aquele mesmo brilho no olhar que ela já identificara várias vezes. Ele se tornara o ideal de homem que ela formara em sua mente. Bonito, inteligente, sensível, determinado... Uma lista enorme de qualidades que ela gostaria para o filho que viesse a ter um dia, tal qual Fox Mulder, e sorriu com a idéia. - O que foi? - ele riu - Parece que você viu um passarinho verde, Scully. O que a faz tão feliz hoje? Ela o fitou por alguns instantes. A pergunta que ela não imaginava como formular escapou de seus lábios antes mesmo que a pudesse se conter. - Posso conceber filhos, Mulder. Fiz os testes e exames com o material que você me devolveu e ele, assim como eu, é absolutamente saudável. Para que eu tenha um filho, basta que eu faça a inseminação com o esperma de um doador. Pensei que... Faria isso por mim? Antes mesmo que terminasse de falar, ela já havia se arrependido. O brilho desapareceu daqueles belos olhos, o tom verde da íris modificando-se instantaneamente para assumir uma tonalidade quase negra, demonstrando a tempestade que se formava em sua mente. Ela observava enquanto ele abria e fechava a boca sem nada dizer, desviando os olhos dos dela, assim que a porta se abriu, caminhando atônito pelo corredor sem lhe dirigir mais a palavra. Aeroporto de Washington - 9:00 AM Scully estva sentada na sala de embarque, tentando, pela enésima vez, ligar para Mulder. Desde as oito da manhã vinha tentando incessantemente falar com ele. Havia deixado diversas mensagens na secretária eletrônica e ouvido um sem número de vezes a mensagem de "desligado ou fora de área" do celular. Ela quase não havia dormido durante aquela noite, pensando, revivendo, remoendo cada momento daquele malfadado dia. Desde a conversa no elevador do FBI até o episódio final naquele bar, havia revisado cada diálogo, cada atitude, amargando a culpa por sua falta de tato ao falar com Mulder, a culpa por ter lhe aplicado um tapa quando ELE era o único coberto de razão naquela estória toda. Seu coração bateu aliviado quando viu Mulder caminhando em sua direção. Ele estava de óculos escuros e com a barba por fazer. Ao contrário de sua habitual impecável aparência, a gravata estava frouxa e a camisa em desalinho. Carregava uma bolsa de viagem sobre os ombros. Scully o encarou, ansiosa. – Vamos? Já estão chamando para o embarque. - ele limitou-se a dizer. – Mulder, temos que conversar. – disse Scully, levantando-se. Ele virou de costas e começou a caminhar rapidamente em direção ao portão de embarque. Scully o seguiu. - Por favor, me ouça, Mulder! Tudo o que aconteceu, foi um grande mal entendido. Mulder estacou subitamente e voltou-se para ela, o rosto contraído. A voz que saia de sua boca era puro gelo. – Escute Scully, não há tempo para discutir assuntos particulares agora. Aliás, não há NADA para ser discutido. Vamos indo, senão acabamos perdendo o vôo. – disse, reiniciando sua caminhada a passos largos para o portão. Scully, mortificada, seguiu ao lado dele, de cabeça baixa, decidida, realmente, a deixar a discussão para mais tarde. Hotel Plaza - Nova York - 1:15 PM Mulder e Scully chegaram à recepção do Hotel. Decoração requintada, em estilo Luís XV, um hotel de luxo, para variar. Dirigiram-se ao balcão, onde um recepcionista atencioso lhes sorriu. - Agentes Especiais Fox Mulder e Dana Scully do FBI! – identificou-se Mulder, finalmente quebrando o silêncio que vinha mantendo desde o aeroporto de Washington. – Já estávamos esperando pelos senhores. Aguardem apenas um momento pelo nosso gerente, o Sr. Richardson, que quer lhes falar. – disse, pegando o telefone para chamar o gerente. – Enquanto aguardam, poderiam, por gentileza, preencher suas fichas? Mulder e Scully começaram a preencher cada um sua ficha, sem se falar. Aquele silêncio incômodo começava a dar nos nervos de Scully. Mulder não lhe dirigira uma palavra durante todo o vôo. Nem ao menos olhara em sua direção! Apenas sentou na poltrona do avião, abriu uma revista e assim permaneceu durante todo o tempo. Angustiada pela situação, ela fez o mesmo. Abriu uma revista qualquer que folheou nervosamente, sem ler uma única palavra. - Aqui estão as chaves dos seus quartos. – falou o recepcionista após desligar o telefone. - Ambos ficarão no 12º andar, quartos 1206 e 1207. Podem subir. O elevador fica à direita. O sr. Richardson vai encontrá- los lá em cima. No elevador, o clima pesado gerado pelo silêncio forçado de Mulder dominava a cena. Ambos pareciam se recordar de sua fatídica viagem de elevador, no dia anterior. E tais recordações, nem um pouco agradáveis, só faziam intensificar a sensação de desconforto. "É, desse jeito, vai ser um caso difícil de resolver..." suspirou Scully para si mesma. Quarto 1207 – 1:30 PM Scully estava guardando as últimas peças de roupa no armário do quarto que lhe foi designado. A mobília era belíssima, antiga e ela podia dizer, mesmo sem entender muito do assunto, que havia ali algumas peças bastante valiosas. Havia vários quadros espalhados pelas paredes e flores naturais nos jarros. O quarto era enorme, quase tão grande quanto seu apartamento. No banheiro, o metal dourado das torneiras fazia um contraponto perfeito com a convidativa banheira de mármore creme, quase uma piscina de tão grande, cercada por vidros coloridos de sais aromáticos e espumas de banho. "A diária desse quarto deve custar uma fortuna. Muito diferente dos padrões habituais de despesas autorizadas pelo FBI. Nossa hospedagem deve ser cortesia do proprietário do hotel. Do contrário, alguém vai ter que se ver com os auditores..." ela imaginou divertida. Ouviu batidas discretas na porta. Ao abri-la, deparou com um Mulder carrancudo acompanhado por um homem grisalho de cerca de cinquenta anos, com um sorriso simpático estampado no rosto. - Agente Especial Dana Scully, sr. James Richardson, gerente do hotel. – apresentou Mulder. O aperto de mão de Richardson era caloroso. - Espero que esteja bem instalada. – disse o gerente, sempre sorrindo. - Muito bem, obrigada. Entrem, por favor. – respondeu Scully, abrindo caminho para que passem. Instalaram-se nas poltronas bergère que compunham a saleta do quarto. Richardson começou a falar. - Vou direto aos fatos, para não tomar demais seu tempo. Há cerca de quinze dias, um alto executivo de uma multinacional foi encontrado, por uma das camareiras, morto em sua cama, no quarto 1203. Embora o homem aparentasse ter sofrido um infarto fulminante, a polícia, como de praxe nesses casos, foi chamada. Devido à posição social e à idade do falecido, consideraram que a causa da morte havia sido realmente o infarto e deram o caso por encerrado. O problema é que, três dias depois, uma das camareiras encontrou outro hóspede morto no mesmo quarto. Só que, dessa vez, o corpo estava parcialmente carbonizado. E não pára por aí. Ontem, pela manhã, mais um hóspede foi encontrado morto em condições semelhantes no quarto 1212! - Algum suspeito? – indaga Mulder. - Não que me conste. – respondeu Richardson. – Todas as vítimas estavam sozinhas e não havia sinais de arrombamento nos quartos. Não acharam nada, nem uma pista. O sr. McKenan, proprietário do hotel, está muito nervoso, temendo que o caso vaze para a imprensa e se transforme em escândalo. Scully, que folheava as pastas do caso com ar distraído, interrompeu. - Sr, Richardson, sabe se as vítimas foram autopsiadas? Não vi nada a respeito nos relatórios... - Não posso lhe dizer com certeza, agente Scully, mas é provável que não. Todos eram pessoas influentes: dois importantes executivos e um político... Compreende o que quero dizer? - Nesse caso, vou pedir uma autorização judicial, apenas por garantia, e proceder com as necrópsias. – disse Scully. - Eu gostaria que de examinar os quartos onde ocorreram as mortes e, depois, conversar com as pessoas que encontraram os corpos. – solicitou Mulder a Richardson. - É para já, agente Mulder. – respondeu o gerente prontamente. – A propósito, qualquer coisa que venham a precisar durante sua estadia aqui no Plaza, é só me falar, ok? Ambos os agentes acenaram com a cabeça em agradecimento e deixaram o quarto para realizar suas tarefas. Necrotério da Cidade de Nova York – 4:40 PM - Mark Stevens, 55 anos. Causa presumida da morte: infarto agudo do miocárdio. Scully iniciou o exame da primeira vítima. Mesmo diante da perspectiva de três autópsias a serem realizadas e das conseqüentes horas e horas de pé cortando e apalpando cadáveres e pesando vísceras e todas as demais atividades características de uma necrópsia, ela, interiormente, sentia-se aliviada de estar ali no necrotério. No mínimo, eram algumas horas longe do silêncio cruel e do olhar cortante que Mulder insistia em digirir a ela. Mais que isso, seriam horas de trabalho que exigiriam toda a sua atenção e concentração mantendo sua cabeça ocupada demais para ficar se culpando pelos fatos do dia anterior. Com um suspiro, ela pegou o bisturi e começou a incisão em Y. Hotel Plaza, Sala de Segurança – 8:10 AM Mulder tinha os olhos congestionados fixos no monitor. Já estava há tempos assistindo às fitas das câmeras instaladas no corredor do décimo segundo andar, tentando encontrar algo suspeito. "Felizmente, todas as mortes ocorreram no mesmo andar. Já pensou ter que ficar assistindo a esse desfile de camareiras com seus carrinhos de limpeza e hóspedes embriagados que não conseguem acertar a chave na fechadura para mais do que um andar?", ele pensou desalentado. Sua tarde fora gasta interrogando as camareiras e examinando os locais onde haviam ocorrido os crimes. Começava a duvidar se haviam sido realmente crimes. Não havia suspeitos, nem arma. Nenhuma pista. A única coisa que ligava as três mortes era o fato de terem acontecido no mesmo andar do mesmo hotel. Além disso, havia uma peculiaridade entre dois dos corpos: os órgãos reprodutores internos carbonizados, como Scully o havia informado depois de um exame preliminar das vítimas. Ela ainda iria permanecer no necrotério por mais algumas horas para realizar autópsias mais detalhadas. "Scully... Pobre Scully, passando horas e horas de pé, sozinha entre os cadáveres, manipulando-lhes as entranhas malcheirosas, numa sala gelada do necrotério... Scully, coração de gelo, tão à vontade entre os mortos. Talvez aquele seja o seu habitat natural, mulher insensível." pensava Mulder desgostoso. Debatera-se entre a ternura e a mágoa durante todo o dia. Tudo, qualquer coisa o fazia pensar nela, desejar tê-la ao seu lado num momento, apenas para exconjurá-la no instante seguinte, numa dualidade com a qual somente os amantes feridos podem conviver. Amantes? Não, não ousaria qualificar-se dessa forma. Scully o havia ferido, sim, dilacerado seu coração com aquela proposta insensível. Ele, que seria capaz de qualquer coisa por ela, que daria sua própria vida por Scully, fora por ela tratado com tamanha displicência. Ainda ardia em sua mente o pedido dela: "falta apenas um doador de esperma, faria isso por mim?", como se ele não pudesse significar mais nada para ela. "Será que ela ainda não percebeu que eu a amo? Amo mais que tudo, mais que a vida... apenas não sei como confessar..." Sua atenção foi atraída de volta ao monitor por uma estranha distorção na imagem. Aquele tipo de distorção já havia acontecido em uma das fitas anteriores, mas ele julgara ser má qualidade da reprodução. Voltou a fita um pouco e percebeu que, na imagem, havia uma mulher alta andando pelo corredor em direção à câmera pouco antes do fenômeno acontecer. Voltou a fita ainda mais algumas vezes, assistindo com atenção à cena, examinando-a quadro a quadro. Depois, procurou entre as fitas que já havia assistido por aquela que também apresentara a distorção e reparou que, aparentemente, a mesma mulher caminhava em direção à câmera segundos antes da imagem ser distorcida nessa outra fita também. Mulder imaginou quem poderia ser a mulher. Era óbvio que as três vítimas estavam no Hotel não só a negócios, mas para encontros. Na mesma hora, pegou o telefone e ligou para a recepção pedindo para falar com o Sr. Richardson. - Quem deseja? – perguntou o recepcionista. – Agente Mulder! - limitou-se a responder. – Um momento, por favor, senhor. – O que aconteceu, agente Mulder? – foi a resposta do gerente, instantes depois. – O senhor poderia vir até a sala de segurança? – Em um minuto, agente. Sala de Segurança do Hotel – 8:17 AM – Pois não, agente Mulder. – disse o homem ao entrar. - O que descobriu afinal? - Senhor, reconhece essa mulher que está aqui? - Mulder perguntou, apontando para o monitor que exibia a imagem congelada da mulher misteriosa, enquanto olhava fixamente para Richardson. O gerente do hotel olhava para o monitor com ar atônito. Piscou os olhos algumas vezes, depois os estreitou, como se tentasse focalizar melhor a imagem na tela. Um instante depois, sua fisionomia mudou, ficou pálido como se estivesse vendo um fantasma em sua frente. Mulder percebeu, então, que, realmente, havia algo mais no caso que o Sr. Richardson sabia e não queria revelar. – O senhor está bem? Parece que viu um fantasma! Pode me dizer quem é essa mulher afinal? O senhor a conhece, não? O gerente tirou um lenço do bolso e começou a passá-lo pela testa, num claro sinal de nervosismo. - Bem... – começou reticente. – Agente Mulder... É que... eu não queria acreditar no que eu imaginava ter visto e, muito menos, no que está gravado nesta fita que eu estou vendo aqui... agora! - Mas o que é, senhor? - perguntou Mulder incisivo. - Essa mulher que o senhor está vendo... – disse, apontando o monitor. - Era uma cliente desse Hotel há muito tempo. Ela era uma garota de programa muito requisitada por todos os homens da alta sociedade como... acompanhante. Você me entende, não?!?! - Sim, claro. – Mulder concordou com a cabeça. - Quanto havia algum evento importante, o nosso recepcionista entrava em contato com essa moça que fazia o serviço de acompanhante. Ocorre que em um desses encontros, ela foi... – o homem mais velho calou-se por um momento e inspirou profundamente, como se tomasse coragem para prosseguir. – ...foi encontrada morta em um dos quartos onde ocorreram essas mortes que vocês estão averiguando. - Por que não nos disse ou à polícia? – indagou Mulder, erguendo a sobrancelha. - É que eu não dei muita importância para isso. O caso dessa moça foi abafado e nós continuamos em frente. Isso foi há muito tempo, eu ainda era apenas recepcionista, neste hotel. Pediram-me para ficar calado e eu fiquei. Estava apenas começando minha carreira, tinha grandes ambições, entende? Mulder acenou com a cabeça, encorajando o homem a continuar sua estória. Apesar do forte ar condicionado da sala de segurança, grossas gotas de suor rolavam pela face de Richardson que esfregava as mãos nervosamente. "Nervoso demais...", ponderou Mulder. - Agora, depois que o primeiro assassinato ocorreu, eu também não me preocupei, afinal era só um caso de infarte e eles ocorrem todos os dias, não é mesmo? Só que depois ocorreram dois e eu... o proprietário achou melhor recorrer ao FBI... Não queremos a imprensa envolvida e... Mas parece que o senhor encontrou algo, não é? - É o que parece, senhor. – Mulder disse distraído, imaginando que o homem não havia lhe contado tudo. - E agora? O que o senhor irá fazer? - Bom, isso parece um Arquivo X... Muito interessante! O senhor sabe se essa moça tinha parentes ou amigos próximos? - Não, que eu saiba. – o homem respondeu evasivo. - Mas isso foi há tanto tempo... quero dizer... - O senhor pode me dizer como ela morreu? – Mulder interrompeu. - Sim. Bem... achei meio estranho, mas... sei lá. Tudo pode acontecer, não é? - Sim, e como pode! - Bem... a garota veio até aqui para um programa com um alto executivo. O estranho é que quando o camareira entrou para limpar, não havia sinal de nada, como arrombamento, roubo ou algo desse tipo. Apenas os corpos. O da garota e do executivo. Mas quando a camareira saiu do quarto para chamar o gerente... não sei ao certo como explicar, parece que houve uma descarga elétrica ou sei lá o que era aquilo. - O quê, por exemplo? Parecia-se com o quê? - Mulder começou a ficar intrigado. - O hotel ficou sem energia por alguns minutos. Quando voltou, parecia que os dois corpos haviam sido atingidos por um raio... Havia uma espécie de corrente elétrica ao redor dos dois corpos. No da garota... estava... bem, nas partes íntimas dela. No executivo também! O que eu não entendo é que... Como isso pode ocorrer? Na época, fiquei com a impressão de que a moça havia sofrido um estupro muito violento por parte do executivo. O que eu penso é que ele a violentou e daí em diante... sei lá! - O senhor está dizendo que o executivo a violentou e, por uma força "sobrenatural"", não sei como... ele foi morto com uma descarga elétrica? É isso o que o senhor acha? Ou melhor... é por isso que o caso foi abafado? - Sim, foi. – concordou Richardson com um suspiro. - Ok! Só que a causa da morte, na autópsia do executivo, foi um ataque cardíaco, como o senhor disse, ou algo simples para uma pessoa de certa idade, não é? O gerente concordou com a cabeça. Tinha uma aparência confusa, levemente assustada. O suor começava a empapar-lhe a camisa branca. O cérebro de Mulder funcionava com velocidade alucinante, tentando conectar os fatos e formular teorias. - Mais uma coisa, o corpo da moça... o que aconteceu? Ninguém o reclamou? - Ele... desapareceu misteriosamente do local. – respondeu o homem em voz baixa. - Ok, senhor. Terá que me ajudar com algumas informações sobre o recepcionista e, de acordo com essas informações... espero, chegaremos até o paradeiro da mulher misteriosa, o porquê dela executar suas vítimas dessa forma e como ela desapareceu do local sem deixar vestígio! - Mas.. como pode ter certeza de que há relação entre os casos? Essa mulher está morta há mais de vinte anos e... - É o que vamos descobrir. – Mulder cortou. – Obrigado, sr. Richardson. Agora se me der licença... Irei para o meu quarto, pois trabalhei muito nessas fitas. Tudo o que eu quero é um bom banho. Depois, tenho que colocar a minha parceira a par disso tudo. - Tudo bem. – respondeu o homem. - Se eu precisar de algo... vou até a recepção. Ah! – acrescenteu Mulder. - Ia me esquecendo, não comente isso com ninguém certo. Principalmente com o recepcionista. - Pode deixar. - Obrigado mais uma vez. Agora tenho que ir. A noite promete muito. - Senhor Mulder! Como o senhor pretende pegar o criminoso? - Bom, eu terei que pedir uma acompanhante, o senhor me entende? - Mulder riu malicioso. - Ah! Mas e sua parceira? - Ela não irá se incomodar. Ela nunca se importou. – disse magoado. – Não se preocupe. O importante é que não haja mais assassinatos. O senhor verá. Pegaremos todos... e isso vale para um espírito muito rebelde e vingativo. – completou com ironia. - Acredita nisso? – o homem perguntou incrédulo. - Por tudo que tenhos visto e vivido, acredito em qualquer coisa, senhor. – respondeu rapidamente e saiu, deixando atrás de si um Richardson boquiaberto. Hotel Plaza, Quarto 1207 – 9:30 AM Scully, estava por mais de 24 horas sem dormir. Entrou no quarto. Sem pensar muito no que fazia, jogou os sapatos longe e caminhou para o banheiro, desabotoando a blusa. Colocou a banheira para encher e olhou-se no espelho. As olheiras em seu rosto evidenciavam o cansaço das muitas horas acordada. Pior que o cansaço era a angústia que a dominava pela situação não resolvida com Mulder. Suspirou desalentada. Voltou ao quarto onde ligou o rádio. Terminou de se despir e colocou um roupão do Hotel. Do frigobar, escolheu um refrigerante ligth e voltou para o banheiro. Acrescentou um pouco dos sais coloridos contidos nos vidros na banheira cheia da água morna. Deixou cair o roupão e entrou na água. Uma agradável sensação de alívio tomou conta de seu corpo exausto, tão cansado que parecia se desfazer, naquela água morna e tão reconfortante. Ela recostou a cabeça na borda, afundando um pouco mais o corpo na água, relaxando, deixando-se envolver pela carícia da espuma de banho. Sem perceber, adormeceu em seguida. Mulder também estava cansado, parado no corredor, meio perdido, sem saber o que fazer. Foram mais de 24 horas sem dormir e sem se alimentar decentemente. O chamado do corpo era mais forte. Decidiu, então, ir para seu quarto e tomar um banho para relaxar. As agulhadas do jato de água morna do chuveiro o ajudaram a colocar um pouco as idéias em ordem. Precisava conversar com Scully. Aquela situação de tensão não podia permanecer entre os dois. "É ruim para o andamento de nosso trabalho. É ruim para o andamento de MINHA VIDA.", concluiu. Banho tomado, ele vestiu qualquer coisa e, apesar do cansaço, foi até a recepção do hotel, decidido a resolver de uma vez por todas a questão. - Sr. Richardson, poderia, por favor, dar-me a chave do quarto 1207? – pediu Mulder ao gerente do hotel. - 1207 é o quarto de sua parceira, a agente Scully, não é? – indagou Richardson, preocupado. Mulder acenou com a cabeça em concordância. – Há algo errado com ela? Precisa de assistência médica? - Não, não há problema algum... – Mulder hesitou. - Não DESSA natureza. - Por que, então, não bate simplesmente à porta? – estranhou o gerente. - Ela não atenderia... – Mulder tinha um ar embaraçado. – Olha, não devo dizer mais nada. Sei que não é o procedimento padrão do hotel, mas PRECISO dessa chave. Há algo que eu preciso fazer lá dentro. Por favor... – acrescentou com ar de súplica. - Ok! Não precisa se explicar, agente Mulder. – disse o gerente, estendendo a chave a Mulder. - Muito obrigado, sr. Richardson. Fico lhe devendo essa. Ah, e se alguém perguntar, diga que eu requisitei a chave como parte da investigação. – ele agradeceu com a chave nas mãos, já se encaminhando para o elevador. - Espere, agente Mulder! – chamou o gerente e interceptando o garçon que passava com um carrinho pela porta lateral, acrescentou. – Leve isso. – disse, com um olhar cúmplice, estendendo a Mulder uma garrafa de champanhe e duas taças, que havia retirado da bandeja – Para o caso de precisar de ajuda em sua "investigação"... Cortesia do hotel! Mulder tomou o elevador, o coração aos pulos. Ficou imaginando o que devia fazer, o que devia dizer. O andar parecia nunca chegar, a viagem demorou uma eternidade. Depois de tudo o que houvera, Mulder não estava bem certo sobre o que dizer. "Vou dizer que a nossa amizade é mais importante do que tudo para mim, pedir desculpas. Digo que não deveria ter falado tudo aquilo, que estava magoado, que se ela ainda o quiser terei prazer em ser o doador, mesmo que não por meios naturais. Será que ela vai entender?" Um som de campainha indicando que o elevador finalmente chegara ao 12º andar interrompeu os devaneios de Mulder. Ele saiu e caminhou em direção ao quarto 1207, sabendo que ela podia estar dormindo, ou simplesmente não querer falar com ele. "Vou, simplesmente, surpreendê-la! Vou dizer que a amo." pensava cheio de convicção. Abriu a porta do quarto com cuidado para não assustá-la de imediato. Podia ouvir as batidas de seu coração descompassado dentro do peito. Sentiu- se como um adolescente que prepara uma declaração de amor para a garota mais bonita do colégio que deseja que se torne sua primeira namorada. Ao entrar no quarto, pé ante pé, chamou por Scully baixinho. Não houve resposta. Percebeu que ela não está na cama e observou que a porta do banheiro estava entreaberta. Ouviu a música que saia baixinho do rádio, Billie Holiday, Body and Soul e sorriu ironicamente, pensando na letra... "I can't believe it It's hard to conceive it That you'd turned away from romance Are you pretending? It looks like the ending Unless I could have one more change to prove, dear My life a hell you're making You know I'm yours for just the taking I'd gladly surrender Myself to you Body and soul" No banheiro, ele viu Scully adormecida em meio à espuma. Tão bela, tão serena! Estendeu o braço no ar, como se quisesse acariciar seu rosto, sem tocá-la. Uma onda de arrependimento o atravessou. Arrependimento pelo que disse e pelo que calou, pela visível angústia que seu silêncio havia provocado nela desde o dia anterior. "Deus, o que foi que eu fiz? Como pude tratá-la daquela forma? Fui tão cruel com ela, tão mesquinho em negar um gesto tão simples a quem já fez tanto, já perdeu tanto por minha causa... Bebedeira não é desculpa para minha atitude grosseira. Espero não ter posto tudo a perder." Em silêncio, ele recuou, sem acordá-la. Sabia que ambos estavam cansados. Então, caminhou até a cama, depositou a garrafa e as taças na mesinha, sentou-se e recostou-se na cabeceira, adormecendo quase sem sentir. ... Scully despertou. Sentiu frio. A água da banheira estava gelada. Ela saiu da banheira e enxugou-se, esfregando-se vigorosamente com uma toalha até se sentir aquecida. Vestiu o roupão que havia deixado caído no chão. Ao entrar no quarto, viu Mulder adormecido sobre a cama. Aproximou-se devagar. Não resistiu à tentação de tocá-lo e deslizou suavemente as pontas dos dedos por seus cabelos despenteados. Mulder acordou, meio assustado. Percebeu, então, aqueles olhos azuis brilhantes sobre ele. – Oi! - limitou-se a dizer Scully. Ela imaginou o que dizer ao homem que ama e que havia magoado tanto. Ao observá-lo dormindo, com aquela barba cerrada e depois fitando-a, com aquele olhar de "vem cá, minha nega", simplesmente não sabia mais o que dizer. Pensara em tantas coisas durante aqueles dois dias... Ele era seu amigo. Não, ele era mais do que isso, do contrário, não teria ficado tão magoado com o pedido dela. Sem querer admitir, depois de tanto tempo, os dois tinham algo. Mesmo sem usar as palavras adequadas, o que havia entre eles era muito mais, mais do que uma linda amizade. Havia algo mais: amor, desejo, paixão. Tudo o que ambos haviam negado a si próprios e um para o outro. Ousou acariciar suavemente o rosto dele, na mente, a lembrança do tapa naquele rosto que ela teve a coragem de ferir. - Me perdoa! – ela continuou. - Eu.. eu... simplesmente não queria que... - Sshh... - Mulder colocou o dedo sobre os lábios dela. O rádio ainda tocava. A música era Time to Make You Mine. Mais uma vez ele sorriu, pensando na letra da música... "Only in my dreams I've seen the way it's gonna be I've waited for this moment The moment when we share ourselves The moment cant't be thought about It has to be felt" - Não importa, Scully. – ele disse suavemente. - Eu não tenho que perdoar você por nada. Você é que tem que me perdoar, pelo que eu disse, pelas minhas atitudes... Scully sorriu e mordeu maldosamente a ponta do dedo de Mulder. – Aiiiii! Scully, o que você está pensando!? Um calafrio percorreu a espinha de Mulder. Os dois se beijaram, suavemente, como dois adolecentes que não sabem bem o que fazer em seu primeiro beijo. Fitaram-se por alguns instantes. Podiam ler nos olhos um do outro todo o desejo e a paixão, as muitas frustrações acumuladas em tantos anos de negação e renúncia. Scully sorriu e novamente acariciou o rosto de Mulder. Deixou que suas mãos deslizassem gentilmente, estendendo a carícia ao pescoço e os ombros fortes. Ainda com olhos nos olhos, ela prosseguiu, tocando- lhe o peito largo escondido pela camiseta. Agora era Mulder quem sorria e tirou a camiseta. Ela inspirou com força. Alisou seu peito desnudo delicadamente, deixando que suas mãos vagassem por cada músculo daquele tórax ainda definido apesar de estar chegando aos 40. Começou, então, a mordiscar e beijar suavemente todo o seu peito, enquanto arrastava as unhas por suas costas, fazendo-o suspirar. Sem o menor constrangimento, ela tirou o seu roupão, revelando-se por inteira para Mulder. E retomou sua tarefa anterior. Lentamente, ela subiu por seus tórax, beijando, mordendo e lambendo, até atingir o pescoço, deixando um rastro de fogo e desejo por onde passava. Provocante, ela deu uma mordidinha na nuca dele. Ele respondeu com um gemido, mas permaneceu estático enquanto cada centímetro de sua pele arrepiada era instigado por aquela boca insaciável. Ela continuou seu caminho, incansável, até chegar ao queixo, onde aplicou uma gentil mordiscada naquela covinha irresistível. Seus lábios se encontraram suavemente em um beijo que parecia uma obra prima em movimento. Uma sensação de perfeição tomou conta dos dois, como se fossem um só ser. Sem pressa, Scully, recomeçou a beijar suavemente o rosto de Mulder, aproveitando-lhe a barba pinicante. Ele sorriu, deleitado como uma criança que acaba de comer chocolate pela primeira vez. Ela continuou mordendo e beijando, as orelhas, as dobrinhas, até novamente chegar-lhe ao pescoço. Ele suspirou, ela suspirou. Passou então a trabalhar seus braços e todo o tórax novamente, sempre com a mesma rotina de mordidas e beijos e círculos traçados pela língua ávida. Ele tinha os braços estendidos ao longo do corpo, as mãos espalmadas, tensas de prazer. Ela chegou ao abdomem, ainda torturando-o com seus beijos e mordidas, redesenhando o traçado de cada músculo com a língua. Parou na linha da cintura, onde aplicou um beijo tão suave que seus lábios mal tocaram a pele. Ele soltou um gemido que vinha do fundo do peito e enterrou as mãos nos cabelos ruivos de sua algoz que recomeçou a trilha de beijos e mordidas em direção à parte traseira de seu corpo. Finalmente, chegou às nádegas dele. "Deus, como são maravilhosas, perfeitas! Como eu sonhei com isso!", ela pensou. Não resistiu e tascou-lhe uma mordida mais forte do que ele poderia esperar. - Ai! – gritou Mulder. - Quieto, Mulder. Você não sabe o quanto esperei por isso. – ela falou sem interromper sua tarefa. - Ah, eu também, Scully. Eu também. - retrucou Mulder, com um suspiro. – Continue, por favor. – ele pediu com a voz mais safada do mundo. Scully não se fez de rogada e continuou explorando o corpo maravilhoso de Mulder com a boca, os dentes, os lábios. Ela percorreu com a língua toda extensão de suas longas pernas bem torneadas. Mulder agarrou- lhe os cabelos, murmurando palavras desconexas. Ele estava em êxtase. Nunca, em toda sua vida pensou, que seus sonhos com Scully pudessem se tornar realidade. Ela mordeu-lhe a dobra do joelho, fazendo-o delirar. O pênis dele estava entumecido pelo desejo. Scully sentiu-se feliz. Feliz porque ela estava fazendo aquilo com ele. Porque era por ela que o corpo dele clamava. Porque era por Scully que Mulder encontrava-se nessa entrega sem fim. Ela agora seguia o caminho inverso e ia aplicando seus beijos e mordidas dos pés à cabeça. Mulder a segurou fortementemente. - Ah, Scully. – ele gemeu. - Você quer me matar? Ela sorriu e, antes que pudesse responder, Mulder começou a explorar seu corpo do mesmo modo como ela fizera com ele antes. Ele mordeu sua orelha, seu pescoço, alternando beijos, mordidinhas suaves e mordidas um pouco mais fortes. Era a vez de Scully ficar arrepiada. Ela se deixou levar pelas sensações, enquanto Mulder, com as mãos e a boca, acariciava todo o seu corpo. Do pescoço, ele desceu aos seios e passou ao rosto, num vai-e- vem sem destino certo, a aspereza da barba por fazer, arranhando a pele macia do peito dela. A suavidade da pele dela constrastando com a leve aspereza do rosto dele, fazendo Scully gemer baixinho. De prazer... ... Subitamente, um um trovão rompeu o silêncio. Scully acordou assustada, ainda na banheira. Uma lágrima escorreu por seus olhos ao perceber que tudo aquilo, aqueles momentos maravilhosos não passaram de um sonho. Ela se levantou e colocou o roupão. Caminhou pesadamente para fora do banheiro, toda a angústia de sua situação não resolvida com Mulder voltando-lhe a cabeça. Surpreendeu-se ao encontrá-lo, dormindo em sua cama. Parou por um segundo, parecendo não acreditar no que via. De súbito, se deu conta de que o sonho que tivera poderia ser um aviso. Um aviso que a fez perceber o quanto precisava daquele homem e quanto tempo haviam perdido naquele jogo sem sentido de negar o que sentiam, renunciando ao desejo que os consumia. Refletiu no quão equivocada fora a proposta que fizera ao homem que amava, sem ao menos terem discutido seus sentimentos antes. Reparou na garrafa de champanhe e nas taças na mesa junto à cama e na hora, marcada no despertador, 2:14 da madrugada, e resolveu não acordá-lo. Sentou-se numa poltrona confortável próxima à janela e adormeceu em seguida, com os olhos fitos no homem adormecido na cama. Algumas horas mais tarde, ela despertou, assustada, dolorida da posição na poltrona, e percebeu que Mulder gemia baixinho. Aproximou-se silenciosa e notou a face transfigurada dele. Parecia estar sonhando, seus gemidos aumentando de volume enquanto ele se contorcia sobre os lençóis. O que, a princípio, parecia um sonho, começou a ficar mais real. Scully estava paralisada, não podia acreditar que Mulder estivesse ali, em sua cama, suspirando baixinho enquanto suas mãos se perdiam em carícias pelo próprio corpo. Enrubesceu instantaneamente, sem saber como agir e recuou alguns passos. Virou-se de costas e respirou fundo várias vezes. Encaminhou-se para o banheiro, perdida em conjecturas, não sabia o que pensar ou como agir. Abriu a torneira e lavou o rosto na água fria, tentando dar um rumo aos sentidos tumultuados. Ouviu um ruído no quarto e relutou em seguir até lá, não imaginava o que poderia encontrar. Respirou novamente e tomou coragem. Ao chegar à porta, contudo, estacou de súbito, havia outras pessoas ali. Por um milésimo de segundo, pareceu divisar os contornos de um corpo feminino que deslizava languidamente sobre o parceiro, mas a visão não durou, a porta do quarto se abriu e ela viu um homem parado diante dela, caminhando sorrateiramente pelo quarto mergulhado na penumbra, até chegar junto à cama quando seu corpo pareceu entrar em convulsão. - O que está fazendo? - Scully gritou, sua voz se soltando quando percebeu a intenção do homem. - Pare aí! - continuou dirigindo-se para a cabeceira da cama, onde havia colocado sua arma. Mulder acordou assustado, pulou da cama e começou a sentir calafrios pelo corpo, alternados por ondas de calor, seus corpo tremendo como se tivesse levado um choque. - Você também a quer, nâo é? - gritava o homem, que eles reconheceram como o gerente do hotel. - Todos a querem! Todos vocês, porcos imundos! Vocês a mataram, com sua luxúria! Seus monstros assassinos! - berrava completamente fora de controle. - Mas eu vou vingá-la de todos! Todos vocês! Um por um, animais insensíveis. O corpo do homem começou a vibrar e, por algum motivo desconhecido, o corpo de Mulder foi suspenso no ar e jogado longe, batendo na parede contrária. Scully não pensou um segundo antes de agir. Com a arma em punho, atirou no homem, vendo-o cair desacordado. Correu até o parceiro e sacudiou-o de leve. Mulder abriu os olhos e fitou-a atordoado. - O que aconteceu, Scully? O que é isso? Eu estava... quer dizer... acho que dormi e... quando acordei... esse homem... O que ele fez? - Você está fazendo muitas perguntas, Mulder. Está bem? Ele balancou a cabeça, apoiando-se nela para levantar-se, enquanto o quarto era invadido pelos empregados do hotel. A polícia foi acionada. O gerente do hotel levado ao hospital para tratar do ferimento no ombro. Mulder também teve de aceitar, por insistência de Scully, ir até o hospital para verificar se a pancada na parede não havia causado nenhum problema interno. Hospital Memorial - É incrivel, Mulder! - Scully disse, após ouvir a estória do parceiro, mais tarde no hospital. - Mas como ele podia fazer isso? Não entendo? Simplemente, não é possível... - O senhor Richardson era o recepcionista que encaminhava a garota para os hóspedes. Era irmã dele. Segundo eu pude averiguar, ela foi morta por um dos hóspedes, durante um programa que acabou se transformando num estupro. Richardson foi o primeiro a entrar no quarto e, não me pergunte como, Scully, mas ele fritou o homem com uma descarga elétrica que fez com que seu coração parasse. - Mas e aquelas imagens gravadas em vídeo? A mulher? Um fantasma apareceu ali? Você está brincando, não é, Mulder? – Scully indagou incrédula. - Isso eu não posso explicar, Scully. Existem diversos casos de registros fotográficos de espíritos. Se Richardson não houvesse destruído as fitas achando que poderiam incriminá-lo, poderíamos enviá-las para análise no laboratório de imagens do Bureau. Mas agora... Não temos mais nada. E ele? Como está? Como ele fez aquilo comigo? – acrescentou Mulder, imitando com a mão os movimentos de levitar e arremessar contra a parede. - Os exames que fizeram no Sr. Richardson constataram que o corpo dele possui uma capacidade única de transmitir energia eletrostática. Ele funciona como uma espécie de pára-raios ou sei lá o quê! - Vamos, parceira! - Mulder interrompeu colocando a mão sobre o ombro dela. - Ainda temos uma noite nesse hotel maravilhoso e eu estou exausto. Scully não estava mais preocupada com o caso, sua completa atenção voltada para a mão pousada sobre seu ombro, assim como, para o tratamento carinhoso implícito na voz do homem ao seu lado. Mulder não mais parecia magoado com ela. Talvez não se lembrasse mais do seu pedido, mas... Não importava. Teriam tempo de voltar a esse assunto, quanto ela trataria de se desculpar e pedir que ele esquecesse aquilo. No momento, bastava que ele não a ignorasse como vinha fazendo durante os últimos dias. Hotel Plaza Um pouco mais tarde Mulder e Scully chegaram ao hotel, que parecia já haver sido totalmente reorganizado. O quarto onde ocorrera o incidente com Richardson já estava limpo e arrumado. Encontraram o proprietário do hotel que os cumprimentou pela resolução do caso, assim como, pela discrição que tiveram. - Senhores, nosso hotel se sentiria honrado em oferecer-lhes um jantar e nos colocamos à disposição para o que vierem a desejar. - Obrigada, senhor. – respondeu Scully resoluta. – Não fizemos mais do que o nosso dever, então... Apenas gostaríamos de descansar para voltarmos a Washington pela manhã. - Sim... É isso. – Mulder concordou, lembrando-se do que ocorrera quando pedira ao gerente para lhe dar a chave do quarto de Scully. Subiram até seus quartos e despediram-se no corredor. - Até amanhã, Mulder. – Scully começou. – Sairemos às oito? - Sim... quero dizer... A diária termina ao meio dia... Bem... só para saber... caso queira desfrutar de um pouco mais desse luxo. – completou sorrindo. Scully negou, abaixando a cabeça e esboçando um sorriso. - Às oito está bom – disse, fechando a porta atrás de si. Scully tomou um banho e deitou-se, estava exausta, mas tranqüila. O tempo em que estiveram investigando o caso a fez esquecer o temor que rondava seus pensamentos. Mulder voltara a agir como antigamente, mas ela sabia que havia um assunto pendente entre eles, porém... Como já ocorera inúmeras vezes, talvez pudessem continuar agindo como se nada houvesse acontecido. Apesar do cansaço, contudo, não conseguia dormir. Uma imagem voltava à sua mente como em uma tela... uma fotografia e ela sorriu. Não era ela quem possuia memória fotográfica, todavia, a cena de Mulder deitado em sua cama... os olhos fechados... as mãos deslizando pelo corpo... Era algo arrebatador demais para que ela não se recordasse... em todos os detalhes. Levantou-se, caminhando pelo quarto. Foi até a janela e divisou o Central Park à sua frente. Que maravilhosa vista tinha dali. As folhas caindo lentamente, formando um tapete vermelho sobre as ruas e alamedas. As luzes pálidas iluminavam nichos onde os namorados caminhavam abraçados ou estacavam para um beijo apaixonado. Deixou-se passear por ali mentalmente. Sentia a brisa fresca sobre a pele abrasada pelos pensamentos que teimavam em aflorar. Quase podia perceber o contato úmido das folhas, cobertas pelo orvalho, acariciando seus pés descalços. Ali poderia descarregar as tensões do dia, sentar-se à beira do lago e contemplar as pessoas que iam e vinham, tranqüilas em seu momento de prazer e descanso. O sol tombava seus últimos raios sobre o local. Muitos se dirigiam para a saída em busca do aconchego e abrigo do lar. Aquela imagem gravou-se em sua mente e ela sentiu-se mais calma. Virou a cabeça para o lado oposto e sorriu. Mulder entrou no quarto contrariado. Havia ensaiado um milhão de vezes o que diria a Scully quando tivesse oportunidade, mas seu destemor soterrava- se novamente no fundo de seu peito. Simplesmente não pudera pensar em nada para entabular a conversa que eles urgentemente precisavam ter, antes que tudo mergulhasse novamente na dúvida. Tirou as roupas e foi até o banheiro. Tomou um banho ligeiro, abriu o frigobar e pegou uma água. Com a toalha sobre os ombros, seguiu para a varanda, vendo o sol desaparecer lentamente. Os raios refletidos sobre as árvores quase nuas do outono, cujas folhas forravam o chão de tons alaranjados, trouxe-lhe à memória a imagem da parceira. Seria capaz de sentir a presença dela em cada imagem formada em sua mente e, ali, naquele retrato pintado pela natureza, estavam o colorido dos cabelos dela, aliados ao azul de seus olhos, refletidos pelo céu que mergulharia em poucos minutos na escuridão. Virou a garrafa de água nos lábios e sentiu-se atraído pelo olhar que o fitava insistente. Seus lábios se abriram num sorriso cândido enquanto seus olhos se abriram mais para memorizar o perfil de Scully iluminado pelo sol. - Oi. – ela disse simplesmente. - Oi. – ele respondeu. - Eu... não consigo dormir com essa vista maravilhosa. – ela completou, imaginando qual das visões mais a impressianavam, o parque ou o parceiro. Ela voltou-se, tencionando voltar ao quarto, mas a voz dele a impediu. - Fica! – ele falou convicto. – A vista não é a mesma sem você na sacada. – ele arriscou, espantado com a própria ousadia. Scully sorriu timidamente e também decidiu ousar. - Há um lugar no parque que eu gostaria de ver, mas aquela árvore - ela apontou, – me impede ... - Ah! – ele sorriu cínico – Daqui eu consigo ter uma vista completa... - Bom... – ela fingiu desalento. – É uma pena que seja tarde demais para pedirmos que troquem os quartos. - Scully... – ele suspirou. – Acho que há espaço bastante para nós dois aqui – completou encolhendo-se mais no canto. - Eu já estou de pijama... Acho que não seria... conveniente num lugar luxuoso desses... - Os ricos são excêntricos, Scully, e... eu posso dar cobertura! – ele complementou debochado. Ela sorriu e voltou para o quarto. Mulder correu até a porta e, ao abri-la, ela já se encontrava na soleira, com um brilho infantil nos olhos. Ele a puxou para dentro, colocando a cabeça para fora e medindo o corredor. Virou-se, então, e falou em tom de confidência. - Acho que sua reputaçao está a salvo, parceira. – ela riu. – Acho que ninguém percebeu a manobra. Após a descontração, ambos ficaram quietos, parados, fitando- se sem saber o que dizer e os minutos pareceram horas, até que Mulder quebrou o silêncio. - Scully, eu... - Mulder – ela interrompeu – Deixe-me falar primeiro. Mas ambos começaram juntos. - Me perdoe! - falaram ao mesmo tempo. Risos. - Eu cometi um erro pedindo aquilo a você, Mulder. - Não, Scully, eu é que cometi um erro na maneira como recebi seu pedido. - Eu não queria que me considerasse leviana ou que estivesse exigindo algum pagamento pelos anos que passamos juntos... É que eu... Mulder aproximou-se dela. - Eu não tinha o direito de recusar seu pedido... só que... - Eu não queria que fosse assim. - ambos falaram juntos novamente. Mais risos. Mas, desta vez, eles estavam apenas a alguns centímetros de distância um do outro. Mulder estendeu o braço para acariciar o rosto dela. - Eu não gostaria que outro homem fosse o pai... – ela falou mansamente, fechando brevemente os olhos para saborear a carícia. - Eu não gostaria que você tivesse pedido a outro ou escolhido num supermercado. Ela achou graça. - Acho que discordamos apenas do método, não é? - ela falou timidamente, sentindo diminuir cada vez mais a distância entre eles. - Não. - ele murmurou próximo ao ouvido dela. - Acho que não há outro método. Ela fitou-o com ar indagador, a sobrancelha erguida em sinal de dúvida. - Então...? - Apenas acho que seria conveniente, para não dizer imprescindível, que meu filho gostasse do marido que a mãe dele escolheu. Os olhos de Scully brilharam. - O que... o que... quer dizer com isso? - Que você devia fazer o pedido direito... - ele terminou com ar de menino, enterrando os dedos na nuca dela. Scully o fitou por alguns instantes, parecendo não compreender e então seu semblante iluminou-se. - É o que estou pensando? - ela perguntou sorrindo. Ele apenas balançou a cabeça em sinal de aprovação. - Você é bastante contraditória, às vezes. Sua formação religiosa não aprovaria um pedido desses... - Mas a formação científica sim. - E qual vai dominar? - ele perguntou num sussurro. Scully fechou os olhos, respirou fundo e voltou a encará-lo com os olhos profundamente mergulhados na fisionomia dela. - Mulder... - ela riu de novo. - Você... - respirou novamente e abaixou a cabeça para depois voltar a fitá-lo - Sabe? Isso também não faz parte da minha formação religiosa. - Estou esperando... - ele interrompeu com ar de repreensão, extinguindo a distância entre eles. Ela colocou as mãos trêmulas sobre os braços dele. - Quer casar comigo? - terminou de sopetão, encondendo o rosto no peito dele. - Achei que nunca ia pedir. - ele completou, levantando o rosto dela com a mão e cobrindo-lhe os lábios com os seus. Foi um beijo longo quase que eterno. Quando as bocas se separaram, eles olharam-se nos olhos por alguns instantes. O azul do mar nos olhos de Scully agitava-se em poderosas vagas. Mulder sentia-se tragar por eles para as profundezas do oceano. Então, ele a pegou no colo, ela riu. Gentilmente, a deitou sobre a cama e, com cuidado, colocou-se ao lado dela, o tronco semi erguido apoiado sobre um cotovelo. Acariciou suavemente seus cabelos e, por vários instantes, ficou a contemplar o seu rosto, estudando seus contornos, memorizando cada covinha, cada ruguinha que se formava em seu semblante quando ela sorria. Scully, por sua vez, fazia o mesmo com o rosto anguloso de seu parceiro, de seu amado. Lentamente, ele aproximou seus lábios da pele quente de Scully, roçando-os suavemente, quase sem tocar, sobre a maciez do rosto feminino, seguindo diligentemente todo o caminho desde o pequenino queixo até as dobrinhas da orelha. Quase sussurrando em seu ouvido, ele disse, finalmente, que a amava. Um calafrio de prazer varreu o corpo da mulher que virou a cabeça para o lado procurando os lábios de Mulder, a boca entreaberta, convidativa. Beijaram-se novamente. Dessa vez, com paixão. Sem interromper o beijo, ele rolou seu corpo, posicionando-se com gentileza sobre o dela. Scully sentia o peso dele sobre o seu, o calor de sua pele... Nossa, era muito bom! Tentou se lembrar de quando havia se sentido daquela maneira antes, mas desistiu. A intensidade do desejo que sentia começava a embotar seu raciocínio. E ambos ficaram curtindo aquele momento, trocando carícias e juras de amor, enquanto exploravam-se mutuamente, para se conhecerem melhor. Lentamente, estudadamente. Já não tinham mais pressa... Algumas horas depois... Na varanda do quarto, Scully estava sentada, abraçando os joelhos, absorta. Apenas o roupão lhe cobria o corpo. Diante dela, descortinava-se o Central Park. Pensava nas horas maravilhosas que passara com Mulder, em todo o tempo que havia perdido. Ao mesmo tempo, recusava-se a pensar no quanto sua vida iria mudar dali para frente. Estava aturdida e confusa outra vez. Ainda que feliz. Então, Mulder chegou, lindo de short de seda com estampas do piu-piu e frajola, segurando uma taça grande com sorvete. – No que você está pensando, Scully? – disse sentando-se em frente a ela, com as pernas cruzadas. Colocou um pouco de sorvete na colher e, em seguida, a levou até aquela boca que havia possuído horas antes. Ela se deixou levar pelo momento. Saboreou o sorvete, como havia saboreado o homem que o oferecia. Percorreu seus joelhos suavemente com as mãos. Inclinou-se sobre seu peito, recostando a cabeça. – No quanto eu te amo. Em todo o tempo que perdemos... – ela respondeu, em voz baixa. - Mas que sorvete maravilhoso é este? – Sorvete de flocos com licor de Amarula. Ele a segurou pelo queixo e ergueu-lhe gentilmente a cabeça. Seus olhos se encontraram. - Eu também te amo, Dana... Os dois então se entregaram a um beijo apaixonado. FIM Time to Make you Mine Momento de Te Fazer Minha Only in my dreams Apenas em meus sonhos I've seen the way it's gonna be Vi o modo como vai ser I've waited for this moment Esperei por esse momento The moment when we share ourselves O momento quando nos daremos um ao outro The moment cant't be thought about O momento sobre o qual não se pode pensar It has to be felt Deve ser sentido We're closer to each other Estamos mais próximos um do outro Closer than we've ever been Mais próximos do que jamais fomos Seeing things, things we've never Vendo coisas, coisas que jamais seen before vimos antes I've dreamed your fingers touch me Sonhei que seus dedos me tocavam a thousand times um milhão de vezes Dreamed the warm skin of your body Sonhei com a pele quente de seu burning next to mine corpo queimando junto à minha Kissed your sugar lips, carressed Beijei seus doces lábios, acariciei your hips seus quadris Now we're together, baby, now it's time Agora, estamos juntos, meu bem, agora é chegado o momento Time to make you mine O momento de te fazer minha Time to make you mine O momento de te fazer minha The sweet anticipation of hands A doce antecipação das mãos I know will touch me soon que sei em breve irão me tocar Two fascinating shadows move in time Duas sombras fascinantes movendo- se no momento certo Spoken... Falado... I know what it's gonna be Sei como vai ser Me and you you and me Eu e você, você e eu I thought that it would never be Pensei que nunca seria assim I only knew it in my dreams Sabia apenas em seus sonhos Even though you're here with me Mesmo que você esteja aqui comigo I never thought I'd feel such ecstasy Nunca imaginei que eu fosse sentir tal êxtase We're closer to each other Estamos mais próximos um do outro Closer than we've ever been Mais próximos do que jamais fomos Seeing things things we've never Vendo coisas, coisas que jamais seen before vimos antes Body And Soul De Corpo e Alma My heart is sad and lonely Meu coração é triste e solitário For you I cry Por você eu choro For you, dear, only Por você, querida, apenas Why haven't you seen it Por que você não percebeu I'm all for you Que eu sou todo seu Body and soul De corpo e alma I spend my days in longing Passo meus dias em saudades And wondering why E imaginando por que It's me you're wronging É comigo que você está sendo injusta I tell you I mean it Digo a você que falo a verdade I'm all for you Eu sou todo seu Body and soul De corpo e alma I can't believe it Não posso acreditar It's hard to conceive it É difícil conceber That you'd throw away romance Que você tenha desdenhado o romance Are you pretending? Você está fingindo? It looks like the ending Parece que é o fim Unless I could have one more A menos que eu possa ter mais uma change to prove, dear chance de provar, querida My life a hell you're making Você está fazendo de minha vida um inferno You know I'm yours Você sabe que sou seu, for just the taking é só me tomar I'd gladly surrender Eu me renderia alegramente Myself to you A você Body and soul De corpo e alma Life's dreary for me A vida é sombria para mim Days seem to be long as years Os dias parecem longos como anos I've looked for the sun Olhei para o sol But can see none Mas não vi nada Through my tears Através de minhas lágrimas Your heart must be like a stone Seu coração deve ser de pedra To leave me like this alone Para me deixar assim, sozinho When you could make my life Quando você seria capaz de fazer worth living minha vida valer a pena By taking what I'm set on giving, Tomando o que tenho para oferecer, sweet heart meu bem My heart is sad and lonely Meu coração é triste e solitário For you I cry Por você eu choro For you, dear, only Por você, querida, apenas I tell you I mean it Digo a você que falo a verdade I'm all for you Eu sou todo seu Body and soul De corpo e alma