Título: Sem Barreiras Autora: Disguised Girl E-mail: disguised@globo.com Sem Barreiras Mulder não sabia o que deveria sentir, mas sabia o que sentia. Raiva. Ele se sentia traído e por ela. Como Scully podia ter feito algo assim? Como ela podia ter seguido justamente o Canceroso, simplesmente porque ele lhe havia dito que o fizesse? Sim, era uma traição, mesmo porque aquela cruzada pertencia a ele. E Scully havia agido sem sequer pensar nos seus sentimentos. Enquanto dirigia para casa, Mulder se remoía em seus pensamentos e sua contradição de sentimentos. De um lado havia ficado aliviado que ela não havia se ferido, mas de outro lado sentia uma ponta de satisfação com seu fracasso. Era como se somente ele pudesse ir a frente das investigações e somente ele pudesse sair vencedor, mesmo que isso fosse raro. Seu pensamento era machista e retrógrado, mas ele não conseguia deixar de pensar isso. Claro que ele sabia que Scully era capaz. Na verdade, pelo que ela lhe contara, ela havia seguido algumas regras quando acompanhara o Canceroso. Havia tentado manter-se em contato com Mulder, pelo menos. Havia também deixado Skinner saber que estava tudo bem. Mas, no geral, isso fôra a única coisa certa que ela havia feito. Deixar seu parceiro às escuras foi seu maior erro. Ela podia ter morrido, droga! Quanto mais pensava nessa possibilidade, mais Mulder se irritava. Queria esquecer tudo isso, deixar o tempo passar e tudo voltar ao normal. Mas não podia fazer isso, tinha que falar com ela. Tinha que lhe dizer o que sentia... xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Scully estava cansada de tudo, não só fisicamente, mas mentalmente. Haviam sido dias terríveis desde que decidira sair em busca de uma verdade que era mais obscura do que parecera ser a princípio. Porque o Canceroso a enganara daquele jeito? E como a enganara tão facilmente? Ela se perguntava o que havia se passado em sua mente para deixar Mulder e ir em busca daquela verdade. Cura de todas as doenças? Ok, isso era um ótimo motivo, mas ela não sabia do que se tratava quando entrou no carro com o Canceroso. Ela não sabia para onde iria nem porque estava indo. Ainda se perguntava seus reais motivos. Teria sido para provar a Mulder que era capaz de fazer seu trabalho sozinha? Se havia sido esse o impulso, então ela podia dizer adeus a seu respeito próprio. Nesse momento, aos olhos de seu parceiro, dos LoneGunMen e de Skinner ela não passava de uma mulher que agira de impulso sem medir as consequências. E o pior, seus argumentos para mostrar as razões que a levaram a acreditar no Canceroso eram pálidos, até mesmo para ela. Intuição? Os olhos dele mostravam que ele falava a verdade? Nem ela própria acreditava na sua ingenuidade. Ou na sua estupidez. Havia sido usada, e agora se sentia desacreditada perante todos. Bem, nada restava senão deixar o tempo passar. Mas o dano estava feito, ela tinha certeza. Se ao menos Mulder conversasse com ela.... xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx A batida da porta a surpreendeu. Ela não estava dormindo, apesar de ser bem tarde. Quando abriu a porta não se surpreendeu. Era Mulder. _ Oi Scully. Desculpe se é tão tarde. _ Não, Mulder. Eu não estava dormindo. Entre. Mulder entrou no apartamento, mas não se moveu além da porta. Não se sentia confortável. E Scully parecia tão desconfortável quanto ele. Isso jamais havia acontecido. Bem, uma única vez, quando Scully havia encontrado aquele sujeito, Ed. Mas isso eram águas passadas. Desde aquela época o relacionamento dos dois havia mudado muito, apesar de nenhum dos dois conseguir demonstrar suas próprias emoções. _ Scully, eu sei que eu já perguntei isso, mas agora nós estamos sozinhos, e estamos mais calmos. Porque você acreditou nele? Novamente essa pergunta. Ela estava cansada. Cansada de ter que explicar suas ações quando nem mesmo Mulder explicava as dele. De fato, ele sempre agira como bem entendia, deixando-a sem saber o que estava ocorrendo. E ela sempre surgia para tirá-lo das encrencas que se metia. _ Porque você insiste em perguntar isso? Você mesmo tantas vezes acreditou nas pessoas erradas! _ Não nele, droga! Nunca nele. Scully, você não vê? Esse homem só tem mostrado mentiras, sempre destruindo tudo o que toca. Você sabe disso, tanto quanto eu. _ Ele parecia estar dizendo a verdade, ele está doente, podia ter mudado. Ela própria se sentia fraca em seus argumentos. Havia errado e era difícil se defender sabendo que estava errada. _ Mudado????? Você... Em que mundo você vive??? Você acredita que só porque alguém está doente vira um santo? Ele não vai mudar, e o que ele fez nunca vai ser mudado! _ Mulder, escute, eu não acreditei nele completamente, você sabe disso, eu tentei entrar em contato com você. _ E não achou que ele iria prever isso? Vamos Scully, ninguém pode ser tão ingênuo. Deus, o que ele estava pensando? Porque tinha sempre que caminhar pela estrada da traição? Porque jamais confiava nela? _ Ok, Mulder, eu não fui ingênua, então o que eu foi? Eu te traí? É isso? _ Eu acho que sim! _ Mulder, essa luta é tão sua quanto minha! Eu perdi tanto quanto você. Essa cura que ele me mostrou poderia me livrar desse maldito chip! Ele poderia me salvar, talvez tenha até me salvado te dando o chip! _ Ele não te salvou, ele só te usou! _ Bem, Mulder, ele foi o único capaz de me salvar. Se eu esperasse você estaria morta agora!! No exato momento em que ela dizia isso já se arrependia. Nunca quisera dizer algo assim, nunca quisera ver a expressão que agora via no rosto de Mulder. _ Mulder, desculpe, eu não quis dizer isso. Ele acreditou em cada palavra que ela havia dito, mesmo que ela não tenha querido dizê-las. Sempre fôra o culpado do que ocorrera com ela. A morte de Melissa, o câncer... E sua teimosia fizera com que ela quase morresse. Ele poderia ter conseguido o chip, que salvara a vida de Scully. _ Mas você sempre pensou isso, não é? Sempre achou que se eu fizesse as coisas do meu jeito, se eu não aceitasse o que o Canceroso me ofereceu então você teria morrido. Você está certa, sabia? Eu não aceitei o que ele me ofereceu. Nunca te contei isso... _ O que? _ Nada, esquece. _ Mulder, por favor. _ Ele me ofereceu um acordo. Trabalhar para ele em troca da sua cura. Eu não aceitei. Você teria morrido, se não fosse Skinner. É a ele que você deve sua vida. Então acho que você está certa. O Canceroso e, principalmente, Skinner, fizeram mais do que eu para te salvar. _ Não, Mulder.... Ela não conseguiu terminar. Mulder já estava do lado de fora do apartamento e não fez menção de retornar, mesmo enquanto ela chamava por ele. Mas Scully não queria deixar as coisas assim. Tinha que ir atrás dele. Tinha que desfazer a segunda bobagem que fizera em uma semana. Se vestiu rapidamente e correu para seu carro. Ainda podia alcançá-lo, antes que ele chegasse em casa. Antes que ele se trancasse para ela. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx A noite estava fria, e as ruas desertas. Scully, rapidamente, pôde alcançar o carro de Mulder e o seguiu de uma boa distância. Não queria que ele percebesse que ela estava atrás dele. Mas ele percebeu. E acelerou.... Não queria outro confronto. Não queria magoá- la ainda mais. Scully notou que ele acelerava e tentou aumentar a velocidade também. Com as ruas vazias era fácil correr, mas, ao mesmo tempo, era fácil distrair-se. De fato, Scully não percebeu o sinal fechado, e não percebeu também o improvável carro que vinha na direção oposta. Quando notou, no último momento, jogou seu carro para a calçada, e acabou batendo em um poste. O carro que escapou da colisão não parou para ver se alguém se ferira, e Scully ficou dentro de seu carro, desacordada. O único som que se ouvia era sua buzina que disparara. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Ela não estava atrás dele. Teria desisitido? Mulder não tinha tanta certeza. Ela não desistiria assim facilmente. Talvez tivesse ido por outra rua, para que ele não percebesse que ela o seguia. Mas, mesmo pensando assim, algo dizia a Mulder para voltar, para procurar por ela. E foi o que ele fez. A primeira coisa que ouviu foi a buzina que tocava insistentemente. Em seguida viu o carro de Scully, destruído, praticamente envolvendo o poste a sua frente. Correu para ver como ela estava. Quando Mulder chegou na janela, tocou o rosto dela, e deu graças a Deus ao perceber que ela ainda estava viva e acordada. _ Mulder, me tira daqui. _ Você conseguiu bater em um poste, às três da manhã, em uma rua deserta e sem estar bêbada ou drogada. Você não está bêbada, não é? _ Vai me tirar daqui ou vai continuar a fazer essas piadinhas? _ Calma. Acho melhor você não se mexer. Vou chamar uma ambulância. _ Eu estou bem! Só me ajuda a sair daqui. _ Será que somente dessa vez você pode fazer do meu jeito, Scully? _ Eu SEMPRE faço tudo do seu jeito! É por isso que eu estou nessa droga de carro nesse exato momento! Eu deveria estar dormindo, mas não, eu estou aqui, indo atrás de você, só pra te dizer que eu sinto muito, que eu fiz besteira, que eu falei besteira. Tudo tem que ser mesmo sobre você, não é Mulder? _ Cristo, eu só quero que você espere uma maldita ambulância, não precisa fazer esse discurso todo! _ Ok, Mulder. Então vamos esperar a droga da ambulância. Prentende chamar ou vai esperar que eles adivinhem? Mulder não quis mais discutir. Chamou a ambulância e os dois ficaram em um silêncio desconfortável esperando pelo socorro. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Havia sido, afinal, uma boa idéia esperar pela ajuda. Scully não teria conseguido sair do carro, sem se ferir, já que seu pé ficara preso entre o acelerador e freio. Mas, felizmente, não havia se ferido mais gravemente. Mulder a levara para casa. A distância fôra percorrida em silêncio. Mulder a ajudou a entrar em casa mas não fez menção de sair. Scully sabia o que estava por vir. Mais discussões, mais brigas. _ Olhe, Mulder. Vamos fazer o seguinte. Eu levanto a bandeira branca. Você tem razão, eu fui uma idiota, não posso trabalhar sozinha a não ser dissecando cadáveres, e fui muito crédula. _ Eu não acho isso. Você sabe que eu não acho. _ Não, eu não sei. Você nunca confiou em mim, Mulder! Você realmente não acha que eu seja capaz ou digna da sua confiança. _ Scully, por favor, eu não quero brigar. Eu confio em você, juro. Só achei que você devia ter me dito sobre o que o Canceroso queria. _ Eu não tive tempo. Você já fez isso diversas vezes! _ E eu estava errado, eu sei! Mas dessa era óbvio que ele iria te enganar. Eu não teria caído nessa. _ Ah, sei. Então realmente você acha que eu não sabia o que eu estava fazendo, que você seria mais esperto. Eu sou mulher e portanto não poderia pensar claramente, me deixei levar pelas emoções, é isso? _ Scully, você é a última pessoa no mundo a ser levada pelas emoções. _ O que você quer dizer com isso? Que eu sou uma pessoa fria? _ Não, droga! Você é racional, até demais! Por isso eu fiquei zangado. Porque eu não esperaria que logo você se deixasse levar por algumas palavras e a sensação de que aquele canalha estivesse dizendo a verdade. _ Mulder, eu tenho uma notícia prá você! Eu tenho sentimentos, eu não sou uma pessoa fria, e às vezes eu ajo pelos meus instintos. _ Ok, Scully, essa discussão não vai levar a nada. _ Não, não vai mesmo. Tudo acaba em uma questão de confiança. Até hoje você não confia em mim, e por isso ficou tão zangado. _ Eu CONFIO em você, droga!!!!! Mulder estava zangado, mais zangado do que Scully jamais vira. Pelo menos nunca o vira tão irritado com ela. Instintivamente ela deu um passo para trás e Mulder percebeu o movimento. _ Não precisa ter medo de mim! Eu nunca faria mal a você. Já devia saber disso. _ Eu sei, desculpe. Mas é que eu estou cansada e você está bastante nervoso. Talvez seja melhor você ir embora. Mas ele não se moveu. Continuou olhando para ela, fixamente. Novamente ela deu um passo para trás. Não havia mais espaço, no entanto. _ Você está com medo de mim! Você realmente tem uns discursos engraçados Scully. Quer que eu confie em você, completamente, mas nesse momento você mesma não confia em mim. O que acha que eu posso te fazer? Atirar em você? Te bater? Ele não a deixou responder. Se aproximou ainda mais dela, e levantou a mão na altura de seu rosto. Novamente, sem que quisesse, Scully reagiu, fechando os olhos e virando o rosto. Mulder aproveitou a distração e tocou, com delicadeza o rosto dela. Scully não esperava pelo toque suave. Na verdade, não esperava por nenhum toque. Abriu os olhos lentamente e notou um brilho diferente nos olhos de seu parceiro. Á medida que a mão de Mulder desenhava o contorno do rosto dela, aquele olhar se intensificava, e a hipnotizava cada vez mais. Mulder então aproximou seu rosto ao mesmo tempo em que segurava, delicadamente, o pescoço dela, trazendo-a para si. Seus lábios se tocaram levemente e apenas por alguns segundos. Ele se afastou, somente para que pudesse se aproximar ainda mais. Seus lábios tocavam, agora, o ouvido e ele sussurrou algo, que ela não pôde entender, mas que transformou seu corpo em uma massa trêmula. Scully queria abraçá-lo, beijá-lo, mas ao mesmo tempo não queria se deixar levar. Mulder percebeu a situação e se distanciou, deixando Scully surpresa. _ O que houve? _ Você foi tão longe, correu tanto risco, somente para procurar essa cura oferecida pelo Canceroso. Acho que eu posso pedir que você faça a mesma coisa agora, não? _ Mulder.... Ele não a deixou terminar. Com o dedo indicador tocou-lhe os lábios, pedindo silêncio. Scully, então percebeu que aquele era um momento decisivo. Ou ela ia em direção a ele, ou o perderia. _ Mulder, eu..... Deus, porque era tão difícil? Porque havia sido fácil esconder a verdade dele, enganá-lo daquela forma, fazê-lo sofrer e era tão difícil dizer o que ela queria dizer. Mulder começou a se afastar, deixando sua silente parceira para trás. Quando já havia chegado à porta, ela rompeu o silêncio. _ Não, não vá embora. Eu te amo, Mulder. _ Isso é bom, porque eu também te amo, e confio em você e me preocupo com você, e é por isso que eu fiquei com raiva Scully, porque eu confio em você. Entende isso? _ Cala a boca, Mulder, e termina o que você estava fazendo. Não foi preciso maior incentivo. Mulder a abraçou e a beijou ardentemente. Seu beijo foi correspondido. Para Mulder nada daquilo parecia real, mas ao mesmo tempo era como se sempre houvesse ocorrido. Era como se ele conhecesse cada detalhe do corpo dela, como se antecipasse cada movimento, a respiração. Parecia que ele conhecia até mesmo o calor do corpo dela. Mesmo antecipando tanto, Mulder queria explorar mais, conhecer mais. Era como se ele jamais pudesse se saciar dela, como se ela fosse sempre demais para ele. Scully pensava o mesmo, sentia o mesmo. Se entregou completamente a ele, esperando, em troca, somente que ele a recebesse, que a aceitasse. Era exatamente o que ela sempre quisera, que ele a recebesse como ela era, sem questionamentos, sem discussões. Talvez agora ela conseguisse essa aceitação, ou talvez ainda tivesse que lutar mais pela total confiança de seu parceiro, agora amante, mas era uma guerra para a qual ela se sentia mais preparada. Com os sentimentos de ambos a mostra, tudo seria mais fácil. O importante era que eles se amavam e estavam juntos, como sempre estiveram, mas dessa vez, sem barreiras entre eles.... Fim