SEDUÇÃO CANIBAL Fanfiction escrita por Lucas Zago. Iniciada em 7/04/01 e terminada em 15/4/01 Para o IV Desafio de Fanfictions do site The Shipper X, por Késsia Nina. Sinopse: Mulder terá que pedir ajuda à agente Clarice Starling, que investigou o caso de um famoso canibal há vários anos, para tentar detê- lo de degustar de sua mais nova vítima: Dana Scully. Categoria: Crossover com "O Silêncio dos Inocentes". Classificação: PG-13 (há cenas de canibalismo e violência; eu também faço o uso de algum palavreado pejorativo, mas nada que fuja do texto, e as crianças estão avisadas). Notas: Para o bom entendimento da fanfic é fundamental que o leitor já tenha assistido o filme "Hannibal", continuação de "O Silêncio dos Inocentes". A fic serve como a terceira parte (na verdade a Quarta, se levarmos em conta o filme anterior em que Hannibal aparece) de uma trilogia; é como se esse fosse o último capítulo. Se você por acaso não assistiu e tiver interesse em ler, eu dou algumas explicações, portanto acredito que poderá entender, mas se já assistiu "Hannibal", é ainda melhor. Notas 2: Não estou querendo aqui, de maneira alguma, equiparar essa história à "Palácios Do Éter", da Alexandra Morgilli, e nem teria cabimento, afinal, além de serem histórias totalmente distintas, nem adiantaria tentar superar a criação magistral da Alê, que já se tornou um clássico da literatura "fanficcional". Alê, um beijão pra você e parabéns pela sua fic! Eu a li e simplesmente adorei! :) Notas 3: Esta história ocorre num tipo de universo paralelo, ou seja, já estamos na oitava temporada, mas é como se "Requiem" e os sucessivos episódios não tivessem acontecido, afinal, aqui, o Mulder não foi abduzido e a Scully não está grávida (TrustNo1). Notas 4: Há, nessa história, a presença de pessoas reais que inspiraram a criação de alguns dos personagens. Qualquer semelhança NÃO será mera coincidência DISCLAIMER: Os personagens Clarice Starling e Hannibal Lecter pertencem a Thomas Harris, bem como Mulder, Scully e os outros personagens de "Arquivo X" pertencem ao Chris Carter, à Fox e à 1013, portanto não há intenção de obter-se lucro com essa história que destina-se somente à diversão dos fãs. WASHINGTON D.C. 1:11 AM Leves pingos tocavam a face da figura refinada que percorria o local. Gélidas gotas que refrescavam sua tez, excitada com o frio que chegava aos poucos. Era um frescor regozijante, propiciador dum deleite inigualável. A figura dúbia pisava sobre a grama ao redor do edifício; os ralos cabelos arrepiados delatavam que sentia um desejo insano de tocar algo. O tato havia sido aguçado. Os pêlos, molhados pelo orvalho, lhe davam sensação de frescor e a jovialidade voltava-lhe à alma. Renovava-se com a excitação. Sabia, previa que aquele era o momento exato. O receio e o anseio misturavam-se, numa rede de sentimentos que o imunizavam de qualquer dor. A dor de não poder ter quem mais queria... a dor de não poder fazê-la sangrar, pois não podia. Aquele sangue tão desejado não podia ser provado por seus lábios... seu o amor o impedia. As cortinas esvoaçavam sob a luz da lua e a tensão aumentava gradativamente. Seus olhos, bem abertos, atentavam às volúpias desnudas que mais adiante vieram à sua percepção. A lingerie branca atenuava as belas formas de uma mulher dormente. Seu corpo tremia, talvez como que pressentindo a presença do Lorde que se aproximava, e revelava seu coração, palpitante, envolvido num sonho iminente. O homem observava-a fixamente pelo batente da janela, e um segundo depois já adentrava o ambiente e inalava o perfume que o embriagava, tamanha doçura presente na fragrância. Extasiado, seguiu ao catre da donzela frágil, ali, em sua nudez pura, que o fazia sonhar erotismos momentâneos. No criado-mudo, uma foto sua – seguida da legenda "H.L." – e o senhor percebeu o quão importante ele próprio era à moça, e que a reciprocidade existia indubitavelmente. H.L. seguiu ao criado e tocou a foto, puro papel, como se tivesse vida, sendo o homem na figura diferente daquele de carne e osso. Mas ambos eram um só. Embora dez anos mais novo no retrato, o sujeito ainda possuía o mesmo semblante e o velho poder de sedução... seu poder de persuasão era insuperável. No entanto, apesar de todos o seus dotes, quando o assunto é coração, até o mais forte dos titãs se abala... H.L. não sabia muito bem se estava apaixonado; estava visivelmente tomado por algum sentimento que assolava seu interior, mas lutava contra isso, buscando afirmar a si mesmo que não iria ser vencido pelo coração... sua fome canibal revigorava-se a cada novo pensamento sobre aquela face linda que permanecia intacta em sua mente e ele não sabia mais o que fazer. Seus instintos diziam-no para beijá-la e, impulsivamente, levou seus lábios aos dela, ali, naquele quarto à meia-luz, porém recuou logo em seguida. Não podia render-se ao seu desejo, e falsear a essa altura seria um erro irreparável. Ele permaneceu contemplando a divindade em seu sono puro e levou a mão aos seus cabelos macios, acariciando as madeixas límpidas e ruivas que exalava um cheiro que de imediato o fez embebedado. H.L. sentiu uma lágrima teimosa no canto do olho, mas, forte, impediu-a de cair. Voltou ao criadinho e tombou silenciosamente o retrato. Apanhou uma caneta e escreveu num papel avulso: "O Silêncio faz De nós Inocentes" E ainda deu um último suspiro antes de partir, sentindo a dor pungir e constatando que um amor impossível equivale a um corte bem feito: tão profundo e difícil de cicatrizar. Enfim se foi, adentrando a escuridão e desaparecendo no infinito... Enquanto a moça dormia tranqüila, para quem sabe na manhã seguinte deparar-se com a mensagem dúbia e reconhecer a assinatura: "Hannibal Lecter"... ARQUIVO X A VERDADE NÃO EXISTE "SEDUÇÃO CANIBAL" SEDE DO FBI, WASHINGTON D.C. 10:13 AM Ele estava sentado em sua cadeira como habitualmente fazia todo santo dia. Afundado em arquivos, lia com afinco parágrafos e mais parágrafos tudo aquilo que dizia respeito ao seu mais novo caso, um tanto quanto... incomum. Ele investigava a morte de várias pessoas de forma brutal e desumana, e todas elas da mesma maneira: devoradas. Suas vísceras foram dilaceradas pelos dentes de um ente humano que mais parecia um animal. Um verdadeiro canibal. Em todas as cenas de crime foi encontrado um bilhete com as inicias escritas à mão: "L.C.". Mulder abriu a gaveta e segurou o saco plástico que continha a evidência em papel e pensou o quanto aquilo era realmente estranho. Por que o assassino deixaria um bilhete no qual estariam contidas suas impressões digitais? Aquilo parecia uma piada irônica, como as típicas de Mulder, ou até mesmo uma pista, mas o fato é que era tudo muito vago. Nada daquilo era certo, palpável, a única certeza era de que Scully tinha que estar a par daquilo tudo o mais breve possível. _Mulder? A voz feminina o acordou e trouxe-o de volta de suas divagações, e o agente percebeu que ela já estava ali. Linda, como sempre, mais até do que ontem. Seu batom vermelho dava-lhe um ar sensual, um toque provocativo e as pernas à mostra atiçavam o desejo de qualquer homem são. E quem disse que Mulder era são? Pelo menos não é o que parecia... _Oi Scully. Estava mesmo pensando em você. _Em mim? _É. Precisava mesmo falar contigo. _O quê? _É sobre o nosso novo caso. _"Nosso" novo caso? _É. Canibalismo lhe interessa? _Não obrigado. Já tomei meu café da manhã; Scully sorriu sutilmente, mostrando que também tinha suas piadinhas peculiares. _Engraçadinha... Houve uma pausa de questão de segundos, mas Scully logo desconversou e tomou a palavra: _Mulder, eu sei que você está investigando esse caso com afinco e... _E...? _Reticências no ar; Mulder percebeu que aquilo era sinal de problema. _Bem, eu... _Você...??? _Bem, eu pedi férias pro Skinner. _Você o quê????!! _para ele aquilo era inaceitável. Sua reação foi de incredulidade e parecia como uma facada pelas costas. _É, eu pedi uma semana de férias. _Scully pronunciava as palavras com segurança e calma. _Como assim, Scully? Por quê _Ora, Mulder, porque eu preciso, você não acha? Mulder permanecia incrédulo, revoltado e sentindo-se traído. _Não, Scully, não agora. Eu preciso de você nesse caso. A feição de Mulder transformara-se em questão de segundos e seu descontentamento era evidente. _Por favor Mulder, não faça isso comigo... _Mas Scully, eu não entendo! _Mas é muito claro! Eu vou ficar fora por uma semana. Não adianta choramingar porque eu não vou ligar meu celular e você não vai me encontrar em lugar nenhum. Mulder irritou-se e achava aquilo tudo um absurdo sem cabimento. _Scully, isso não é justo!! _seu tom de voz tornara-se claramente elevado. _Enquanto eu fico aqui me matando pra solucionar o caso você vai viajar pra relaxar?! _E por que você não faz o mesmo? Você está precisando tanto quanto eu. _Não há tempo para descanso, Scully, tem um maluco solto por aí comendo literalmente as pessoas e eu TENHO que pegá-lo! _Mulder, o que nós temos a ver com tudo isso? Isso não é um Arquivo-X! Você não acha que nós trabalhamos demais em troca de nada? Não acha que também merecemos uns dias de folga pra relaxar um pouco? Mulder, você é quem não está sendo justo tanto com você como comigo. Nós já investigamos tantos casos juntos e me responda uma coisa: quantas vezes tivemos férias? As suas já devem estar até acumuladas! _E daí, Scully? Eu não ligo! Gosto do que faço e não é agora que vou desistir. _Mulder, eu não estou desistindo, só vou ficar alguns dias sem trabalhar! Será que eu não posso descansar um pouco depois de ter feito tanto por você? Será que eu não mereço? Eu sempre estive ao seu lado, te acompanhando. Nunca hesitei em fazer o possível e o impossível para estar junto de você... e você vem me falar de injustiça?? Se tem alguém aqui que está sendo injusto aqui, esse alguém é você. Eu mereço uns dias de descanso, Mulder, e você também. Agora tchau, eu estou indo embora. Scully saiu porta afora e Mulder viu seu apoio médico dissipando- se pelo ar. A chance de resolver o mistério do assassino canibal indo embora junto da certeza de que ele era o cara mais sortudo do mundo, mas não sabia dar valor a essa sorte. Afinal, tinha Scully e não é qualquer uma que acompanharia um maluco paranóico em suas convicções idiotas... ela certamente era especial. Devia sentir algo por ele que a impedia de desistir. Enquanto a agente ia-se, Mulder permanecia ali, atônito e com a certeza de que as respostas estavam ainda mais distantes. 9:27 PM Mulder havia comprado seu lanche natural rotineiro. Talvez Scully o tivesse mudado, e muito, pois antes de conhecê-la, não era nenhum pouco "natureba". Pelo contrário, como verdadeiro nativo dos Estados Unidos, não resistia às tentações consumistas do capitalismo, tais como McDonald's, Pizza Hut's e Coca-cola, como pregavam os valores "americanos". Seu cardápio incluía altas doses de gordura e muito refrigerante, e miraculosamente seu corpo permanecia bem- definido e delineado. Scully o alertava do aumento na taxa de colesterol e agora ele só bebia sucos e a comida era predominantemente natural. Scully o transformara, afinal, como médica, sabia dos perigos com relação à saúde e prevenia Mulder de seus maus hábitos. "Um cheeseburger agora ia bem..." Mulder pegava-se pensando, porém logo desistia da idéia pois a parceira poderia flagrá-lo. De qualquer forma, em plenas 9:27h da noite, preferia degustar um delicioso sanduíche de ricota e dispensou qualquer outra comida. Mordiscando o pão, Mulder caminhava porta adentro, desatento, quando observou que o saco plástico que continha a evidência dos crimes que investigava estava caído no chão. Mulder limpou, com a manga da camisa a boca, e depôs o lanche sobre a escrivaninha, quando abaixou-se para apanhar o objeto e parou por um instante: alguém havia estado ali. Alguém entrou e derrubou o bilhete. Ao levantar-se, Mulder viu um novo bilhete e a assinatura grafada à mão: L.C. Estarreceu-se ao constatar que aquilo era um aviso... Talvez algo estivesse perto de acontecer... e o próprio assassino fora até lá para avisar-lhe pessoalmente. A incógnita ainda existia, e restava a Mulder descobrir sem ajuda de Scully o que significava tal assinatura. E mais: que tipo de aviso era aquele? Mulder logo pensou instintivamente no pior... Scully poderia estar em perigo. GEORGETOWN, WASHINGTON D.C. 10:21 PM Ela estava dormindo. Depois de muita relutância, seu corpo finalmente rendeu-se ao sono. Ela passara o dia inteiro resolvendo assuntos pendentes para enfim partir para a tal viagem. Fora à casa de sua mãe, e lá conversara quase a tarde inteira, e por conselho dela, Scully só tomaria seu vôo na manhã seguinte. Margareth não queria que a filha fosse viajar à noite, pois há muitas tempestades e ela, como mãe, não conseguiria dormir em paz sabendo que sua única filha estava num avião. As pálpebras fechadas e a feição estatificada faziam-na ainda mais bela, Os cabelos soltos roçavam no lençol e ela virava-se a cada minuto, como que embargada num sonho mediano. Não era pacífico nem demoníaco, seu sonho era apenas um sonho. Ela zanzava por paisagens incomuns e perambulava por ruas desertas, sentindo a chuva fina que caía aos poucos. As cores eram ora acinzentadas, ora esverdeadas, transmutando de segundo em segundo como se sua mente estivesse repleta de pensamentos desconexos e descoordenados... E ao seu lado estava... ela mesma! Scully caminhava lado a lado com seu reflexo e tudo o que o que ela dizia lhe era repetido. Scully não compreendia, aquilo não fazia sentido, e tudo ficou ainda mais inverossímil quando a agente e seu reflexo depararam-se com algo extremamente insólito: um cérebro ensangüentado jogado a sarjeta. E o que era pior, com partes mordidas por algum animal esfomeado. Scully estava estagnada, atônita; enquanto isso, seu reflexo correu imediatamente até o local e segurou o órgão em suas mãos, abraçando-o contra o peito e lambendo em seguida o sangue que insistia em correr. Numa demonstração explícita de canibalismo, começou a degustar da carne neural. Comeu o cérebro com voracidade e limpou os lábios vermelhos com a costa da mão, perguntando à Scully real provocantemente: _Irresistível, não é mesmo? A agente esboçou uma face de espanto e começou a correr furtivamente, aterrorizada com tudo que vira, e ainda não conseguia entender nada de fato. Tudo era incabível, ela não assimilava as visões e a obscuridade à sua volta tomou forma e sua dimensão aumentava a cada segundo. Ela estava sendo engolida pela noite, o breu, e as trevas iam devorá-la. Até que ela viu ao longe uma figura parda, indefinida, e sua face era impossível de ser decifrada. Era um homem, que ao abrir os braços acolheu-a caridosamente e esta envolveu-se nos braços do sujeito, sentindo ainda o tremor de suas pernas e a frieza do suor, que estampava o terror que palpitava seu coração. Ela tremia muito, e o sujeito a protegia, acariciando com carinho seus cabelos ruivos, e Scully agradecia por tê-lo encontrado. Até que a penumbra cedia lugar à claridade e, como se uma nuvem passasse levando consigo todo o medo e a escuridão, Scully pôde ver a face daquele sujeito tão familiar... Era ele... Hannibal Lecter. Chovia. Mulder corria contra o tempo para tentar impedir o perigo iminente. Estava disposto a salvar Scully do que a esperava. Hannibal Lecter era um demente, e Mulder sabia muito bem disso. Refinado, o canibal seduzia as pessoas para si "jogo" peculiar e deliciava-se ao vê- las sofrendo. A angústia, para ele, era sua maior satisfação, como um gozo demorado. Ele era um canibal extremamente sofisticado por seu poder de convencimento. Havia feito suas vítimas se auto-ferirem e seria capaz de convencê-las a suicidarem-se. Suas palavras aguçavam o interesse e curiosidade de qualquer um, e Mulder sabia do que ele seria capaz de fazer com Scully. Ela estava vulnerável, mesmo decidida quanto à viagem, pois isso era um pretexto para um período de reclusão para pensar sobre suas atitudes. Era hora de pensar nas escolhas que havia feito, no caminho tomado... teria sido o mais certo? Será que todas as coisas que havia feito foram as mais corretas? E quando seria o momento exato de revelar o que tanto a afligia? Era hora de perceber que, se para tudo há uma razão, havia uma grande razão para expor seus sentimentos. Seus medos e aflições tornavam-se cada vez maiores e ela passava por um delicado momento de introspecção. "Transição" talvez fosse o termo exato. Afinal Scully nunca havia feito nada de errado, nunca saíra da linha e Mulder mostrou-lhe que a vida é feita para ser vivida e não desperdiçada. Ele fazia o que mais gostava, que era trabalhar. E ela trabalhava só para estar ao lado de Mulder... mas... não estaria ela desperdiçando grande parte de sua vida seguindo um crente decidido a encontrar a verdade e deixando de lado a sua própria vida? Será que ela não estava deixando de lado tudo aquilo que tinha vontade de fazer e todos os momentos dos quais ainda podia desfrutar enquanto podia? A discussão naquela manhã servira para alertá-la de que ela tinha que fazer algo o quanto breve possível. Esse foi um dos motivos que a levaram à casa da mãe em busca de conselhos. Meggie disse à filha que fizesse o que o seu coração mandava e Scully tentava descobrir qual seria a melhor escolha, afinal ela tinha que dar um rumo à sua vida enquanto ainda havia tempo. Tinha que descobrir quais eram seus desejos e vontades antes que fosse tarde demais, e por isso resolvera ficar mais uma noite, talvez buscando respostas para tantas perguntas que insistiam em latejar em sua mente. Mulder dirigia convicto de que iria fazer o que pudesse para salvar a parceira, porém seu percurso fora impedido quando um veículo veio em sua direção e bateu de frente em seu carro. Era o que bastava para deixá-lo ainda mais enervado. Seus nervos estavam à flor da pele e o agente não via a hora de espancar alguém, tamanho desespero e ansiedade que o assolavam por dentro. Era uma mulher. Não muito alta e de olhos claros. E o detalhe maior: ruiva. Scully viu na figura à sua frente a própria Scully em carne e osso e não conteve a aflição ao vê-la dentro do carro. Não cria completamente em seus olhos, talvez pudessem estar pregando nele uma peça, e resolvera ir até lá para sanar suas dúvidas. _Scully?? _seu semblante era de dúvida, e ao ver a mulher ele parecia sem noção do que realmente devia fazer ou dizer. _Hã? Você está falando comigo? _É, você não... _Mulder constatou que havia se enganado e aquela era outra pessoa. Scully já devia estar longe dali... _Posso lhe ajudar? Ao observar a face da moça no volante Mulder notou alguma semelhança com Scully mas definitivamente não era ela. Já sabia quem era: _Agente Starling?!? _Eu mesma. _O que você está fazendo aqui? Digo, além de ter batido no meu carro...? _EU bati no seu carro? Não seja pretensioso! A preferencial era minha e o sinal estava fechado para você! Mulder olhou para o semáforo e viu o sinal abrindo agora, enquanto os dois discutiam em meio ao tráfego dos carros na avenida. De fato, quem havia cometido a imprudência havia sido o próprio agente, talvez por falta de cuidado ou desatenção. Também pudera, havia um turbilhão de pensamentos que transitavam em sua cabeça e ele não conseguia canalizar sua atenção para o trânsito. _Bem, me desculpe mas... eu não sei onde estava com a cabeça. _Com certeza na lua. Mulder fitou-a fixamente e percebeu que ele não a conhecia. _Vejo que você não me conhece. _Não. Por que, eu deveria? _ ela expressava uma certa braveza em seu olhar, as sobrancelhas cerradas e os olhos fixos no agente. _Não... Meu nome é Mulder. Fox Mulder. _ele estendeu a mão para cumprimentá-la. _Sou agente do Birô. Ao ver que o agente tentava ser educado, Starling correspondeu ao cumprimento e apertou-lhe a mão, os olhos menos raivosos. _Você também é agente do FBI? _ela mostrava algum interesse em conhecê-lo, e tentando ser polido, Mulder respondeu: _Na verdade sou, e sei que devo pagar pelos danos no seu carro. _Que danos _Ora, os que eu causei quando bati em você! _Mas você não viu... esqueça, isso fica entre nós. Ninguém no FBI precisa saber. _ao dizer as últimas palavras, a moça ruiva sorriu levemente e mostrou a Mulder que não estava mais brava com ele, e estava até disposta a esquecer o ocorrido. _Tem razão. Mas você não me disse o seu nome. _E pra quê, se você já sabe? _É... mas creio que vou precisar da sua ajuda. _Em quê? _Estou investigando o paradeiro do Dr. Hannibal Lecter e acho que nesse exato momento ele deve estar preparando o seu jantar. Clarice mostrou-se preocupada e indagou: _Você sabe quem é a vítima? _Sim... é a minha parceira. Scully ainda dormia, os lençóis jogados no chão e o calor que penetrava seu corpo. Ela estava em transe, navegando pelos mares da imaginação, e talvez até além. Sonhava com coisas estranhas, sem sentido ou fundamento e não conseguia libertar-se de onde estava. Agora, ela caminhava pelos corredores de um grande teatro, passando pela bancada onde viam-se algumas pessoas que pareciam estar atentas a algo. Percebeu que elas não podiam vê-la, ninguém conseguia enxergá-la, era como se Scully fosse transparente e isso deu a ela uma agonia ainda maior, pois pressentia que algo de ruim estava prestes a acontecer. Correu até o palco, onde duas pessoas representavam uma peça... elas não a viram. Scully não podia comunicar-se com ninguém e tornou-se ainda mais aflita ao ver que um dos atores era Mulder, vestido com roupas antigas, talvez de dois séculos atrás. Ele estava preso, amarrado, enquanto outra pessoa o via sofrer. Mulder gritava e seu sofrimento parecia ser real, embora a platéia supusesse ser falso, mas Scully podia observar que aquilo não era irreal, alguém o torturava e fazia-o chorar sem parar. Seu desespero era tanto que seus pulsos haviam sido feridos pelo empecilho que o impedia de libertar-se. Mulder estava sob as ordens de um homem sádico que ria com vontade ao vê-lo em sua angústia; o torturador carregava algo pontiagudo, parecia uma faca ou talvez um punhal, e perguntou, sorrindo, ao agente: _De que maneira você quer morrer? Com as tripas para dentro ou para fora? Os olhos de Mulder brilhavam, carregados de medo e agonia, prevendo as ações do homem com a faca em suas mãos. Tentava gritar, mas não podia, uma fita tapava-lhe a boca e sua voz era contida contra sua vontade. Toda sua garra dizimou-se aos poucos quando Mulder percebeu que ia morrer. O olhar do assassino trouxe a ele a certeza de seu fim. O homem levantou a mão repentinamente e golpeou a barriga de sua vítima com todo o ódio que sentia, fazendo as entranhas de Mulder saírem de seu âmago e caírem no chão. A platéia, ao invés de gritar em sinal de desespero, gritou, mas vibrando pela bela representação do ator que fingia sofrer no papel de torturado. O sangue espalhou-se por todo o palco, e podia-se ver o intestino do agente em redor do "personagem". Mulder estava Mulder, o abdômen aberto e o interior mostrado aos espectadores que aplaudiam com avidez a atuação belíssima de ambos. Scully gritou com toda sua força e já não sabia distinguir o real do imaginário, pois o que via ali parecia perfeitamente real. Não suportou ao ver o parceiro sendo morto com tanta frieza por um ser inescrupuloso que sentia prazer em ver suas vítimas sofrerem. Ela correu foi em direção a Mulder, porém o assassino instantaneamente sumiu; ela tentava reviver Mulder, mas era tarde demais, ele estava morto, e o homem que carregava a faca havia desaparecido. Entretanto, ao virar-se para procurar o sujeito, Scully deu de encontro com ele atrás de si e pôde sentir o hálito próximo à sua face, a voz suave dizendo: _Agora é a sua vez. E gritou novamente, buscando sair daquele pesadelo. Antes disso, reconheceu a face do homem que matara Mulder sem piedade alguma... Era Hannibal, novamente em seu sonho. Ele estava ali, inalando o perfume que o entorpecia a cada momento fazendo-o desejar aquele corpo ainda mais. Queria sentir o sabor daquela carne divina, e lambeu a orelha de Scully, provando do que viria a ser seu jantar. Ainda teve tempo de sussurrar ao ouvido da agente: _Não tenha medo, eu não vou te machucar... Scully retorcia-se toda, impedida de acordar; estava totalmente envolvida em seus sonhos que não podia deixá-los. Estava presa a eles e não havia como escapar. Hannibal já estava com a boca aberta, pronto para morder Scully, quando ouviu a porta sendo arrombada com força e em seguida a voz de alguém decidido a salvar sua mais nova vítima: _Parado aí, Lecter, ou eu atiro agora mesmo. Era Clarice que adentrava o quarto da agente, fazendo com que Scully acordasse enfim depois de tanto sufoco. Ela viu ao seu lado o canibal de quem Mulder lhe havia falado, Hannibal Lecter, e seu coração disparou ao constatar que ela própria era sua vítima. A agente Starling permanecia ali, de arma empunhada e ordenando apenas com o olhar que Hannibal se levantasse, porém o canibal a desafiava com um olhar irônico e o sorriso malicioso nos lábios, virando- se de volta para Scully, os olhos esbugalhados e a boca aberta. Percebendo que o assassino não obedecia às ordens de Clarice, Mulder chegou desenfreado e desferiu um tiro certeiro no alvo que nem ao menos havia mirado... Hannibal havia sido ferido. Caído no chão, o Dr. Lecter sangrava muito e a bala havia perfurado seu ombro, no entanto ainda restava um fio de vida, afinal Mulder não havia atirado para matar e sim para salvar sua parceira das garras daquele ser desumano. Clarice não se conteve e demostrou sua preocupação com Hannibal, correndo até ele para prestar-lhe socorro, enquanto este permanecia moribundo no chão. Ela virou-se para Mulder, o descontentamento visível, e disse: _Você não devia ter feito isso. Mulder tomou Scully nos braços e a tirou dali, temendo que algo pior pudesse acontecer. Mal sabia ele que havia comprado briga, pois Clarice não admitia que qualquer outra pessoa causasse algum mal a Lecter, que não ela própria. Ao vê-lo ali, ensangüentado e caído no chão, a agente nutriu uma raiva há muito contida, mas canalizou-a para Hannibal, que não devia de fato estar ali. Ela socorreu-o com toda a prestabilidade que lhe era comum, porém ali em demasiado, tamanho cuidado com o Dr. que na verdade era um assassino, e embora ela soubesse disso, não havia como esconder o que sentia; ela supria um sentimento impossível de ser abafado, e Mulder sabia muito bem disso. Enquanto isso, Scully era levada por Mulder até o carro do agente, num gesto de carinho e preocupação em que ele se prestava a cuidar da parceira da maneira que pudesse. Scully, ao ver o parceiro tão cuidadoso, tratou de acalmá-lo: _Mulder, não precisa se preocupar... eu já estou bem. _Eu sei, Scully, mas eu fico imaginando o que poderia ter acontecido se aquele crápula pusesse em prática seus objetivos malditos... _disse ele, cobrindo-a com seu sobretudo. _Esqueça isso, Mulder, não há mais nada a temer. Eu estou aqui, com você, e isso é o que importa. Scully observou os olhos de Mulder, trêmulos e prestes a desabar em pranto, e levou a mão à sua face, acariciando-a levemente, causando nele um certo arrepio. _Obrigado, Mulder. Se não fosse por você, eu não estaria aqui agora... _Não, Scully, não precisa me agradecer. Se tem alguém que precisa agradecer, sou eu, por você ter estado sempre ao meu lado. Obrigado, Scully, por nunca ter desistido. Ela sorriu e percebeu que Mulder estava realmente emocionado, tomado por algo que fluía por seu corpo. Eles se olharam e Mulder deu a partida, ouvindo-se em seguida o ronco do motor e finalmente ambos saíam daquele ambiente pesado onde outrora sonhos horrendos haviam se passado. Mulder dirigia, agora, enquanto Scully, recostando-se no banco do passageiro, tentava esquentar-se com o casaco dado pelo parceiro; ela tentava dormir, mas sabia que a tentativa seria em vão. Estava em estado de choque, o sangue ainda sendo bombardeado com força e o coração palpitando seqüencialmente, parecendo sair-lhe pela boca. Mas agora estava tudo bem, Mulder há havia resgatado daquele lugar terrível em que havia sido levada por Hannibal e seu poder único de passear pela mente de suas vítimas. Ela estava protegida pelo parceiro, que partia rumo ao hospital mais próximo dali. QUARTEL-GENERAL DO FBI, WASHINGTON D.C. 9:54 AM O clima ali era tenso. O ar parecia pesado, carregado de um sentimento ruim que pairava em redor dos corpos ali, sentados num sofá, esperando por alguém. Eram Clarice Starling e Dana Scully, sentadas, caladas, em frente à sala de reunião em que estava Fox Mulder, dando explicações à alta cúpula do FBI sobre o incidente da noite passada, onde havia atirado num dos assassinos mais procurados pelo FBI. Scully e Starling não se olhavam, evitando mostrarem-se amistosas, pois ambas estavam munidas de uma raiva imensa por causa de ontem à noite. Scully não podia crer que a agente Starling estava do lado de Hannibal, enquanto que Clarice não aceitava o tiro que Mulder havia desferido no Dr., e consequentemente Scully o havia apoiado. Era um silêncio mórbido, um clima de inimizade e rivalidade que prevalecia, quando nenhuma das duas se pronunciava. Permaneciam ali, estáticas e absortas em seus pensamentos, enquanto aguardavam impacientemente pela chegada do Mulder. Até que... _Então... você não tem medo? _foi Scully quem quebrou o silêncio. _De quê? _Clarice mostrava-se enfadonha e não fazia questão de parecer simpática. _Ora, de ser comida! _Não, não tenho. O Dr. Hannibal está indiretamente vinculado a mim... nós estamos ligados de alguma maneira. Você é quem deveria Ter medo _Eu já tive, quando percebi que aquele homem, tão refinado e sedutor, em sua sofisticação magnificente, envolveu-me em sua magia conquistadora. _Foi muita sorte sua. _Não foi sorte, o nome da minha salvação é Mulder. Fox Mulder. _Eu já tive o prazer de conhecê-lo. _Mulder e Clarice, mesmo trabalhando no Birô, nunca haviam estado cara a cara, embora Mulder tivesse ouvido falar muitas coisas sobre a agente ruiva que investigara o caso do Doutor Canibal, porém ele nunca havia tido coragem de chegar até ela e conhecê-la pessoalmente. Já havia visto fotografias e reportagens, no entanto o encontro real havia ocorrido na noite passada, num lugar um tanto incomum. _Ele é... bem, como posso dizer? _Paranóico? _Isso, esse é o termo. Pude sentir que ele é obcecado por fenômenos desse tipo, quero dizer, inexplicáveis. _Clarice já tinha ouvido falar de Fox Mulder, embora não o conhecesse pessoalmente, e sim por sua "reputação" (Spooky Mulder), e quando se encontraram, ela notou o quão importante Scully era para ele, e também pode ver seu interesse por casos "estranhos" como o de Hannibal Lecter. Ela pôde fazer essas constatações em apenas alguns minutos d conversa, pois Mulder era transparente, e demonstrava em seus olhos brilhantes tudo aquilo que sentia. Perspicaz, Starling notou logo de cara que Mulder era realmente tudo o que diziam ser. _Exato, ele é obcecado por casos estranhos. _Eu já estudo o comportamento de Lecter há bastante tempo, e poso dizer que ele não é estranho. Ele possui uma disfunção comportamental e... _Eu sei, agente. Sou médica._ Scully interrompeu-a. _Posso afirmar que já vi casos de canibalismo, mas esse, em especial, tem algo além do óbvio. _O que é óbvio? _Ele está apaixonado por você! _ela sorriu, tentando provocar Clarice. _Ah, agente, eu e o Dr. Hannibal somos muito distintos, e além do mais ele é um assassino! _ela não aceitava a afirmação de Scully. _Mas isso não impede que o seu coração sinta o que está sentindo... Houve uma pausa breve, uma interrupção espontânea, onde o silêncio sobressaía e agora nenhuma das duas dizia nada. Mas esse silêncio logo foi quebrado. _Você se acha melhor do que todos, não é, Agente Scully? _Não, não acho. Eu só estou dizendo óbvio! Se você não quer acreditar, problema seu. _Acontece que há algo mais óbvio que isso. _Starling olhou diretamente nos olhos de Scully, que não piscavam, e prosseguiu _É o SEU amor pelo Mulder. Scully fora pega de surpresa. Não acreditava agora no que Clarice havia acabado de dizer, e não aceitava as palavras da outra agente. _Eu vi como você fica quando eu falo o nome dele. _ela continuava suas "acusações" enquanto Scully permanecia estática. _Isso é um absurdo! _Scully não agüentou e pôs sua ira para fora _Você está desviando o assunto. _ela buscava uma maneira de tentar confundir Clarice e fazer o assunto retornar ao rumo anterior, ou seja, à própria Clarice. _O fato é que não há assunto. _a agente foi direta. _Você falou sobre mim e não aceita que eu fale sobre você. _Isso é mentira, você está inventando. _Olha, agente, eu não estou aqui para julgar ninguém, mas sei que o Hannibal não atacaria alguém simplesmente por diversão. _ela mostrava uma certa intimidade com o canibal, quando referia-se a ele como "Hannibal" e fazia parecer que o conhecia extremamente bem. _Você está defendendo aquele demente?!? _Scully estava realmente nervosa e aquele foi o estopim para uma discussão mais acirrada. _Ponha uma coisa nessa sua cabeça: ele NÃO é demente. Ele é um canibal. _Mas ele quase me devorou!! Pude sentir aquele hálito próximo da minha face e a excitação que lhe tomava o corpo... ISSO É NÃO É NORMAL!! _O que é normal pra você? Seres alienígenas? Chip implantado? Conspirações governamentais?? Você e o Mulder são um empecilho para o FBI! Ela não se conteve: _Eu não admito que você fale assim com meu parceiro!! _o sangue subia quente pelo corpo, acentuando a raiva há muito contida. _Ah é? E por que não? O Mulder é motivo de vergonha! E só mesmo uma vadia como você pra acompanhar aquele maluco! Imediatamente Scully ergueu a mão e esbofeteou com toda a sua força o rosto da agente Starling, num ato impulsivo e impensado. Ela deixou a marca de seus dedos estampados na face da agente, dizendo com firmeza em seguida: _Isso é pra você aprender o significado da palavra RESPEITO. Clarice não pensou duas vezes e revidou a bofetada. _E isso é pra você aprender o significado da palavra AMOR. Ambas sentiam a dor do tapa que serviu como meio de pôr um fim aos insultos. Uma queria mostrar que era superior à outra, talvez por medo ou insegurança de perder aqueles que mais amavam, como se um inimigo tivesse invadido o seu terreno. E agora as duas permaneciam com a mão no rosto, sem crer que elas próprias haviam agido de maneira tão infantil. A violência não leva nada, e ambas sabiam disso, embora naquele momento nenhuma delas pensasse nas conseqüências que aquele gesto poderia trazer. Um simples tapa mostrava que Clarice e Dana sofriam muito e que algo ainda as afligia. Elas se entreolharam, ainda segurando a face, as não tiveram coragem de dizer uma palavra sequer. Foi então que elas ouviram a porta sendo aberta. Era Mulder, que saía da sala de reuniões. O agente não aparentava estar muito contente, e ao vê-las daquele jeito, não sabia o que dizer. Percebeu que elas haviam se atracado e que estavam agora ainda com raiva uma da outra. Elas olharam para o agente, que sem saber o que fazer, levou a mão ao bolso da calça e, retirando algo, perguntou: _Alguém quer semente de girassol? 7:02 PM Ela estava voltando do FBI. A pedido do Diretor Assistente, ela podia tirar um dia de folga, se quisesse. A princípio, Clarice relutou, mas seus colegas de trabalho aconselharam-na a ir descansar um pouco, afinal ela trabalhava muito e, assim como Mulder, nunca tirava férias. Naquele dia, porém, logo após a discussão com Scully, ela parou para pensar um pouco em si mesma. Sua vida estava tão turbulenta que ela nem ao menos parava em casa para relaxar. Com Hannibal às soltas, ela se achava culpada pelas mortes que ainda haveriam de ocorrer. Ela sabia do que ele era capaz, mas havia algo nele que lhe chamava a atenção. Ele era diferente, e mesmo sendo um assassino, despertou nela algo que nunca havia sentido. Corajoso, Lecter esteve na casa da agente e deixou um bilhete. Ela não entendeu o que aquela frase simbolizava, mas a caminho de sua casa, em quanto dirigia, pôde perceber que aquilo era um aviso. "O Silêncio faz De nós Inocentes"... era uma clara alusão às mortes, os assassinatos que ele iria cometer. O silêncio dos inocentes... talvez ele estivesse se referindo a alguém próximo à agente que corria perigo. Mas quem? Quem poderia ser? Ao estacionar o carro, Clarice notou a presença de uma mulher em frente à sua casa. Ela era nova, de cabelos longos e o olhar penetrante. Caminhou em direção à agente e lhe disse: _Agente Starling, eu tenho algo pra lhe dizer. _Quem é você? _Meu nome é Alexia. Alexia Gilli. Eu estou aqui porque algumas de minhas amigas foram mortas hoje de uma forma brutal. _seus olhos encheram de lágrima e o brilho fez deles um sinal de alerta a Clarice, que se mostrou interessada e ao mesmo tempo preocupada com a moça. _Mas como? _Elas foram comidas. _as lágrimas rolaram e Alexia não se conteve, escondendo com as mãos a face tristonha. Clarice percebeu que ela não estava bem e tentou acalmá-la: _Calma, não precisa chorar. _ela limpou as lágrimas de Alexia e elevou sua cabeça, para que pudesse entender melhor o que se passava. _Agora me explique, como você me encontrou? _Foi a Helena, a minha amiga, que conseguiu fugir... ela me disse que as outras, Kessy, Claudine e Clarisse, haviam sido mortas por um canibal que as prendeu no sótão da casa da Helena... _Mas por que você veio me procurar? _Eu li no jornal que você tinha prendido um canibal, o Dr. Hannibal Lecter, e então pensei que pudesse me ajudar... _Você acha que ele as matou? _Tenho certeza disso! Eu nunca vi nada parecido!!! Como alguém pode ser tão frio ao ponto de comer uma pessoa viva??? Eu não entendo! _Olhe, Alexia, eu entendo a sua preocupação, mas acredito não há nada que possa ser feito, a não ser tentar capturar Lecter. Enquanto isso, você deve ficar num local seguro, e tentar se proteger, pois ele pode tentar ir atrás de você e da sua amiga... _Não, a Helena não está mais no país. Ela me ligou do aeroporto que estava indo para a Grécia, e pediu para que eu tomasse cuidado. Você acha que eu poso estar em perigo? _Você estava lá, na hora do crime? _Não, eu tinha ido até a farmácia, comprar um remédio pra minha cachorra que não estava bem. Mas quando voltei à casa da Helena, só vi os corpos dilacerados e um bilhete do lado. _O que dizia o bilhete? _É este aqui. Eu não entendi o que ele quis dizer... As mãos trêmulas de Alexia entregaram a Clarice o bilhete que havia sido deixado na cena do crime. Ele dizia: "Hoje os inocentes estão em silêncio", ao fim, via-se um desenho feito à mão... era uma mulher, nua, com a púbis de fora, e os lábios grossos contrastavam com a face de agonia que ela estampava. A mulher desenhada era Scully, sob o traço de Hannibal, e Clarice sabia que haveria mais vítimas. Deixando Alexia em sua casa, temendo que fosse atacada, Clarice partiu em busca de ajuda, pois sabia que Dana Scully estava em perigo. Hannibal ia atacá-la, pois não havia terminado o serviço iniciado na noite anterior. Ela ligou para o celular de Mulder, e logo o pôs a par de tudo: _Agente Mulder, aqui é Clarice Starling. _Oh, sim, Clarice. Eu reconheci a sua voz. Mas me diga, como tem passado? Comendo muito fígado ultimamente? _Agente Mulder, deixe as brincadeiras para depois, o assunto que tenho a lhe dizer é de suma importância. _E o que é? _Hannibal fez novas vítimas. _O quê?? _É isso mesmo, o canibal fez algumas refeições. _Como assim? _Três mulheres foram encontradas mortas, suas vísceras foram devoradas e uma amiga próxima acha que foi ele quem as matou. O que você acha? _Ele deixou algum bilhete? _Deixou, e deixou também uma pista de sua próxima vítima. _Quem? _Você não vai gostar de saber mas é... Ela hesitou. _Fala! _É a Scully, a sua parceira. Hannibal era esperto. Fora acertado por Mulder e mesmo assim ainda desafiava o agente da forma mais suja de todas... pondo em cheque o elemento mais importante a ele: Scully. Ele achava interessante o modo como os dois se portavam, a intimidade conquistada ao longo dos anos e o óbvio amor que fora originado a partir da amizade. Não havia como negar, ele era psiquiatra e entendia muito bem da mente humana... e com o tempo, passara a entender também o coração. Ao ver Clarice pela primeira vez, sentiu algo que o fez ressurgir das trevas; ele acendeu a chama há muito apagada dentro de seu peito e, mais do que atração física, ele guardava dentro de si um amor incondicional, que o enlevava a cada vez que retomava o pensamento naquela face lânguida e ao mesmo tempo dona de uma determinação invejável. E quando deparou-se com Scully, a comparação foi inevitável, a primeira imagem que lhe veio à mente foi a de Clarice, em sua mais perfeita forma, e ele sentiu uma vontade imensa de comer aquela carne clara, tocar a cútis tão branca e devorar aquele corpo tão belo que quase chegou a possuir. Ele sentiu o gosto, provou da sensação de tocá-la, mas não a teve por completo. Hannibal sentia que tinha que matar Scully, pois ela era uma afronta a Clarice... eram duas, e não havia espaço para duas em seu coração. Uma delas tinha que ser eliminada, e ele sabia muito bem que seria Scully. Afinal, qual prazer melhor senão comer Scully e ainda fazer Mulder sofrer? Ele sabia que Mulder estava lá, protegendo Scully do perigo, e sabia também que se ela morresse, ele não o perdoaria nunca e não viveria em paz até matá-lo com as próprias mãos. Lecter compreendera desde o início que aquela era uma relação delicada, como a linha tênue que separa o amor da amizade. Ele sabia que qualquer deslize seria fatal e que se desafiasse Mulder, sua ira seria despertada. Mulder era um cara tranqüilo, pacífico, mas quando alguém o desafiava ele aceitava o desafio até provar do que era capaz. E o agente sabia que Hannibal, "o Canibal", o estava desafiando. Ao desobedecer a ordem de Clarice, quando ele estava prestes a devorar Scully, Mulder pôde ver que ele o provocava, insinuando sua incapacidade de proteger a agente. Ao vê-la ali, nos braços do assassino, Mulder agiu impulsionado pelo ódio que o tomara e atirou em Lecter, talvez até para matar, mas errou o tiro, acertando apenas seu ombro, como resposta à provocação. Lecter havia sido levado ao hospital por Clarice, que não aceitou o ato de Mulder, e não gostou nada ao ver Hannibal agonizando aos poucos. Ela o salvou, talvez até o canibal pudesse ter morrido, mas assim como Mulder havia salvo Scully, Clarice salvou o Dr.. E agora ele estava à solta, pois fugir do hospital e matar uma enfermeira era uma tarefa fácil para um psiquiatra famoso que possuía o hábito que comer o fígado, e não só isso, de seres humanos inocentes. Aliás, para Hannibal, não havia inocentes. Como médico, ele sabia que uma hora ou outra, as pessoas iriam morrer, e ele apenas encurtava o prazo de vida de suas vítimas. Ele escolhia-as a dedo, e sabia que criava polêmica a cada passo que dava. Ao ir para a Itália, sabia que estava sendo procurado pelo FBI e mesmo assim desafiou a todos com seu disfarce, fazendo ainda mais vítimas ao longo de seu caminho. A incógnita era Clarice, ela era a única a quem Lecter se rendia, era aquela a quem ele se curvava e se preciso salvava-a sem hesitação. Clarice viu a morte de perto, e viu também que Hannibal é capaz de qualquer coisa, até mesmo de deixar à mostra o cérebro de uma pessoa e dar a ela um pedaço flambado da própria carne. Ela assistiu a tudo sentindo uma ânsia enorme e o desespero de estar no lugar daquele homem. Mesmo sabendo que ele era um traidor, ela sabia que ele não merecia morrer. Talvez não fosse inocente, mas ela sabia que ele tinha que pagar por seus erros, mas não daquela forma. Hannibal era mesmo capaz de tudo... até mesmo de beijá-la. Em meio às lágrimas e o tormento de ver-se presa a Hannibal mesmo que involuntariamente, ele beijou-a, ao invés de comê-la ali, enquanto estava vulnerável. Hannibal não seria capaz de tal barbaridade, talvez até pudesse matar Scully, e de fato iria fazê-lo, mas Clarice não, ela tinha um lugar reservado em seu coração. Porém, Lecter sabia que não era ético a fera envolver-se com a bela, e que a vítima não podia se apaixonar pelo assassino, e vice- versa... mas enfim o inevitável acontecera. E agora ele tentava pôr em prática seus planos diabólicos e armava táticas para levar a vítima até a sua armadilha... APARTAMENTO DE FOX MULDER, 9:21 PM Mulder foi até o quarto, para ter certeza de que Scully estava bem. E ao chegar lá, não a viu e entrou em desespero. Procurou-a por todos os cantos mas não a encontrou, até que ouviu a voz suave que vinha da sala: _Mulder, eu estou aqui. Ele sentiu um alívio tremendo ao vê-la sã e alva. Sentada numa cadeira, ao lado do telefone, ela observava a preocupação do agente e tentava fazê-lo ver que ela não estava em perigo. _Não fique tão preocupado, Hannibal deve estar longe a essa hora... _Não Scully, você não o conhece. Ele é capaz de tudo. _Eu sei, mas eu estou aqui, com você, e me sinto protegida. Ela fitou-o por um momento e Mulder aproximou-se, sentando ao seu lado. _Scully, eu não posso te perder... _Mas você não vai! _Eu sei, mas só de pensar nisso me dá um aperto no peito que... _ela levou o dedo aos lábios do parceiro e o calou por um segundo. _Shh... não diga nada. Vamos ficar aqui, juntos, e nada mais vai nos atrapalhar. Ele observou-a fixamente e não entendeu como podia ter desperdiçado tanto tempo. Ele a amava. Queria-a por completo e agora ela estava ali, em seus braços. _Scully, eu tenho que te pedir desculpas por Ter estragado seus planos. _Não Mulder, não é preciso. _Mas eu atrapalhei você na sua viagem. _Não! Você me salvou... Ela viu que o brilho nos olhos de Mulder se intensificava a cada segundo e agradeceu-o por tudo: _Obrigado, Mulder. E em seguida o ambiente tornou-se quente, o romance estava no ar e a tensão aumentava a cada momento. Eles se aproximavam, e estavam prestes a selar um beijo. Já estavam quase se beijando quando... O telefone tocou. A interrupção quebrou o clima e Mulder recuou, descontente. Pediu a Scully que não atendesse, mas ela disse que poderia ser o assassino. _Alô? _Agente Scully, interrompi algo? _Não, eu e o agente Mulder estávamos... _Eu sei, eu sei... não precisa explicar. Eu só quero que você me encontre agora na cobertura do prédio. _Como é que é?? _É isso mesmo. Eu quero que você venha aqui agora, e sozinha, pois do contrário terei que matar mais uma pessoa inocente. Ela olhou para Mulder, e este percebeu que ela estava sem saída, e o olhar delatava que o homem ao telefone era ele, Hannibal, ordenando a Scully que fosse até o local onde estava. Ela desligou. Mulder viu nos olhos de Scully uma súplica abafada, e ela não disse nada até que ele tomou a palavra: _Não se preocupe, Scully. Eu te acompanho. _Não, Mulder, ele me disse para ir até lá sozinha. _De jeito nenhum, Scully, ficou maluca? Ele vai te matar! _Não se eu for mais esperta que ele. Scully dirigiu-se ao elevador e apertou o botão, mas logo percebeu que estava quebrado. Teria que subir as escadas até o último andar onde Lecter a esperava. _Scully, eu vou com você! _Não, Mulder, você fica aí. Ligue pra agente Starling e avise-a que ele está no prédio. Só ela poderá detê-lo. Mesmo com Mulder lutando para ir com ela até a cobertura, ela subiu sozinha. Engoliu em seco e subiu degrau por degrau até chegar no último andar. Respirou fundo, e depois de algum tempo estava lá, sozinha e desolada, apenas com uma arma e nada mais. Exatamente como Lecter queria. Mulder ligou para a agente Starling e ela não mediu esforços para ir até o prédio onde Mulder morava. Ela estava no FBI e seguiu imediatamente até lá, pois sabia que Hannibal não sossegaria enquanto devorasse Scully, e buscando impedir que ele cometesse mais essa loucura, ela iria tentar impedi-lo. Scully caminhava com medo, os saltos batendo contra o chão e ecoando pelos corredores escuros que pareciam sem fim. Finalmente ela sentia o frescor tocar-lhe a face, e encontrava a luz da lua, iluminando o local úmido em que se encontrava. Ele estava lá, ela podia vê-lo de longe, mesmo sob a luz fraca que encobria a sua face. Era exatamente como em seus sonhos... ela nunca conseguia observar a face do assassino, e sempre tentava fugir... e agora estava ali, face a face com o canibal, disposta a fazer tudo o que ele mandasse, para salvar a vida de seu parceiro, pois sabia que ele não pensaria duas vezes para vingar o tiro que o agente havia desferido. A voz suave lhe disse em tom extremamente baixo: _Enfim sós, não é mesmo agente Scully? Ela quase não conseguia ouvir a voz de Hannibal, em meio ao caos que existia na rua em que dezenas de carros transitavam freneticamente. _Creio que nós já vivemos situação parecida ontem à noite. _Está enganada, Dana. _ele parou por um instante _Posso te chamar de Dana? Ela gesticulou afirmativamente com a cabeça, afinal não tinha saída. _Pois bem, Dana... você está redondamente enganada. Cada dia é um dia, e todos são diferentes. Sendo assim, o que vivemos ontem não pode ser revivido hoje. Concorda comigo? Ela sentiu um calafrio ao ouvir a pergunta, temendo qualquer gesto brusco, mas foi corajosa ao dizer: _Desculpe, Dr., mas eu discordo. Ele se espantou ao ouvir a frase vinda da agente; mesmo em perigo, ela não se abatia. _Ora ora... Você discorda? _Discordo, pois quando você gosta muito de uma pessoa você quer que todos os momentos ao lado dela sejam iguais, com a mesma intensidade. Quando você ama, não tem noção de tempo ou espaço, apenas ama e pronto. _É... até que você tem alguma razão. Eu pude sentir isso quando te vi naquela noite, tão frágil e envolvida nos seus sonhos. O Mulder é muito sortudo, ele não sabe a amiga que tem. _ Por que diz isso? _Vocês merecem um ao outro, e não há ninguém no mundo que possa impedir essa paixão. _Incluindo você? _É, incluindo eu... mas... pensando bem, por que eu devo estar incluso nessa lista? Pense, Dana, você acha justo que você e o Mulder fiquem juntos enquanto eu e a Clarice temos que nos separar? _Mas foi você que escolheu assim. Vocês podem muito bem ficar juntos, sem ninguém para atrapalhar... por que vocês não fogem? Ele sorriu por um instante. _Fugir... Ah, Dana, você ainda tem tanto que aprender! A fuga não é senão um meio de fugir dos problemas, de descartar a coragem. E como eu sou corajoso, prefiro enfrentar o mundo a fugir com o meu amor. Renuncio minha paixão para não fazê-la sofrer. _E por que você acha que Clarice iria sofrer com você? _Por que ela ainda tem medo de mim, pensa que eu posso comê- la como fiz com todas as outras. _Você é doente, sabia? _Não, Dana, eu sou um canibal. Sou humano, mas gosto de comer carne humana. Não vejo nenhum problema. _Pois eu vejo! Você é um assassino! Mata inocentes para satisfazer a sua vontade, pois não pode ter quem mais deseja então desconta nos outros! _Você se acha inocente? Ela foi pega de surpresa. Abaixou a cabeça, já quase rendida, e quando voltou seu olhar para Hannibal, ele não estava mais lá. Apenas a escuridão que envolvia todo o local. A lua parecia estar se distanciando, e quando Scully virou-se para procurar pelo Dr., deparou-se com ele atrás de si. _Procurando por mim? _ele sorria diabolicamente e causava em Scully um sentimento de repulsa crescente. Ela estava assustada, aterrorizada, e já não tinha saída. Estava nas mãos dele, rendida, e seu medo aumentava a cada segundo. _Olhe, agente Scully, eu trouxe a você uma convidada. _ele apontou para um canto em que podia-se ver uma mulher, amordaçada e aflita, chorando sem parar, e disse _Vê? Ela é inocente. Você não quer que ela morra quer? Ela balançou a cabeça negativamente. _Pois então, você poderá salvá-la e também ao seu parceiro se fizer o que eu vou te dizer. Você vai cooperar? Ela respondeu que sim. _Então, agora você põe a sua arma no chão bem devagarinho. Ela retirou o revólver do coldre em sua perna e o colocou no chão. Hannibal apanhou a arma, já tomando controle da situação, enquanto Scully parecia hipnotizada e fora de si. _Muito bem, agora eu quero que você prove isso aqui e me diga se está bom. _Ele retirou de seu bolso um recipiente, e dentro dele estava um coração, conservado há horas e que havia sido retirado à mão de uma de suas vítimas. Scully sentiu vontade de vomitar, mas não havia chance de negar a ordem, não havia escapatória, restava a ela fazer o que Hannibal mandava. Ela tomou o coração nas mãos e relembrou das tantas autópsias que já havia realizado, mas nenhuma se comparava ao que ela passava naquele momento. Levou à boca de uma só vez e mordeu um pedaço, fazendo jorrar o sangue que escorreu por suas mãos. _Muito bem, Dana, estamos indo bem. Ela tentou engolir o pedaço, mas logo expeliu-o contra a sua vontade, pois não conseguia engoli-lo, sentia uma ânsia incontrolável e não podia mais continuar. _Eu não posso... não consigo! _Ora Dana, mas é tão fácil! Veja... _ele pegou o coração ensangüentado e mordeu, deliciando-se e lambendo os lábios. _Hummmm... é delicioso. Prove. _Não! Eu não posso!!! _ E por que não?? _Por que não sou canibal!! Ela começou a chorar e Hannibal mostrou-se desapontado com a agente, sua postura partindo de calma para enérgica. E ordenou-a que continuasse: _Eu não vou dizer outra vez. Ou você come esse coração ou aquela mulher morre! Ela observou Alexia, presa num canto, e tentou controlar o choro, bem como a ânsia insuportável que sentia. Foi então que duas figuras enigmáticas surgiram do nada, uma delas alta e a outra mais baixa. Uma mulher e um homem... eram Mulder e Clarice. _Pare, Hannibal! Você não pode obrigá-la!! _Mulder disse com convicção, impondo ordem e tentando causar medo no assassino. _É isso mesmo, Lecter. Deixe a Scully em paz, ela é inocente. _Clarice apoiou Mulder e tentava fazer Hannibal desistir daquela loucura. _Veja o que temos aqui! Dois agentes do FBI ameaçando um canibal! Tsc, tsc, tsc... eu não acho que esta seja uma boa idéia. _Você não tem que achar nada! Ponha as suas mãos para cima antes que eu estoure seus miolos!! Hannibal, mesmo diante de ambos, ousou rir de Mulder e zombou do agente, desafiando-o ainda mais: _Mulder! A quem você quer enganar?? Você não mata nem uma mosca!! Você é uma vergonha para o FBI, um verdadeiro fracassado!! E agora, a sua parceirinha está nas minhas mãos e não há nada que possa fazer que não seja tentar impo-me medo!! Não seja patético... o "Fantasmagórico" Mulder quer causar medo??? _Eu estou lhe avisando, Lecter, qualquer movimento em falso e eu te mato aqui e agora! Clarice ouvia tudo sem dizer nada, a arma na mão e o olhar centrado no homem à sua frente, e virou-se rapidamente para observar Alexia presa, e só então disse a Mulder: _Mulder, veja! _e apontou em direção à moça, amarrada. Mulder observou-a por um instante e logo voltou seu olhar a Hannibal, que impunha a Scully a ordem de saborear aquele coração. _Vamos, Dana! Coma! Não dê ouvidos a esses bastardos! Eles não são nada... se você fizer o que te digo, verá que a vida vai ficar mais bela. Talvez assim você encontre a resposta para todas as suas perguntas. _Lecter!! Eu estou te avisando!!! Ponha as mãos pra cima ou eu aperto o gatilho!!! Ele segurava a arma com segurança e não piscava uma vez sequer. Focalizava Hannibal e tentava fazê-lo desistir de tudo aquilo. No entanto Hannibal desafiou Mulder mais uma vez, e, com o coração em suas mãos, levou-o à boca de Scully à força, lambuzando-a com o sangue que jorrava e fazendo-a ficar sem fôlego. Era o que bastava. Mulder, em sua completa revolta, viu a cena com atenção e não poupou esforços em apertar o gatilho... atirou em Hannibal com toda a raiva que possuía. O ápice de sua fúria o fez disparar a arma... e a bala atingiu em cheio o peito do canibal. Clarice, num sobressalto, viu Lecter caindo e coreu até ele, tentando socorrê-lo. Porém era tarde demais. Ele estava agonizando, o sangue jorrava com toda a força e ela chorava sem parar ao ver seus sonhos desabando. Ela chorava e gritava com toda a força: _Nããããããoooo!!!!!!!!!!!!! Mas de nada adiantava. Hannibal havia sido abatido e sucumbia agora, talvez até imaginando que ia pagar por todos os crimes que cometera. Ela não suportou a dor e tentava impedir o sangue de continuar escorrendo... totalmente em vão. Ao levar a mão ao abdômen de Lecter, ela sentiu algo sobressalente em seu bolso... era um bilhete. Um bilhete de despedida, e nele lia-se: "Lecter e Clarice... Um sonho desmoronado. Perdoe-me, amor, por tudo o que lhe fiz de mal... não era a minha intenção. Se hoje você lê este bilhete é porque não fui capaz de cumprir minha jornada... não fui capaz de vingar o meu amor. Mas saiba que, mesmo queimando nas labaredas do inferno, ainda assim, vou carregar você comigo enquanto puder, por toda a eternidade, e quem sabe um dia nos vejamos de novo... De qualquer maneira, quero que saiba que você foi a primeira e a única por quem me apaixonei. Amo você mais do que tudo e não posso viver sabendo que lhe faço sofrer. Se isso ocorre, prefiro morrer... Adeus, Hannibal, ou "Il Monstro". P.S.: Os monstros também amam." Ela não se conteve e chorou ainda mais, a dor pungindo cada vez mais forte, e a culpa latejando dentro de si. Ela sabia que era culpada por sua morte e nunca iria viver em paz sabendo disso. Sendo assim, resolveu pôr um fim em todo sofrimento e levantou-se, recompondo sua postura e caminhando lentamente até a beirada do prédio. Observou atentamente os carros transitando e pensou por um instante que seria melhor assim, e logo em seguida pulou, sem nem ao menos ouvir o pedido de Mulder: _Não, Clarice! Não faça isso!! Ela se jogou da cobertura e caiu no meio da multidão. Logo, um aglomerado de pessoas se juntava para tentar acorrer a moça ruiva que permanecia estirada no chão... mas era tarde demais, ela estava morta. Mulder correu até Clarice, mas não conseguiu impedi-la, e logo em seguida sentiu a brisa batendo em sua face. Voltou-se para Scully e viu-a desfalecida no chão... estava lúcida de novo. Embora desnorteada, estava de volta, liberta dos pesadelos criados por Hannibal Lecter. Antes de carregá-la, seguiu até Alexia, desamarrando-a e libertando-a enfim, depois de tanta agonia. E ela agradeceu a Mulder por tê-la salvo. Ele correu até Scully e, vendo que Alexia o seguia, carregou-a nos braços heroicamente. Ela estava desmaiada, mas ainda viva, e isso era o que importava. Levou-a em seus braços e seguiu pelas escadas, enquanto Alexia observava o gesto valente do agente e constatava que aquela era uma verdadeira demonstração de amor... O agente ainda virou-se uma última vez para observar o corpo de Lecter, que permanecia estirado no chão. Ele viu que Hannibal, mesmo morto, sorria, ainda desafiando-o, e talvez estivesse vivo... mas não cabia a ele descobrir... afinal, ele já havia feito sua parte. PRODUTOR EXECUTIVO: LUCAS ZAGO. ELENCO: Gillian Anderson como AGENTE ESPECIAL DANA SCULLY David Duchovny como AGENTE ESPECIAL FOX MULDER Julianne Moore como AGENTE ESPECIAL CLARICE STARLING Anthony Hopkins como DR. HANNIBAL LECTER Alexandra Morgilli como ALEXIA GILLI Silvia Penhalbel como HELENA Késsia Nina como KESSY Clarissa Sidou como CLARISSE Claudia Modell como Claudine NOTAS FINAIS: Essa história deve (certamente) conter vários erros de Português, embora eu a tenha corrigido, pois fiz a fic às pressas, pois como um bom nativo brasileiro deixei pra última hora e acabei tendo que correr contra o tempo. De qualquer forma espero que vocês tenham gostado da fic e aguardo ansiosamente por feedback! É sempre uma experiência diferente lidar com o universo de determinadas pessoas e tentar fazer daquele universo uma história convincente e que agrade aos leitores. Isso ocorre com "Hannibal", e "O Silêncio dos Inocentes", baseados nos livros de Thomas Harris e que me criaram uma vontade imensa de utilizar as idéias do filme numa espécie de seqüência. Aqui, o ciclo fecha, é a parte final da história, o que é ainda mais difícil se tivermos em mente quão complexo é esse universo e quão bem elaborados são os personagens. A Julianne Moore, em "Hannibal", convenceu bastante em seu papel e me fez pensar por que a Gillian não estava no lugar dela, assim como a Jodie Foster fez da sua atuação uma das mais memoráveis de sua carreira (junto com Contato, na minha opinião). O fato é que eu fiquei realmente intrigado com tantos detalhes, tantas minúcias, que resolvi me arriscar e fazer dessa fic um novo desafio. Sim, porque lidar com a criação de uma outra pessoa nem sempre é muito fácil, e eu posso afirmar isso porque já fiz muito isso com Arquivo X e confesso que às vezes a gente acaba saindo do verdadeiro propósito da série, tentando mostrar o lado pessoal dos agentes. Na ficção vale tudo, até romance, mas temos que Ter em mente que a história pode parecer sem sentido se não tomarmos como base o que vemos no seriado, afinal, nós estamos escrevendo exatamente sobre isso. E esse foi o meu medo ao escrever essa história, de fugir do tema do filme, de extrapolar, e para saber se isso aconteceu, queria receber a opinião de vocês, pois esse não é meu primeiro crossover (vide "Bates", AX/Psicose), e queria saber se fui feliz na tentativa. Um agradecimento especial à Kessia Nina, que incentiva os autores com seus "Desafios", fazendo-nos pôr a cabeça pra funcionar e criar a histórias de que tanto gostamos. Bem, quanto à musica dessa fic, acho que caberia bem aquela da Ivete Sangalo "Canibal", que retrata bem o Hannibal, inclusive a parte que ela fala "O seu amor é canibal/Comeu meu coração mas agora eu sou feliz"... Hehehehe Just kiddin'! :D É claro que isso foi brincadeira Mulderista :) mas uma música que cabe bem (agora é sério) é a "Irresistible", do grupo "The Corrs", cuja letra não me lembro, mas se alguém tiver oportunidade de baixar a letra ou a própria música, vale a ´pena porque ela é bem legal e tem tudo a ver com a fic. Vale também conhecer o trabalho desse grupo de irmãos que é muito legal! Acho que é só. Ah! Tem mais uma coisa: todas as minhas fanfictions estão no meu site, "Luxfiles", em www.luxfiles.hpg.com.br Um abraço, Lucas Zago.