Fan Fiction: Arquivo X Nome da autora: Bel E-mail: diario-da-bel@bol.com.br Sinopse: Sarah, a filha de Fox Mulder e Dana Scully, vive uma aventura quando se dá conta do desaparecimento de seus pais. Categoria: Aventura Disclaimer: Os personagens não são meus. Fox, Dana e Skinner são velhos conhecidos para quem assiste Arquivo X. Sarah é uma criaçaõ de WeirdGirl (weird.girl@arquivo-x.com). Tio Ben e Ewan são criações minha. Sarah Scully Mulder By Bel. O quarto dela é todo decorado com figuras do Norman Rockwell. Ela não sabe do valor artístico ou mesmo da procedência das gravuras, mas gosta de olhar para elas, de entender-lhes os detalhes. Seu mundo não é um mundo de sonhos. Ela vive, ela sorri, tem amigos e freqüenta a escola. Tem 10 anos, é ruiva, ainda não é bonita, tem boas notas e alguns problemas com a professora do 4º ano primário. Escreve um diário, está envolvida com pelo menos dois grupos de RPG e compromissos virtuais: jogos on-line e projetos de home page. Seu nome é Sarah. Seus pais são seus heróis e sua maior fonte de preocupação. Eles trabalham para o FBI, e passam muito pouco tempo em casa. No entanto, alguns rituais são sagrados entre ela e eles, como o beijo de boa noite que sua mãe Dana lhe dá na cama dez horas antes de lhe preparar um café da manhã. A figura "Freedom from Fear", que seu pai, Fox, reconheceu do filme "O Império do Sol", está pregada na parede logo acima da cama da menina. Há dias em que Dana entra furtivamente no quarto da filha e entrega alguns de seus minutos à tentativa de compreensão daquela doce ilustração. Essa história, envolvendo Sarah, começa numa manhã de fevereiro. Ela acordou e foi até a cozinha de sua confortável casa, onde constatou que aquele era um desses raros dias em que sua mãe não estava presente para lhe preparar o café da manhã. "Então este será um desses raros dias em que eu não irei à escola". Meia hora depois, Sarah ouve a buzina do microônibus que a levaria até o colégio. Ela conta até trinta e cinco para que o motorista perceba que naquele dia era matará aula. Ouve o barulho do microônibus partindo. Sobe as escadas internas até o segundo melhor cômodo da casa: o escritório de seu pai. Abre a estante de VHS´s que não fica trancada. Seleciona três fitas e vai para o quarto dos pais assisti-las na maior TV da casa. Antes disso, passa no escritório da mãe para constatar se não há nada de novo. Era um cômodo frio e muito bem organizado. Ao invés da enorme estante entupida de fitas de vídeo do pai, há um delicado móvel com cerca de trinta DVD´s, a maioria documentários e dramas existencialistas. Sarah faz uma careta ao ler os títulos. Agora vai para o quarto dos pais. A cama está impecavelmente arrumada. Ela sente um certo prazer em estragar aquilo. Coloca uma das fitas no vídeo e pula com uma violência divertida em cima da colcha esticada, desarrumando tudo. Com o controle remoto, dá o play que faz a TV funcionar e o filme começar a rodar. "O Estranho Mundo de Jack" começa a se formar no vídeo. Ela se lembra do dia em que seu pai lhe presenteou com aquela fita, lembra-se de como ficou chateada (já que esperava ganhar um Playstation 3) e de como era justamente seu pai quem mais assistiu aquele filme desde então. Ela não gostava que ele a visse assistindo, era teimosa. Mas já tinha assistido tantas vezes que agora acompanhava com facilidade as musicas de Jack e dos demais habitantes da cidade do Halloween. Ela passa a manhã inteira vendo filmes. Agora são 12:30. Sarah sente falta do almoço. Liga para o celular de sua mãe, que esta fora de área. Tenta o de seu pai, que está desligado. Liga para a pizzaria. Pede uma brotinho de calabresa. Almoça e volta para a TV. No meio da tarde se sente entediada. Liga para o FBI a fim de encontrar noticias dos pais. Uma secretaria de voz pastosa atende ao telefone. Sarah pede para falar com o seu padrinho, o dir. assistente Walter Skinner. "Tio, você sabe se eles estão fora da cidade?", mas Skinner não sabe... Diz que Fox e Dana não foram trabalhar naquele dia. Diz também a Sarah que não se preocupe, que ele entrará em contato com ela assim que tiver noticias. Oferece-se para levá-la ao McDonnalds quando terminasse seu turno no Bureau. Ela agradece. Desliga o telefone e vai para o seu quarto. Fica olhando as figuras nas paredes. Sente vontade de desenhar, mas alguma coisa a está inquietando, como uma angustia da qual não pode se livrar enquanto não descobrir de onde vem. Ela liga seu computador e entra num site de conversação. Digita sua senha de acesso ao seu grupo particular, e encontra on-line apenas dois de seus quinze amigos virtuais. "Estou preocupada com meus pais... Parece que eles não passaram a noite em casa e nem foram trabalhar". Mas seus amigos encerram o assunto brevemente, pois necessitam discutir os últimos episódios da 13ª temporada de Futurama. Mesmo assim Sarah permanece no site por mais alguns minutos, antes de se lembrar do compromisso com o padrinho. Então desliga o computador, toma um desses banhos reflexivos, mais pensando do que se ensaboando, e veste o primeiro jeans-e-camiseta que encontra. Então ouve a campainha da frente, e desce as escadas correndo. Sabe que é o padrinho, mas espera que sejam seus pais. Mesmo assim fica desapontada quando vê que se trata de Skinner. "Você sabe deles?" Não, tio Skinner não sabia de Fox e Dana... Mas não estava preocupado à respeito. Foi o que ele disse: não se preocupe, meu anjo... Eles devem ter tido alguma emergência de família ou algo assim. Emergência de família!? Sarah era da família! "Eu quero um BigMac, duas batatas fritas e um McSalada". Não se falou mais em família até o fim do jantar. Skinner perguntou se Sarah gostaria de passar a noite na casa dele, mas ela disse que não. A casa do Skinner era ok, o Skinner era ok. Mas ela precisava ficar em casa esperando seus pais. De uma forma ou de outra, não poderia dormir naquela noite, e sabia que seria bem mais fácil ficar acordada em sua casa. Sarah passou toda a madrugada no quarto dos pais, grudada no telefone. A TV estava ligada no canal de notícias, mas Sarah odiava jornais. Quando o Sol entrou pela janela e a buzina do microônibus escolar tocou, ela estava dormindo, e não pôde perceber uma coisa nem outra. Acordou por volta das onze horas com a campainha do telefone. Mais uma vez, era Skinner: "Não, tio... Eles não chegaram. Nem ligaram. Tem certeza de que eles não apareceram por aí?" Skinner sabia tão pouco quanto ela. "Podemos chamar a polícia, os bombeiros, sei lá?" Ela não deveria se preocupar, dizia Skinner. Já havia pessoas tentando localiza-los. "Ok, tio. Qualquer coisa eu ligo. Beijo."Então Sarah chorou. Não sabia o que chorava, mas aquela era uma situação inédita, e ela não sabia o que fazer. Por isso chorou. E chorando foi até o espelho do banheiro. Seu rosto estava vermelho, e os olhos diferentes. O cabelo, muito liso, escorria oleoso pelo rosto. Sorriu diante daquela coisa engraçada que era ela. Voltou para o quarto, para os telefones. Olhou no relógio e espantou-se com o tempo. Aquela situação parecia prolongar-se por semanas, e ainda eram meio dia e vinte do dia seguinte. Amarrou os dois telefones sem fio na cintura e desceu até a cozinha. Pegou uma salada de repolho mais ou menos nova na geladeira e sentou-se para comer. Aquilo parecia sua mãe. Com o garfo Sarah cutucava a salada, admirando-se com a quantidade de coisas que se podia formar com os fios de repolho. Tanto brincou que perdeu a vontade de comer. Fechou a salada na embalagem plástica novamente e tornou a guarda-la na geladeira, onde pegou uma Coca. Era Coca diet, e isso a desencorajou a prosseguir com a idéia de beber toda a garrafa. Não bebeu nem um gole. Tornou a guardar a Coca. Fechou a geladeira e abriu a despensa. Nada lá dentro parecia tentador. Decidiu ligar para a pizzaria. Enrolou o menino que atendeu o telefone por quase meia hora. Fê-lo ler todas as opções de combinação de sabores e decidiu que queria uma tradicional de mussarela. Quando foi buscar o dinheiro para o entregador, constatou que aqueles eram seus últimos cents. Encarou a pizza sobre a mesa por alguns minutos, até decidir que não tinha fome. Tornou a ligar para o padrinho: "Tio, posso ir aí?" Sim, ela podia. Skinner mandou um motorista busca-la. Não era a primeira vez que Sarah passava um dia no bureau. Ela já tinha acompanhado sua mãe algumas vezes. Ela gostava de fica no porão com o pai, mas nem sempre podia. Dana gostava de manter sua menina longe da bagunça e das excentricidades exageradas do pai. Mas naquele dia ela gostaria que fosse diferente: "Tio, posso ficar lá na sala do meu pai?". Skinner quis saber se ela não mexeria em nada nem faria muita bagunça. Essa segunda parte ele disse ironicamente, e ela entendeu. Foi então no porão do FBI que Sarah passou aquela tarde, trocando a aflição pela confiança no pessoal FBI e a frustração por uma sala enorme, cheia de coisas incríveis para uma menina de dez anos descobrir. Mas o tempo é traiçoeiro e antes que se desse conta Skinner já batia na sala de Fox, convidando Sarah para irem juntos para casa. Skinner era aposentado, mas ainda fazia supervisões e cuidava de algumas burocracias no FBI. Sarah sabia disso pois seus pais sempre comentavam dos tempos em que Walter era o "chefe do pedaço". Dana não gostava dessa expressão, e talvez por isso mesmo Fox insistia em usá-la. Não foi com pouca tristeza que Sarah deixou a sala do pai. Na noite do segundo dia dos quatro dias mais estranhos da vida de Sarah, ela dormiu na casa de Skinner. Skinner morava com um outro tio, mas não há muito tempo, embora para Sarah esse tempo representasse dois terços de sua vida. Era o tio Ben, que era muito gentil com ela e sempre fazia de tudo para agradar a Sarah e seus pais. Ao coloca-la para dormir no quarto de visitas, já passavam das onze da noite. Os dois tios e a menina ficaram assistindo TV até então. Era óbvio que Skinner estava preocupado a sua situação do desaparecimento de Fox e Dana. Ele fazia de tudo para manter Sarah distraída: pediu pizza com Coca pelo telefone, jogou seus jogos de baralho preferidos, deixou que ela escolhesse os canais de TV que assistiram... E ao coloca-la na cama, ainda lhe disse que não se preocupasse, que tudo ficaria bem, e que antes do que imaginavam mamãe e papai estariam de volta. De alguma forma aquilo soou falso. Na manhã seguinte Skinner teve que sair muito cedo para o trabalho, e foi tio Ben quem levou Sarah até a escola. Eles se despediram, e antes que o carro dele desaparecesse na esquina, Sarah correu até o ponto de táxi. Skinner tinha-lhe dado cinqüenta dólares quando ela lhe disse que estava sem dinheiro até para o lanche. Sarah não estava nem um pouco interessada em escola. Sua cabeça estava ocupada demais, não sobrava espaço para matemática e inglês. Além disso, se ela não estivesse em casa, quem atenderia o telefone caso seus pais entrassem em contato? Ainda no ponto de ônibus, Sarah foi surpreendida pela presença de um colega de classe, Ewan. Ela não tinha muita convivência com esse menino, que era geralmente estranho demais para despertar qualquer espécie de simpatia. Ele também estava tentando matar aula. "Ei, o que você está fazendo aqui?". A essa pergunta de Sarah, Ewan ficou muito constrangido. Certamente não esperava ser surpreendido. Ele respondeu quase gaguejando que não podia ir à aula porque não tinha concluído o trabalho que a professora lhe havia encomendado. Sarah quis saber se ele estava indo para casa, e se sua mãe não ficaria brava por conta disso. Ele não respondeu. Nesse meio tempo um táxi parou. Sarah entrou primeiro, e num impulso convidou Ewan para entrar. Ele entrou e os dois foram para casa de Sarah. Assim que chegaram, Sarah percebeu que não saberia o que fazer com aquele garoto. Como explicaria a ele a ausência de seus pais? O que conversaria com ele? Ewan era um menino tímido. Assim que entraram, ele ficou parado junto à porta por uns dez minutos. Foi preciso Sarah convida-lo a sentar-se no sofá para que ele saísse dali. Durante toda a manhã assistiram, constrangidos com a pequena de presença um do outro, desenhos animados e outras produções infantis na TV. Às vezes Ewan sorria, ou até gargalhava das piadas dos cartoons. Já Sarah, essa não tirava os olhos do telefone, como se tivesse medo de não ouvi-lo tocar caso não estivesse olhando para ele. Na hora do almoço, Ewan tirou os olhos da TV e fixou-os em Sarah. Precisou de cinco minutos para tomar coragem e perguntar se ela tinha em casa alguma coisa de comer. Ela então se lembrou da pizza do dia anterior, que ainda deveria estar sobre a mesa da cozinha. "Ahn... Acho que tem pizza, só que deve estar fria. Me acompanha". Dirigiram-se até a cozinha. Mas não havia pizza alguma. A caixa redonda ainda estava lá, vazia. "Ué, eu tinha deixado uma pizza bem aqui...". Ewan sugeriu que talvez seu pai a tivesse devorado. Então Sarah sorriu, acreditando que talvez ele tivesse razão, e subiu correndo as escadas internas que levavam ao quarto de seus pais. Ia gritando: "Pai! Mãe!". Mas decepcionou-se... Tudo estava exatamente como ela havia deixado na tarde anterior. Novamente sentiu vontade de chorar, mas segurou as lágrimas ao se dar conta da presença de Ewan na porta do quarto. Ele, no entanto, não pôde deixar de perceber a tristeza da menina e, aproximando-se dela, abraçou-a, como se realmente a conhecesse. Foi um desses gestos que parece falso aos amigos de longa data que sabem alguma coisa de amizade, mas foi uma coisa verdadeira, porque não foi premeditado. Sabendo disso ou não, Sarah sentiu que podia chorar. E chorou. Depois, ainda entre soluços, contou a Ewan: "Meus pais estão fora há 3 dias, parece que eles sumiram...". Ele disse a ela que ninguém some. Que ela era estranha, mas que os pais gostam dos filhos de qualquer jeito, e que por isso ela não se preocupasse, pois logo eles estariam de volta, e tudo seria como há três dias atrás. Porque como há três dias atrás? Porque não "como antes"? Ah, essas reflexões sem sentido sempre aparecem nas horas mais complicadas. Sarah gostava de pensar no que as pessoas lhe diziam. Gostava, às vezes, de desdobrar as palavras de uma frase para ver se assim ela poderia tomar significados diferentes... Por isso seu pai a apelidara de "pequena detetive". Sarah começou a pensar nessas coisas, a pensar no Ewan, tentando se lembrar de coisas envolvendo ele na escola. Então parou de chorar. Sentaram-se um em frente ao outro na grande cama de casal. Sarah estava olhando para ele, mas sem se dar conta de sua presença. Pensava: "Os olhos do Ewan são enormes... Quase tão grandes quanto de um peixe. Um linguado! Uma vez eu vi um linguado... Tem os dois olhos do mesmo lado da cara... Como ficaria a cara do Ewan se ele tivesse os dois olhos de um lado só?" À essa imagem do menino-linguado Sarah não pôde conter uma risada. Ewan também sorriu. Alguma coisa passou pelo corredor que antecedia a escada. A porta do quarto que dava para o corredor estava de frente para Sarah, mas Ewan estava de costas para ela. Por isso só Sarah viu a coisa que passou. Não era uma pessoa, mas também não era um animal. Ela se assustou, mas mesmo assim se levantou e correu até a porta para verificar do que se tratava. Parecia um recorte de papel. Mas não era. Oh, Sarah! Você não está imaginando coisas. Quando Ewan foi atrás dela, a menina estava parada há três metros dele, de costas. Ela não se mexia. Ewan correu para ver o que estava acontecendo, e ao olhar para o rosto de Sarah, viu a expressão de terror mais convincente possível. Ela estava branca e gelada, como se tivesse visto um fantasma. Como não se mexia, Ewan arrastou-a até o quarto, fez com que ela se deitasse e apertou a tecla "memory 1" do telefone. Uma das coisas que aprendera na televisão é que as pessoas sempre guardam o número de telefone mais importante na tecla memory 1. Uma mulher atendeu: "FBI". Ele pensou em desligar, mas disse: "Ãhn... Aqui quem fala é Ewan, sou colega de sala da Sarah...". A mulher perguntou em que poderia ajuda- lo. Ele explicou que estava na casa de Sarah e que encontrou aquele número ao lado do telefone. A voz do outro lado do telefone pediu a Ewan que esperasse um momento, pois ela iria tentar localizar a ligação. Dois minutos depois a voz da secretária é substituída pela de um senhor: "Aqui é Walter Skinner. Você é amigo da Sarah? O que está acontecendo?". Ewan não sabia direito o que dizer. "Não... Quero dizer... Olha, o senhor é o pai dela? Se for, acho melhor vir pra cá imediatamente." Como ele não soube explicar do que se tratava a "doença" de Sarah, Skinner disse que estava indo para lá. Sarah acordou do susto alguns minutos depois de Ewan ter desligado o telefone, e ficou aliviada ao saber que seu padrinho estava indo para sua casa. Foi ela mesma quem abriu a porta para ele. "Tio, olha, você não vai acreditar no que eu vi. Eu mesma não acredito!". Skinner tentava acalma-la, mas não estava tendo sucesso. "Tio, eu vi o meu pai, e a minha mãe! Mas ao mesmo tempo não eram eles, entende? Eram como cartazes!" O que Skinner pensava daquilo tudo? Um capricho de menina? Não, sabia que Sarah não era caprichosa. Pediu a ela que se acalmasse e descrevesse exatamente o que tinha visto. "Olha, eu estava lá em cima e aí eu vi uma coisa passar pelo corredor. Sabe, uma coisa tipo um raio, foi muito rápido, eu não sei explicar. A coisa passou e eu fui correndo ver o que era. E então, lá no fim do corredor, estavam meu pai e minha mãe, só que eles eram finos, como papel. Quero dizer, não como papel, como algo mais fino. Na verdade, era como se eles não tivessem grossura, só tamanho!" Skinner fê-la parar de falar, conduziu-a até a cozinha e lhe serviu um copo grande de água. Disse a ela que era normal que ficasse um pouco assustada e agitada, afinal de contas, era a primeira vez que ficava tanto tempo sem os pais. Portanto, era previsível que sua imaginação lhe pregasse peças como aquela... Mas Sarah estava irredutível. Ela e Skinner discutiram por algum tempo, enquanto Ewan permanecia num canto da cozinha, observando a cena. Ele começava a entender o que acontecia. Skinner insistia que Sarah o acompanhasse até o FBI, não era bom que ela ficasse sozinha em casa, mas ela não queria nem saber. Pedia ao padrinho que não fosse embora, que ficasse com ela por mais algum tempo para o caso de seus pais aparecessem novamente. Quando Skinner foi embora, sob protestos de Sarah, Ewan respirou. Abraçou Sarah novamente, mas dessa vez só ele participava do abraço, e disse: "Olha, eu acredito em você. Eu sei o que aconteceu com seus pais. Sabe, o mesmo aconteceu com os meus. Eles foram capturados por um monstro da quarta dimensão." Sarah arregalou os olhos, mais séria do que antes. "Seus pais foram capturados por um monstro da quarta dimensão? Desde quando?" Ewan disse que isso foi há muito tempo, quando ele ainda era bem pequeno. E que desde então vivia com sua avó, que o ajudava em sua pesquisas envolvendo o hiperespaço, embora fingisse não acreditar nas teorias do neto. "Sabe, Sarah, ela diz que eles simplesmente morreram, mas eu sei que eles estão bem vivos. E sei que, tanto quanto eu, minha avó acredita que um dia eu vou encontrar uma forma de resgata-los". Sarah fez com que Ewan lhe contasse tudo o que sabia sobre esse tal monstro da quarta dimensão. Depois os dois foram juntos até a casa da avó de Ewan buscar os livros do menino. Ewan morava a três quarteirões da casa de Sarah, e por isso não tiveram problemas de irem caminhando. Ewan avisou a avó que dormiria na casa da amiga, mas não mencionou o fato do desaparecimento dos pais dela. Na noite desse terceiro dia, quando Skinner e Ben chegaram na casa de Sarah para busca-la, encontraram-na com Ewan e mais uma dúzia de livros de divulgação científica espalhados pela sala. Os dois pareciam engajados na pesquisa, e Ewan não economizava nas explicações. Skinner olhou para Ben e os dois se divertiram com a cena. Decidiram não interromper, e ao invés de levarem Sarah, passaram a noite na casa dela. Os dois tios ficaram assistindo TV no andar de cima enquanto Sarah e Ewan continuaram suas pesquisas até altas horas da madrugada. Skinner e Ben acordaram no meio da noite para beber água e encontraram as duas crianças dormindo sobre os livros. Skinner carregou Sarah até o quarto de Fox e Dana e Ben carregou Ewan até o quarto de Sarah. Na manhã seguinte Walter e Ben não acordaram Ewan e Sarah quando ouviram a buzina do microônibus escolar. Concordaram que as crianças tinham ido dormir muito tarde, e por isso mereciam mais algumas horas de sono. Então preparam um café da manhã caprichado, que deixaram servido na mesa da cozinha, para quando os dois acordassem. Junto com torradas finas e panquecas, deixaram um bilhete: "Sarah (e seu amiguinho cujo nome não conseguimos nos lembrar): Alimentem-se bem antes de voltarem ao trabalho! Sua professora ficaria orgulhosa se soubesse o quanto estudaram! Beijos, tio Walter e tio Ben". Cerca de três horas mais tarde, quando Sarah e Ewan encontraram o bilhete, deram umas boas risadas. Então Skinner, além de não ter a menor imaginação, não percebeu que os livros espalhados pela sala tratavam de física quântica... Sarah estranhou que seu padrinho não tivesse preparado nenhum café da manhã, embora a mesa estivesse cheia de pratos e xícaras. Mais tarde comentaria isso com ele. De volta à sala, Sarah e Ewan começavam a tirar as primeiras conclusões. "Ewan, pelo que eu entendi, esses buracos que abrem conexões entre os níveis dimensionais só aparecem ao acaso...", Ewan: "Sim, Sarah, geralmente é isso mesmo. Mas nós supostamente poderíamos criar nossos próprios portões dimensionais se dispuséssemos de uma fonte eletromagnética extremamente intensa, de proporções estratosféricas." A menina:"É, Ewan, só que isso não existe!" Sarah, ao contrário de Ewan, se desanimava mais e mais à medida que pesquisava. Quanto mais descobria, mais se convencia de que seus pais estavam presos na quarta dimensão para sempre. Foi então que, lendo um dos primeiros capítulos de um antigo livro, começou a perceber que estavam indo pelo caminho errado. O telefone tocou quando ela ainda não havia terminado o capítulo que lhe esclarecia a situação. Era Skinner, querendo saber se estava tudo bem e se ela havia gostado do café da manhã "ultra-especial". "Oh, ultra-especial mesmo! Tão especial que era até invisível!". Skinner não entendeu a "piada", mas Sarah entendeu tudo. Despediu-se do padrinho dizendo que estava tudo bem e que pediria uma pizza de almoço. Terminou de ler o capítulo que relatava fenômenos envolvendo níveis dimensionais inferiores e entregou o livro a Ewan esperando que ele tivesse a mesma idéia que ela. Mas não foi bem assim. Ele precisaria ter visto o que ela viu para entender. Sarah estava radiante, muito animada com a idéia. Foi a sua vez de explicar tudo a Ewan, enquanto os dois subiam as escadas e depois ficavam de sentinela no corredor em que Sarah havia visto seus pais "de papel" pela primeira vez. "Ewan, é tão simples! Meus pais, ao contrário dos seus, não foram capturados por nenhum monstro da quarta dimensão, mas sim da segunda! Eles agora estão presos na segunda dimensão! E só nós, seres da terceira dimensão, podemos resgata-los! Veja só, imagine que agora meus pais são dois bonecos desenhados numa folha de papel por um menino. O que você faz para tirar um boneco de papel de uma folha de papel? Exatamente, Ewan! Você o recorta! E é exatamente isso que nós vamos fazer!" Ewan quis saber como eles iriam recortar os pais de Sarah. Não poderiam usar tesoura, pois se errassem poderiam atingi-los na pele mais profundamente do que parecia. Agora Fox e Dana estavam indefesos, sujeitos a menor poeira que os atravessasse. Assim como num boneco numa folha de papel que rasga, os pais de Sarah poderiam morrer ao menor arranhão de um inseto, por exemplo. Seria preciso contorna-los com as mãos para que eles voltassem ilesos à terceira dimensão. Aos poucos Sarah foi entendendo tudo. A comida desaparecia quando não tinha ninguém olhando porque o monstro da segunda dimensão deveria estar seqüestrando também a comida, apara alimentar-se. Quando viu seus pais semelhantes a cartazes, era porque eles realmente não possuíam mais a 3ª dimensão do espaço: profundidade. Além disso, eles não poderiam ter visto Sarah, porque para eles qualquer objeto da terceira dimensão aparecia e desaparecia como um monte de bolhas bidimensionais que alteram seu tamanho à medida que passam diante de seus olhos, como um dedo atravessando uma folha de papel... Sarah tinha dúvidas quanto ao fato de Dana e Fox poderem ouvi-la, e não sabia como atraí- los até o corredor para poder "recorta-los". Foi então que Ewan deu a idéia da isca: ele e Sarah pediriam uma pizza por telefone a colocariam no meio do corredor. Meia hora depois a armadilha estava armada. Sarah e Ewan esperavam ansiosamente que o monstro viesse busca-la no meio do corredor. Se funcionasse, eles ainda saberiam que os seres da segunda dimensão eram capazes de ouvi-los, já que o que os atrairiam seria o cheiro da pizza; e o olfato é um sentido tanto quanto a audição. Demorou mais tempo do que os dois esperavam: uma hora e meia até que surgisse, vindo de um canto do corredor, Fox e Dana, como dois cartazes ambulantes. Ewan ficou estático, com a mesma cara de espanto que dominou Sarah na primeira vez que ela encarou os pais bidimensionais. Sarah, no entanto, estava mais preparada: "Mãe, pai... Talvez vocês não possam me ver, e talvez eu não possa escutar suas vozes bidimensionais, mas eu posso vê-los. Eu já sei o que fazer para resgata-los. Por favor, confiem em mim e fiquem onde estão". A expressão de Dana mudou completamente, ela estava emocionada. Fox parou no meio do caminho, como Sarah pediu. Ele esboçou um gesto pedindo que Sarah tentasse resgata-lo primeiro. Sarah entendeu que ele temia que ela não tivesse sucesso na primeira tentativa e acabasse por machucar sua mãe. Então Sarah aproximou-se, contendo a emoção, e começou a deslizar os dedos ao redor da silhueta do pai. Para isso precisou subir num banquinho. À medida que ia contornando o corpo do pai, uma mágica ia acontecendo, como se Fox estivesse saltando da tela de uma TV para a realidade. Ewan assistia a tudo de olhos esbugalhados. Quando estava livre, Fox abraçou a filha e cobriu-a de beijos o mais que aquele primeiro momento lhe permitiu, pois tinha pressa em resgatar Dana. Então começou a passar os dedos o mais delicadamente possível em torno da esposa, que ia saltando para o mundo tridimensional sem tirar os olhos da filha. Quando estava completamente livre, correu até a garota e lhe deu o abraço mais forte que podia, beijando-a por todo o rosto em meio a lágrimas... Fox se juntou àquela cena, e os pais mais orgulhosos do mundo não conseguiram parar de beijar e agradecer à Sarah... Ela também chorava e retribuía os beijos. Era o fim de um pesadelo do pior tipo: do tipo que separa pessoas que se necessitam mutuamente. A cena se prolongou e Ewan foi embora esquecido. Mas foi só por alguns minutos. Sarah notou sua falta e correu atrás dele. Felizmente encontrou-o no final da rua, e ele parou ao ouvir os gritos da menina. "Ewan, porque você foi embora assim? Eu preciso te agradecer, muito mesmo... Olha, se não fosse por você e sua teoria, talvez eu nunca tivesse recuperado meus pais..." Ewan: "Imagina... Sarah, acho que você é a menina mais esperta que eu conheço! Você teria descoberto essa coisa de segunda dimensão de qualquer jeito...". Sarah abraçou o colega, que ficou sem jeito. Depois lhe disse que tinha certeza que ele também encontraria uma forma de resgatar seus pais, mas Ewan disse que o caso dele era um pouco mais complicado, já que seus pais estavam numa dimensão mais elevada... Sarah pegou na mão dele, beijando-a: "Ewan, guarda isso..." Ele sorriu: "Bobinha! O que eu vou fazer com um beijo?". Sara: "É para quando você construir sua fonte eletromagnética e encontrar seus pais... Então dê o beijo a eles... Diga que fui eu quem mandou, e que é de agradecimento por eles terem feito um menino tão legal quanto você!" Ewan sorriu, deu um beijo furtivo no rosto de Sarah e disse que quando encontrasse seus pais Sarah poderia entregar-lhes o beijo pessoalmente. Ele então saiu correndo até a casa de sua avó. Sarah ficou olhando ele correr, até que Fox e Dana chegaram por trás e a abraçaram, dizendo: "Vamos, anjinho... Nós temos coisas inacreditáveis para contar...", "E um monte de beijos atrasados para trocar!" Nisso voltaram os três, abraçados, para a casa tridimensional mais incrível do mundo... FIM