Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, esta história destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: Shipper/Drama Spoiler: O Instigador. Nome do fan fiction: O Sândalo perfuma o Machado que o feriu Resumo: Uma ficção carregada de algumas revelações, um caso, uma briga entre os agentes Mulder e Scully, descobertas, e muita dramaticidade, esta fan fiction se concentra na relação entre os agentes. Obs.: Se você não for shipper, digo, extremamente shipper, então não leia, não é alarde, é um aviso bem fundamentado para não levá-lo a ler uma história que possa vir a não agradá-lo, devido à abordagem da ficção, em que há uma dramaticidade exacerbada, declarações, e romantismo para fazer até o maior dos poetas românticos renegar a profissão, tudo bem, talvez eu esteja exagerando, então, se tiver coragem, leia por si mesmo e tire suas conclusões. Antes de finalizar, quero agradecer aos corajosos que se dispuserem a ler esta fan fiction e aos que tentaram também, pois a batalha não é fácil, não é curta, para falar a verdade é extremamente extensa, literalmente falando. Vou finalizando por aqui para não me estender mais ainda. Boa Sorte! ** Encontrarão dentre algumas falas, frases que não pertencem a minha autoria, e sim ao poeta e cantor Renato Russo, inspirador da tristeza, da solidão e de toda a beleza oculta em suas letras. O Sândalo perfuma o Machado que o feriu O agente de olhos amazônicos pegou o casaco e dirigiu-se à porta, abrindo esta, dando passagem para que sua parceira saísse primeiro, depois desligou a luz da sala dos arquivos-x, trancando-a e seguindo com Scully até a garagem. Mulder acompanhava com os olhos verdes a mulher ruiva enquanto abria a porta de seu carro que estava estacionado ao lado do dela. Antes de Scully inserir a chave no contato, ele falou de modo que a parceira pudesse ouvir: - Bom fim de semana, Scully! Vejo você na Segunda - sorriu divertido, com o olhar brilhante. - Tchau, Mulder! - retribuiu o sorriso com outro, saindo com o automóvel em seguida. _____________________________________________________________ __ Apartamento de Fox Mulder 8:30 p.m. Sexta-feira Scully estava acomodada no sofá de couro preto, usava roupas informais, mais confortáveis e descontraídas, lendo a capa de uma fita de vídeo, quando um homem alto, trajando uma calça jeans e uma camiseta cinza, veio da cozinha, distraindo-lhe a atenção da leitura, trazendo um pote repleto de pipocas, estas inundaram a sala com um delicioso cheiro. - Que filme é esse? Já não bastam os arquivos-x? - a agente ergueu a fita, balançando-a aos olhos dele. - "O Iluminado", de Stephen King, um especialista na arte do terror - Mulder sentou-se ao lado dela depois de colocar o pote sobre a mesinha de centro. - Isso eu sei, está escrito na capa - encarou-o - Depois de uma semana exaustiva, de casos insólitos, minha idéia de assistir a um bom filme não era essa. - Você vai adorar, eu garanto - disse pegando a fita das mãos dela, inserindo-a no videocassete. - Logo um filme sobre um hotel mal-assombrado, Mulder? - franziu a testa - Da próxima vez, eu escolho. - Como quiser, desde que o acompanhante seja eu - sorriu, sentando-se no sofá, abraçando-a depois de tocar os lábios dela com os seus num beijo suave. Conforme a trama do filme se desenrolava, Mulder observava sua parceira de soslaio enquanto a mantinha em seus braços, Scully possuía a concentração voltada para a televisão, ele achava graça quando ela erguia uma das sobrancelhas ou assustava-se com alguma cena, sobressaltando- se, divertia-se, enlaçando-a mais ainda para oferecer-lhe segurança, mesmo que se tratando de um filme, uma ficção. - Estou com sede - comentou Scully no meio do filme. - Esqueci as cervejas, vou pegá-las na cozinha. - Pode deixar, Mulder, eu pego - desvencilhou-se dos braços dele. - Vou parar o filme - apertou o botão "pause" do controle remoto. - Não, pode deixar - Scully desapertou o "pause". - É impressão minha ou você está com medo do filme? - fitou-a com um sorriso nos lábios. - Não estou com medo, Mulder, que bobagem! O medo nada mais é do que um sentimento irracional... - parou de dissertar sobre o medo ao notar o olhar divertido do homem à sua frente. - Continue - fingiu interesse, achando graça da tática utilizada pela amiga para ocultar seus sentimentos. Ela voltou as costas para ele, dirigindo-se à cozinha sem nada dizer, Mulder seguiu-a, parando na porta, apoiando-se nesta com os braços cruzados enquanto observava Scully pegar duas garrafas na geladeira, antes desta ser fechada, a mulher de olhos celestes reparou em um inseto cascudo, era uma barata. - Mulder - chamou-o - Venha aqui! Ele se aproximou, enxergando o inseto em cima do eletrodoméstico para o qual Scully possuía a atenção voltada. - Mulder, preciso de um homem. - Ah, Scully! Eu também. Seus olhares se encontraram, não puderam impedir a explosão de risos que se sucedera. - Você deveria rir mais vezes, Scully! - Mulder, pensei que o sexo masculino servisse ao menos para matar baratas - fez uma expressão séria - Você me decepciona. - Espere, vou pegar as minhas armas para combater este ser repulsivo - correu para o quarto. Scully ficou sem entender nada, pegou as cervejas e voltou para sala, apoiando-as sobre a mesinha. - Aqui estão as nossas armas - Mulder entregou um chinelo a ela, ficando com o outro par - Vamos à luta! Tararan...tararan... Governo Nega Ter Conhecimento A Verdade Está Lá Fora _____________________________________________________________ __ O agente entrou na cozinha como a procurar um criminoso, Scully meneou a cabeça num movimento negativo, incrédula e ao mesmo tempo achando engraçada aquela brincadeira de Mulder. A barata era voadora, ela acabou fugindo para a sala, os agentes empenharam-se numa caçada implacável ao inseto, atirando os chinelos, acertando tudo quanto era lugar e objeto, exceto a barata. - Scully, é a barata que estamos caçando - falou depois de quase ser acertado por uma chinela voadora que a parceira arremessara. - Desculpe, Mulder, confundi o inseto - sorriu. - Hum? - ficou sem compreender. Depois de muito esforço sem sucesso dos agentes, a barata resolveu dar uma trégua aos federais, saindo pela janela na noite escura de Washington. Mulder atirou-se sobre o sofá, levando Scully junto, ficaram ambos lá deitados, abraçados, olhando para o teto do apartamento. A agente ergueu-se, pegando o pote de pipoca de sobre a mesa, apoiando-o sobre o abdômen do amigo, e voltando à posição anterior, recostada ao peito dele. - Scully? - Hum? - possuía a boca ocupada por algumas pipocas. - Eu seria capaz de passar o resto da minha vida caçando baratas voadoras se você estivesse ao meu lado - virou o rosto, beijando-a na face. - Duvido, Mulder, a não ser que fossem baratas voadoras alienígenas. - É isso que pensa de mim? - perguntou com o queixo imerso nos cabelos ruivos que exalavam um suave perfume. Scully pegou algumas pipocas, colocando-as na boca do parceiro. - Nunca pensei que pudesse encontrar alegria nas coisas mais simples, mais comuns, como caçar baratas com você, ficar assistindo qualquer coisa desde que esteja comigo, vê-la rir, estar aqui abraçado à minha razão, falando bobagem. - Não é bobagem. - Se a felicidade é algo tão simples, por que demorou tanto a chegar? - Talvez ela nunca tenha chegado, porque sempre esteve próxima, mas como nunca nos detemos em pequenos momentos, em pequenos detalhes, acabamos deixando que a felicidade passe aos nossos olhos despercebida. - Acho que a felicidade só se aproximou de mim quando você entrou naquele porão pela primeira vez, antes a palavra "felicidade" era uma incógnita, uma desconhecida do meu vocabulário - virou-se para ela, derrubando o pote e esparramando as pipocas pelo chão. - Mulder, as pipocas! - fitou os olhos amazônicos. - Deixe as pipocas, Scully, esqueça o mundo, as conspirações, tudo, até eu, mas não esqueça que alguém é feliz porque você existe - passou a mão pela face pálida dela, fitando-a profundamente nos olhos céu, aproximou seus lábios, sentindo-lhe a respiração morna - Antes de você aparecer, eu não existia, não vivia, acordava maquinalmente a cada dia, simplesmente por acordar, não havia uma razão, eu estava perdido e finalmente me encontrei quando a conheci - passou os dedos delicadamente sobre os lábios dela, beijando-a em seguida com ternura, com a alma. _____________________________________________________________ __ Quartel General do FBI Washington D.C. 8:10a.m. Segunda-feira O agente de olhos verdes estava sentado em sua cadeira, com uma pasta parda aberta em suas mãos, concentrado, quando sua parceira entrou na pequena sala em seus trajes formais e discretos, fazendo-o desviar a atenção para ela. - Bom dia, Scully! - sorriu - Como foi seu fim de semana? - Bom - limitou-se a responder. - Só "bom"? - fitou-a divertido. - Mulder, que pasta é essa? - apontou para a pasta que o parceiro segurava. - Um provável arquivo-x! Scully acomodou-se na cadeira do outro lado da mesa, de modo a ficar de frente para o amigo, esperando que ele a colocasse a par das informações referentes ao caso. - Alfred Sullivan matou a namorada Sandy Gibson a facadas, e Roger Arnold Besiger matou a esposa Mary Ann Besiger da mesma forma - falou enquanto lia os nomes na pasta. - Onde está o arquivo-x, Mulder? - ergueu uma das sobrancelhas. - Tanto Sullivan como Arnold Besiger foram encontrados na cena do crime desmaiados, e ambos quando acordaram não se lembravam de nada - fechou a pasta. - E as armas dos crimes? - As facas utilizadas possuíam as digitais deles, mas eles negam Ter cometido tais crimes - encarou-a - Convenhamos, Scully, que não é nada inteligente você deixar as digitais na arma e ainda permanecer na cena do crime. - Acha que eles são inocentes? - É o que temos de descobrir. - Há alguma ligação entre os dois? - Há, ambos possuem uma pessoa em comum, Richard Besiger, que é primo de Roger Arnold Besiger e amigo de Sullivan. - Talvez, Arnold Besiger e Sullivan estivessem sob o efeito de alguma droga alucinógena, por isso não se lembram, como o LSD por exemplo, que leva o usuário a Ter alucinações e um comportamento violento, não se lembrando de nada depois que o efeito da droga passa. - Não estavam drogados, os exames que fizeram não indicaram nada anormal. - Quando ocorreram os homicídios? - Na Segunda passada e neste Sábado. - Acha que o fato dos dois conhecerem Besiger é coincidência? - perguntou, pegando a pasta das mãos de Mulder. - Não sei, teremos de fazer uma visitinha a Richard Besiger - levantou- se da cadeira. _____________________________________________________________ __ Washington D.C. Residência dos Besiger 11:00 a.m. Segunda-feira Os agentes Mulder e Scully atravessaram um jardim verdejante e florido até pararem em frente a uma porta, sendo atendidos, depois de tocarem a campainha, por uma mulher aparentando uns cinqüenta anos, alta, cabelos dourados e olhos violáceos. - Bom dia, somos os agentes Mulder e Scully do FBI - mostrou a insígnia acompanhado pela parceira. - FBI? - assustou-se a mulher - O que querem? - Só viemos fazer algumas perguntas para Richard Besiger sobre o amigo Alfred Sullivan e o primo Roger Arnold Besiger. - Meu sobrinho, sou a mãe de Richard, Emily Besiger, por favor, entrem - deu passagem para os agentes - Vou chamar meu filho. Depois de alguns minutos, um rapaz de vinte e cinco anos entrou na sala acompanhado pela mãe, cumprimentando os agentes. - Sou Richard Besiger, espero poder ajudar em algo - possuía os cabelos dourados como os da mãe, os olhos eram de um intenso verde- musgo - Estão tentando encontrar os verdadeiros responsáveis pelas mortes de Sandy e Mary Ann? - Acredita que seu amigo Sullivan e seu primo Arnold sejam inocentes? - perguntou Mulder. - Tenho certeza disso, jamais fariam isso, eu os conheço, Alfred adorava a Sandy, ainda não consigo acreditar no que aconteceu, e Roger tinha acabado de se casar com Mary Ann, não faz sentido. - Sabe se eles usavam algum tipo de droga? - manifestou-se Scully. - Posso afirmar que Alfred não usava, porque o conheço desde muito tempo, somos muito amigos, quanto ao Roger, eu não posso afirmar nada, apesar de sermos primos, não éramos tão amigos assim, mas duvido que tenha se envolvido com algo do gênero, ele sempre foi uma pessoa muito correta, diria até careta. Repentinamente, uma jovem entrou pela porta da sala, interrompendo a conversa. - Bom dia - cumprimentou-os meio sem graça. - Helen, minha filha - iniciou a senhora Emily Besiger - Estes são os agentes Mulder e Scully do FBI que vieram fazer algumas perguntas sobre o Alfred e o Roger. - Eles não são os culpados pelas mortes de Sandy e Mary Ann? - Helen era muito parecida com o irmão, mas os traços eram mais delicados, femininos - Se eles já estão presos, o que estão procurando? - Todas as provas levam a crer que são eles os responsáveis, mas há pontos obscuros neste caso que precisamos esclarecer para que não se cometa alguma injustiça - explicou o agente - Conhecia bem o seu primo? - Acho que sim, conversávamos muito - sentou-se no sofá, ao lado do irmão, fitando os agentes à sua frente, principalmente Mulder. - Já presenciou alguma briga entre Roger Arnold e a esposa Mary Ann? - Scully perguntou para a garota que encarava o agente insistentemente. Richard olhou para a irmã. - Pelo menos que eu tenha visto, não - respondeu depois de pensar um pouco. - E você, Richard, já presenciou seu primo brigar com a esposa, ou seu amigo brigar com a namorada? - Mulder voltou-se para o jovem. Helen olhou para o irmão. - Não. - Sullivan e Arnold nunca foram apresentados por você? - Não, eles não chegaram a se conhecer. - Obrigado pela atenção de vocês, qualquer coisa que venham a se lembrar, nos comuniquem - Mulder levantou-se seguido pela parceira, entregando um cartão para Richard. A senhora Besiger acompanhou os agentes até a porta. - Conheço aqueles rapazes, não fariam mal a ninguém, acredito na inocência deles, não consigo compreender como uma mesma desgraça pode Ter se abatido duas vezes na nossa família - lamentou Emily. - A verdade irá aparecer mais cedo ou mais tarde - despediu- se o agente de olhos verdes. Mulder e Scully seguiram para o carro estacionado em frente à residência. Ainda na sala, Richard estava pensativo com o cartão dos agentes na mão, a irmã aproximou-se dele, arrancando-lhe o pequeno papel. - Helen, me devolva este cartão! - alterou o tom da voz. - Para que? - perguntou com um sorriso. - O que vai fazer com este cartão? - possuía uma expressão preocupada. - Não é da sua conta, não vai precisar dele! O irmão lançou-lhe um último olhar antes de sair de casa, não ouvindo Helen dizer com um perigoso sorriso nos lábios: - Agente Mulder, não é? Lindos olhos! - pensou alto. _____________________________________________________________ __ - Não acho que uma mesma desgraça se abata duas vezes numa mesma família por pura coincidência. Pelo menos, não neste caso - comentou o agente na sua tradicional ironia. - Não acredito que a senhora Emily Besiger estivesse escondendo algo, quanto aos filhos dela tenho minhas dúvidas, principalmente em relação a Helen Besiger - Scully olhava para a rua, sem encarar o parceiro. - Acha que ela estava escondendo algo? - Talvez. - Richard também, reparou na cumplicidade de olhares entre eles antes de responderem as nossas perguntas? - Também reparei em outros olhares, acho que Helen o achou uma pessoa interessante - sua voz era indiferente. - Ciúmes? - sorriu. - Mulder, por favor, sou uma pessoa adulta - seus olhos encontraram os dele - Confio em você. _____________________________________________________________ __ Prédio de detenção 3: 45 p.m. Segunda-feira A porta da cela foi aberta, o homem deitado na cama ao fundo, ergueu-se, revelando uma fisionomia jovem e abatida, olheiras profundas eram visíveis em seu rosto, o azul oceânico de seus olhos era opaco, fosco. Os agentes entraram no cubículo, Roger Arnold Besiger fora avisado da visita deles, estava há quase uma semana naquele compartimento, encarcerado à espera do julgamento. - Agentes Mulder e Scully do... - iniciou o agente. - Sei quem são, fui avisado - sentou-se no catre - O que querem? - A verdade. - Está falando com a pessoa errada, porque não há verdade, nem eu lembro o que aconteceu, mas uma coisa é certa, jamais mataria Mary Ann, jamais...- abaixou a cabeça, passando as mãos nervosamente pelo cabelo castanho. - Se é inocente, precisamos que colabore conosco para podermos ajudá-lo - iniciou Scully, não conseguindo evitar um sentimento de piedade pelo homem à sua frente. - Não quero ser ajudado, minha vida já está destruída - falou amargo. - Se não quer colaborar com você mesmo, então colabore por Mary Ann Besiger, para que possamos encontrar o verdadeiro responsável - Mulder observou o homem visivelmente abalado, não parecia vivo, nem morto, mas um meio-termo, um zumbi. - Perguntem! O que querem saber? - ergueu a face, encarando- os. - Qual a última coisa de que se lembra antes de desmaiar? - Eu e Mary Ann tirando a mesa do jantar, depois não consigo me lembrar de mais nada, por mais que eu tente, não consigo - segurou a cabeça com as duas mãos. - Sabia que neste Sábado que passou, houve um homicídio cujo envolvido também disse não se lembrar de nada? - Sim, um amigo de Richard, Alfred Sullivan, não é? - Conhecia Sullivan? - Já respondi esta pergunta aos policiais ontem, não, não conhecia - irritou-se - Meu advogado disse que o caso dele é semelhante ao meu. - Idêntico - murmurou Mulder pensativo. - Sabe se alguém tinha interesse em prejudicá-lo ou sua esposa? - perguntou Scully. - Não que eu saiba. - Você sempre se deu bem com seus primos, Richard e Helen Besiger? - Mulder fitou o rapaz nos olhos. - Sim, principalmente eu e a Helen, sempre fomos muito amigos, unidos, desde que éramos crianças. Por quê? O que eles têm a ver com isso? - olhou para Mulder com uma expressão assustada. - Nada, só queria saber. E Mary Ann se dava bem com Helen? - Eram amigas, foi através da Helen que conheci a minha esposa - franziu a testa, não compreendendo onde o agente queria chegar. _____________________________________________________________ __ Apartamento de Dana Scully 8: 35 p.m. Segunda-feira Uma música clássica tocava no aparelho de som, enchendo o ambiente, iluminado pelo abajur, com tranqüilidade. A mulher de cabelos rubis e olhos azuis estava deitada sobre o sofá de sua arrumada e bem decorada sala, lendo uma pasta parda referente ao caso que ela e seu parceiro investigavam. Batidas na porta fizeram-na levantar a contragosto de sua confortável posição, abriu a porta, deparando-se com um homem de calça moletom cinza, camiseta e um boné virado para trás, a mostrar-lhe um enorme sorriso. - Saí para dar uma corrida, e acabei vindo parar aqui - disse com as mãos escondidas atrás das costas. - Mulder, combinamos em manter nossas vidas profissionais e pessoais bem separadas, não podemos passar todas as noites juntos - repreendeu-o. - Vim falar de trabalho, Scully - fingiu uma expressão séria. - Mesmo? O que você traz aí escondido? - inclinou a cabeça de modo que pudesse ver as mãos do parceiro - Mulder, uma garrafa de vinho, isso faz parte do trabalho? - Eu vinha correndo e parei no caminho para comprar um vinho tinto, garanto que não foi nada planejado - beijou-a na face, entrando no apartamento. Scully fechou a porta, indo em seguida até a cozinha para pegar duas taças. O homem alto acomodou-se no confortável sofá. - O que estava fazendo? - Pensando no caso que estamos investigando - respondeu, vindo da cozinha com as taças e o saca-rolhas - O que você veio falar sobre o trabalho? Descobriu alguma coisa? - sentou-se ao lado dele. - Scully, eu menti, confesso. - Mentiu? - ergueu uma das sobrancelhas. - Quanto mais tempo passo longe de você, mais vontade tenho de ficar perto, acordar em seus braços, com a sua pele úmida e perfumada a sabonete quando você lava o rosto de manhã, acordar com um beijo seu, com gosto de hortelã ou menta, qualquer pasta de dente, não importa, é maravilhoso dormir com os anjos e acordar com um deles ao meu lado, é como tocar o céu todos os dias. - Mulder, você não é mais um adolescente. - Tem razão, mas sou um homem apaixonado que se apaixona todo dia pela mesma mulher - segurou delicadamente o queixo de Scully - Não me culpe por amá-la porque a culpada é você, eu queria poder não Ter que ficar longe de você. - Eu também, Mulder, mas não podemos ficar nos expondo. - Eu sei, Scully - fitou-a nos olhos, mas parecia ir muito além deles, mergulhando profundamente nas pupilas dela a procura de compreensão em sua alma - Só me deixe ficar aqui abraçado a você, nem que seja por pouco tempo, depois prometo ir embora. - Não quero que vá embora - aproximou-se, deslizando a mão pela face de Mulder até repousá-la no peito dele. As palavras já não eram mais necessárias. _____________________________________________________________ __ Sede do FBI Sala dos arquivos-x 8:30 a.m. Terça-feira - Este caso me faz lembrar do caso Model - comentou Mulder enquanto tamborilava com os dedos sobre a superfície da mesa. - Acha que tanto Sullivan como Arnold Besiger foram instigados a matar? - Não sei, talvez, tenho quase certeza de que os irmãos Richard e Helen Besiger são a resposta, ou possuem a resposta - ergueu-se da cadeira - Scully, dê uma verificada nos históricos médicos dos irmãos Besiger. - Mulder, está sugerindo que eles possuem um câncer como Model, o que lhes propiciaria uma habilidade em instigar as pessoas a agirem contra as suas próprias vontades - falou em tom cético. - Não sugeri nada, você quem está falando - fitou-a - Sei que pode ser uma perda de tempo, mas estamos no escuro e talvez seja alguma coisa - dirigiu-se à porta. - Aonde vai? - Vou falar com Alfred Sullivan. _____________________________________________________________ __ Departamento policial 10: 40 a.m. Terça-feira Mulder já estava na sala de interrogatórios esperando por Alfred Sullivan, quando este chegou acompanhado por um policial. Sentou-se em uma cadeira indicada pelo guarda atrás da mesa de madeira, depois foi desalgemado, sendo deixado sozinho com o agente de olhos amazônicos. - O que o FBI quer comigo? - iniciou Alfred, encarando Mulder com seus olhos felinos caramelos, bem desenhados. - Há aspectos no seu caso que não foram muito esclarecidos, não só no seu como no de Roger Arnold Besiger, conhece? - Não o conheço, mas sei de quem está falando, já soube do caso, meu advogado foi indicado pelo advogado dele, que é amigo da família do meu amigo Richard. - Ele foi encontrado desmaiado junto à esposa que foi morta, esfaqueada, a arma do crime possuía as digitais dele, também não consegue se lembrar de nada do que aconteceu - fitou-o por algum tempo em silêncio - Conhece há muito tempo Richard Besiger? - Desde o tempo de ginásio. - Há quanto tempo você e Sandy Gibson namoravam? - Há pouco tempo, acho que três semanas - respondeu desolado, com os olhos brilhantes, úmidos, voltados para o chão. - Richard aprovava o seu namoro? - Claro! - estranhou a pergunta. - Conhecia bem a irmã dele, Helen Besiger? - Conhecia, namoramos por algum tempo, mas não deu certo. - Helen Besiger conhecia Sandy Gibson? - Não, onde quer chegar? Acha que Helen tem algo a ver com o que aconteceu? - perguntou meio hesitante, com uma ruga a formar- se na testa pálida. - Só estou averiguando - limitou-se a responder, dando o interrogatório por encerrado. _____________________________________________________________ __ O homem alto, de olhos verdes, dirigia para o prédio J. Edgar Hoover, pensando no caso, juntando as peças, desejando que sua parceira houvesse encontrado algo inusitado nos históricos médicos dos irmãos Besiger. Um ruído estridente interrompeu seus pensamentos, era o celular, apoiou uma das mãos no volante do carro, pegando o aparelho dentro do sobretudo com a outra. - Mulder. - Agente Mulder, aqui é Helen Besiger, lembra? - Claro, o que aconteceu? - Preciso lhe dizer algo importante que deixei de falar por causa do meu irmão, pode me encontrar? - Onde está? - Aqui em casa não. - Onde posso encontrá-la? - Me encontre na lanchonete Lunch's Friend, fica na ...- informou o local exato - Por favor, vá sozinho, só confio em você para contar o que sei. - Encontro você daqui a pouco - desligou o celular, selecionando o número da parceira a fim de avisá-la. O celular da parceira estava desligado. - Que droga! - exclamou, desligando o aparelho e seguindo para o lugar marcado. _____________________________________________________________ __ Lunch's Friend 1:00p.m. Terça-feira Entrou na lanchonete, avistando a bela mulher que devia beirar os vinte cinco anos, era difícil não se destacar dentre as outras pessoas, pois sua beleza chegava a ser angelical, os cabelos dourados e cacheados caíam-lhe em revoltadas madeixas pelos ombros, pela face rosada, emoldurando-lhe o delicado rosto, cujos olhos eram realçados pelo tom verde-musgo das íris. Aproximou-se da mesa em que Helen ocupava, o ambiente era agradável e exalava um delicioso cheiro de café fresco e bolinhos. - Boa tarde, agente Mulder! Que bom que veio! - sorriu. - Boa tarde! - acomodou-se numa cadeira em frente a ela. - Vai pedir alguma coisa? - perguntou enquanto mexia com uma pequena colher o café na xícara. O agente meneou a cabeça negativamente, apesar de se sentir tentado a pedir um café e um bolinho. - Você é um homem muito atraente, já lhe disseram isso? - encarou-o com um sorriso inocente, travesso nos lábios. - Obrigado - ficou meio sem graça - O que tinha de tão importante para me dizer? - tentou pôr fim àquela conversa que não lhe interessava, apesar de deixá-lo lisonjeado tal elogio. - Posso lhe fazer só uma pergunta, agente Mulder? - sua voz era suave. - Está bem - demorou alguns segundos para responder. - Você tem alguém? Mulder deu um sorriso. - Então, responda, você tem alguém? - utilizou-se de um tom brincalhão. - Não, este alguém que me tem, não eu a ela, e sim, ela a mim. - Pelo visto, você a ama muito - sua expressão de descontraída passou a séria - Então, acho que tenho uma rival. - Não há rival alguma, porque não há pelo que lutar. - Está dizendo que eu não tenho chance? - Senhorita Besiger, o motivo que me trouxe aqui não foi esse. - É a sua parceira ruiva, agente Scully, não é? - seus olhos brilharam estranhamente. - Você disse que era só uma pergunta - Mulder assustou-se com a pergunta dela, será que os seus sentimentos em relação a Scully eram tão evidentes assim? - Vamos voltar ao real motivo que nos trouxe aqui. O que você não podia contar na frente de seu irmão? - Agente Mulder, eu menti - ergueu-se da cadeira - Arranjei este encontro só para vê-lo - sua voz não era mais suave, mas áspera. Voltou as costas para Mulder, saindo pela porta da lanchonete em direção à rua, o homem alto sentindo-se manipulado pela mulher, tentou segui-la, mas foi barrado na saída pelo dono do local. - Ei! Quem vai pagar o café da moça? Mulder franziu a testa irritado, pegando a carteira. Depois de Ter pago a conta, saiu do estabelecimento em direção ao carro, enquanto abria a porta, alguém falou atrás dele: - Ninguém me rejeita, agente Mulder. O agente ficara estático subitamente, sem revelar qualquer reação, Helen aproximou-se dele, pegou-lhe a carteira, lendo o endereço do apartamento. - Alexandria, não é? - abriu o carro de Mulder, guiando-o até o banco de carona, acomodando-o nele, depois deu a partida no automóvel, dirigindo-se para o endereço encontrado. _____________________________________________________________ __ Alexandria 7:30p.m. Terça-feira Estacionou o automóvel em frente ao prédio em que o parceiro morava, tentara se comunicar com Mulder à tarde inteira sem sucesso, e se de repente ele houvesse tentado contatá-la, não conseguiria, pois Scully esquecera o celular no apartamento dela na pressa em não se atrasar para o trabalho durante a manhã. Começava a pensar se o seu relacionamento pessoal com Mulder não estaria interferindo no seu desempenho profissional, sendo que na noite anterior haviam bebido muito vinho, conversando e adormecendo um nos braços do outro, fazendo-os perder a hora. Balançou levemente a cabeça como se afastasse alguns pensamentos, aquele sentimento a havia invadido, tomando-a completamente, por mais que tentasse sobrepor a sua racionalidade a qualquer emoção, sentia-se desarmada, sem forças, entregue diante ao que sentia pelo colega, parceiro, amigo e companheiro. Scully entrou no prédio, pegou o elevador e dirigiu-se ao apartamento de Mulder, como batia na porta e ninguém respondia, apanhou uma dentre as suas chaves, abrindo-a. A sala estava às escuras, percebeu que uma fraca luminosidade vinha do quarto, cuja porta estava entreaberta, caminhou até ela, terminando de abri-la vagarosamente, temendo que o amigo estivesse adormecido e pudesse acordá-lo, de repente estancou o movimento, sua face tomara uma expressão de perplexidade, seus olhos azuis fixaram-se sobre a cama, piscou-os numa tentativa de que aquela visão não fosse uma realidade, mas era assustadoramente real, buscou forças em seu orgulho próprio com muita dificuldade, encostando a porta e saindo despercebida a passos felinos do apartamento, ela não desmoronaria na frente de Mulder, pelo menos não na frente dele. No quarto iluminado pelo abajur, dentre a confusão de lençóis sobre a cama, dois corpos seminus lá estavam adormecidos, a mulher de uma beleza quase angelical, Helen, estava abraçada ao corpo de Mulder, ouviu um ruído de porta fechando, abrindo os olhos, sabia que era Scully indo embora, então um sorriso de satisfação desenhou-se em seus lábios rosáceos. Levantou- se da cama vestida em suas peças íntimas, dirigindo-se para sala até a secretária eletrônica, apertando um botão e ouvindo a voz de Scully: "Mulder, estou tentando falar com você à tarde inteira, se chegar a ouvir esta mensagem, me espere, estou indo para o seu apartamento". Depois de finalizada a gravação, Helen pressionou uma tecla no aparelho, apagando-a. _____________________________________________________________ __ A mulher ruiva entrou no seu carro ainda atordoada, não conseguia assimilar como verdade o que havia visto, mas era inegável, estavam os dois seminus lá abraçados. Abaixou o rosto, encostando a testa no volante, respirou fundo, ergueu a cabeça, deu partida no automóvel, e saiu dirigindo pelas ruas de Washington. - Eu confiava em você, Mulder - sua voz saiu num murmúrio, não sentia exatamente raiva dele, mas uma profunda decepção, uma tristeza afiada a ser- lhe fincada na alma. Tentava compreender o porquê da atitude do parceiro, não queria chorar, não permitiria que aquele homem de olhos amazônicos, verdes, fosse o responsável por suas lágrimas, não as merecia, mas não pôde evitar por muito tempo que seus olhos ficassem úmidos e sua visão embaçada, pois as lágrimas vinham-lhe involuntárias, contra sua vontade, sua razão. Era seu espírito que lamentava, materializando a sua desilusão e dor em estrelas gotejantes, cadentes, por mais que tentasse reprimir, sufocar o choro, não conseguiria, pois ele era o sangue que se esvaía da ferida recém aberta, da alma dilacerada. É claro que nunca haviam mencionado a palavra compromisso ou fidelidade no relacionamento deles, não poderia portanto exigir nada de Mulder, mas se o que dizia sentir por ela era tão sincero, pleno e único, achava que já estava incutido um pacto mudo de fidelidade, não que o amor exija isso por egoísmo, exclusividade e possessão, não, mas porque se ele é aquilo que todos buscam e poucos são os que o encontram em vida, então deve ser algo muito precioso, vital, assim como o é um coração para quem perdeu o seu, um mesmo coração não pode ser doado a duas pessoas, sendo dividido ao meio, pois ele só bate e propicia vida enquanto inteiro, se metade em um corpo, não bate, e pouco difere de um corpo sem coração, porque ambos morrem. Não perdoaria Mulder porque não havia pelo que ele se desculpar, não o culparia, não se pode perdoar ou culpar alguém por algo que nunca existiu, por uma ilusão, um engano. Ele se iludira ao dizer-lhe que a amava, pois se este sentimento fosse realmente aquele que sela duas almas, não colocaria seus desejos carnais, sendo estes instintivos e irracionais, acima de algo tão superior e imaculado como o era aquilo que pensava existir entre eles. Nunca a amara realmente, cedera aos encantos de uma mulher linda e jovem, Helen, deixando que o seu desejo sobrepusesse o sentimento que possuía por Scully, não sendo ele tão importante, tão precioso, pois não havia sido forte o suficiente para impedi-lo de entregar-se a um momento simples e passageiro de prazer físico. Depois de muito refletir enquanto vagava pelas ruas já escuras de Washington, acalmara-se, tendo tomado uma importante decisão, jamais deveria Ter-se entregue aos seus sentimentos, mas agora se utilizaria de toda a sua racionalidade para sufocá-los, queria compreender onde tudo começara, quando passou a amá-lo, mas não conseguia, simplesmente acontecera. Scully decidira que a partir daquele dia em diante, a razão sobrepujaria qualquer sentimento, e o que sentia por Mulder, guardaria para si, sabia que seria inútil tentar sepultá-lo, pois tinha vida própria em seu espírito, e este não poderia ser quebrado por mais que maltratassem o seu coração. Falaria com o parceiro no dia seguinte, mas ele jamais saberia o real motivo que a levará a separar-se dele, não queria que soubesse que ela o havia visto em outros braços que não os dela, seria muito mais doloroso se ele tentasse se justificar por desculpas comuns. Ela se manteria ao lado dele no trabalho para protegê-lo e mantê-lo em sua busca, não sentia raiva, talvez mágoa, mas esta passa, e o que sentia por ele era algo tão sincero, superior e isento de interesse que passaria a zelar pela segurança e felicidade do parceiro, mesmo que a sua houvesse sido sepultada, ela se contentaria com a felicidade do amigo, esperava poder salvar a amizade que possuíam, pois era a única verdade que Mulder tinha por ela, e isso já bastaria para mantê-la viva. _____________________________________________________________ __ Apartamento de Mulder 7:00a.m. Quarta-feira A cidade de Washington ia despertando aos poucos, voltando a fervilhar a multidão de pessoas pelas ruas, uma pequena claridade infiltrara-se no quarto em que Mulder dormia, aumentando de intensidade conforme o tempo passava e o sol acordava. O agente como que pressentindo o dia amanhecendo foi abrindo lentamente os olhos verdes, piscou algumas vezes, esfregando o rosto, pegou mecanicamente o relógio sobre o criado-mudo, conferindo o horário, não estava atrasado, foi então que interrompeu a sua rotina, notando as suas roupas espalhadas pelo chão, vestia apenas a peça íntima, apoiou as mãos na cabeça, tentando relembrar o dia anterior, não lembrava de Ter chegado em casa, a última recordação que possuía era a de estar dirigindo depois de sair de um interrogatório com Alfred Sullivan. Não conseguia se lembrar de nada. Será que ele bebera? Será que passara a noite com Scully? Não, ele se lembraria. Ergueu-se da cama, caminhando até a sala, a cozinha e o banheiro, na esperança de encontrar um rosto familiar, mas não havia ninguém naquele apartamento além dele mesmo, ligou a secretária eletrônica, não havia recado algum, pegou o telefone, discando o número da parceira, não atendia, então tentou o celular dela, estava desligado. Começou a se preocupar, não conseguia se recordar do dia anterior, era assustador Ter uma perda de memória de um considerável espaço de tempo. Aproximou-se da porta da sala, notando que não estava trancada, a chave ainda pendia na fechadura. - O que aconteceu comigo? - pensou alto. _____________________________________________________________ __ Porão dos arquivos-x 8:15 a.m. Quarta-feira A agente ruiva respirou profundamente, vestindo uma máscara de racionalidade para ocultar sua alma dos olhos do parceiro, entrou na pequena sala, avistando Mulder a remexer as pastas no arquivo, olhou- a aliviado por ela estar ali. - Liguei para você hoje, onde estava? Você não atendeu e o seu celular estava desligado - deslizou a gaveta, fechando o arquivo. - Eu devia estar no banho quando ligou - continuou em pé, próxima à porta, sem demonstrar qualquer expressão. - Scully...- iniciou meio hesitante - Aconteceu algo muito estranho comigo. Ela ergueu uma das sobrancelhas. - Não consigo me lembrar do dia de ontem - encarou-a, percebendo ela desviar o olhar para a pasta que trazia à mão - Qual foi a última vez que nos vimos ontem, Scully? - De manhã, Mulder - será que ele havia percebido a presença dela no apartamento? Não, eles estavam adormecidos quando saiu. Talvez, estivesse dando uma desculpa para a sua ausência na tarde de ontem - Depois você foi interrogar Alfred Sullivan - completou sem olhá-lo. - Será que eu bebi ontem? Não consigo me lembrar. - Como está se sentindo? - perguntou naturalmente, Mulder poderia poupá- la de tal desculpa, sendo esta conveniente a ele de modo a evitar maiores explicações, nada como uma amnésia temporária, pensou. - Bem. - O que conseguiu com Sullivan? - mudou radicalmente o assunto, não queria ouvir nenhuma explicação, era doloroso demais. - Hum? - continuou olhando-a, Scully abrira a pasta, folheando-a - Aconteceu alguma coisa, Scully? - Não, por que a pergunta? - continuou com a atenção voltada para o documento. - Você está diferente. - Diferente como? - continuou sem encará-lo. - Scully, olhe para mim, nos meus olhos! - irritou-se - O que houve? - Nada, Mulder - encarou-o nos olhos verdes, usando uma máscara inexpressiva - Estou preocupada com as investigações, há duas pessoas presas que podem ser inocentes, sendo portanto de grande responsabilidade este caso. - Tem razão - largou o corpo sobre a cadeira - Não consegui muita coisa com Sullivan, a não ser saber que ele e Helen Besiger foram namorados. Scully continuou inabalável mesmo ao ouvir o nome de Helen Besiger pronunciado pelos lábios do parceiro, não demonstrou emoção alguma, sabia divisar muito bem o trabalho da vida particular, além de sua alma estar tão dilacerada, que nada a feria mais. Era como se a dor chegasse a um grau tão insuportável, tão sobre-humano que os sentidos se entorpeciam, permanecendo adormecidos, anestesiando o corpo e a alma. - E os históricos médicos dos irmãos Besiger? - Não há muito a acrescentar, Helen e Richard Besiger são irmãos gêmeos, e Richard Besiger foi internado aos dez anos numa clínica psiquiátrica para tratamento de um distúrbio da personalidade que se manifestava essencialmente por comportamentos anti-sociais sem sentimento de culpa aparente, uma psicopatia. Era extremamente violento com os colegas da escola, chegando a quebrar o braço de um deles, depois do grave incidente, a família resolveu procurar ajuda - finalizou, fechando a pasta parda. - E quanto a Helen Besiger, encontrou algo? - Não - suspirou desanimada, conferindo as horas no relógio de pulso. - O que foi, Scully? - procurou os olhos dela. - Mulder, não há mais por onde seguir neste caso, o que estamos procurando? - Provas. - Provas de que? De que aqueles homens são inocentes? Acredita que os Besiger sejam os responsáveis? - não conseguia compreender como Mulder possuía Helen Besiger dentre os seus suspeitos depois de envolver-se com ela, ele separa muito bem o prazer do trabalho, pensou irônica. - Ainda não tenho uma teoria totalmente formada, mas acredito na inocência de Roger Arnold Besiger e Sullivan. - Se os responsáveis fossem os dois irmãos ou um deles, que motivo os levaria a cometer tais homicídios, e como? - encarou-o - Sabe o que acho mais provável Mulder? Ficou calado esperando a teoria dela. - Acho que o mais provável é Roger Arnold estar fingindo não lembrar do que aconteceu, seria muito convincente cometer o homicídio, desmaiar, ou simular o desmaio e se passar por vítima, desviando a atenção dele. - E quanto a Sullivan? - Provavelmente soube do que aconteceu com Roger Arnold pelo amigo Richard Besiger, sendo influenciado de alguma maneira. - Scully, isso não explicaria as digitais deles nas facas, seria muita tolice deles. - Talvez Roger não tenha premeditado o crime, talvez ele tivesse esfaqueado a esposa num momento de discussão, não avaliando as conseqüências, e quando percebeu o que tinha acontecido, desesperou-se, sendo o único meio de se livrar daquela situação, fingindo o desmaio e a falta de lembrança, negando sempre. - Não creio que tenha acontecido assim, além do mais Roger passou no teste do detetor de mentiras. - Mulder, sabe muito bem que este método não é confiável - conferiu novamente o horário no relógio. - Scully, tem algum encontro? - franziu a testa sério. - Nós temos, Mulder - olhou-o séria. - Hum...- esbouçou um enorme sorriso. - Temos um encontro com Skinner - ignorou o sorriso dele. - Preferia um outro encontro - jogou a cabeça de lado num gesto desolado. - Mulder, precisamos conversar seriamente - desviou o rosto para o pôster atrás dele. O agente de olhos verdes ouviu-a atento, preocupou-se com o tom de seriedade que ela usara, não a tinha visto sorrir ainda naquela manhã e sentia que ela o estava evitando. - Passo hoje no seu apartamento - Scully finalizou - Vamos, Mulder, o diretor quer nos ver. _____________________________________________________________ __ Gabinete do Diretor Assistente 8:45a.m. Quarta-feira Os agentes acomodaram-se nas duas cadeiras em frente à mesa do superior, diretor-assistente Skinner, este possuía as mãos entrelaçadas e apoiadas sobre algumas pastas e relatórios. - Agentes, a investigação que estão fazendo passará à jurisdição da polícia local, não creio que seja um arquivo-x, todas evidências e provas apontam... - leu os nomes na pasta - ...Alfred Sullivan e Roger Arnold Besiger como os culpados. - Senhor, são inocentes - protestou o agente. - Há provas da inocência deles ou só hipóteses, agente Mulder? - Estamos buscando as provas. - Agentes, coloquei vocês neste caso porque a polícia local pediu auxílio ao FBI, já que houve dois homicídios em circunstâncias semelhantes, havendo aspectos pouco esclarecidos, mas esta investigação não é prioridade - fez uma pausa - Está havendo um remanejamento de pessoal - dirigiu-se para Scully - Agente Scully, o pessoal de Quântico está convocando agentes formados em medicina legal que não estejam ocupados em algum caso... - A agente Scully está ocupada - cortou Mulder. - Não mais, agora que o caso passará à polícia local - ajeitou os óculos sobre o nariz - Agente Scully, passará esta semana auxiliando o pessoal de Quântico com seu conhecimento em medicina legal, depois voltará a exercer suas funções nos arquivos-x. - Não posso ficar sozinho nos arquivos-x - reclamou o homem de olhos amazônicos. - Será só por três dias, agente Mulder - encarou-o - Além do mais, você irá ajudar o pessoal da Divisão de Crimes Violentos a traçar o perfil de um criminoso, sendo afastado durante estes dias das suas funções nos arquivos-x. - Senhor, não pode encerrar o caso - protestou visivelmente contrariado. - Não estou encerrando o caso, já disse que ele passará à outra jurisdição - Skinner ergueu-se da confortável cadeira - Amanhã, estejam aqui às 9h para me entregarem um relatório do caso que estavam investigando, e para se informarem de suas novas e respectivas tarefas - deu a reunião por encerrada, não dando tempo para Mulder protestar novamente. _____________________________________________________________ __ Apartamento de Mulder 9:15 p.m. Quarta-feira As esperadas batidas na porta do agente, fizeram-no sorrir já imaginando a face com a qual se depararia, abriu a porta rapidamente, vislumbrando a parceira ainda vestida em seus trajes formais, ao contrário dele, que vestia uma calça jeans e uma camiseta preta, peças menos sérias. - Pensei que não viria mais, já estava prestes a ir para a sua casa - sorriu - Estava morrendo de saudades - quando ia se aproximar dela para beijar-lhe os lábios, Scully desviou, entrando no apartamento. Mulder fechou a porta sem compreender a atitude, dirigindo-se ao sofá onde Scully se sentara. - Scully, há algo de errado, não é? - procurou os olhos azuis com os seus. - Mulder - iniciou, tentando encará-lo - Nosso envolvimento pessoal foi um erro, quero de volta o que tínhamos antes. - Nós ainda temos, Scully - fitou-a incrédulo com o que acabara de ouvir. - Certo, então eu só quero o que tínhamos antes - apesar de sua face permanecer séria, com uma fisionomia gélida, sentia que cada palavra proferida era uma mentira, uma blasfêmia contra si mesma, contra ao que possuía de mais belo, rasgando-lhe o peito. - Não estou entendendo - angustiou-se, antecipando inconscientemente o que estava prestes a acontecer. - Mulder, foi tudo um engano... - Não para mim, Scully - interrompeu-a, erguendo-se do sofá nervoso - Sei que o que está dizendo não é o que sente, o que está sentindo. O que aconteceu? - Nada, Mulder...- hesitou por alguns segundos - Eu só tomei coragem para acabar com esta ilusão, com algo que nunca existiu, pois estávamos nos enganando, confundimos tudo, é melhor acabarmos agora com esta mentira para salvarmos a única verdade entre nós, a amizade que nos une, estou fazendo isso por mim, por você, por nós dois, para o nosso bem. - Scully, você é a minha verdade, não há ilusão alguma, não chame o que sinto de mentira - passou as mãos pelo cabelo - Do que você tem dúvidas? Do que eu sinto ou do que você sente? Ela não tinha dúvidas quanto ao que sentia. Se lhe houvessem contado ao invés de ter visto por si mesma o que acontecera, não acreditaria, aceitando as palavras do homem à sua frente como sinceras, como verdades, mas ela vira e aquilo a destruíra. - Você está mentindo, Scully, sei quando está mentindo - fitou profundamente os olhos celestiais com os seus - Isto tudo é uma brincadeira, não é? Ou está tentando me proteger ou me punir, me machucar por algo que eu não sei. - Sabe que jamais o machucaria, Mulder. - Por quê? Porque você me ama também, não é? - olhou-a esperançoso - Sei que sim, seus olhos falam, revelam o que já sei, Scully, não adianta negar. - Mulder, você não sabe o que diz, nunca me conheceu realmente! - Scully, conheço-a mais do que a mim mesmo, conheço-lhe cada detalhe, cada expressão do rosto, sei que algo a está incomodando, e quero saber o que é, porque sei que estas palavras mordazes que está atirando contra mim, também a estão machucando, mas duvido que tanto quanto a mim, que não sei o motivo dessa nossa discussão. Não falaria o motivo, não queria se utilizar do que vira para desmoralizá-lo, acusá-lo, era muito melhor do que aquilo tudo, mas a estava provocando ao dizer-lhe que o feria mais do que a ela mesma, ele mal sabia o que era dor, e desejava que nunca soubesse. Precisava pôr fim àquele assunto, enterrá-lo e sair logo dali, não se permitiria chorar na frente dele. - O que eu fiz, Scully? Quero saber o motivo? - agachou-se, segurando- lhe os braços, enfrentando-a nos olhos. - Tenho muita admiração e respeito por você, Mulder, mas o que sinto é um amor fraternal, uma necessidade de protegê-lo, não há motivo, eu confundi os meus sentimentos - encarou-o - Você está se iludindo, nunca me amou de verdade, o que possui por mim é carinho, amizade, qualquer outro tipo de amor menos este que afirma Ter. - Sabe que não é verdade, ou pelo menos deveria saber - soltou-lhe os braços delicadamente, passando a mão pela face pálida dela - O que sinto não é aquilo que todos sentem e se enganam ao chamarem de amor, não, o que sinto por você é algo muito superior, que transcende o físico, capaz de ultrapassar as limitações do tempo e do espaço, sendo tão forte quanto a vida e a morte, Scully. - Quem ama, não fere, não faz sofrer, Mulder - voltou a face para o chão, afastando a mão dele. - Então, porque está me ferindo? - seus olhos verdes já brilhavam úmidos. - Justamente porque eu não o amo! - aumentou o tom da voz, levantando-se do sofá, Mulder continuara lá agachado - Não se engane mais, eu nunca disse que o amava durante todo o tempo em que ficamos juntos, disse? - Não, nunca disse, nunca precisamos de palavras para dizer o que sentíamos, porque elas não eram capazes de expressar em três simples palavras a essência, o real significado de algo tão imaculado, tão infinito, não se pode dizer, expressar com exatidão o que só se pode sentir, Scully, pelo menos era isso que eu sentia no seu silêncio, na sua omissão de simples palavras - voltou o rosto triste para ela, alguns pontos brilhantes, gotejantes, deslizavam silenciosos de seus olhos verdes. - Sinto muito, Mulder, mas você sentiu errado - preparou-se para dar o golpe de misericórdia antes de se retirar - Me perdoe por não amá-lo, por nunca tê-lo amado - voltou as costas para ele, saindo porta afora, permitindo então que as lágrimas deslizassem tímidas pela sua face pálida. O golpe de misericórdia havia sido desferido não contra Mulder, mas contra ela mesma. O agente ergueu-se do chão, chorava, não desistiria dela porque sabia que o que dissera não era verdade, havia um motivo e ele o descobriria. Largou o corpo sobre o sofá, com o olhar perdido, seus pensamentos vagavam em meio as lembranças, repentinamente deteve-se a observar a mesinha de centro, num rompante de fúria, virou-a abruptamente, levando as mãos ao rosto em seguida. _____________________________________________________________ __ Sala dos arquivos-x 7: 45 a.m. Quinta-feira Chegara cedo no escritório, passara a madrugada acordado, refletindo, possuía a face abatida, o olhar verde ofuscado pela tristeza, seu corpo estava largado sobre a cadeira enquanto folheava as páginas do relatório que entregaria ao seu superior, mas não as lia, seus pensamentos mantinham-no absorto em recordações de dias em que o sol brilhava e a alegria resplandecia em cada sorriso que lhe era dirigido por Scully. Quando esta entrou na pequena sala, sua presença trouxe o agente de volta a realidade, ela possuía os olhos inchados, não passando despercebido por Mulder que sentia que também sofria, queria saber o porquê de se martirizarem daquela maneira se precisavam tanto um do outro, assim como as trevas da luz e a realidade dos sonhos. - Bom dia, Mulder! - fingiu naturalidade, sem olhá-lo diretamente - Chegou cedo. - Você também - fitou-a silenciosamente em seguida. Scully seguiu até o arquivo, deslizando uma das gavetas para fora a fim de colocar uma pasta no seu devido lugar que trouxera consigo. O silêncio habitava o ambiente. O homem alto ergueu-se da cadeira, sem tirar o olhar amazônico da parceira que estava de costas para ele, ocupada com o arquivo, aproximou-se dela por trás, segurando-lhe os ombros gentilmente, fazendo-a voltar-se para encará-lo, seus olhares se encontraram, nada disseram, Mulder deslizou uma de suas mãos pela face aveludada dela, acariciando-a, seus olhos verdes invadiam-na de modo a procurar uma resposta em sua alma, seus lábios entreabriram-se, pronunciando numa voz macia como temendo assustá-la: - Scully, eu te amo, não destrua a única verdade que consegui descobrir em toda a minha miserável existência. - Por favor, não, Mulder - afastou-se bruscamente dele - Está tudo acabado! Não vamos misturar nossas vidas pessoais com o trabalho, não se preocupe, continuarei ao seu lado, ajudando-o nos arquivos-x, não ficará sozinho, serei sempre sua amiga, a única coisa que não posso é tomar parte numa mentira - suspirou - Será bom estes três dias que passaremos separados, você enxergará melhor a situação e acabará concordando comigo. - Como quiser, Scully - não forçaria mais a situação já que ela estava irredutível, não queria mais fazê-la sofrer, vê-la chorar. Saiu pela porta, deixando-a sozinha na sala, precisava respirar, gritar, chorar. _____________________________________________________________ __ Academia de Quântico 8:10 p.m. Sábado Scully seguiu para o estacionamento, enquanto procurava as chaves do automóvel na bolsa, alguém a chamou. - Agente Scully - alcançou-a o homem alto, com o cabelo castanho-escuro cortado segundo os padrões do Bureau - Já está indo embora? - arrependeu-se da pergunta estúpida, pois era óbvio que sim. - Estou - ergueu uma das sobrancelhas - Por quê? Ainda precisam de mim? - Não, o trabalho acabou - encarou-a - Apesar de eu estar ansioso por voltar às minhas atividades normais no Bureau, foi um imenso prazer tê-la como colega nestes três dias nas autópsias e análise daquele agente patológico - sorriu - É uma excelente profissional! - Obrigada, agente Reeves - encontrara as chaves, inserindo uma delas na porta do carro a fim de abri-la. - Agente Scully, estará ocupada amanhã? - perguntou meio hesitante o atraente agente. A mulher de cabelos rubis sabia a próxima pergunta que viria dependendo da sua resposta, precisava começar a viver a sua própria vida por mais difícil que fosse, Mulder não havia se convencido de que sentia apenas amizade por ele, precisava convencê-lo, talvez saindo com outras pessoas, construindo uma vida particular, ele se convenceria de que fora tudo um grande engano. Seria agradável conquistar novas amizades, sair um pouco do trabalho, mesmo que este não lhe permitisse tal liberdade em relação ao tempo, mas precisava tentar nas poucas horas livres ocupar sua mente com outras pessoas que não o homem de olhos amazônicos, com manias de criança teimosa que cometera a travessura, a arte de roubar-lhe o coração e não devolvê-lo mais. - Porque se não estiver, gostaria de jantar comigo amanhã à noite? - fitou-a com seus olhos num tom chocolate e um discreto brilho de expectativa. - Não tenho nada para fazer amanhã. - Então, aceita? - Aceito - respondeu, entrando no carro. - Eu ligo para combinarmos - sorriu abertamente sem poder ocultar a alegria. Scully assentiu com um leve movimento de cabeça e um educado sorriso nos lábios. - Boa noite, agente Scully - afastou-se da janela do automóvel dela. - Boa noite, agente Reeves - despediu-se, indo embora. _____________________________________________________________ __ Residência dos Besiger 9:00p.m. Sábado O toldo escuro, salpicado por infinitos pontos cintilantes, estendia-se sobre a cidade de Washington, a noite vinha para oferecer esconderijo, colo à solidão, ocultando os gritos em seu silêncio antagônico, sendo ao mesmo tempo acolhedor, acalentador, aterrorizante, e assustadoramente destrutivo. A jovem de beleza quase angelical estava deitada sobre o sofá da sala, confortável, sua face pendia para frente com o olhar voltado para o noticiário na TV, sua mãe, Emily Besiger, preparava o jantar na cozinha, Richard falava ao telefone. Não ouvia a reportagem, sua concentração estava dirigida para a conversa do irmão gêmeo. - Também estou morrendo de saudades, você volta quando? Segunda? - o rapaz de olhos verde-musgo sorria sozinho enquanto conversava ao aparelho telefônico - Um grande beijo na boca, te vejo na Segunda, tchau! - colocou o fone no gancho. - A Kelly volta nesta Segunda? - perguntou sem desviar os olhos da televisão. - Ouvindo minha conversa, Helen? Que coisa mais feia! - brincou. - Não gosto da Kelly, acho que você precisa de alguém que o valorize, não confio nela, Richard - utilizou-se de um tom ríspido. - Não se intrometa na minha vida, Helen, é minha vida, mantenha-se longe da Kelly - o sorriso antes nos seus lábios, desvanecera-se, lançou-lhe um olhar inquiridor, com uma expressão indefinida. - Eu não seria capaz, você me conhece, não fui eu - falou indignada como respondendo a uma pergunta muda dele, ergueu-se do sofá, saindo para a cozinha. _____________________________________________________________ __ Domingo Há pelo menos três dias que não a via, nem falara com ela, por mais que tentasse fugir da dor que sentia, ocupando-se em traçar perfis, mergulhando em mentes complexas e doentias, não conseguia, pois a imagem da mulher ruiva o perseguia em seus pensamentos, seus sonhos, era uma constante em sua vida. Era à noite no silêncio de seu apartamento em que se sentia o mais miserável dos seres, pois as lembranças vinham-lhe à mente e com elas a saudade. Não suportaria esperar até Segunda-feira para vê-la, ouvir a sua voz dizendo que está bem, já o acalmaria. Pegou o telefone, discou o número da parceira, por mais que esperasse ouvir a voz rouca, apenas a secretária eletrônica era ouvida, então , decidiu-se a ir até o apartamento dela, nem que fosse para dar só um "boa noite". Chegando lá, deu as conhecidas batidinhas na porta, mas ela não se encontrava em casa, não se utilizaria da chave que possuía para esperá-la lá dentro, não queria invadir mais do que já tinha invadido a vida, o espaço de Scully, respeitaria a vontade da parceira em não envolver o trabalho e a vida pessoal dela, esperaria no carro. Talvez tivesse ido visitar a mãe, e como era Domingo, tendo trabalho no Bureau no dia seguinte, com certeza não passaria a noite fora, sendo ela tão responsável e racional. Enquanto esperava no banco do motorista, comendo algumas sementes de girassol, observou um automóvel estacionar em frente ao prédio da parceira, uma das portas abriu-se, um homem alto, com trajes elegantes que o tornavam extremamente atraente, desceu, seguindo apressado para o outro lado do carro, Mulder reconhecia a face daquele estranho, era o agente especial Gerald Reeves, já trabalhara com ele antes, quando precisou de uma autópsia, mas isto fora há muitos anos, antes de conhecer Scully. O que estaria fazendo lá? Não precisou esperar muito para satisfazer sua curiosidade, Reeves abriu a porta do lado do carona, dando passagem numa atitude cavalheiresca a uma mulher vestida em um longo vestido preto, de um tecido delicado e esvoaçante, que dançava ao sabor da suave brisa noturna, seus cabelos avermelhados estavam presos em um coque, com vários fios ruivos soltos a adornarem a sua face pálida. Mulder piscou os olhos para se certificar de que aquela cena era real, uma confusão de sentimentos se processou em seu interior, não conseguia definir exatamente o que sentia, talvez tristeza, ou seria ciúmes? Scully aceitou meio hesitante a gentileza de Reeves, segurando-lhe a mão para descer do automóvel, sentia-se estranha, o jantar havia sido agradável, tinham muito em comum além da profissão, Gerald era uma pessoa simpática, envolvente, mas algo a incomodava, fazendo-a se sentir triste, talvez fosse a saudade de um outro alguém que precisava esquecer ou pelo menos, evitar pensar a todo momento. - Obrigada pela noite, foi muito agradável, agente Reeves - sorriu Scully. - Por favor, já disse para me chamar apenas de Gerald. - Está bem. O agente de olhos verdes acompanhava os dois conversando, parados em frente à entrada do prédio do apartamento da amiga. - Boa noite, Gerald - quando ia fazer menção de virar-se para entrar no prédio, Reeves segurou-lhe o braço, Scully voltou-se para ele sem entender. - Gostaria de dizer que essa noite foi maravilhosa e que há muito tempo sou um admirador seu - continuou a segurar-lhe o braço, aproximando-se dela enquanto falava. Do local em que se encontrava, Mulder olhava o desenrolar dos acontecimentos, percebeu que a amiga tentava se afastar de Reeves que a impedia, segurando-lhe o braço com força, notou no alvo rosto dela uma expressão de apreensão que tanto conhecia. Tentava se desvencilhar do outro, ele a estava incomodando, Mulder não permitiria que alguém a machucasse de alguma maneira. - Vamos prolongar a noite, Dana. - Agente Reeves, nunca lhe dei liberdade ou qualquer motivo para me fazer tal proposta, me solte, por favor - olhou-o decepcionada por aquela atitude - Não me obrigue a machucá-lo. - Você me machucar? É tão frágil, delicada - segurava-a agora pelos dois punhos com as suas mãos - Só quero um beijo seu, depois prometo ir embora - foi aproximando seus lábios dos dela. - Não, me solte, por favor - virou o rosto. Repentinamente, Gerald foi jogado sobre o capô do carro, soltando Scully que levou algumas frações de segundo até assimilar o que estava acontecendo, Mulder o havia arremessado com a força do próprio corpo, jogando-se contra ele. - Não é assim que se trata uma dama, agente Reeves - gritou Mulder, fechando a mão direita em concha para desferir-lhe um golpe no rosto, enquanto usava a outra para agarrá-lo pelo colarinho. Antes de Mulder extravasar a sua ira, Scully segurou-lhe o braço direito. - Mulder, não vale a pena - fitou-o nos olhos, pedindo naquela linguagem muda deles que ele não seguisse adiante. O agente de olhos amazônicos abaixou a mão, relaxando-a, acalmando-se, sendo trazido à razão pelo toque daquela pessoa que tanto admirava. Porém, antes de soltar o outro, aproximou o seu rosto do dele, sussurrando-lhe ao ouvido: - Se ela vir a gostar de você, é melhor tratá-la com gentileza, com carinho, e jamais magoá-la, porque se você a fizer derrubar uma lágrima que seja, juro por tudo que há de mais sagrado que você pagará por cada lágrima, então é melhor fazê-la muito feliz se ela o aceitar, senão haverá de se entender comigo! - largou-o com violência, voltando-lhe as costas e deparando- se com Scully. - O que faz aqui? - perguntou ela, franzindo a testa. - Pressenti o perigo - forçou um sorriso. - Estou falando sério, Mulder. - Eu também, a não ser que ao invés de eu tê-la ajudado, eu tenha atrapalhado a sua noite - sua voz saiu irônica, mal acabara de falar, arrependera-se do que havia dito ao notar o impacto das palavras na face da parceira. - Se o agente Reeves não tivesse forçado uma situação, eu mesma o teria convidado para subir até o meu apartamento - disse Scully encarando-o, após ouvir a ironia do parceiro que a atingira profundamente - Foi por causa dele que decidi pôr fim ao nosso relacionamento, não queria trair você - mentiu em seu orgulho ferido. - Scully, você mente - aproximou o rosto do dela - E muito mal! - Aceite a verdade, Mulder! - dizendo isso, voltou as costas para ele, entrando no prédio. Mulder passou as mãos nervosamente pelo cabelo, arrependido de cada palavra que havia mencionado, magoando-a, magoando-se, as palavras duras dela também o haviam ferido profundamente. Caminhou até o seu carro, ignorando a presença do agente Gerald Reeves que assistira a tudo calado, apenas observando o óbvio, que os dois se amavam. _____________________________________________________________ __ 2:00 a.m. O homem alto entrou em seu apartamento que estava imerso na escuridão, trazia duas garrafas de uísque, foi até a cozinha, pegando um copo, voltando para a sala em seguida. Escorregou as costas por uma das paredes, até sentar- se no chão na penumbra, o silêncio era estarrecedor, a solidão inveterada companheira, não deveria existir maior mal do que a própria solidão, todos imersos em suas próprias arrogâncias, ocultando-se atrás de máscaras para defenderem-se da vida, mas no íntimo apenas esperando por um pouco de afeição. Mulder ergueu-se de onde estava, precisava encher aquele ambiente com alguma presença para não enlouquecer com aquela ausência de sons, de uma voz amiga. Ligou o rádio e voltou para o local anterior dentre as sombras. O apresentador da rádio anunciou a próxima música a ser tocada, cujo autor era um cantor brasileiro, Renato Russo, e havia sido traduzida para o inglês por um cantor norte-americano, que a interpretaria. A música inundou a sala com mais solidão e tristeza ao invés de afastá-las. MIL PEDAÇOS Eu não me perdi E mesmo assim você me abandonou Você quis partir E agora estou sozinho Mas vou me acostumar Com o silêncio em casa Com um prato só na mesa Eu não me perdi O sândalo perfuma O machado que o feriu Adeus adeus Adeus meu grande amor E tanto faz De tudo que ficou Guardo um retrato teu E a saudade mais bonita Eu não me perdi E mesmo assim ninguém me perdoou Pobre coração - quando o teu Estava comigo era tão bom. Não sei por quê Acontece assim e é sem querer O que não era prá ser: Vou fugir dessa dor. Meu amor, se quiseres voltar - volta não Porque me quebraste em mil pedaços. Depois da música terminar, Mulder segurou o copo com uísque na mão, aproximando-o de seu rosto, ficando a observá-lo, então, arremessou-o com violência contra o chão, quebrando-o em milhares de pedaços, espalhando os cacos translúcidos, transparentes por toda a sala, como se fossem os seus sonhos mais belos a se partirem. O silêncio que habitava aquela sala além de ser rompido pelas músicas da rádio, também o era por outros sons abafados, dentre soluços e frases incompreensíveis. _____________________________________________________________ __ Apartamento de Fox Mulder 10:00a.m. Segunda-feira Os ruídos surdos dos saltos batendo contra o chão ecoavam pelo corredor enquanto caminhava até o apartamento do parceiro, bateu na porta dele, esperando ser atendida, mas a única coisa que conseguiu como resposta foi uma voz familiar e alterada. - A porta está aberta - gritou Mulder numa voz mole. Scully franziu a testa preocupada, abriu a porta, entrando no local, deparando-se com um Mulder sentado no chão a um canto da sala totalmente embriagado. - Ah, é você, Scully - fitou-a com os olhos avermelhados, uma garrafa de uísque jazia vazia ao lado dele, mas a que se encontrava em seu colo, ainda estava pela metade. - Mulder, está bêbado! - aproximou-se dele - Me dê esta garrafa. - Por favor, Scully, me deixe em paz! - virou o rosto para não encará-la - Não quero que me veja assim, saia, por favor. Agachou-se até ele, tomando-lhe a garrafa das mãos, depois foi até o rádio, desligando-o. - Mulder, você não está bem - aproximou-se dele novamente, ajudando-o a se levantar - Precisa de um banho frio e um café forte. O homem nada falou, deixou-se levar pela amiga, o toque quente das mãos dela o acalmava, ergueu-se do chão apoiado pelo corpo frágil de Scully, estava trôpego, bêbado, sentiu a visão ficar distorcida por alguns momentos, ficou atordoado, zonzo ao se levantar muito rápido, sua cabeça já começava a doer. A mulher ruiva acompanhou-o até o banheiro com dificuldade, devido às condições deploráveis e ao porte físico dele. Colocou-o debaixo do chuveiro, alterando a temperatura deste, e deixando a água fria deslizar pelo corpo de Mulder, despertando-o. - Está fria! - reclamou. - Claro que está - observou preocupada o homem à sua frente que se apoiava nas paredes para não cair - Mulder, vou fazer um café forte para você, enquanto isso, tire estas roupas molhadas - saiu para a cozinha. Depois de alguns minutos, Scully entrou no quarto carregando uma xícara de café chiando de quente, o cheiro saboroso trouxe o agente de volta à realidade, estava deitado sobre a cama, já sem as suas roupas molhadas, possuía apenas uma toalha enrolada na cintura. Sentou-se na beirada da cama, recebendo o líquido escuro das mãos da amiga. - Beba, Mulder - entregou-lhe a xícara - Cuidado para não se queimar, está quente. Tocou a face dele, examinando-lhe os olhos, Mulder sentiu-se enternecido pela atitude da amiga. - Como está se sentindo, Mulder? - perguntou num tom maternal. - Bem melhor, agora que está aqui comigo - calou-se por alguns segundos - Sinto dor de cabeça - queixou-se. - Não era para menos, não é, Mulder? - lançou-lhe um olhar reprovador, repreendendo-o por tal conduta. - Obrigado por se preocupar comigo, por cuidar de mim - abaixou a cabeça, sem encará-la, voltando os olhos para o líquido dentro da xícara, que segurava com as duas mãos - Obrigado, Scully. - Não precisa me agradecer, Mulder. Como eu poderia deixar de me preocupar com você? Se é só o que eu tenho feito nestes últimos anos - sentou- se ao lado dele na cama. - Nossa! Sou uma pessoa tão irresponsável assim? Que vive tirando o seu sossego? - tentou brincar. - Não, apenas impulsivo demais - respondeu sem olhá-lo. - Scully - procurou os olhos celestes dela com os seus amazônicos - Quero me desculpar por ontem, fui um estúpido, um idiota, estava morrendo de ciúmes - apoiou a xícara sobre o criado-mudo. - Esqueça, Mulder, eu já esqueci! - desviou os olhos dos dele, ia se levantando quando ele a segurou gentilmente pela mão, impedindo-a de se afastar. Ele se acomodou na cama de modo a vê-la de frente, abraçando- a em seguida com ternura, Scully foi de encontro ao peito nu dele, sentindo-lhe a pele úmida por causa do banho e o coração pulsando, uma imensa vontade de ficar para sempre naquele abraço a invadira, juntamente com a saudade, a tristeza, e as lágrimas que não se demorariam muito a aparecer. Quando percebeu o peito dele soluçar, ele a afastou de si gentilmente, escondendo o rosto entre as mãos. - Por favor, vá embora - sua voz estava embargada pelas lágrimas. - Mulder - chamou-o meio hesitante, não suportava vê-lo sofrer, aquele pranto não deveria ser por ela, por um engano. Mas, como um engano podia causar tantas lágrimas? Se não o fosse, não se entregaria àquela bela mulher. - O que veio fazer aqui, Scully, hein? - sua voz saiu magoada, ríspida - Tirar o pouco de orgulho próprio que me havia sobrado? Não se preocupe, você acabou de conseguir isso. - Só vim aqui porque você não compareceu ao trabalho e nem atendia aos telefonemas - ergueu-se da cama, magoada - Skinner nos colocou no caso novamente, aconteceu outra morte nas mesmas circunstâncias, a vítima foi kelly Carter, namorada de Richard Besiger, foi morta hoje de manhã, o irmão dela foi encontrado na cena do crime inconsciente. Voltou o rosto para ela, escutando-a. - Era só isso, agente Mulder - fuzilou-o com os olhos azuis úmidos - Encontro você na cena do crime - deu as costas para o parceiro, saindo do quarto e indo embora. _____________________________________________________________ __ Residência dos Carter 1:00 p.m. Segunda-feira A agente ruiva vestiu as tradicionais luvas cirúrgicas, examinando o local do crime em busca de alguma digital, fibra, ou fio de cabelo, ou seja, qualquer pista que pudesse levá-la a cogitar a presença de um terceiro no momento do homicídio. Enquanto observava cada detalhe da sala a fim de que nada lhe passasse imperceptível, detendo-se em cada mancha de sangue impregnada no tapete claro, um dos policiais responsáveis pela perícia do lugar, que liderava a operação, interrompeu-a. - Agente Scully, há uma mulher lá fora que quer muito lhe falar. - Se identificou? - tirou as luvas. - Sim, como Helen Besiger. Lembranças desagradáveis vieram-lhe a mente, balançou a cabeça como para afastá-las, aquilo era passado, portanto deveria sepultá-lo. Dirigiu-se para o lado de fora da residência, encontrando-se com a jovem de cabelos dourados e cacheados. - Senhorita Besiger, o que faz aqui? - perguntou séria, não permitiria que suas emoções sobrepusessem a razão, pois antes de qualquer coisa ela era uma profissional. - Agente Scully, preciso muito falar o que sei - sua fisionomia era angustiada. - O que sabe? - Por favor, podemos ir para um lugar mais reservado, conheço um bom - suplicou com os olhos. - Está bem, mas se acalme, vamos no meu carro. _____________________________________________________________ __ Residência dos Carter 1:45 p.m. Segunda-feira Mulder passou por baixo de uma das faixas amarelas de isolamento, identificando-se aos policiais que lá se encontravam, entrando na cena do crime a procura da parceira. - Quem é o responsável aqui? - perguntou a um dos peritos. - Sou eu - veio um homem em sua direção. - Sou o agente Fox Mulder do FBI - mostrou-lhe a insígnia - Combinei de encontrar minha parceira agente Scully aqui. - Ela estava aqui agora mesmo. - Não está mais? - Não, eu a vi saindo com o carro. - Ela deixou algum recado para mim, dizendo para onde iria? - Não, mas ela saiu acompanhada por uma mulher - colocou a mão sobre a testa como tentando lembrar algo - Acho que o nome dela era Helen...Helen Besiger, isso mesmo, este era o nome. Mulder saiu apressado, tentou se comunicar com a parceira pelo celular, mas como já era de se esperar, estava desligado. Ela deveria Ter ido à residência dos Besiger. _____________________________________________________________ __ Lunch's Friend 2:00p.m. Segunda-feira Numa mesa ao fundo do estabelecimento, Scully e a mulher Helen Besiger acomodaram-se, depois de fazerem o pedido de um copo de água para a garçonete, e esta entregá-lo para a jovem que estava aflita, a agente resolveu dar início ao assunto. - Está mais calma para falar, senhorita Besiger? - perguntou num tom calmo. - Hum, hum - balançou a cabeça em sinal de positivo - Estou mais calma. - O que sabe que a deixou tão nervosa? - Ainda não consigo acreditar que tenha feito aquilo com a Kelly - falou num lamento. - Quem fez aquilo com a Kelly? - estava ansiosa pela resposta. - Não só com a Kelly, como com a Mary Ann e a Sandy também. - Quem foi? - Richard - disse num murmúrio com uma expressão desolada, inconformada - Ainda não consigo acreditar que o meu irmão tenha sido capaz de fazer aquilo. - Como pode Ter tanta certeza de que foi ele? - Tenho certeza, foi ele, tinha motivos. - Que motivos? Por que ele mataria as três mulheres? - Ric era apaixonado por Mary Ann. - E por isso ele a matou, por estar apaixonado por ela? - Não, não sei se sabe, mas meu irmão quando criança foi tratado de alguns problemas psicológicos, ele era mandão, autoritário, se de repente negassem algo a ele, partia para a agressão, já tinha chegado até a quebrar o braço de um garoto - bebeu um gole da água antes de continuar - Roger e Mary Ann haviam se casado recentemente, Richard é possessivo, não admitiria que ela ficasse com outro homem que não ele mesmo. - Mary Ann sabia desse sentimento do seu irmão? - Não, Ric alimentava este sentimento sozinho. - E Roger sabia? - Acho que ele suspeitava, mas nunca me disse nada. - E quanto a Sandy Gibson e Kelly Carter? - Eu já disse que Richard era muito ciumento, possessivo, na época em que eu namorava o Alfred, eu e Ric vivíamos brigando, queria o amigo só para ele, foi por isso que meu namoro não deu certo. Quando Alfred começou a namorar a Sandy, acabou deixando a amizade com o meu irmão meio de lado, Ric não se conformava, ele mesmo me dissera que a Sandy era a culpada por sair pouco com o amigo - suspirou. - E por que ele mataria a própria namorada, ele não gostava dela? - Kelly o estava traindo, tenho certeza que ele sabia, mas fingia não ver, acho que cansou de fechar os olhos para a realidade. - Apesar de tudo isso que me disse, algo não faz sentido, como ele conseguiu fazer Roger, Alfred e o irmão de Kelly desmaiarem se eles não haviam ingerido nada que provocasse o desmaio, e nem haviam recebido qualquer agressão física? - Ele pode fazer isso! - Isso o quê? - temia a resposta. - Fazer as pessoas desmaiarem e perderem algumas lembranças. - Como?! - Basta ele querer, pensar - fitou a agente. - Isso é impossível! - Sei que parece difícil acreditar, mas é possível sim. - Ele tem a habilidade de instigar as pessoas a matarem? - seu tom era cético. - Não, ele não tem o poder de controlar a vontade das pessoas, só de deixá-las...como eu posso dizer...de deixá-las alheias aos acontecimentos ao seu redor, como um tipo de inconsciência, de sono, entende? - Seu irmão que esfaqueou aquelas três mulheres? - Sim, acredito que meu irmão tenha matado elas enquanto estavam num estado de inconsciência do qual eu acabei de falar, certamente as digitais nas facas foram forjadas. - Se o que você diz fosse verdade, ele poderia depois ou até mesmo antes do homicídio, pressionar os dedos deles nas armas, tomando o cuidado de não deixar a própria digital. Há ainda as perdas das lembranças - Scully ainda não estava convencida, para falar a verdade, estava bem longe disso. - O Richard pode apagar lembranças, mas não qualquer uma, só as lembranças das quais ele faz parte, provavelmente ele apagou as lembranças de Roger e Alfred a começar pelo momento em que o viram. - Não posso acreditar. - Ou não quer acreditar. - Como sabe dessas habilidades de seu irmão? Helen ficou observando-a em silêncio, calada. - Você está escondendo alguma coisa, não é? - Scully encarou- a. - Eu sei porque...- começou meio hesitante - Porque eu também possuo tais habilidades. - Hum?! - Sei que é difícil acreditar, mas você precisa, agente Scully - olhou para o copo em suas mãos - Amo meu irmão, mas não posso permitir que as mortes prossigam e inocentes paguem em seu lugar, precisa impedi-lo - ergueu o rosto para ela - Agente Scully, não consigo entender. - O quê? - Como pode me tratar tão bem e me ouvir depois do que aconteceu? - enfrentou-a com o seu olhar verde-musgo. - O que aconteceu? - Scully assustou-se com a pergunta, imaginando do que se tratava. - Você sabe, no apartamento de seu parceiro, sei que nos viu. - A vida pessoal dele não me diz respeito - fingiu indiferença, superioridade. - Claro que lhe diz respeito, ele te ama. - Por favor, vamos nos limitar ao caso, não me interessa com quem o meu parceiro sai, ou o que ele pensa. - Agente Scully, nunca fui uma boa garota, mas decidi ser uma boa samaritana e contar-lhe a verdade, saiba que só faço isso porque me tratou bem, até que gostei de você. - Que verdade? - ergueu uma das sobrancelhas. - Seu parceiro jamais a traiu comigo, para falar a verdade, duvido que ele viesse a trai-la algum dia, não há ninguém além de você no mundo para ele, acredite. - Por que me diz isso? Eu vi, não há justificativa - sua voz saiu magoada. - Ele por acaso chegou a mencionar que não se lembrava do que havia feito ou acontecido na tarde de Terça-feira? - Sim - Scully começava a recordar o diálogo que havia tido com ele, achando que era apenas uma desculpa para justificar a sua ausência naquela tarde. - Eu marquei com ele, neste mesmo lugar, alegando que tinha informações importantes, então, nos encontramos - sorriu - Depois fomos para o apartamento, ele já estava num estado de inconsciência, eu sabia que você iria para lá, ouvi a sua mensagem na secretária eletrônica. - Armou tudo? - perguntou perplexa. - Não se preocupe, não fizemos nada, não tenho o poder de controlar a vontade dos outros, infelizmente, senão...- um sorriso provocante desenhou-se em seus lábios rosáceos. - Por quê? - percebia o quanto havia machucado Mulder, o quanto tinha sido injusta com ele. - Fiquei com raiva dele, de você, para falar a verdade, do sentimento que havia entre vocês - fez um movimento de desdém com os ombros - Eu queria destruir algo que sei que nunca encontrarei, tive inveja, me senti rejeitada. - Vou levá-la para casa, preciso interrogar seu irmão - ergueu-se da cadeira, com um turbilhão de sentimentos a invadi-la, dentre eles, raiva daquela mulher por tê-la feito duvidar do que Mulder sentia, por tê-la feito sofrer e magoá-lo, mas também sentia alívio, diria até felicidade. _____________________________________________________________ __ Residência dos Besiger 2: 15p.m. Após alguns toques insistentes e estridentes da campainha, Mulder fora atendido por Richard Besiger, que parecia ficar mais encantador, belo em seu sofrimento, a inchação e a umidade das lágrimas emprestavam- lhe um outro tom em degradê aos seus olhos verde-musgo. - Agente Mulder, deve estar aqui por causa da morte da...Kelly - iniciou o rapaz, engolindo com dificuldade - Entre, por favor. - Sinto muito - entrou na sala da residência. - Não tanto quanto eu - sua voz soou com um resquício de amargor. - Há mais alguém em casa além de você, senhor Besiger? - buscou com os olhos alguma presença familiar naquela sala. - Só nós dois, agente Mulder - fez uma pausa, pensativo - Minha mãe foi visitar a minha tia, Helen também saiu - gaguejou ao pronunciar o nome da irmã - É melhor assim, preciso lhe revelar as minhas suspeitas que infelizmente se tornaram certezas para mim. Os dois homens sentaram-se cada um em uma poltrona aveludada, de cor vinho, de modo a ficarem de frente um para o outro. - Sei quem foi o responsável pelas mortes, mas preferia não saber - Richard encarou o agente com a face abatida - Foi minha...irmã Helen. - Como soube? - inclinou a cabeça para frente. - Eu tinha algumas suspeitas, mas só se concretizaram hoje, quando eu soube da morte da Kelly nas mesmas situações que as outras - passou as mãos pelos cachos nervosamente - Helen não gostava da minha namorada, ela mesma me dissera isso inúmeras vezes, a Kelly estava viajando e os únicos que sabiam que ela iria chegar hoje de viagem eram eu, a família dela, e a Helen, que me ouviu conversando no telefone com ela sobre o dia que voltaria. - Helen matou a sua namorada porque não gostava dela, é isso? - fitou-o. Richard confirmou com um meneio de cabeça. - E quanto a Sandy Gibson, foi morta por causa do ciúmes de Helen por Alfred Sullivan, sua irmã nunca se conformou com o fim do namoro dela com ele, não é? - perguntou Mulder. - É, minha irmã Helen era muito possessiva, dominadora, por isso que Alfred acabou o namoro com ela, não suportava tanta perseguição, ciúmes. - Havia algo a mais além de amizade entre Helen e seu primo Roger? - Não, eram só amigos, mas...- hesitou em falar, parecia constrangido - Havia algo mais entre Mary Ann e ela, do que só amizade, não sei se me entende. Mulder assentiu com um leve movimento. - Minha irmã e ela tinham um caso, mesmo depois do casamento dela com o Roger, mas Mary Ann decidiu pôr fim ao relacionamento delas, Helen ficou arrasada - encarou Mulder meio sem graça - Eu e Helen contávamos tudo um ao outro, nunca a julguei pelo seu lesbianismo, a não ser pela traição que cometia contra Roger, que dizia ser o seu melhor amigo. O agente surpreendeu-se pela revelação. - Com certeza, Helen não deixaria Mary Ann ficar impune - Richard murmurou. - E quanto ao meio como ela as matou, me diga a verdade, Helen possui alguma habilidade especial, capaz de fazer as pessoas agirem segundo as suas próprias vontades, ao seu comando? - Mulder estava visivelmente ansioso pela resposta, prestes a montar seu quebra-cabeça. - Ela possui um dom especial, mas não o de controlar mentes, agente Mulder - sua expressão era de certa surpresa diante a pergunta do agente - Acho que o que vou dizer não vai lhe parecer tão absurdo, já que me fez tal pergunta. - Então, prossiga, por favor - a curiosidade consumia-o. - Helen pode fazer as pessoas ficarem temporariamente suspensas de suas ações, sentidos, e pensamentos, apagando somente as lembranças em que ela aparece, mas não pode impor a sua vontade, e fazer as pessoas agirem como ela quer, só mantê-las desligadas da vida por algum tempo. - Você também tem esta capacidade? Mal Mulder perguntara, a porta abriu-se dando passagem à Helen e Scully, sendo interrompidos pela entrada delas na sala. Richard erguera-se abruptamente da poltrona, confrontando-se com a irmã, seus olhos brilhavam pelas lágrimas que teimavam em aparecer. - Por quê, Helen? Por quê, hein? - gritou histérico, sendo impedido de avançar contra ela pelo agente, que lhe segurara o braço. - Por favor, se acalme, Richard! - bradou Mulder. - Richard, chega! Pare de encenar, você precisa de ajuda - Helen aumentou o tom de voz, estava assustada. - O quê? - perguntou sem compreender - Você é quem precisa de ajuda! Nunca vou perdoá-la! - desesperou-se. Num movimento rápido e alucinado, Richard arrancou inesperadamente a arma que Mulder trazia no coldre à cintura, mirando a irmã. Scully ao mesmo tempo, apontou a sua pistola para o rapaz. - Senhor Besiger, por favor, solte a arma! - ordenou a mulher ruiva. - Ric, por favor, abaixe essa arma, sabe que não fui eu, sei que está zangado com tudo, sentindo-se perdido, deixe-me ajudá-lo - lágrimas despontavam nos olhos de Helen. - Cale a boca! Chega de mentir, Helen! - sua mão tremia. A jovem percebendo a posição de alerta da agente ao seu lado, pronta a atirar a qualquer movimento do irmão, golpeou Scully, esta sem esperar, foi pega desprevenida, caindo no chão, Helen agachou-se até ela, pegando-lhe a arma, passando a mão pela face pálida da mulher de olhos azuis. - Desculpe, agente Scully, mas se você atirar nele, estará atirando em mim também, quanto ao seu rosto, não se preocupe, não deixei qualquer marca muito feia, não gostaria de estragar um rosto tão bonito - ergueu-se, apontando para o irmão, mantendo os agentes sob vigilância para não tentarem nada. O homem alto apressou-se em alcançar a parceira, ajudando-a a se levantar. - Como está, Scully? - perguntou preocupado, observando a parte arroxeada próxima ao olho dela. - Um pouco tonta, mas estou bem - afastou-se dele. Os irmãos gêmeos continuavam a enfrentar-se com as pistolas suspensas no ar, tornando o clima tenso. - Abaixe a arma, Ric, sabe que se atirar em mim, também estará atirando em você! O que nos liga é muito mais do que os laços consangüíneos, nossas vidas são dependentes uma da outra, sabe disso, desde crianças se eu ficava doente, você também ficava, nunca ficamos doentes sozinhos - falou meio sem fôlego - Vamos resolver tudo de uma vez, quero ajudá-lo. - Pare de ser fingida! Você matou a Kelly, logo quando estávamos tentando começar de novo, sem desconfianças - começou a chorar - Você a matou! - Não! Você matou Mary Ann, sabia o que ela significava para mim, você a queria para você, está muito doente! - não pôde conter o pranto, abaixou a arma - Eu amo você, meu irmão. - Você matou a minha felicidade! - esbravejou. - Você quem a matou, e a minha também! Richard que apontava a pistola para a irmã, desviou-a de seu alvo, levando-a até o próprio coração, mirando a si mesmo. - O que está fazendo? - desesperou-se a jovem - Pondo fim ao meu sofrimento - um estampido surdo ecoou pela sala. Helen caiu de joelhos, levando as mãos ao peito que sangrava, caindo o corpo logo em seguida sobre o chão, Richard ainda permanecia em pé com a pistola encostada ao peito, que também sangrava com a bala que acabara de desferir contra ele mesmo, seu corpo não demorou muito a juntar-se ao da irmã, ambos fecharam os olhos verde-musgo simultaneamente, tendo suas vidas além de unidas pelo nascimento, unidas pela morte. _____________________________________________________________ __ Apartamento de Scully 11:00p.m. Segunda-feira Scully abriu a porta para que o homem alto de olhos amazônicos entrasse, dirigindo-se ambos à sala para conversarem. - Mulder, ainda não consigo compreender como um tiro disparado por Richard Besiger contra ele mesmo, pode também Ter matado a irmã - possuía a testa franzida - Fiz as autópsias dos corpos, havia um ferimento no peito dela, exatamente na mesma área em que o irmão foi acertado, só que nele havia um projétil, já nela, apenas o mesmo ferimento a bala. - Eles possuíam uma ligação maior do que a do sangue, talvez por serem gêmeos - ficou observando-a. - Quem você acha que era o responsável pelas mortes? Acredita que poderia ser os dois? - seus olhos azuis fitavam-no. - Sinceramente não sei, Scully, e acho que nunca saberemos. Um silêncio instalou-se no ambiente, estando cada um imerso em suas próprias dúvidas quanto ao caso, em suas lembranças, suas vidas, no real motivo que os levara a conversarem àquela hora da noite, que os levara a estarem lá, juntos. - Scully - quebrou o silêncio Mulder - Algo aconteceu na tarde de Terça- feira que eu não me lembro, mas acho que você sabe o que aconteceu, de repente acordo no meu apartamento no dia seguinte sem saber como cheguei lá, e você termina tudo entre nós - levantou-se de onde estava, aproximando-se dela - Scully, só quero a verdade. Suspeito de que de repente eu possa Ter sido vítima ou de Richard ou de Helen, devido a minha falta de memória, não sei, portanto preciso saber, Scully. A mulher ruiva levantou-se como que tentando fugir do assunto. Mulder segurou-a pelos braços, aproximando-a dele. - Por favor, Scully, preciso saber se eu a feri de alguma maneira, nunca me perdoaria por fazê-la sofrer, preciso saber o que fiz, me diga por favor - de seus olhos algumas gotas cintilantes tentavam se equilibrar - Deve Ter sido algo terrível para tê-la afastado de mim, preciso saber, o que aconteceu? - procurou o mar celeste em seus olhos. Scully fitou os olhos amazônicos, inundados por gotículas salgadas, com os seus celestes, ficou muito tempo em silêncio, encarando-o com uma face inexpressiva, até que a máscara caiu, permitindo o choro aflorar, Mulder assustou-se com a reação da parceira, sempre tão contida em suas emoções, sentiu-se culpado. - Me desculpe, Scully, não queria fazê-la chorar - soltou os braços dela, virando-se de costas, deixando o pranto de seu íntimo escorrer, lavando sua alma, levou as mãos ao rosto, escondendo a dor pela culpa que achava Ter. - Mulder - chamou-o. Ele não se voltou, não tinha coragem de encará-la, Scully colocou-se em sua frente, afastando-lhe as mãos do rosto, para ver-lhe os olhos, ele tentou virar o rosto, mas ela o segurou com suas mãos. - Mul... - Scully - interrompeu-a - Não quero amar, o amor quer sangue e corações arruinados, não quero mais sofrer, nem vê-la chorar, e a saudade que sinto, nada mais é do que mágoa por Ter sido feito tanto estrago, não quero mais essa dor e essa escravidão, mas a minha vontade não impera, e sei que serei eternamente um escravo do que sinto. - Mulder, olhe para mim, por favor - respirou profundamente - Sei que é desnecessário o que vou dizer, já que é impossível expressar em palavras verdades que só o espírito sabe, sente, mas, mesmo assim, quero dizer já que nunca lhe falei o que você vive me dizendo, me demonstrando, quero que saiba que o amo, e não é muito, nem pouco, nem menos, porque não consigo encontrar palavras que sejam capazes de medir a dimensão do que sinto, pois não há fim, nem limite, simplesmente é infinito, eu te amo. Ergueu os olhos avermelhados e lacrimejantes para ela, de repente um sorriso, o mais sincero, profundo de significados, surgiu em seus lábios em meio as lágrimas. - Mulder, me perdoe por amá-lo, me perdoe por tê-lo feito sofrer... - Scully, não mereço perdão algum, só quero agradecê-la por me amar - segurou as mãos dela em seu rosto - Obrigado por me devolver a razão, a felicidade, a vida, você me tem por completo, Scully, pode tanto me destruir como me salvar. - Não gosto quando fala assim - enxugou algumas lágrimas que deslizavam pela face do homem à sua frente. - Mas é a verdade, sou dependente de você, é a luz a me guiar na escuridão, a iluminar as trevas de que era feita a minha existência - calou- se, ainda admirando-a, então puxou-a para junto de seu peito, abraçando-a com ternura, com saudade, procurou os olhos dela com os seus, e seus lábios se uniram num beijo saudoso, úmido, salgado pelas lágrimas. Naquela noite os agentes tocaram o céu nos braços um do outro, se Scully era o anjo de Mulder, então, ele o era seu Deus, guiando-a dentre as resplandecentes e etéreas nuvens. Seus espíritos alçaram livres pela noite, senhora de sonhos e estrelas. _____________________________________________________________ __ Cemitério de Washington A mulher de olhar violáceo agachou-se sobre os túmulos de Helen e Richard Besiger, que foram enterrados um ao lado do outro, deixando um buquê de cravos brancos em cada lápide, voltando o rosto para o céu e as mãos. - Deus, como pôde me tirar meus filhos, só pode ser castigo, castigo por querer o bem deles, por tentar livrar meu Richard daquela namorada meretriz que o traía com o melhor amigo, Alfred, por pôr fim ao sentimento libertino de minha filha por Mary Ann, por tentar fazê-la se interessar novamente por um rapaz, mesmo sendo Alfred, o havia deixado livre para voltar para minha garotinha - blasfemava em direção aos céus - Tinha feito tudo para vê-los felizes, e o que o Senhor faz? Me pune, levando o que eu tinha de melhor . Emily Besiger deixou-se ficar ajoelhada na grama, permitindo as lágrimas rolarem livres pela sua face. _____________________________________________________________ __ Fim