Rosie M. Starbuck 


1 -  Diga-me algo sobre você.

Em primeiro lugar quero agradecer o convite para esta entrevista. Fiquei muito feliz. Espero não decepcionar ninguém. Sou de Santos-SP, bancária há 20 anos, eXcer há 5, fanática há 1, piorando nos últimos meses... Às vezes, me sinto meio deslocada neste mundo que me cerca, porque as pessoas são tão práticas e imediatistas, que classificam qualquer coisa ou comportamento diferente do seu, como "coisa de criança", "bobeira" e "falta do que fazer". Como trocar idéias sobre nosso seriado de TV favorito, por exemplo...

 

2 -  Você sempre escreveu fanfic/outro tipo de história ou Arquivo X inspirou você a começar a escrever?

Tirando os trabalhos do colégio, nunca tinha escrito nada parecido com uma história antes. Essa "brincadeira" de Maratona de Fanfics é a grande responsável por essa novidade na minha vida.

 

3 – Quando você não está escrevendo fanfic ou assistindo a Arquivo X, o que você gosta de fazer?

Gosto de navegar pela Internet, que é algo completamente novo para mim, principalmente para saber mais sobre Arquivo X e seus atores. Atividades totalmente desvinculadas de Arquivo X são: praia, filmes (cinema ou vídeo), jardinagem e hidroginástica.

 

4 – Como você começou a escrever fanfic? E por quê?

Fiquei sabendo da Maratona de Fanfics pela SCI-FI News, e quando comecei a ler as histórias, descobri que, independente da qualidade, elas representavam um único sentimento, um movimento muito amplo, envolvendo muita gente e percebi que não queria ficar de fora.

 

5 – Como você classifica o seu trabalho?

Costumo dizer que sou muito crítica e que minha maior vítima sou eu mesma. Escrevi só quatro fanfics shippers porque gosto de idéias diferentes: se for para escrever mais uma história parecida com alguma outra, prefiro não escrever. Admiro muito os autores que tiveram imaginação suficiente para escrever um número maior e mais diversificado, incluindo a mitologia da série.

 

6 – Diga-me alguma coisa a respeito da primeira fanfic de AX que você escreveu.

A minha primeira fic foi Adeus Solidão, e a única que não é continuação de qualquer ep de AX. O ponto central dela é um objeto (idéia) que eu fui buscar lá no ep Homens-Mariposa (Detour): o saco-de-dormir. A primeira vez que vi esse ep, achei genial o diálogo dos dois: ele citando uma "curiosidade científica" com a maior cara de sonso ("a melhor maneira de se aquecer é estar nu com outra pessoa num saco-de-dormir"), e ela respondendo de maneira dúbia e expressão facial indecifrável. Note que: "talvez tivesse sorte, se chovessem sacos-de-dormir" pode significar "como não chovem, você nunca terá essa sorte" ou "mesmo que não chovam, talvez você tenha essa sorte um dia". Essa passagem eu guardei com todo o carinho até que apareceu a oportunidade de desenvolvê-la, associando ao momento crucial que todo eXcer shipper quer ver um dia: a primeira noite de amor dos dois (que na história foi dia!).

 

7 – Qual foi a primeira fanfic que você leu?

Sinceramente não lembro, eu já li tantas que perdi a conta. Mas me lembro, que logo nas primeiras, fiquei desesperada querendo ler Presente de Aniversário/Emily Scully (tinha lido a sinopse, uau!!!), não conseguia porque estava zipada, e eu nem sabia o que era isso!!!

 

8 – De onde você tira suas idéias?

Dos próprios eps: se você reparar, eles estão cheios de situações shippers apenas insinuadas, que, para quem só escreve histórias assim, é um prato cheio. E o interessante é que, cada vez que você assiste o mesmo ep, descobre um detalhe que não reparou antes. Exemplo: o olhar dele para ela no carro no começo de Dreamland I inspirou a fic Desejos de Mulder e Scully.

 

9 – Você começa com uma única idéia e aumenta a partir daí ou você já sabe de toda a história antes de começar?

Depende da história, mas geralmente eu tenho a idéia central e o desfecho definido, e a partir daí vou desenvolvendo a trama, como um filme na minha cabeça, para depois colocar os diálogos como eles seriam de fato num ep na TV.

 

10 – Você tem algum tipo de ritual para escrever as histórias?

Nenhum. Só preciso de papel e caneta. Se a inspiração chegar, não espero para escrever depois. Já escrevi em guardanapo de papel, em sala de espera de consultório médico, no intervalo de almoço com o rascunho quase dentro do prato, na praia quase sempre, e até no meio da reunião de família na véspera do Natal (deixando meu povo meio preocupado, querendo saber se era algum relatório das atividades da família...).

 

11 – Descreva fisicamente o ambiente e o que você usa para escrever.

Uso papel e caneta por ser mais fácil o transporte (eles vão comigo para todo lado, o dia inteiro). O ambiente varia: pode ser deitada na cama do meu quarto, sentada à mesa da sala ou cozinha, ou de preferência, na praia onde não existe telefone e ainda estou em contato com a natureza. O importante é estar em paz.

 

12 – Como você age quando dá aquela travada na hora de escrever?

Aí é que eu acho legal estar num lugar tranqüilo como a praia. Se o problema for uma frase ou determinado diálogo, eu paro, começo a olhar o movimento das pessoas, do mar, e no final as palavras certas aparecem de estalo. De qualquer maneira minha regra número um em caso de travada é não forçar, só ficar ligada às coisas à sua volta, porque de repente a inspiração está logo ali.

 

13 – Quão importante é o feedback pra você?

É vital. Quem escreve precisa saber o que as outras pessoas estão achando, porque nós não escrevemos para nós mesmos e sim para os outros. Quando a gente recebe um elogio, é gratificante saber que o nosso trabalho agradou, assim como a crítica também possibilita a correção de alguma falha, e ambos nos incentivam a continuar.

 

14 – Diga-me seus escritores favoritos de fanfic e também algumas histórias que goste.

Kessia Nina, Ana Lucas, Wanilda Vale, entre outras. Todas as fics delas, mais Presente de Aniversário/Emily Scully, Talvez não haja um amanhã I e II/DK Scully, Santuário/E. Scully Cat/S.Spooky Nic, só para citar algumas...

 

15 – Dentre seu trabalho, qual sua história preferida?

É difícil, são 4 filhas muito queridas: gosto da dança de Como os Fantasmas Reinventaram o Natal, o Mulder resgatando a Scully em MilleniumII e do final promissor de Desejos de M&S. Mas talvez a primeira (Adeus Solidão), seja a do coração, por toda a emoção que me proporcionou.

 

16 – Qual é o maior problema que você encontra para escrever?

Inspiração, idéias originais, tempo livre. Quando estão a meu favor (principalmente os dois primeiros) o resultado é uma história nova.

 

17 – O que você ganhou nesses anos (ou meses) de convivência com outros eXcers e escritores de fanfic?

Descobri que posso realizar coisas que nunca me imaginei capaz: escrever histórias, emocionar pessoas, fazer novas amizades, aprender truques novos (lidar com micro, Internet). Ganhei nova motivação para viver. Ganhei vida.

 

18 – Sua família sabe das suas fanfics? O que ela pensa a respeito?

Ninguém na minha família sabe das minhas fanfics. Acho que iriam perguntar "Fan o quê de Arquivo onde?". Os únicos que sabem, são meu marido (crítico e consultor para assuntos aleatórios), e um amigo eXcer que trabalha comigo (consultor para assuntos de informática).

 

19 – Você tem algum conselho em especial para novos escritores de fanfic?

Deixem-se dominar por essa onda apaixonante que é Arquivo X e seus personagens, soltem a imaginação, ponham a timidez de lado, cuidado com a língua portuguesa, e mãos à obra!

 

20 – Há alguma frase ou momento especial em alguma fic que você deseja compartilhar conosco?

Existem muitos momentos especiais na maioria das fics que eu tenho lido, mas vou citar dois (me desculpem pelos outros) que ficaram gravados na minha memória (que já foi melhor!): 1 – Guarde a última dança para mim/Ana Lucas – a massagem do Mulder nos pés da Scully na cena da dança no quarto. Adorei o jeito como tudo aconteceu (inclusive o "suicídio" do shampoo!). 2 – Origin/Kessia Nina – quando eles estão no motel escondidos, ela "pensa" nele, ele "escuta" e satisfaz o desejo dela (quase). Foi brilhante: quem já não desejou que outra pessoa lesse seus pensamentos?!?

 

21 – Algum autor em especial influenciou seu modo de escrever? Ou o inspirou de alguma forma?

Quando eu comecei a ler fanfics, encontrava histórias de todo o tipo e dos mais variados autores. Mas, uma começou a se sobressair tanto pelo enredo, que mesclava mitológico e shipper, como pelo estilo da escrita, e me identificava tanto com ela que era como se eu tivesse escrito aquelas fics. Eu entrava nos sites e já procurava por ela, porque sabia que não me decepcionaria. Depois apareceram outras, mas ela foi minha primeira autora favorita (seu recorde ainda não foi quebrado), e sem saber me incentivou a escrever. Estou falando da Kessia Nina.

 

22 – Quanto tempo, em média, você leva para escrever uma fic?

Entre amadurecer a idéia e passar a última revisão, pode variar de 2 dias a 2 semanas.

 

23 – Qual é o seu personagem preferido? Por quê?

O Mulder, pela sua perspicácia, seu humor cínico, seu jeito protetor e ao mesmo tempo sem medo de demonstrar sua fragilidade ocasionalmente para a Scully, suas piadinhas sem graça. Ah! E pela pinta na bochecha direita ...

 

24 – Se você pudesse mudar alguma coisa em Arquivo X , o que seria?

Em Arquivo X nada, nos atores um pouco mais de humildade não faria mal: onde já se viu esnobar o seriado e os fãs?!?...

 

25 – Como você define o relacionamento de Mulder e Scully?

Perfeito, bem, quase, mas é só questão de tempo... Como muita gente já disse antes, eles se completam, como se fossem dois extremos que, juntos, chegam ao meio termo. Ele não faz nada sem ela, e ela se sente deslocada sem ele. Há um profundo respeito mútuo em relação às suas opiniões, quer dizer, eles sempre as consideram por mais conflitantes que sejam. Há muito carinho de ambas as partes, que se traduzem nos mínimos gestos, olhares, toques e no fato deles viverem se socorrendo: a Scully o ajuda a se levantar do chão, embora a diferença física seja imensa, e o Mulder a ajuda, não porque é uma mulher, normalmente retratada como frágil, mas porque é sua parceira, de igual para igual. A propósito, ela é a única heroína que não se estatela no chão quando está correndo, já repararam?...Tanto quanto o socorro físico, também tem o socorro moral e emocional, e igualmente eles estão sempre lá um para o outro. Enfim, é só esperar (haja unha para roer!) que a natureza seguirá seu curso, por mais que o Chris Carter queira atrapalhar.