Titulo: Retrato Autora: Meggie E-mail para: wm3@uol.com.br Classificação: Shipper Resumo: Scully está triste. Disclaimer: Não estou lucrando, etc. Retratação: Inspirada na poesia homônima escrita no final da fic, sobre a qual também não tenho nenhum direito. Retrato O silêncio fazia eco em seus ouvidos. O peso solitário da escuridão preenchendo os espaços vazios de sua alma. Não conseguia dormir. Deus, não queria dormir nunca mais. A dor inútil em seu coração o impedindo de pular direito. O sofrimento, o frio, as lágrimas que não conseguia evitar. A saudade corroía sua alma. Seus ossos. Seus músculos. Sua paz. Scully nunca havia se dado conta do quanto realmente era só até perde-lo. Até tê-lo arrancado brutalmente de perto de si. Todo seu espirito gritava de horror, de vontade de tê-lo de volta. Ver seus olhos mais uma vez e dizer, dizer como o mundo desabara sem ele para lhe dar a mão. Apenas seus soluços lhe faziam companhia. Seu rosto pálido e triste no espelho acusando as horas insones. E haviam os pesadelos. Cada dia piores, cada vez mais frequentes, intermináveis. Chocando sua mente já sensível. Mulder estava sofrendo. Ela estava sofrendo sem Mulder. Sua garganta não conseguia mais segurar o choro reprimido. Estava com medo, com dor, sozinha. O mundo rodava sem porque. A angústia insuportável de não poder mais vê-lo sorrir a fazia não querer sorrir nunca mais. Não querer viver nunca mais. Nem a consciência de estar esperando um filho. Um filho dele, fazia com que se sentisse bem. Era seu sonho, mas desistiria dele se isso trouxesse Mulder de volta. Via em preto e branco quando ele não estava por perto. Sua existência parecia um filme sem trilha sonora. Levantou-se da cama sentindo o estomago girar. Correu para o banheiro. Chorando, um pranto inquietante, ajoelhada em frente ao vaso sanitário. Nunca a tristeza se apossara dela daquela forma. Não conseguia parar, não conseguia deixar de chorar. Quis falar com alguém, mas não havia para quem ligar àquela hora. Ninguém entenderia. Não estava fazendo bem para seu bebê, para si mesma, jogada no chão daquela forma. Mas não importava. Realmente, não importava. Acordou sentindo os azulejos frios do banheiro queimando-lhe a pele. Forçou o corpo a se por de pé, os olhos a se verem no espelho. Estavam opacos, estranho, vazios. Aquela não era sua imagem! O que haviam feito com seu reflexo? Como não se dera conta de Ter mudado assim? Se fosse uma tela de Picasso estaria pintada em azul. Aqueles bem escuros e deprimentes. Aqueles sem vida nem alma. Sua imagem. Belo reflexo. Seu coração nem conseguia mais se comprimir. Não havia mais para onde correr, nem mais pedaços para partir. Mais um dia começava. Não conseguia pensar como sobreviveria a ele. - Bom dia, Agente Scully. - Bom dia, Doggett. - Você está bem? Ela ergueu as sobrancelhas num gesto que ele estava começando a reconhecer. - Estou, por que? - Parece abatida. Para falar a verdade, tinha a impressão que um trem havia atropelado sua parceira. Não que não estivesse impecável. Estava, como sempre. Mas os olhos exibiam uma luz seca. Como se algo muito importante houvesse se quebrado. Como se ela houvesse rompido o limite da dor e conseguido, enfim, se isolar completamente do mundo. Jonh sentiu que a perdia, mesmo que nunca a houvesse tido. E o pensamento era de certa forma inquietante e desesperador. Talvez devesse falar com Skinner, Scully parecia confiar nele. Resolvido, Doggett pediu licença e saiu da sala. - Pois não, agente Doggett. Aconteceu alguma coisa? - Temo que sim, senhor. - Você está bem? - Eu sim, mas a agente Scully...Bem, creio que o senhor talvez devesse conversar com ela. - Aconteceu algo? - Acho que sim, mas ela não me diria. - Vou ver o que posso fazer. - Obrigado, senhor. - Eu que agradeço. Os dois homens apertaram-se as mãos, num gesto mútuo de cordialidade. Jonh esperava sinceramente que Skinner resolvesse o problema. E que não fosse tarde demais. O dia terminara. Sobrevivera a ele, no fim das contas. Mais um que se ia, mais um pedaço das suas esperanças esmagadas. A cada dia, as chances de encontrar seu parceiro eram mais remotas. E a consciência disso a fazia odiar o correr intenso do relógio. Jonh já havia ido. Ele se comportara de forma estranha o dia todo, fitando-a inquisidoramente , pedindo algo que ela não sabia se tinha para dar. Mas talvez fosse impressão sua, não estava sentindo-se bem. Chegara ao fundo do poço, enfim. Sua mente negava-se a pensar que havia a possibilidade de ir ainda mais fundo. Preparava-se para ir embora quando ele chegou. Vestia-se como de costume, a testa franzida de preocupação. Diria que ele tinha algo para falar-lhe mas não sabia como. Esperou. - Está tudo bem, Dana? Quando ele a chamava pelo primeiro nome o assunto era pessoal, e devia Ter a ver com Mulder, ou o bebê. Ou os dois. - Sim, por que a pergunta? - Parece exausta. Skinner, ao vê-la, entendera imediatamente a preocupação de Doggett. Scully parecia seca, como se houvesse desistido. Não resignada, pois o inconformismo com a situação transparecia em todos os seus gestos . Apenas desiludida, e triste, imensamente triste. - Vou pra casa descansar, amanhã vai estar tudo bem. A mentira gritante da afirmação quase a fez rir. Ela não descansava mais, não conseguia dormir sem sonhar, e não conseguia mais sonhar sem sofrer. E nunca, absolutamente nunca, ficaria bem sem Mulder. Mas Skinner não precisava saber disso. Scully havia desistido de mante-lo por perto. Seria criar outro laço perigoso. Ela cansara-se de laços. O que lhe trouxera sua união com Mulder? De que lhe adiantara ama-lo mais que tudo? Nada. Devia Ter seguido os conselhos de sua própria consciência e mantido-se afastada de seu parceiro. Mas não, tivera que confiar nele, se apoiar nele, se apaixonar por ele. Fora completamente cega. Era obvio que não ia dar certo, ela não nascera para que suas relações dessem certo. Sempre acontecia algo de ruim com os seres que amava. Decepcionara seu pai, matara sua irmã, sua filha, seu cachorro. Fizera sua mãe sofrer. Tudo por causa das escolhas que fizera para sua vida. Pobre de seu filho... Deveria Ter se mantido longe de Mulder também. Agora ele estava longe, sozinho e machucado. Ela sentia-se da mesma forma. - Obrigada pela preocupação, Senhor. Eu estou bem. – Reafirmou, sorrindo ligeiramente. Pegou sua bolsa e saiu, despedindo-se com um aceno. Preocupado, Skinner rumou para casa de Doggett. - Não há o que se fazer. Comentou quando o homem de olhos azuis abrira a porta. - Ela não quer ajuda, não é? - Não, insiste em dizer que está bem. Acho que não há nada que possamos fazer. - Há sim...Achar Mulder. Quando o escuro do quarto contaminava sua alma, quando o ruído mórbido do relógio batendo feria seus tímpanos sensíveis, quando seu corpo parecia não Ter forças para reagir, obrigava-se a permanecer de olhos abertos. Fixos em um ponto qualquer no infinito. Deixava que sua mente divagasse por lembranças ruins. Magoas antigas, pesadelos ressentes . Repassava todos eles. Um a um. Muitas e muitas vezes. Dizem que relembrar é sofrer duas vezes. Verdade. Ela sofria tudo novamente. Forçando-se a revive-los, passo a passo, numa louca tortura masoquista, culpando-se eternamente. Quando finalmente concluía que auto punira-se o suficiente, fechava as pálpebras e escorregava mansamente para o sono. O brilho suave escorria pelas paredes, manchava o tapete, subia cambaleante entre os lençóis. Era o dia nascendo. Domingo. O quarto possuía um cheiro abafado de escuridão e portas fechadas. Cheiro de mofo e naftalina, característico de roupas especialmente velhas e guardadas com carinho. As cortinas cerradas impediam a passagem do sol. Apenas a fresta da porta permitia a entrada suave de um pouco de luz e anunciava a chegada de uma nova manhã. Abraçou-se ao travesseiro, poeticamente ainda molhado com suas lágrimas. Lágrimas com gosto de sangue e água do mar, inevitáveis. O remoer eterno do relógio continuava, ridiculamente alto no silêncio reinante de seu lar. Lar, grande piada. Que lar? Virou-se na cama, observando a réstia de luz. Os ácaros voavam, saltitantes, no ar. Podia-se vê-los, dando piruetas nos raios solares, caindo ao chão, logo depois. Quase ouvia o som das risadas debochadas que saiam de suas mandíbulas. Risadas...Há quanto tempo não sorria? Há quanto tempo não ficava realmente feliz? Deus, o que a tornara aquele monte enorme de gelo? Em que exato ponto do caminho, deixara pra trás seus sentimentos? A sua alma? Antes, não era assim antes. Há muito tempo atrás. Quando dava aos outros o benefício da dúvida e da confiança. Mas agora não havia motivo. Não havia Mulder. Ele a deixara, e ela o deixara. Ambos traíram- se, quase sem querer. Ela por Ter permitido que ele se fosse, ele por Ter se permitido ir. Mas no fundo ela sabia que era a culpada. Ela o deixara partir. E agora estava sozinha, sentia-se como um imenso jardim, cheio de flores mortas. Flores que cheiravam podridão. Era ela. Terra que um dia havia sido boa e morria, sem esperanças. Sem cuidados. Algum ponto em sua alma a pedia para reagir. Teria um bebê. Mas cansara-se de Ter que reagir. Estendeu a mão e abriu as cortinas, queria ver o céu lá fora, o vento que parecia soprar mais frio que ela naquele momento. Sorriu tristemente. Domingo era um dia familiar, dia de ver a mãe, dar banho no cachorro, conversar com as vizinhas, fazer bolo, ver futebol, ler um livro. Domingo não fora feito para ser passado sozinha na cama, almoçando comida congelada. Talvez devesse reagir. As folhas das arvores batiam na janela. Seu filho iria nascer e não lhe comprara quase nada. Não fazia nada por ele, o estava maltratando. O seu filho. Seu filho com Mulder. Ele não merecia isso. Lutara tanto para tê-lo, mesmo que tivesse medo. Medo de não merece-lo, talvez. Mas agora era seu, e tinha que cuidar dele. Cuidar dele para quando Mulder voltasse. Tinha que reagir. As lágrimas rolaram de seu rosto. Não era um jardim morto. Algo vivo e colorido nascia dentro dela. Um bebê. Seu bebê. Mulder não gostaria que ela desistisse. Que perdesse as esperanças. Era a única coisa que tinha. O único sentimento que a mantinha ligeiramente sã. Só precisava esperar e fazer a sua parte. Ele iria voltar. Ele lhe prometera que voltaria. Mulder cumpria suas promessas. Levantou-se. Mesmo triste. Mesmo incompleta. Seguiria em frente. Não era mais a mesma, mas ainda havia chance. Chance de que todo aquele horror acabasse bem. Sorriu. Estava com vontade de tomar sorvete de pêssego com calda de morango. Talvez não fosse a culpada. Apenas não tivera sorte. Sentia os dedos ainda sem força da imobilidade que os mantivera nos ultimos dias. Mas mesmo assim, pegou o telefone e discou. - Senhor? - Dana? Tudo bem? - Sim, eu o acordei? - Não, já passam das dez. Está tarde. Ela não percebera o avançar da manhã. - Onde será que se acha sorvete de pêssego? Ele sorriu. Talvez nada estivesse perdido. - Podemos procurar. - Sempre encontramos as coisas mais difíceis, não é? - Com certeza. Um sorvete de pêssego é moleza. - Com calda de morango. - Com calda de morango. Ambos sorriram. Retrato Eu não tinha este rosto de hoje, Assim calmo, assim triste, assim magro, Nem esses olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, Tão paradas e frias e mortas; Eu não tinha esse coração que nem se mostra. Eu não dei por essa mudança Tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face? Cecília Meireles