PRELÚDIO por Silvia Penhalbel I A menina caminhava devagar, o frio impedindo qualquer movimento mais brusco do pequeno corpo desprotegido. Os parcos pedaços de tecido mal cobriam o torso, constantemente acometido pela tosse. Uma lágrima rolou pelo rosto bem maquiado da mulher quando um gordo cavalheiro, bem vestido em um sobretudo de lã, afastou a pequena criança com um safanão brusco, jogando-a em um amontoado de neve suja na beirada da calçada. Decidida, aproximou-se da menina caída e levantou-a. A criança se assustou com o toque da mão coberta pela luva de couro mas o olhar carinhoso da dona daquela mão, a impediu de sair correndo. Menos de quinze minutos depois a menina devorava vorazmente um prato de comida, colocando os pedaços na boca com as duas mãos, não deixando nenhum grão se perder. A mulher fazia perguntas ocasionais enquanto a observava atentamente. Ela não gostava de ser observada daquela maneira, mas a mulher a estava alimentando e ela não iria reclamar enquanto o prato ainda estava cheio de uma comida deliciosa, cujo sabor ela jamais sentira em sua curta vida. Tentava se concentrar nas perguntas da mulher, que se mostrava cada vez mais chocada. Nome? Não, não tinha um nome. A mãe e as irmãs a chamavam de "a menina". Quantas irmãs? Doze ou treze, ela não tinha certeza, havia muita gente que chamava sua mãe de "mãe". Sua idade? Não sabia, nunca ninguém se preocupara em dizer-lhe quantos anos tinha. Desde muito pequena cuidava de sua própria sobrevivência em uma casa pequena demais para duas pessoas e onde viviam quase vinte entre parentes e conhecidos. Contar? Sim , isso ela sabia fazer. Aprendera muito cedo a reconhecer cada nota e moeda que recebia das pessoas e a saber o valor do dinheiro. Ela respondia as perguntas com a boquinha cheia de comida, os olhos arregalados para os doces expostos na vitrine próxima a elas. A mulher acompanhava todos os seus movimentos, mas os doces teriam que esperar. A conta foi paga e a menina acompanhou a mulher até um grande prédio antigo. Tinha apenas três andares mas eram muito compridos e centenas de crianças andavam por todos os lados e ocupavam praticamente todas as salas. A menina não tinha idéia de que estava em um orfanato. Sabia apenas que lá era aquecido. Lá a mulher a levara até um banheiro enorme e todo branco onde ela tomou um banho quente e perfumado e depois vestiu roupas de verdade, inteiras e cheirosas. Também fora calçada com pequenos sapatinhos de couro preto que ela havia visto tantas vezes nos pés das meninas que passeavam com suas mães pelas ruas da cidade. Ficara dois, talvez três anos no orfanato, tempo suficiente para aprender a ler e escrever. Ganhou um nome, nome de uma santa, para quem rezava todas a noites a oração que haviam lhe ensinado. Quando fugiu já sabia tudo o que precisava para viver sozinha nas ruas. Roubava e furtava com a naturalidade de quem nasceu fazendo isso. Sem remorso ou medo. Sabia chorar quando necessário e fingir uma inocência que nunca tivera para comover policiais e magistrados. Ela vivia nas ruas novamente. Mais uma vez, não tinha um nome. Mas desta vez, a decisão havia sido sua. II Ela era tratada como uma boneca de porcelana. Os cabelos crespos estavam sempre impecavelmente arrumados em cachos que caíam graciosos pelas suas costas. Os vestidos sempre perfeitamente limpos e engomados. Meias brancas e sapatos de verniz preto completavam a ilusão. A mãe a expunha como uma jóia rara para amigos, parentes e conhecidos. Era obrigada a tocar piano, cantar, dançar e recitar diante dos adultos, que riam e aplaudiam como se ela fosse um lindo macaquinho ensinado. E era assim que ela se sentia: um macaquinho ensinado. Bem vestida, bem alimentada, mas apenas um objeto que sua mãe guardava com cuidado para não estragar. Não existiam palavras de carinho nem beijos de boa noite. Nem conversas de mãe para filha ou abraços no sofá da sala. As ordens eram ditadas em voz baixa e seca, como ela fazia com os cachorros da casa. Ninguém tinha autorização de conversar com a menina. Nem pronunciavam o nome dela na casa, era sempre "a menina". Os criados sentiam pena dela, era doloroso para eles vê-la obrigada a acordar de madrugada para estudar piano ou canto e dormir altas horas depois de entreter as inúmeras e infindáveis visitas que a mãe recebia praticamente todos os dias em um ritual de orgulho e ostentação que chegava a lhes causar náuseas. Mas ninguém dizia nada e ela não tinha escolha. A única vez em que reclamara de cansaço, quando ainda tinha três ou quatro anos de idade, a mãe a havia deixado inconsciente, estirada no tapete da sala depois de uma surra. Acordara tremendo de frio com a mãe chutando suas costas, mandando-a para o piano estudar. Nunca mais reclamara, nunca mais dirigira a palavra à sua mãe. Tornara-se uma verdadeira boneca de porcelana. Seu rosto nunca mostrara um sorriso embora sua voz emocionasse aqueles que a ouviam cantar ou declamar. Estudava com afinco e lia tudo o que lhe caía nas mãos. Não ia à escola, não tinha amigos e os livros acabaram se tornando seus companheiros. As histórias das vidas dos grandes compositores lhe diziam que havia um mundo lá fora. Um mundo que ela sabia que jamais conheceria. Seu mundo se limitava aos grandes portões de ferro de sua casa. Tudo o que tinha eram seus sonhos e sua determinação em não permitir que seu espírito fosse quebrado embora seu corpo se rendesse obedientemente às vontades da mãe. Foi seu espírito rebelde que a levou aquele dia ao jardim. Parou em frente aos portões abertos naquela manhã ensolarada. Seu espírito faminto não parou um segundo para se perguntar o motivo dos portões estarem abertos. Não parou nem um segundo para pensar nas conseqüências do que fazia. Seu corpo foi impelido para fora dos portões. Correu como nunca imaginara ser capaz e, nem por um segundo, olhou para trás. III Era apenas uma aposta. Ao menos era o que ela pensava enquanto escalava a árvore enorme em meio à escuridão da madrugada. A lua jazia em algum lugar lá fora, atrás das grossas folhagens. Galhos estalavam perigosamente à medida que seu pequeno corpo avançava mais e mais para cima. Era apenas uma aposta. E ele iria rir quando a visse e iria colocá-la para fora de seu quarto em dois segundos ao perceber a travessura de adolescente dela. As amigas do grupo de bandeirantes duvidavam que um homem adulto, que estudava na Inglaterra, olhasse duas vezes para uma adolescente sem graça como ela. Mas, o orgulho a obrigara a aceitar a aposta. Entraria no quarto dele no meio da noite e enfrentaria o sarcasmo se viesse, mas ao menos, ninguém diria que ela fugira de um desafio, por mais tolo que este lhe parecesse no momento. A noite estava agradável e ela sabia que ele sempre dormia com a janela aberta. Sua experiência com o grupo de bandeirantes lhe dava a segurança de movimentar-se na semi escuridão, entre os galhos incertos da árvore que alcançavam o parapeito estreito. Fácil demais. Mas, ao colocar os pés no carpete macio, sua coragem fraquejou. Ele dormia um sono pesado de pura exaustão, apenas o fino lençol de algodão cobria o corpo magro e bem feito. Ela respirou fundo e decidiu em um átimo que era melhor enfrentar as brincadeiras das colegas, mas antes de poder voltar ao parapeito da janela seu braço estava seguro com firmeza pela mão dele. Os olhos esverdeados a encaravam com genuíno espanto e uma pergunta muda desenhada neles. Sabia quem era ela e um olhar pelo sobretudo aberto lhe revelou o que ela pretendia. Ele não riu, não a mandou embora, não disse uma palavra antes de tomá-la em seus braços e fazê-la esquecer-se de tudo o mais à sua volta. Ela mentiu à amigas. Disse que não tivera coragem. Suportou as brincadeiras em silêncio com um leve sorriso no rosto. Sabia que não podia contar a verdade a elas. Foi um verão inesquecível, maravilhoso. Um verão cheio de descobertas, segredos trocados aos sussurros, noites de deliciosas loucuras. Três dias, apenas três dias antes dele voltar à Inglaterra, seu mundo desmoronou. Ele esperou que ela viesse, sentado na grande pedra de onde podiam enxergar o horizonte infinito. Começou a falar antes mesmo que ela se sentasse a seu lado. Ela apenas escutou, os olhos ardendo com as lágrimas contidas a custo. Era uma loucura, sim, ela sabia. Ele tinha vinte e três anos, ela apenas dezesseis, e não podia assumir um relacionamento com uma criança. Ela não era mais uma criança mas não disse isso a ele. Ouviu com o coração despedaçado as palavras dolorosas: não havia lugar para ela em seus planos para o futuro. Sentiu cada palavra penetrar em sua carne como facas. Não chorou, nenhuma palavra passou pelos lábios trêmulos e frios. Esperou quieta ele terminar, deixou que suas bocas se encontrassem pela última vez em um beijo sôfrego, desesperado e afastou-se sem olhar para trás, as mãos trêmulas apertadas com força de encontro ao corpo. Fugiu de casa naquela mesma noite, com todo o dinheiro que sua mãe guardava na gaveta da despensa, dinheiro que estava juntando para sua faculdade, poucas roupas, nenhuma esperança e uma criança crescendo dentro dela. Na verdade, havia sido apenas uma aposta. IV Ela era o orgulho de seus pais. Sua vida, sua paixão. Aquela a quem eles amavam acima de tudo. Exceto seu país. Nada era mais importante que seu país. Viviam em uma cidade pequena onde faltava conforto, condições, mas sobrava carinho, calor humano. Ela cresceu feliz, amada. Aprendendo que seu amado país devia estar acima de tudo. Era a melhor aluna da escola, desde muito pequena. Aprendera a ler e escrever antes de qualquer outra criança de sua idade. Era o orgulho de seus pais. Eles a ensinaram o amor pela sua terra, pela sua Rússia. Não tinham televisão ou rádio. Jornais chegavam esporadicamente. Tudo o que sabiam era através de forasteiros esparsos que eram recebidos com carinho em sua casa. Soldados patrulhavam constantemente a região e, mais de uma vez, ela testemunhara amigos e conhecidos serem recrutados de repente, às vezes no meio da noite. Eram levados em caminhões ao lado de outros rapazes e moças vindos de outros vilarejos. Seus pais lhe diziam que era uma grande honra ser escolhido para servir seu país. Ela não dizia nada mas não entendia estes recrutamentos estranhos, feitos na calada da noite. Nenhum de seus amigos nunca voltara mas a vida havia continuado como sempre na pacata vilazinha perdida nas estepes russas. Eles chegaram numa noite especialmente fria. Seus pais a acordaram falando baixo mas a urgência em seus sussurros era estranha para ela. Vestiu-se, ainda sonolenta, sem entender o que poderia estar acontecendo. Quando deixou seu quarto, soube, imediatamente que nunca mais o veria novamente. Sem uma palavra, ignorando o medo que se infiltrava em seus ossos, abraçou seus pais pela última vez e seguiu o soldado até o caminhão parado à porta de sua casa. Tinha a cabeça erguida, os olhos secos. O veículo afastou- se depressa, levando-a para longe daqueles que a amaram sem limites. Ela sabia que seus pais amavam seu país acima de tudo mas nunca acreditara que eles seriam capazes de amar seu país acima de seu próprio sangue. Agora ela acreditava. E, enquanto se afastava cada vez mais do único lugar no mundo que conhecera em quatorze anos de vida, nenhuma vez sequer, ela olhou para trás. V "Faça direito, não falhe, faça direito, não falhe". Repetia a frase para si mesma, centenas de vezes, tentando fazer a coragem brotar dentro de seu peito. Os braços abraçavam seu próprio corpo trêmulo de frio e medo. Os olhos verdes ardiam com o esforço que ela fazia para segurar as lágrimas. Quase nunca chorava. Chorar significava castigo e castigo significava dor. Ela não gostava de sentir dor e aprendera desde muito cedo a evitar a dor, evitando os castigos. E para evitar os castigos, não podia falhar, nunca. Ela aprendeu logo a fazer as coisas direito, a nunca falhar. Com isso, garantia para si os maiores bocados de comida e os parcos elogios que raramente cruzavam os lábios dele, sempre apertados num ricto severo. Obedecia a todas as ordens sem questionar. Nada a chocava, nada era difícil demais de ser feito. Aprendera depressa a fechar os olhos e a mente para as sensações desagradáveis. Mas ele passara dos limites. Na verdade, há tempos ele passara dos limites, mas ela era paciente. Aceitava tudo em silêncio, as lágrimas eram a única evidência de sua revolta, de sua dor. No mais, apenas o silêncio. Poucos conheciam sua voz mas muitos temiam sua presença. Tão pequena e tão perigosa. Ninguém sabia seu nome, afinal, não importava, ele nunca a chamava pelo nome, talvez para não ser obrigado a admitir nenhum laço com ela. Entre eles era sempre impessoal e frio, tudo era calculado. Ele murmurava as ordens em voz baixa, sussurrante e ela apenas acenava a cabeça e obedecia. O som rouco da voz dele machucava seus ouvidos, o cheiro sempre ruim que exalava de seu corpo lhe causava náuseas mas ela nunca demonstrava seus sentimentos. Os olhos verdes estavam sempre vazios, desprovidos de qualquer emoção, exceto quando ele a tocava. Nestes momentos, ela sentia que seus olhos poderiam matar. Mas ele nunca a olhava nos olhos, aqueles olhos tão inocentes que eram capazes de comover as ricas senhoras que caminhavam altivas pelas ruas da grande capital européia. Sua constituição frágil enganava os vendedores desavisados, os ricos senhores engravatados e os policiais sisudos que tantas vezes acreditaram em suas mentiras murmuradas em voz baixa e chorosa. Ele apenas observava à distância, a cabeça balançando em aprovação, enquanto ela se arriscava em roubos e assaltos cada vez mais audazes. Ele ficava cada vez mais exigente e ela nunca demonstrava o medo que a assaltava quando a voz sussurrante ecoava em seu ouvido, "faça direito, não falhe". Ela obedecia, sempre obedecia, mas, naquela noite, ela havia falhado e escapara por pouco da polícia. Mas não havia escapado da ira dele. Nunca apanhara tanto como naquela noite, ele nunca perdera o controle tão completamente de seus atos. Nunca a voz infantil fora ouvida tão alto. E quando ele finalmente a deixou, apenas semi consciente, jogada no chão úmido e sujo do beco escuro, ela jurou que aquela havia sido a última vez que as mãos dele tocaram seu corpo. Não havia mais paciência, nem obediência. Os olhos verdes faiscavam com ódio incontrolável que brotava do fundo do coração da criança. Repetia o mote que ele próprio lhe ensinara, ganhando aos poucos a coragem que precisava para entrar no cortiço imundo que fora seu lar por mais de dez anos. A luz prateada da lua refletiu seu brilho intenso na lâmina afiada que ele mesmo dera de presente a ela anos atrás. Ele acordou no exato segundo em que a lâmina penetrava seu peito, os olhos verdes refletindo dor e incredulidade. As mãos grandes se moveram em sua direção, tentando segurá-la mas pararam a milímetros do rosto que sorria docemente para ele. E as últimas palavras que ele escutou, antes de morrer, foram aquelas que ele jamais permitira que ela pronunciasse : "adeus, papai". Ela acordou assustada, respirando pesadamente, o suor cobrindo seu corpo trêmulo. A ar frio da noite entrava pela janela aberta, trazendo consigo luz e sombras, seus próprios fantasmas que voltavam a assombrá-la depois de tantos anos esquecidos. Olhou em volta e viu as companheiras adormecidas, os ruídos vindos das figuras imersas nas sombras indicando a ela que as outras também estavam às voltas com seus próprios fantasmas. Talvez devesse ter dado ouvidos aos que a advertiram sobre aquele local. Levantou os olhos verdes para o teto de vitrais que outrora deveria ter sido magnífico. Seu olhar fixou-se na figura de um anjo segurando uma espada de fogo. O anjo parecia desafiá-la a continuar ali, a fechar novamente os olhos e enfrentar seus fantasmas mais uma vez. Um gemido vindo da parede atrás dela a vez desviar os olhos de seu antagonista e aproximar-se da jovem que chorava baixinho, perdida em seu pesadelo. Acariciou de leve os cabelos cacheados e ela pareceu acalmar-se. Repetiu o gesto com as outras três que se debatiam em suas lutas interiores. As palavras da jovem do vilarejo que recomendara não passarem a noite no mosteiro abandonado voltaram com força total em sua mente. Talvez a crendice daquela gente humilde não fosse simplesmente crendice, talvez houvesse mesmo algo de mágico naquele lugar, algo que despertava lembranças profundamente enterradas no fundo das almas de cada um. Lembranças indesejadas e dolorosas, feridas incuráveis. Aproximou-se da janela e respirou o ar carregado de odores familiares. Fechou os olhos, desejando apagar todas as sensações despertadas pelo sonho mas sabia que, de alguma forma, essas sensações e lembranças nunca a haviam deixado realmente, sempre estiveram lá e sempre estariam e ela teria que conviver com elas todos os dias de sua vida. FIM