Título: Peter (Parte 2) Autora: Lucy Mattos Spoiler: O arco mitológico da série e a fanfiction Annie. Se você não leu Annie provavelmente vai se perder na história. Sumário: Continuação da fanfiction Annie. Mulder vai em busca de seu filho e descobre mais do que esperava. Classificação: MSR Palavra-chave: Angst Faixa etária: PG-13 (livre) Distribuição: Em qualquer site legal, desde que mantenham meu nome como autora. Me avisar também seria de grande consideração! :-P Feedback: Será muito bem recebido. Preciso saber se vocês gostam destas bobagens que eu escrevo. Prometo responder todos! Mandem para writing_machine@bol.com.br ou lucymattos@hotmail.com. Todos gostam muito de críticas construtivas, mas isso não quer dizer que você precisa magoar algum autor só porque não concorda com alguma coisa. Por isso cuidado com as palavras que você usar para fazer uma crítica. Disclaimers: Blá blá blá, os personagens citados nesta fanfiction são de propriedade de Chris Carter e da Fox. Annie Faith Mulder e Peter Matthew Mulder são de minha propriedade e não devem ser utilizados sem autorização prévia. As letras de música citadas, Cry for help e Winter pertencem a Rick Astley e Tori Amos, respectivamente, também usados sem autorização e sem intenção de infringir os direitos autorais. Notas: Seguindo minha própria mitologia, Mulder e Scully moram juntos e têm uma filha. Depois que Scully cede seu filho e de Mulder às experiências do Projeto, Mulder sai de casa e termina seu casamento. É, eu sei, muito perverso. Mas eu prometo um final feliz e sem mortes! Eu sei que o enredo desta estória é meio louco, mas depois de ler os spoilers de Dead alive eu acho que está bem plausível. Agradecimentos: Queridas beta readers, o que eu seria sem vocês? Lilly, Melissa, eu amo vocês! E agradeço a todos que me mandaram e-mails pedindo a continuação da fic, alguns pedidos meio desesperados, é verdade, mas todos muito amáveis! Gente, muito obrigada pelo carinho! E, por favor, mandem feedback! 'Ela gasta meu tempo me dizendo que está bem Mas quando ela sai, eu não estou tão certo É sempre a mesma coisa, ela joga o seu jogo E quando ela se vai eu me sinto culpado Porque ela não admite que precisa de mim? Eu sei que ela não é tão forte quanto parece ser Porque eu não a vejo pedindo ajuda? Porque eu não sinto seu pedido por ajuda? Porque eu não ouço o seu grito por ajuda?' (Rick Astley-Cry for help) Peter (Parte 2) Eu não consigo me lembrar quando meus sentimentos mudaram. Não me lembro quando eu a olhei e não a reconheci, mas sei que isso aconteceu e foi uma das piores sensações da minha vida. Quando Faith nasceu e eu olhei os olhos dela, azuis, brilhantes, cheios de lágrimas de felicidade e ceticismo mesmo com a própria filha nos braços, eu vi com meus olhos a verdadeira felicidade. Ela estava ali, de cabelos ruivos e olhos azuis, e esteve o tempo inteiro, queria ter percebido isso há muito mais tempo. Mas os dias, os meses e os anos se passaram. Scully era a melhor mãe do mundo, a que eu gostaria de ter tido, fazia tudo por Faith e parecia ter nascido somente para ser mãe. Nessa época nossos momentos de intimidade eram muito poucos, se restringiam a observar Faith mamando ou beijos suaves. Scully não me deixava tocá-la, não gostava que eu a tocasse mais intimamente, não sei o que se passava na cabeça dela. Mas eu confesso que também a via mais mãe do que mulher. Era um pouco estranho, acho que para nós dois, tenho certeza que ela também não estava acostumada com isso. Isso durou cerca de sete meses, eu só consigo me lembrar de uma boa noite de sexo apenas quando minha filha falou a primeira palavra. Nesse dia eu e Scully voltamos a ser marido e mulher, não só os pais de Faith. E com a correria da rotina quase nunca tínhamos tempo para fazer nada na cama, para explorar o corpo um do outro e o sexo parecia ter virado uma obrigação, uma daquelas tarefas que deviam ser executadas uma vez por semana, como lavar a roupa suja ou limpar os corrimões das escadas. Até que ela começou a inventar desculpas e se afastar de mim. Eu não nego que deixei as coisas acontecerem, estava tão cansado daquele sexo sem imaginação, tão cansado da correria do dia-a-dia, que preferia não fazer. E começamos a trocar um rápido beijo antes de ir dormir, cada um virava para o seu lado, como dois estranhos. Ou um casal de meia idade. Claro, nós éramos um casal que envelhecia a cada dia, mas eu ainda a amava, ainda gostava de ouvir a voz de Scully me acordando todos os dias de manhã e o seu sorriso. Eu conhecia cada ruga no rosto dela, cada marca de expressão que surgia quando ela sorria, quando ela erguia as sobrancelhas e quando ela se irritava. Eu as amava. Eu ainda conseguia olhar para ela e ver a jovem que entrara no meu escritório há anos atrás, com seu rosto infantil e cético. Mas a Scully que eu amava estava se transformando. Antes nosso problema fosse apenas esse. Mas de repente eu virei um mau exemplo em casa, como se eu ensinasse a Faith todas as coisas ruins que ela aprendia na escola. Minha filha estava com nove anos e crescia rápido, era esperta e saudável. Scully e eu havíamos aprendido a conviver com o medo constante de ter nossa filha abduzida, levada por 'eles'. Ela conhecia nosso passado, as coisas que nós vimos e vivemos, do câncer de sua mãe, do suicídio de sua avó e de outros fantasmas que nos assombraram por muito tempo. Não era um assunto comentado durante o jantar, mas Scully e eu concordamos que ela deveria saber a verdade e o que ela poderia ser. Felizmente os exames de sangue mostravam que Annie era uma criança normal. E eu via os cabelos ruivos e compridos de Annie, os olhos azuis, tão iguais aos de Scully que me assustavam. Era como se eu olhasse para uma miniatura da mulher que eu mais amava, era um pedacinho dela que crescia diante dos meus olhos. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX 'Você me diz 'Quando você vai tomar jeito? Quando você vai se amar tanto quanto eu te amo? Quando você vai se convencer disso? Porque as coisas mudam muito rápido Todos os cavalos brancos ainda dormem' Eu digo que sempre vou quer você por perto Você me diz que as coisas mudam, querida' (Tori Amos-Winter) CASA DOS PISTOLEIROS SOLITÁRIOS SEXTA-FEIRA, 23 DE ABRIL 01:45 AM Mulder estava sentado numa poltrona, olhando a parede. Era difícil descobrir o que ele pensava, mas sua expressão era, no mínimo, irritada. Ele e Scully estavam na casa dos Pistoleiros desde as oito da noite procurando pistas de Annie, sem sucesso. Byers havia conseguido para ela, na manhã anterior, uns endereços de clínicas de aborto para fazer uma pesquisa para a escola. Mas Mulder sabia que não era bem isso que ela pretendia. Ele olhou para Scully, em pé, próxima a uma mesa grande, olhando alguns papéis. Seus cabelos estavam caídos sobre a testa e ela parecia muito abatida. Mais uma vez ele via sua parceira passar por uma situação desnecessária, vendo sua filha sumir misteriosamente. Pelo menos desta vez ele sabia que ela não havia sido abduzida, Mulder conhecia Annie bem demais para saber que ela precisava de um tempo para si mesma, para colocar os pensamentos de volta no lugar. Primeiro ela teria que aceitar a separação dos pais, depois a perda de um irmão que ela jamais conheceria e isso era mais que suficiente para bagunçar a cabeça de uma menina de quatorze anos. Mas Mulder não falou nada, ele queria castigar Scully, ainda que de forma inconsciente, pela dor a qual ela o havia feito passar. "Frohike, me dê esta lista aqui." Frohike entregou a Mulder um papel. Ele levantou-se e foi na direção da porta. "Vamos, Scully. Eu te deixo em casa." "Mulder? Temos que achar Annie antes." "Daqui a pouco ela chega em casa, você não percebeu isso ainda? Sua filha é muito mais esperta do que você imagina, ela só precisa de um tempo pra organizar os pensamentos." Scully ergueu as sobrancelhas, daquele modo que Mulder adorava. "Você sabe de alguma coisa que eu não sei? O que você não me contou?" "Esta pergunta eu que deveria fazer, não é Scully? Mas não, eu sei que Annie está procurando suas próprias conclusões." "Mas..." Ele foi até a porta e abriu, esperando Scully ir até lá. Byers, Frohike e Langly olhavam os dois curiosos. Ninguém sabia ainda que eles haviam se separado, por isso estranhavam a atitude dele. Scully acompanhou Mulder e entrou no carro, seguida por Mulder. Ele ligou o carro e dirigiu em silêncio até certo ponto do caminho, quando Scully falou. "Você sabe onde Annie está, não sabe?" "Não, mas não parece óbvio pra você?" "O que?" "Ela vai tentar achar o irmão. E você sabe que não vai conseguir impedir." "Como?" "Qual o lugar onde bebês são rejeitados pelas mães antes mesmo de nascer?" "Uma clínica de aborto." Mulder balançou a cabeça, concordando. "E é num lugar desses onde eles poderiam fazer as experiências sem chamar atenções." Scully suspirou. "Ela te falou que faria isso?" "Não. Scully, eu tenho a impressão que você não conhece a filha que tem." "Ela vai fazer como o pai. Ir investigar por conta própria, sem me dar nenhuma pista" "Pelo menos você sabe que ela não vai te enganar." "Já chega disso. Eu estou cansada dessas alfinetadas que você me dá, Mulder, chega disso." "Não vamos discutir isso agora." "Vamos sim. Se tiver alguma coisa incomodando você, me avisa logo. Pára de jogar indiretas." "Você sabe muito bem o que está me incomodando." "Mulder, o que eu posso fazer? Eu estou arrependida, se isso adianta alguma coisa. Mas se eu não tivesse feito aquilo eu não teria paz." "E você tem paz agora? Você já perdeu uma filha antes e teve coragem de dar outro? Ou será que você já se esqueceu da Emily?" Scully desviou o olhar. Mulder estava sendo cruel. Ele sabia o quanto esse assunto ainda era dolorido, mas insistia em lembrá-la da criança que ela mal conhecera. "Ela teria dezessete anos se estivesse viva..." Mulder desviou o olhar da estrada e olhou para Scully. Ela não precisava ouvir essas coisas, ser agredida por ele desse jeito. Ele estava magoado com ela, mas era uma coisa que o tempo iria curar. Mulder não queira dizer coisas que depois se arrependeria. Ele diminuiu a velocidade e estendeu sua mão até que tocasse o rosto dela. "Desculpe, Scully. Eu não devia ser tão agressivo com você. Vamos consertar a burrada que você fez." Ela olhou para ele. "Como?" "Vamos descobrir onde é a Sede do Sindicato e buscar nosso filho. E eu aposto que Annie já faz uma idéia de onde seja." "Como você tem tanta certeza, Mulder?" "Scully, o que aconteceu com você? Sempre conseguimos descobrir tudo, ou quase, porque não iríamos descobrir onde está nosso filho? Vamos pegá-lo de volta." Ela abaixa o rosto, desviando o olhar. Mulder sentia que havia alguma coisa por trás desta atitude suspeita de Scully, mas que ela não falaria tão facilmente. "O que foi? Scully, o que você está me escondendo?" "Não estou escondendo nada, Mulder. Só estou cansada, eu trabalhei o dia inteiro e agora não consigo encontrar minha filha. Que maravilha de mãe eu sou." Mulder ficou calado. Havia dezenas de coisas que ele gostaria de conversar com ela, mas não agora. Mulder ainda estava muito irritado com Scully. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX CASA DE MULDER E SCULLY 02:10 A.M. Ele estacionou o carro em frente a casa e viu uma luz acesa, na cozinha. "Scully." disse, chamando a atenção dela, que saiu rapidamente do carro, correndo para a porta. Ela entrou apressada, correndo até a cozinha e viu Annie, adormecida sobre a mesa, com uma fisionomia serena e roupas sujas. Scully abaixou-se ao lado da filha e acariciou seus cabelos. "Annie? Annie, você está bem, querida?" Ela abriu os olhos e viu o sorriso preocupado de Scully. Olhou para a porta e viu Mulder, em pé. "Onde você estava?" "Oi, mamãe. Eu precisava ficar sozinha um pouco." Disse, olhando Mulder. Ele abriu um sorriso ao ver o olhar de Annie na sua direção. "Você quase nos matou de susto, porque sumiu assim?" Scully se inclinou para abraça-la e Annie deixou-se envolver pelos braços dela. "Esquece, mamãe não me faz muitas perguntas." Ela levantou-se e arrumou os cabelos "Eu quero ir dormir na cama, só estava esperando você chegar." E saiu. "Annie!" Scully chamou. "O que foi?" Perguntou, voltando-se para ela. "Nada. Boa noite, filha." XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX SÁBADO, 24 DE ABRIL 01:35 PM Annie desceu as escadas correndo e deu de cara com Scully, de braços cruzados, perto da porta da cozinha, em pé. Ela parou em frente a Scully e olhou para ela. "Acho que precisamos conversar." Disse Scully, séria "Tem que ser agora, mãe? Eu combinei de sair com o pessoal pra..." "Agora." E foi até a sala, seguida por Annie, com cara de poucos amigos. Scully sentou-se e esperou Annie sentar-se também, em frente a ela. Ela nunca vira sua mãe tão irritada antes e estava com um pouco de medo de sua reação. Scully sempre era calma, até quando Annie aprontava alguma arte na escola e levava suspensão ou quando ela quebrava alguma coisa cara. Ela sempre castigava, ao invés de bater. Mas para Annie o maior castigo que recebia era o silêncio dela, o modo como ela evitava falar com a filha quando estava aborrecida. Não que ela ignorasse a presença de Annie, ela apenas não falava sobre o que a incomodava, mesmo quando Annie sabia que o que ela mais queria era gritar e quebrar tudo. "Eu não vou perguntar onde você esteve, porque se você saiu sem me avisar é porque não quer que eu saiba e não vai me dizer a verdade." Scully começou "Eu só espero que você não tenha feito nenhuma bobagem com você mesmo e nem com ninguém. Agora, Annie, nunca mais eu quero que você saia desse jeito, entendeu? Você tem idéia do que fez a sua avó passar? Do seu pai, de mim? Até Langly, Byers e Frohike, que não tem nada a ver com a nossa vida, viraram a madrugada atrás de você. O que eu quero é que você tenha um pouco mais de juízo que seu pai e pense duas vezes antes de sumir por aí sem me avisar onde vai." Annie abaixou o olhar. "Você entendeu o que eu disse? E agora você está de castigo, vai passar o fim de semana em casa, nada de jogo de boliche." "Mas mamãe..." "Nada de 'mas'... você merece passar dois dias trancada no seu quarto pensando no que fez. Eu estava muito preocupada com você, pensando que pudesse ter sido seqüestrada, morta, sei lá o que. Você sabe muito bem, Annie, que é isso que me preocupa. Eu sei que você não vai sair por aí pichando muros ou usando drogas, mas o que mais me assusta é pensar que você pode estar nas mãos 'deles'." Scully respirou fundo, tentando se recompor. Annie olhava assustada pra ela. "Você tem alguma coisa a dizer?" Annie ergueu o rosto, também séria. "Você não se arrepende, mãe? Era seu filho também." Scully sentiu um arrepio subindo pelas suas costas. Não esperava que ela fosse dizer isso. Desviou o olhar e se levantou, voltando para a cozinha. Annie ficou ali por mais alguns instantes antes de subir de volta as escadas para seu quarto. Scully ouviu o barulho dos passos da filha e a porta se fechando num estrondo. Ela sentou-se numa cadeira e apoiou o rosto nas mãos, fechando os olhos para evitar as lágrimas de descerem. 'Não é justo, não é justo' ela repetia internamente como um mantra. Talvez um dia Annie entendesse porque ela agia desse jeito, talvez um dia Mulder a perdoasse e talvez um dia ela superasse tudo isso. Mas ela sabia que não, as lembranças de Emily ainda a machucavam, mesmo depois de tantos anos. Scully sentia-se sozinha, perdida e sem direção. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX ALGUMA RUA DESERTA DE WASHINGTON TERÇA-FEIRA, 27 DE ABRIL DURANTE A MADRUGADA Mulder caminhava calmamente pela rua, com as mãos nos bolsos, e um walkman no ouvido. Mas não era exatamente música que ele ouvia. "Próxima rua, Mulder. E cuidado com os traficantes." Disse Langly através do fone no seu ouvido. Mulder fez o que ele dizia e seguiu por uma rua escura, onde havia apenas dois postes de luz iluminando o lugar. No fim da rua havia um grupo de pessoas fumando maconha, que olharam para Mulder. Ele virou a primeira esquina e continuou andando. "E agora?" Mulder sussurrou. "Em frente, cara. Você chega lá." "Onde é essa merda dessa clínica, Langly?" "Daqui a pouco você vai ver um prédio azul claro, com uma porta de madeira." Mulder deu mais alguns passos e viu o prédio ao seu lado, num azul bem discreto e sutil. O prédio realmente não chamava a atenção e devia ser pouco conhecido na área. "Achei." E olhou a fachada do prédio "Um lugar perfeito pra se fazer conspirações." "Espere alguns minutos que o Frohike está chegando. Ele está com o cartão que abre este negócio aí." "Mas e se eu arrombar esta porta?" "E disparar o alarme? Vai em frente, daqui a dez minutos você vai estar preso por invadir propriedade alheia." Mulder encostou-se à parede e esperou Frohike. Ele e Mulder haviam passado dois dias procurando clínicas de aborto e pesquisando as referências e antecedentes. Nenhuma parecia suspeita de esconder as experiências genéticas do Sindicato, além desta. Eles já haviam invadido umas sete, sem sucesso. Frohike chegou a passos rápidos, respirando ofegante. "Até que enfim, pensei que fosse me dar o bolo." Disse, irônico. "Um drogado me parou, dizendo que ia me mostrar o caminho da felicidade." "Cadê o cartão?" "Aqui. Preparado pra diversão?" "Claro, parceiro. Vamos lá." Os dois entraram no prédio e acenderam as lanternas. Estava escuro lá dentro e eles foram até um corredor, com uma sala de espera e um balcão no final. Havia alguns móveis de hospital em uma outra sala, armários com remédios e tudo mais que costuma existir em clínicas. Mulder olhou para Frohike, que deu de ombros. "Não há nada aqui. Mas um tiro errado." "Vamos logo cair fora daqui, Mulder. Esse lugar me dá arrepios." "Espera... deixa-me ver o que tem naquela outra sala" Mulder foi até uma pequena sala onde havia um pequeno laboratório. Nada suspeito, ele pensou. Nada de fetos, nada de experiências genéticas. Ele revirou algumas gavetas e armários, sem sucesso. Saiu da sala e procurou por Frohike, que estava próximo à porta. "Frohike!" ele sussurrou. "Vamos embora." Na rua Mulder ouviu a voz de Langly através do fone no seu ouvido. "E aí, conseguiram?" "Nada, ainda. Amanhã a gente vê a próxima" XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX APARTAMENTO DE MULDER, ARLINGTON 07: 42 PM Mulder e Annie comiam pizza e assistam TV no antigo apartamento dele. O lugar estava completamente bagunçado, haviam revistas espalhadas pelos cantos e jornais velhos. Mas Annie parecia nem se importar. "Olha... agora ele vai atirar nos bandidos com sua 38 e vai matar uns quatro... e nenhuma bala vai acertá-lo, mesmo os bandidos estando em maior numero e usando metralhadoras." Annie ficou olhando a tela e aconteceu exatamente o que ele falou. Ela riu. "Que filme ridículo! Porque você alugou este? Eu queria ver o filme novo do Jackie Chan." "Não, você tem que assistir todos os filmes do James Bond, se quiser aprender como sobreviver a atentados terroristas." Mulder ironizou. "Não precisa, eu já sei. Afinal, sou filha de Fox Mulder." Os dois riram. Mulder ficou sério de repente. "Como está sua mãe, Faith?" "Daquele jeito, você sabe. Ela não fala muito comigo. Porque você não pergunta pra ela?" Ele balançou a cabeça discordando. "Não. É melhor não." Annie ajeitou-se no sofá e virou-se para Mulder. "Você ainda está investigando as clínicas? Descobriu alguma coisa?" "Amanhã eu vou a outra, quem sabe eu tenho sorte?" "Posso ir junto?" "Não. Vou ficar preocupado com você o tempo todo e não vou poder fazer o que eu tenho que fazer." "Pai, eu quero fazer alguma coisa! Estou ficando angustiada!" "Cuide da sua mãe. Scully não diz, mas ela precisa de você." "Precisa nada! Ela sai e nem me diz onde vai!" Mulder ficou em silêncio, pensativo. "E eu acho que ela está com alguma coisa que não me conta, sei lá. Ela está meio abatida, parece doente." "Doente? Como assim?" "Não sei. Ela ontem foi dormir cedo dizendo que estava se sentindo mal, depois de passar um tempão trancada no banheiro." Annie suspirou. "Estava pensando se não era aquele câncer de novo." "Não fale isso nem brincando, Faith." Annie ficou em silêncio por uns instantes. "Eu não gosto mais dela." "Faith..." "Não. Não começa com essa história de que ela é minha mãe e me ama, porque eu já sei muito bem o que você vai falar." Mulder ficou em silêncio. . as palavras de Faith, no fundo, o magoavam mais do que magoariam Scully. Ele sabia o quanto ela desejou e sofreu por ela e esperava que essa instabilidade entre as duas passasse logo, que fosse coisa de adolescente. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX PROXIMIDADES DE WASHINGTON 01:56 PM Mulder caminhava pela rua concentrado, sem prestar atenção nas pessoas que passavam ao seu lado. Era um dia nublado e frio, as pessoas tinham pressa de chegar em suas casa para evitar a chuva que ameaçava cair. Mas não Mulder. Ele não tinha pressa alguma em voltar para o seu frio apartamento em Arlington, onde apenas seus peixes o esperavam no aquário. Na verdade Mulder queria voltar para a casa que costumava dividir com Scully e Annie, sentia saudades da convivência diária com as duas mulheres de sua vida. Pensava em Scully e sentia saudades da esposa e da amiga. "Você devia tomar mais cuidado, Mulder." Ele parou e viu o Canceroso a sua frente, tragando um cigarro. Mulder se assustou com a figura do homem que não via há algum tempo. "Mas você não morre nunca?" O homem riu. Mulder olhou impaciente para a figura de seu pai, que ele não conseguia sequer gostar. "O que você quer agora? Não está satisfeito com o estrago que causou? Quer mais algum de meus filhos? Ou veio me propor alguma coisa absurda?" "Acalme-se, Fox, não precisa ser tão agressivo comigo. Lembre-se de respeitar seu pai." Mulder ameaçou continuar a andar e deu dois passos à frente. "Seu filho está bem, a propósito." Ele voltou-se para o Canceroso e se aproximou dele. "Por que você faz isso? Por que acha que é deus?" "Tudo na vida tem um motivo. E não culpe Scully pelas atitudes que ela toma. A vida é um jogo e temos que jogar com as cartas que temos. Eu preciso do seu filho com ela, e ela precisa do chip para mantê-la viva." "Chip? Do que está falando? Ela nunca tirou aquele chip, como pode..." "Nós desenvolvemos um novo tipo de chip, Fox. Este é especial. Fique feliz com isso, além de mantê-la viva, com este chip ela poderá ter quantos filhos quiser." "O que?" "É isso. Você não acha um preço justo a se pagar?" Mulder ficou em silêncio. Então seu câncer havia voltado e ela não disse nada. Sentiu vontade de ir até Scully e brigar, por ter mentido outra vez, mas ao mesmo tempo queria abraça-la e dizer uma porção de coisas que sentia, de ficar com ela pra sempre. Ele estava confuso. "Por que você faz essas coisas?" "Como eu disse, a vida é um jogo. E você tem que jogar com as cartas que tem, Fox. Eu faço o que posso pra facilitar as coisas pra você e Scully, mas você sempre torna tudo mais difícil com essa sua busca pela verdade. Pare de se meter onde não deve e viva sua vida com ela. Pense nas coisas que você perdeu durante sua vida por causa dessa sua busca e pense nas coisas que você tem agora. Vale a pena correr o risco outra vez? A escolha é sua." Canceroso se afastou dele e caminhou até um carro preto estacionado a alguns metros dali. Olhou Mulder mais uma vez e sorriu, acenando pra ele. Mulder ficou parado olhando o carro se afastar até que ele sumisse do seu campo de visão. Ele estava confuso, não sabia o que pensar. Agora tudo fazia um pouco mais de sentido, as atitudes de Scully e o silêncio dela. Seu câncer havia voltado e ela fora obrigada a barganhar a própria vida pela do filho. Mulder sentiu um aperto no peito no peito pelas coisas que dissera a ela e resolveu ir procura-la. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX CASA DE SCULLY 6:47 PM Mulder abriu a porta de casa e entrou pela sala, vendo Meggie Scully e Annie sentadas na sala. As duas conversavam sobre programas de TV, tranqüilas. "Pai? O que você está fazendo aqui?" "Cadê a Scully?" "Ela saiu, Fox. Aconteceu alguma coisa?" disse Meggie. "Eu... eu precisava falar com ela." "Ela foi ao supermercado, eu acho. Ligou pra casa da vovó e pediu pra ela me trazer aqui por que chegaria tarde. Também não entendi isso, mas quem entende ela?" Mulder sentou no sofá e olhou a parede a sua frente. Meggie e Annie podiam sentir a tensão dele, mas não falaram nada. Annie limitou-se a questiona-lo com o olhar intenso de Scully, quando ela queria descobrir alguma coisa que ele não queria contar. "Você não faz idéia de como é parecida com ela, Faith. Até o olhar é igual... às vezes isso até me assusta." Disse Mulder, encontrando o olhar da filha. De repente a porta se abriu e Scully entrou, carregando sacolas de mercado. Os três olharam pra ela ao mesmo tempo. "Mulder? O que você faz aqui?" ela perguntou, surpresa. "Preciso falar com você.", disse, levantando-se e indo na direção dela. Scully ergueu as sobrancelhas e olhou assustada para ele. "Aconteceu alguma coisa?" "Preciso falar com você" ele repetiu, tocando-a nas costas. "Está bem. Vamos lá pra cima." Os dois subiram as escadas. Meggie e Annie acompanharam com o olhar e Meggie falou, com um sorriso no rosto. "Será que eles vão se acertar agora?" "Acho que ainda não. Eles devem brigar mais um pouco hoje. Quando a minha mãe aprender a falar a verdade pra ele e quando ele aprender a entender as mensagens que ela quer dizer eles param de brigar." XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Mulder fez Scully entrar no quarto e fechou a porta, olhando-a com um olhar intenso. "Mulder, o que aconteceu agora?" "Por que você não me falou antes? Por que você tem essa mania terrível de achar que é forte e auto-suficiente?" Scully olhou para ele, assustada, seus olhos pareciam maiores do que eram. Ela percebeu que ele sabia e já imaginava o que ele iria dizer. "Por que você não me contou do seu câncer, Scully! Por que você me deixou dizer tudo aquilo que eu disse pra você! E por que você tinha que confiar naquele homem!" Ela baixou o olhar e Mulder se aproximou dela, segurando-a pelos ombros. "Olha pra mim: por que você não confia em mim o suficiente? O que mais eu preciso fazer pra te provar que eu te amo?" Uma lágrima escorreu pelo rosto dela, que olhou de novo para ele. "Eu sabia que você não me deixaria tentar. Mas eu precisava, Mulder, eu precisava. Eu não posso morrer, não agora. Não posso deixar Annie, eu esperei tanto por ela, não poderia... deixar você. Eu precisava tentar, eu preciso." Mulder segurou o rosto de Scully com as mãos e as deslizou pelos cabelos dela. "Eu sei." Ele sussurrou, puxando-a para si e beijando a testa dela. Os dois ficaram abraçados alguns instantes, ela sentia a respiração apressada dele, o batimento de seu coração, mas estava estranhamente calma. Não tinha medo, de repente ela percebeu que não temia mais nada. Apesar de ser ela quem estava doente era ele quem precisava de apoio e Scully precisava ser esse apoio para ele, mais uma vez. "Vai dar tudo certo, Mulder. Eu sei que vai." "Como você pode ter tanta certeza?" "Eu sei que vai." Ela repetiu. Mulder a abraçou com mais força, como se ela fosse fugir quando ele a soltasse. "Mas se alguma coisa acontecer..." "...Não fale isso" ele interrompeu "Não fale isso, Scully." Mulder a soltou e segurou o rosto dela com as mãos, fitando-a nos olhos. Ele estava realmente preocupado, não estava preparado para passar por tudo aquilo outra vez, ainda mais agora com a presença de Annie em suas vidas. Ele passou o polegar pelos lábios de Scully, soltando o rosto dela e contornando com o indicador, delicadamente, percorrendo o queixo, as bochechas, as sobrancelhas, numa adoração silenciosa. Scully ficou parada, olhando pra ele, sem entender. Mulder parecia hipnotizado, encantado pelo olhar dela. "Posso voltar pra casa?" ele perguntou Scully sorriu e balançou a cabeça concordando. "Se você me prometer que nunca mais vai me deixar." "Prometo." Mulder aproximou seu rosto do dela e a beijou. De repente pareceu que eles nunca haviam se separado e ele sentiu-se seguro outra vez, querido e bem-vindo. Fechou os olhos e deixou-se levar pelo calor daqueles lábios que se abriam delicadamente para deixar a língua invadir sua boca, sem pedir licença e com a intimidade de quem sabe o que lhe pertence. Meggie e Annie estavam em silêncio na sala, tentando ouvir o que eles diziam. As paredes da casa eram finas e até pouco tempo atrás elas conseguiam ouvir os quase gritos de Mulder e Scully. "Eles pararam de brigar..." Annie comentou, preocupada "Acho que eu vou lá." "Não, Annie, eles vão se entender. Quem sabe Dana não consegue convencer seu pai a voltar pra casa?" Annie sorriu. Ela também torcia por isso. XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX CONTINUA... Bem, a última parte vai sair bem mais rápido, prometo! Feedback em writing_machine@bol.com.br ou lucymattos@hotmail.com e eu ficarei muito feliz... Bjos, Lucy Mattos