Patricia Emy 


1)Diga-me algo sobre você.

Sou neta de japoneses [por parte de mãe], nascida e criada em Sampa e tenho 25 anos, completos no dia 6 de março. Me formei há 4 anos em Administração de Empresas e atualmente trabalho na área de Comércio Exterior, em um banco. Quem me vê indo trabalhar, nem desconfia do que se esconde por trás daquele ar de seriedade... :) Sou excer desde 1994, quando assisti ao episódio ‘Terror no Gelo’ [Ice] e desde então não parei mais.

 

2)Você sempre escreveu fanfic/outro tipo de história ou Arquivo X inspirou você a começar a escrever?

Eu nunca tinha me aventurado no território da fan fiction, embora já escrevesse outras histórias, com personagens que eu criei, em parceria com uma amiga.

 

3)Quando você não está escrevendo fanfic ou assistindo a Arquivo X, o que você gosta de fazer?

Hã... tem coisa melhor pra se fazer??? :P Vejamos.... eu costumo ficar zanzando pela rede e conversar com os amigos que curtem a série, ir ao cinema curtir um bom filme de suspense ou de ação, passear e conhecer lugares novos, de preferência nas montanhas.

 

4)Como você começou a escrever fanfic? E por quê?

Como? Ora, foi você quem ficou insistindo!!! :D Okay, falando sério, eu estava enfrentando um sério bloqueio—na época estava tentando terminar uma história que estava escrevendo em parceira com uma amiga—e vc me sugeriu que eu tentasse escrever algo ligado a Arquivo X enquanto o meu outro ‘projeto’ estava sem perspectivas de ir adiante. Como já disse antes, eu já escrevia outras histórias, mas nunca havia tentado fazer algo ligado ao Arquivo X. Mas aí veio o I Desafio Relâmpago, do qual resolvi participar depois de assistir ao episódio ‘A Sexta Extinção’, escrevendo a minha primeira fic, que foi bem curtinha.

 

5)Como você classifica o seu trabalho?

Algo com toques leves de angst e um teor ligeiramente shipper, embora eu esteja tentando me enveredar por outros caminhos no momento.

 

6)Diga-me alguma coisa a respeito da primeira fanfic de AX que você escreveu?

‘Mais Que Palavras’ ficou pronta em 30 minutos, em uma noite de insônia, com o episódio ‘A Sexta Extinção’ ainda fresco na memória. Escrevi em primeira pessoa, como exigia o tema, mas sempre me identifiquei com este estilo, o que facilitou bastante.

 

7)Qual foi a primeira fanfic que você leu?

Faz tempo... Acho que foi ‘Deductive Reasoning’, de Jess Archibald, um cara de Vancouver. Na época eu nem sabia direito o que era fic... Acabei gostando e passei a vasculhar os sites em busca de novas histórias para ler.

 

8)De onde você tira suas idéias?

Leio bastante, sou viciada em cinema, curto ficção-científica e tudo ligado ao gênero policial. Mas, basicamente, é só olhar em volta, que as idéias surgem de onde você menos espera—geralmente quando você não tem nenhum pedaço de papel à mão para anotar [seria algo como a ‘Lei de Murphy’ dos escritores...]

 

9)Você começa com uma única idéia e aumenta a partir daí ou você já sabe de toda a história antes de começar?

Eu geralmente tenho uma idéia central, que vou desenvolvendo aos poucos, preenchendo as lacunas. Costumo escrever cenas soltas, depois vou ‘costurando’. Não sei porque, mas não consigo escrever seguindo uma ‘ordem cronológica’, tipo ‘início, meio e fim’. Para ilustrar melhor: sabe como se produz um filme? Filma-se um punhado de cenas fora de ordem, depois leva-se tudo para a sala de edição e só aí é que a coisa fica pronta? É assim que eu escrevo.

 

10)Você tem algum tipo de ritual para escrever as histórias?

Como eu sempre perco minhas anotações, geralmente feitas em pedaços de papel soltos, guardanapos e outros materiais de procedência duvidosa, passei a escrever direto no micro. Procuro me concentrar na idéia que quero desenvolver e, quando eu retomo de onde eu parei, leio várias vezes o que eu já escrevi, para me situar antes de começar a escrever.

 

11)Descreva fisicamente o ambiente e o que você usa para escrever.

Um lugar bem iluminado [geralmente o meu quarto], tendo como som de fundo um de meus CDs favoritos, uma cadeira confortável e um micro só pra mim. Quando isso não é possível, pego o meu notebook e vou para qualquer outro lugar mais sossegado, me acomodo e começo a escrever [adoro escrever no notebook, me sinto a própria Scully, redigindo o relatório de campo... :P]

 

12)Como você age quando dá aquela travada na hora de escrever?

Depois de um breve acesso de fúria [em que a idéia de jogar o computador pela janela cruza a minha mente], costumo sair e dar uma volta, brincar com o Fox [meu gato], ou assistir a algum dos episódios gravados da minha ‘videoteca’. Geralmente funciona.

 

13)Quão importante é o feedback pra você?

Feedback é tudo para quem escreve. A maioria das pessoas acha que feedback só serve para falar bem e, às vezes, elas ficam com receio de escrever, mas eu prefiro quando me mandam críticas e comentários. Os elogios são bem-vindos, é claro, mas todo e qualquer feedback é válido, se isso nos ajuda a melhorar a cada vez que escrevemos algo novo.

 

14)Diga-me seus escritores favoritos de fanfic e também algumas histórias que goste.

A maioria das fics que eu tinha lido até pouco tempo eram em inglês. ‘Blinded By The White Light’, da Dasha K. é um dos meus ‘clássicos’. ‘ELS’, de Dawson E. Rambo, é uma boa pedida para quem curte um bom policial, recheado de romance, intrigas e um pano de fundo bem elaborado. São tantos autores que agora não consigo me lembrar de mais nenhum. Até pouco tempo, não sabia que tinha gente escrevendo fan fiction em português. Foi uma agradável surpresa e, desde então, procuro ler tudo que aparece de novo, na medida do possível. Acredito que faria uma injustiça se citasse nomes, pois poderia me esquecer de alguns, mas vou citar algumas fics que li e das quais gostei muito: ‘Palácios do Eter’, da Ale Morgilli [que escreve ‘sazonalmente’, mas, nos últimos tempos, tem estado bem ativa com a sua parceria com a Claudia Modell, na fic eterna, outra história imperdível para quem curte Arquivo X com toques de humor ‘escatológico’]; Pas Seulement, da anfitriã do site, por me fazer chorar [coisa rara, podem acreditar...]; as fics da Claudia Modell também são uma sugestão sob medida para quem gosta de uma boa fic dramática. Gosto das histórias da Sky, da Mônica Almeida e, no rol das escritoras revelação, Sílvia Penhalbel, com o seu ‘A Batalha dos Deuses’ e ‘Ecce Verus’, esta última escrita em parceria com o também ótimo Lucas Zago; e ‘Memórias’, de Cris Mulder, que mostrou que tem futuro.

 

15)Dentre seu trabalho, qual sua história preferida?

‘Mais Que Palavras’. Talvez por ser a primeira. Também gosto de ‘Reflexões’, escrita após ‘SUZ/Closure’.

 

16)Qual é o maior problema que você encontra para escrever?

Falta de tempo. Às vezes a inspiração vem, mas não dá para sentar e escrever. Isso me deixa péssima.

 

17)O que você mais ganhou nesses anos (ou meses) de convivência com outros eXcers e escritores de fanfic?

Conheci pessoas tão loucas quanto eu... :) E, melhor ainda, arranjei um monte de gente que se dispõe a conversar sobre Arquivo X e rir das piadas que só quem é eXcer entende... coisa que não podia fazer antes, pelo fato de não ter amigos que agüentassem ouvir mais um papo sobre Mulder, Scully e a mitologia [se nós não entendemos, que dirá dos pobres mortais?]

 

18)Sua família sabe das suas fanfics? O que ela pensa a respeito?

A minha mãe sabe e dá o maior apoio, apesar de não entender muita coisa quando lê... :) Já o meu irmão, NoRomo convicto e fã de carteirinha do Canceroso, critica o teor levemente shipper das minhas histórias...

 

19)Você tem algum conselho em especial para novos escritores de fanfic?

Se pintar uma idéia, desenvolva. Não tenha medo de colocar tudo no papel. E faça o que quiser e como quiser—é esse o barato das fics: criar um mundo próprio e brincar com os personagens, ainda que eles não sejam seus.

 

20)Há alguma frase ou momento especial em alguma fic que você deseja compartilhar conosco?

Nossa, são tantas... Aí vão alguns trechos:

"A névoa tornava difícil destinguir as imagens reais das desenhadas pelo medo, dentre todas as sombras que repentinamente projetavam-se nas paredes sujas do casario em ruínas do cenário. Tudo era torpe e distorcido...Nada fazia sentido. Enquanto ouvia o som de seus próprios passos ecoando noite adentro, já não enxergava mais o caminho a seguir, os olhos obstruídos por lágrimas de pesar e dor...a mente girando num turbilhão de pensamentos desconexos, doentes...sentiu que, de fato, enlouquecia. Andava ainda, mas não sabia porque. Respirava e sentia seu coração pulsar, o sangue fluir pelas veias e artérias de seu corpo, mas não sabia porque. O peso da culpa e da dúvida dominava seus pensamentos como uma multidão de insetos inquietos, destruidores, que consumiam sua mente com apetite feroz. Num instante de lucidez incompreensível, estacou. Olhou ao redor e, sentindo-se como o afogado que volta a tona pela última vez, em busca do ar que já não pode mais achar, suspirou... Buscou então a arma presa ao coldre, posicionou o cano de encontro a têmpora direita.... lembrou-se de um nome, sempre repetido mas nunca antes com tanto desespero.... - Mulder!- disse para o vazio, num último esforço para libertar-se daquele pesadelo... Um disparo único. O alívio imediatamente tomou seu corpo, que tornou-se leve, como se a matéria fosse transformada em sonho, os pensamentos diminuindo em número ao ponto de tornarem-se novamente quase compreensíveis...apenas no último segundo de vida que lhe restara... Ali, naquele lugar sujo e desolado, jazia imóvel o corpo de Dana Scully, enfim em paz..."

[Palácios do Éter, de Alexandra P. Morgilli] -- Um dos teasers mais apavorantes que já li. Só ele já nos dá uma idéia do que nos aguarda nas páginas seguintes. Um alento para os fãs de ‘O Silêncio dos Inocentes’, que se desapontaram com a fraca continuação, ‘Hannibal’.

 

"Um leve estalar de madeira ecoou na sala escura. Um calafrio intenso tomou conta de seu corpo.Não havia mais nada que ele pudesse fazer. A sombra se aproximava cada vez mais e ele não conseguia se mover. Nem mesmo dizer a si mesmo que era um sonho estava ajudando. Apesar de não ser real, o terror era bastante real. Mulder sentia-se cercado. Olhou em direção à sombra, que agora estava perto o suficiente para tocá-lo. Levantou os braços, tentando se proteger de um possível ataque. Disse mais uma vez a si mesmo que era um sonho, mas no momento em que sentiu duas mãos fortes agarrando-o pelos ombros e puxando-o com força, Mulder já não tinha tanta certeza sobre o que era realidade e o que era imaginação. Já sem forças para lutar contra sua alucinação, se deixou levar pela sombra. Mas a trégua durou pouco. Milhões de agulhas perfuravam seu corpo, congelando seus ossos. O frio intenso retirou-lhe o ar dos pulmões. Mulder queria abrir os olhos, a boca, mas não conseguia. Tentou se afastar das agulhas que torturavam seu corpo, mas seus braços e pernas pareciam não mais lhe pertencer. Ele tentou gritar, mas sua voz desaparecia em meio ao intenso barulho que feria seus ouvidos. Eram pedras em um telhado que retumbavam, sem ritmo, palpitando dentro de seus ouvidos. A sombra o mantinha preso com força, enquanto gritava algo. Mulder tentou entender o que dizia, mas seus próprios gritos, unidos às pedras no telhado, produziam uma cacofonia insuportável. Quando achou que enlouqueceria, as agulhas desapareceram. Quando achou que ficaria surdo, as pedras cessaram de cair. O único som que ouvia, agora, era o de seus próprios gritos."

[Demônio Interior, de Claudia Modell] -- esta cena causou calafrios nesta aspirante a escritora... :) Pude ver a ação se desenrolando em minha cabeça... Perturbador, assim como o tema abordado nesta fic. Recomendado apenas para quem gosta de emoções fortes.

 

"Scully fechou os olhos aflita. O hálito morno do homem às suas costas a deixava perturbada. A voz baixa e acariciante em seu ouvido quase a fazia esquecer de quem eram os braços que a envolviam. Ela percebeu que ele não mais a segurava com força. Era como uma carícia e ela envergonhou-se de estar permitindo isso junto àquele homem. O homem que matara o pai de Mulder. Provavelmente o homem que matara sua irmã. Ela se sentia uma traidora apenas por estar lá, imóvel nos braços dele. Mesmo assim ela não tentou se afastar. Permitiu que a boca úmida dele explorasse sua orelha e seu pescoço provocando deliciosos arrepios pelo seu corpo. Ele a soltou e virou-a para si olhando-a nos olhos. Ela viu desejo nos olhos verdes mas não recuou. E quando ele puxou sua cabeça em direção à dele e uniu suas bocas ela se viu correspondendo com paixão ao beijo. Perderam-se por vários minutos em um beijo cheio de desejos contidos mas ambos sabiam que não era um ao outro que desejavam."

[A Batalha dos Deuses, de Sílvia Penhalbel] -- Cada palavra deste trecho transpira UST... e, cá entre nós, mulheres, quem não soltou um suspiro pelo vilão mais charmoso que se tem notícia, que atire a primeira pedra... :) A única ressalva em relação a esta cena é que a Sílvia deu uma de Chris Carter e... opa, vale soltar spoiler de fic??? Ah, quem quiser conferir, que leia e diga se estou errada.

 

21)Algum autor em especial influenciou seu modo de escrever? Ou a inspirou de alguma forma?

É difícil dizer. Eu leio muito, mas eu gosto de um estilo narrativo mais ágil, seco e acho que isso se reflete nas minhas histórias. Sei lá, tenho medo de parecer prolixa, mas, ao mesmo tempo, sinto que às vezes corro o risco de soar um pouco lacônica quando escrevo. O desafio é encontrar um certo equilíbrio e isso só vem com o tempo.

 

22)Quanto tempo, em média, você leva para escrever uma fic?

Depende. Já escrevi uma história em 15 minutos. Teve uma que eu levei quase um mês para terminar. No momento estou trabalhando em quatro, mas ando meio sem inspiração para dar continuidade a cada uma delas.

 

23)Qual é o seu personagem preferido? Por quê?

Scully. Talvez porque eu me identifique com ela, com o seu modo de agir, de pensar e de encarar as coisas. Eu também admiro o Mulder, por sua determinação e pela forma como ele se dispõe a perseguir os seus objetivos. No entanto, acho que a Scully tem mais a ver comigo.

 

24)Se você pudesse mudar alguma coisa em Arquivo X, o que seria?

Eu passaria uma borracha em tudo o que aconteceu em termos de mitologia após o filme.

 

25)Como você define o relacionamento de Mulder e Scully?

Não é um relacionamento comum, posso dizer com segurança. Existe entre eles algo mais profundo do que uma amizade. É uma ligação muito forte, que envolve confiança, admiração e respeito mútuo. Se eles se amam? Eu diria que sim, ainda que este sentimento transcenda os limites da mera atração física e da definição mais conhecida de ‘amor’. E bota complexidade nisso! :)