FAN FICTION AUTORA : Sky E-MAIL : selmasky@ig.com.br DISCLAIMER : Finalmente vou poder mudar esse texto !! Os personagens desta estória pertencem à Silvia Helena Penhalbel e à Alexandra Morgilli. Não há qualquer interesse lucrativo na estória que foi escrita como uma homenagem ao quinteto terrorista criado por essas autoras e para participar do VI Desafio do ShipperX. CLASSIFICAÇÃO : Vixe ! Agora não sei, acho que é aventura SINOPSE : Os momentos que se sucederam à descoberta da doença da terrorista russa, narrada na fic Caronte. AGRADECIMENTOS : Às estas duas maravilhosas escritoras, amigas queridas, Silvia e Alexandra, pelos momentos de prazer que me proporcionaram na leitura da saga dessas terroristas que, a cada dia, conquistam novos fãs, entre os quais eu me incluo. Meninas, espero ter conseguido colocar no papel o carinho que tenho pelas estórias de vocês. E obrigada à Alexandra que revisou o texto para mim e me orientou para que não houvesse grandes erros de continuidade. Ale, você foi muito gentil e generosa. OBSERVAÇÕES : Aguardo um feedback, por favor digam o que acharam. PAANAJARVI Voltando para casa O branco a perseguia... Estava por todos os lados, enquanto o comboio seguia pelas estepes frias e nuas. Disfarçava-se nos lençóis indiferentes que cobriam os catres improvisados, muito embora houvesse apenas vestígios da cor original. Prenunciava as manhãs sem cor e formato que engoliam vagarosamente seus sonhos. Desenhava seus medos à noite quando não era possível cerrar os olhos. Estampava-se nas faces que caminhavam curvadas e sem esperança ao seu lado. Ele estava ali, como se apagasse lentamente as impressões coloridas de sua infância Como se embotasse suas tentativas de revolta e empalidecesse seus ideais, desbotasse suas emoções e roubasse sua alma. Mas não era apenas ele... Havia também o vermelho... E essa cor era mais assustadora do que a primeira. Ela denunciava o horror e abraçava suas vítimas. Tremulava nos estandartes como um aviso de perigo. Estendia-se pelos corpos daqueles que a desafiavam. Brotava no semblante dos que ainda encontravam forças para se indignar. Estava presente nos lares e nas ruas, plantando o medo e ceifando a rebeldia. No calor obstinado dos que a defendiam com ignorância ou paixão. Nenhum outro tom parecia capaz de aprisionar as duas fúrias que com suas sombras tingiam de lágrimas o verde e o azul, a esperança e a paz. Ela, porém, dissimulava o vermelho da revolta sob o branco da impassividade. Não se entregaria... Não sofreria... Ninguém a machucaria... Suas últimas lágrimas haviam sido enterradas na expressão fanática dos que deveriam protegê-la e, no entanto, entregaram-na ao desconhecido. Dever... Sua vida fora rodeada dessa palavra. Ela a sufocava Sua fé ? Somente naquilo que pudesse abarcar com as próprias mãos, apenas o que via sob seus olhos. A pequena garota seguia além sem uma palavra. Seus trajes, apesar de espessos e felpudos, não a protegiam de todo do frio cortante que lhe feria o rosto dando-lhe um tom mais corado do que o usual. Mas não tremeria, não choraria como aquelas pobres crianças que se juntavam a ela, temerosas e indefesas. Seu pai havia lhe ensinado a se defender, porém nunca imaginou que ele mesmo a entregaria ao perigo, ele que, por tantos anos a distinguiu com seu sorriso austero e contrariara sua decisão de não envolvimento quando a batizara de sua pequena Aliocha, entregando a ela o precioso tesouro do seu afeto. _Anna Aleksándrovna Lievin _ ela ouviu chamar e seu nome soou estranho naquele momento. Aquele nome não mais existia, nem aquela garota. Seria apenas Alexandra e ela sorriu gaiata, como não fazia desde que saiu dos braços quentes de seu lar, Alexandra Romanov, em homenagem à sua morte como filha da mãe Rússia. Ale relembrava aquelas cenas como fotografias desbotadas de um álbum. Ainda mexiam com ela, embora negasse. Estar voltando pra casa parecia ter milhares de significados. Não tinha um lar, não tinha uma origem. Ninguém conhecia seu verdadeiro nome ou sua história . Alguns trechos haviam escapado entre conversas serenas com Igor ou no calor apaixonado de suas discussões com sua pequena pupila de cabelos cacheados. Pisar novamente o solo natal, porém, não era um ato isento de emoção. Sentiu ímpetos de voltar um pouco mais, ir além da Karelia e ganhar mais ainda o interior das frias terras que a viram nascer. Ela fora a única oferenda dada pelos pais por amor à Pátria e talvez ela nunca os perdoasse por isso. Não conseguia perdoar o que sequer entendia. Mas a morte a espreitava, de uma distância assustadoramente pequena e, assim como todas as criaturas que se encontram no limiar da inconsciência eterna, ela buscava fazer as pazes com o mundo, ou talvez apenas quisesse lhes perguntar o porquê... Vezes seguidas seus dedos viraram a direção do veículo para as pequenas estradas que serpenteavam os montes gelados. Mais um pouco e estaria lá, alguns quilômetros e a pergunta que lhe queimava a mente e a deixava insone por tantas vezes poderia ser respondida. Mas será que gostaria de ouvir a resposta ? Será que conseguiria compreendê-la ? Porém os fatos não permitiram que ela fizesse uma escolha. Ela não teria direito a escolher seu futuro. Ele já não existia. Estava morrendo, apenas isso. Talvez a única coisa sensata a fazer fosse abrigar-se sob o desvelo daquele que havia sido sua família. Igor porém, não estava lá, e o dia apenas começava. Mesmo assim , o latido de reconhecimento do seu cachorro, assim como, o cuidado sereno de Ivanova a fizeram mais calma. Impregnou-se com o cheiro das recordações, com o calor daquela casa e, de repente, imaginou se não seria uma boa hora para voltar definitivamente. Não se lembrava por quanto tempo se perdera em lembranças, mas já entardecia quando sentiu uma certa urgência apoderar-se dela. Abraçando um enorme casaco, calçando luvas grossas e sapatos para a neve, ela ganhou novamente o ar gelado. Czar levantou os olhos, atento a qualquer movimento da mulher que lhe afagava o pêlo lustroso e seguiu diligente ao lado dela. Ale queria pensar e não havia lugar melhor do que o lago tranqüilo aonde ia buscar energia, ainda que em pensamento, para continuar acreditando em sua causa. Ficava a alguns metros da casa que escolhera junto com Igor para começarem a vida que ela jamais se permitiu. Ladeando a pequena trilha, arbustos agora cobertos pela neve emprestavam um ar de aconchego durante a caminhada. Na primavera, minúsculas flores azuis, suas preferidas, cobriam toda a extensão. No outono, época do ano em que ela sempre arranjava um tempinho para vibrar com a intensidade de que as cores se revestiam, as folhas tornavam-se quase vermelhas, parecendo refletir o brilho rubro do sol. Amava aquelas paragens cobertas pelo azul cristalino do céu e o melancólico tapete carmim das folhas em desalinho. O belo cão misturava-se à paisagem e seu ar amigo, de quem quer se mostrar próximo sem se tornar inconveniente, contribuía para que ela se reequilibrasse. Sentou-se sob um pequeno monte de cascalho que ainda não fora engolido pela neve e convidou seu companheiro que, ligeiro, escondeu o focinho no colo quente da amiga saudosa. Aquilo parecia o bastante. Respirando fundo, ela permitiu que os ares da revolta, do medo e da desilusão fossem levados para longe. Estava em casa e haveria de aproveitar o tempo que lhe restava da melhor maneira que imaginava. Cercando-se daqueles que a faziam sentir-se apenas amada, sem cobranças, expectativas e olhares desolados. Sabia que suas companheiras sentiam sua falta. Sentia-se bem com elas em sua encantadora Roma, confiava-lhes a vida em cada missão, colocava-as na categoria de irmãs muito amadas, mas, ainda assim, elas pertenciam ao mundo da Romanov, mercenária astuta, fria e dona de um humor ferino e, por vezes, impiedoso. Elas nada compreendiam da menina que fora antes. Daquela que se levantava antes do sol para ver-lhe os contornos dourados amarelarem os campos, que era capaz de passar horas apenas observando as águas que corriam do riacho onde ela deveria encher os baldes para a utilização diária de seus afazeres domésticos. Tampouco sabiam dos sonhos estampados em sua face corada pelas brincadeiras junto aos vizinhos da aldeia, nem partilhavam seus ideais infantis quando imaginava poder salvar sua querida terra das mãos dos homens perversos, corruptos e dominadores que ameaçavam sua paz com a oferta de alguns espelhos e bugigangas em troca de lealdade e cooperação. Queria ter conseguido salvar sua Pátria, quisera ao menos ter tentado, mas seu idealismo foi seqüestrado por alguns homens que, na calada da noite, trocavam o riso alegre das crianças por promessas de pão e proteção que nunca haviam chegado. Igor se insinuara em sua vida num momento de fragilidade. Ele rompera a barreira. Conhecera um pouco da vida anterior que ela tão bem escondia. Lembrava-se ainda do momento em que o viu no campo, treinando aqueles pobres garotos amedrontados. Ele também a vira, mas parecia não lhe dispensar importância. Era apenas mais uma criança para cuidar e ele não tinha tempo para perder com as novatas. Ale tinha tanto medo e revolta que o odiara só por vê-lo à frente da missão para qual ela fora escolhida. Era apenas mais um entre tantos com quem ela trabalhara naquele período de dois anos em que entrara para o grupo comandado por Claudia e Sil no acampamento. Em dois anos ela havia passado por situações em que fora impossível não fraquejar. Como quando atirou num homem pela primeira vez sob as ordens de Sil ou a assistiu ser torturada pelo maldito Gorovich. Naquele dia, elas iriam recrutar novos colaboradores, como eles chamavam e o coração dela se confrangia só de imaginar que iria causar em alguma família o mesmo trauma pelo qual ela passara. Mas era isso ou ser morta e ela ainda queria viver, ainda acreditava que haveria mais alguma coisa além daquela horrível rotina de treinar, matar e ver seus sonhos esfacelados. Deveria haver algum lugar aonde ela pudesse sentir algo além de medo e ódio. Chegaram à vila durante a madrugada, como convém a qualquer bando de salteadores e assassinos. Desde há muito aquele recrutamento deixara de ser oficial ou necessário, mas aquela facção do governo, que talvez nem soubesse que ainda existia, continuava a agir e não havia a quem pudessem recorrer para pôr fim àquela barbárie. E ainda havia muita gente ignorante que acreditava na validade da causa de manter unida aquela nação, como se ela já não houvesse nascido fragmentada, violentando diferenças e tradições, como se não houvesse se desvirtuado completamente dos valores que abraçara. Naquela noite, ela seguiria como líder de um grupo, sob o comando de Igor e supervisão de Gorovich. Este último fazia questão de acompanhar este tipo de missão, como se o desespero das crianças alimentasse sua mente insana. Na primeira casa escolhida, bateram na porta e o homem que a atendeu abaixou os olhos quando a viu. _ Precisamos de colaboração, camarada _ ela disse tentando suster o grito de repulsa em seus próprios lábios_ Sabemos que seu filho já está pronto a servir. Os olhos do homem brilharam emotivos. Ela percebia a luta interna que ele travava e se perguntou se seu pai se sentira da mesma forma. Mas um barulho vindo de dentro da casa desviou as atenções. Uma porta era aberta e por ela passou um garoto que não deveria ter atingido ainda os doze anos. Ale afastou o homem na porta com o cano da arma com tempo bastante apenas para ver a sombra embrenhando-se no bosque poucos metros distante da casa. _ Faremos qualquer coisa _ começou a mulher que atravessou sua frente _ Ele é o nosso sustento, nossa vida e herança. Não somos obrigados a enviá-lo para longe... Por um instante o semblante da jovem se distendeu, mas bastou ouvir a voz estridente de Gorovich atrás dela, gritando impropérios e desferindo um golpe com o cabo da arma no pai da criança que fugira, para que ela recobrasse o sangue frio e afastasse a mulher sem qualquer cerimônia. _ Ele é imprescindível para manter a soberania de nossa nação _ disse sem qualquer convicção _ Deveria se envergonhar de esconder seu filho. _ Chega de bobagens _ interrompeu Gorovich, empurrando a jovem, que desviou tanto quanto pôde _ Se não levarmos aquele garoto, você ... Mas não chegou a concluir, uma voz baixa e firme o interrompeu. _ Encontraremos o garoto, camarada. Verifique se falta mais algum... A voz de comando não dava margem a controvérsias, era calma, mas havia algo em seu timbre que não admitia réplicas. _ Você _ disse voltando-se para a jovem em cujo semblante rugia o ódio _ Venha comigo ! Ale não esperou uma segunda ordem. Atravessou a porta dos fundos e correu tanto quanto podia em direção ao bosque. A frustração molhava seus olhos sem que ela se desse conta, apenas corria, como se aquilo fosse a única coisa que pudesse fazer. Perdia-se na mata quando sentiu dedos se fechando em seu ombro sem qualquer delicadeza. O susto a fez parar e virar para encontrar os olhos claros e impassíveis do homem alto e esguio a sua frente. Por um instante apenas suas respirações cortavam o ar e, então, ela se lembrou quem era ele : o encarregado da missão. _ Ele entrou no bosque_ ela começou com frieza, sustentando o olhar dele com todo o desprezo que lhe era possível demonstrar_ Se continuar me segurando, não poderemos alcançá-lo _ continuou, desviando o olhar apenas para seguir a direção dos dedos dele ainda cravados em seus ombros _ Deve conhecer esse lugar melhor do que nós _ concluiu. _ Sua inteligência só perde para a sua arrogância, menina _ ele começou com ironia _ Você sabe que o garoto não seguiu essa direção. O que pretende com isso ? Fugir ? Ela ergueu a sobrancelha e um sorriso desdenhoso formou-se em seus lábios. _ Aquele canalha quer o garoto. Posso dizer que o matei quando resistiu em seguir comigo. Ou você pode contar a ele que o deixei fugir e ele se satisfará com meu sangue. Tanto faz. Ele ficará feliz de qualquer maneira. E, naquele momento, parecia indiferente mesmo ao seu destino. Dissera a Sil que jamais se acostumaria com a morte, mas a idéia parecia bem mais atraente para ela agora do que ser obrigada a arrastar um garoto para longe de sua família e vê-lo partilhar da mesma miséria na qual ela se perdera. _ Não teme mais a morte, camarada Romanov ? _ e ele riu em seguida. Mesmo a contragosto ela foi obrigada a admitir que aquele era o sorriso mais bonito que já conhecera. Os dentes enfileiravam-se alvos e perfeitos, o maxilar se pronunciava, marcando os contornos lisos dos músculos sob a barba por fazer. Seus olhos riam com ele, sua fisionomia se suavizava e ele parecia retornar à infância. _ Aonde diabos você conseguiu esse nome, pequenina ? O semblante dela voltou a fechar-se e com um tranco conseguiu livrar-se do contato dele. _ Na mesma sepultura aonde vocês enterraram sua causa e minha pátria...apenas mudaram o nome do sistema... Os gritos do outro homem, porém, interromperam seu discurso e antes que ela esboçasse qualquer reação, viu seu interlocutor engatilhar a arma e disparar dois tiros para o nada. Em seguida, ele empurrou-a em direção à vila, respondendo ao outro que se aproximava. _ Não podemos perder tempo com os medíocres e covardes_ começou_ Deixe que os pais recolham o cadáver inútil do garoto. Temos outras coisas a fazer. A fisionomia de Gorovich se modificou, bebia avidamente as palavras do outro, e sorria histericamente, parecendo sentir um prazer mórbido em imaginar o desespero do casal que, ao ouvir a notícia, partia em direção ao corpo inerte do filho. Ale nada disse, limitou-se a segui-los com os olhos, voltando-se vagarosamente até encontrar o brilho indefinido na face do homem que a fitava com ar interrogativo. Aquela passagem não foi mais comentada entre eles, sequer voltaram a se falar. No campo todos diziam do feito de Igor. Uns o aclamavam por ter posto fim à rebeldia do garoto, outros, a maioria, o odiaram e temeram um pouco mais. Ale nada dizia, mas seu semblante de dúvida, não raras vezes, pairava sobre o homem e a chama da curiosidade e do interesse se acendeu dentro dela. Sil e Claudia mantinham a mesma atitude impassível de sempre, embora notassem que o temperamento naturalmente circunspecto e distante da russa houvesse se pronunciado. Ainda assim, odiavam o lugar e aquelas pessoas. Precisavam e planejavam tanto um meio de se afastarem dali que não tinham tempo de cuidar do ar pensativo que a outra agora adotara. Conseguir se aproximar e despertar o interesse da russa era algo raro. Ale fechara-se nos últimos anos. O peso da decepção em relação aos pais a fizera cautelosa em suas demonstrações de sentimentos, que ela escondia atrás do verniz polido da ironia e do sarcasmo. Sua fé, esperança e devoção se voltaram para o distante mundo do idealismo e ali ela conseguia construir seu espaço de justiça e paz, nem que, para isso, precisasse descartar as pessoas que claramente turvassem esse equilibro. Ela trabalharia para trazer esse mundo para junto dela. Igor não voltara a lhe dirigir a palavra. Trabalhavam e treinavam em locais separados. Ele parecia a cada dia mais implacável com seus tutelados. Exigia-lhes disciplina, correção, superação. Seu pequeno exército se fortalecia e expandia-se, o que causava os aplausos orgulhosos e fanáticos de Gorovich. Certo dia, porém, o céu amanheceu nublado, parecendo ter se rebelado, ameaçando o acampamento com ventos velozes e impiedosos que levantavam nuvens enormes de poeira e folhas. Ninguém ousava sair de sua tenda até que um grito cortou o silêncio reinante. Pequenas cabeças despontavam aqui e ali para tentar descobrir de onde viera o barulho. Claudia arriscou mais alguns passos, protegendo o rosto com as mãos. Gorovich saíra em missão, na noite anterior, juntamente com Igor e seus discípulos. O campo ficara sob a responsabilidade dos homens que rivalizavam em crueldade com seu comandante. Em pouco tempo, ainda que o clima se mostrasse ainda mais ameaçador, todos estavam reunidos na clareira entre as barracas, vendo um homem se aproximar, ensandecido, com a arma em punho e os olhos congestionados de ódio. _ Maldito ! _ ele gesticulava _ Eu o matarei ! Matarei a todos eles, porcos traidores ! Escória ! Gorovich não parecia em seu estado natural, ainda que praguejar fosse uma constante em seu modo de agir, mas a maneira como ele corria pelo acampamento, parecendo buscar alguém em algum lugar demonstrava o estado de confusão em que ele se encontrava. Um de seus homens se aproximou, tentando acalmá-lo para se inteirar dos acontecimentos e foi abatido sem piedade por uma bala certeira no peito. Os outros se afastaram e ele se aproximou de Claudia com gestos truculentos. _ Você vai encontrá-lo e trazê-lo para mim. Quero eu mesmo matá-lo lentamente A fisionomia de Claudia não se alterou. O único lampejo de emoção vinha do brilho em seus olhos ao encontrar os de Sil um pouco além. _ De quem o camarada está falando ? _ ela perguntou com firmeza. _ Igor, aquele maldito bastardo miserável. Eu o quero vivo. Traga-o para mim ! _ Ele estava com o camarada... _ Não me questione ! Ache-o ! Claudia retrocedeu um passo e não conseguiu esconder o riso irônico que se formou em seus lábios. _ Parece que teremos uma boa caçada hoje. Posso escolher minha equipe ? _ Faça isso agora mesmo. Mas se não voltar até o anoitecer, sua camarada fará parte do meu repasto, na ceia _ Gorovich cuspiu em direção à Sil que, sem demonstrar emoção, virou as costas e entrou em sua barraca. _ O que faremos ? _ foi a pergunta disparada assim que Claudia entrou atrás dela. _ Nós o mataremos... _ Ele o quer vivo..._ Sil interrompeu _ E quem disse que pretendo ir atrás de Igor? _ a outra respondeu sarcástica _ Temos que elaborar um plano. Hoje saímos daqui. _ Saímos não..._ a voz de Sil parecia muito determinada _ Hoje você sai daqui. Não volte, Claudia._ continuou tentando encher-se de uma coragem que ela estava longe de possuir naquele momento. Sabia que era necessário, mas seu coração doía, na verdade, ao imaginar que perderia a única família que acreditava possuir. Claudia a fitou com seriedade e seus olhos brilharam ainda mais, depois um pequeno sorriso aflorou em seus lábios. _ Não existe essa hipótese, baixinha. Volto e esteja preparada, você sabe que ele pode ser cruel. Agüente firme, ok? _ Eu agüentarei._ ela confirmou e esperou alguns instantes antes de continuar _ E...obrigada por não aceitar minha sugestão..._ ela riu, mais confortável, apesar da loucura que estavam prestes a fazer. O projeto assinalava a ajuda de mais duas pessoas e Claudia escolheu Ale e um garoto polonês, de olhos grandes e gestos ágeis. Saíram sob as ordens de Gorovich, levando dois de seus homens. Igor havia sabotado a missão que lhe fora designada. Segundo o comandante, ele denunciou o grupo que, ao chegar ao local, foi cercado pela polícia e tratado como um bando de criminosos qualquer. Dois garotos foram mortos, mas a maioria, sob o comando de Igor, dispersou-se pelas ruas e ganhou a liberdade, inclusive o próprio Igor. Claudia dirigiu pela estrada, parando na entrada da cidade. Abandonaram o carro e seguiram a pé até a praça principal. O início do dia movimentava já um grande número de pessoas que iam e vinham perdidas nos seus afazeres. Numa rua mais escura, com a ajuda de Ale e do outro garoto em quem resolvera confiar, ela conseguiu se livrar dos homens de Gorovich, para em seguida retornarem para o acampamento e dar seqüência ao que planejara . Anoitecia quando chegaram. Uma cena estarrecedora surgiu para elas. Sil estava amarrada numa árvore. Sua fisionomia estava abatida e um filete de sangue corria dos seus lábios. Parecia desacordada. Seus braços estavam presos junto ao peito onde se encontrava um artefato que, sem qualquer análise mais minuciosa, elas puderam perceber que era uma bomba. Restava saber onde estava o homem que, certamente, teria o controle do dispositivo. Perdidas na absorção daquela nova situação, não perceberam os passos abafados que se aproximavam delas até que a arma de Ale subiu ligeira , parando há alguns centímetros do peito de Igor. _ Arrependeu-se, camarada ? _ ela murmurou entre dentes _ Melhor assim, vai nos poupar o tempo de elaborar outro plano. _ Acha mesmo que ele libertará sua amiga, Romanov ? Hoje soube que, há dois anos, Gorovich recebeu ordens de acabar com o recrutamento e treinamento desses jovens. As mudanças já são uma realidade na Capital e nos arredores, apenas em alguns lugares como este ainda existe resistência. Vocês não percebem? Nunca houve um ideal patriota, esses homens apenas satisfaziam seus instintos de morte e comando. Você nem precisava estar aqui _ ele continuou dirigindo-se à russa que a cada palavra ouvida parecia mais surpresa._ Mas agora eles não têm mais o respaldo do governo! Nem da população e nunca tiveram o nosso, então já é hora de por fim a esta sandice. O comandante não vai deixar nenhum de nós sair com vida daqui. Se for preciso, irá matar não só sua amiga, mas todas aquelas crianças no acampamento_ ele respirou fundo _ Para ele, todos nós somos sua propriedade. _ E qual seu interesse ? O que pretende ? _ interrompeu Claudia _ Você era o orgulho do projeto, camarada, seus homens eram os mais bem treinados. Pretende montar seu próprio grupo ? _ continuou sarcástica. _ Por que acha que minha sorte é diferente da sua ? _ ele retrucou _Estou sozinho. Os garotos sob minha responsabilidade devem estar voltando aos seus lares. Eu os treinei para isso...Gorovich explorou nossa mão de obra por anos a fio...o dinheiro que arrecadamos e ganhamos nas missões que ele nos enviou está guardado...Ele não pretende sair daqui sem ele... _ Ah ! _ a russa interrompeu _ Percebo seu interesse...Quer o dinheiro para você, não é ? Sempre o maldito dinheiro... Igor a encarou por um instante e pareceu magoado com a insinuação, mas apenas retrucou impaciente : _ Vocês pretendem mesmo ficar discutindo enquanto sua amiga voa pelos ares? Elas não tinham opção além de aceitar a ajuda dele. Claudia tentaria encontrar e despistar Gorovich, Igor iria atrás do dinheiro, enquanto Dimitri, o garoto polonês, circularia o campo avisando e incitando os outros a colaborarem. Ale tentaria se aproximar de Sil e soltá-la antes que o comandante percebesse o que estava acontecendo. Escondendo-se entre as árvores, Ale chegou até onde Sil estava amarrada. Alguns homens de Gorovich foram imobilizados para que ela chegasse até lá, mas a outra permanecia inerte. _ Sil ? _ ela chamou baixinho _ Pode me escutar ? Precisamos sair daqui. Nenhuma resposta. Com delicadeza, Ale começou a soltar os laços que prendiam a mulher, mas algo soava estranho. Estranho pela facilidade com que ela havia conseguido chegar até lá. O único som a alertá-la do perigo foi o estampido da arma, mas era tarde demais para esboçar qualquer reação antes de sentir seu braço tremer ao contato da bala a dilacerar seu ombro. Tiros ecoaram de todos os lados. Sil despertou, mas não conseguia mover-se e teve que esperar, protegida pelo corpo da amiga, que seus braços e pernas fossem liberados. Mas não podia soltar a bomba, o dispositivo de acionamento da contagem estava colado ao seu peito e soltá-lo poderia significar o início dos piores minutos de sua vida quando, sabia, o artefato explodiria em seus braços. Igor juntou-se a elas e os três pararam de respirar quando viram Gorovich com o acionador na mão. Antes que pudessem reagir, Sil correu em direção a ele, tentando com que a proximidade e o medo de morrer junto o fizesse parar, mas ele estava cego. A bomba foi ativada e em um minuto nada restaria da garota americana que fugira de casa para se perder num mundo avesso ao seu. O homem ensandecido ficou mudo no instante seguinte. O tiro foi certeiro, atingiu a têmpora direita e, em breve os gemidos cessaram. Igor contemplou a cena com um brilho de emoção nos olhos que não passou despercebido para Claudia que se aproximava ainda com a arma nas mãos. Jogou-a longe, precisava das mãos livres para tentar desvencilhar a amiga do adesivo que atava o artefato ao corpo. _ Suma daqui, Cláudia ! _ Sil gritava _ Não há tempo ! Os outros se aproximaram ligeiros, mas trinta segundos parecia um tempo curto demais. Três pares de mãos trabalhavam velozes e sem piedade. Dez segundos antes de a bomba explodir, vários garotos e garotas embrenhavam-se na mata e quatro deles desapareceriam sem deixar vestígios. Protegidos por um espesso tronco de árvore , eles viram seu lar dos últimos dois anos sumir em meio às labaredas. E nada melhor do que o fogo para marcar o início de uma nova jornada. O alivio, porém, durou pouco. Em breve as atenções eram desviadas para o semblante pálido e desfigurado da russa. De seu ombro o sangue brotava generoso. Uma faixa da sua própria camisa foi o curativo improvisado, mas em pouco tempo, ele perdia-se num fluxo espesso e vermelho. Ale fazia o possível para continuar andando ao lado deles, porém sentia suas pernas perderem as forças a cada passo dado. A preocupação era visível em todas as faces, mas não podiam parar. A fumaça que subia espessa atrairia a atenção para o até então desconhecido acampamento e, em breve, o local estaria coalhado de soldados do exército russo e seria quase impossível passar despercebido. Eles não poderiam ser descobertos, não poderiam ser ligados àquele grupo ou jamais recuperariam a liberdade novamente. Poucos quilômetros à frente, Ale não conseguiu mais se mover. Seu rosto tinha uma coloração febril, seus olhos brilhavam estranhamente e a vida parecia declinar rapidamente. _ Ela não vai conseguir _ gemeu Sil, abaixando-se para amparar a cabeça da amiga em seu colo _ Está perdendo sangue demais. O clarão das chamas do acampamento ainda podia ser visto, eles não estavam longe o bastante. Precisavam continuar. _ Deixem-na comigo _ decidiu Igor _ De modo algum a deixaremos! _ cortou Sil apaixonadamente. _ Então a levarão morta! _ ele falou com voz firme _ Tenho alguém que pode nos ajudar que mora a uns cinco quilômetros daqui. Precisamos nos dispersar se quisermos tentar salvá-la. Vocês não têm opção a não ser a de confiar em mim. _ Nós não confiamos em ninguém, camarada _ Sil respondeu com ironia _ Você está do lado deles. Está aqui por causa do dinheiro.. _ Sil _ Claudia chamou-lhe a atenção _ Ele tem razão, ela não agüentara seguir conosco. _ Eu não vou abandoná-la, Claudia. Ainda mais nas mãos desse mercenário! Se não fosse por ela eu estaria em pedaços agora mesmo. Igor levantou-se e começou a caminhar indeciso, enquanto elas ficavam para trás com a amiga nos braços. Um balançar de cabeça, seguido de um longo suspiro, porém, o fizeram retroceder. _ Não podemos perder tempo discutindo _ ele falou, voltando para junto delas _ Fiquem com o maldito dinheiro e encontrem-se comigo daqui a três dias em São Petersburgo, na antiga Igreja de São Lucas, estarei lá no final da tarde. Eu as levo até sua amiga e vocês me devolvem a bolsa _ ele as fitou com seriedade _ Com o dinheiro, é claro ! _ Por que confiaria em nós ? _ Sil continuou desconfiada. _ Acredito que a czarina tenha mais valor pra vocês do que esse dinheiro e, que inferno! _ ele praguejou _ Vocês discutem demais ! Precisamos agir rápido. Se forem encontradas com ela, ferida a bala, não terão a mínima chance. _ E você, tem ? _ Sil ainda argumentou _ Eu nasci aqui, conheço cada pedaço dessa floresta. Vocês podem escolher, levam sua amiga morta com vocês ou confiam em mim para tentar devolvê-la com vida. Não era uma escolha fácil. Sil, de qualquer maneira, não acreditava que voltaria a ver a jovem russa novamente, porém, devia-lhe o benefício da dúvida. _ Só me diga por que está nos ajudando _ ela concluiu. _ Não estou ajudando vocês e sim a ela _ Igor respondeu de pronto, erguendo-a nos braços . _ E por quê? _ Claudia intercedeu. _ Meu pai a tirou de casa. Sinto-me responsável por devolvê-la. _ Seu pai ? _ a dúvida assaltou Sil. Igor sorriu com amargura, acomodando o peso da russa no peito. Um suspiro lento saiu de seus lábios. _ Já era tempo disso acabar. Agora todos nós somos livres. E vocês não me deixariam seguir sozinho com o dinheiro, não é só a mim que ele interessa. Mas Claudia não prestava atenção na última frase. As conexões foram feitas rapidamente e ela apenas conseguiu sussurrar: _ Gorovich ... Igor sentiu o frio correr por sua espinha. _ O sangue que corre nas minhas veias não o fez me ver de outra forma. Tudo o que eu quero, assim como vocês, é sair desse lugar e desse destino. Nós não escolhemos a família e o lugar em que nascemos, não é ? Mas ele me deixou essas crianças como herança e eu quero devolvê-las... Sem esperar resposta, ele seguiu com a garota nos braços, deixando para trás os olhares perplexos das duas. Várias horas de caminhada não diminuíram a determinação do homem até que avistou a fumaça lépida que subia pela chaminé de pedra. A casa não parecia muito grande, mas sem dúvida deveria ser bem melhor do que o vento gelado que soprava do lado de fora. Igor parara diversas vezes para examinar o semblante da garota em seus braços. Seus lábios estavam azulados, seu corpo tremia e ela permanecia muito quieta, raramente ele ouvia uma exclamação dolorida e era nesses momentos que ele parava para checar o estado dela. O curativo fora substituído por um grosso pedaço de lã, tirado do forro do casaco dele, apertado de uma maneira que estancava o sangue mas não permitia qualquer movimento dos membros superiores dela. Enrolada no casaco dele, Ale parecia pequena e frágil, embora sua altura desmentisse isso. O homem que a amparava, não parecia melhor do que ela. Seu rosto estava perolado pelos resquícios da névoa úmida que cobria o céu e, sem o casaco, ele era obrigado a aquecer-se com o corpo dela cada vez mais junto ao seu, mas seus braços doíam e suas pernas já não tinham a mesma firmeza e rapidez de antes. Felizmente estavam chegando e foi com inexcedível prazer que Igor suspirou ao pisar na soleira da porta. Uma mulher alta, de olhos negros, semblante austero e cabelos religiosamente presos num coque no alto da cabeça, veio atendê-lo. _ Mitcha ? _ ela exclamou surpresa _ Pelo amor de Deus, entre ! Essa era a melhor característica de sua querida Ivanova. Ela não fazia perguntas. Agia primeiro, tomava todas as providências necessárias sem questionar dos motivos ou conseqüências. Era a solicitude em pessoa e ele a amava por isso. Desde que sua mãe morrera, vinte anos atrás, era com aquela mulher, estagiando os dois primeiros anos de seu meio século, que ele se sentia em casa. Era quem lhe dava uma perspectiva de melhores anos no futuro. Ela o amparara, ensinara e amara até que seu pai viera buscá-lo, cinco anos após ficar órfão de mãe, para o enterrar naquele mundo vazio e vermelho demais. Quando soube que seu pai o levaria para junto dele, Igor, o garoto de nove anos, exultou de prazer. Imaginava um mundo como o daqueles filmes de capa e espada que vira escondido na garagem de um amigo, onde poderia salvar seu povo e conquistar a mais bela mulher. Mas não houve capa ou espada, apenas medo, rancor e decepção, sangue e pólvora a destruir os castelos que mal chegavam a ser erguidos. As mulheres que conhecera pareciam tão desencantadas quanto ele, não possuíam o brilho mágico das heroínas dos livros, nem eram tão belas, apenas gente simples lutando para sobreviver. Seu pai também não era um herói, sequer era uma pessoa decente. Quinze anos ao seu lado e ele nem mesmo o distinguira com a denominação de filho. Era apenas mais um camarada do qual ele se utilizava para exercer sua doentia sede de poder. Igor passou a adolescência tentando conquistar-lhe a confiança e o afeto, mas após dez anos de tentativas inúteis, procurou esquecer seus laços sanguíneos e trabalhar pelo ideal da nação. Mantê-la unificada parecia a melhor maneira de se manter fiel a alguma coisa, pertencente a algum lugar. No início a missão era nobre, embora a maneira como era colocada em prática parecesse injusta. Ele acreditava sinceramente que poderiam se manter longe da influência perniciosa daqueles para quem o dinheiro era a única palavra válida. Odiava os capitalistas, eles se preocupavam apenas em amealhar bens, conquistar e oprimir pela força do poder econômico, legando aos menos favorecidos um reinado de misérias e doenças. Para eles, o importante era acumular e não distribuir. Mas a idade trouxe-lhe mais decepções e ele aprendeu que o sistema de seu povo não era também o melhor. Descobriu que não era o método e sim as criaturas que arruinavam qualquer tentativa de equilíbrio no mundo. Ninguém se contenta com o suficiente, há sempre a necessidade de mais e mais para si próprio. Os últimos anos ele havia dedicado aos jovens colocados sob sua tutela. Queria ensinar-lhes a viver sozinhos, a se tornarem independentes e livres e para isso não poupou esforços. Treinamento, disciplina e rigor eram as ferramentas que ele conhecia e tinha certeza de que, quando conseguisse livrá-los da influência do acampamento, quando estivessem prontos, ele poderia dispersá-los, certo que eles poderiam seguir para algo melhor do que ele tivera. Ivanova ajudou-o a acomodar a garota junto à lareira, para que se aquecesse. Ela agora delirava de febre. _ Coloque água na banheira, Mitcha, ela precisa de calor e teremos que remover a bala de seu ombro. Ele obedeceu-a cegamente. Sua Ivanova iniciara a carreira de enfermeira graças ao programa do governo para elevar o nível educacional da população. Mesmo que as condições de vida hoje não fossem as melhores, a mulher exibia orgulhosa seu diploma, já que sua mãe vinha de uma linhagem de miseráveis que mal conseguia escrever o próprio nome. Ale estava aquecida e ressonava numa cama quente e confortável. Tirar a bala fora uma operação bastante delicada e difícil, já que ela se debatia incontrolavelmente. Foi preciso a força de Igor para imobilizá-la e permitir que fosse tratada. Nenhum órgão importante fora atingido e, exceto pela grande perda de sangue, ela parecia bem agora. Tudo o que precisava estava à sua mão : cuidado e conforto. O primeiro dia foi de descanso, ambos dormiram toda a tarde, noite e manhã do dia seguinte. Acordaram para o almoço cujo aroma invadia toda a casa, convidando ao restabelecimento. _ Achamos que não iria acordar mais _ começou a senhora com semblante tranqüilo, observando a garota que finalmente despertava. _ Onde estão minhas amigas ? _ foi a primeira pergunta da russa. _ Devem estar bem, elas sabem se virar. _ Igor respondeu de pronto, entrando no quarto. _ Devem estar ? Você deve tê-las mandado de volta _ ela resmungou _ Preciso encontrá-las _ continuou tentando se levantar, sem conseguir. _ Teremos tempo pra sua revolta, Romanov _ Igor cortou, obrigando-a a deitar-se novamente _ Por hora você não pode se movimentar demais. Ivanova olhou para Igor intrigada e sorriu . _ Você precisa comer, menina _ ela interrompeu _ Depois você faz as perguntas que quiser. Eu volto já. Igor acompanhou a senhora com o olhar e ia seguí-la quanto foi impedido pela voz da russa. _ Por que nos ajudou ? Imagina que iremos trabalhar pra você ? _ ela soou desdenhosa. _ Não acredito que você saiba fazer quaisquer das coisas de que eu possa precisar_ ele respondeu no mesmo tom _ Então não precisa temer. E eu não ajudei nenhuma de vocês, estávamos todos na mesma sepultura, não era apenas a minha causa. Ale se lembrou de que dissera isto a ele e percebeu que suas palavras haviam atingido o objetivo. Talvez por isso ele tivesse poupado o garoto na aldeia. Talvez nenhum dos que estava naquele acampamento quisesse ou houvesse pedido para estar lá. Ela comeu com gosto. Era a primeira refeição decente que fazia desde que ingressara naquele acampamento. A tarde foi tranqüila, Ale voltou a dormir e não viu mais o homem que lhe salvara a vida. Ivanova cuidou dela, trocou o curativo, levou-lhe alimento, ajudou-a no banho e a se deitar novamente. _ Igor foi embora? _ ela perguntou após vários minutos de relutância. Não queria admitir que estranhava a ausência dele na casa. _ Ele deve voltar amanhã ou depois. Pediu-me que cuidasse de você. _ Eu já estou melhor, Ivanova, acredite. Talvez já possa seguir sozinha. _ Eu sei que você está melhor, mas terá que esperar que ele volte. Não quer que ele me mate por não encontrá-la aqui, não é ? Ale sorriu. Gostava da sinceridade e cortesia daquela mulher. Não estava mais acostumada a este tipo de gentileza. Ela realmente parecia preocupada e sentir-se amparada era uma cálida sensação. _ Vocês se conhecem há muito tempo ? _ Desde que Mitcha tinha três anos. Cuidei dele após a morte de Elena, sua mãe. Até aquele bastardo vir buscá-lo_ ela continuou entre dentes. _ Que bastardo ? _ ela perguntou curiosa, imaginando que ele havia sido levado tal qual ela. _ O pai dele, Mikhail Gorovich O sangue fugiu das faces de Alexandra. _ Como ?_ ela murmurou. _ Aquela criatura o fez pensar que ele era importante. Que o queria ao seu lado, quando para ele, Igor não passava de mais um dos seus capachos...Mas deixemos isso de lado _ ela suspirou, levantando-se _ Ele está aonde merece agora _ ela voltou-se para encarar a garota _Mitcha me contou. Vocês podem recomeçar a vida. Acho que foi disso que ele foi tratar agora. Mas ele não voltou aquela noite e a russa teve dificuldades para dormir, imaginando se ele, Claudia, Sil e todos do acampamento que sobreviveram teriam sido capturados novamente. O tempo continuava frio. Sentada junto à janela, ela observava a chuva fina encharcar os caixilhos, embaçando o vidro e os seus sentimentos. Não tinha para onde ir agora. Haveria de começar do zero, mas não se sentia animada a procurar. Não voltaria para casa, sequer gostaria de permanecer naquele país. Mas não tinha nada no momento. A porta estalou com as batidas e Ivanova abraçou Igor com carinho, olhando curiosa para as duas moças que o acompanhavam. _ São amigas da Romanov _ ele explicou_ Vieram buscá- la. Ale ouviu as vozes e chegando à sala foi surpreendida pelo abraço carinhoso de Sil e o olhar atento de Claudia. Elas pareciam bem melhor. Roupas limpas e novas, cabelos cortados e uma expressão mais suave e tranqüila nos rostos. _ Você está ótima, querida ! _ Sil começou _ Não tínhamos certeza se a reencontraríamos. _ Aonde você as encontrou ? _ ela perguntou dirigindo-se ao homem. _ Numa igreja..._ Igor explicou e riu da expressão contrariada dela _ Acredite em mim. _ Foi o acordo que fizemos_ Claudia interferiu _ Nós lhe devolvemos o dinheiro e ele nos trouxe até você. Igor pareceu desconfortável com aquela observação, mas a garota tinha razão. Ele precisava do dinheiro, mas não tinha certeza do motivo que o levara a trocar a bolsa pela russa, já que poderia tranqüilamente ter seguido adiante e deixado que elas se preocupassem com seu destino. Mas havia aquelas crianças, todas arrancadas de seus lares sem qualquer piedade e ele se sentia responsável por elas, afinal, seu pai as havia trazido para aquele inferno. Ale fixou o semblante do homem e ele notou o ar magoado com que ela desviou os olhos dele para continuar se dirigindo às suas amigas. _ Vocês vieram me buscar ? E para onde iríamos? Sil olhou para Claudia em busca de socorro. Elas não tinham muita coisa. Não sabiam se poderiam confiar no filho de Gorovich e o conteúdo da bolsa certamente seria valioso para ele. Optaram por não usar o dinheiro de Gorovich afim de que ele servisse para o resgate da companheira. O que conseguiram era fruto de pequenos furtos aqui e ali até irem ao encontro de Igor. _ Vamos sair do país, Ale e gostaríamos que fosse conosco. Nada mais nos prende aqui e permanecer pode ser um risco. _ Mas nós não temos nada ! _ a moça respondeu surpresa. _ Sabemos como conseguir as coisas. Você sabe disso. Só não podemos demorar _ foi a resposta de Claudia. _ Então a mocinha terá que ir depois _ foi a vez de Ivanova interromper _ Ela não seguirá para uma aventura com o ombro desse jeito. Os olhares se alternavam da senhora para a garota e o semblante de dúvida instalou-se em todos. Ale avaliou suas alternativas que, afinal, eram praticamente nulas e respondeu, ainda que a contragosto. _ Eu não tenho para onde ir, Ivanova, juntas podemos sair daqui e procurar algo para fazer. _ Te falta alguma coisa aqui ? _ a outra perguntou magoada. Ale ficou sem jeito, não sabia o que dizer. _ Não, mas...Você só me conhece há dois dias e... _ E você está doente. Se você insistir, serei obrigada a levá-la ao hospital. _ É perigoso eu ficar aqui..._ Ale argumentou _ Viver é perigoso, filha. Sempre haverá riscos, mas viajar agora pra você seria estupidez. Vocês não têm um meio de locomoção, nem dinheiro, roupas, nada. Terão que seguir sozinhas e as chances de conseguirem chegar a algum lugar sem uma pessoa doente ao lado é muito maior. Elas te informarão quando pararem em algum lugar e então você seguirá para lá com um destino certo . Antes disso, você ficará comigo e... _ ela pareceu lembrar-se do homem encostado ao batente da porta._ Você não vai fazer nem dizer nada, Mitcha? Ele limitou-se a fitar longamente a jovem em pé a alguns passos dele, como se esperasse que ela mesma tomasse uma decisão. E era realmente impossível não se emocionar com tanto desprendimento. A russa não teve argumentos senão atravessar a sala e abraçar a senhora, murmurando um agradecimento silencioso. _ Você já resolveu tudo_ Igor quebrou o clima emotivo _Eu não teria feito melhor _ sorriu agradecido. _ Muito bem _ continuou Ivanova _ Agora vão tomar um banho e descansar enquanto arrumo algo para vocês comerem. A senhora riu e, ao final da noite, todos se reuniram em torno da mesa para um caldo quente e milhões de idéias e projetos se formando em cada mente. _ Você também vai embora ? A pergunta era feita sem demonstrar emoção, mas Ale não podia negar que estava curiosa para saber o destino que o russo daria à própria vida. Sil e Claudia já estavam dormindo, devido ao cansaço da viagem e a garota aproveitava aqueles minutos de solidão com ele para tentar descobrir o que ele pretendia. _ Provavelmente..._ ele respondeu distraído, voltando-se para fitá-la acomodada numa poltrona, coberta por uma manta e aquecendo as mãos na xícara de café. _ E para onde vai ? Igor deu alguns passos e sentou-se no sofá em frente a ela. _ Isso faz diferença para você ? Ela foi pega de surpresa. Na verdade não havia pensado nisso. Ele e as meninas eram o único vínculo que ela possuía com os dois piores anos de sua vida. Talvez fosse melhor nunca mais vê-los para realmente recomeçar sua vida, mas estava ligada a eles por uma dívida de gratidão ou talvez um laço maior do que este. _ Não _ ela respondeu rapidamente _ Só estava curiosa. Igor demorou um pouco mais analisando os traços da menina à sua frente. Ela já não era mais uma criança, como ele gostava de pensar que a via. Devia estar com pouco mais de dezesseis anos, era vários centímetros mais baixa que ele, mas alta para a média que conhecia, seu corpo era firme e flexível, sua pele era muito branca e seus olhos brilhavam de uma maneira muito intensa. Os cabelos desciam até o meio das costas e eram castanhos e lisos. Ele se perguntava por que parecia tão importante que ela dissesse que sim, que faria diferença ele ficar ou não, mas também já começava a se acostumar com o ar indiferente dela, muito embora já a tivesse surpreendido uma ou duas vezes observando-o de longe. Gostava de imaginar que era apenas a teimosia que a impedia de concordar que ele lhe despertava o interesse. _ Se não faz diferença... _ ele concluiu_ Posso partir amanhã mesmo. Ivanova dará um jeito para que você consiga trabalho e possa se manter sozinha. _ Eu não vou ficar aqui! _ ela retrucou irritada. _ É a sua terra, pensei que sonhava em livrá-la das mãos dos hereges, minha prezada czarina. _ Até quando você vai me perturbar com essa estória do meu nome ? _ Ale desafiou, mal humorada. _ Até você me dizer qual o seu verdadeiro, para que eu possa te devolver para sua família. Ela pareceu confusa e a lembrança do lar traiu sua serenidade. _ Eu não te pedi pra me devolver, da minha família cuido eu . Não preciso de nenhum deles ou de vocês. Sei me cuidar sozinha. Igor sorriu e novamente ela se encantou com seu semblante. Os cabelos e olhos claros dele pareciam ganhar vida quando emolduravam seu sorriso. Seu usual ar sonhador e quase melancólico assumia um aspecto luminoso quando ele distendia os músculos e parecia relaxar. Deveria estar por volta dos vinte e cinco anos. Seu corpo esguio escondia músculos obtidos à custa do treinamento rigoroso do acampamento, seu peito liso e largo já parecia definitivamente formado e ele só retomava o ar infantil quando seus lábios se abriam para um sorriso. _ Deixemos essa conversa de lado. Não posso sair agora da Rússia. Tenho que encontrar um novo lugar para Ivanova. Ela não pode permanecer aqui por muito tempo... _ Pensei que a casa pertencesse a ela ... _ Pertence ao meu tio, mas ele está retornando dos Urais e eu não quero que ele a encontre aqui quando chegar _ ele aproveitou a oportunidade para tentar desfazer a má impressão que a estória do dinheiro havia causado, mesmo sem questionar porque era tão importante esclarecer isso para ela _ Por isso preciso do dinheiro... Para satisfação dele, a expressão dela se suavizou com a informação, mas logo uma ruga se formou em sua testa. _ Por que não quer que seu tio a encontre ? Igor se levantou e começou a caminhar pela sala. _ Algumas características são comuns a mais de um membro da família e eu não quero arriscar a tranqüilidade dela com um outro mau caráter. _ Eu posso te ajudar _ Ale cortou entusiasmada. _ Me ajudar ? _ Sim, podemos procurar um bom lugar para ela. De quanto tempo dispomos ? Igor não conseguiu explicar, sequer buscava uma resposta, mas seu coração se aqueceu com a oferta da jovem à sua frente. Talvez fosse um bom motivo para retê-la por mais algum tempo ao seu lado e, mesmo sem pensar sobre isso, a idéia parecia cada vez mais atraente para ele, porém não queria dar o braço a torcer e apenas balançou a cabeça, negando oferecimento sem qualquer convicção. _ Pensei que odiasse a idéia de colaborar com uma causa minha..._ ele replicou, provocando-a _ E quem disse que estou preocupada com você ? _ ele respondeu desafiadora _ Ivanova foi muito gentil comigo, queria retribuir. _ Ah ! _ ele riu _ Sua alteza não deve favores... Mas não terminou a frase, a almofada acertou em cheio seu rosto e ele não teve tempo de sequer surpreender-se. E ela ainda foi presenteada com a primeira gargalhada que ouvia dele. _ Ok ! Não vamos começar uma guerra por isso, não quero ter minha cabeça cortada _ continuou com bom humor_ Amanhã sairemos para ver algo. Na manhã seguinte, Sil e Claudia seguiram com o roteiro planejado. Tentariam alcançar a fronteira com a Europa e chegar até Roma, onde pretendiam se estabelecer. Seria uma longa jornada, mas elas haviam se comprometido com a russa a informá-la quando ela poderia se juntar ao grupo. E já passara três quinzenas desde que elas haviam partido. Igor e Alexandra se concentraram na aquisição de um novo lar para Ivanova com o dinheiro escondido por Gorovich no acampamento. Sil e Claudia haviam levado apenas o bastante para comprar roupas e mantimentos e o restante teria que ser o suficiente para conseguir um lugar simples e afastado daquela aldeia. Eles procuraram nos arredores, mas nada parecia satisfazê-los e Ivanova sorria complacente com a demora deles. Às vezes brincava que eles estavam procurando um lugar para eles ou então que não estavam tão interessados na aquisição e sim na busca. Sorrisos tímidos se formavam em seus rostos e eles desconversavam, mas era notório o prazer que pareciam sentir quando estavam juntos. Baixadas as resistências, eles se mostravam tal qual eram, marcados por um passado infeliz, mas sonhadores com melhores tempos. Igor havia freqüentado a escola enquanto vivera com Ivanova, sua instrução fora conseguida nas ruas e nos livros que ela lhe presenteava. Acostumara-se a aprender sozinho e era com genuíno entusiasmo que compartilhava agora esse aprendizado com a pequena czarina, como ele gostava de chamá- la. Tardes inteiras eram consumidas em longas conversas pautadas por livros de história, geografia e literatura. Era um novo mundo se abrindo para Alexandra e ela parecia cada vez mais ávida de conhecimento. Foi então que o único parente de Ivanova, seu irmão, faleceu no inicio da primavera e ela fez questão de prestar- lhe as últimas homenagens. Seguiram os três pela estrada que levava à região da Karelia , cortada por lagos e matas. Ficava a noroeste da Rússia, perto de St. Peterburgo, na fronteira com a Finlândia e não era uma viagem fácil. Eles não possuíam muitos recursos, mas nenhum reclamara da travessia feita de trem. No final do outono, aquele lugar era um espetáculo natural a tingir tudo de tons amarelados, dourados, cobres e vermelhos de todas as nuances. http://www.onego.ru/win/pages/pan/english.htm Ao chegarem, foram surpreendidos pelo estado precário do local. A estrutura de pedras ainda era sólida, mas a casa precisava urgentemente de manutenção. Boris, irmão de Ivanova, vivia sozinho desde que a esposa morrera e o filho se engajara no exército, falecendo alguns anos depois durante a repressão a um tumulto separatista na capital do país. Há alguns anos a deterioração do sistema vinha causando descontentamento da população. Já havia grupos pedindo a divisão do país e a repressão não tardava. Apenas para aqueles que viviam além dos Montes Urais, perdidos nos campos da Sibéria, não havia a consciência clara da nova realidade. A nação estava em pleno ritmo de mudanças. Para sorte deles, porém, o estado da casa era um benefício. O governo não fizera questão de ocupá-la e Ivanova poderia ficar com ela. _ O lugar está em ruínas ! _ protestava Igor _ Não há condições de você ficar aqui. _ Meu filho, a estrutura é sólida, a casa é quente e eu não posso me dar ao luxo de ficar perambulando em busca de um palácio. Isso é para você e nossa pequena... _ Podemos usar o dinheiro de Gorovich para as reformas necessárias... _ Ale arrazoou _ E desde quando você é arquiteta ? _ ele retrucou, mau humorado. _ Desde que você ficou rabugento_ ela respondeu com bom humor _ Vamos lá...não deve ser difícil. Eu deixo você me pagar pelo meu trabalho... _ Pagar ? Não acredito que você consiga levantar uma única pedra... _ A força é para você, querido _ ela riu _ Eu só preciso de cérebro. Ele teve que rir. _ Acho que vou ter que matá-la_ ele falou dirigindo- se a Ivanova _ Age como a própria czarina ! _ Você é que está dizendo, meu caro súdito. Quanto dinheiro temos ? Dois meses de trabalho intenso foram consumidos no trato da casa. Ivanova voltou para a Sibéria no primeiro mês. Não podia deixar o trabalho no hospital e voltaria assim que conseguisse a transferência solicitada. Sozinhos na Karelia, os laços entre eles se estreitaram. Trabalharam duro para que o aspecto da casa se modificasse e o resultado parecia bastante satisfatório. Ale revelara talento para empreitada. Soluções criativas, que se aprimorariam mais tarde quando ela se juntasse às suas companheiras terroristas, colaboravam para o bom andamento da reforma. Trabalhavam como se a casa fosse abrigá-los no futuro, escolhendo detalhes de acabamento, ampliando ambientes e tornando-os mais aconchegantes e confortáveis. Quanto ao relacionamento, também se modificara durante este período. Ainda sentiam o mesmo prazer quando se sentavam a noite para ler , estudar ou ouvir música. Alguns passos foram ensaiados, mas eles invariavelmente acabavam em gargalhadas e pés feridos. _ Um dia aprenderei a dançar e te ensinarei _ prometia Igor _ Por enquanto é melhor nos contentarmos em apreciar a música. Eles pareciam felizes, embora uma certa inquietação que eles não sabiam explicar, estivesse sempre ao redor deles. Ale acreditava ser seu espírito rebelde que lhe pedia para ganhar o mundo, mas sempre que imaginava sair dali, seu coração se apertava no peito. Ivanova, porém, escreveu-lhes avisando que conseguira a transferência e que se mudaria definitivamente no inicio do verão, quando o tio de Igor voltaria para casa. Também avisava que havia uma carta de Sil, chamando a russa para juntar-se a elas. As notícias lhes deram motivos de alegria, mas, naquela noite, o sono não foi tão tranqüilo, nem o clima pareceu tão aconchegante. Com a casa terminada e a instalação de Ivanova, não havia mais razão para continuarem ali, precisariam escolher seu caminho e eles sabiam que não seria o mesmo. Ale acordou cedo na manhã seguinte e sentiu-se oprimida dentro de casa. O tempo estava claro e o sol começava a pintar o horizonte. A brisa já trazia os primeiros avisos do verão e era suave e confortadora. Ela investigou lentamente todos os detalhes da casa. Haviam feito um excelente trabalho. Em cada canto, algo denunciava o gosto dos projetistas e a garota sorriu com amargura, imaginando se não havia feito tudo aquilo para que ela mesma pudesse permanecer ali. Deixando a casa, seguiu pela trilha cercada de arbustos carregados de flores azuis, que eles mesmos haviam plantado. A margem do rio parecia convidar à meditação e ela se esqueceu do passar das horas, apenas apreciando o vento úmido que lhe batia na face. _ Um rublo pelo seu pensamento ! Ale sobressaltou-se com a voz familiar murmurada a alguns centímetros do seu ouvido. _ Me assustou ! _ ela reclamou. _ Vim arrastando tudo o que vi pela frente, mas você estava distraída demais. Posso? _ ele perguntou, fazendo um gesto para sentar-se ao lado dela. _ Pode _ ela respondeu simplesmente e voltou a concentrar-se no lago. A inquietação costumeira voltando a se instalar. Por alguns minutos permaneceram assim, sem palavras ou gestos, apenas mergulhados em seus próprios pensamentos. _ Quando você partirá ? _ ele perguntou de repente. Ale voltou-se para fitá-lo e sorriu ao ver o efeito que o sol da manhã dava ao perfil dele, envolto em emanações douradas. _ Bonito..._ ela murmurou. _ Bonito ? _ ele repetiu encarando-a. _ O efeito da luz em você... _ ela continuou distraída. Ele sorriu timidamente _ Mais ainda agora quando você sorri _ ela completou sonhadora. _ Isso é um elogio ? _ ele ironizou Ela sorriu tranqüila. Sentia-se a vontade com ele como não se lembrava antes. _ Você é meu amigo..._ ela virou-se novamente para o rio _ Ainda não sei quando vou embora...Gostaria de me despedir de Ivanova...Talvez não a veja mais _ ela suspirou _ Nem a você... Aquela constatação deixou-a com os olhos brilhantes e ela tentou disfarçar a emoção remexendo com fúria o cascalho ao seu lado. _ Fica, Romanov... _ ele murmurou, fitando o rio. Ale pareceu não ouvir, fechando os olhos ela começou a falar muito baixo. _ Anna... _ Como ? _ Anna Aleksandrovna Lievin... _ ela voltou-se para encará-lo com um sorriso sereno nos lábios que tentavam dissimular o tremor_ E você cumpriu o prometido. Me trouxe para casa... Me deu uma família...Obrigada, meu amigo. Igor aproximou-se mais, tocou os dedos no queixo dela e deixou que eles lentamente percorressem sua face, num estudo minucioso. Ela sorriu nas mãos dele, embora o brilho em seus olhos rapidamente mudasse de estado e deslizasse pelo rosto. _ Queria poder nunca mais te ver chorando... _ E quando foi que você viu ? _ ela interrompeu orgulhosa. _ Nos dois anos em que esteve no acampamento, durante todo o tempo em que te obrigaram a esconder seu riso e seus sonhos...todos nós estivemos chorando, mesmo que nosso orgulho tenha escondido as lágrimas. Todos nós fomos roubados do direito de crescer em paz... _ E fomos roubados por aqueles que deveriam nos proteger...não imaginei que eles pudessem colocar dever acima do amor. Via os adolescentes partindo, mas nunca imaginei que pudesse estar entre eles....acho que isso é o que mais dói...eles eram tudo o que eu tinha... Ele puxou-a de encontro ao peito e desceu as mãos por seus cabelos. _ Quando vi meu pai no acampamento... gritando e amaldiçoando... acho que ele nunca percebeu o que fez... seus pais também não devem ter sabido até que te viram distante... Você devia voltar pra eles... _ Aquela não é mais a minha casa. _ Temos um lar aqui _ ele continuou_ Sempre será nosso... _ É o único lugar para onde eu penso em voltar. _ Eu estarei por perto...basta que você queira... _ Eu quero agora _ ela falou rapidamente. E a resposta veio com o toque dos lábios sobre os dela. Suave e quente como havia imaginado e, subitamente, toda a inquietação deixou de existir. O barulho dos galhos estalando sob passos fez com que as recordações se desvanecessem. Voltando-se para encarar o intruso, Ale sorriu... Quinze anos haviam passado e não fosse o cabelo nas têmporas ligeiramente mais claro, ele ainda era o mesmo. A luz do sol ainda o fazia brilhar e o mesmo sorriso de olhos brilhantes ainda o faziam um menino. Igor a fitava com interesse, curiosidade e embaraço. Não sabia se aproximava-se dela como queria ou se a questionava sobre o súbito aparecimento. Czar latiu alegre ao vê-lo, aproximou-se para o costumeiro afago entre as orelhas e encarou-o com ar de dúvida, como a perguntar se ele realmente continuaria parado ali ou iria ao encontro da mulher à sua frente. _ Olá..._ ele murmurou _ É tudo o que tem pra me dizer ? _ ela zombou, levantando-se. Os braços dele a envolveram em seguida num abraço apertado. A última vez que a vira ela não parecia muito bem e a impressão ainda continuava. _ Você está bem ? _ ele continuou, segurando-lhe o queixo com as mãos em concha. _ Parece que não faço outra coisa a não ser responder esta pergunta ultimamente... _ Como está a Kes ? _ ele continuou, sem dar-lhe atenção. _ Está muito bem, alguns traumas a mais, mas continuará vivendo..._ ela respondeu com certo amargor. _ Você foi ao médico ? Na embaixada... conversando com a Sil... ela me disse que estava preocupada com você e, ali mesmo você desmaiou... Você me fez uma promessa... quando e se tudo acabasse... você foi ao médico, pequena ? Ainda que a contragosto, Ale gostava demais de saber da preocupação dele em relação a ela após tantos anos de encontros fortuitos dos quais ele raramente lhe cobrava o retorno ao lar, além de se sentir muito bem toda vez que ele a chamava de sua pequena . _ Fui ao médico, Mitcha. Estou seguindo as recomendações e tomando os remédios que ele me receitou, mas não é nada que eu não possa agüentar... _ Você já agüentou coisas demais... _ E posso agüentar muito ainda. Eu estou ficando velha, meu caro...As peças não funcionam com a mesma capacidade. Igor sorriu. Ela estava ligeiramente mais magra. Desde que eles se encontraram ali, muitas coisas haviam acontecido. Ela seguira seu caminho, seu sonho de conhecer o mundo deixando-o ainda com a cama quente de seus corpos, um dia após Ivanova retornar. Sem bilhetes...despedidas...nada. Ele sabia que isso aconteceria, mesmo assim, não pode furtar- se à mágoa. Durante aqueles quinze anos, eles haviam se encontrado pouco mais do que uma dezena de vezes, porém, a cada uma, a vontade de mantê-la por perto aumentava. Entre eles perdurava um sentimento que talvez não tivesse tido tempo bastante para amadurecer, ainda assim, as raízes aprofundavam-se cada vez mais. _ O que te traz aqui ? _ Você realmente vai me cravar assim de perguntas ? _ ela retrucou com mau humor. _ Seu gênio não se abranda com o tempo, não é mesmo, Romanov ? _ Ok, vamos pra casa e eu te deixo massagear meus pés _ ela riu, satisfeita por poder mudar de assunto_ Aonde estava ? _ Massageando uma outra amiga minha _ Igor respondeu com tranqüilidade _ E não foram só os pés _ ele garantiu com um sorriso. _ Czar ! _ Ale virou-se para o cachorro _ Morda-o já ! _ continuou com ar sério e voltando-se para ele concluiu _ Você sabe onde... O homem riu alto, envolvendo-a com os braços. _ Sinto sua falta, czarina... sinto muito mesmo. _ Talvez eu possa ficar mais desta vez ..._ ela começou _ Talvez possamos fazer algumas das coisas que havíamos planejado... _ Como restaurar a monarquia ? _ ele brincou. _ Como passar mais do que dois ou três dias juntos _ ela respondeu séria. Igor notou o brilho de emoção em seus olhos, mas não disse nada. Ela falaria quando estivesse pronta. Sempre havia sido assim. Por enquanto, bastava que estivesse ali. Ele parou a caminhada e a trouxe junto ao peito, beijando-a serenamente. _ Que seja _ murmurou. Mas Ale não ficou por muitos dias. A ligação de Sil deixara clara a situação da amiga e, novamente, foi nos braços de Igor que ela chorou seu medo, sua revolta e tristeza. E ele não permitiu que ela voltasse sozinha, que começasse o tratamento sem ter alguém para acompanhá-la já que as garotas estariam ocupadas na busca da tal possibilidade de que falara a Agente Scully. _ Ainda não acho que seja a melhor idéia trocar minha dignidade por alguns dias a mais de vida _ ela segredara para ele _ Mas talvez deva isso a elas..._ ela continuou_ a você... Mais de uma vez vocês me impediram que entrar no barco de Caronte... talvez seja a hora de pagar pela travessia. _ Deixe de lado a mitologia, Ale. Você é uma sobrevivente...como nós...não pode simplesmente se entregar. Prometa que irá tentar... Mas o tratamento era muito pior do que ela havia imaginado. Seguir o barqueiro talvez tivesse sido menos doloroso e, no final, ela mal tinha forças para falar. A presença de Igor, por vezes a acalentava e em outras a enlouquecia. Mas ela discutia e esbravejava sozinha. Ele permanecia imperturbável ao seu lado , exceto pelo abatimento que parecia contagiá-lo. Alguns males têm o poder de colocar uma família inteira doente e ele era a família que ela conhecia e sofria ao seu lado, ainda que seu semblante parecesse inalterável em meio às crises ou melhoras. O pior dia para ele, porém, levou-o novamente ao acampamento em que ambos viveram. O céu estava nublado, os ventos elevavam o pó e as folhas com violência. Naquela noite ele não dormira no hospital com ela, precisava respirar e se perdeu em meio aos turistas entusiasmados com a beleza de Roma. Seus passos tomaram rumo incerto, entre as ruínas do Fórum até que esbarraram nas colunas que sustentavam os arcos do Coliseu. Sob a luz amarelada dos refletores, o monumento assistia impassível ao desenrolar da história e de milhões de estórias particulares. Fora palco de lutas, cenário de horrores, alvo de guerras, desejo de conquistadores, sonho de amantes, presenciara vitórias e derrocadas, dera abrigo ao amor e ao ódio e, naquele momento, asilo ao coração dolorido do russo. Sua pequena czarina não sobreviveria. Nada havia sido capaz de afastar o barqueiro do inferno e ele sofria por não ter conseguido carregá-la para longe do perigo, como fizera anos atrás. Amanhecia quando ele decidiu voltar. Suas roupas negras contrastavam com o amarelado das pedras do monumento. Os primeiros raios do sol infiltravam-se pelas frestas e ele pensou que ela gostaria de poder ver aquele espetáculo, apaixonada que era pelo astro rei e suas nuances douradas. Voltaria para descrever o cenário para que ela, ao abraçar a inconsciência que a espreitava, pudesse levar consigo aquela lembrança. Entrou no quarto e tudo pareceu muito quieto. O isolamento da UTI era opressor, mas lembrava-se do comentário dela ao recobrar os sentidos após uma de suas últimas crises que a levara para aquele setor. _ Gostei daqui, Mitcha _ ela procurara sorrir _ É azul ! _ Eu mandei pintar para você _ ele brincara. _ Obrigada, nobre cavaleiro _ ela continuara, tentando ocultar as expressões de dor _ Sua alteza agradece a gentileza. A mulher ainda dormia e ele precisou debruçar-se sobre ela para ter certeza que ainda respirava. _ Você não teria coragem de abusar assim de uma pobre russa, não é ? _ Ale despertou, sorrindo para ele_ Aonde estava ? _ Andava por aí...Roma é linda a noite. _ Saiu para passear sem mim ? _ a pergunta soou com falsa mágoa _ Descreva-a para mim _ ela pediu. Igor respirou fundo algumas vezes antes de começar. _ Está frio lá fora, o vento levanta tudo e agita as árvores... _ Como na noite em que partimos do acampamento..._ ela completou. _ Sim, como naquela noite. Está amanhecendo agora e eu estava no Coliseu... _ Gosto da construção _ ela interrompeu _ Parece meu apartamento _ riu baixo _ Em ruínas... _ O sol está passando pelos vãos e tornando as cores mais fortes... _ Tenho saudade de casa _ Ale falou num murmúrio. _ Iremos para lá assim que você se recuperar _ ele completou rapidamente. _ Da casa de minha infância _ ela completou _ Não gostaria de morrer sem uma resposta... _ Você não vai morrer, pequena... _ Nós não acreditamos em vida eterna, meu caro. Lembra-se disso ? _ Você não vai morrer agora. Sabe o que eu quero dizer... _ Um dia você disse que queria me levar de volta pra eles... lembra-se ? Ele apenas afirmou com a cabeça. _ Você poderia perguntar-lhes o porquê ? Eu odeio a idéia de não entender alguma coisa... _ Faremos melhor, minha cara Anna _ ele falou, tentando se mostrar animado _ Eu a levo até lá e você mesma pergunta. _ Você sabe que eu não vou sair daqui, Igor... _ Suas amigas ainda não voltaram, elas te pediram pra esperar... _ Elas sonham com um milagre..._ ela interrompeu-se, respirando lentamente _ Eu não acredito em milagres _ continuou, voltando-se para fitá-lo e tentando sorrir _ Nem você. Os olhos dele encheram-se de lágrimas e ele não se importou de deixá-las cair. Ale passou os dedos pela face dele. _ Nós sabíamos como isso terminaria, meu amigo, eu também tenho medo, você sabe o quanto a morte me apavora... _ Anna..._ ele interrompeu, balançando a cabeça _ Você não vai morrer...não pode...tem um reino a dirigir... _ Algumas coisas estão além de nós e da nossa vontade, mas Mitcha, não sofra. Prefiro te ver sorrindo, é a imagem que quero ter comigo, por favor...ou você nunca vai atender um pedido meu ? Igor fez o possível para mudar a expressão e sorrir, mas seus olhos não podiam acompanhá-lo. _ Só você consegue me fazer rir, alteza. Mas ela não ouvia mais, a inconsciência tomou conta de seu corpo e então Igor pode chorar sem constrangimentos a sua tristeza. Não havia mais nada que pudesse fazer a não ser informar suas companheiras de que seriam apenas quatro agora. A noite chegou sem expectativas. O estado de Ale permanecia inalterado e apenas os aparelhos ligados davam conta de que ainda vivia. Igor ouviu as vozes atrás dele, mas não quis sair de onde estava. A aproximação de Sil e Claudia, porém, cobrava- lhe uma resposta e ele limitou-se a abraçá-las. Elas haviam chegado tarde demais. O brilho determinado em seus olhos, porém, não deixou margens a questionamentos e ele, sinceramente, gostaria de poder acreditar num milagre vindo exclusivamente das mãos daquele homem. Talvez ele devesse ter questionado sobre o desligamento dos aparelhos, talvez ele devesse ter colocado aquele curandeiro para fora do quarto e quebrado a obstinação daquelas garotas, mas não o fez e ele temia pensar no motivo. Talvez fosse bom que a garotinha russa finalmente encontrasse paz e pudesse calar dentro de si as dúvidas e perguntas que não poderiam mais ser respondidas. Após o ritual que ele considerara simbólico, o homem partiu deixando para trás a certeza de que Ale estava curada e que não se recordaria dos últimos dois meses de sua vida. Fácil assim, uma simples imposição de mãos e ele riria alto, não fosse uma parte dele que estivesse lentamente abandonando a vida. Cinco pares de olhos atentos vigiaram a russa naquela noite, com sussurros esperançosos quanto à cor rosada que a pele dela adquirira antes de Jeremiah partir, ou a respiração que se tranqüilizava a cada momento. Igor contentava-se apenas no esperar, na certeza de que as amarras em breve seriam soltas e o que ele conhecera daquela mulher se perderia no espaço, voltando à sua origem na terra. Passava das duas horas da madrugada quando um murmúrio foi ouvido. Remexendo-se quase imperceptivelmente na cama, a doente abriu os olhos e fitou o teto com estranheza. _ Aonde eu estou ? _ foi a pergunta sussurrada. Imediatamente sua cabeceira foi tomada de assalto e as vozes se elevaram entre surpresas e preocupadas, mas os semblantes de alivio que se debruçaram sobre ela demonstravam antes de tudo, a mais pura alegria. _ Perdi alguma coisa ? _ ela continuou. O soluço exclamado de Sil não lhe deu oportunidade de ouvir qualquer resposta. Sentiu-a apenas rodeando seu pescoço e molhando seu rosto com o sal de suas lágrimas. _ Nem acredito que te temos de volta, querida _ Sil falou emocionada. Mais abraços e risos encheram a sala e Igor se misturava genuinamente à alegria delas. Serenados os ânimos, a pergunta ainda continuava no ar. _ E então? _ Ale perguntou _ Vocês vão me contar o que aconteceu ou terei de primeiro arrancar esse ar de assombro dos rostos de vocês ? Pelo jeito estive prestes a entrar no barco de Caronte. O que foi , faltaram moedas ? _ ela sorriu _ Como é que eu vim parar aqui ? Eles entreolharam-se, mas permaneceram em silêncio por um instante. _ Como é, gente ? Vou ter que chamar o médico pra me contar ? _ Você foi ferida em missão, Ale... _ Kes começou. _ Em missão ? Não me lembro de nenhuma missão além da de te resgatar, Kes. Quando foi isso ? O silêncio já se tornava constrangedor entre eles. Igor mantinha-se afastado, fugindo ao confronto porque, acreditando ou não no que acontecera, Ale estava viva e contar-lhe sobre os métodos que suas amigas haviam intentado para socorrê-la não parecia a missão mais agradável no momento. Ela não se lembrava e talvez fosse melhor que assim permanecesse. _ Era algo simples, Ale _ Sil adiantou-se e sentou-se aos pés da cama _ Tínhamos que recuperar alguns documentos na casa de um informante e limpar tudo, sem deixar vestígios... _ E..._ Ale incentivou. Sil buscou apoio nas companheiras antes de continuar . Não seria fácil ludibriar aquela mulher, ela exigiria provas, detalhes, minúcias, a mínima informação. Sabia que a única maneira de calar a curiosidade russa seria mexendo com o ego e o orgulho da comparsa, além do sentimento de proteção que ela estabelecera para com a caçula do grupo. _ A Kes teve problemas com o dispositivo da bomba e..._ ela viu o desconforto instalar-se imediatamente no semblante da outra _ Quer dizer...vocês ficaram para trás e quando a bomba foi detonada você perdeu o controle do carro...o lugar veio abaixo e..._ ela suspirou_ Não tínhamos esperanças de voltar a vê-la com vida... Sil acertou em cheio. Sabia o quanto era doloroso para a parceira ouvir que uma ação mal planejada pudera resultar na morte de sua pupila, mas essa era uma situação pela qual todas elas já haviam passado, porém, violentar suas crenças provocaria um estrago muito maior, sabia que Ale não conseguiria conviver com a idéia de ver suas certezas abaladas. O semblante da russa modificou-se, havia dúvida e constrangimento em seu olhar. Ela havia colocado em risco a vida de Kes, odiava a idéia de ter falhado, principalmente em algo que nem sequer se lembrava. _ Há algo estranho nisso, Sil. Não me lembro de absolutamente nada. _ ela respondeu contrariada. _ Nada disso tem importância agora, querida. Basta que você tenha voltado pra nós. A outra balançou a cabeça exasperada. _ Como não tem importância ? Eu quero todos os detalhes...Quando foi isso ? Sil buscou o apoio das companheiras. Não haviam tido tempo para elaborar nada e ela sabia que Ale cobraria cada ponto. Era preciso ganhar tempo. Claudia foi a salvação do momento. Sua postura firme e voz determinada não admitiam réplicas. _ Foi há dois meses, Ale. E nós te daremos todos os detalhes assim que estiver em condições de ouví-los. Você não tem porque desconfiar da nossa palavra. Por enquanto, o melhor a fazer é recuperar sua saúde. O passado não tem importância agora, aliás, nunca teve, não há nada que possamos fazer. E, nesse caso, perder o controle do carro foi o que de melhor poderia ter acontecido. A Kes não sofreu nada. Só houve uma vítima, você mesma, então não há motivos para se ocupar disso. _ Que bom que você voltou _ Kes interrompeu, antes que Ale pudesse retrucar, querendo dar respaldo à solução dada pelas companheiras. Sabia do sentimento de proteção que a russa tinha em relação a ela _ Se não fosse por você eu estaria morta agora. O que seria uma ironia _ ela brincou _ Já que eu havia acabado de voltar. Ale respirou fundo, realmente não tinha porque duvidar do que elas diziam, sua cabeça ainda doía e ela só queria naquele momento poder dormir e esquecer que perdera dois meses de sua vida por sua própria incúria. A enfermeira entrou para os procedimentos de rotina e a oportunidade foi providencial para que todos deixassem o quarto e fossem respirar após o período de longas provações. _ Ela não vai engolir _ Clá sentenciou assim que eles se reuniram na mesa da lanchonete _ Também... que idéia dizer que ela perdeu o controle do carro...Você sabe o quanto ela é orgulhosa, Sil. Agora vai ficar se remoendo porque a Kes poderia ter morrido. _ Mas sei também o quanto ela abomina o que fizemos. Você sabe que ela iria preferir morrer do que tentar qualquer coisa para qual ela não tivesse uma explicação. Nós conversamos, insisti para todos os tipos de tratamentos alternativos que imaginei... pedi que acreditasse em alguma coisa e ela só aceitava o que a medicina oficial pudesse oferecer. Só concordou em começar o tratamento porque o Igor a convenceu _ ela voltou-se para ele _ O que eu poderia ter feito ? Igor ainda se conservava alheio aos questionamentos delas, ele mesmo tentava entender o que havia acontecido ali e nada parecia satisfatório. Seu lado racional pedia-lhe uma explicação, mas seus olhos sorriam ao pensar que teria sua czarina de volta, ainda que fosse pra continuar se arriscando em missões perigosas. _ Acho que vocês devem conseguir dados mais precisos. Sabem como a Ale confia em dados. Podemos elaborar um plano, conseguir algumas provas do acidente... _ Podíamos fazer uma montagem de jornal ! _ Kes respondeu entusiasmada. Ultimamente ela vinha passando horas em frente ao computador criando imagens novas para antigas lembranças, através de montagens de fotos. Claudia observava as reações de Igor e não parecia muito satisfeita. _ Você sabe que ela irá te pressionar, Igor ..._ começou _ Você também não aceita o que acabou de acontecer...Vai conseguir lidar com isso ? O homem manteve-se quieto. Não acreditava no poder de cura daquele homem. Buscando soluções plausíveis, pensava que talvez a recuperação dela fosse resultado do tratamento que vinha fazendo. Quantos casos haviam de pessoas que se restabeleciam após chegar ao limiar da morte e contemplar-lhe a face ? Acreditava ser mais simples e correto contar a verdade a ela e deixar que decidisse no que acreditaria, embora tivesse plena convicção de que ela concordaria com a justificativa dele. Porém, havia mais do que a recuperação insólita, que ainda precisava de uma série de exames para comprovar se realmente era efetiva, havia todos os questionamentos que ela fizera naquele período, os momentos de fragilidade e sofrimento pelos quais passara, o medo que sentira e talvez fosse melhor que ela não precisasse recordar esse período. E agora, ele ainda tinha um problema extra. Seria justo abalar a confiança da russa em suas amigas, após elas terem apostado tudo numa maneira de mantê-la junto a elas ? Será que a russa conseguiria conviver com a dúvida sobre sua recuperação ? Seria justo colocar em sua mente mais uma pergunta que não poderia ser respondida ? _ É melhor que ela não saiba, Claudia. Acredito que o restabelecimento dela tenha sido resultado do tratamento doloroso a que foi submetida. Mas não quero que ela relembre esses momentos, nem quero abalar a confiança que ela tem em vocês. _ Quem de vocês é a Kes ? Todos se viraram para a entrada da lanchonete onde a enfermeira estava e as atenções voltaram-se em seguida para a garota de cabelos cacheados. _ A paciente quer lhe falar. Pediu que fosse sozinha. A apreensão não pôde ser disfarçada. Kes levantou-se sem muita convicção. Uma coisa era confirmar as informações que as garotas haviam dado, outra bem diferente era encarar a amiga e ser obrigada a mentir, ainda que fosse para preservá- la. Desde que entrara para o grupo, ela e a russa haviam estabelecido uma relação de confiança e entendimento. Ale tomara-a como sua aprendiz, ensinara-lhe as regras do jogo e o manuseio das ferramentas para conquistar a vitória. Suas estórias eram parecidas, vinham de uma família socialmente estabelecida, sem grandes problemas financeiros, mas com um senso de dever social muito maior do que o cuidado filial. A russa fora obrigada a seguir o destino que os pais lhe haviam traçado enquanto ela fugira ao caminho que lhe haviam destinado. _ Alguma idéia ? _ ela perguntou com ironia para as companheiras _ Cara, você está ferrada _ foi a resposta animadora de Clá. _ Seja convincente _ completou Claudia. _ Realmente vocês sabem como ajudar alguém _ Kes respondeu, mal humorada. _ Lembre-se do que é mais importante pra nossa amiga do que sua vida, Kes : suas convicções. Pense que é seu trabalho preservá-las e tenho certeza de que se sairá bem. _ Obrigada, Sil. Você me meteu nessa encrenca, deixa quieto, eu me viro. O corredor do hospital parecia ter sido reduzido à distância de um passo. Mesmo que ela reduzisse à quase estagnação a velocidade de sua caminhada, a fim de elaborar uma estória ao menos coerente, em breves instantes viu-se diante da porta branca da UTI . A amiga estava muito quieta, estendida na cama com os olhos cerrados e Kes ficou feliz ao imaginar que talvez ela tivesse adormecido e o confronto ficaria para um outro momento. Voltou-se para a porta, prometendo a si mesma elaborar a melhor estória que pudesse, ilustrada com fotos e minúcias. _ Conte-me como foi ..._ a voz da russa interrompeu- lhe os passos. _ Caraca, Ale ! Você quer me matar ? Que susto ! A outra ignorou o protesto. _ Sente-se aqui e me conte_ e enfatizou _ Eu não quero ser poupada. _ Ale _ Kes argumentou _ Você acabou de sair do coma, após dois meses. Precisa se recuperar... _ Isso é o mais confuso. Para mim, parece que adormeci ontem e perdi dois meses. Eu não consigo me lembrar de nada _ ela completou desalentada. _ Você salvou minha vida e quase perdeu a sua. Foi o que aconteceu. _ Você não acha mesmo que eu vou me contentar com isso, não é ? _ Isso é o que importa... _ É mais fácil você me convencer a acreditar em milagres _ a russa retrucou _ Vamos lá, desembucha! A outra riu. Estava ali justamente para encobrir um milagre. _ Você continua a mesma teimosa... _ Kes, não enrola. _ Alguma chance de você deixar isso pra depois ? Ale apenas continuou olhando para ela. Kes respirou fundo e começou. _ Ok ! Nossa missão era recuperar alguns documentos. Nos pagaram um preço alto e era um trabalho simples, só que eles queriam que tudo fosse pelos ares , sem qualquer possibilidade de deixar vestígios. O sujeito era um informante árabe que nem estaria no local. O homem que nos contratou iria se livrar dele...Entramos na casa alguns dias antes, durante uma festa. Servimos como garçonetes e a sua habilidade com as mãos nos garantiu boas gargalhadas e alguns copos a menos para eles _ Kes precisava ganhar tempo para que seu relato não tivesse muitos furos. _ E... _ a russa interrogou sem rir. _ E, no dia combinado, entramos lá e encontramos os documentos. A Claudia, a Sil e a Clá saíram primeiro para entregar a encomenda e nós duas deveríamos explodir o lugar. Eu preparei a bomba, liguei o cronômetro, mas o alarme da casa disparou e as portas travaram. Você já estava no carro e teve que voltar pra me ajudar. Tínhamos pouco tempo. Você atirou na fechadura, mas as sirenes da polícia já podiam ser ouvidas, fomos voando para o carro e a explosão aconteceu antes que passássemos o portão. Com o tranco, você perdeu o controle do carro, chegamos à rua desgovernadas e batemos no muro do outro lado. _ E como você não se feriu ? _ a outra perguntou desconfiada. Kes não tinha argumentos para isso. _ Sorte..._ ela respondeu rapidamente _ e...você estava sem cinto..._ completou. _ Eu ? Sem cinto ? Impossível ! A outra teve uma crise de riso. Ela conseguia enxergar um monte de falhas em sua estória. Elas sempre revisavam pessoalmente todo o equipamento usado, testavam todos os dispositivos para garantir que nada falhasse, estudavam minuciosamente os sistemas de alarme e cada detalhe que pudesse denunciar a presença delas numa missão como aquela e a amiga estranhava apenas que estivesse sem cinto. _ Você já pensou em abandonar a carreira de mercenária e virar fiscal de trânsito? _ ela perguntou ainda rindo_ Apesar de que, com seu senso de direção..._ ela continuou agora caindo na gargalhada. Ale procurou recuperar um pouco do humor e riu com ela. Talvez estivesse ficando paranóica, mas parecia injusto que dois meses de sua vida tivessem sido roubados e ela fosse obrigada a confiar apenas nas lembranças alheias. _ Ok ! Eu estou paranóica_ e continuou em tom de confidência_ Tive uns sonhos estranhos e acho que me perturbei com eles... _ Que sonhos ? _ a outra perguntou curiosa. _ Nada importante...coisas sem nexo...Um homem se aproximava de mim e eu sabia que estava quase morta...ele me tocava e eu sentia meu corpo se aquecer...como se alguma coisa diferente passasse a correr nas minhas veias...era uma sensação estranha...me senti como uma cobaia de alguma seita religiosa, sei lá...mas eu parecia esperar por isso... Kes manteve-se inalterável, apesar da empolgação que sentia. Tinha que se manter indiferente para que a amiga não desconfiasse. _ Oxe, Ale ! Se fosse a Sil eu até podia aceitar...mas você ? _ e ela riu novamente. A russa balançou a cabeça concordando sem muito ânimo. _ Tem razão...bobagens... O quarto foi novamente invadido pelas outras garotas, sob os protestos magoados de Clá por não ter sido chamada para a conversa das duas e, pelo menos naquele momento, as dúvidas e apreensões foram deixadas de lado. Igor foi dispensado da vigília e, após obter a garantia do médico de que todos os exames seriam refeitos, voltou ao apartamento da russa para, finalmente, conseguir descansar um pouco. Os dias que se seguiram foram de tranqüilidade e alívio. O resultado dos exames comprovou que nada mais havia de errado com a paciente e o médico diagnosticou como um caso de remição espontânea da moléstia. Ale pode voltar para casa uma semana após despertar do coma e, embora todas as provas do acidente estivessem à sua disposição para análises, ela sempre encontrava algum ponto para discutir e esclarecer e as outras se viam apuradas para inventar algo coerente. Passou a ser um jogo entre elas, onde o prêmio seria a manutenção das convicções da amiga. Igor entrou no quarto com passos de gato, surpreendeu a russa perdida em pensamentos, olhando pela janela a movimentação dos turistas e nativos em volta da Fontana de Trevi. _ Se eu não te conhecesse, diria que está pesando a possibilidade de ir lá embaixo, jogar uma moeda e fazer um pedido na fonte. Ela não se voltou, sorriu de costas para ele até sentir a mão pousando em seu ombro. _ Eu tenho um desejo..._ ela começou. _ Infelizmente eu estou sem moedas _ ele respondeu _ E não vale jogá-la aqui de cima. Você precisa ficar de costas ... _ Estive conversando com a Sil..._ ela continuou _ E ? _ Ela me disse que talvez fosse bom se eu saísse um pouco daqui... Não deve haver trabalho por enquanto...ela ainda está chateada com a estória do Escoteiro... Ale parecia sem jeito de continuar, como se tivesse algo a pedir e não soubesse como. _ O que você quer, Romanov ? _ ele foi direto. _ Tenho tido sonhos estranhos...fragmentos... _ Que tipo de sonhos? _ Com a Rússia...Ivanova. Como está nossa amiga? _ Está ótima...um pouco mais velha...um pouco mais implicante..._ ele sorriu. _ Tenho saudades dela, mas, ao mesmo tempo, parece que a vi um dia desses... Já se sentiu assim? _ Assim como? _ Como se tivesse vivido momentos que, na verdade, não viveu? Ele se sentiu desconfortável. _ O que quer dizer com isso? _ Tenho a nítida impressão de ter estado em nossa terra natal há pouco tempo...de ter visto Ivanova e o Czar, ele deve estar bem velhinho... Igor não falou nada, esperou que ela voltasse de suas divagações. _ Em meus sonhos _ a mulher continuou com semblante perturbado _ eu te pedia que me levasse para lá..._ ela respirou fundo antes de completar _ Que perguntasse aos meus pais o motivo de nossa separação... O homem estreitou os braços ao seu redor, lembrando da última conversa que tiveram antes de ela entrar em coma. _ Será que você mesma não quer fazer essa pergunta...? _ Não! _ Ale respondeu rapidamente, soltando-se do abraço dele. _ Há quinze anos _ ele começou, sentando-se na cama, observando-a andar pelo quarto _ Nós falamos sobre isso. Naquela época você não sabia o que queria fazer, mas tinha essa mesma pergunta na cabeça... Até quando vai relutar em procurar a resposta ? Ela parou de caminhar e voltou à janela. Encostando a testa na vidraça, a decisão veio mais rápida do que esperava, como se já houvesse passado vários dias pensando sobre ela. _ Tem razão...já é hora de voltar para casa. Novamente o branco... Naquele lugar...a terra que a recebera nos braços pela primeira vez, o branco era a cor predominante. Os montes... a estrada... as casas... tudo parecia ausente de cor, como se a palidez da paisagem quisesse afogar as paixões que transbordavam daqueles corações inquietos. Na bifurcação que a estrada fazia, obrigando os passantes a escolher o caminho a seguir, Ale pediu que Igor estacionasse o carro. Caminhou a passos lentos, familiarizando-se com o ar de sua infância. Sua adolescência terminara ao ingressar no campo de treinamento, boa parte de sua juventude havia sido tragada na tentativa de encontrar seu lugar no mundo. Ela sorriu tranqüila. Não ia desperdiçar aquele período com perguntas que pertenciam ao passado. _ Precisamos de férias, Mitcha _ ela falou, voltando- se para ele _ Precisamos de um tempo nosso...Precisamos do nosso lar... Igor sorriu com ela. _ Tem certeza ? Você não está apenas fugindo novamente ? Ela entrou no carro ao lado dele. _ Não, meu amigo. Estou vivendo pela primeira vez. Eu tenho uma família, aliás, duas. Uma está em Roma e eu sei que elas fariam qualquer coisa por mim, assim como eu faria por elas. E tenho outra aqui, com você, Ivanova, nossa casa e nosso cão. Haverá resposta para minhas perguntas, mas não hoje...um dia. A paisagem de Paanajarvi descortinou-se logo a frente e ela se sentiu bem como há muito não se lembrava. Estava voltando para casa. FIM 1