Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, esta história destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: Terror / Suspense / Drama Nome do fan fiction: O Silêncio é a Resposta Resumo: Uma ficção de terror e suspense, em que há uma atmosfera tensa, nebulosa, envolvendo o sobrenatural e a essência de todos os temores humanos: a Morte. Talvez esta estória seja desconcertante, chocante para os mais sensíveis, ou talvez não surta qualquer efeito em alguém. O Silêncio é a Resposta Os ventos fortes sopravam com violência, batendo com golfadas de ar contra os vidros das janelas da cabana, como se tentassem invadi-la para se protegerem da fúria tempestuosa e trovejante dos céus. As árvores num balanço frenético ao sabor do assobio e da força da ventania, encontrando- se próximas à rústica construção, tinham seus galhos arremessados às paredes desta, chocando-se a elas constantemente, o que provocava estrondosos ruídos, pareciam espectros perdidos da floresta agonizantes por uma mísera luz, uma salvação da alma. Um relâmpago rasgou momentaneamente a escuridão que imperava no interior da cabana, revelando-a um lugar há muito tempo esquecido e abandonado, logo em seguida um trovão ecoou pelo manto de nuvens cinzentas, que transformavam o dia em noite mesmo às três horas da tarde, as ondas sonoras repercutiram nas vidraças, dando a impressão de que as janelas estremeciam. Exceto a tempestade que banhava a terra em lágrimas e despertava a todos com sua rebeldia, o silêncio que habitava os aposentos da choupana chegava a ser sepulcral, até que a porta de entrada se abriu bruscamente, pondo fim àquela paz mórbida e permitindo uma tênue luminosidade penetrar na sala envolta pelas trevas, folhas secas e um ar úmido invadiram o aposento por instantes antes dela se fechar, a ausência de qualquer ruído voltou a reinar. Um homem alto entrara no local, seus cabelos castanhos e curtos grudavam em sua testa, uma poça d'água formava-se aos seus pés, e suas roupas estavam encharcadas pela impetuosa chuva que assolava a tranqüilidade lá fora. Passeou os olhos verdes, amazônicos ao redor, em busca de algo ou alguém, percebendo um vulto num dos cantos da sala, reconheceu-o pelos contornos pequenos e delicados. - A chuva está muito forte, teremos de esperar ela passar para que possamos sair daqui e pedir um guincho - comentou. A sala encontrava-se na penumbra, pouco se distinguia com clareza naquela escuridão. - Você trouxe a sua lanterna, a minha ficou no carro? A pessoa oculta pelas sombras nada respondeu. - Scully, você está me ouvindo? - impacientou-se depois de alguns segundos de um incomodo silêncio. Ela continuou calada. - Sei que deve estar furiosa comigo por tê-la arrastado até aqui, por não ter lhe dado ouvidos quando disse que era perigoso vir para as montanhas com este tempo, mas agora o que posso fazer? Pedir desculpas? Então, me desculpe, Scully - observou-a encolhida no aposento quase sem móveis - Este lugar está frio e escuro, vou tentar acender o fogo. - Não - murmurou. - Não o quê? Acender o fogo? - perguntou meio irritado enquanto procurava por lenha para a lareira e por algo que pudesse atiçar-lhe fogo. Não respondeu. - Ótimo! - esbravejou, balançando uma caixa com palitos no ar depois de vasculhar o local - Encontrei fósforos, mas não tem lenha! O silêncio dela começou a perturbá-lo, tentou vislumbrar o rosto da amiga em meio às sombras, mas por mais que sua visão já estivesse adaptada àquele ambiente sem luz, tornava-se impossível ver com nitidez qualquer coisa que fosse. - Scully, pare com isso! Se quer brigar comigo, brigue, grite, eu mereço, mas não me ignore desse jeito - falou de repente, aproximando-se dela. Sentou-se no chão ao lado da mulher ruiva, e procurou com uma de suas mãos a dela, quando tocou-a, sentiu-a estremecer e sentiu-se arrepiar, algo estava errado. - Você está gelada, Scully! - exclamou, tentando encontrar os olhos dela, mas ela possuía a cabeça apoiada sobre os joelhos - Olhe para mim, por favor. Você está se sentindo bem? Tararan...tararan... Governo Nega Ter Conhecimento A Verdade Está Lá Fora Sem resposta e preocupado, pegou a caixa de palitos, acendendo um deles para que pudesse vê-la melhor, mal acendera o fósforo e ele se apagara, mas foi o tempo suficiente para que vislumbrasse a face assustadoramente pálida de Scully, que agora o encarava no escuro. Ele fez uma nova tentativa, conseguindo desta vez que a trêmula chama persistisse até o consumo total do palito por ela. A mulher de cabelos rubis parecia olhar através dele, seu rosto estava marcado por profundas olheiras, seus olhos celestes apesar de possuírem um estranho brilho, estavam isentos de vida, parados, fixos. Parecia alheia aos acontecimentos que se davam ao seu redor, ignorando inclusive a presença do amigo. Desesperou-se ao vê-la daquele modo, passou a mão por sua face de um aspecto quase sobrenatural, ela não esbouçou qualquer reação, nem um piscar de olhos sequer, o palito já havia se apagado. O homem de olhos verdes sentiu um terror inconsciente a invadir-lhe o peito quando tocou-a em sua pele gélida, cujo calor parecia Ter sido extinto por completo, incluindo a própria chama da existência, um cheiro de morte pairava na atmosfera, era como se ela já houvesse vestido sua mortalha. Ele precisava fazê-la voltar à realidade. - Scully, o que aconteceu? - segurou-lhe o rosto entre as mãos, fixando seus olhos verdes nos azuis dela, mas estes estavam distantes, perdidos, não reparavam no homem à sua frente - Aconteceu alguma coisa enquanto estive fora? - persistiu numa voz baixa, macia, como se falasse a uma criança. Não houve resposta. - Não fiquei nem vinte minutos fora, o que aconteceu? Por favor, me diga - seu tom já não era mais calmo, e sim, preocupado, quase desesperado - Deus, você está muito pálida e gelada, parece um fantasma, está em choque - levantou-se do chão - Preciso encontrar algo para aquecê- la. Ele desapareceu por uma das portas que levava a um outro aposento da choupana, tão vazio como o outro em que estava, mobiliando o que deveria Ter sido um quarto havia apenas o estrado de uma cama e um armário antigo, aproximou-se deste, abrindo-o, dentro encontrou muito pó, teias de aranha e uma manta de lã em farrapos, consumida pelas traças, mas que serviria para a atual situação. Voltando para junto de Scully, envolveu-a com a manta, não conseguia imaginar o que poderia Ter causado aquele estado dela, precisaria encontrar ajuda urgente, não suportava vê-la daquele jeito, imóvel, vulnerável, perdida, sentia seu peito ser comprimido pela angústia, pelo desespero; o silêncio que antes era um cúmplice, um aliado deles, tornara- se perturbador, inquietante, aterrorizante, era como o prelúdio da morte. Temia encarar-lhe a face novamente, pois se o fizesse talvez não conseguisse dissimular as lágrimas, o pânico, decorrentes do medo em perdê- la para aquele mundo no qual ela começava a se refugiar. A tempestade foi se amenizando, tornando-se uma chuva tranqüila, silenciosa, sem trovões e ventanias, as nuvens escuras dissiparam-se aos poucos, permitindo que alguns raios de luz vespertinos emprestassem um pouco de claridade ao mar celestial. O homem alto acomodara- se ao lado de Scully, meditava sobre a situação sem voltar-se para vê-la mas, com a luminosidade a adentrar as vidraças do cômodo, afastando algumas sombras, diluindo a penumbra, ergueu o olhar para ela, que continuava com a mesma expressão longínqua, ele não pôde evitar o pavor, a angústia, as lágrimas de lhe virem aos olhos tímidas num primeiro momento para passarem a abundantes. Puxou-a gentil para o seu peito, envolvendo-a, escondeu-se nos fios acobreados dela, sentia-a como a uma estátua, petrificada e fria, queria poder com aquele abraço aquecê-la, devolver-lhe a vida fugidia. De repente, identificou dentre os seus soluços, alguns que não lhe pertenciam, eram os de Scully, que possuía a face encostada, oculta no peito dele. Segurou-a pelos ombros, ela permaneceu com a cabeça abaixada e os cabelos a cobrir-lhe a pele pálida, ele ergueu suavemente com uma das mãos o queixo dela, deparando-se com os olhos azuis tão seus conhecidos, agora eles estavam fixos nos seus, não eram mais indiferentes a ele, reparou sob a claridade as olheiras profundas e arroxeadas que se evidenciavam nos olhos inchados pelas lágrimas dela. - Você voltou, Scully - não pôde evitar um sorriso ao ver que ela havia saído daquele estado mórbido. - Não, Mulder - sussurrou enquanto seus olhos brilhantes o fitavam incessantes. - Cheguei a pensar que a perderia - acariciou o rosto abatido e espectral. - Você me perdeu, Mulder, eu me perdi - estrelas gotejantes deslizavam silenciosas de seus olhos celestes. - Não estou entendendo - fitou-a - O que aconteceu com você? O que está acontecendo? Ela não respondeu, observou-o por longos segundos, até que num ímpeto, abraçou-o demorado e saudosamente. Mulder surpreso com a atitude, retribuiu o gesto, mas ela não lhe dera muito tempo, pois de súbito levantou-se do chão e pôs-se a correr porta afora para a floresta, para a garoa fina que a salpicava. Mulder foi em seu encalço depois de assimilar o que havia acontecido, estava confuso com o comportamento de Scully, enquanto a perseguia, percebeu com espanto que a mulher ruiva que corria à sua frente estava sem sapatos, descalça, com as roupas sujas de lama, e seus pequeninos pés pareciam feridos posto que pisava descuidadamente sobre galhos e pedras, fios de sangue manchavam-lhe os pés alvos, pálidos. Em sua fuga ou busca por alguma coisa, seus passos apesar de ágeis, eram incertos, cambaleantes, estava visivelmente fragilizada, fraca, como se estivesse prestes a desfalecer, ele corria aturdido, gritando o nome dela, temia que algo pior acontecesse, o alívio que a pouco sentira cedera lugar àquele inconsciente terror que o dominava a cada passo que dava em direção a ela. Quando Scully estancou o movimento após voltear um barranco, parando ao pé deste, Mulder alcançou-a. - Que droga, Scully! O que há com você? Não está em condições de correr por aí, está frágil - gritou mais para ocultar o medo que sentia do que para expressar uma cólera inexistente. Ela não lhe dera atenção, permaneceu estática, observando uma elevação na superfície, um montante de terra, Mulder calara-se, adivinhando do que se tratava aquilo. Scully deu a volta em torno da saliência, parando do lado oposto ao do amigo, ficando de frente para ele. - Por que correu até aqui, Scully? - procurou os olhos dela que estavam atentos no chão. - Sabe o que é isso, Mulder? - encarou-o desafiante, apontando o dedo para o montante. - Parece uma cova recente, veja como a terra está... - interrompeu-se - Por que, Scully? - Sabe de quem é esta cova, Mulder? - utilizou-se do mesmo tom desafiador. As árvores chacoalharam repentinamente devido ao vento gélido e cortante que começava a se rebelar, a pergunta de Scully fora respondida pelo farfalhar das folhas e pelo assobio gritante da ventania. Mulder nada dissera, um terror latente crescia em seu espírito. - Esta cova é a minha! - bradou ela, permitindo que as lágrimas fluíssem pela sua face pálida. - O que está dizendo, Scully? - Mulder sentira um calafrio a percorrer-lhe a espinha ao ouvi-la - Scully, me ouça, você não está bem, algo lhe aconteceu e eu preciso saber o que foi para poder ajudá-la... - Me ouça você, Mulder! - cortou-o - Eu estou morta! - Pare com isso, Scully - ameaçou ir em sua direção, mas deteve-se ao ouvi-la gritar. - Não se aproxime! - berrou em seu desvario, indicando com o dedo a cova em seguida - Fui enterrada nesta cova, Mulder. Estou sepultada nela. - Não quero ouvir mais nada, Scully - algumas gotas teimosas insistiam em cair-lhe dos olhos amazônicos, uma agonia crescente e esmagadora pressionava-lhe o coração, as palavras da amiga atemorizavam- no terrivelmente, mas por quê? Se era apenas um estado temporário de loucura, delírio que se atribuía à sua condição debilitada e com certeza a uma possível febre, pelo menos assim queria acreditar. Não conseguia explicar ou dominar seus sentimentos, mas era como se tudo que Scully falava, fizesse sentido frente à aparência espectral e sobrenatural dela. Balançou a cabeça para afastar tais pensamentos, não suportaria aquela verdade, não era possível dizia a si mesmo - Por favor, Scully, vamos voltar para a cabana - tentou controlar a voz trêmula, nervosa, estendendo- lhe a mão, não queria forçá-la a nada, porém se continuasse a insistir em ficar a mercê daquela garoa gelada e do vento cortante, teimando naquele assunto sem nexo, não hesitaria em pegá-la no colo, carregando-a à força para o abrigo. Percebendo a impassibilidade, a resistência dela em acatar seu pedido, preparou-se para cumprir seu intento, quando ela o paralisou com suas palavras. - Você me enterrou, Mulder - os olhos azuis, úmidos, cintilavam, sua voz saiu serena, repleta de uma profunda melancolia, tristeza - Você me matou, Mulder. Quando me enterrou, eu ainda respirava, ainda estava viva, não tinha o direito de pôr fim à minha vida sem meu consentimento, não tinha este direito. Mulder ficara imóvel, perplexo, sem ação diante das declarações absurdas dela. - Você me deixou no escuro, Mulder. Condenou-me a uma eternidade obscura e agonizante, minha alma está sentenciada a perambular num tormento sem fim. Não sabe o quanto eu o amaldiçoei, o quanto o odeio - fitou os olhos verdes úmidos - Eu te odeio, te odeio por eu não conseguir permanecer sem sua presença, com sua ausência, por haver um elo, algo tão intenso e indestrutível que me liga a você e que me impede de prosseguir sozinha. - Por que está me dizendo estas coisas, Scully? Pare, por favor - passou as mãos nervosamente pelos cabelos castanhos - Você está viva, Scully! - aumentou o tom de voz. - Não, Mulder, você me abandonou no escuro para morrer sozinha, você me matou, minha vida ou morte como queira chamar, reside nesta cova - suas feições plácidas lhe enfatizavam um aspecto mais sombrio - Estou prestes a cometer um dos maiores sacrilégios, a ser condenada a danação eterna, mas não posso prosseguir sem você, Mulder, me perdoe - Scully sacou a pistola que trazia no coldre à cintura. - O que está fazendo? - adiantou-se em sua direção. - Pare! - mirou-o com a arma, segurando-a firme com as mãos - Me perdoe. - Você não precisa fazer isso, Scully. - Sim, eu preciso. - NÃO!!! - gritou ele aterrorizado antes do desfecho final, antes do estampido seco ecoar pela mata solitária, pelo vento uivante. Scully apertara o gatilho da arma, mirando a própria cabeça antes, Mulder correra apavorado em sua direção, fora tudo muito rápido, tarde demais, estava preparado se fosse ele a ser baleado, mas não para o que acontecera, nunca estaria. Agarrou-se ao corpo inerte, caído no chão de folhas e terra, esta era tingida pela cor púrpura, pelo sangue que se esvaía de Scully, fundindo-se, misturando-se aos seus fios avermelhados. - Não, Scully - urrava como a um animal fatalmente ferido, desatinado, seu espírito fora rasgado, dilacerado pela dor que o consumia. Abraçava com força o corpo pequenino, frágil, isento de vida, cuja pele ainda conseguia parecer mais pálida com o sangue a manchá-la de vermelho. A máscara da morte era evidente em sua face gélida e translúcida, os grandes olhos celestes estavam abertos, sem brilho e expressão, mortos, Mulder beijou-os, fechando-os em seguida com a mão trêmula, soluçava convulsivamente, as lágrimas deslizavam infindas e ininterruptas pelo seu rosto. Como a embalar uma criança, balançava-se de um lado a outro com Scully aconchegada em seus braços, queria iludir-se, acreditando que ela estivesse apenas adormecida, descansando, e logo despertaria, enquanto isso não acontecia, ele velaria o seu sono. - Durma, Scully, daqui a pouco eu lhe acordarei - passou a mão delicadamente pela face manchada, salpicada de sangue, acariciando-a. De repente, interrompeu-se, seus olhos ficaram parados a observá-la em seu descanso ou seria tormenta? Não poderia se enganar, negar a verdade por muito tempo, ela estava morta. Caindo em si, ergueu-se do chão com a mulher ruiva nos braços, andando desvairado em círculos, como se houvesse perdido a razão, seus gritos alucinantes rompiam o silêncio mordaz que se fazia insuportavelmente presente naquela floresta, em que se encontravam. Cansado de blasfemar contra os céus, de exteriorizar a sua ira por Deus e pela vida, já sem forças, deixou-se cair de joelhos no chão, repousando com cuidado Scully na terra úmida. Voltou-se para a cova, que de certa maneira era uma antecipação do que estava por vir, num ímpeto de fúria, lançou-se sobre ela, cravando-lhe os dedos na terra, cavando-a ferozmente. - Este túmulo não lhe pertencia, Scully, vou lhe provar - vociferou em meio ao choro - Não tinha o direito de pôr fim à sua vida, à minha vida - seus dedos tocaram em algo sob a terra, meio hesitante, continuou a tirá- la, limpando a terra do rosto do cadáver com o qual se deparara, seus olhos verdes arregalaram-se numa expressão de assombro. A face do cadáver revelara-se como sendo a sua própria, era ele quem estava na cova. Olhou impulsivamente o relógio em seu pulso que estava parado, marcando 2:40 p.m. do dia 12, procurou pelo relógio no pulso do cadáver, verificando que o objeto ainda funcionava, marcando 5:45 p.m. do dia 14. Percebeu estarrecido que morrera há dois dias. Um trovão precedido de um relâmpago interrompera seus pensamentos antes que tudo escurecesse ao seu redor no mais completo e aterrorizante silêncio. _____________________________________________________________ ____________ Washington D.C. Quartel General do FBI 8:00 a.m. Acomodado em uma cadeira atrás de sua mesa abarrotada de pastas de arquivos, o homem de olhos verdes estava imerso em suas reflexões, quando o barulho de sapatos ecoando pelo corredor o despertou. - Bom dia, Mulder - Scully entrara pela porta da sala. - Bom dia - fitou-a nos olhos pensativo. - Mulder, você está bem? - perguntou preocupada ao observar a fisionomia abatida do parceiro. - Não consegui dormir direito esta noite - suspirou - É muito bom poder estar aqui com você. - O que aconteceu? - Tive um pesadelo, acho que o pior dos que já tive, sendo impossível haver um pesadelo mais aterrorizante do que o meu - fez uma pausa - Já pensou em suicídio, Scully? - Já pensei sobre o suicídio, mas nunca em suicídio, isto vai contra tudo em que eu acredito como pessoa, católica e médica - estranhou tal pergunta. - Acredita que atentar contra a vida é atentar contra Deus? - indagou- a. - Acredito que a vida é uma dádiva para ser preservada e não destruída - lançou-lhe um olhar inquiridor que ele compreendeu, respondendo a pergunta muda dela. - Sim, eu já pensei em suicídio, não com a intenção propriamente dita de executá-lo, mas de satisfazer uma curiosidade em imaginar como seria - sorriu da expressão séria da parceira - Não se preocupe, Scully, não estou pretendendo transferir do mundo das idéias para a realidade tais pensamentos - usou de seu tão peculiar sarcasmo. - Mulder, penso que o suicídio é uma última tentativa desesperada de pedir socorro, ajuda. Os suicidas esperam que em seu último instante antes de consumar sua loucura, apareça alguém para impedi-los, para ajudá-los. É um grito de socorro, Mulder. - Nunca pensou mesmo em suicídio, Scully? - encarou-a. - Não, acho que não. - Acha que possa haver alguma razão suficientemente forte para justificar, perdoar tal atitude? Permaneceu em silêncio. - Conhece alguma razão que justificaria, Scully? - insistiu. - Não sei, Mulder, acho que nada justifica, porém...- hesitou antes de prosseguir, analisando os traços do homem à sua frente - Talvez haja alguma razão forte o suficiente não para os que estão de fora, e sim, para aqueles que são vítimas de si mesmos, motivos fortes o suficiente para levá-los a fazerem o que fazem, é óbvio que veríamos tais atitudes como insanas, desequilibradas, mas talvez nossas perspectivas mudassem se estivéssemos em igual situação, com motivos justificáveis apenas para nós, a ponto de pôr fim às nossas próprias vidas. - Para pensar nisso, então você já pensou num motivo forte o suficiente que viesse a levá-la a cometer tal atitude insana e justificá- la, não é? Que motivo seria esse? - esperou ansioso pela resposta. - Você já pensou num motivo, Mulder? - ela devolveu a pergunta. - Já. - Qual? - Me responda você primeiro, Scully. Ela não respondeu. Ele também não. O silêncio foi a única resposta. FIM