DISCLAIMER: OS PERSONAGENS DESTA FANFICTION PERTENCEM A SEUS CRIADORES E NÃO HÁ QUALQUER INTENÇÃO DAS AUTORAS EM LUCRAR COM ESTA HISTÓRIA QUE DESTINA-SE SOMENTE À DIVERSÃO DOS LEITORES. AUTORAS : Alexandra Morgilli (ariel_55@hotmail.com) e Silvia Penhalbel (silviascifinews@bol.com.br) SINOPSE: Segunda parte da aventura iniciada com A ANTE SALA DO INFERNO. Scully recebe uma ajuda inesperada em sua busca por Mulder. NOTAS: Mais uma vez, atendendo a pedidos ansiosos, o Azul Celeste está de volta. Desta vez até Doggett será envolvido nesta aventura das nossas garotas preferidas. Seguindo o exemplo de muitos escritores de fics, nós também decidimos alterar um pouquinho os rumos da mitologia de Carter. Mas isso é ficção e aqui, vale o que a imaginação mandar. E, como não poderia ser diferente, dedicamos esta fic às nossas amigas tão especiais, Clarissa S. Canha, Claudia Modell e Késsia Nina, que emprestam seus nomes e sua coragem às nossas personagens. Meninas, nós adoramos vocês! Alê e Sil. PRÓLOGO A luz muito forte feria seus olhos, mas ela não podia fechá-los. Suas pálpebras eram mantidas dolorosamente abertas por pequenas garras de metal e o rosto todo doía com o esforço vão que seus músculos involuntários faziam para tentar fechá-las e proteger as córneas, já ressecadas pelo ar frio daquele maldito lugar. Seu peito doía também com os soluços que ela não continha mais há tempos, desde que fora colocada naquela mesa de ferro, imobilizada e indefesa à mercê de seus captores. Já não sabia mais se horas ou dias haviam se passado, perdera há muito a noção do tempo. As luzes que piscavam diante dela mudavam de cores incessantemente e o ardor em seus olhos tornou-se insuportável. Mas talvez o pior de tudo ainda fossem os gritos que ecoavam por todo o lugar: seus próprios gritos de desespero e medo. Na sala ao lado, separadas por uma parede de vidro, figuras observavam impassíveis diversos monitores que acompanhavam as reações da mulher torturada. Atrás deles, um homem jazia imobilizado em uma mesa semelhante à da outra sala. Afastado demais para ver qualquer coisa pela janela de vidro, ele apenas podia escutar os gritos de desespero da jovem mulher. Impotente, ele chorava por ela. Chorava também por si próprio e por aqueles que ele havia deixado para trás. OS CAMINHOS DE DANTE ROMA -03/12 EDIFÍCIO FONTANA DI TREVI O apartamento silencioso era uma tortura. Estavam todas ali, mas era como se não houvesse ninguém, tamanha a introspeção que tomava conta delas. _ Hora de entrarmos em ação, meninas._ Claudia rompeu o silêncio, decidida._ Vamos parar de nos lamentar e agir. Cadê a Clá? _ Acho que sei onde ela está. Me dêem uns minutos, eu já volto. _ Ale vestiu o casaco e saiu para a varanda. Usando a escada de incêndio, alcançou o telhado do "Fontana di Trevi", onde o vento frio e cortante e a visão da rua lá embaixo quase a fizeram lamentar a decisão. Equilibrou-se e olhou ao redor por um instante, logo avistando quem procurava. _ Hei...está muito frio aqui, sabia?_ meio sem jeito, tentava equilibrar-se até alcançar o pequeno trecho reto de parapeito, bem próximo à beirada, para sentar-se perto da amiga. _ Você não devia vir aqui Ale. Sei que morre de medo de altura..._ o comentário saiu inexpressivo. Na verdade ela parecia estar muito longe dali _ Medo? Não...pavor. Mas, não instalamos ainda uma extensão de telefone aqui em cima, então... Vamos, baixinha, que é que há? Você não pode se deixar abater assim. Quem vai cuidar do moral da tropa? _ Não estou com espírito para bancar a palhaça, Ale. Por alguns instantes, o silêncio dominou o lugar e as duas pareceram perder-se em pensamentos, sentadas lado a lado, olhando a cidade que se estendia iluminada lá embaixo, o vai e vem de gente que fazia Roma fervilhar, os cafés lotados, turistas encantados com a beleza daquela cidade mágica. Mas, hoje ela parecia triste como se em cada canto faltasse alguma coisa. No momento seguinte, Clá retomou a conversa. _ Quando eu a encontrei, ela era menor que eu, sabia? Na verdade, foi ela quem me encontrou... Era só uma criança com cara de assustada, num vestido caro e sapatos de verniz, que me seguiu por toda Roma, depois que saímos daquele vagão de carga lotado de clandestinos. Eu também era criança, mas já estava nas ruas há tanto tempo, sabia me cuidar. Tentei me livrar dela, insisti que voltasse para casa, ameacei, fiz cara de má, mas não adiantou. Ela apenas ficava ali, calada, me olhando com aquele ar de teimosa, os olhos inteligentes, os cabelos cacheados, parecia uma boneca._ parou por um instante, como se pudesse ver as imagens que descrevia. Sorriu _ E estava sempre com fome! A primeira coisa que roubamos em Roma foi uma cesta cheia de brioches, bem ali, na confeitaria do Maschio, aquele calabres zangado. Corremos como nunca e ele atrás de nós, gritando feito louco_ ela riu, esquecendo a tristeza por um instante _ ainda me lembro do gosto daqueles doces e da cara feliz da Kes. _ Ah, então foi assim que você treinou aquela pequena larápia? Começou com doces, depois malas de turistas indefesas... _ Fala sério, Ale. Turista indefesa? A gente quase morreu de medo quando viu o que tinha dentro daquela mala...A Kes ficou apavorada, tinha certeza de que vocês iam nos usar para alimentar os peixes do Volga. _ Por que logo do Volga? _ Sei lá, coisas da cabecinha da Kes._ o sorriso que aparecera por instantes sumiu e ela voltou à expressão de tristeza, com a qual nunca antes havia sido vista._ Droga...sinto falta dela... _ Eu também. Isso parece um pesadelo. Sai daqui há 15 dias, pensando que nunca mais encontraria vocês duas e, depois de toda aquela tensão, quando achei que estava tudo bem, aqui estamos, de volta ao início, na mesma situação._ parou um instante e olhou lá para baixo_ Viu que a bicicleta dela está na varanda? Será que tirou do quarto por causa da minha implicância? Ficaram novamente quietas. _ Bom...ficarmos aqui nos lamentando não vai traze-la de volta, Clá. Precisamos tomar alguma atitude. Vamos, estão nos esperando. Clá concordou e em seguida moveu-se com agilidade em direção à escada de incêndio, seguida pela amiga que lançava olhares preocupados para a beirada escorregadia do telhado. O calor do apartamento foi mais que bem vindo para as duas, mas a expressão preocupada no rosto de Claudia deixou-as mais geladas do que o frio cortante da noite romana. Ale percebeu, pelo reflexo do vidro da janela, que Sil estava chorando. _ Claudia, o que aconteceu? _ Acabamos de saber que o Escoteiro também desapareceu, há quase dois meses. O FBI chegou a designar uma força tarefa para procurá-lo, mas não há pistas do que aconteceu com ele. A Paty não tem muito mais informações, pois o caso acabou sendo designado para os Arquivos X. _ A seção dele...isso significa que a Scully deve estar a par do andamento do caso. Por que não ligamos para ela? _ Nós tentamos, o telefone dela está grampeado. Ale baixou os olhos para o equipamento eletrônico acoplado ao telefone. O visor esverdeado indicava claramente o grampo no telefone da agente. O silêncio da desorientação, que parecia ser a regra nos últimos dias, se abateu novamente entre as mulheres na sala. Ale caminhou até a janela e colocou protetoramente a mão no ombro da amiga. Sil fechou os olhos, tentando conter as lágrimas. A voz determinada de Claudia se fez ouvir novamente. _ Vamos para Washington. Todas se voltaram para ela. Sil enxugou as lágrimas com as costas da mão e encarou a líder com incredulidade. _ Claudia, o que você pretende fazer? Invadir o FBI atrás de pistas? _ Exatamente! Mas antes vamos descobrir o que a agente Scully sabe. E ela sabe de algo, senão não teriam grampeado seu telefone. Além disso, Alex tem operado nos EUA há algum tempo e aposto que aquela vagabunda loura também está por lá, depois do fracasso dos planos dela na Argélia. Temos todos os elementos de que precisamos no Novo Mundo, portanto é para lá que iremos. As outras se entreolharam e, sem hesitação, concordaram com a líder. Depois, cada uma foi para seu apartamento preparar- se para partir. WASHINGTON -D.C. 05/12 O relógio na mesa de cabeceira marcava 3:00 da madrugada. Estranhamente, sentia-se tensa, como se aguardasse algo. Durante anos acostumara-se a ser arrancada da cama em plena madrugada para correr atrás de pistas incomuns, com seu parceiro incomum. Agora, sentia como se o telefone pudesse tocar a qualquer momento e a voz dele pudesse ecoar do outro lado da linha, no mesmo tom entusiasmado de tantas vezes. Subitamente, imaginou se sua mente não lhe pregava uma peça, ou se realmente ouvia batidas secas à porta. Levantou-se num salto e tentava vestir o roupão enquanto corria em direção à porta, atrapalhada pela ansiedade. A porta aberta revelou que sua intuição não estava totalmente errada. Não viu os olhos verdes que tanto ansiava encontrar, mas nem por isso a surpresa foi menor. _ Agente Scully, precisamos conversar_ mal conseguindo disfarçar seu desespero, a mulher de aparência séria e inconfundível cruzou a porta, seguida por três de suas companheiras, que pareciam igualmente desesperadas. _ Meu Deus, o que...o que vocês estão fazendo aqui? _ É uma longa história. Mas dá para resumir. _ Claudia sempre fora direta. Não saberia ser diferente agora. Diante do olhar espantado da mulher a quem resolvera recorrer, começou a dizer exatamente tudo o que sabia e o que queria saber _ Kes desapareceu. E, antes que você pergunte, o que pareceria bastante lógico, não foi em missão. Ela desapareceu de dentro do apartamento, em Roma. E quer saber o que mais? Não, melhor não contar. Melhor mostrar._ Dizendo isso, Claudia esperou que Ale abrisse sobre a mesa um pequeno computador portátil. _ Essa é a última imagem que temos de Kes._ Alguns comandos e um filme começou, um pouco entrecortado, aparentemente resultado de um equipamento de segurança que gravava poucos quadros por segundo, mas a imagem era bastante nítida. A primeira cena da filmagem mostrava claramente Clá entrando no prédio, às 18:06. Até aí, nada demais. A próxima seqüência, às 18:18, mostrava Clá saindo pela garagem, de carro, com Kes aparentemente cochilando no banco do passageiro. _ Não vejo onde está o problema com essas cenas... Se a Clá estava com ela, deve saber o que aconteceu, não é?_ Scully tentava ver a lógica daquilo tudo, mas desconfiava de que houvesse algo pior do que estava vendo. Sil respirou fundo, como se ela mesma precisasse entender o que ia dizer em seguida. _ Acontece que, naquela tarde, a Clá, ou pelo menos a verdadeira Clá, estava conosco, do outro lado da cidade. Saímos e chegamos juntas! Isso tudo não faz o menor sentido. E por mais que eu quisesse ignorar algumas coisas que sempre achei absurdas demais para merecerem crédito, fomos obrigadas a aceitar que algo relacionado ao estranho projeto em que Alex Krycek está envolvido poderia ter ocasionado o seqüestro de Kes. Então, tentamos contatar Mulder da Europa, sem sucesso. Foi quando nosso contato em Washington nos avisou do desaparecimento dele. A voz de Sil sumiu com estas últimas palavras, enquanto lutava contra as lágrimas. Claudia colocou a mão no ombro da amiga e encarou a agente federal. _ Sem perder mais tempo, viemos para a América e agora estamos aqui, na sua sala, às 3:00 da manhã, para saber uma coisa: Precisamos saber a verdade. Apenas isso, agente Scully. Onde está Mulder? E, diabos, onde é que abelhas contaminadas, Alex Krycek e um monte de arquivos codificados se encaixam dentro disso tudo? Scully fechou os olhos por um instante e respirou profundamente. Sua mente fervilhava com as lembranças despertadas por cada uma das palavras que Claudia dissera. Principalmente as lembranças do que vinham sendo os últimos meses de sua vida. _ A Verdade... Arquivos codificados, abelhas...abduções..._ seu rosto tinha um sorriso triste e a voz, um tom irônico, que em muito lembrava a amargura que seu parceiro expressara algumas vezes _ Bem-vindas ao inferno... Esse tem sido o meu inferno pessoal e o de Mulder, ao longo dos últimos anos e, me parece que agora será o de vocês também. Tudo vai depender de estarem dispostas ou não... _ Dispostas a quê, agente Scully? Por Deus, mulher, seja clara! _ A acreditar. A ouvir sobre abduções alienígenas, vírus mortais e um futuro incerto. A aceitar um monte de situações novas e absurdas, para as quais não tenho explicações a oferecer, exceto o fato de que, de alguma maneira, eles arruinaram parte importante da minha vida e da de vocês e que, mesmo não aceitando ou não entendendo o que está acontecendo, teremos de lutar contra isso. Espero que ouçam e aceitem, não me peçam provas, porque eu não as tenho. Não me peçam para dizer- lhes que acredito, porque isso está me enlouquecendo também, eu sou uma cientista e isto tem me torturado todos os dias, esta guerra dentro de mim entre o que sei e o que entendo. Mas, se querem ver novamente a pessoa que perderam, espero que possamos procurar juntas. Todas ouviram quietas. Era nítido que aquela mulher estava sofrendo com seus próprios conflitos, mas que havia decidido ignorá-los em nome da esperança de encontrar seu parceiro. Era o que ela pedia a elas agora. _ Entendo sua situação, agente Scully. _ surpreendentemente, Ale foi a primeira a se manifestar sobre o que ouvira._ Só lhe peço então que, por favor, nos tire do escuro, para que possamos agir juntas e resolver o problema real que se apresenta: nós queremos a nossa amiga de volta, seja lá quem a tiver levado, por mais absurda que seja a sua teoria. Você quer o seu parceiro. Juntamos nossos esforços, encontramos os dois e depois cada uma resolve seus conflitos de consciência como achar melhor._ terminou e olhou para suas companheiras, que, mesmo ansiosas, demonstraram aprovar a abordagem. Nas horas que se seguiram, Scully relatou detalhadamente os acontecimentos dos últimos meses e também o que sabia sobre as atividades de Krycek e Covarrubias. Apesar de todo seu ceticismo, até mesmo Ale tinha que concordar que os fatos se encaixavam com o que acontecera na Argélia e com o desaparecimento de Kes. Se esse era o único rumo que se apresentava, que fosse esse a ser seguido. Grande parte do que era dito era inacreditável e a idéia do que poderia estar acontecendo a Mulder e a Kes causou-lhes angustia e revolta. Scully tinha os olhos úmidos ao final da conversa e na verdade, todas sentiam vontade de chorar. Mas então, Claudia tomou novamente as rédeas da situação. _ Existe tempo de lamentar e tempo de agir. Estamos no segundo momento e temos que ser rápidas. As outras puseram-se em pé, ao lado da líder, enquanto Scully se recompunha, respirando fundo e tentando ver ali uma chance de reencontrar Mulder. _ Agente Scully, pode conseguir nosso acesso aos arquivos do caso de Mulder? Scully acenou com a cabeça enquanto Claudia andava pela sala, a mão no queixo, o olhar perdido no vazio enquanto pensava freneticamente. Olhou novamente para Scully. _ Você conhece alguém com grande habilidade com computadores, que seja de confiança? _ Conheço sim, amigos do Mulder, que chamam a si próprios de Pistoleiros Solitários. São de total confiança. _ Preciso falar com eles. Você leva a Ale e a Sil com você e eu vou com a Clá encontrá-los. _ Eles são um pouco paranóicos, talvez eu deva ir com vocês. _ Não se preocupe, sei ser bastante convincente. Escreva apenas um bilhete nos apresentando. Scully estava atordoada com a velocidade de ação de Claudia. Escreveu com as mãos ainda trêmulas o endereço dos Pistoleiros e o bilhete, depois foi se vestir, deixando as quatro mulheres conversando em voz baixa na sala. _ Ela está muito abalada, nem parece a mesma pessoa. _ Essa situação é totalmente inusitada, é natural que ela esteja abalada. Nós também ficamos bem perdidas nos primeiros momentos do desaparecimento da Kes. Sil balançou a cabeça olhando para a porta fechada do quarto. _ Não Claudia, a Ale está certa, tem mais alguma coisa acontecendo e ela não quer nos contar. ESCRITÓRIO DOS ARQUIVOS X WASHINGTON - D.C. O vai e vem pelos corredores do FBI era intenso, como todos os dias. Até que estar trabalhando no porão tinha lá suas vantagens, afinal, era mais sossegado e as intrigas banais ficavam lá em cima, na superfície. Prestes a entrar na sala que ainda tentava convencer-se, era também sua agora, Doggett parou ao ouvir vozes femininas: Scully não estava sozinha. Abriu a porta com cuidado, prestando atenção nas palavras que ela trocava com duas outras mulheres. _ ...dinheiro dos contribuintes caçando fantasmas, Ets e afins. Não acredito que colabore com isso, agente Scully. _ Ale, concentre-se nos relatórios e cale a boca. Ale olhou para Sil e não controlou a vontade de rir. _ Que foi?_ Sil não entendia o motivo de tanta graça. _ Não me acostumo com você com esse disfarce. Toda vez que olho de relance, acho que é outra pessoa e tenho vontade de sacar a arma, hehehe _ E você acha que está como? Agora pare de brincar e concentre-se. Ale se calou e continuou vasculhando os papéis, mas por poucos instantes. _ Ah não, Sil...não vamos encontrar nada de útil por aqui, eu devia ter ido com as outras encontrar os tais amigos do Mulder. _ Acredite Ale, você está melhor aqui. Lá, alguém poderia acabar levando um tiro seu. Riam ainda do comentário quando Doggett achou melhor anunciar sua presença. Batendo de leve na porta, entrou sem esperar resposta e deu de cara com duas mulheres desconhecidas, ambas louras de olhos azuis. _ Quem são vocês? O que fazem aqui? _ Agente Doggett elas são minhas amigas e estão aqui a meu pedido. Ele ergueu uma sobrancelha para Scully. _ Agente Scully, será que poderíamos falar a sós por um minuto? Scully olhou significativamente para as duas mulheres e seguiu Doggett para o corredor, fechando a porta atrás de si. Sozinhas no escritório, Sil e Ale, olhavam para a porta fechada. _ Nossa, o que era aquilo Ale? _ Um homem. Mais especificamente, o pentelho que está atrapalhando as investigações sobre o desaparecimento do Mulder ou seja, encrenca para o nosso lado, portanto controle esse seu fetiche por agentes do FBI e concentre-se em nossos objetivos. _ Ale! Eu não tenho fetiche por agentes, e quem disse que eu me interessei por esse cara? _ Ninguém, só tive essa impressão depois de ver seu queixo cair e sua respiração se alterar na presença dele, mas acho que é tudo ilusão de ótica não é? _ Para com isso Ale, ele é sexy, só isso. Eu não estou morta. _ Dá para notar... Sil fuzilou a amiga com o olhar e voltou a se concentrar nos documentos à sua frente. Ale sorriu para si mesma: aquela era sua amiga e seu velho problema com homens de gravata... Na sala ao lado, Scully suspirou de impaciência enquanto esperava Doggett começar a falar. _ Agente Scully, por que tenho a impressão de que pretende abrir os Arquivos X para a visitação pública? _ Elas são de minha confiança e precisavam de algumas informações. Eu não estou cometendo nenhum crime. _ Abrindo arquivos confidenciais para civis? Se ninguém lhe avisou, isso é crime sim, agente Scully. _ Quer saber de uma coisa? Pode me delatar para o Kersh, já estou mesmo cansada de ver nossos esforços para encontrar Mulder se mostrarem totalmente inúteis! Tenho uma chance ainda que remota, com a ajuda delas e eu vou agarrá-la, entendeu? Faça o que bem entender. Scully virou-se para voltar à sala, mas ele segurou o braço dela com força e a encarou com raiva. _ Eu lhe prometi que o encontraria, não prometi? Acha que não estou me esforçando? Acha que estou nesta porcaria de porão porque gosto da decoração? Estou aqui porque dei minha palavra a você e vou cumpri-la, quer você goste ou não, quer você acredite ou não que estou do seu lado. Scully o encarou por alguns segundos e depois soltou-se bruscamente, voltando para a sala. Sua expressão devia estar transtornada, pois as duas mulheres a olharam assustadas quando entrou. _ Uau! O cara sabe mesmo irritar uma mulher, hein?_ Ale não disfarçava o sarcasmo em sua voz. Scully nem mesmo deu atenção à provocação, apenas começou a juntar suas coisas enquanto falava com as duas mulheres por sobre os ombros. _ Temos que ir. Peguem o que precisam, poderão ler com calma no meu apartamento. As duas trocaram um olhar significativo e começaram a juntar os documentos que haviam tirado da pasta. Ale guardou os papéis em sua mochila e deixaram a sala acompanhadas de Scully. Ao passarem por Doggett, evitaram encarar o agente que as olhava como se pudesse enxergar suas almas. Deixaram o Bureau sem trocarem uma palavra entre elas, enquanto Sil ligava para Claudia para avisar que estavam a caminho da casa de Scully. APARTAMENTO DE DANA SCULLY Claudia estava em pé, enquanto as outras ouviam sentadas à volta da mesa da cozinha, onde um bule fumegante de chá estava a disposição para espantar o frio da noite de inverno. _ Em resumo, é isso que temos em mãos: a loura anda muito amiguinha do embaixador do Marrocos e o meu amigo Frohike descobriu que estão programando uma festa em homenagem a um fulano qualquer sem muita importância. _ Está na cara que essa tal homenagem é apenas uma cortina de fumaça, a vagabunda deve estar tramando alguma coisa. Ale levantou-se e pôs-se a andar pela cozinha, irritada. Scully encarou a líder do Azul Celeste com ar preocupado. _ Skinner não vai concordar em se envolver com vocês novamente. _ Eu falo com ele, Scully. O brilho malicioso no olhar de Claudia não passou despercebido pela agente. _ Do que mais precisamos para esta tal festa?_ Sil perguntou, tomando nota das coisas que deveria providenciar num pequeno caderninho. _ Além de vestidos lindos? Que você convença o orelhudo a nos ajudar. Sil arregalou os olhos e pulou do lugar onde estava sentada. _ Eu? Por que eu? _ Porque a linguaruda da Ale contou para nós que você quase se engasgou quando viu o cara._ Clá provocava a amiga, adorando vê-la enrubescer como uma adolescente. _ Brincadeirinha, Sil. _ Claudia acabou sentindo pena do constrangimento de Sil e acrescentou depressa _ deixa que eu cuido de convencer o Skinner e faço ele colocar o nosso G-Man na parada, ele pode ser útil. Na verdade você precisa ir até o apartamento do Mulder e verificar se há sinal do pacote com o disquete e pegá-lo de volta. _ Disquete? Que disquete?_ Scully tinha a sobrancelha direita no alto, sua marca inevitável de curiosidade. _Copiamos algumas informações bem interessantes na Argélia, sobre essas suas abelhinhas perigosas e homenzinhos cinzas. Claro que não sabíamos do que se tratava mas agora que sabemos, precisamos pegar todas as cópias de volta e não podemos envolver mais ninguém nessa confusão. Ale olhava pela janela, preocupada. Havia conseguido contato com Igor, mas ele insistira em ir encontrá-la na América. Ela sabia que era uma desculpa, mas não tivera alternativa quando ele insistiu que só entregaria o disquete nas mãos dela pessoalmente. _ Ainda bem que nos antecipamos a isto. O que está com Igor teremos de volta esta semana, se aquele teimoso não fizer nenhuma bobagem. _ O enviado ao Ivan já foi interceptado pelo meu contato na Espanha. Logo estará nas nossas mãos._ Clá complementou. _ Então só nos falta aquele que enviamos ao agente Mulder. Sil, você já sabe o que fazer. APARTAMENTO DE FOX MULDER Sil observava em silêncio o movimento da rua pela janela empoeirada da sala de estar de Fox Mulder. Havia estado tantas vezes naquele mesmo lugar. Sempre que ela vinha para os Estados Unidos por qualquer motivo, dava um jeito de parar em Washington por um ou dois dias e ficar com ele. Deixava recados em código como se fosse empresas de acompanhantes ou sexo por telefone. Eles riam muito da brincadeira que, de início era mesmo só por diversão mas, depois que Mulder entrara para os Arquivos X, ela descobrira que haviam colocado escutas no telefone dele. Claudia não havia permitido que ela contasse a ele, mas Sil se tornara mais cautelosa em seus encontros. Quando Mulder se envolvera com outra agente, Diana Fowley, eles deixaram de ser amantes ocasionais, mas a amizade e o carinho haviam permanecido e eles continuaram se encontrando. Sil enxugou uma lágrima que teimava em cair. Precisava se concentrar em encontrar sua amiga. Por mais doloroso que fosse ele estar desaparecido, de algum modo, era algo que ele procurara a vida toda, mas aquilo não devia ter acontecido com Kes. Ouviu a porta atrás de si sendo aberta e permaneceu imóvel, ainda contemplando a rua, mas pronta para sacar sua arma. Doggett abriu a porta e divisou a silhueta na penumbra da sala. Entrou sem acender as luzes, parando a alguma distância da mulher que se apoiava na mesa. _ Às vezes, me pergunto quantas pessoas terão a chave do apartamento dele. Ele adivinhou que ela sorria enquanto respondia virando-se de frente para ele. _ Só Deus e o mundo, incluindo nós dois, agente Doggett. _ Você está em vantagem, uma vez que sabe meu nome. _ Meu nome está na lista de entrada do FBI, que você deve ter consultado. _ Eu me referia ao seu nome verdadeiro, Srta. Lis Houston. Ela riu alto e prendeu o olhar dele no seu. _ Eu não me lembro mais dele, agente Doggett. Além do mais, Lis Houston é uma cidadã exemplar, gosto dela. Doggett aproximou-se e parou bem perto de Sil, que fez um enorme esforço para permanecer indiferente à presença dele. Ale e suas malditas brincadeiras. Nunca acreditara em fetiches, mas aquele homem vestido de terno e gravata era mesmo perturbador. _ Uma cidadã que paga seus impostos, não tem ficha criminal, usa lentes de contato azuis e peruca loura. Seu rosto quase tocou o dela quando ele sussurrou. _ O que existe por baixo de tudo isso? Que olhos eu encontraria? Que cor de cabelos? Que tipo de pessoa? _ Eu garanto que não gostaria do que iria encontrar. _ Por que não me deixar comprovar por mim mesmo? _ Não faria bem à sua saúde, agente Doggett. _ Está me ameaçando? _ De jeito nenhum, estou advertindo, só isso. Doggett ergueu a mão mas parou no meio do caminho, intimidado pelo olhar dela. Logo ele que nunca se deixara intimidar por nada nem ninguém, estava inseguro diante de uma mulher menor e mais fraca do que ele. Só que, estranhamente, seu instinto lhe dizia que ela não era tão frágil quanto aparentava. _ Quem é você? Qual o seu interesse em Mulder? _ Mulder é meu amigo, mas não estou aqui por ele. _ Então por que está remexendo nas informações sobre o desaparecimento dele? _ Uma amiga desapareceu e suspeitamos que ela esteja no mesmo lugar que Mulder. Doggett hesitou ao ouvir as palavras, mas ela poderia estar mentindo. Então, afastou-se alguns passos sem deixar de fitá-la. _ O que está procurando aqui? _ Nada que seja do seu interesse. _Tudo o que diz respeito ao desaparecimento do agente Mulder é do meu interesse. _ Eu me lembrarei disso no futuro, quando estivermos trabalhando juntos. Ele apertou os olhos desconfiado. _ O que a faz pensar que trabalharemos juntos? Sil começou a caminhar para a porta de saída, passando pelo agente federal e quase encostando seus rostos quando sussurrou tão baixo, que ele mal a ouviu : _ Trabalharemos agente Doggett, você vai ver. Ela já deixava o apartamento, quando Doggett resolveu virar o jogo. _ Por acaso procura algo que deveria ter sido entregue por um portador a um agente do FBI neste apartamento e a ninguém mais, digamos há...uns oito dias? _ O que você sabe sobre isso? _ Sou um agente do FBI. E tenho passado bastante tempo aqui, Srta." Lis" _ Agente Doggett, preciso daquele disquete..._ o ar misterioso e a ponta de arrogância prontamente foram substituídos pela ansiedade. _ Que disquete? Não falei em disquete nenhum. Agora eu tenho de ir, se me permite. Já que tem tanta certeza assim de que trabalharemos juntos, não tem com o que se preocupar, não é? Agora era ele quem estava sendo sarcástico. O agente saiu, deixando Sil parada no meio do apartamento, pensativa. Era estranho, mas sentia que poderia confiar naquele homem. Ela pegou seu celular e discou rapidamente o número de Claudia, avisando-a sobre o fato de Doggett estar com o disquete em seu poder. Agora, definitivamente, ele estava envolvido na ação. APARTAMENTO DE WALTER SKINNER Skinner caminhava nervoso pela sala. Droga, aquela mulher devia ter parte com o diabo e estava naquele momento sentada calmamente no sofá de seu apartamento, absolutamente consciente da atração que ele sentia por ela e parecendo estar divertindo- se imensamente com a situação. Sentiu o suor escorrer pelas suas costas, causando-lhe um arrepio involuntário. Respirou profundamente e virou-se para encará-la. _ O que a faz pensar que eu, remotamente, a ajudaria Claudia? Ela sorriu. "Diabos, não faça isso, não sorria desse jeito para mim", Skinner sentia a respiração descompassada e sabia que ela havia notado o quanto sua presença o perturbava. _ Acho que podemos conseguir um acordo que seja bom para nós dois, Diretor Assistente. Skinner passou a mão pela testa suada e fechou os olhos. Deus, ele preferia milhões de vezes enfrentar a fúria daquela mulher a este joguinho de sedução que ela estava fazendo. _ Eu quero muito encontrar o agente Mulder. Se é essa a chance que temos e se a agente Scully resolveu confiar em vocês, devo a ela minha ajuda. Mas não vou permitir que vocês arruinem a vida dela ou a coloquem em risco. Entendeu? _ Fique calmo. Você a está subestimando, Walter . Acho que desta vez, ela é quem está nos metendo em encrencas. Tem o seu trato: não vou permitir que nada aconteça a ela, é a minha palavra. _ Está bem. Vou ajudar . _ E o tal agente Doggett? Ele tem algo que nos pertence e que pode ser muito perigoso se ficar por ai. _ Eu cuidarei dele. Agora preciso tomar algumas providências..._ ele queria que ela saísse do seu apartamento, antes que ele fizesse algo do que poderia arrepender-se. _ Claro, Walter. Vou deixá-lo agir. _ ela levantou-se e saiu, mas por alguns instantes, a vontade de ficar quase superou a razão. FBI - GABINETE DO DIRETOR ASSISTENTE WALTER SKINNER Scully olhava incrédula para o Diretor Assistente sentado em sua cadeira, a expressão cuidadosamente neutra. Doggett andava pela sala parecendo um animal enjaulado. _ Senhor, não acredito que esteja me pedindo isso. Essas mulheres, saídas do nada, podem ser perigosas. _ Eu as conheço, Agente Doggett e sei bem o quanto elas são perigosas, mas estou fazendo este pedido extra oficialmente. Elas podem conseguir uma pista sobre o paradeiro de Mulder e eu confio na capacidade delas. Doggett fitou Scully, pedindo ajuda, pedindo para ser considerado, para não ser mantido no escuro, mas a agente ignorou o parceiro. _ Terá seu maldito disquete, agente Scully. Mas eu participarei de tudo de agora em diante. Não vou obedecer como um cãozinho treinado. Ou é do meu jeito, ou não tem acordo. Skinner ia reagir à exigência do agente quando foi detido pela voz de Scully. _ Está certo, agente Doggett. Você vai participar de tudo o que fizermos, se esse é o seu desejo. Mas não me culpe se isto arruinar sua carreira. Não tenho forças para tentar convencê-lo de nada, nem tempo para discutir com você. Tenho uma chance de encontrar Mulder e não vou deixá-la escapar, por nada. _ seu tom era sereno, mas demonstrava uma obstinação irrefutável. Doggett baixou os olhos, pensativo. Depois, recuperou a calma e concluiu._ Certo, agente Scully. Assumirei meus próprios riscos. Vou buscar o que quer._ saiu e deixou Skinner e Scully calados, pensativos. EMBAIXADA MARROQUINA 15/12 O grande lustre de cristal, suspenso no meio do salão, despejava sobre todos uma luz quase surreal, realçando as roupas elegantes dos convidados que ocupavam a embaixada aquela noite. Alguns dos casais ali, entretanto, dançavam embalados por algo mais do que a linda melodia de Mozart. _ Você nos deu bastante trabalho, sabia? O que é que você tem contra o correio? _ Eu não ia perder essa oportunidade para um carteiro. Depois, você sabe que o correio não é seguro...Cães enormes atacam carteiros todos os dias... _ Não! Não me diga que ele fez isso de novo?_ ela afastou- se do parceiro de dança por um instante, para olhá-lo com ar incrédulo. Depois sorriu divertida _ Como está o Czar? Sinto falta dele... _ Ele está bem, mas o carteiro disse que vai me processar por danos morais. O nosso querido Czar parece saudável, embora eu ache que ele já está ficando meio caduco. Ainda passa horas na janela esperando por você... Já cansei de explicar que você nos deixou, mas às vezes eu mesmo me pego na janela com ele, esperando..._ ele a fitou nos olhos, com um ar tristonho, que ela conhecia muito bem _ Igor, por favor...não faça isso com a gente... _ Eu sei, eu sei...desculpe. Vamos apenas dançar e aproveitar este instante. Depois você pega o seu misterioso disquete e segue o seu caminho, como sempre. No outro lado do salão, um par parecia estar com problemas... _ Eu vou lembrar você de um detalhe, Sr. Frohike. Estou armada! Se pisar nos meus pés mais uma vez, será a última coisa que fará nesta vida! _ furiosa, dentro de um lindo vestido azul, Clá amaldiçoava a idéia sacana da Claudia, de dividir os pares por altura. _ Sinto muito, eu estou me esforçando, juro... _ "uau... ela é quente!", pensou. _ Localizou a tal loira? _ Ainda não. Vou checar os outros. _ falando próximo do pequeno broche de lapela, Frohike checou o cerco que preparavam para Marita Covarrubias._ Sr. Skinner? Está me ouvindo? Avistou nosso alvo? Há poucos metros ali, seu chamado era atendido pelo elegante homem calvo, que dançava com uma mulher de inconfundíveis olhos verdes. _ Nada ainda Frohike. Fique na escuta, vamos nos aproximar do embaixador. Se ela vai tentar alguma coisa, tem de ser com ele. _ Acha mesmo que ela está aqui por algum motivo além de nós, Walter?_ Claudia perguntou em um tom misterioso. _ Claro que sim, afinal, ela nem sabe que estamos aqui. _ Começo a acreditar que ela não apenas sabe, como criou tudo isso para nos atrair exatamente para onde queria... _ Do que é que você está falando? Como assim? _ Olhe para a nossa direita, 14 horas. O que vê? _ Vejo a sua amiga Sil, parada junto a um pilar, atenta a movimentação no salão. _ Ótimo. Então pode me dizer quem é que está à nossa esquerda, dançando com aquele seu agente orelhudo? Skinner virou-se rapidamente, constatando que a mulher estava certa. Imediatamente, alertou todos os outros e saiu atrás de Claudia, que desaparecia pelo corredor lateral atrás da estranha Sil extra... Todos chegaram quase ao mesmo tempo ao hall que ficava na lateral do grande salão de baile. Claudia olhava confusa para os corredores vazios. Skinner estava parado logo atrás dela, também parecendo confuso. _ O que aconteceu, Claudia?_ a voz de Sil ecoou logo atrás deles O diretor assistente e a terrorista viraram-se ao mesmo tempo com as armas apontadas para Sil, que recuou com as mãos levantadas, tropeçando no vestido longo. Igor e Ale impediram que caísse. _ Que é isso, Claudia? Ficou maluca?! _ Havia duas dela no salão Ale, nós vimos. _ É verdade, exatamente iguais. _ Senhor, nós não nos separamos em nenhum momento desde que o baile começou. Claudia olhou desconfiada para Doggett, mas Skinner já abaixava a arma. _ Precisamos encontrar a impostora. Acho melhor nos separarmos. A líder do Azul Celeste não tirava os olhos de sua amiga. Não precisava mais do que um olhar para saber se ela era realmente a verdadeira Sil. Se ela ao menos decidisse encará- la... _ Sil, olhe para mim. _ Claudia... Ale impediu Clá de continuar falando. O silêncio constrangido era palpável na penumbra no pequeno hall. Todos os olhares estavam pregados na mulher de vestido vermelho, a respiração alterada fazia o corpete justo movimentar-se para cima e para baixo. Ninguém se moveu até ela finalmente decidir encarar a amiga. Depois de poucos segundos, Claudia baixou devagar a arma. _ Ótimo Claudia. Enquanto você desconfia de mim, essa coisa foge ilesa e leva com ela nossa única chance de salvar a Kes!_ Sil parecia magoada, mas não perdeu tempo. Sacou sua arma e passou como um raio por todos, desaparecendo em um dos corredores escuros. Clá a seguiu, enquanto Skinner sinalizava a Doggett para seguí-lo por outro corredor. Igor acenou para Ale e chamou os Pistoleiros para acompanhá-lo pela última passagem. Claudia e Ale ficaram sozinhas no hall, a líder com a mão sobre os olhos. _ Droga Ale, eu não podia ter feito isso. _ Você fez a coisa certa, não tínhamos como saber se ela era mesmo a nossa Sil. _ O agente Doggett disse que não tinham se separado, eu devia ter aceitado a palavra dele. _ Eu não aceitaria, repito, você fez bem. Sei que ela está muito abalada com tudo isso. Não está sendo fácil para ela lidar com o desaparecimento de duas pessoas com as quais ela se importa muito. Sem contar que a relação entre vocês ainda está estremecida por causa de tudo o que aconteceu nos últimos dias. Mas ao menos você precisa manter o sangue frio, todas precisamos de alguém capaz de raciocinar com clareza nesse momento e você sempre foi o "cérebro mais rápido do oeste"... Claudia sorriu e acenou concordando com o fato de que não podia perder tempo com certas coisas agora e as duas mulheres começaram a caminhar na mesma direção que Clá e Sil haviam tomado. Mais adiante, Clá andava pelos corredores a esmo, até que viu o brilho do tecido vermelho em uma curva que o corredor estreito fazia. Ao virar, deu com uma porta que acabava de se fechar. Correu até lá e entrou, encontrando Sil que deu-lhe um olhar e virou-se de costas. _ Sil? _ hesitou por um instante, mas não quis repetir o erro de minutos atrás _ Amiga, não fica assim, você sabe que ela age com a razão em cem por cento das vezes. Nem sempre gostamos do que ela faz, mas precisamos concordar que é muito eficiente, na maioria das ocasiões. Enquanto falava, ela se aproximava da amiga. Quando estendeu a mão para tocar a outra, o corpo pequeno a sua frente aumentou de tamanho repentinamente e, antes que a jovem pudesse esboçar um movimento de recuo, já tinha seu braço seguro pela mão do homem que a puxou para junto de si com violência, a outra mão apertando com força seu pescoço, fazendo- a engasgar com a falta de ar. Ouviu vagamente, atrás de si, um grito, seguido de mais outros dois. Seu corpo foi virado de frente, ficando como um escudo para o homem que a segurava. Sentia seus pés balançarem, distantes um bom pedaço do chão, enquanto seu cérebro esforçava- se para permanecer consciente e seus pulmões lutavam para receber um pouco de ar. As três mulheres imediatamente apontaram suas armas para o homem alto que segurava Clá bem junto a si. Sil lembrou-se do que Scully havia contado a elas. _ Ale, Claudia, não podemos atirar. Se só o ferirmos, o sangue dele será tóxico para nós. _ Sil, você não acredita nisso de verdade, acredita? Ale não tirava o homem da mira mas a mão de Sil segurou seu pulso delicadamente. _Mesmo que não seja verdade, não podemos arriscar a vida da Clá. Ale fechou os olhos frustrada e baixou a arma. O homem não se movera um milímetro. Nem pronunciara uma palavra, apenas segurava a jovem bem perto de seu corpo, protegendo-se de um ataque, e deu um leve sorriso quando as viu baixando sua armas. _ Afinal, o que você quer conosco? _ Ele não quer nada, é apenas um emissário. Claudia não precisou voltar o rosto para saber quem falava. A voz antipática da loura estava como que gravada a fogo em sua mente. Sil e Ale apontaram as armas para ela mas Marita não parecia estar com medo. _ Se quiserem sua amiga viva, devem negociar comigo. _ Não vamos negociar nada com você, sua vaca. _ Ora Claudia, não precisa ser tão agressiva. Foi uma pena o relatório ter desaparecido, eu teria adorado entregá-lo aos Israelenses. Sil e Ale trocaram um olhar discreto, mantendo a loura em suas miras. _ É melhor baixarem as armas, meu amigo aqui não costuma brincar em serviço. _ Nós também não. _ É eu sei, a intervenção de vocês na Argélia nos causou um prejuízo enorme. _ Vamos direto ao assunto: manda o gorila ali soltar a Clá e a gente não mata você. _ Você não está em posição de dar as ordens, Claudia. _ Ah, estou sim. Tenho as armas na sua cabeça e garanto que vai valer a pena perder um membro do grupo só para ter o prazer de ver seu cérebro se misturar a esse cabelo louro tão bem cuidado. Apesar do susto que as palavras de Claudia causaram nas companheiras, todas permaneceram impassíveis. Até mesmo Clá, que estava apavorada, transmitia uma tranqüilidade que estava longe de sentir naquele instante. Marita pareceu hesitar, decidindo se aceitava ou não o blefe, mas por fim, capitulou. _ Muito bem Claudia, eu quero fazer um trato justo. Quero os disquetes que vocês copiaram na Argélia, todos eles. Em troca, posso conseguir que devolvam a sua amiga a salvo. _ Como saberá se lhe entregamos todos os disquetes? _ Entregarão todos os três. Marita sorriu maldosamente quando elas se entreolharam desconcertadas. _ Sua amiguinha é corajosa mas não pode resistir às torturas para sempre._ a expressão de Marita era de satisfação extrema. Ale fechou os olhos quando sentiu o chão mover-se embaixo de si e o rosto cínico da loura sair de foco. Percebeu que duas mãos a seguravam, impedindo-a de desabar no chão de uma vez. Ouviu a risada da mulher que as ameaçava e respirou fundo, enquanto a voz de Claudia parecia vir de um lugar cada vez mais distante. _ Que garantias temos de que nos devolverá Kes com vida? _ Faremos a troca ao mesmo tempo. Assim está bom para você? Claudia acenou concordando. Apontou a mão displicente para o homem que ainda segurava Clá firmemente contra si. _ Manda o seu "pokemon" soltá-la agora. Marita acenou e Clá desabou no chão tossindo e respirando avidamente o ar que subitamente voltara a passar por sua garganta. Percebeu vagamente que Claudia corria para ela e a amparava. Não notou quando a loura e o homem deixaram a sala, mas foi impossível não perceber quando os outros chegaram apressados, atropelando-se na entrada estreita. Sil havia avisado a todos quando vira Clá seguir sua sósia até a pequena sala. Igor correu para Ale, que voltava lentamente a colocar o mundo ao seu redor em foco e levantou a mão, impedindo o russo de tocá-la. _ Eu estou bem, apenas me deixem respirar ok? Será que alguém pode ver se a Clá está bem? _ Ela está bem Ale, deixe o Igor levantar você. _ Eu posso levantar sozinha, não sou inválida. E estou boa o suficiente para notar vocês dois trocando esses olhares cúmplices. Podem parar com isso entenderam? Sil e Igor desviaram os olhos um do outro, constrangidos. Os dois eram os únicos que desconfiavam o que se passava com ela e preocupavam-se, mas não podiam fazer nada contra a teimosia de Ale que continuava recusando-se a procurar um médico. Menos de dez minutos depois estavam todos à entrada da Embaixada, prontos para voltarem ao apartamento de Scully. Ninguém entendera o porque de Scully ter desistido de ir com eles apenas alguns minutos antes de partirem, mas Skinner parecera achar tudo muito normal e havia evitado comentários a respeito. Agora, ele se aproximara do grupo e avisara que Scully os esperava. Um pouco afastados dos outros, Igor se despedia de Ale com uma expressão preocupada. _ Não quero partir assim, deixando você nestas condições. _ Igor, eu estou perfeitamente bem, pare de se preocupar. _ Promete que irá procurar um médico assim que essa confusão terminar? _ "Se" e "quando" essa confusão terminar, eu procuro um médico, está bem? O homem não pareceu convencido, a teimosia de Ale não lhe era desconhecida mas ele apenas acenou com a cabeça enquanto se inclinava para beijá-la. Depois afastou-se sem uma palavra, desaparecendo na escuridão da noite como um fantasma. Ale ainda ficou olhando para o vazio alguns segundos, até que as vozes de suas amigas que já estavam prontas para deixarem a embaixada a despertaram de seus devaneios. Caminhou lentamente até elas e, sem uma palavra, entrou no carro que partiu a toda velocidade em direção ao apartamento de Dana Scully. APARTAMENTO DE DANA SCULLY Parecia que a confusão que se iniciara na Embaixada Marroquina havia se transferido para o apartamento de Scully. Ela passara a última meia hora escutando incrédula os detalhes do que acontecera no baile. Os Pistoleiros Solitários haviam saído há poucos minutos e Skinner e as mulheres do Azul Celeste estavam finalmente quietos, enquanto Scully tentava ordenar seus pensamentos. Sem aviso, Doggett levou a mão ao bolso de seu traje elegante e retirou um disquete e todos os rostos voltaram-se para ele quando falou. _ Eu acho que vocês vão precisar disso. E acho que estão certas, a vida de sua amiga vale muito mais do que qualquer informação que possa estar gravada aqui. Claudia se levantou e pegou o disquete, a expressão indecifrável no rosto. _ Obrigada Agente Doggett. Ele apenas acenou para as outras, seus olhos se detendo no rosto de Sil. Durante a noite, enquanto dançavam, ela lhe contara seus verdadeiros nomes ou melhor, os nomes que elas haviam escolhido para si, uma vez que não usavam seus verdadeiros nomes em nenhuma ocasião. Ele poderia ter lhe entregado o disquete lá, mas não o fizera e agora podia ler nos olhos escuros que ela se magoara com sua atitude. Desviando o olhar, despediu-se de todos com um rápido boa noite e deixou o apartamento. Skinner logo rompeu o silêncio que se estabelecera quando Doggett saíra. _ Precisamos marcar um encontro para vocês entregarem estes disquetes. _ Ela sabe meu número Skinner, vai ligar, não se preocupe. _ E você pretende encontrá-la sozinha? _ E o que sugere? Guarda Costas? Dúzias de caras do FBI armados até os dentes? Não sou indefesa Skinner, você já deveria ter notado isso. " E como notei " mas em voz alta ele tentou parecer casual. _ Eu apenas ia sugerir acompanhar você, apenas por segurança. Claudia arregalou os olhos enquanto as outras três tentavam, sem muito sucesso, fingir não perceber o que se passava entre o Diretor Assistente e sua líder. _ Skinner, tenho minha própria equipe... _ Estaremos ocupadas, além disso a loura pode se intimidar com a nossa presença. É melhor mesmo que o Diretor Assistente vá com você, só por precaução é claro. Sil não segurou o riso quando Ale terminou de falar e se afastou em direção à cozinha onde Scully colocava as xícaras de café na lava-louças. Clá olhava pela janela, o corpo sacudido por risadas abafadas. Skinner estava vermelho como um pimentão por saber que estava agindo como um adolescente idiota. Claudia não se abalou, acostumada com as brincadeiras que as amigas adoravam fazer. _ Bem, se todos concordam que será mais seguro para mim... A ênfase na frase "para mim" não passou desapercebida a Skinner que, meio sem jeito começou a se despedir quando Scully voltou da cozinha acompanhada por Sil. Claudia e as outras também se prepararam para sair. Sil chegou perto da amiga e falou bem baixo de modo que apenas ela pôde escutar. _ Eu encontro vocês no hotel em uma hora. Claudia a olhou interrogativamente. Sil indicou Scully com a cabeça. _ Preciso esclarecer algo...e nós duas também precisamos conversar mas só depois que esta loucura toda terminar. _ Sil... _ Depois Claudia, depois... A líder apertou os lábios e acenou concordando, seguindo Skinner e as outras duas. Depois que todos saíram, Sil começou a andar pela sala pensando em como abordar um assunto tão delicado como aquele. Todas haviam notado que Scully estava estranha mas apenas Sil percebera o que realmente estava acontecendo. Claro, acontecera com ela e, embora ela fosse bem mais jovem do que Scully na época, sabia que os medos e inseguranças eram os mesmos. Decidiu ir direto ao assunto, parou em frente a Scully que não conseguiu suportar o olhar intenso que parecia enxergar sua alma. _ Você está grávida, não está? Scully encontrou os olhos da mulher à sua frente. Por um momento, seus pensamentos se perderam em pequenas cenas do passado. Aquela mulher havia estado com seu parceiro, ela sabia o quanto Mulder ainda significava na vida dela e, mesmo assim, o brilho sincero que viu em seus olhos, aliado à sua desesperada necessidade de encontrar Mulder, seja de que maneira fosse, lhe deu coragem para contar seu segredo à ela, mesmo que apenas com um pequeno menear de cabeça. Sil afastou-se da agente. Passava as mãos pelos cabelos imaginando consigo mesma que pecado Mulder estaria pagando. 'Será que ele nunca encontraria paz? Será que nunca teria a felicidade de segurar um filho seu nos braços?' Respirou fundo e voltou-se para Scully, que olhava para as próprias mãos, numa aparente luta interior, tentando encontrar palavras para expressar e explicar algo que mais uma vez não entendia, apenas sentia. _ Nós vamos encontrá-lo Scully. De algum modo, nós vamos conseguir encontrá-lo_ Sil percebeu a tensão e preferiu apenas oferecer segurança, sem mais questionamentos. Scully suspirou desanimada. Estava cansada, não podia negar. _ E-eu tento não perder as esperanças mas, é muito difícil. Às vezes, eu me sinto tão desamparada, tão indefesa...é algo estranho para mim, eu sempre fui forte..._ ela parou e em sua mente formavam-se as palavras que não conseguia admitir a ninguém_ mas eu era forte por ele. E não importava o quanto tudo fosse difícil, o quanto quisessem fechar os Arquivos X ou nos impedir de continuar, ou atentar contra nossas vidas... no final ele estava sempre aqui, entende? Estava aqui para me desafiar, para me irritar ou amparar com seu sorriso, empolgado com as coisas mais absurdas... com sua busca por uma verdade que se tornou também a minha. E eu acreditei na ilusão de que ele sempre estaria aqui e deixei para depois o que deveria ter feito antes e agora isso foi tirado de mim. Às vezes, acho que estou enlouquecendo em silêncio. _ Uma longa pausa recompôs sua eterna figura serena, que a fazia parecer, a quase todos, inabalável _ desculpe, desde que descobri que estou grávida, pareço uma criança idiota. Sil deu um pequeno sorriso, compreendendo que a agente havia ido bem além do que se permitia normalmente. Ela se expusera, mas imediatamente tentava racionalizar o que julgava ser uma fraqueza. _ Não se preocupe, a gravidez nos deixa meio que atordoadas, fora da realidade. E com tudo isso que está acontecendo, não é de se espantar que você esteja assim. Scully balançou a cabeça e sorriu_ Parece absurdo. Aqui estou eu me sentindo mais confiante ao procurar meu parceiro com um grupo de terroristas internacionalmente procuradas. Posso perder o emprego pelo qual abri mão de tantas coisas...Mas, sinceramente, já não me importo mais. _ Quem mais sabe? _ Skinner... _ Mais ninguém? Não contou ao seu atual parceiro que está grávida? _ Não eu...ainda não confio nele plenamente, ele foi designado por Kersh, que está fazendo de tudo para fechar os Arquivos X, não posso me arriscar a perder nenhuma chance de encontrar Mulder, entende? _ Sim, eu entendo, mas ainda acho que ele deveria saber. Eu sei como é horrível ter que esconder uma gravidez de todos à sua volta. Em todo caso, a decisão tem que ser sua Scully. HOTEL HILTON 4:24 AM O toque estridente e extremamente alto no silêncio da madrugada as despertou. A voz de Sil transmitia urgência no recado curto e direto _ Em nosso quarto, agora_ Clá e Ale levantaram-se depressa e minutos depois estavam sentadas na cama de Sil, olhando para Claudia que terminava de vestir-se, apressada, enquanto falava. _ Ela quer um encontro agora, só nós duas. _ Claudia, acho que deveríamos avisar o Skinner... _ Não há tempo. Eu vou para o endereço que ela me deu enquanto você o avisam. Digam a ele para não se aproximar demais nem deixar que o vejam. Aquele macaquinho ensinado que ela tem estará por perto, com certeza. Enquanto Claudia se preparava, as outras três apenas a observavam preocupadas. Ela parou por um instante observando as amigas. _ Ei meninas, fiquem tranqüilas, vai dar tudo certo. As outras apenas acenaram sem muita convicção. Claudia pegou os três disquetes e guardou-os no bolso da jaqueta de couro, depois escondeu sua arma no outro bolso e saiu sem se despedir. As três ficaram em silêncio por alguns minutos até que Sil estendeu a mão para o telefone e discou o número que Claudia havia deixado na mesa de cabeceira. Quando a voz sonolenta atendeu a chamada, ela nem se preocupou em identificar-se. _ Ela está indo encontrar-se com a loura agora, anote o endereço... PÁTIO DE TRENS 4:59 AM Seus passos faziam um som esquisito nos pedriscos que cobriam toda a área do grande pátio de trens abandonados. Sucatas enormes, aguardando o futuro enquanto o passado apodrecia e servia de alimento para os cupins, lançavam sombras fortuitas por todo o lugar. Mas, era impossível caminhar em silêncio por ali. "Malditas pedrinhas" Skinner estava tenso, a arma na mão direita, mantida dentro do bolso do sobretudo, enquanto andava pela lateral de uma grande composição de vagões escuros. Elas deviam estar por ali, em algum lugar, mas ele não conseguia imaginar onde. Parou por um instante, para ouvir ao redor, livre do barulho irritante de seus próprios passos. Não entendia porque, mas temia que Claudia tivesse apenas caído numa armadilha. Um som mais alto fez com que se virasse rápido, a arma em punho, mira pronta no meio do alvo que surgia a sua frente. _ Calma, Walter. Sou eu. _ a voz de Claudia soou tranquilizadora, quase reconfortante. _ Onde está ela? _ Já foi. Pegou os disquetes, riu um pouco de mim e se foi. Em troca, deixou uma data e um monte de números, coordenadas de latitude e longitude. Está feito, agora só nos resta esperar. _ Você...está bem? _ sua postura séria denunciava o desconforto que sentia, ao perceber que preocupava-se com ela. _ Eu? Eu estou sempre bem, Walter. Mas vou estar ainda melhor quando esse jogo virar e eu puder calar a risada desta desgraçada para sempre. Mas eu sei esperar, ela nem imagina o quanto eu sei esperar..._ ela pareceu pensar em algo distante, sobre o que ele nunca imaginaria e calou-se por um instante. Logo depois, seu tom habitual estava de volta_ Bom, já que você saiu da sua cama e veio até aqui, podíamos tomar um café, antes de voltar ao mundo real, não é mesmo? _ Um café? _ Skinner entendia o que ela dizia, separando aquilo do mundo real. No mundo real suas vidas nunca se cruzariam _ É, podemos tomar um café. Os sons de seus passos, juntos, perderam-se na noite fria de Washington. LOCAL DESCONHECIDO Um pesadelo ininterrupto, era isso o que estava acontecendo. Não bastasse o horror que lhe era imputado quando estava acordada, sua mente era também inundada de imagens durante os alternados períodos em que perdia a consciência. O número de estímulos em sua mente era enorme, como se cada célula de seu corpo estivesse sendo incomodada isoladamente. O cérebro já não conseguia mais proteger-se, como se todos os processos humanos de defesa do organismo tivessem sido desativados, uma a um. Enlouqueceria definitivamente se não conseguisse descansar por pelo menos alguns instantes. Mais uma vez despertava, ou desmaiava, já não sabia mais a diferença entre um estado e outro. Dessa vez, entretanto, tudo estava diferente. Havia um silêncio profundo no lugar, o zunido constante que inundava a sala desaparecera totalmente. Não sabia mais se era realidade, mas podia ouvir uma voz humana, de mulher, um pouco distante dela. Não conseguia mover-se, ou olhar em volta, mas agora tinha certeza de que ouvia passos ecoando pelo piso de metal, aproximando-se por trás dela. Não conseguiu ver quem era, apenas sentiu quando uma agulha lhe foi introduzida na base da coluna e uma insuportável sensação de calor ganhou cada parte de seu corpo. Inesperadamente, logo depois do primeiro momento, em que achou que perderia finalmente a vida, o calor foi sendo substituído por alívio, as dores se abrandaram e sua mente silenciou totalmente. Perdeu a consciência novamente, mas foi reconfortante desta vez. DESERTO DO ARIZONA DOIS DIAS DEPOIS O deserto, iluminado pela luz da imensa lua cheia, parecia infinito. Quilômetros e quilômetros de nada por todos os lados. Dentro do jipe, seguiam em silêncio, atentas às coordenadas indicadas pelo aparelho de GPS. _ Ale, mais um quilômetro e você deve virar treze graus a direita. _ "Treze graus"? Sil, você tá achando que essa coisa redondinha aqui, que alguns chamam de volante, vem com transferidor acoplado? Que diabos são treze graus no meio do deserto? _ Às vezes você tem o dom de me irritar, sabia? _ Eu? Você e os seus treze graus à direita! _ Chega! Parem vocês duas._ a paciência de Claudia não era eterna_ Ale, pare de resmungar e Sil, deixe de sacanagem e use a bússola para nos manter no rumo. _ Tá..._ Ale concordou, ainda resmungando, mas já com vontade de rir. _ Certo..._ concordou também Sil_ Sua desorientada!_ completou baixinho, sem resistir a uma última provocação, que a fez rir baixinho, evitando o olhar de repreensão da líder. Seguindo as instruções cuidadosamente, dirigiram por mais alguns quilômetros no deserto, até chegar ao ponto exato indicado no mapa. Pararam o jipe, desceram e ficaram por alguns minutos caladas, apenas olhando umas para as outras... Skinner, Doggettt e Scully haviam descido do outro jipe que as seguia de perto e olhavam confusos para a imensidão vazia do deserto. _ Maldição!_ Claudia estava furiosa. _ Eu nunca devia ter acreditado naquela maldita mulher! _ Caraca! Nada! Não tem nada aqui! _ Clá complementou, já sentindo-se sem esperanças. _ Calma, pode ser que esteja aqui!_ Skinner tentava manter a calma. _ Ah! Isso já está acabando com meus nervos, senhor Skinner! Não tem nada aqui! Nada além de um monte de areia e arbustos retorcidos! _ Ale abaixou-se, apanhando na mão um punhado de areia e deixando logo depois que ela escapasse lentamente entre seus dedos. _ até onde vai esse maldito joguinho de pistas falsas e verdades que escapam por entre nossos dedos?_ parou e fitou demoradamente a pequena pedrinha que sobrara em suas mãos e depois a lançou para longe, com força. _ Hei! Vocês viram isso? _ Isso o quê? _ A pedra...sumiu!_ Clá tinha uma expressão atônita. _ Sumiu nada! Você ia ver uma pedrinha daquele tamanho nessa escuridão? _ Eu sei o que estou dizendo! A pedra...a pedra sumiu no ar, eu fiquei esperando para ver onde ela ia cair, mas não caiu!_ ela correu na direção do lugar onde vira a pedra desaparecer, seguida por todos, que ainda que incrédulos, não resistiram ao estranho fio de esperança. _ Vejam só! Vejam isso!_ Radiante, Clá via sua própria mão desaparecer diante dela, ao transpor uma certa faixa do terreno. _ Que diabos é isso? _ Não sei o que é, mas sei que é o que procuramos. Deve haver uma maneira de entrarmos nesta coisa, seja lá o que for! _ Só tem um jeito de saber. Clá, faça sua mágica! _ Pode deixar comigo. _ imediatamente buscou no carro um pequeno detonador. Não queria um grande estrago, nada que pudesse por a vida de Kes em perigo, mas precisava fazer um buraco naquela camuflagem, o suficiente para que pudessem entrar. _ Pronto, todos para trás do Jipe! O som baixo da pequena explosão ecoou pelo deserto e uma nuvem de poeira cobriu o local. Depois que o pó se dispersou, puderam ver o buraco, que se destacava aberto no meio do nada, dando passagem para o interior da estranha estrutura. Um certo receio se apoderou do grupo, que olhava assustado para dentro, tentando entender o que via. _ Bom...acho que temos de entrar, certo?_ tomando a frente de sua equipe, Claudia esgueirou-se pela passagem, evitando as bordas de metal ainda quentes. Desapareceu dentro do buraco, voltando segundos depois para indicar que o caminho estava livre para que eles a seguissem. O buraco dava para um apertado corredor, de teto baixo, que causava uma sensação de sufocamento. Dividiram-se em grupos, Clá e Ale seguiram à direita no corredor, Scully, Sil e Claudia à esquerda. Skinner e Doggett, foram por uma passagem lateral mais larga que os corredores. _ Parece que quem construiu essa coisa gostava muito de labirintos_ diante da nova bifurcação, Ale tentava decidir que caminho explorariam primeiro. _ Clá, vamos nos separar. Está com sua arma? _ Acho que não vai ser muito útil contra seja quem for que encontrarmos aqui, mas está comigo. Eu vou por aqui. Se encontrar algo, grito. Dependendo do tom, você corre na minha direção, ou para saída... _ Eu não vou perder mais ninguém para esses cinzentos cretinos, mocinha. Então, cuidado. Clá seguiu devagar, atenta a tudo a sua volta. Painéis iluminados, mas sem botões dominavam grande parte das paredes. Símbolos que não conhecia espalhavam-se por todo o lugar e há alguns segundos notara um leve pulsar ritmado nas luzes internas. Alguma coisa estava mudando ali e ela sentia que tinham pouco tempo para achar Kes antes que estivessem todas em encrencas. A primeira sala que encontrou estava aberta, mas vazia. No centro, havia uma estranha mesa, cercada de equipamentos que lembravam o cenário de um filme de terror que vira muitos anos atrás. No lado oposto da sala, havia outra porta, fechada. Aproximou-se dela e analisou o painel lateral, onde três pequenos interruptores estavam dispostos horizontalmente. Tocou o primeiro deles, mas nada aconteceu. Tentou o segundo e o terceiro, sem resultados. Combinando-os, fez outras tentativas, até que finalmente um estalo foi ouvido e a porta sumiu bruscamente dentro da parede, deixando Clá paralisada diante do que vislumbrou dentro da sala. Uma mistura de alívio e apreensão intensa percorreu seu corpo quando seus olhos pousaram na figura inerte, firmemente atada a uma mesa igual a que vira na sala anterior. _ Eu a encontrei!_ finalmente conseguiu articular o alerta a suas companheiras pelo pequeno rádio que trazia preso em sua roupa. A primeira a responder foi Ale, que imediatamente reuniu o resto do grupo e em segundos, todas rodeavam a maca, chorando em silêncio ao contemplarem o estado físico de Kes. Scully tocou a pele fria com receio mas logo sorriu entre as lágrimas contidas a custo. _ Ela está viva, muito fraca mas viva. Precisamos tirá-la daqui. Enquanto Scully e Sil tentavam entender os controles da estranha mesa, Claudia, Ale e Clá analisavam as possibilidades de colocarem uma bomba no lugar. _ Por mim, explodia logo essa droga toda antes dela conseguir levantar vôo e dava uma lição nesses sujeitos... _ Acha que devemos mesmo correr este risco, meninas? Este negócio pode ser movido a energia nuclear ou coisa parecida. E se explodirmos isso e contaminarmos o estado? Não que eu ligue para isso, mas não teremos tempo de nos colocarmos em segurança. Ale parecia contrariada mas, depois de pensar um pouco encarou a líder com determinação. _ Certo, deixamos esse treco ir embora, mas me deixe ao menos dar trabalho para eles, pelo que eles fizeram com a Kes. Claudia concordou com a cabeça e soltou um "seja rápida" por trás dos ombros enquanto voltava para junto das outras que haviam conseguido tirar Kes da mesa e tentavam reanimá-la sem sucesso. Scully levantou a cabeça, a expressão tristonha. _ Ela está muito machucada, precisamos levá-la a um hospital. Skinner e Doggett acabavam de entrar na sala. A expressão na face do Diretor Assistente era de tristeza quando aproximou- se do grupo de mulheres. Doggett ficou montando guarda na porta, lançando olhares preocupados para Scully. _ Agente Scully, vasculhamos praticamente todo este lugar. Não sei explicar como isto funciona, mas não conseguimos encontrar vestígios de mais ninguém. Scully balançava a cabeça, recusando-se a aceitar. _ Pessoal, precisamos tirar a Kes daqui._ A voz de Claudia pareceu despertar todos de um torpor estranho. Skinner adiantou-se e pegou a jovem inconsciente em seus braços, recebendo olhares agradecidos das quatro terroristas. Quando começaram a deixar a sala, Claudia ouviu o chamado discreto de Sil e parou, fazendo Ale e Clá se virarem também. Sil apontou Scully com a cabeça. _ Claudia, eu não posso sair daqui sem ao menos ter certeza de que procurei em todos os lugares possíveis. _ Sil, o Skinner disse... _ Eu preciso tentar! Não posso ir embora desse jeito! Claudia suspirou e cruzou um olhar com Ale, que concordou com a cabeça._ Ok, mas vocês terão de ser muito rápidas. _ o lugar todo começava a trepidar e a velocidade com que as luzes pulsavam aumentara, indicando que a nave já detectara a presença deles ali e preparava-se para partir._ Vamos tentar atrasá-los, causando alguns danos a estes painéis_ com um gesto, apontou para o pequeno dispositivo que Clá havia preparado no canto da sala, perto de um painel de controle _ nada que cause um estrago definitivo, será apenas para mostrarmos a esses tipinhos que não estamos para brincadeiras e tentarmos ganhar alguns segundos. Sil acenou e, sem uma palavra, aproximou-se de Scully que discutia com Doggett na entrada da sala. _...isso é pessoal, agente Doggett! Não vou sair daqui sem ele! _ Agente Scully, não está entendendo, ele não está aqui. Eu e o diretor Skinner já olhamos em todos os lugares possíveis. _ Então olharemos nos lugares impossíveis. Vamos, Scully, eu ajudo você!. Doggett e Scully viraram-se assustados com o tom da voz de Sil. Os olhos escuros exibiam uma determinação e uma força que o agente nunca esperaria encontrar em uma mulher aparentemente tão frágil. Scully olhou agradecida para a mulher diante dela. Sem nenhuma palavra, as duas se afastaram, desaparecendo pelos corredores que pareciam ainda mais assustadores, com a iluminação que oscilava num ritmo cada vez mais frenético. Doggett ficou parado observando o vazio até que a voz sarcástica de Ale chamou sua atenção. _ Acho melhor não ficar aí parado...Agente Doggett, estamos tentando deter essa coisa e este painel onde está o seu cotovelo será o primeiro a ir pelos ares. Doggett arregalou os olhos quando as três mulheres passaram por ele e decidiu seguí-las. _ Vocês não pretendem explodir isso aqui, pretendem? _ Ei "NYPD", não somos idiotas, vamos apenas dar uma atrasada nesses cretinos e dar algum tempo a agente Scully e a Sil procurarem o Escoteiro. _ É, e esses sujeitinhos feios vão aprender da pior maneira possível a não se meterem com o Azul Celeste. _ Se quiser, pode nos acompanhar e ver como vocês, agentes da lei, não são páreo para nós._ Ale o provocava deliberadamente mas Doggett não se afetou, continuou seguindo as três mulheres, genuinamente interessado no "modus operanti" daquele grupo terrorista tão fora dos padrões conhecidos. Sil e Scully andavam depressa pelos corredores, apertando botões e entrando novamente em todas as salas que viam pela frente. _ Onde eles podem tê-lo escondido? _ No mesmo lugar em que eles próprios estão Scully. Você não acha que este lugar enorme está vazio só esperando a gente vir buscar a Kes, acha? _ Então eles estão nos vendo? _ Com certeza, e acredito que só não estão reagindo por ordens de alguém ligado àquela vagabunda loura. _ Marita Covarrubias... _ O quê? _ É o nome da vagab...da loura. _ Que seja, é uma vagabunda mesmo. Sil procurava passagens nas paredes lisas, olhando cada centímetro, cada canto mas não havia nada além de salas e salas vazias. Quando estavam prestes a deixar mais uma delas, Sil percebeu um respiradouro no meio de uma parede. Foi até lá e soltou a grade, tentando enxergar algo no pequeno buraco escuro. Quando seus olhos se acostumaram com a escuridão, um par de olhos negros, muito grandes ficou visível de repente, obrigando- a a afastar o rosto da abertura. _ O que foi? _ Tem alguém atrás dessa parede! _ Como abrimos isso? _ Não sei Scully, talvez um dos controles naquele console. As duas correram para o console no canto da sala. Nesse exato instante, um estrondo foi ouvido. Elas se entreolharam. _ Acho que esta coisa está prestes a partir... Claudia deve estar tentando atrasá-los, mas não vai conseguir indefinidamente. Pedimos quinze minutos, já gastamos dez...Temos menos de cinco minutos. Começaram a apertar os botões, tentando combinar uma seqüência ou qualquer coisa parecida mas sem sucesso. Sil olhou no relógio e puxou o braço de Scully._ Temos que ir ou não sairemos a tempo. _ Eu não vou sair daqui enquanto não encontrar o Mulder. _ Scully, precisamos sair daqui, AGORA! _ NÃO! Ele está aqui, em algum lugar! Eu preciso encontrá- lo! Outro estrondo distante e o chão começou a tremer mais intensamente. Sil segurou o braço de Scully com força e olhou-a nos olhos. Ambas choravam. _ Pense no seu bebê, não pode arriscá-lo desse jeito, nem mesmo por ele. _ Eu não saio daqui sem ele. Não cheguei tão perto para desistir. _ Ninguém está pedindo que desista. Mas se você morrer, quem vai poder ajudá-lo? Scully balançava a cabeça recusando-se a acompanhar a outra mulher. O barulho aumentava cada vez mais e a nave toda sacudiu. As duas foram lançadas ao chão com o impacto. Scully bateu a cabeça e sentiu o sangue começar a escorrer enquanto sua visão saía de foco. _ Droga, você é tão teimosa quanto ele! Scully escutava a voz de Sil como vinda de longe, mas sabia que ela estava a seu lado pois sentia as mãos pequenas arrastando-a pelo chão frio que tremia cada vez mais forte. _ Esses caras estão partindo e vão nos levar com eles. É isso que quer? Acabar como cobaia deles? Você e seu bebê? As palavras pareceram finalmente entrar na mente enevoada de Scully. Seu filho. Não poderia deixar que "eles" o pegassem. Encontrou forças para levantar-se e deixou a nave apoiada em Sil. Os outros estavam todos do lado de fora. Doggett a segurou quando as forças das duas acabaram. Scully viu as amigas abraçarem Sil aliviadas por vê-la em segurança. O local pelo qual entraram e saíram permanecia aberto e todos podiam ver que a estratégia para atrasar a nave havia causado vários danos, mas evidentemente nada que a impedisse de partir. Chorando, os olhos azuis perdidos perplexos diante da realidade insana que presenciavam, Scully assistiu junto com os outros a imensa nave iniciar a decolagem. HOSPITAL MEMORIAL DE WASHINGTON CINCO DIAS DEPOIS Seus olhos abriram-se devagar, temendo o que encontrariam. O silêncio era suspeito e a ausência de dor era mais suspeita ainda. O lugar entrou lentamente em foco e a primeira imagem nítida que percebeu à sua frente foi o rosto sorridente de Clá. Ela estendeu a mão e Clá a apertou com força. _ Bem vinda de volta. _ Onde eu estou? _ Num tal de "hospital memorial alguma coisa..." você sabe como os americanos gostam de chamar tudo de "memorial". _ Onde estão as outras? _Tomando café para se manterem acordadas enquanto a senhorita pratica "sonoterapia". Kes abriu um sorriso enorme ao ver as outras três entrando no quarto. As amigas a abraçaram ignorando os protestos da enfermeira que entrara naquele momento. _ Por favor, a paciente precisa descansar. _ Descansar? Esta guria está dormindo há cinco dias!!! _ Alê, você não imagina como senti saudades das suas implicâncias. Mas Skinner, Scully e Doggett entravam também no quarto e entre abraços e apresentações a enfermeira desistiu de argumentar com aquela gente toda e deixou-os em paz. Depois de abraçar a jovem, Scully se afastara até um canto, observando todos à volta de Kes. A alegria deles a deixava feliz mas não completamente. Ela perdera mais uma chance de encontrar Mulder e não se perdoava por isso. Em seu íntimo se recriminava, dizendo que deveria ter ficado mais um pouco, procurado mais um pouco. Sil aproximou-se dela, a alegria pelo fato de Kes estar bem, ofuscada pela tristeza de não ter podido ajudar Mulder. _ Eu lamento Scully, lamento de verdade. _ Eu sei, você fez tudo o que podia, até mais, eu agradeço. _ Ele é forte, vai agüentar até conseguirmos encontrá-lo. _ Não Sil, não quero vocês mais envolvidas nisso. A Kes quase morreu, essa gente é perigosa demais. _ Scully, nós não somos um bando de menininhas inocentes, você e seu parceiro ali correm mais perigo do que nós. _ Eu sei mas, mesmo assim não as quero envolvidas, não diretamente. Aceito sua ajuda com o máximo de informações que você conseguir mas não quero que nenhuma de vocês se envolva novamente com Marita Covarrubias ou qualquer pessoa de seu relacionamento. Sil arregalou os olhos diante das últimas palavras de Scully, como se de repente, algo houvesse passado pela sua cabeça. _ O que foi Sil? _ Nada, eu apenas pensei em alguém que talvez possa nos ajudar a recuperar o Mulder. O preço poderá ser alto demais mas, não custa tentar. _ Quem? _ Se funcionar, eu prometo que lhe conto. AEROPORTO DE WASHINGTON 23/12 As cinco mulheres sentadas no saguão do aeroporto eram mais do que comuns. Casacos de frio, echarpes, óculos escuros, revistas femininas nas mãos, nada fugia dos padrões normais de turistas que se preparavam para passar o Natal na Europa. O vôo para Roma estava atrasado devido ao mau tempo, mas elas não pareciam preocupadas. Conversavam entre si baixinho, e riam de vez em quando. Exceto uma delas que observava a todo momento as pessoas que passavam distraídas pelo saguão. _ Sil, que tanto você procura, mulher? _ Nada, Ale, só estou preocupada com o vôo. _ Você preocupada com o vôo? Hei, esse papel não é meu? EU não gosto de aviões, você adora esses troços! Relaxe, o atraso será mínimo, estaremos ainda esta noite em nossos apartamentos, todas nós. _ Graças a Deus! _ Deus, boa sorte ou ventos favoráveis não têm nada a ver com isso Sil. Se estamos todas juntas novamente é apenas por nosso próprio mérito. _ Ale, ainda tenho esperanças de que você se converta em alguma coisa, mesmo que seja para você se tornar Hare Krishna. _ Só quando o inferno congelar. _ O inferno é gelado, lembra-se? Ninguém vai me convencer que aquele campo de treinamento na Sibéria não era um dos infernos de Dante, talvez o inferno destinado aos orgulhosos. _ O inferno tem paredes metálicas nuas e o único som que se escuta são seus próprios gritos de dor. A voz de Kes era um sussurro e todas estremeceram diante do tom apavorado da garota. _ É Kes, todas nós já passamos por nossos infernos particulares. E nem todas conseguimos nos livrar deles completamente. O olhar de Sil encontrou o de Claudia e ela pode ver a dor nos olhos da amiga. Todas tinham seus demônios a enfrentar, Kes teria que aprender a conviver com mais um demônio em sua vida. Ela conseguiria, com certeza. _ Hei, crianças, esta conversa está sinistra demais! O ar está tão pesado, que vão ter de fechar o aeroporto já, já. Qual é, parem de ser funestas! A Kes está aqui, vivinha e quero retomar nossa vida exatamente de onde paramos. Isso me lembra algo... Kes, você me deve um sanduíche, um "especial di trevi" ! E prometo que dessa vez não me transformo em nada, ok? Todas riram do comentário de Clá e a conversa seguiu então por caminhos menos sombrios. Quando Sil se levantou dizendo que iria escolher um livro, ninguém se espantou. Ela costumava comprar pelo menos três ou quatro volumes a cada viagem que faziam. Sil seguiu até a livraria mas entrou no pequeno corredor de serviço que era protegido por uma porta de ferro. Na semi escuridão, um homem estava parado e, mesmo sem ver sua face, ela sabia que ele sorria com sarcasmo. _ Então vocês encontraram a bebê. Ponto para ela, conheço gente mais forte que não resistiu a metade do que ela passou. Sil não respondeu, mas pelos ferimentos de Kes ela podia imaginar que tipo de atrocidades aquela gente costumava cometer. Ele se aproximou dela, falando baixo apesar de saber que ninguém podia escutar. _ Então pequenina, por que me procurou? Já tem sua amiga de volta, por que precisa falar comigo? Sil não sabia como começar. Ele era esperto, saberia imediatamente a verdade assim que ela abrisse a boca mas não tinha outra alternativa. _ Alex, até que ponto você tem influência com aqueles...aquilo...aquela "gente"? _ Influência, como assim? _ Você é capaz de convencê-los a devolverem as pessoas que seqüestraram? _ Sil, vocês já têm a Kes de volta, quem mais está com eles que possa ser importante para você? Ela não respondeu e os olhos dele brilharam perigosamente quando algo se ligou em seu cérebro, como se todas as peças de um quebra cabeça se unissem. Ele deu um passo para trás, a incredulidade estampada em seu rosto meio escondido pelas sombras. _ Eu nunca...de todas vocês, eu nunca imaginei que fosse você Sil. Eu sabia que havia algo mais no envolvimento de vocês com o FBI mas jamais imaginaria que fosse você. _ Alex... _ Mulder, aquele bastardo filho da p...! Ele está sempre no meu caminho, sempre atrapalhando meus planos. Não fosse por ele vocês jamais estariam envolvidas naquele caso do Canadá não é? Ele a olhou e sua voz não disfarçava o desprezo. _ Eu esperava que ao menos você soubesse escolher melhor suas companhias. _ Alex, por favor... Ele levantou a mão e impediu-a de falar. _ Mulder está exatamente aonde eu quero que ele esteja e não vou ajudá-lo a voltar, nem por você nem por nada neste mundo. Ela balançou a cabeça, ainda sem fitá-lo diretamente. Alex a observou por um instante. Uma raiva surda se apoderava dele, algo irracional que ele não podia explicar. Sem aviso, empurrou- a com força contra a parede, ignorando o gemido de dor que ela soltou quando sua cabeça bateu com violência contra o concreto. Ele viu os olhos escuros se encherem de lágrimas com a dor mas ela não se moveu. _ É por causa dele que você é tão reticente em seus envolvimentos? É por culpa dele que você evita relacionamentos? Sil estava atordoada com a pancada em sua cabeça. A voz dele chegava indistinta a seus ouvidos mas ela forçou sua mente a desanuviar-se. _ Alex, preciso de sua ajuda, não tenho ninguém mais a quem recorrer. _ Ajudar Mulder, seria a última coisa que eu faria em minha vida. _ Você já o ajudou antes... _ Era diferente, eu precisava dele vivo. Ela respirou fundo e o encarou com os olhos brilhando de raiva. _ Sempre um egoísta interesseiro não é, Alex? Você nunca foi capaz de fazer algo por alguém que não envolvesse uma troca. Ela não se moveu quando ele murmurou um palavrão em russo e esmurrou a parede ao lado de seu rosto. _ A única vez que fiz algo desse tipo por alguém mocinha, fui chicoteado na frente de todo o corpo de oficiais do campo, lembra-se? Seus olhos se encontraram, repletos de rancor. _ Eu não pedi que me ajudasse Alex. _ E eu deveria ter deixado que você morresse aquela noite. Se eu tivesse a remota idéia de que você se uniria a um de meus piores inimigos, eu jamais a teria ajudado... Ele parou de falar e balançou a cabeça, encaixando mais algumas peças do quebra cabeças. Sua boca se torceu em um sorriso cruel. _Mulder era o pai do bebê não era? O cara que deixou você por sua carreira. Ela pensou em negar mas sabia que não adiantaria. _ Sim, era ele. Os olhos verdes brilharam como os de um predador prestes a saltar sobre sua presa. _ Ele sabe? A respiração dela ficou pesada, sua expressão demonstrando pavor. _ Alex, não pode usar isso contra Mulder. O bebê morreu há quinze anos... Alex repetiu a pergunta, desta vez mais devagar, com sua boca encostada no ouvido dela. Sentiu que ela estremecia, presa entre a parede fria e seu corpo. Ficava cada vez mais difícil respirar no pequeno corredor abafado mas ele não se importava se aquela conversa durasse horas. Ela respondeu em um sussurro sua pergunta mas, de algum modo, ele já sabia a resposta: _ Não, ele nunca soube, nem quando terminamos. Por isso eu fugi de casa, para que ele nunca soubesse... A voz dela falhou e Alex odiou a si mesmo por estar começando a sentir pena do sofrimento dela. Afastou-se um pouco mas sem soltá-la. _ Eu não posso prometer nada, mas vou tentar falar com Marita Ela arregalou os olhos, mal acreditando no que ouvira. _ Quer dizer que você...? _ Já disse, não posso prometer, não sou exatamente a pessoa mais querida que eles têm, mas posso tentar. Marita ainda tem muita influência entre eles e eu ainda consigo agradá-la o suficiente para conseguir alguns favores. O olhar dela passou de esperançoso para desconfiado. _ Por que decidiu me ajudar? Esta informação sobre o Mulder não significa nada, a pessoa que eu fui há quase vinte anos não existe mais e Mulder não tem qualquer ligação concreta comigo. _ Sei disso, não pretendo usar informação nenhuma. Considere um favor, o último que farei a você. Depois de hoje, se precisar de mim para qualquer coisa, terá que pagar meu preço. Ela fechou os olhos e enrijeceu o corpo quando ele pressionou-a novamente na parede e sussurrou em seu ouvido com a voz rouca: _ E eu garanto que será caro, muito caro mesmo. Sil manteve os olhos fechados mesmo quando sentiu que ele se afastava. Ficou encostada à parede até sua respiração voltar ao normal. Deixou o pequeno corredor e foi ao encontro das amigas. Sua desculpa descontraída sobre não ter encontrado nenhum livro foi aceita por todas, menos por Claudia, que fazia uma pergunta muda com os olhos. Sil respondeu do mesmo modo. Mais de quinze anos de convivência as ensinara a ler as emoções uma da outra. Claudia entendeu que , o que quer que houvesse acontecido, lhe seria revelado assim que conseguissem ficar sozinhas para conversar. Elas tinham muitas coisas a esclarecer entre as duas, mas Claudia era paciente, podia esperar. Sil a procuraria quando estivesse pronta para falar. Recostou-se na cadeira e abriu novamente a revista que estivera folheando, concentrando-se no artigo totalmente supérfluo que lia, deixando sua mente descansar finalmente depois de tantas semanas de preocupações. FONTANA DI TREVI - ROMA 24/12 A atração turística estava cheia de pessoas que aproveitavam a véspera do Natal para visitar os monumentos e praças da cidade. Moradores do lugar se misturavam aos turistas e passantes ocasionais. Nas muretas decoradas, jovens e velhos sentavam-se para apreciar a beleza monumental da construção antiga ou tirar fotos. Kes estava deitada de costas, a cabeça descansando nas pernas de Clá que brincava com seus cachos escuros, distraída. Sentia-se feliz, estava em casa, com as amigas, sua família. A alegria de acordar e vê-las ao seu redor fora indescritível. Não contara a ninguém, mas a maior razão de ter sobrevivido aquela experiência horrível fora a certeza de que elas fariam qualquer coisa para tê-la de volta. Seus olhos encontraram os de Clá que sorria para ela com ternura. Olhou em volta e viu Ale e Claudia se divertindo com um grupo de turistas estrangeiros. Elas tiravam fotos para os rapazes e flertavam descaradamente com eles. Sil, parada ao lado da fonte, ria das amigas e, quando viu Kes a observando acenou-lhe de leve. Kes respondeu ao aceno, sentindo seu coração leve, feliz. Estava em casa e tudo estava bem. Sil observava o movimento dos turistas sem interesse. Estava feliz por ter Kes de volta, por estar em casa. Mas seu coração doía ao pensar em Mulder e no que ele estaria passando. Kes não poupara as amigas dos detalhes de sua abdução. Sil enfrentara torturadores antes mas, Kes conseguira deixá-la horrorizada com seus relatos. E ele ainda estava lá, com eles. Sil não sabia se Alex cumpriria sua palavra mas, ela ao menos tentara. Não conseguiria seguir sua vida sabendo que ele continuava nas mãos de seus captores. Sua mão enluvada tocou em algo no bolso de seu sobretudo. O brilho prateado refletiu os raios de sol, era uma moeda americana, um quarto de dolar. À sua volta, os turistas jogavam moedas na fonte, fazendo seus desejos. Sil virou-se de costas como era o costume e fechou os olhos e fez seu desejo. Jogou a moeda por sobre o ombro, desejando ardentemente que Mulder voltasse para Scully e para seu filho. O quarter reluziu na manhã ensolarada e mergulhou na água cristalina da fonte, indo repousar no fundo coberto de moedas. Sem olhar para trás, Sil caminhou até Clá e Kes e sentou- se na mureta. Um leve sorriso insinuou-se em seus lábios, enquanto a manhã avançava fria e ensolarada, trazendo a esperança que todo Natal traz consigo, de realizar os sonhos impossíveis. Washington D.C. 24 de dezembro, noite A pista escura refletia nas pequenas poças remanescentes de chuva do início da noite, as luzes dos faróis do carro que seguia no caminho para casa quase sozinho, conduzido por aquela parte misteriosa do cérebro que parece agir mesmo que estejamos completamente distantes...E ela estava muito distante... A lua, cheia aquela noite, aparecia imensa à sua frente e a ilusão causada pelo seu reflexo na pista molhada fazia parecer possível chegar até ela apenas seguindo em frente por aquela estrada. Seguir em frente. Era isso o que ela vinha fazendo nos últimos meses: apenas seguir em frente. Talvez assim alcançasse a lua e encontrasse o que tanto queria... Com um suspiro alto, deixou finalmente a lua e concentrou- se na curva fechada do caminho, logo depois da qual estava o acesso que deveria seguir. Mais alguns minutos e o sedam estacionava em frente ao prédio, iluminado pelas pequenas lâmpadas que a lembravam de que já era Natal. Desceu do carro e subiu os degraus devagar, o pensamento ainda vagando distante em algum lugar entre as estrelas. Um minuto de hesitação e a chave girou na fechadura. Quando a porta se abriu, uma sensação muito estranha se apoderou dela. Era como se já tivesse feito isso, segundo atrás, exatamente do mesmo jeito...havia algo no ar, alguma coisa desencadeara aquela sensação. "Deja Vú", pensou consigo mesma, enquanto deixava as chaves no aparador e seguia direto para o banheiro para ligar a água e encher a banheira. Um banho quente e relaxante talvez a trouxesse de volta a realidade, ou pelo menos a fizesse dormir, antes de sonhar. Não suportava mais sonhar acordada a maior parte do tempo...sentia-se perdida, buscando algo que só era real para ela e mais ninguém. Ela o perdera e, de certa forma, transformara-se nele, buscando, sempre buscando, por mais que o mundo parecesse contra sua busca... "Chega, spooky Scully...você vai enlouquecer...", repreendia a si mesma, na esperança de que seu cérebro se calasse por um instante. Dentro da banheira, ela deixou-se dominar pelo leve torpor provocado pela água quente e tentou concentrar-se apenas no som da música de Hummel, que chegava ao banheiro pela porta deixada entreaberta. Momentos depois, o piano tocava cada vez mais longe e ela podia sentir seu corpo tornar-se mais leve... a inconsciência finalmente chegava e ela queria entregar-se sem reservas. Foi então que aconteceu. Como um estalo dentro da cabeça, as coisas se encaixaram...o cheiro! O cheiro que sentira ao abrir a porta do apartamento e que sentia de novo naquele momento...um cheiro de colônia amadeirada...havia alguém no apartamento! Saiu da água e cobriu-se com a toalha. Sua arma estava fora de alcance agora, mas estranhamente, ela não sentiu que precisasse dela...sentia algo diferente, uma sensação de conforto com aquele cheiro, de familiaridade... Lenta e cuidadosamente, verificou cada canto do apartamento. Por cada ambiente, encontrou coisas fora do lugar, não de forma facilmente perceptível, mas como se alguém as tivesse tocado e tomado extremo cuidado ao recolocá-las no mesmo lugar... Definitivamente, alguém estivera ali, apenas alguns minutos antes dela chegar...e o perfume, que lhe parecia extremamente familiar, havia ficado ... No quarto, encontrou a prova final e indiscutível: sobre a cama, aberto, estava o seu diário... Tomando-o nas mãos, percebeu que a última página trazia a letra de outra pessoa...mas não podia ser... Uma lágrima caiu sobre o papel, borrando algumas palavras numa mancha azulada... Mal conseguindo enxergar, dentre tantas outras lágrimas que lhe chegavam aos olhos, Scully leu as duas misteriosas linhas: Enquanto você acreditar, eu terei um motivo para continuar lutando... Enquanto você acreditar, eu viverei...por vocês. Ela não sabia como explicar aquilo e não queria saber... Não havia lugar para razão e seu coração encheu-se da única certeza que precisava para continuar sua busca : ele sabia. Ainda dominada pela emoção, não tentou mais dominar as lágrimas e, com uma das mãos pousada sobre o ventre, Scully adormeceu, enquanto os últimos acordes de Hummel insistiam em anunciar: era Natal. Epílogo ROMA 27 DE DEZEMBRO, MADRUGADA " Manual em japonês! Como é que uma cafeteira italiana pode ter o manual em japonês?". Na cozinha do último andar do Fontana di Trevi, tentando não fazer muito barulho, Ale buscava sem sucesso fazer com que sua nova cafeteira funcionasse. A noite parecia estranhamente sufocante, embora ainda fosse inverno. Impossível dormir, mas o que a incomodava não era a temperatura. Era o ar, que parecia insuficiente. E a maldita dor de cabeça, que estava pior. _ Basta!_ irritada, deixou de lado a cafeteira antes que a vontade de jogá-la janela a baixo fosse incontrolável e decidiu que sairia para tomar seu café, caminhar e respirar um pouco. A madrugada de Roma era tranqüila, principalmente no inverno, quando poucas pessoas se arriscavam pelo frio. Aproximou-se da janela fechada, para verificar através dos vidros se ainda havia movimento lá embaixo, perto da fonte. Neste momento, sentiu que seu equilíbrio se alterava e que a visão da rua lá embaixo se embaçava. Tentou apoiar-se na mesa, mas estava longe demais e antes que pudesse pensar em qualquer coisa, já estava chão, inconsciente... CONTINUA...