TÍTULO: ORIENTE AUTORA: Paula Cris (ou Katherine, como preferir !) E-MAIL: paulakat@terra.com.br DISCLAIMER: Mulder, Scully e companhia limitada não pertencem a mim (quem dera !), e sim a Chris Carter e todo o pessoal da Fox, incluindo Gillian Anderson e David Duchovny... SPOILERS: O Antinatural, Millenium, Fight the Future (só uma ou duas falas sobre cada um). CATEGORIA: Shipper, shipper, shipper!!! NOTA DA AUTORA: Tomara que vcs gostem ! RESUMO: Scully é seqüestrada sem motivo aparente, Mulder fica desesperado (tadinho !) e acaba se deparando com coisas de outro continente ! ==== XXX ==== O porteiro estava calado, entretido na leitura de uma revista não muito interessante. A portaria era escura, envidraçada, e deixava somente que o luar mostrasse um pouco de sua luz. Sonolento, o homem só reparou que a grande porta de entrada se abrira quando uma rajada do frio vento da noite resfriou sua face. Levantou os olhos da revista, esperando ver alguém. Não viu. "Provavelmente o vento", pensou, ao levantar da cadeira em direção à porta entreaberta. Sua mão já estava na maçaneta quando um estranho gosto de areia lhe veio à garganta. Tentou tossir, sem sucesso. Não tinha idéia do que estava acontecendo, o gosto da areia aumentava cada vez mais e ele a sentia subir pelo seu pescoço, tapando-lhe o ar. Entrou em pânico. Com as mãos na garganta, virou-se freneticamente para sua cadeira, sua língua já sentia os grãos finos da substância e a coisa mais sensata em que pensou foi sentar-se. Foi quando pôde ver, andando rapidamente pelo corredor que levava aos apartamentos, um vulto em uma capa preta. Tentou perguntar o que ele queria, mas a areia desconhecida impediu-o. O vulto não olhou para trás quando o porteiro caiu no chão, sufocado e desesperado, um punhado de areia saiu de sua boca. O homem da capa não podia parar. Seu objetivo tinha que ser completado, *precisava* ser. Sua vida era para isso. Sua vida – se é que aquilo era exatamente uma vida – dependia disso. Parou em frente a uma porta. Era ali. ==== XXX ==== Sede do FBI – Washington D.C. 9:17 a.m. Não se poderia dizer que os ares da sala do diretor- assistente Walter S. Skinner eram tranqüilos. Mulder e o próprio Skinner estavam calados, mas isso não significava que não tinham nada a dizer. Estavam preocupados. A agente Scully deveria aparecer naquele lugar há duas horas e dezessete minutos, e não costumava se atrasar. Tanto o telefone de sua casa quanto seu celular não atendiam, e, pelas informações que Fox escutara pela manhã no rádio, não existiam engarrafamentos no caminho da casa da Scully até o Bureau. Mulder levantou-se, a voz séria e o olhar decidido: - Vou até a casa dela. Algo está errado. Skinner não o impediu: - Boa sorte. O agente saiu da sala a passos largos. Já em seu carro, não demorou muito tempo para chegar até o prédio da parceira. Assim que estacionou em uma calçada próxima do local, pôde ouvir um grito agudo, apavorado. Temendo o pior, Mulder saiu rapidamente do carro e correu até a portaria da moradia de Scully, aproximando-se do grito. Quando abriu a porta, pôde compreender o que ocorria. Parada na junção do corredor com a portaria, uma mulher de idade indefinida, cabelos tingidos de vermelho – por mais boa vontade que Mulder tivesse, não concebia aquele cabelo como ruivo, como os de Scully – olhava apavorada para o chão e gritava a plenos pulmões. Acompanhando seu olhar até o chão, via-se uma cena não muito agradável: Um homem de meia idade, usando um uniforme usado – mas limpo – azul-claro estava caído no chão, sem vida. As rugas formadas em sua face mostravam pavor, pânico. Em sua boca e espalhada pelo chão estava uma areia fina, branca. Sua cor, arroxeada, mostrava mais claramente que estava morto, e dava dicas de sua morte, junto à areia: foi sufocado. Mulder ficou alguns segundos parado com a porta aberta, atônito. Cenas de morte sempre chocavam, mas aquela era muito pior. Um tragédia havia ocorrido no prédio de sua parceira... e sua parceira estava desaparecida. Com este último pensamento, uma dor lhe apertou algum lugar do coração e o obrigou a agir. Primeiro juntou algum fôlego e gritou: - Calma ! A ajuda já vai vir ! A mulher histérica hesitou um pouco, mas depois de alguns segundos parou de gritar , soluçando e repetindo: "Ele morreu... Está morto..." Passando cuidadosamente em volta do corpo, Mulder sentou a mulher na cadeira destinada ao falecido porteiro e tirou o celular do bolso, acalmando-a: - Daqui a pouco a polícia e os médicos estarão aqui, calma, vai ficar tudo bem. Sem muito sentimentalismo, Mulder discou 911 enquanto corria desesperadamente até o apartamento de Scully, deixando a mulher para trás. Pelo jeito, ela não havia saído de casa. Aliás, ninguém tinha, até a senhora de cabelos pintados. Já havia falado com a polícia quando chegou até a porta do apartamento da parceira. Ou até o que sobrara dela. O que Mulder temia havia acontecido. Não havia mais porta. O portal havia sido simplesmente arrancado junto com ela. Sem esperar um segundo sequer, Mulder entrou correndo pelo apartamento. Estava em pânico. Foi até o quarto. A cama estava intacta, arrumada. Ninguém havia dormido ali. No chão, cacos do que restou de um jarro de porcelana. Uma das estantes da sala estava caída, escorada em uma das paredes. O tapete estava amassado e revirado em um canto. Fox não parou para observar a bagunça, queria achar Scully. *Precisava* achar Scully. Foi até a cozinha. Nada, tudo estava em seu lugar. Correu para o banheiro, queria que ela estivesse lá, e BEM. Não estava. Mulder voltou para a sala. Sentou-se no sofá, confuso. Precisava parar, pensar. O que teria acontecido ? Onde estaria Scully ? Qual o objetivo daquele aparente seqüestro ? Scully não tinha inimigos. Pelo menos, não inimigos que a seqüestrariam daquela maneira. Armas biológicas, abelhas infectadas, doenças extraterrestres... Se fosse algo assim, Mulder saberia onde procurar. Era só seguir a pista do cigarro... Mas aquele inimigo era normal demais para os dois agentes. Como diria sua parceira, aquilo não era um arquivo X. Não, não era... Mas era algo mais importante para ele, uma das poucas coisas mais importantes: era sua parceira. Era parte de sua vida. Mulder não seria ele mesmo enquanto Scully estivesse desaparecida. Tirou o celular do bolso do paletó. - Skinner ? Venha para cá. Não, ela não está aqui. Desligou o telefone, sem mais explicações. Embora Skinner não fosse o chefe dos seus sonhos, se preocupava com sua subordinada e Mulder decidiu informá-lo dos fatos. Foi quando escutou o som da sirene da polícia. Decidiu começar a investigar. Pensar muito não iria, decididamente, achar Scully. Olhou em volta: Scully havia lutado, além da estante caída tudo estava revirado, a mesa de jantar e a pequena mesa do centro estavam tortas, o que seria inimaginável na casa de Scully, em condições normais. Nesse aspecto os parceiros eram totalmente inversos: contanto que a porta fechasse com um empurrão, a bagunça era bem vinda na casa de Fox... O sofá também estava fora do lugar, e parecia estar... empoeirado. Novamente, algo estranho. Como uma águia que descobre a presa, Mulder passou o dedo em um canto do assento onde estava sentado e achou o que esperava: areia. Uma areia fina e molhada, que de alguma maneira havia grudado ali. A lembrança do porteiro na entrada do prédio provocou um calafrio que percorreu toda e espinha do agente. Não, aquilo não poderia acontecer com Scully. Mulder prometeu isso a si mesmo quando saiu do apartamento. ====XXX==== A agente desistiu de gritar. Pelos seus cálculos, já estava ali por umas dez longas horas. Ela não conseguia se mover e seu estômago roncava. Não entendia o que estava acontecendo, o que estava fazendo ali, por quê ? Não era resgate. Por mais que a agente vivesse bem, ninguém conceberia um salário do FBI alto o bastante para valer um seqüestro. Uma experiência alienígena, por sua vez, não precisaria deixar a cobaia presa em um porta- malas. Vingança ? Não sabia de nenhum parente dos bruxos, aliens e vampiros que seu parceiro acusava de casos estranhos. Aquilo estava parecendo... ortodoxo demais. A única coisa que dava um toque estranho ao acontecimento era a força incomum do seqüestrador, um homem de barba e capa preta, que havia simplesmente arrancado a porta com todas as trancas e, inclusive, o portal. Deveria usar uma espécie de serra, por motivos óbvios Scully não teve tempo para observar o arrombamento. Foi quando ouviu passos. Tentando ignorar o pano que lhe tapava a boca, Dana voltou a pedir socorro com todas as forças que lhe restavam. -Levante ! Era o seqüestrador quem falava, com a tampa do porta- malas aberta. Depois de horas, Scully voltava a ver a claridade. Obediente – e sabendo que não havia outra opção – a agente saiu, aproveitando para observar com mais clareza o homem da barba, que agora desatava as cordas de seus pés. Tinha o cabelo liso e escuro, os olhos negros claramente orientais e uma peculiar pele ressecada. Levada pelo homem, Scully saiu de onde estava, uma garagem fechada, por um corredor de teto baixo, comprido e claro, com algumas lanternas chinesas presas nas paredes brancas. Os dois andaram em silêncio, Scully ainda estava com a mordaça na boca. Ao chegar no fim do corredor, Scully parou a caminhada por um momento, surpresa pelo que via: Uma sala enorme, de teto muito alto era decorada por longos tecidos vermelhos que preenchiam quase todas as paredes. À sua frente, bem no centro da sala, estendia-se um tapete vermelho, que a ligava a uma espécie de trono dourado com bonitos detalhes cor de vinho. Sentado no trono estava um homem, de uns 35 anos de idade, a barba mal feita e um leve sorriso no rosto. Expressava um olhar ambicioso, direto para Scully. Desviando um pouco o olhar do homem – sabia que depois teria tempo para observá-lo – observou que, dos dois lados do tapete, estavam dezenas de estátuas de uma engenhosa mistura de areia, terra e água, numa combinação aparentemente resistente. Virados para o tapete, as estátuas representavam antigos chineses, alguns em posição de combate, alguns parecendo reverenciar quem passasse pela sua frente. - Venha até aqui, agente Dana Scully ! A voz, nem fina nem grossa e um tanto irônica, vinha do homem do trono. Scully, com os olhos arregalados e entendendo cada vez menos tudo aquilo, caminhou pausadamente pelo macio tapete vermelho, observando as detalhadas feições das esculturas. - O... O que eu faço aqui ? A voz de Scully era questionadora, porém ela a fazia o mais doce possível. Virou-se para trás, afim de questionar também o homem que a seqüestrara, porém surpreendeu-se ao não encontrá-lo, não havia mais ninguém por ali a não ser ela, o homem do trono e as sinistras esculturas chinesas. Voltou o olhar ao homem do trono, desta vez mais questionador do que inocente. O homem sorria com o canto da boca. - Realmente você é muito bonita... Ele tem bom gosto... Vale a pena ! Scully colocou um pouco de aspereza em sua voz: - Sou agente federal, diga, o que você quer ? Em breve estará cercado de policiais, seja lá onde estivermos ! Afinal, o que você quer, junto com aquele homem que me raptou ? O sorriso do homem aumentou. Ele parecia gostar da aparente preocupação da agente. - Vale, sem dúvida... Essa abordagem não funciona comigo, dra. Scully – ou prefere agente ? – meu objetivo é exatamente este, chamar a atenção dele... Scully estava confusa. - Atenção de quem ? Do FBI ? O homem moveu a cabeça. - Ora, ora, doutora... Até parece que eles se preocupariam com uma simples agente ! Pronto, já a conheci bastante, leve-a ! Pra surpresa total de Scully, o homem da barba apareceu de repente, segurando-a pelo braço assim que o "chefe" comandou, saindo não se sabe de onde. Sendo levada pelo braço, Scully voltou pelo corredor comprido, desta vez entrando em uma porta lateral. Aí dentro existia um pequeno quarto, iluminado de forma não muito forte, e sim aconchegante, através de uma lanterna colorida chinesa. No canto oposto à porta ficava uma cama, em frente à ela uma mesa com uma bandeja contendo chá e biscoitos. Internamente, do lado da porta, uma outra porta levava a um precário banheiro. Sem nada a dizer, o misterioso homem barbudo fechou a porta, trancando-a por fora. Lá dentro, Scully observou sua situação: A porta era pesada e fortemente trancada, por ali não sairia. Foi até o banheiro, procurando uma saída. Havia, próxima ao teto, uma fenda para ventilação, feita com tijolos próprios para isso. Pelo menos, ela pensou, havia ventilação e uma fresta de luz do dia. Mas por ali não escaparia. Sem uma solução, a agente resolveu sentar-se na cama para organizar as idéias, pensar um pouco. Seu seqüestrador era alguém que pensava ser uma espécie de rei, fortemente influenciado pela cultura oriental chinesa. Tem um ajudante pelo menos, muito forte. Queria chamar a atenção de alguém que sentisse a sua falta... era Mulder. Scully não conseguia pensar em outro nome fora esse. Mulder era a única pessoa que realmente a levava a sério, lhe dava importância. Dana sabia que ela já fazia parte da vida dele, assim como ele era uma peça fundamental na vida dela. Talvez se no meio de seu caminho a cética dra. Dana Scully não tropeçasse no lunático agente Mulder, viveria rotineiramente, sua carreira seria imbatível e... normal. Por um instante, Scully deixou de lado sua situação e esqueceu onde estava para pensar como seria sua vida sem Mulder. " Rotineira. Um marido arrumado, de terno, a gravata sempre no lugar, talvez um executivo de uma grande empresa, talvez um agente padrão do FBI. Filhos adotados, um casal estaria bom para cuidar. Uma carreira sendo bordada com fios de ouro, já que seria prestativa, inteligente e, acima de tudo, *obediente* . Fazer, servir e viver feliz no fim de semana, ou pelo menos fingir que seria feliz ao levar o filho a uma daquelas festas de encerramento da escola... Sempre igual. Não, isso não é bom... Podem dizer que isso é bom, podem fazer disso um padrão de vida, mas que graça teria um marido o qual você não precisa que ajeitar a gravata quando ele vai falar com o chefe, correndo o risco de ser demitido ? Trabalharia em dobro para sustentar filhos que só poderia ver nos fins de semana, querendo agradá-los ao máximo, mesmo com problemas no trabalho, para quê ? Não seriam realmente meus filhos, seriam da empregada... E como seria trabalhar puramente por dinheiro, fazer o trabalho estritamente necessário, sem dar importância à vida das pessoas ? Será que isso seria mesmo viver ? Não... Acho que não... Mulder me ensinou a viver! Isso é raro, vindo de alguém apelidado de "estranho"... Mas esse é um estranho diferente, o que estranha os erros da vida e melhora-os... O *meu* estranho... Não posso morrer aqui, não sem dizer isso à ele..." Estes pensamentos estavam sendo guardados, escondidos à sete chaves da personalidade da cética dra. Dana Scully. Vieram à tona quando o homem falou de Mulder, quando ela percebeu que ele só poderia estar falando de Mulder. Precisava mais do que nunca sair dali. Voltou ao banheiro. ===XXX=== Mulder estava cada vez mais preocupado, para não dizer desesperado. A polícia já estava no prédio há mais de meia hora, já haviam retirado o corpo do porteiro e Mulder já havia feito sua constatação: A areia da portaria era a mesma do sofá. Fox acompanhou o interrogatório dos vizinhos, que alegavam ter dormido cedo e acordado tarde no dia seguinte, já que era sábado e no prédio ninguém trabalhava nesse dia. Os vizinhos ao lado do apartamento de Scully, um casal e uma criança, disseram que nada ouviram pela posição dos quartos, que ficam longe da parede do agente. O outro apartamento próximo ao de Dana estava vazio. A polícia também estava desnorteada, não tinha idéia de onde procurar ou... o quê procurar. A porta havia sido arrancada, com trancas e o portal, da parede. "Por mais incrível que possa parecer", como relatou o perito da polícia a Mulder, " arrancaram a porta e o portal à força, o tijolo não indica sinal de serra ou qualquer outro instrumento. Como se a porta fosse de isopor." Skinner também já estava no local, tentando sem sucesso acalmar Mulder, que pela primeira vez, na frente do chefe, aparentava uma certa desorientação na face. - Ela vai voltar, Mulder. Na pior das hipóteses, você vai achá-la. Já a tirou do Ártico, por que não de um seqüestrador ? - Por enquanto ninguém apareceu para me dizem que queria dominar o mundo, mas que estava com pena de todos e tinha a salvação de Scully e da humanidade nas mãos. Não, infelizmente isso não é coisa da trupe do canceroso, e aí a coisa fica complicada ! - Se os Arquivos X fizeram realmente isso com você, mandarei fechá- los agora ! Lembra daquele agente fantástico que era ótimo em casos de assassinato, que traçava o perfil dos assassinos com excelência e prendia- os ? Você era esse agente, Mulder ! O que houve ? Mulder olhou para o lado, desviando-se do olhar de Skinner. Ele falava a verdade... Mulder sempre fora o melhor e agora estava meio... destreinado. Mas, de repente, algo dentro do agente quis provar para o chefe que continuava o mesmo, que ainda era o melhor... Foi quando viu um garotinho encostado na parede, observando a conversa. "Garotinhos prestam atenção nas coisas, ainda não são cegos como os adultos", pensou Mulder ao desconversar Skinner com uma frase: - Ela ainda não está morta. Skinner sorriu ao ver que havia cumprido o seu dever: subir a auto- estima de Mulder. Agora, ninguém o seguraria. Mulder se dirigiu ao garotinho, que começou a se desculpar: - Desculpe-me ! Não queria ouvir a conversa, não vou me lembrar de nada, já estou indo embora... Fox sorriu amigavelmente: - Não precisa se desculpar, só vim falar com você porque me parece um garoto esperto e ainda não lhe perguntaram o que viu ou ouviu à noite... - Já foram lá em casa, sim ! Sou do apartamento em frente ao da tia Dana... O menino apontou para a sua porta, bem atrás de Mulder, que estava agachado para se aproximar ao tamanho do garotinho, de aproximadamente nove anos e um pijama azul alguns tamanhos a mais que o dele. O agente sorriu com doçura quando sua companhia chamou Scully de "tia Dana". Os dois agentes eram uns dos poucos parceiros que se chamavam pelo sobrenome. Muitos poderiam achar que era falta de intimidade, mas estariam equivocados... Quais parceiros arriscariam várias vezes a vida pelo outro, confiariam somente um no outro e passariam o natal juntos, sozinhos em uma casa mal assombrada procurando fantasmas e, mesmo assim, achariam isso bom ? Se existissem, seriam poucos além de Mulder e Scully. Uma vez perguntado por chamar a parceira pelo segundo nome, Fox apenas disse: "Que diferença fazem dois nomes ? Gestos valem mais, muito mais..." E era realmente isso. Mulder ficou alguns segundos pensando nisso mas logo voltou ao questionário com o garoto: - É, mas apenas seus pais falaram, certo ? O garoto fez que sim com a cabeça. - E você, o que escutou ou ouviu ? - Meu pai disse que foi um sonho... Mas não foi ! Eu estava acordado, eu vi ! Mulder animou-se com a resposta, seu palpite estava certo. - Diga-me, o que foi que você viu ? - Você também vai achar que foi sonho, todos os adultos vão ! Mulder sorriu novamente: - Pode acreditar, sou um tanto diferente, já estive na mesma situação que você... O menino arregalou os olhos: - Já ? Você diz coisas que só aparecem na TV e aí todos acham que é louco e deveria ir a um psicólogo ? Dessa vez foi Mulder quem concordou com a cabeça. - Ah... Foi o seguinte: eu estava deitado, sem sono, aí resolvi beber água (a água sempre me ajuda a dormir), fui até a cozinha, e essa porta aqui dá para a cozinha, aquela outra lá é que é da sala. Aí foi que eu escutei uns passos pesados no corredor e, como não conseguia dormir mesmo, coloquei a cadeira da cozinha na frente da porta e olhei pelo buraquinho, como é mesmo o nome ? Olho mágico ! Olhei pelo olho mágico e um homem (pelo menos parecia um homem) tinha as mãos assim, bem grandes, e elas deixaram de ser mãos para virar um bloco de... sei lá, acho que era uma pedra que esfarelava. Então ele encostou as mãos na porta e empurrou, e a porta saiu ! A porta toda, toda. Fez muita poeira, sabia ? Não só da porta, o homem também parecia meio empoeirado...Eu fiquei com muito medo, muito medo, ele não era amigo da tia Dana, aliás ela não tem muitos amigos, sai sempre cedo de casa e, às vezes, nem volta ! Papai diz que ela não pode ser só agente do FBI, ela deve fazer alguma coisa a mais, agentes do FBI não costumam ser dedicados assim ! Como eu estava dizendo, eu fiquei com muito medo mesmo, ele virou um pouco a cara e eu vi, os olhos eram puxados, como os do Samo, sabe, do Martial Law ? Fiquei com mais medo, coloquei a cadeira no lugar (a mamãe não gosta que eu fique olhando os outros atrás da porta, por isso eu guardei a cadeira) e saí correndo para o meu quarto, fiquei lá na cama, encolhido, até que dormi... Eu sei que eu vi, não estava sonhando ! O que você acha ? Acha também que eu preciso de um psicólogo ? Mulder ainda estava sorrindo. -Não acho, não... Tudo o que você falou pode ter acontecido ! A porta da cozinha onde teoricamente pôde ser visto tudo o que houve se abriu repentinamente. Uma mulher de cabelos longos, ondulados e desarrumados, olhos assustados sem motivo e com um tom áspero na voz apareceu. - Tommy ! Já não lhe disse para não encher o saco dos policiais ? Já para dentro ! O garotinho, parecendo estar desapontado com a atitude da mãe, olhou uma última vez para o agente que lhe escutara, e entrou. Quando Mulder ia dizer alguma coisa, a mulher disse sem nenhuma preocupação real: - Desculpe, não vai mais acontecer. E fechou a porta, sem tempo para discórdia. Mulder levantou-se e parou para organizar as idéias. Seria aquilo, enfim, um Arquivo X ? À primeira vista, a história do garoto parecia pura fantasia, a necessidade de chamar atenção, mas observando de perto... os detalhes coincidiam, alguns que o garoto nem tinha conhecimento, como a areia no sofá de Scully. Mulder resolveu seguir a teoria do garotinho, com cautela e o máximo de ceticismo possível, já que não teria Scully para impedi-lo, deixá-lo distante da insanidade. O agente passou pelo rombo da porta do apartamento da parceira. Agachado, procurou por evidências que indicassem algo que pudesse sustentar a teoria do homem-forte. Nada encontrou de anormal. Frustração. Mulder estava perdido. Entre outras inúmeras coisas, Scully parecia "inspirar" o parceiro para o trabalho... Mais um motivo para o sangue de Fox ferver e uma força desconhecida o fez mover-se. Levantou-se. Foi até o sofá. Pegando um pedaço de saco plástico que voava entre a bagunça do lugar, o agente coletou a pequena quantidade de areia e talvez mais alguma coisa, que formavam um "montinho grudento", como pensou Mulder, uma forma primitiva de cimento. Iria investigar aquilo. Acharia a origem daquela porção de natureza, mesmo que tivesse que morrer por isso. ===XXX=== Scully estava deitada na cama. Novamente pensando. Dessa vez em algo mais prático: onde estava. Através dos tijolos de circulação de ar, vira uma cena um tanto familiar: estava a poucos quarteirões de casa, como havia imaginado pelo pouco tempo de viagem dentro do porta-malas. Era, porém, uma rua bem pouco movimentada, encoberta pelos prédios da avenida principal de Georgetown. Um plano bem bolado: a polícia acharia que a teriam levado para longe, tendo a noite toda para viajar. Ao contrário, estariam perto do centro da investigação, sabendo dos fatos recentes. A agente ficou mais preocupada... Será que conseguiriam achá-la ? Tinha que confiar em Mulder. Era o melhor que ela poderia fazer, por enquanto. ===XXX=== O agente Mulder não estava a fim de conversa, quando entrou na sede do FBI em direção ao laboratório. Andava rapidamente pelos corredores, enquanto rezava inconscientemente uma oração desconhecida. Não perdeu tempo com cumprimentos quando entrou no laboratório. Avistou o jovem rapaz que fora útil outras vezes ajudando Scully em outros casos. Tirou o saco plástico do paletó. -Preciso saber de onde vem isso, o mais rápido possível. A vida da agente Scully depende disso. O cientista arregalou os olhos: - Agente Scully? O que houve com ela ? Mulder não estava muito interessado em explicar detalhadamente a situação, talvez porque nem existissem detalhes. -Foi seqüestrada ontem à noite por alguém com as mãos sujas disso aí... Consegue descobrir a origem ? O rapaz finalmente havia entendido sua importância. Pegou o saco plástico da mão de Mulder, enquanto explicava o que faria: -De acordo com a umidade do material, saberei mais ou menos de que região ela vem. Depois, torça para que junto com a terra existam alguns micróbios, você sabe, alguns deles crescem apenas em locais e condições específicas. -Tá, tá... E quanto tempo vai levar isso ? -Hã... Uma meia hora, para o teste sair com um mínimo de precisão. Mulder abriu mais os olhos: - Scully pode não ter todo esse tempo... - É o mínimo possível, se quiser aproveitar isso. Fox concordou com a cabeça. Acreditava na competência do jovem agente. - Daqui a vinte minutos eu volto. O rapaz sorriu sem muito entusiasmo. Já colocava uma parte da mistura de terra na lâmina do microscópio. Mulder saiu do laboratório, os passos decididos formavam uma espécie de marcha. Não queria perder tempo, pretendia voltar a Geogetown o mais rápido possível, achar mais pistas, achar Scully. Os policiais costumavam ser cegos, capazes de pisar em evidências claras para a visão de Mulder. Entrou no carro. Não levou muito tempo até o agente chegar no local do desaparecimento, porém não entrou no prédio, este já estava cheio de policiais, e o seqüestrador não estava ali. Atravessou a rua e foi em direção a um bar, logo em frente. Sentou em uma das mesas da calçada e pediu uma coca-cola. Dentro do estabelecimento, alguns homens mal-encarados discutiam a solução do Chicago Bulls, mas nenhum deles se encaixava no perfil de seqüestrador. Olhou para os prédios em volta, e não conseguiu imaginar nada dentro deles além de executivos de gravata e suas esposas felizes, fora alguns aposentados rabugentos. Mas Mulder estava convencido de que iria achar alguma coisa por ali, depois que pensou: Um homem dirigindo com alguém no porta-malas não é algo que passe facilmente desapercebido por um policial de estrada. E o seqüestrador não precisava correr esse risco, tinha muitos esconderijos por ali mesmo: atrás da avenida principal havia várias ruas estreitas e sem movimento, com galpões e pequenas casas. Além disso, os policiais iriam suspeitar primeiro que os seqüestradores a levariam para fora da cidade. Não se sabe exatamente porquê, mas eles sempre pensam assim. De qualquer maneira, era um plano teoricamente perfeito, por sua extrema simplicidade... E Mulder torcia para que o seqüestrador pensasse nisso. Sua reserva de forças para continuar a trabalhar sozinho estava acabando. Observou minuciosamente as ruas e casas que via à sua frente. Nada de relevante, casas, galpões com pequenas fábricas, até que viu algo que lhe chamou a atenção: uma casa com um teto alto e fino, no estilo chinês. O que aquela construção fazia ali ? Talvez uma família antiga chinesa, mas valia a pena investigar, na opinião de Mulder. Já colocava o dinheiro da coca- cola na mesa de armar, quando seu celular tocou: - Agente Mulder ? Aqui é Jonnhy, do laboratório... Sei que ainda não passaram-se vinte minutos, mas gostaria que o senhor viesse ver uma coisa... - O que é ? - O senhor pode vir ? - Sim, já estou indo. Mulder se esqueceu por um momento da casa chinesa, O que o rapaz iria querer, de tão importante ? O que teria achado ? Tinha que chegar rápido. Não demorou muito tempo para que o agente chegasse à sede do FBI. Seus passos eram largos, queria descobrir o que o jovem queria quase que desesperadamente. Entrou pela porta do laboratório como um raio. Jonnhy já o esperava, com os olhos no microscópio. - O que achou ? - Dê uma olhada. O jovem afastou a face do microscópio, para que Mulder observasse. Ele observou. Não entendia muito de terra, mas aquilo parecia uma espécie de fóssil de besouro. Reduziu mentalmente o tamanho que o microscópio aumentava, e teve um micróbio. - O que é isso ? Um fóssil ? - Na mosca ! Esse é um fóssil de um micróbio quase extinto, encontrado em apenas algumas partes da Ásia em expedições à tumba de imperadores... Mulder arregalou os olhos: - China ? O jovem ponderou: - É um país provável... - Ótimo. Muito obrigado. Continue investigando, pode ser que eu demore. O rapaz queria dizer algo, mas Fox já havia saído. Seus passos agora eram corridos, extremamente rápidos. Entrou em seu carro. Tinha que chegar rápido, pela primeira vez tinha uma pista concreta para seguir. Chegou a Georgetown. Parou o carro no mesmo lugar que parara as outras vezes, em frente ao prédio de Scully. Não queria ir de carro até a casa suspeita, pelo movimento da rua deserta onde estava o local poderiam suspeitar de algo e até mesmo ferir Scully. Não ! Mulder não poderia agüentar sua parceira ferida por sua causa. Foi a pé, rápido mas cauteloso. A casa era sombria, bem ao estilo chinês. Seu tamanho era maior do que o que Mulder imaginara. Surpreendentemente, não havia nenhum segurança na porta, somente uma grande estátua de pedra, esfalerando- se, Seria aquele realmente o lugar ? O agente não sabia... mas sua intuição dizia que era ali. Resolveu não arriscar sua entrada pela porta da frente, tocar a campainha não funcionaria no caso do lugar ser mesmo o cativeiro. Como não havia cerca, Mulder andou pela lateral da casa, em busca de uma porta ou janela. Foi quando encontrou uma fenda de ventilação, promovida por alguns tijolos especiais. O agente tentou olhar por ela, já que não havia outra janela por ali. Era um pequeno banheiro. Pelo tamanho da casa, não era o principal. Poderia ser do... SEQÜESTRADO. Chamou então, quase que com um sussurro: - Scully!!! Scully, você está aí ? Diga que está... Esperou alguns décimos de segundo, que pareceram durar eternidades. Uma voz conhecida lhe soou como uma doce melodia do outro lado: - Mulder !!! Estou aqui, Mulder !!! Fox sorriu aliviado: - Scully ! Estou aqui, tudo vai ficar bem ! Você está bem ? - Na medida do possível... Um pouco de fome, só. Comeria até sementes de girassóis, agora ! Mulder, cuidado, eles estão atrás de você ! - Atrás de mim ? - Sim, ele queria chamar a atenção de alguém que se importasse comigo... É você, só pode ser ! É melhor ir embora, chame reforços ! Eles são fortes... - Não sei quem são eles, mas me conhecem, nunca lhe deixaria aqui ! Há outra entrada aqui por fora ? - Não, acho que não... Mulder, não se arrisque tanto ! Fox já estava indo procurar outra entrada quando Dana o chamou: - Mulder ! Ele prontamente atendeu, voltando-se para a parceira. - Se não te encontrar de novo... Eu te amo... A voz saiu tímida, sussurrando, mas foi sincera... Mulder abaixou a cabeça e riu, dizendo: - Você diz isso para me motivar... - Disse porque não estaria preparada para morrer sem te dizer isso... Mulder olhou mais uma vez para a parceira. Embora estivessem sorrindo timidamente por fora, estavam imensamente felizes por dentro. As energias dos dois estavam novamente carregadas. Mulder ouvira o que há muito queria e da pessoa certa... Mas ainda tinha muito que fazer para que aquilo tudo acabasse. Ainda faltavam alguns pontos: Quem seqüestraria Scully para chamar sua atenção ? Porquê ? O agente estava disposto a descobrir. Saiu do campo de visão da parceira e foi até a frente da casa. Ao lado da porta, somente a estátua. Alguns degraus para cima o separavam da entrada da casa. Já estava no meio da escada quando toda a história que o garotinho lhe contou lhe veio à cabeça: Homem chinês, areia, força... Parou na metade dos degraus. Encarou a estátua. "É ela ! Quem teria mais força do que uma estátua de pedra que, no caso, está se esfarelando e produzindo um tipo de areia milenar ? Esta não é uma simples estátua !" Foi o que pensou, ao descer as escadas. "Ela já deve estar se preparando para me pegar..." Mulder saiu correndo em direção à lateral da casa oposta à que havia achado Scully. Tinha que se esconder. Precisava... Escutou atrás de si um barulho de pedra quebrando-se. Sem parar de correr, olhou para trás: Um homem chinês, com a feição igual à da estátua e a pele muito seca corria atrás dele, com uma rapidez incrível. Ele não podia ser pego, precisava escapar... Olhou para os lados. À esquerda, a casa, à direita, muitas samambaias e todo o tipo de mato cobriam o muro lateral. Não pensou em coisa melhor: pulou no mato, rezando para que a suposta "estátua móvel" de alguma maneira não o visse. Ficou lá, alguns milésimos de segundo, imóvel. Escutou o barulho da estátua se aproximando... Era agora... Surpreendentemente, escutou estátua se afastando. "Deu Certo !", foi o que pensou. Estava aliviado. A inteligência da estátua não era das melhores, se todos os seguranças fossem iguais, não seria difícil resgatar Scully. Mas seus pensamentos foram bruscamente cortados por uma voz ríspida: - Anda pastando, agente Mulder ? Vamos, saia do meio do mato com as mãos para cima! Nem todos eram iguais à estátua... Sem opção, Mulder levantou-se com as mãos para cima e viu sua situação: seis homens orientais, de pele seca, apontavam-lhe uma espécie de lança bem afiada, cercando-o por todos os lados. À sua frente estava um homem diferente dos outros, usando roupas orientais coloridas. Não era chinês e carregava um revólver. Seu rosto era altamente familiar para o agente. -Raymond ? O que está fazendo aqui ? O homem sorriu ironicamente. - Ora, ora, agente Mulder, ainda se lembra de mim ? Por que a surpresa ? Não achou que ficaria 25 anos preso, achou ? Treze anos, livre por bom comportamento... Agora é a sua vez de pagar ! Você e a sua queridinha... A voz de Mulder era irritada: - O que você quer com Scully ? Solte-a ! Seu problema é comigo, e eu estou aqui ! Raymond continuava sorrindo: - Quando se assalta um banco – e olha que já fiz isso várias vezes – , se mantém reféns para conseguir o que quer... Bem, a Scully é a refém, e agora consegui o que quero: Você e seu sofrimento. - Então, já me conseguiu, solte-a ! - E, quando o refém descobre algo que não deve contar a ninguém, você fica com ele mais um tempo, depois decide o que vai fazer... Além disso, se eu a soltar ela voltará com toda a cavalaria... Acha que sou idiota, Mulder, sou ? O homem deu um soco na face de Mulder. O agente ia revidar, mas as estátuas-móveis o seguraram. O homem falou, com a mesma calma de antes: - Levem-no ! Vamos colocá-los juntos para o início da fase dois ! Ah, agente ! Da próxima vez, não se preocupe só com a estátua, dê uma olhada no sistema de câmeras ! Mulder pensou em dizer algo ao homem, mas achou inútil, já que os homens de pele seca já o levavam para dentro da casa, através de uma garagem que ficava nos fundos. Ainda seguro pelas estátuas, o agente percorreu um comprido corredor de teto baixo. Passaram por uma porta, que pelos cálculos de Fox era o "quarto" de Scully. No fim do corredor, o salão impressionou Mulder, assim como havia impressionado a parceira, pela sua atura e pela grande quantidade de estátuas em volta de um tapete vermelho, que levava a um trono. Raymond estava sentado no trono. Aos pés do trono estava Scully, a face envolta em medo. - Scully !! Fox queria correr em direção à Scully, abraçá-la, protegê-la, pelo menos por um momento... Mas os sujeitos da pele seca não deixaram. - Mulder !!! Scully não estava presa, e correu até Mulder para abraçá-lo. As estátuas quiseram impedi-la, mas o homem do trono fez um gesto com a mão para que não o fizessem, e sim se afastassem um pouco. - Mulder, não tente salvar minha vida de novo se eu estiver consciente, quase morri de preocupação ! Você está sangrando, deixe-me ver isso... Dana referia-se a um pouco de sangue que escorrera do nariz de Mulder quando ele levara o soco de Raymond. - Chega, chega de palhaçada ! Vamos à fase dois do meu plano perfeito, que você, agente Mulder, não irá arruinar ! As estátuas separaram os dois com uma eficiência incrível. - Primeiro, agente Fox Mulder, conte para sua parceira, ou minha refém, quem sou eu ! Mulder engoliu em seco e começou a falar, altamente incentivado pela lança encostada em suas costas: - Em 86, eu era um agente novato no setor de seqüestros. Houve um caso que era um enigma para todos os agentes. Eu segui as pistas, pistas pequenas, e acabei chegando ao cativeiro. Pegamos o seqüestrador e libertamos o diplomata seqüestrado. O seqüestrador era Raymond Crafford, ele... Apontou para Raymond. Este falou, a voz abalada: - Era um plano perfeito ! Muito dinheiro, riqueza pelo resto da vida ! Você estragou ! Você ! Agora estou de volta, você me paga... Junto com ela ! Desde o início do ano passado venho pesquisando uma forma de recrutar gente para pegar você, ou vocês, quando descobri que existia alguém que Mulder estimava mais que a própria vida... Arranjar gente provocaria suspeitas. Aí resolvi apelar para o meu avô: Ele era uma espécie de pesquisador dos impérios Chineses. Uma vez, na pesquisa de um império muito antigo, achou um livro, que se inspira no equilíbrio da natureza e dos homens. O objetivo do livro era trazer os mortos à vida. Conhecem os soldados de pedra construídos por um imperador chinês que tinha medo da morte, para protegê-lo ? - Soldados de Terra... cota, gota, algo assim... Já vi uma vez num documentário da Discovery. E daí ? Foi Scully quem falou. - Muito bem, dra. Scully ! Bem... Juntei o livro com os soldados, deu certo e... vocês já viram e *sentiram* o resultado... - Isso é impossível ! Ninguém sentiu a falta deles ? - Substituí por alguns falsos... A magia só funcionava com coisas e pessoas da China... - Estou me sentindo importante – ironizou Mulder. - Não vai ficar assim por muito tempo... Agora vem a parte dois da história ! É um jogo, de regras simples: meus soldados farão um círculo em volta de cada um de vocês. Cada vez que eu disser já, eles avançam um passo, com suas lanças afiadas. Como o que eu quero é o sofrimento de Mulder, os soldados farão um círculo mais fechado em Scully, assim ela morre primeiro ! - Scully !!! Nnãããããoo !!! - Mas os gritos de Mulder não foram suficientes, e o círculo vivo- morto se fez em volta cada um. Os olhos dos dois estavam envoltos em pavor. Não queriam morrer... Scully tentou manter Mulder na realidade, gritando: - Não se culpe, Mulder, eu fui a culpada por não trancar a minha porta, por isso me trouxeram aqui, você não tem culpa nenhuma nisso ! - Ele arrancou o portal, Scully, não me inocente ! - Já ! Esse melodrama está me dando sono ! Os soldados avançaram mais um passo. Mais um apenas, era o fim de Scully. Dois e Mulder também morria. O homem se divertia. - Isso está ficando legal ! Mulder... Vou matar Scully... Culpa sua... - Pare com isso, Raymond ! Pegue-me, torture-me, deixe- a em paz ! Ela tem a mãe e o irmão que sentiriam falta dela, deixe-a ir ! - A família dela não liga muito , eu pesquisei... Vou aumentar a tensão por aqui, certo ? Vou contar ate três, e isso representará um já... Atenção ! Um... Mulder suava, sua tensão beirava à loucura. Scully morreria ali, ao seu lado, e ele não poderia fazer nada... Não poderia suportar isso... Não Scully... - Dois... - Mulder começou a chorar. De culpa, misturada ao pavor e à tristeza. Scully também estava apavorada. Não queria morrer, não tinha dito tudo o que pensara detalhadamente a Mulder, não o tinha ainda... - E... Os agentes prenderam a respiração. Esperavam o pior. Foi quando escutaram um estrondo e um tiro. - Parados todos !!! Os dois agentes tinham os olhos fechados, e os abriram aos poucos, simultaneamente. Mortos ? Não, não estavam. Foi aí que viram a situação: na porta, Skinner estava de arma em punho, liderando um grupo de policiais armados e de coletes à prova de balas. No trono, um corpo com um tiro no peito. Não tinham morrido. Ainda estavam lá. Antes que um dos dois dissesse algo, Skinner gritou: - Mulder !! Scully !! Estão bem ? Pelo amor de Deus, Mulder, conte-me o que está pensando em fazer a partir de agora ! Até o homem do bar eu tive que subornar por informação! Seguir seus passos não é nada fácil... Do prédio da Scully para o laboratório, do laboratório para o bar, de lá para uma casa chinesa... Mas... O que fazem entre estas estátuas de pedra ? Mulder sorriu, imensamente aliviado. - É uma longa história, senhor... Obrigado ! Deixe-me sair daqui... Quase ao mesmo tempo, Mulder e Scully se apoiaram nas lanças e saíram do círculo mortal. Sem se importar com Skinner, os dois se abraçaram. Nenhum dos dois queria que aquele momento acabasse. - Scully... Desculpe-me ! Não vou deixar que isso aconteça com você... Não vou... - Mulder, Mulder, você não tem culpa de nada... Você me salvou ! Skinner nunca chegaria até aqui sem você ! - Mas sem mim você não estaria aqui, você não teria valor para ele e... - Shh... Scully colocou o dedo sobre os lábios de Mulder, e ele se calou. Não precisavam de palavras. Conversavam com os olhos... E estavam felizes. Abraçados, um protegendo o outro, muitos policiais de guerra em volta, mas isso não importava, só eles importavam ! Ao contrário do beijo da virada do milênio, a iniciativa desse foi de Scully. Ela havia percebido que precisava dele... E o beijou. Não um beijo como o outro – embora o outro também tivesse significado muito para os dois – este fora muito mais interessante... Para os dois. Skinner olhava de longe, fingindo estar comandando alguma coisa a alguém. Sabia daquilo há muito... embora eles sempre fossem imensamente profissionais. Eles eram especiais um para o outro. E ele deveria agradecer: Scully não o teria beijado se não fosse para salvar Mulder... Eram um do outro. Pelas regras, o chefe deveria separá-los e repreendê-los, mas decidiu não fazê-lo. Deixou que a cena se completasse. Mulder e Scully não queriam se separar, mas infelizmente não poderiam ficar ali para sempre. Sorriam, apenas sorriam. - Eu te amo – sussurrou Scully. - Eu também te amo – respondeu Mulder. Foram em direção ao chefe Skinner, iam dizer alguma coisa, mas o chefe os impediu: - Estão mesmo bem ? Os dois disseram "sim" movendo a cabeça. - Espero um relatório segunda-feira ! Agora vão, nossa reunião já era... Um relatório detalhado, certo ? Por favor, sem surpresas emocionantes na segunda-feira, estou velho demais para isso ! - Pessoas velhas não salvam ninguém... Estaremos lá no horário ! Mais uma vez obrigado ! – disse Mulder. Scully sorriu, concordando com o parceiro. Skinner disse, no ouvido de Mulder: - Sortudo... Mulder sorriu. Sem mais, os dois saíram do lugar. Skinner acompanhou- os até a porta com os olhos. Quando os dois estavam no meio das escadas, Mulder questionou a parceira: - Tem algo programado para fazer hoje ? Scully respondeu, olhando para os degraus e escondendo um sorriso: - Hã... Não, estaria no FBI... Mulder aproximou-se mais dela: - Quer jogar baseball ? Conheço um lugar no parque onde ninguém joga nunca... Scully parou no último degrau. Estava séria. Mulder desceu um pouco das nuvens. Ia se desculpar. Quando Scully voltou a sorrir, quase encostando em Mulder: - Só se você comprar um gelado de arroz ! Mulder também voltou a sorrir: - Que tal sorvete de creme ? É melhor ! Esse seu gelado é ruim de roubar ! Scully riu: - Hum... Combinado ! Fox passou a mão em volta da cintura da parceira, segurando-a. Estavam felizes, e podiam expressar isso livremente. Chegaram até o carro de Mulder, parado perto do prédio de Scully. Skinner não deixara chamar a imprensa, mas um pequeno grupo de pessoas olhava o casal, aliviado. Mulder olhou para cima, ainda envolvendo Scully com o seu braço, e viu o garotinho que tinha lhe ajudado olhando em uma das janelas. O pequeno sorria, feliz em ver sua vizinha salva, e acenou para Mulder, que lhe retribuiu igualmente. Dana observou a situação, sem saber exatamente como haviam se conhecido. Os dois estavam na frente da porta do carona, quando se olharam. - Vamos, tia Dana ? Scully divertiu-se com a brincadeira do parceiro, já sabendo que o apelido havia sido dito originalmente pelo garotinho da janela, e entrou no carro, antes roubando um selinho de Mulder. Estavam felizes... Estavam finalmente sendo eles mesmos, dizendo *realmente* tudo o que pensavam. E ninguém poderia separá- los... ===XXX=== Necrotério de Georgetown 20:13 Uma espécie de reza chinesa ecoava por toda a sala. Falava sobre salvar a si próprio, voltar da morte sem ajuda externa. A voz era grave, sombria, decidida. Somente a lua iluminava a sala escura. A voz aumentou. Um barulho metálico de gavetas pôde ser ouvido. Dentro da gaveta aberta, o corpo não estava só. Tinha alma. Os olhos se abriram. Não eram chineses. Não eram amigáveis... === XX FIM XX===