Título: Nunca amei Autora: Meggie Classificação: Shipper O Poder da validação Todo mundo é inseguro, sem exceção. Os super-confiantes simplesmente disfarçam melhor. Não escapam pais, professores, chefes nem colegas de trabalho. Afinal, ninguém é de ferro. Paulo Autran treme nas bases nos primeiros minutos de cada apresentação, mesmo que a peça que já tenha sido encenada 500 vezes. Só depois da primeira risada, da primeira reação do público, é que o ator se relaxa e parte tranqüilo para o resto do espetáculo. Eu, para ser absolutamente sincero, fico inseguro a cada novo artigo que escrevo, e corro desesperado para ver os primeiros e-mails que chegam. Insegurança é o problema humano número 1. O mundo seria muito menos neurótico, louco e agitado se fôssemos todos um pouco menos inseguros. Trabalharíamos menos, curtiríamos mais a vida, levaríamos a vida mais na esportiva. Mas como reduzir esta insegurança? Alguns acreditam que estudando mais, ganhando mais, trabalhando mais resolveriam o problema. Ledo engano, por uma simples razão: segurança não depende da gente, depende dos outros. Está totalmente fora do nosso controle. Por isso segurança nunca é conquistada definitivamente, ela é sempre temporária, efêmera. Segurança depende de um processo que chamo de "validação", embora para os estatísticos o significado seja outro. Validação estatística significa certificar-se de que um dado ou informação é verdadeiro, mas eu uso esse termo para seres humanos. Validar alguém seria confirmar que essa pessoa existe, que ela é real, verdadeira, que ela tem valor. Todos nós precisamos ser validados pelos outros, constantemente. Alguém tem de dizer que você é bonito ou bonita, por mais bonito ou bonita que você seja. O autoconhecimento, tão decantado por filósofos, não resolve o problema. Ninguém pode autovalidar-se, por definição. Você sempre será um ninguém, a não ser que outros o validem como alguém. Validar o outro significa confirmá-lo, como dizer: "Você tem significado para mim". Validar é o que um namorado ou namorada faz quando lhe diz: "Gosto de você pelo que você é". Quem cunhou a frase "Por trás de um grande homem existe uma grande mulher" (e vice-versa) provavelmente estava pensando nesse poder de validação que só uma companheira amorosa e presente no dia-a-dia poderá dar. Um simples olhar, um sorriso, um singelo elogio são suficientes para você validar todo mundo. Estamos tão preocupados com a nossa própria insegurança, que não temos tempo para sair validando os outros. Estamos tão preocupados em mostrar que somos o "máximo", que esquecemos de dizer aos nossos amigos, filhos e cônjuges que o "máximo" são eles. Puxamos o saco de quem não gostamos, esquecemos de validar aqueles que admiramos. Por falta de validação, criamos um mundo consumista, onde se valoriza o ter e não o ser. Por falta de validação, criamos um mundo onde todos querem mostrar-se, ou dominar os outros em busca de poder. Validação permite que pessoas sejam aceitas pelo que realmente são, e não pelo que gostaríamos que fossem. Mas, justamente graças à validação, elas começarão a acreditar em si mesmas e crescerão para ser o que queremos. Se quisermos tornar o mundo menos inseguro e melhor, precisaremos treinar e exercitar uma nova competência: validar alguém todo dia. Um elogio certo, um sorriso, os parabéns na hora certa, uma salva de palmas, um beijo, um dedão para cima, um "valeu, cara, valeu". Você já validou alguém hoje? Então comece já, por mais inseguro que você esteja. Stephen Kanitz Artigo publicado na Revista Veja, edição 1705, ano 34, nº24, 20 de junho de 2001, pág.22 Aiai, eu adoro esse texto. Gente, será que vocês poderiam me validar hoje? ;-) Feed: wm3@uol.com.br Disclaimer: Não pedi nem o texto nem os personagens emprestados mas eu devolvo, juro. Resumo: Scully. Acho que isso resume bem. Retratação: Gostaria de pedir para Fernanda Wanderley, se estiver lendo isso, obviamente, para me avisar novamente qual é o seu e- mail. Recebi seu feed e gostaria de responde-lo, mas meu PC nunca foi assim uma Brastemp e não enviou a mensagem de volta direito, e agora perdi seu 'endereço'. Desculpe a demora e a enrolação. Obrigada. Nunca amei by Meggie "Nunca amei. Aliás, minto. Amei sim. Amei minha mãe, pai e irmãos, amei meu coelhinho que morreu e o cachorro da Melissa, que por acaso se chamava Rabitt, e viveu exatos 19 anos e três meses, amei minha primeira Barbie, beijos de fim de festa. Amei meu professor de Inglês por três semanas e uma nota baixa. Amei Daniel com a maciez admiradora de nossos mestres mais queridos. Amei o mar, sorvete de avelã em dias de chuva, conversas de fim de tarde com minha mãe, amei os livros do Marcel Proust, amei o Robert Redford e a Minnie. Meu primeiro passeio na montanha russa da Disney e mais ainda ver o Bill vomitando depois de descer. Amei o cheiro de maças nos dias de ação de graça, minha fantasia de Cigana no Halloween, amei Ter que ir dormir na cama do Charlie quando relampejava e ele gritava por socorro do quarto, todas as minhas bebedeiras, o show dos Rolling Stones apesar de odiar Rolling Stones. Amei o inverno, filme de terror a noite, andar de mãos dadas com papai. Amei tirar as rodinhas da bicicleta, o aparelho e trocar o uniforme do colégio por uma minissaia preta. Amei o sorriso do meu avô quando chegava em casa, as histórias assombrosas que contava perto da lareira na hora de dormir. Amei Queequag apesar de Ter durado pouco, amei Emily apesar de tudo, amei . Acho que amei demais, tantas barreira e hoje percebo, de nada serviram para me proteger do mundo. Continuei amando. Amei o casamento da Tia Dora, bolo de caramelo, torrada com muita margarina. Amei meu primeiro beijo no meu melhor amigo, Louis. Amei todos os abraços que dei até hoje. Amei meus boletins recheados de As, cigarros fumados atrás da casa, pular muros para comer pêssego. Amei as madrugadas que passei lendo e as que passei com meus amigos. Amei um Natal em Nova York, uma boina azul que eu tinha. Amei os olhos de um garoto lindo da escola primaria, cheiro de flores do jardim, salada de frutas, todos os discos dos Beatles. Amei o primeiro Eu te amo que ouvi apesar de não Ter acreditado, meu primeiro sutiã, uma foto do Bill com uniforme da marinha. Como me iludi. Quantos muros construídos às pressas e quantas noites em guarda, lutando em trincheiras contra todos meus sentimentos ternos. Desperdício de tempo que não volta atrás. Desconsiderando tudo, nunca amei. Nunca amei da forma louca dos meus sonhos adolescentes. Mulder veio. Mulder foi diferente de tudo. Mas não foi amor. Mulder foi, no começo, um idiota. Um louco que era diferente, diferente de mim. Um louco alto, lindo, inteligente. Irônico, horrivelmente irônico. Foi difícil. Ele era meu colega de trabalho e havia um certo respeito por isso. E mesmo que eu procurasse negar, havia confiança. Deus, eu confiava nele. Em poucas semanas, se ele me pedisse para saltar sem olhar o tamanho do buraco, era o que eu faria. Sem pensar. Foi o começo. Houve ciúme. Era natural. Vivíamos juntos, a minha vida acabou se resumindo a ele e aos arquivos X. E levando em conta que Mulder e os Arquivos X são a mesma coisa. Minha vida se resumia a meu parceiro de olhos verdes. Depois, eu conseguia entende-lo. Entende-lo realmente. Saber de sua alma. E houve ternura. Afeto. Consideração. Mas era estranho. Tornamo-nos, mesmo sem saber, amigos. Companheiros de causa. Perdemos. E com as perdas vieram os sentimentos de dor e magoa. E culpa. Novamente, tudo enterrado, sufocado sem direitos a se pronunciar. Mulder era ainda meu parceiro, a quem eu devia lealdade e nada mais. De certa forma, era mais que isso. Quase sem querer. Era apoio. Era a certeza de que ele estaria ali se um dia eu quisesse me abrir. A reciproca sempre seria verdadeira. Nossos espíritos eram espelhos um do outro, contrários mas iguais. Imagem e semelhança. Era divertido, excitante, cansativo. Mas não era amor. Não haviam toques, mas havia desejo. Éramos sozinhos, éramos jovens. Passávamos tempo demais juntos. Vontades que precisavam ser adormecidas. E eram. O máximo que podiam. As vezes, nos instantes de desespero e duvida, nossos flertes e insinuações despretensiosas, saiam de controle. Acabávamos nos tocando, levemente, devagar. Havia medo. Um pavor surdo de nós mesmos. De nos entregar demais. Só que sem saber, já estávamos entregues. Não havia mais saída nem pra onde correr. Os problemas vieram, eles sempre vinham, nas mais diversas formas, perfumes e tamanhos. Nós os enfrentamos, fugimos deles, vencemos ou falhamos, não importava. Estávamos juntos. Acostumamo-nos a isso. A estar juntos. Mas não era amor. Era paz. Calma, conforto, segurança. Certeza de que se estendesse o braço a mão dele estaria lá para segurar a minha. Que se eu caísse havia alguém para me levantar. Preocupações. Ódio. Momentos, houve momentos em que o odiei. Tive raiva porque ele me deixava de fora. Mas eu o deixava de fora. Algumas portas ele não poderia abrir. Alguns segredos que não deveria saber. Insegurança. Era estranho. Como uma só pessoa nos poderia inspirar toda aquela gama de sensações conflitantes. Repito, porém, não era amor. Nunca foi amor. Eu não amei ninguém. Lutei contra isso, toda a minha vida evitei o sentimentalismo desnecessário. Não queria minhas pernas tremulas, meu coração acelerado a vista de ninguém. Era um sinal intenso de fraqueza e submissão. Eu era forte. Ledo engano. Doce ilusão. Não amei? Como não amei? Creio que foi só o que eu fiz. E amei Mulder. Amei como as mães aos filhos, cheia de cuidado e proteção. Zelo. Amei como criança ao seu primeiro brinquedo, inocente e terna. Amei como os poetas, de forma boêmia e louca, ciumenta e sentimental. Amei de sentir saudade e chorar. Amei de arrepiar a pele, mesmo dizendo a mim mesma que era o frio. Amei escondendo e mostrando. Amei como amiga, dando os ombros e apoio. Como irmã, sendo companhia eterna e diária. Amei como amante, desejando. Querendo. Sofrendo. Amei como não se deve amar. Demais. Demais para minhas veias azuis suportarem. Para meu coração pequeno guardar. Amei muito. Tanto que meu cérebro analítico, quase limitado, não conseguiu classificar. Talvez não tenha sido amor. Não sei, as vezes acho que nunca amei. Talvez, tudo aquilo, louco e vermelho, tenha sido ilusão de tempos solitários. Tempos em que havia um única companhia constante. Benéfica e digna. As vezes ainda não aceito que apesar de Ter tentado tanto. Falhei. Miseravelmente. Minhas armaduras medievais não foram suficientes para afastar as fraquezas que me acometeram. E elas vieram, venenosas. Uma sensação intensa de traição ao ver outros lábios tocando os dele, outro corpo ao qual ele dava atenção, ou alguém em que ele confiava. Atitudes loucas de indiferença e insensibilidade que as vezes resolve adotar. Situações que não deveriam me atingir mas atingiam. Machucavam. Era amor. Deus, não sei nem como, mas era. E apesar de Ter tentado ao máximo negar. E fugir e me enganar. Hoje, finalmente, percebo. A maior de minhas mentiras, o maior de meus erros, foi um dia Ter pensado que nunca amei. Fim