Título: Mulder e Scully na Terra da Fantasia Autora: Mônica Almeida e-mail: kikaalmeida@hotmail.com Disclaimer: Fox Mulder, Dana Scully, Walter Skinner, os Pistoleiros Solitários e CSM pertencem a Chris Carter, 1013 Productions e Fox Network. Categoria: shipper/mitológica (eu acho) Sumário: Casais mortos em circunstâncias estranhas, crianças abduzidas, Disneyworld e uma surpresa para Mulder e Scully. Nota da autora: Quando eu fiz essa fic eu não tinha sequer lido um spoiler de Requiem. Nota 2: Eu não sou muito boa na mitologia da série. E também não sei muita coisa sobre procedimentos médicos ou legais. Portanto, me perdoem se tiver alguma discordância nesse sentido. 10/07/00, Sede do F.B.I, Washington D.C., 8:45 manhã Dana Scully entra apressadamente no edifício J. Edgard Hoover, sede do F.B.I. e segue direto para os escritórios dos Arquivos X. Seu parceiro e amigo, Fox Mulder, está à sua espera. "Bom dia, Mulder." Ela coloca sua bolsa no armário e se senta em frente ao seu parceiro. "Bom dia, Scully. Você não costuma atrasar. Estava quase ligando para você. Skinner quer nos ver." "Houve um acidente no caminho. Nada grave, mas o trânsito ficou péssimo. Você sabe o que o Skinner quer?" "Ele não adiantou nada, só falou que parece se tratar de um arquivo x. Vamos?" Eles se levantam e Mulder dá passagem a Scully, tocando-a, de leve, nas costas. Quando eles entram no escritório, Skinner já os está aguardando. "Bom dia, agentes. Estou esperando vocês há uns bons vinte minutos." Scully fica sem graça. "Desculpe, senhor. A culpa foi minha. O trânsito estava pior que de costume." "Tudo bem, agente Scully. Vamos ao que interessa." Skinner pega uma pasta dentro da gaveta e a entrega a Mulder. "Nos últimos dez dias oito crianças desapareceram em Orlando, na Flórida. Mais precisamente na Disneyworld. Todas do mesmo modo. Elas aparentemente entraram na casa do Mickey e simplesmente sumiram." Mulder olha o arquivo dentro da pasta. Há nele fotos das oito crianças. "Aqui diz que são quatro meninos e quatro meninas. Sexos diferentes. E, pelo que estou vendo, raças diferentes." "Sim, é verdade. Há crianças brancas, afro- americanas, e descendentes de índios e orientais." Scully pega o arquivo das mãos de Mulder. "Há algum padrão, senhor?" "Bom, todas elas desapareceram entre três e cinco da tarde. E todas têm a mesma idade. Cinco anos." "Desculpe, senhor, mas o que o rapto de oito crianças tem a ver com os Arquivos X?" Mulder quer saber. "Agente Scully, poderia ler, por favor, os nomes das crianças desaparecidas?" "Sim, senhor. Jennifer Green, James Leary, Lucy Nakashima, David Anderson, Alyssa Halliwell, Eric Benton, Tess Reese e George Aricawa." Skinner entrega outra pasta aos agentes. "Estes arquivos estavam em minha mesa quando cheguei. Ninguém viu quem os colocou aqui. Três casais foram encontrados mortos nas imediações da Disney. O Sr. e a Sra. Nakashima foram encontrados às onze da noite do dia 6. O Sr. e a Sra. Anderson no dia 7 e o Sr. e a Sra. Leary no dia 8. Sempre no mesmo horário. Foram encontrados, porem, por pessoas diferentes." Mulder fica intrigado. "Nakashima, Anderson e Leary? Por acaso eles são..." "Sim, agente Mulder. Eles são pais de três das oito crianças desaparecidas. Os outros pais, além de desesperados com o desaparecimento de seus filhos, estão também apavorados por causa das mortes." Skinner entrega duas passagens de avião a Mulder. "O vôo de vocês sai à uma da tarde." Mulder pega as passagens e olha para Scully. "Bem, parceira, parece que iremos dar um passeio na Terra da Fantasia." Mulder e Scully estão no avião, a caminho de Orlando. Eles almoçam, ao mesmo tempo que examinam atentamente as duas pastas entregues por Skinner, a procura de alguma pista. "Mulder, olhe. Parece que encontrei outro padrão aqui. As idades dos pais das crianças variam entre 50 e 55 anos." Ela olha para ele. "Não é um pouco tarde para se começar a ter filhos?" "É, todas as crianças têm cinco anos. Scully, eu tenho um palpite." Scully dá um meio sorriso e arqueia um pouco a sobrancelha direita. "Você acha que os pais são extraterrestres?" "Não, mas acho que todas as crianças foram inseminadas artificialmente. Elas podem ter sido geradas por mães de aluguel." "O fato de poderem ter sido inseminadas artificialmente não significa que foram geradas por mães de aluguel." "Eu não disse que foram. Eu disse que podem ter sido. Ei, Scully, você não quer a sobremesa, quer?" Delegacia de Orlando, 4:55 da tarde Logo que chegam em Orlando, Mulder e Scully são apresentados ao xerife Ford. É um homem alto e imponente, e, ainda bonito, com seus quase 60 anos. Ele cumprimenta os agentes e passa logo a explicar o caso. "Todas as crianças desaparecidas, aparentemente entraram na casa do Mickey e sumiram sem deixar rastros. Em todos os desaparecimentos, não havia uma pessoa por perto para dar algum tipo de explicação." Scully estranha. "Mas, senhor, após o desaparecimento da primeira criança as autoridades deveriam ter fechado a casa. Oito crianças desapareceram. Isso é, no mínimo, muito estranho. Por que só depois da oitava criança ter desaparecido a polícia ficou sabendo? Não consigo entender." O xerife concorda com a cabeça. "Realmente é muito estranho, agente. Quando os pais vieram dar queixa, os oito ao mesmo tempo, já havia se passado cinco dias do desaparecimento da primeira criança." "E qual foi a primeira criança a desaparecer, xerife?" "Eric Benton." "Então vamos começar com o casal Benton. Entre outras coisas iremos perguntar por que eles demoraram tanto a dar queixa pelo desaparecimento do filho." O xerife alisa o cabelo, preocupado. "Infelizmente isso não será possível, agente Mulder. O Sr. e a Sra. Benton foram encontrados mortos ontem, por volta das onze da noite, nas imediações da Disneyworld." Mulder e Scully se entreolham. O caso é mais intrigante do que eles imaginaram. Snow White Hotel, Orlando, 4:45 da manhã Mulder e Scully trabalham o resto do dia até a madrugada. Mulder conseguira reunir os pais das crianças que permaneceram vivos e colocá-los sob custódia. Ele fizera perguntas e os deixara na delegacia com três guardas olhando-os. Ele também fora à casa do Mickey, na Disney. Scully fizera autópsia em todos os corpos. Eles estão exaustos, mas resolvem trocar impressões sobre o caso no quarto de Mulder. Ele se joga na cama com o braços abertos. "Ah, Scully, estou pregado." Scully senta numa poltrona e tira os sapatos. "O que conseguiu descobrir, Mulder?" Ele solta um suspiro cansado. "Quase nada. Todos os pais me responderam praticamente a mesma coisa. Que haviam deixado os filhos brincando na casa do Mickey e ficaram por perto. Alguns foram lanchar, outros foram ao banheiro. E todos falaram que havia uma moça loira, alta e bonita, vestindo uma camiseta do parque, que ficava tomando conta das crianças. Mas no momento que foram pegar os filhos, a moça havia desaparecido junto com eles. Isso aconteceu todas as vezes. Eles falaram que o nome da moça era Laura, mas quando fui consultar a administração do parque, não havia nenhuma Laura com a descrição que eles fizeram. Também fui até a casa do Mickey e não encontrei nenhuma pista. Nenhum dos pais soube me explicar porque demoraram tanto a dar queixa sobre o sumiço dos filhos. É como se eles estivessem apáticos. Mas em uma coisa eu estava certo. Todas as crianças foram inseminadas artificialmente. Os pais disseram que tentaram ter filhos pelas vias normais durante anos e, não conseguindo, resolveram fazer fertilização in vitro. Mas todas nasceram de suas próprias mães. E você, conseguiu alguma coisa?" Scully começa a fazer massagens nos pés. "Nossa, como estou cansada. Bom, Mulder..." "Espere, Scully, deixe que eu faço isso para você." Dizendo isso, ele pega uma cadeira, a coloca perto da poltrona de Scully e, delicadamente, pega o pé esquerdo dela e começa a massageá- lo. Scully olha para ele, tentando disfarçar a surpresa. "Vamos lá, Scully, o que você conseguiu descobrir?" "Ahn?...Bom, ah...Os quatro casais eram de raças diferentes. Os Leary eram descendentes de índios, os Nakashima de orientais, os Anderson eram brancos e os Benton, afro-americanos." "Há ainda um casal de cada etnia." "Mas o que mais me intrigou não foi isso. Mulder, os oito corpos estavam queimados, como se tivessem recebido doses enormes de radiação. Só não consigo entender como. Não há material radioativo por aqui. Mesmo que houvesse, não seria em doses tão altas. Como eles poderiam estar daquele jeito?" Mulder pega o outro pé de Scully. "Nós já vimos isso antes, não foi, Scully?" "Mulder, o que você está querendo dizer? Não é o que estou pensando, é?" "Scully, eu não consegui encontrar uma única pista até agora. E os pais foram expostos, como você mesma falou, a altas doses de radiação. Eu tenho uma teoria." "Ai, Meu Deus!" "Acho que essas pessoas fazem ou fizeram parte de alguma experiência. Scully, de alguma forma essa experiência não deu certo e as crianças foram abduzidas. E seus pais também, mas como eles não eram mais necessários, foram mortos." Mulder fala com entusiasmo. Scully olha para ele com ar divertido. "Mulder, como você consegue depois de não ter dormido nem comido até essa hora e ter trabalhado como gente grande, pensar coisas assim ao mesmo tempo que faz essa massagem maravilhosa nos meus pés?" Mulder lhe dá um sorriso de derreter qualquer coração. "Você ainda não viu nada." Scully disfarça um suspiro e se levanta. "Mulder, sua mente trabalha rápido demais. Descanse. Amanhã nos falaremos." Num impulso, ela desarruma o cabelo dele. "Vá dormir, Mulder." Ela sai, fechando a porta. Mulder fica sozinho, sorrindo, pensando na parceira. Mulder acorda com o toque insistente do telefone. Ele olha para o relógio. São 6:45 da manhã. Meio atordoado de sono, ele atende ao telefone. "Alô?...Sim, sou eu...Como?...Mas como...estou indo. Daqui a meia hora chego aí." Mulder joga uma água no rosto, se troca rapidamente e vai bater no quarto da parceira. Ela atende, sonolenta. "Mulder? O que faz aqui? Que horas são?" "Se arrume rápido, Scully. Temos que ir à delegacia imediatamente. Os quatro casais desapareceram." Delegacia de Orlando, 7:50 da manhã Mulder e Scully entram na delegacia e encontram o xerife Ford esperando por eles. Ele parece tão perdido quanto os guardas. "Agentes, desculpe acordá-los tão cedo, mas não sabemos como foi acontecer." "Senhor, eu deixei três guardas ontem tomando conta deles. Eles não se lembram de nada? Não sabem dizer o que aconteceu, como eles desapareceram?" O xerife chama os policiais que ficaram à noite com os quatro casais. Eles parecem atordoados, como se não estivessem entendendo nada. Scully interroga os policiais, enquanto Mulder vai até a sala onde ficaram os pais das crianças desaparecidas. Ele olha tudo, minuciosamente, e já está quase desistindo quando um objeto chama sua atenção. Ele se abaixa e percebe que o objeto é um pequeno disquete, muito pequeno mesmo. Scully se aproxima dele. "Mulder, os policiais não sabem explicar o que aconteceu. Nenhum deles saiu da sala em momento algum. Só um deles se lembra de ter visto uma luz na janela. Ele olhou para fora por alguns segundos e, quando se voltou para os casais, eles já haviam desaparecido." Mulder parece não ouvir. "Scully, olhe isso." "Parece um disquete, mas é tão pequeno..." "Sei quem pode nos ajudar." "Os Pistoleiros Solitários?" Sede do Pistoleiros Solitários, 4:35 da tarde Mulder voltara para Washington e deixara Scully cuidando do caso. Ele precisava falar com os pistoleiros sobre o disquete. Tinha certeza que eles poderiam ajudá-lo. Já na sede dos rapazes, eles se encontram entusiasmados com a idéia de alguma conspiração. Frohike é o mais eufórico. "Mulder, isso é fantástico! Você sabe o que temos aqui?" Ele havia colocado o disquete no computador. Estava todo em códigos. Mas nada que os pistoleiros não pudessem decifrar. Byers está intrigado. "Só não entendo porque eles usaram esse código. O Zenit Polar foi usado na Segunda Guerra e foi o único que os alemães não conseguiram decifrar. Mas depois todo mundo ficou sabendo. Por que eles usariam um código que todo mundo conhece?" Langly tem uma opinião. "Talvez eles quisessem ser descobertos de alguma forma." Frohike concorda. "É verdade. Talvez eles estivessem cansados de tudo isso e deixassem uma pista para que fossem descobertos." Mulder se impacienta. "De que diabos vocês estão falando? Ou melhor, de quem? Quem são 'eles'?" Antes que algum dos rapazes pudesse responder, o celular de Mulder toca. Ele atende e antes mesmo de pronunciar uma palavra, ouve a voz de sua parceira do outro lado. "Mulder, você precisa voltar imediatamente. As crianças reapareceram." Delegacia de Orlando, 12/07/00, 8:00 da manhã Quando Mulder e Scully chegam na delegacia, o xerife Ford já os está esperando. Os agentes percebem que o xerife está bem cansado. Parece que passara a noite inteira acordado. Scully o olha, um pouco preocupada. "O senhor está bem, xerife?" Ele dá um sorriso fraco. "Agente Scully, você sabe o que é passar a noite inteira tentando consolar oito crianças pequenas chamando pelos pais toda hora?" Mulder dá uma risadinha. "Realmente, xerife, não deve ser fácil. Mas por que as crianças ficaram com o senhor? Por que não as colocaram num centro infantil?" O xerife se senta pesadamente numa cadeira. Seus olhos azuis refletem todo cansaço que ele sente. "Agente Mulder, nunca pensei que passaria por isso. Justo quando estou perto de me aposentar, oito crianças desaparecem misteriosamente, metade dos pais são mortos, a outra metade some sem deixar vestígios e justamente quando essas crianças reaparecem, todos os assistentes sociais de Orlando resolvem entrar em greve. Isso é demais pra minha cabeça." Mulder e Scully não conseguem conter o riso. O xerife, apesar de ter passado a noite em claro, os acompanha. "Bom, agentes, acho que vocês vieram aqui para tentar conversar com as crianças, não? Por aqui, por favor." Mulder e Scully seguem o xerife Ford até uma sala onde as oito crianças estão. Uma policial está segurando no colo uma garotinha negra que chora agarrada em seu ombro. As outras crianças estão distribuídas nos sofás da sala. Os agentes correm os olhos pelas crianças. Uma menina loirinha segura forte a mão do garotinho afro- americano que está sentado ao seu lado. Um menininho com traços orientais e outro com carinha de índio têm os olhares assustados. Uma garotinha com longos e lisos cabelos negros aperta forte sua boneca de pano e um garotinho de cabelos castanhos e grandes olhos azuis alisa o cabelo da japonesinha ao seu lado que não para de chorar. Mulder e Scully se entreolham. Mulder fala baixinho para Scully. "Parece que resolveram seqüestrar as crianças mais bonitas da América." "É verdade, todas as crianças são lindas!" "Bom, parceira, vamos começar." Ele olha para as crianças. "Oi, garotada. Eu sou Fox e essa é Dana. Nós queremos conversar com vocês." As crianças olham para eles. A garotinha no colo da policial pára de chorar, mas a japonesinha não consegue. Apesar de ser da mesma idade das outras crianças ela é a menor delas. Scully se aproxima dela e a toca no rosto. "Não chore, querida. Vai ficar tudo bem." O menino que está do seu lado parece preocupado. "Ela não pára de chorar. Nem quis comer o sanduíche que a tia de farda deu." Ele diz se referindo à policial. Depois vira-se para a garotinha. "Viu, Lucy, a moça disse que vai ficar tudo bem." Mas Lucy está inconsolável. Esconde o rostinho nas mãos e chora. "Eu quero a minha mamãe." Mulder se aproxima dela e a pega no colo. "Lucy, eu e Dana estamos aqui para ajudar vocês. Nós precisamos saber o que aconteceu com vocês, porque vocês sumiram e também saber o que aconteceu com seus pais. Mas nós só poderemos ajudar vocês se vocês nos ajudarem também." Lucy olha para ele e, aos poucos, vai parando de chorar. Scully olha para Mulder impressionada. Com as crianças mais calmas, os dois começam a fazer perguntas. "Bom, crianças, como eu falei, eu e a Dana estamos aqui para ajudar vocês. Então nós queremos saber de tudo que vocês se lembram antes e depois de terem entrado na casa do Mickey." As crianças começam a falar todas ao mesmo tempo. Mulder olha para Scully atordoado. Ela começa a rir. "Calma, crianças, um de cada vez." Scully tenta controlar a situação. Ela olha para o garotinho que estava com Lucy. "Como é seu nome, querido?" "David." "Então, David, vamos começar por você. Do que você se lembra?" David começa a falar. "Bom, eu tava no parque com a mamãe e o papai e a gente tava andando de cavalinho. Daí o papai quis ir fazer xixi. Daí eu não quis e a mamãe perguntou se eu queria ver a casinha do Mickey. Daí eu disse que queria e a gente foi lá enquanto o papai ia fazer xixi." David pára para tomar fôlego. Mulder olha para David enquanto ele fala. Está impressionado com os olhos do menino. 'São iguais aos de Scully.' Ele pensa, mas alto fala. "Então, David, o que aconteceu quando você entrou na casa do Mickey?" "A mamãe ficou do lado de fora e uma moça me levou pra dentro. Quando eu cheguei lá o Mickey não tava, daí eu quis ir embora mas a moça não deixou. Ela disse que o Mickey voltava já. Daí ela me levou no quarto e mandou eu ficar sentado, esperando. Daí veio uma luz bem grande." Scully ergue uma sobrancelha. "Uma luz bem grande, David? Não seria uma luz bem forte?" O garotinho concorda com a cabeça. "É sim, uma luz bem forte. Daí depois eu tava no parque com eles (aponta para as crianças) e o xerife levou a gente pra delegacia." Mulder fica um pouco confuso. "É só disso que você se lembra?" O pequeno balança a cabeça. Scully olha para as outras crianças. "E quanto a vocês? Do que você se lembram?" As histórias das outras crianças diferem muito pouco da de David. E todas elas falam da moça. "Qual o nome da moça, vocês lembram?" George, o menino com traços orientais responde. "Laura." As outras crianças concordam com ele. Mulder coloca Lucy junto de David e pede. "Cuide dela, sim?" Depois puxa Scully para um canto. "Scully, essas crianças não lembram nada do período em que ficaram desaparecidas. Nós temos que descobrir quem é essa tal de Laura." "Sei disso, Mulder, mas essa moça parece nunca ter existido. Ao menos não aqui na Disney. Já perguntamos sobre ela. Quando você estava com os pistoleiros eu fiz mais perguntas sobre ela. A única Laura que trabalhou aqui pediu demissão há dez anos e era morena e baixinha. Essa de quem falaram é alta e loira." "E bonita." Mulder completa. Scully se impacienta um pouco. "Tá, Mulder, e bonita, que seja. De qualquer forma, não foi essa que trabalhou aqui." O xerife entra na sala e se junta aos agentes enquanto a policial fica distraindo as crianças. "Agentes, temos que resolver o que faremos com eles. Eu passei a noite toda aqui tentando acalma-los. A policial Newman não pode ficar com eles. Ela já tem dois filhos. Já imaginaram uma casa com dez crianças?" Mulder faz uma sugestão ao delegado. "Nós podemos ficar com as crianças." Scully o puxa pelo braço. Mulder se desvencilha suavemente. "Scully, não me olhe com essa cara. Não deve ser tão difícil assim. Até parece que você não gosta de crianças." "Claro que eu gosto, Mulder, mas oito?" "A Julie Andrews tomou conta de sete e se deu muito bem. Além do mais eu vou ajudar você. Serão quatro pra cada." Dizendo isso ele dá um daqueles sorrisos impossíveis de se resistir. Scully suspira, resignada. "Podemos fazer isso, xerife?" "Claro." O xerife fica aliviado. "É só conseguir um mandato colocando as crianças sob a custódia de vocês. Eu consigo isso em uma hora." Hotel Snow White, três horas depois Mulder e Scully levam as crianças para o hotel e resolvem ficar num quarto maior. O quarto que ocupam agora tem duas camas de casal e o gerente do hotel, sabendo do caso, providenciara alguns colchonetes. Algumas crianças recomeçam a chorar e Mulder e Scully fazem de tudo para acalma-las. "Mulder, isso não vai dar certo." Scully pega uma das meninas no colo. "Calma, meu anjo, não chore, por favor." Mulder tenta contornar a situação. "Crianças, vamos fazer um jogo? Nós vamos colocar vocês na cama. Quem dormir logo e demorar mais a acordar vai ganhar uma barra de chocolate daquelas bem grandes. Que tal?" As crianças se entusiasmam e correm para as camas. Aos poucos o sono e o cansaço tomam conta delas e elas adormecem profundamente. Scully se joga numa poltrona. "Ufa! Pensei que iriam ficar chorando pra sempre." "Scully, precisamos conversar. Descobri coisas interessantes sobre o disquete que encontramos. Bom, na verdade nossos três amigos malucos descobriram." Scully o olha curiosa. "Pode falar, Mulder." "Não quer que faça uma massagem nos seus pés, Scully?" Ele sorri e pisca um olho. "Não, obrigada. Quero prestar atenção no que você tem para falar." "Como?" "Nada, Mulder! Vai, começa." "Tudo bem. Vamos lá. Scully, todas essas crianças são frutos de uma experiência alienígena." Scully revira os olhos. "Ah, não, Mulder. De novo?" "Scully, me escute. É verdade. Elas foram fertilizadas in vitro e depois inseminadas nas suas mães. Só que na verdade nem seus pais nem suas mães são biológicos. Os pais desaparecidos dessas crianças são alienígenas." "Mulder, o que você está falando? Você quer dizer que essas crianças são como...como Emily?" A voz de Scully fica um pouco embargada. "Não. Foi uma experiência diferente dessa vez. Essas crianças são tão humanas quanto você e eu. Elas foram geradas por óvulos e espermatozóides de pessoas humanas. Depois os embriões foram colocados em extraterrestres. Scully, você sabe que eles estão aqui há muito tempo e possuem a forma humana." Scully, como sempre, não consegue acreditar. "Mulder, isso é impossível! Se elas cresceram em barrigas de aluguel, vamos dizer assim, o sangue delas não seria humano e sim alienígena como o da mãe de aluguel." "Exatamente! Foi aí que a experiência deu errado. Assim que nasceram, todas as crianças receberam transfusão de sangue humano, ou teriam morrido. Não sei como aquele disquete foi parar na delegacia, mas acho que alguém está querendo nos ajudar." Scully se levanta e fica andando de um lado para o outro. "Não sei, Mulder. Isso tudo é muito confuso. E os pais biológicos? Eles sabem disso? Simplesmente doaram seus óvulos e espermas para uma experiência?" Mulder hesita um pouco antes de falar. "Os espermatozóides foram pegos num banco de esperma. Os óvulos porem foram de mulheres, bom, mulheres abduzidas." Scully solta um longo suspiro e olha para as crianças. Ela fala quase só para si. "Eu não quero que comece tudo de novo." Mulder se aproxima dela e fala suavemente. "Escute, Scully. Temos que fazer testes de DNA nessas crianças. Temos que saber a verdadeira origem delas." Ele abraça Scully. "Scully, essas crianças não são como Emily. São crianças normais. Não vai acontecer nada com elas." "Espero que não, Mulder. Mas o que aconteceu com os pais, os que estiveram com elas esse tempo todo. Por que quatro casais morreram e os outros quatro desapareceram?" "Porque eles não quiseram levar a experiência a frente. Eles realmente amavam as crianças e não queriam que fossem submetidas a nenhum tipo de teste. Como não precisavam mais deles, acabaram matando-os. Eu acredito que os que sumiram foram mortos também." "Você acha que as crianças correm perigo?" "Não. Elas são 100% humanas. Não deu certo a experiência. Elas não são híbridas. Tudo que temos que fazer é encontrar as mães biológicas e entrega-las a elas. E caso elas não existam mais, temos que procurar lares adotivos. Eu tenho certeza que todas ficarão bem." Scully olha séria para as crianças e fica calada. Uma semana depois, apartamento de Mulder Mulder está arrumando uns papéis no seu apartamento enquanto espera Scully. A gaveta da escrivaninha é um emaranhado de papéis velhos, cartas, fotos e documentos antigos. Havia cinco dias que ele e Scully haviam deixado Orlando. A greve dos assistentes sociais havia acabado e as oito crianças foram levadas para um centro infantil em Orlando mesmo, enquanto os resultados dos exames de DNA eram aguardados. Mulder pega uma foto em que tem ele e Samantha quando pequenos. Ele passa os dedos carinhosamente pela foto. 'Samantha devia ter um ou dois anos nessa foto.' A campainha toca e Mulder vai atender. É Scully, como esperado. Ela entra no apartamento e vê a bagunça sobre a escrivaninha. "Nossa, resolveu arrumar isso hoje?" Mulder parece não escutar a pergunta. "Scully, eu lhe chamei aqui porque preciso falar com você. O 'Fumacinha' quer falar conosco." Scully não gosta nem um pouco da notícia. "Mas o que ele quer afinal?" "Olhe, Scully, você, mais do que ninguém sabe que não confio nele. Mas ele disse que tem informações valiosas sobre esse caso. Informações que são do nosso interesse. Os exames de DNA estão prontos e ele os conseguiu não sei como. Só nos entregará se formos falar com ele." Scully está cansada. Ela senta no sofá e dá um longo suspiro. "Vá você, Mulder. Eu não tenho nada para falar com aquele homem. Pode ir, eu espero você aqui." Mulder passa por ela e toca seu cabelo. "Você tem certeza?" Scully acena com a cabeça. "Tudo bem, me espere aqui." E como se tivesse medo de se arrepender ele dá um rápido beijo na bochecha dela e sai. Scully sorri. Depois pega a foto que Mulder estava olhando anteriormente. Ela olha fixamente para o garotinho da foto. Algum bar de Washington O bar escolhido pelo 'Homem do Câncer' é pequeno e sombrio. Há pouquíssimas pessoas nele. Mulder entra e o vê logo. Ele se aproxima do homem, que não pára de fumar seu cigarro e se senta com ele. "Sabia que é proibido fumar em ambientes fechados? Vamos logo. Me diga o que você quer." "Calma, agente Mulder. Não quer pedir uma bebida? Onde está sua parceira?" "Não quero beber e não interessa onde Scully está. O que você quer?" O homem apaga o cigarro e entrega a Mulder um envelope. "Só vim lhe entregar isso. Acho que você vai gostar do que está aqui." Dizendo isso, ele se levanta lentamente, acende outro cigarro e sai. Apartamento de Mulder, quatro horas depois Mulder entra no apartamento silenciosamente. Está atordoado com tudo o que acontecera. Depois que o canceroso saíra do bar, Mulder pensara em voltar imediatamente para o apartamento, mas resolvera abrir o envelope antes. E ficara completamente confuso com o que vira. Então ele resolvera fazer uma visita aos Pistoleiros Solitários. Agora, de volta ao apartamento, ele vê Scully dormindo no seu sofá, segurando a foto dele e Samantha. Ele se abaixa perto dela e toca levemente seu rosto. Ela desperta. "Mulder?" Scully ainda está um pouco sonolenta. "Você demorou. O que aconteceu?" Ela vê que Mulder está olhando para a foto na sua mão. "Achei essa foto na escrivaninha. É você e Samantha, não é? Sabe que nessa foto você está parecido com aquele garotinho, o David?" Mulder esboça um leve sorriso e pega a foto. "É verdade." Ele olha Scully nos olhos. "Porem ele tem os seus olhos." O coração de Scully dá um pulo. Por que Mulder está olhando tão profundamente assim para ela. E o que ele quis dizer com isso? Mulder se senta ao lado dela e mostra o envelope. "Scully descobriram as mães biológicas das crianças. Todas elas. Cinco delas estão vivas. As outras três morreram de câncer e as crianças delas irão para lares adotivos. Já tem gente até interessada. O sistema foi rápido. O Centro Infantil de Orlando vai entrar em contato com as mães biológicas e ver se elas têm condições de ficarem com as crianças." Ele engole em seco depois fala de uma vez. "Scully, você é uma das mães biológicas." Scully arregala os olhos. Seu coração está dando saltos dentro de seu peito. "Meu Deus, Mulder, não acredito. Mas qual delas...David?" "Sim. David." Scully abraça Mulder e começa a chorar. "Não, Mulder, de novo não. Eu não quero passar por aquilo tudo novamente. Eu não quero ver mais uma criança morrer." Mulder a consola. "Mas ele não vai morrer, Scully. Eu falei que ele é 100% humano." Scully olha para ele. "Não vão me deixar ficar com ele, Mulder. Não vão. Meu ritmo de trabalho, eu vivo sozinha, sou solteira, vão tirar meu filho de mim como tiraram Emily." Scully chora sem parar enquanto Mulder tenta acalma-la. "Calma, Scully, não chore. Não vai acontecer nada disso. Eu prometo. Escute...calma. Nós vamos ficar com ele, Scully. Nós vamos poder ficar com David." Scully olha para Mulder sem entender. "Nós?" Os olhos de Mulder se enchem de lágrimas. "Sim, nós. Vamos nos casar, Scully." Scully está cada vez mais confusa. "Casar? Mulder, do que você está falando? Por que...por que você também está chorando?" Mulder sorri entre as lágrimas. "Porque estou feliz. Porque amo você. Não precisa arregalar os olhos desse jeito, Scully. Eu amo você há muito tempo e você sabe disso. Sei que você me ama também. Não é verdade, Scully?" Scully sorri. "É verdade, Mulder. Eu amo você há muito tempo também." Eles se olham ternamente e trocam um longo e apaixonado beijo. Depois Scully se afasta levemente de Mulder. "Você vai casar comigo para que eu possa ficar com David?" "Para que nós possamos ficar com David. Afinal, eu tenho que fazer da mãe do meu filho uma mulher honesta." Scully abre os olhos desmesuradamente. "Como? Mulder, pelo amor de Deus, do que você está falando?" Ele entrega o envelope a ela. "Está aqui, Scully. David é nosso filho. Quando eu li o que estava no envelope eu não consegui acreditar. Corri para a sede dos rapazes e chegando lá eles já sabiam de tudo. Tinham deixado um novo disquete na porta deles que continha os exames e como haviam sido feitos. Em uma das minhas muitas passagens por hospitais eu fui hipnotizado e 'doei' meu esperma involuntariamente. E então, você vai casar comigo ou não?" A resposta de Scully é uma gargalhada feliz e um beijo mais apaixonado que o primeiro. Parque Municipal de Washington, outubro de 2000 Mulder e Scully passeiam no parque de mãos dadas. Na frente deles, David pula e corre como qualquer criança feliz. As crianças nunca souberam explicar direito o que acontecera durante sua abdução. Elas foram hipnotizadas e tudo que se lembraram foi a moça loira tomando conta delas num lugar grande e branco, com muitas, muitas luzes. Os corpos dos outros casais desaparecidos foram encontrados algumas semanas depois nas mesmas condições que os primeiros. Ninguém nunca soube explicar o que acontecera realmente. A moça jamais fora vista de novo. David fora entregue para Mulder e Scully e já se acostumara com seus novos pais. As outras crianças foram entregues as suas mães biológicas e lares adotivos e assim como David, com amor e paciência, acabaram se adaptando a nova vida. Mulder olha para o filho com carinho enquanto ele corre na sua frente. "Esse garoto deve ter sangue de cabrito, Scully. Não para de pular um minuto." Scully ri da idéia do marido. Ela tirara licença do FBI por tempo indeterminado para cuidar de David e estava adorando essa nova fase de sua vida. Mulder ficaria uns tempos sozinho nos Arquivos X, com a ajuda não oficial de Scully. "Mulder, tive uma idéia. Nós poderíamos adotar uma menininha. Eu adoraria ter uma família grande." Mulder gosta da idéia dela. "É verdade, Scully. Senão esse menino vai ficar muito mimado." Ele a enlaça pela cintura e olha para ela. "E que nome teria nossa filha?" Scully põe os braços em volta do pescoço dele. "Hummmm...Que tal Piper?" Mulder a solta. "Piper??? Que raio de nome é esse? Eu não vou colocar nome de bruxa na minha filha de jeito nenhum." Scully começa a rir. "E que nome você escolheria então?" "Que tal Madeline?" "Tá louco, Mulder? Parece nome de prostituta francesa." David vem correndo em direção a eles. "Mamãe, papai, olhem o que eu achei. Uma folha bonita." Ele entrega para os pais uma folha de parreira. Mulder se abaixa e pergunta ao filho. "David, se você tivesse uma irmãzinha que nome você daria a ela?" David pensa um pouco e depois grita. "Gillian." E volta para o que estava fazendo. "O que você acha, Scully?" "É, é bonitinho." "Podemos pensar, não?" Mulder pega a mão de Scully e eles seguem David que não para de correr e pular na frente deles, parecendo ter, realmente, sangue de cabrito. FIM