Autora: Maíra Martins E-mail: danakatherinescully@ig.com.br Disclaimer: As personagens desta fan fiction são de propriedade de CC, 1013 Productions e 20th Century Fox, esta estória destina-se unicamente ao divertimento dos admiradores do seriado Arquivo-x, sem intenção alguma de obter lucro com ela. Classificação: Drama/ Shipper Nome da fan fiction: Morte, Senhora de Todos Spoiler: Elegia Resumo: Algumas cenas que poderiam ter passado após a cena final do episódio Elegia. Morte, Senhora de Todos Uma mulher ruiva corria desesperadamente ao lado de um homem alto, ambos fugiam com todas as forças que lhe eram possíveis de uma Sombra que lhes vinha atrás, perseguindo-os, deixando por onde passava a escuridão e o vácuo, alastrando o Nada, devastando a vida, o casal tentava alcançar e ultrapassar uma linha invisível que limitava o campo de ação daquele fenômeno mórbido, o homem transpassou a linha, encontrando-se em segurança, a mulher estacou o movimento antes de transpô-la, permanecendo estática, com o olhar parado, fito na paisagem viva que se descortinava a ela do outro lado, os grandes olhos azuis dela brilharam de modo estranho, como se estivessem se despedindo. - Scully, o que você está fazendo? - Mulder assustou-se com o olhar da parceira - Vamos! Atravesse logo a linha! - bradou nervoso. - Não - fitou os olhos verdes à sua frente - Não posso, me perdoe, Mulder. - Pare de brincadeira, Scully, não é hora! Mulder estendeu as mãos para segurar a parceira e obrigá-la a passar para o lado seguro, mas suas mãos bateram em algo sólido, era uma parede invisível que o separava de Scully. - O que é isso?! - sua voz saiu desesperada, deslizou uma das mãos pela parede transparente. - Você pode transpor este muro invisível para o lado em que está, mas não pode retornar por ele para cá - falou tranqüila. - Droga, Scully! Atravesse logo!! - espalmou as duas mãos contra o muro invisível frente à amiga, seus olhos arregalaram-se numa expressão de assombro e revolta quando percebeu o que ela havia feito - Você me deixou atravessar o muro primeiro para que eu não pudesse levá-la à força daí, pode-se sair, mas não se pode entrar por esta passagem, isso é traição! Você me enganou! Não me deixou uma escolha! Por que isso? O que pretende fazer? Ficar desse lado aí é suicídio! - gritava angustiado. - Mulder, está na hora de eu partir, preciso ir, estou cansada - levou de encontro as palmas de suas mãos às do amigo que mantinha as dele pousadas no muro, os olhares se encontraram, permaneceram assim por alguns segundos, calados, as palmas por mais que se apoiassem uma nas outras, não se sentiam - É chegada a minha hora, me perdoe, Mulder. - Saia daí! Venha comigo! - começou a esmurrar a parede como se pudesse quebrá-la com seus socos, enquanto seus olhos verdes se inundavam de lágrimas; a escuridão, a Sombra aproximava-se cada vez mais por trás da mulher ruiva. - Pare, Mulder. Esta é minha escolha - afastou as mãos da parede, fixando no amigo um olhar resignado - Não se martirize dessa maneira, a decisão foi só minha, respeite-a, compreenda-a por favor. - E a minha escolha, Scully? Você não me a ofereceu! - Você não tomaria a decisão certa - desviou o olhar do dele. - Certa para quem? Só se for para você! - vociferava contra ela. - Eu o conheço, sei que me arrastaria à força daqui ou morreria comigo, e eu não queria nenhuma coisa, nem outra - encarou-o novamente - É preciso que viva, eu já estou condenada, não quero sentir mais dor. - Como quer que eu viva, se está me condenando a viver sem você? Eu também não quero sentir dor! - berrou em meio ao choro desesperado, as lágrimas escorriam pela sua face torturada sem qualquer pudor - Atravesse logo esta maldita parede!!! Mulder desferia com tamanha força golpes contra o muro invisível, que os nós de seus dedos estavam em frangalhos, sangrando, mas isto não o impedia de continuar prosseguindo em suas tentativas frustradas e desesperadas para abrir uma passagem; a dor era-lhe indiferente quando a causa de sua maior e insuportável dor estava do outro lado do muro. Mulder gritava, jogava o próprio corpo contra a barreira sólida incessantemente, desferia pontapés, socava sem piedade de suas mãos, que respingavam sangue a cada novo impacto delas contra o obstáculo. Os olhos azuis de Scully brilhavam com as lágrimas que não conseguira conter, vendo Mulder agonizando, destruindo os nós de seus dedos numa parede que lhe era intransponível por mais que lutasse e concentrasse suas forças contra ela. - Scully!!! - Pare, Mulder!!! Não se machuque dessa maneira! - ela não agüentava vê-lo destruir- se. - Eu imploro, venha comigo!!! - caiu de joelhos exausto, com a cabeça oculta entre as mãos sujas de sangue - Não faça isso comigo - balbuciou em meio à sua agonia. - Me desculpe por fazê-lo sofrer. Ele se ergueu do chão de terra batida, sacando o revólver que trazia à cintura, num coldre, e mirou na barreira que parecia um gigantesco vidro transparente e inquebrável, onde era possível perceber espalhados alguns pingos vermelhos. O tiro foi disparado, mas ricocheteou no obstáculo. Preparava-se para atirar novamente quando Scully o interrompeu. - Pare, Mulder! É perigoso, a bala pode ricochetear em você! - havia perdido sua calma, seu autocontrole. Mulder percebeu com pavor que dentro de alguns minutos a Sombra envolveria em sua mortalha escura a vida da mulher pálida à sua frente. De repente, fitando os olhos alucinados e extremamente verdes do parceiro, Scully viu um lampejo de esperança inconveniente àquela situação, aterrorizando-a. - O que pretende fazer, Mulder? - indagou-o preocupada. - Você não me deixa outra escolha, senão... - segurou firme a arma, apontando para o próprio abdômen, sua voz era segura, seus olhos úmidos revelavam-se determinados, não hesitaria em apertar o gatilho. - Não, Mulder! - engoliu em seco, sentia a tensão, que pairava no ambiente, quase palpável. - Vou dar a você o direito de escolha que eu não tive - sustentou o olhar assustado de Scully com o seu frio - Ou você transpõe este maldito limiar que nos separa, ou morreremos os dois juntos - o tom que se utilizara era de uma impassibilidade estarrecedora. - Isto não é justo! - Justo? - soltou uma risada forçada, sem deixar de demonstrar o seu sarcasmo. Desviou sua atenção para a Sombra que se encontrava muito próxima de Scully, seu coração batia descontrolado sob o peito, sua respiração era difícil e estrangulada, algumas gotas de suor escorriam-lhe pela testa, apesar de toda a frieza que ostentava para a mulher ruiva - Decida agora. Tem três segundos. Os dois estavam de frente um para o outro, enfrentavam-se, Mulder revelava em cada expressão do rosto um autocontrole que não possuía, era apenas uma máscara para ocultar-lhe o terror interior, que o consumia ao pensar na possibilidade de Scully não transpor a divisória decisiva na vida e morte deles. - Um... - começou a contagem. O temor do iminente ato desesperado do parceiro imprimia à face de Scully uma palidez mortuária que não lhe era normal. Nenhum dos dois desviava o olhar, sabiam que as máscaras que vestiam de nada adiantavam, pois suas almas estavam sendo desnudas um ao outro, o medo expostos nos olhares, ambos conheciam demais um ao outro para se deixar enganar. - Dois... - Não fará isso. Como resposta Mulder engatilhou a arma pressionada em seu abdômen. A Sombra esgueirava-se em direção à Scully, para arrematar-lhe a vida, não seria somente a dela. Aquele fora o segundo mais longo da existência de ambos, uma suave brisa soprava, os cabelos ruivos e castanhos dançavam, brincavam nas faces distorcidas pela ocasião torturante, uma lágrima muda deslizou fugidia dos olhos verdes, desenhando o caminho do rosto até atingir o queixo, de onde saltou para o peito opresso, extinguindo-se em meio à camisa encharcada de um suor gélido. - Três... A Sombra veio voraz, impiedosa, chocando-se com o obstáculo, espalhando-se pela parede invisível, como se um balde contendo tinta preta houvesse sido arremessado contra a transparência imaculada da barreira, trazendo a escuridão. Um estampido seco ecoou simultaneamente. - NÃO!!! - Scully transpusera o limiar quando Mulder já acreditava irremediável a situação, apertando o gatilho, precipitara-se, pois a mulher ruiva cedera a tempo de escolher pela vida, não a dela, mas a dele, ele rompera o acordo quando disparara contra si mesmo. Scully correra em direção ao parceiro, agachando-se para tomar nos braços, apoiando em seu colo a cabeça de Mulder, que possuía o corpo estendido no chão de terra misturada a uma grama verde e pontilhada de sangue; uma mancha vermelha evidenciava-se na camisa branca na região do abdômen, um fio líquido e quente escorria do canto de sua boca exangue. - Mulder - chamou-o numa voz suplicante e chorosa. - Você veio, Scully - murmurou em meio a um sorriso quando abriu os olhos, deparando-se com a imagem mais querida que existia para ele. - Você não honrou sua palavra - passou a mão pelo semblante lívido, secando algumas lágrimas, sua expressão repentinamente tornou-se séria, resoluta, enigmática - Por que faz isso comigo, Mulder? - acariciou o rosto do amigo, mantendo sua atenção fita nele. - Pensei que não haveria tempo e que a perderia para sempre - uma sensação de alívio, quase de felicidade, envolvia-o - Não poderia prosseguir sozinho, não sem você - lançou-lhe um sorriso que ela não lhe retornou com outro. Voltou o olhar para o ferimento exposto no ventre do amigo, pressionando-lhe a ferida para estancar a hemorragia, Mulder percebia temeroso que algo de muito importante se processava no espírito da parceira. - Por que está tão calada? - buscou com os seus os olhos dela, que ergueu o rosto para encará-lo em profundo silêncio. - Você não sabe de nada, não compreende - inclinou-se sobre o parceiro, pressionando os lábios úmidos e frios sobre sua testa perolada de gotículas de suor, afastando-se em seguida, este gesto assustou Mulder. - Scully, o que está acontecendo? - o sorriso já havia se desfeito em seus lábios, sua voz era urgente. Ela pegou a pistola abandonada sobre a relva, levantou-se para distanciar-se do homem de olhar desesperado. - Scully. Scully! O que vai fazer? Scully!!!! - em sua tentativa para erguer-se do chão, caiu com a dor, mas insistindo em alcançar a parceira, tentou novamente, quando a passos trôpegos dirigia-se a ela, quase se arrastando, viu com horror que de costas para ele, ela levou a arma à cabeça - NÃO!!! SCULLY!! O disparo e o silêncio sepulcral após o estampido violento pareceram a Mulder peças pregadas pelos seus sentidos, algo irreal; sua face trazia a incredulidade e o espanto estampados, sentia-se próximo à loucura, prestes a perder o fino fio da sanidade; enquanto pressionava o ventre que sangrava com uma das mãos, caminhou bêbado pela dor até um corpo pequeno e delicado abandonado na grama. Despencou quando vislumbrou a máscara da morte no rosto de Scully. ____________________________________________________________________ ___________ - Scully!!! - gritou, despertando de sua dor, os olhos verdes abriram-se bruscamente, reconhecendo o local em que estava. Mulder sentou-se no seu sofá de couro, onde havia adormecido vestido em sua roupa formal de trabalho, constatou com grande alívio que tudo não passara de um terrível pesadelo, estava inundado de suor, as gotas afloravam em sua testa, transpirava. Apesar de estar acordado, a dor do sonho ruim ainda permanecia, oprimia-lhe o peito, apoiou os cotovelos sobre os joelhos, ocultando o rosto transtornado nas mãos e chorou, chorou muito. Relembrava a discussão que tivera com Scully no centro psiquiátrico Novo Horizonte, quando ela lhe confessara que vira um dos espectros preconizadores da morte. "Você não saberia precisar o quanto a sua revelação me abalou, Scully. Um medo insuportável se apoderou de mim naquele momento, me deixando sem ação, e para disfarçar- lhe a minha perturbação, utilizei-me de um tom severo, um olhar frio e recriminador para com você, fui um monstro, seu olhar pedia somente compreensão, apoio, fui tão estúpido, não poderia ser de outra forma, perdi o chão naquele momento, minha teoria sobre Harold Spuller e os outros que viam os espectros porque estavam morrendo, pareceu-me errada, pois eu não queria tornar você parte dela, seria acabar com minhas esperanças de salvação, acabar com as suas, não permitirei que morra - soluçou em meio ao seu desespero - Preciso tanto de você". Ergueu-se do sofá, olhou angustiado o horário no relógio, eram duas horas e meia da manhã, pegou as chaves do carro esquecidas sobre uma mesinha, depois saiu do apartamento, batendo a porta atrás de si. ____________________________________________________________________ ___________ Uma cortina enfumaçada, esbranquiçada, erguia-se dos bueiros, espalhando-se pelas ruas vazias e silenciosas de Washington, esgueirando-se como fantasmas pelas sombras e preenchendo-as de uma atmosfera sombria e misteriosa, assim parecia à mulher ruiva que fitava com seus grandes olhos azuis, através da janela aberta de seu aparamento solitário, a madrugada. Mais do que nunca precisava e desejava dormir, mas a insônia não permitia depois dos acontecimentos daquele dia, depois das palavras de seu parceiro, tudo lhe vinha com tamanha intensidade e clareza à mente, que lhe era impossível fechar os olhos e descansar. "O que temia? A sua mortalidade? A verdade das palavras de Mulder? Ele devia ter se calado, evitado de lhe dizer mais uma de suas excêntricas teorias, somente daquela vez poderia tê-la poupado de ouvi-lo. Será que não enxergava a perplexidade em seus olhos, em sua face, diante de suas palavras sobre a aparição de espectros, que preconizavam a própria morte, somente a aqueles que estavam morrendo? O que isto significava? Ela também vira uma das vítimas antes de Mulder ir chamá-la no banheiro, avisando-a de outra morte, da morte da vítima que acabara de ver. Então, também estava morrendo? Era isso? - Scully soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça para afastar tais pensamentos, mas eles insistiam em voltar com mais força para mostrar-lhe o quanto a sua vida era insignificante - O que era a morte? Acreditava em Deus, mas suas crenças católicas não lhe confortavam frente a este desconhecido, que o ser humano busca compreender desde a sua origem sobre a face da Terra, e tenta aceitar porque não há como evitá-lo". - Começamos a morrer no dia em que nascemos - murmurou em voz alta para logo em seguida imergir em suas reflexões silenciosas. "Morte. O fim? O início? Talvez a perda, a extinção total da consciência, o nada, o vazio, o pó. Por que se preocupar? Se assim for, a consciência acaba com a morte, tudo se extingue com ela, não haverá posteridade, tais pensamentos deixarão de a perseguir, sua vida será suprimida do cosmo como se nunca houvesse existido, e não será nada mais do que um pedaço de matéria isenta de energia, de vida, a entrar em estado de putrefação, servindo de alimento a microorganismos, voltando a matéria ao seu estado primitivo de átomos - fechou os olhos involuntariamente ao imaginar seu corpo sepultado sob a terra sendo corroído pelos vermes - Estes átomos se juntarão a outros e formarão outras coisas magníficas assim como é o corpo humano, como a natureza é perfeita, nada se perde, tudo se transforma, o pó não é o fim, talvez seja o meu fim, mas o início de outra coisa". Scully levantou-se da poltrona que se encontrava próxima à janela para fechar as cortinas desta, acendeu um pequeno abajur para iluminar as trevas em que sua sala estava mergulhada, estendendo-se em seguida sobre o seu confortável sofá. "Por que estas idéias não me confortam? Onde está a imortalidade da alma de que minhas crenças tanto falam? Que sentido há na existência se o fim é o nada? Não pode ser, que haja algo além, a imortalidade da alma, a reencarnação, outra dimensão ou qualquer outra coisa, senão a vida não passa de um grande absurdo. Dizem que um homem que não crê em Deus, é um homem sem esperança, eu creio, mas onde está a minha? Quero acreditar mais do que nunca nas crenças que me foram ensinadas quando era criança, quero acreditar que também possuo uma alma, e que haverá uma existência posterior a minha morte. Por que estas dúvidas e questões a assaltarem o meu espírito? Até ontem eu ainda não parara para pensar na minha morte, até ontem esta possibilidade ainda me era remota e distante apesar de meu câncer incurável, talvez a morte se tornara tão indiferente a mim até este último caso do Centro Psiquiátrico devido à fonte de força que eu encontrava em Mulder, em sua companhia, em meu trabalho ao seu lado pela sua busca. O que mudara? Por que esta sensação que me oprime o peito? Será medo? Medo de que após a morte, o meu corpo fique flutuando imóvel no vazio, no escuro, no espaço, e minha consciência ainda presa a ele, torturando-me com o silêncio aterrador ao meu redor, em que o tempo se torna uma eternidade, perdendo-se a noção dele, desejando-se, então, morrer, mas não há como, porque já se está morto? Uma eternidade escura, silenciosa e solitária, será isto a morte? Pouco me importa! Há algo que me atormenta e não é esta força da natureza que a todos arrematará um dia a existência. O que é, então? Foi o espectro daquela jovem que me tirou a serenidade, a tranqüilidade da alma, mostrando-me que o tempo se esgotava, e que o que era importante ainda não havia sido dito e nem feito, precisando apressar-me. Sim, foi esta a mudança que se operou em mim, percebi com horror que o tempo passara sem eu perceber, e que o MEU tempo estava chegando ao fim. Mas, ainda não posso partir, não posso deixar Mulder sozinho, ele precisa de mim, é por ele que temo, sim, é ele que me pesa no peito, minha vida pouco importa, mas a dele... quem cuidará de você, meu amigo? Quem o protegerá de si mesmo quando em suas idéias sonhadoras voar tão alto que rompa a fina linha do juízo que possui, perdendo-se para sempre num mundo interior e inacessível aos outros? Quem segurará a linha, puxando-o para a realidade, deixando-o voar, mas não se perder? Como você me preocupa, Mulder. Se ainda houvesse alguém em sua vida além de mim em quem confiasse, sendo leal a você, então, esta angústia, este peso que sinto se desvaneceria em meu coração". Algumas batidas firmes e ansiosas na porta despertaram Scully de seus pensamentos e questionamentos. Amarrou o roupão branco que vestia, seguindo para a porta, sabia que era Mulder, mas conferiu pelo olho mágico antes de abri-la. O homem de olhos verdes apoiava uma das mãos no batente da porta, o cabelo que lhe caía na testa estava empapado pelo suor, quando a parceira apareceu à sua frente, permaneceu calado por alguns instantes, fitando-a, então, abraçou-a com força, com saudade. - Me perdoe - balbuciou com o rosto imerso nos cabelos perfumados e ruivos da amiga. Scully desvencilhou-se dos braços de Mulder, afastando-o de si para enxergar-lhe melhor a face. - O que houve, Mulder? - perguntou preocupada vendo-lhe o aspecto doente - Como está se sentindo? - puxou-o para dentro do apartamento, fechando a porta, e tocando-lhe a testa para verificar se tinha febre - Venha. Sente-se - guiou-o até o sofá. - Desculpe pelo horário - murmurou sem olhá-la, possuía a cabeça baixa para não encará-la. - Tudo bem. Eu não estava dormindo, não consegui dormir - sentou-se ao lado dele preocupada - O que aconteceu? - Me perdoe pela última conversa que tivemos - voltou os estreitos olhos verdes para ela - Não era aquela atitude que você esperava de mim, não podia ter sido tão rude, eu devia, eu queria tê-la abraçado e dito que tudo ficaria bem, mas não consegui, a surpresa, o choque, o medo me paralisaram. - Mulder - iniciou numa voz controlada e calma - Está tudo bem - segurou as mãos dele nas suas. - Não, nada está bem! - tirou bruscamente as mãos - Eu não podia ter ido procurá-la no seu apartamento para pedir que examinasse Harold Spuller, e falar para você sobre a minha teoria idiota. - Você não sabia que eu havia visto a quarta vítima, não poderia sabê-lo - suspirou - E no que influenciaria saber ou não a sua teoria, que de idiota não tem nada? Permaneceu silencioso fitando-a. - Eu não fui honesta com você, deveria ter dito o que vi, mas... eu não queria acreditar, sabe o quanto é difícil para eu admitir aquilo que não compreendo, aquilo que não possui uma explicação plausível... - fez uma pequena pausa, prosseguindo meio hesitante - Quando saí do Centro Psiquiátrico depois de nossa última conversa, eu entrei no carro para ir para casa, quando vi por um breve momento o reflexo de Spuller no espelho retrovisor, tive... medo. - Medo de quê? - franziu o cenho. - Não temo tanto a minha morte quanto temo... - interrompeu-se, analisando cada detalhe no rosto cansado de Mulder. - Quanto teme o quê? - Depois que chegamos no local onde estava a quarta vítima e eu disse que deixaria você sozinho no caso para consultar meus médicos, também consultei uma psicóloga, precisava exteriorizar os meus medos, compreendê-los, e percebi que o maior deles é faltar- lhe, não estar presente quando você precisar de mim. - Isto não irá acontecer - falou convicto da sinceridade de suas palavras. - Sabe que não é verdade, Mulder - observou o homem adulto de expressão infantil e sonhadora - Sejamos racionais, quando a doença entrar num estágio avançado e... sabe que não estarei sempre aqui. - Não permitirei que você me deixe, sou muito egoísta para isso - sorriu tristemente. - Você me preocupa, Mulder - seu tom era sério - Eu me sentiria tão mais leve, tão mais tranqüila se houvesse na sua vida uma companheira, uma amiga, alguém que você amasse, então, sim, eu poderia me libertar, e o peso que sinto me seria aliviado. - O que está dizendo? - sua voz saiu ríspida. - Não quero deixá-lo desamparado, Mulder, gostaria que encontrasse alguém para que eu pudesse ficar tranqüila. - Não preciso de babá, Scully, não me trate como uma criança! - encarou-a furioso, ferido em seu orgulho. - Não foi isso que eu quis dizer, quero apenas que encontre alguém para ser sua companheira, sua amiga, que o ame e seja leal a você, quero apenas a sua felicidade, Mulder, porque é meu amigo e me preocupo com você. - Por que está desistindo? - sua voz saiu baixa, embargada pelas lágrimas que reprimia sem sucesso. - A questão não é essa. - Qual é então? - aumentou consideravelmente o tom de sua voz, segurando com força os braços de Scully e trazendo-a para mais perto dele. - Tenho um câncer que não possui cura, não é preciso ser muito inteligente para saber qual será o resultado de uma luta travada contra ele. - Encontraremos um meio, uma cura, nem que eu tenha que vender minha alma a quem quer que seja - a imagem do Canceroso veio-lhe a mente, estaria disposto a sacrificar todos os seus princípios e principalmente a sua vida pela salvação de Scully. - Obrigada - ela o presenteou com um de seus raros sorrisos - Obrigada por ser uma fonte de força em que me apoio. - Por favor, me prometa que não vai desistir de lutar - aproximou seu rosto do dela, suas mãos ainda seguravam com força os braços delicados da parceira, como se temesse perdê-la. - Só se você me prometer que ao menos tentará encontrar alguém para amar e se esforçará em ser feliz. - Não posso prometer algo que não está sob o meu controle - seu olhar luminoso fixou-se nos olhos azuis de Scully - Há um lugar único em meu peito que já foi ocupado sem meu consentimento, não posso dispor mais dele para ninguém, a não ser para a pessoa que já lá se encontra. - Eu nunca desisti de lutar, Mulder. - Não se preocupe mais comigo, jamais ficarei sozinho e desamparado, porque tenho você - puxou-a de encontro ao peito e abraçou-a com ternura. Adormeceram abraçados no sofá, os espíritos haviam sido apaziguados, os sentimentos calados e as promessas feitas. FIM