Memórias Autora: Cris Mulder E-mail: covarrubias@uol.com.br Disclaimer: "Os personagens desta estória são de propriedade de seus respectivos criadores e empresas e não há intenção alguma de obter lucro através desta, destinando-se unicamente à diversão dos fãs." Spoilers: Fire, Bad Blood, Dreamland I e II, Milagro Categoria: MSR, ScullyAngst, MulderAngst Agradecimentos: as minhas amigas que me incentivaram e apoiaram antes e durante a execução dessa fic: Alê Morgili, Kessia Nina, Paty Emy, Paty Safra, Sandra Grassone e Wanilda Vale. Valeu, meninas! "Autorizo a publicação dessa estória no site do I Concurso Dimensão X/Sci-Fi News de Fan Fictions" Área 51 16/10/2002 07h25min A brisa soprava leve, porém insistentemente. O sol brilhava alto no céu e queimava-lhe a pele clara e delicada, sem nenhuma proteção. Seus pés descalços moviam-se sobre o tapete de folhas amareladas que se formara no chão. A temperatura era agradável, anunciando o início de mais uma manhã de outono. A claridade fazia com que seus olhos se parecessem esmeraldas, numa constante mutação de cores. Seus passos seguiam um destino incerto. Todas aquelas horas de caminhada as quais já havia se submetido levaram seu corpo à exaustão, suas condições físicas estavam debilitadas. Mas seu coração lhe movia. A dor que trazia dentro de si havia se transformado em uma coragem inabalável, que a fazia lutar contra seu próprio metabolismo. Por um momento parou e permitiu ao seu físico fragilizado provar alguns segundos de descanso, caindo ao chão sobre seus próprios joelhos. Sua pulsação estava acelerada, os pensamentos confusos. Dirigiu o olhar ao céu, num ato de súplica. Cerrou então seus olhos, enterrando a cabeça entre as mãos, concentrando-se apenas no interior de sua própria mente, reunindo todas as suas forças na tentativa de manter acesa sua última lembrança ainda viva. Porém, seus esforços eram em vão, dentro de si, permanecia a certeza de que aquela recordação jamais se apagaria. Sentiu uma forte angústia ferir-lhe o peito, transbordando livremente por sua face. Aquela imagem havia se eternizado em sua memória, era tudo o que lhe vinha a mente em todos os momentos. Mas ela sequer poderia imaginar a quem pertenciam aqueles olhos intensamente verdes, penetrantes e sinceros, que lhe seguiam tornando-se únicos e repetitivos em suas lembranças, habitando desde seus sonhos até sua realidade, refletindo seus próprios atos. Enxugou o rosto com o próprio tecido dos trajes que lhe vestiam, respirando profundamente. Finalmente se levantou, obrigando o corpo a obedecer seus impulsos. Permaneceu ainda algum tempo de pé, parada naquele local, refletindo sobre sua busca. Seus pensamentos ainda continuavam perturbados, mas sentia o coração um pouco menos pesado. Percebeu que ainda lhe restava um pouco de força interior para prosseguir e imediatamente pôs-se a caminhar. Para si mesma guardava a certeza de que aquela era sua única e última esperança de recuperar sua verdadeira identidade e pretendia concretizar tal fato, mesmo que lhe custasse a vida. Tentava naquele instante, fazer sua crença maior que seu desgaste, sacrificando-se ao repetir cada passo. Os membros falhavam aos seus comandos, suas passadas eram praticamente arrastadas por sua vontade de prosseguir. Um brusco impulso jogou-lhe ao chão. Provavelmente tropeçara em algum obstáculo. Seu corpo permaneceu imóvel, estendido de bruços sobre as folhas por longos segundos. Sentiu a respiração acelerar, tornando- se ofegante. Ergueu a cabeça com dificuldade. Os ombros pesavam-lhe. Apoiou as mãos fechadas ao solo, procurando levantar parcialmente o corpo. Os braços se arquearam, jogando seu físico novamente ao chão, causando um forte impacto. Um fio de dor percorreu por todo seu corpo. Percebia as pálpebras pesarem sobre os olhos, os pés latejantes, um paladar de sangue em seus lábios. Um ruído ensurdecedor invadia sua audição, interrompendo seus pensamentos. Uma mancha negra assombrava sua visão obscura. As mãos abriram-se num gesto de fraqueza. Finalmente seus sentidos foram tomados por completo, e seu corpo desfaleceu num profundo desmaio, entregando-se totalmente ao esgotamento e ao delírio... Sede do FBI 24/10/2000 07h49min _ Mulder? Debruçado sobre algumas pastas, ele parecia totalmente concentrado nas pesquisas as quais estava voltado. A camisa parcialmente desabotoada, deixava a mostra parte do seu peito forte e bem delineado. Seus cabelos em desalinho transmitiam a imagem de liberdade que lhe era tão peculiar. Com os dentes, mordiscava os lábios inferiores, conseqüência de sua ansiedade. A sala estava consideravelmente desarrumada. As gavetas dos arquivos empilhadas em um canto e os documentos espalhados pelo chão contribuíam com a desorganização. Várias pastas haviam sido remexidas e ainda encontravam-se por serem armazenadas. O ambiente estava repleto de papéis, perdidos por todos os lados. Ele levantou os olhos rapidamente. _ Bom dia, Scully! - sorriu. _ Bom dia, Mulder. Madrugou aqui? _ Praticamente. Foi um caso de última hora. - disse, voltando o olhar novamente para a pasta que tinha nas mãos. Scully percorreu o olhar pelo ambiente que os cercava. Aquela falta de organização a incomodava. _ Quero te mostrar uma coisa. - disse Mulder, com um sorriso maroto nos lábios. _ Sim? _ Venha até aqui! - disse ele, puxando-a pelo braço até o projetor de slides. _ O que essa imagem tem de especial? - perguntou com pouco entusiasmo. _ É o corpo de uma mulher de vinte e sete anos... _ Sei... Ela possui grandes hematomas arroxeados em seu braço esquerdo. Qual a causa da morte? _ Não foi exatamente determinada ainda... _ Foi feita autópsia? _ Sim, e o corpo estava totalmente sem sangue! _ Um corpo sem sangue? _ Sim. - um leve brilho percorreu seus olhos. _ Bem, existem animais capazes de causar tal estado... _ Sugere que essa mulher foi atacada por algum animal? _ Provavelmente. Você tem uma teoria, Mulder? _ Sim... _ Pretende me falar sobre os vampiros novamente? Você deve se lembrar que da última vez nada ficou provado... _ Não sei se foi exatamente um vampiro... _ No que está pensando exatamente? _ Não notou nada estranho nesse corpo, Scully? _ Bem... _ As únicas evidências de violência são essas manchas no braço esquerdo. Se tivesse acontecido algum tipo de luta corporal, certamente outros sinais seriam encontrados... _ Realmente... Encontraram alguma substância tóxica? Talvez sedativos? _ Não, nada. _ Talvez algum outro exame... _ Vamos, Scully, temos muito trabalho. - disse ele, desligando o projetor de slides e andando em direção a porta. _ Aonde vamos, Mulder? _ Para Houston, onde os crimes aconteceram. _ Os crimes? Quantos foram? - admirou-se. _ Um total de seis corpos encontrados até agora. Todas mulheres, entre vinte e sete e trinta e cinco anos e solteiras. _ Alguma prova colhida até agora? _ Nada... Estrada Intermunicipal 24/10/2000 09h35min A manhã estava quente, porém agradável. O brilho do sol insistia em invadir- lhe os olhos, limitando-lhe a visão. Estava mergulhada profundamente em seus pensamentos, mal notando a sensação de calor que ardia suas mãos ao volante. Surpreendeu-se por um momento traçando considerações sobre sua vida pessoal, e um doloroso sentimento de solidão passou a habitar seu íntimo. Instintivamente, desviou o olhar da estrada, dirigindo-o para o lado. Deparou- se com a imagem de Mulder, recostado confortavelmente ao banco, causando a impressão de total descontração. Seus olhos permaneciam fechados, os braços jogados sobre o corpo relaxadamente. As mangas de sua camisa estavam parcialmente arregaçadas, tornando visíveis partes de seus braços. Direcionou- se novamente para o caminho a ser percorrido, com aquela visão ainda nítida na memória. Scully prosseguiu, concentrada nas vozes que fluíam em sua mente. Mas, seus pensamentos, agora, haviam mudado de rumo. A visão de Mulder havia distraído momentaneamente aquela incômoda sensação de solidão que lhe acompanhava constantemente. Mulder inspirava seus pensamentos. Sua presença lhe trazia segurança. Admirava-o por sua coragem e audácia, e por mesmo após a vida ter lhe provado tanto, ainda ter forças para seguir sua busca. Sentia um aperto no peito ao relembrar s perdas que ambos já haviam sofrido. O silêncio permanecia absoluto no interior do veículo, embalando as reflexões de Scully. Ela não podia ignorar o quanto a presença daquele homem era marcante, não apenas no ambiente em que se encontrava, mas principalmente em sua vida. Inúmeras vezes arriscaram suas vidas um pelo outro, movidos pelo sincero sentimento que os unia. Porém, após todos os anos de convivência, acreditava que não eram mais apenas companheirismo e amizade que os tinha tornado tão ligados. Com o passar do tempo, nasceu a crença de que tanta lealdade poderia ter tornado seus corações vulneráveis a sentimentos mais profundos e íntimos, os quais naquele momento eram intensamente experimentados por ela. Geralmente tentava conter o que sentia, guardando dentro de si todo o amor que alimentava por seu parceiro. Pensava que talvez não fosse conveniente misturar trabalho com emoções. Porém, intimamente, desejava ardentemente a aproximação dele, percebendo um leve tremor percorrer seu corpo a cada toque de suas mãos. A dimensão de seu sentimento era incalculável... Ela era uma mulher racional, consciente, que sempre valorizou tudo o que teve, tanto materialmente como sentimentalmente. A família representava um conceito primordial. Suas aspirações eram os sonhos comuns à maior parte das pessoas. Pretendia prosseguir em uma vida tranqüila e caseira. Até que conheceu Mulder. Viu, então, o rumo de sua existência se transformar completamente. Deixou-se envolver por aquele homem de tal forma, que buscava a verdade da vida dele como a sua própria. Acompanhava-o em todas as suas buscas, mesmo que em grande parte das ocasiões, não concordasse totalmente com suas teorias. Abandonara, há algum tempo, a idéia de construir uma vida que pudesse ser considerada normal. Sua personalidade, tão cética e firme, escondia segredos jamais desvendados por pessoa alguma. O que seu coração guardava, apenas ela mesma conhecia. Interiormente, tinha uma natureza feminina aflorada, que manifestava-se em sua sensibilidade extrema e em fortes emoções. Era muito dedicada, preocupada e carinhosa, porém, esses tesouros estavam muito bem trancados dentro de si. Guardava em seu peito um amor tão forte, que a tornava capaz de renunciar a seus desejos, a sua própria vida, para viver intensamente a vida de Mulder. Há algum tempo seu parceiro viajava em seus pensamentos mais íntimos. Com o passar dos anos, a convivência lhe fez conhecer sentimentos que pensou jamais existirem. O simples encontro de seus olhares significava mais do que todas as palavras. A afinidade que se enraizara entre eles era tão transparente, que se tornavam capazes de se comunicar apenas através dos olhos. Nunca havia permitido abalar-se daquela maneira por sentimento algum. A proximidade do homem que amava fazia-lhe perceber o peito estufado de emoções, prestes a explodirem a qualquer segundo. Seu corpo reagia prontamente a qualquer toque, por mais sutil que fosse. Jamais conhecera alguém tão especial, tão fascinante. Seu coração havia se rendido por completo, embora, inicialmente, ela tenha tentado conter a paixão avassaladora que lhe dominava. Seus esforços desperdiçados apenas lhe fizeram compreender a amplitude de tal sentimento. Reconhecia-se, agora, intensamente apaixonada por Fox Mulder, autor de todos os seus sonhos e sorrisos, de quem ela desejava o amor avidamente. Diversas vezes havia impedido os acontecimentos, não colaborando para que as emoções se desenvolvessem naturalmente entre eles, agindo por profissionalismo e razão. A ânsia que agora lhe tomava, condenava-a incessantemente. Gostaria que o aconchego de seus braços lhe envolvesse generosamente, transmitindo-lhe o brando calor emanado por seu peito... Na realidade, naquele exato momento, sentia-se frágil. Dirigiu-se novamente ao seu parceiro, sedenta de um olhar acolhedor. Nesse instante, Mulder já a fitava, curioso. O reflexo do sol acariciava a pele de seu rosto, exaltando os tímidos olhos verdes. _ Estava dormindo, Mulder? _ Na verdade, não. _ Não...? _ Não, apenas estava pensando... E você, Scully? _ Eu...? _ Parecia tão distante... _ Talvez não tão distante... _ É... Às vezes, pensar é melhor do que viver... Scully se calou, apesar da curiosidade que fervilhava em sua mente. Acreditou que talvez não fosse conveniente tentar desvendar as divagações de seu parceiro, por mais que elas lhe fossem importantes. Permaneceu interiorizada em seus pensamentos. Ele, por sua vez, limitou-se novamente ao silêncio. Em sua mente, era exibida uma retrospectiva dos anos que haviam se passado. Confrontava novamente cada detalhe de sua própria existência, tornando-se amargurado ao confirmar os motivos que o envolveram em seus "Arquivos X". Lembrava-se de sua família com uma certa contrariedade, tinha consciência de que os assuntos referentes ao lar não haviam sido completamente resolvidos em sua história. Procurava reviver cada situação já enfrentada, analisando criticamente suas próprias atitudes. Retornando ao passado, defrontava-se novamente com suas antigas frustrações, deslizes e indecisões. Tornava-se um réu de si mesmo, julgando-se sem nenhuma piedade. E em meio a um turbilhão de pensamentos, deparou-se com Scully, reencontrando- a dentro de si mesmo. Esboçou um sorriso, esticando discretamente os lábios. Ela lhe era tão preciosa! Adorava-a de tal forma, que jamais saberia expressar. Possuía plena consciência de tudo o que sua parceira sofrera em decorrência da grande busca na qual estava envolvido. Sentia um calafrio subir por seu corpo ao relembrar todas as provações as quais Scully havia sido submetida. Culpava- se incessantemente por todos os sofrimentos que assolaram a vida de ambos nos últimos tempos. Mas preocupava-se especialmente com ela... Jamais existira outro aliado tão fiel quanto Scully. Mulder lhe era eternamente grato por todas as suas atitudes. Mas ele sabia que gratidão era pouco para se oferecer a alguém que havia dedicado a própria vida, que havia renunciado ao curso normal de seu destino em nome da fidelidade que reinava entre eles. Considerava-a muito mais do que sua amiga. Era sua companheira, seu alicerce, sua segurança, seu equilíbrio, sua fé. Não poderia imaginar sua vida sem sua imprescindível presença. Ela validava toda a sua existência. Reconhecia sua amizade, seu sacrifício, sua lealdade. Apegara-se a sua companhia de tal forma, que nenhuma outra pessoa conseguira provocar. Sentia- se totalmente dependente dela. Apreciava sua inteligência e perspicácia, além de sua forma justa de enxergar os fatos. Acreditava que havia se tornado um ser melhor após passar a viver em sua convivência. Amava-a profundamente. Sua afeição consistia num misto de carinho, amizade e amor. Mal conseguia disfarçar toda a ternura em seu olhar quando se dirigia a ela. Um súbito calor tomava seu corpo quando entreolhavam-se com cumplicidade. Estremecia a cada toque, a cada gesto. Seu coração ardia apaixonado sem que pudesse conter. Mas conhecia bem a sua Dana. Não lhe revelava o sentimento que lhe queimava por dentro por temor a sua reação. Era consciente de sua natureza séria e profissional, e levando em conta essas qualidades, restava- lhe a conclusão de que ela jamais aceitaria esse sentimento com naturalidade. Aproveitava ao máximo sua companhia, tentando suprir aquele sentimento dentro de si. Respeitava-a inigualavelmente. Sonhava com sua amada constantemente. Seus grandes olhos azuis, iluminados, sua pele clara, delicada, seus cabelos macios, sua boca insinuante, seus contornos perfeitos, tudo isso lhe causava os mais profundos delírios. Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos pela freada do motor. _Chegamos, Mulder. _ Vamos falar com o xerife. Adentraram uma pequena sala, pouco organizada. Muitos papéis encontravam-se empilhados por todos os lados. Duas escrivaninhas e um armário de arquivos constituíam todos os móveis do ambiente. Um homem, sentado frente a uma mesa, levantou o olhar para recepcioná-los. _ Somos os agentes Mulder e Scully do FBI. - apresentou-se Mulder, mostrando- lhe o distintivo. _ Sejam bem vindos. _ É o xerife Andrew? _ Sim, Douglas Andrew, à disposição. - disse, cumprimentando Mulder. O xerife Andrew era um homem de meia idade, alto, cabelos pretos e grandes olhos cor de mel. Possuía um olhar penetrante e enigmático, que o tornava consideravelmente sedutor. Era o xerife daquela cidadezinha há poucos anos, sendo indicado por outra jurisdição. _ É um prazer, agente Scully - apertou-lhe levemente a mão. _ Igualmente. _ Bem, xerife Andrew, o senhor deve se lembrar o motivo pelo qual estamos aqui. - falou Mulder, com um tom de seriedade. _ Sim, fui avisado sobre a vinda de vocês. Aliás, ocupava-me agora em reunir todo o material que temos a respeito desse caso. _ Alguma suspeita sobre o que matou essas mulheres? - indagou Scully. _ Não conseguimos provar nada ainda, agente Scully, mas estamos propensos a acreditar na hipótese de que alguma animal tenha provocado tal estado. Ela desviou seu olhar para Mulder, aguardando sua reação quanto a teoria do xerife. Ele não se manifestou. Talvez não tivesse ouvido. Tinha em mãos as pastas com as poucas evidências dos crimes que a polícia local conseguira armazenar. Concentrava-se profundamente naquele material. _ Senhor Andrew, já foi feita autópsia em todos os corpos? - perguntou Mulder, ainda voltado para as pastas em suas mãos. _ Ainda falta um último, encontrado esta madrugada. _ Scully, por que não cuida disso? - sugeriu Mulder. _ Obrigada por continuar marcando meus horários, Mulder... Mas, e você? _ Gostaria de ir até o local onde o último corpo foi encontrado. O xerife me acompanha? _ Claro, senhor Mulder. Pousada Berklen Quarto 3 15hs Jogou-se sobre os lençóis bruscamente. O desgaste envolvia seu corpo. Suas pernas trêmulas não suportavam mais sustentá-la em pé. Sentia-se entorpecer-se por seu próprio sono. Esforçava-se para manter-se acordada. As pálpebras foram se fechando, lentamente. Entregara-se ao repouso em definitivo. Um ruído atravessou o silêncio que lhe embalava, fazendo-a levantar-se em um sobressalto. O telefone celular insistia em chamar. _ Scully. _ Onde está? _ No meu quarto, no hotel. E você, Mulder? _ Estou a caminho. Descobriu algo a mais na autópsia? _ Não. Não encontrei resíduos de nenhuma substância tóxica, nem sedativos. O corpo não possuía nenhuma cicatriz além daquele hematoma no braço esquerdo, igual àquela foto que vimos. _ Fique alerta. Desconfio que algo muito estranho está provocando essas mortes. Ouviu o som seco do celular sendo desligado do outro lado da linha. Não imaginava qual poderia ser a desconfiança de seu parceiro. Pôs-se em pé, finalmente, decidida a tomar um relaxante banho para recuperar as energias. Pousada Berklen Quarto 3 20hs _ Mulder? Parado frente a porta de seu quarto, o agente havia substituído o habitual terno por um traje mais esportivo e jovial. Dana o observava curiosa. _ Onde esteve esse tempo todo, Mulder? _ O xerife e eu fomos visitar os locais onde alguns corpos foram encontrados, em busca de alguma pista. _ O xerife esteve com você esse tempo todo? - questionou desconfiada. _ Não, ele teve que se ausentar no meio da tarde para atender um chamado. _ E encontrou algo que possa nos ajudar? _ Na verdade, não, nada conclusivo. Seja lá o que for que esteja provocando isso, consegue agir com total discrição. E você? _ Eu? _ Foi ao laboratório buscar os resultados dos exames que faltavam para completar a autópsia? _ Não... não me senti bem esta tarde. Farei isso amanhã pela manhã. _ Sei... Scully... Está com fome? _ Um pouco... _ Por que não jantamos no restaurante da pousada? Ouvi dizer que servem uma deliciosa comida caseira! _ Bem, não é uma má idéia, mas ainda tenho alguns relatórios para preencher e... _ Vamos, Scully. Você precisa se alimentar! - interrompeu-a preocupado. Restaurante Berklen 20h25min Centenas de estrelas cobriam o céu totalmente negro. A escuridão da noite era banhada pela luz intensa da lua cheia. Um vento gelado soprava suavemente, resfriando a temperatura. O silêncio era interrompido por sons emitidos pelos animais noturnos. Um aroma de ervas impregnara-se no ar. No interior do estabelecimento, algumas filas de mesas e cadeiras de madeira estofadas por um fino tecido verde, preenchiam o ambiente, contornando a tímida e vazia pista de dança. A música lenta trazia uma atmosfera agradável e envolvente àquele local. As vozes animadas confundiam-se em meio aos toques entre louças e talheres. Acomodaram-se em uma mesa próxima a uma das janelas. Mulder, distraído, encarava a paisagem noturna hipnotizado. Instintivamente, Scully dirigiu o olhar para o céu estrelado, buscando o motivo que prendia a atenção de seu parceiro. Em um instante, uma estrela cadente rasgou o céu pela metade, deixando seu rastro de luz intensa. _ Mulder, faça um pedido. - disse Scully num ar de mistério. Ele voltou-se em sua direção, fitando-a seriamente. Scully vestia uma calça marrom, de fino corte, e uma blusa justa no mesmo tom de cor, com um profundo decote. Um delicado casaco de lã, tricotado à mão, escondia partes de seus ombros. Os cabelos estavam levemente em desalinho em circunstância da ocasional brisa. Seus olhos eram tomados por uma matiz acinzentada, contrastando com a penumbra que se desenhava no céu. Perdera a noção de quanto tempo se passara enquanto a observava. Ela ainda mantinha o olhar voltado à imagem exterior. _ Eu já o fiz, mas não aconteceu. - respondeu, rindo de si mesmo. _ Mulder, na vida nem sempre as respostas vêm prontamente, na verdade, quase nunca... - voltou-se para ele. _ Acredita mesmo nisso, Scully? _ Sim... _ Acredita que devemos esperar pelo que desejamos? _ Sim, se isso valer a pena, se o resultado compensar a espera. _ Muitas vezes a espera nos tortura a alma... - disse Mulder, com a voz amargurada. _ Mulder, "sonhar é a felicidade, esperar é a vida!" Declamou esses versos no momento em que o garçom aproximava- se, indagando seus pedidos atenciosamente. Afastou-se, deixando-os a sós novamente, calados. Jantaram silenciosamente. Entreolharam-se timidamente durante toda a refeição. _ Vai pedir a sobremesa, Scully? - perguntou Mulder ironicamente. _ Na verdade, estou satisfeita, obrigada. Uma suave melodia envolvia o ambiente, movimentando alguns casais na pista de dança. A música ecoava harmoniosamente, inspirando paixões e convidando a um sutil balanço. Num impulso, Mulder se levantou, pondo-se em pé frente a Scully, estendendo as mãos em sua direção. Ela apenas o observava, desconcertada. _ Vamos dançar, Scully? _ Mulder eu... não sei se é... conveniente... eu... - gaguejava sem conseguir organizar as idéias. _ Ora, vamos! Se até seres de outro planeta precisam de descontração, imagine os agentes do FBI! Dana riu divertida, entregando suas mãos às dele. Deslizavam pela pista tranqüilamente. Mulder a envolvia docemente em seus braços. Ela mantinha os olhos fechados. Sua cabeça recostada confortavelmente ao tórax perfeito de seu parceiro, permitia-lhe acompanhar o ritmado pulsar de seu coração. Ele a apertava contra si carinhosamente. Seus lábios acariciavam- lhe os ruivos cabelos. Seus movimentos eram conduzidos pelo embalar da música. Scully ergueu sua cabeça, trazendo o rosto próximo de Mulder, passando seus braços em torno de seu pescoço. Mergulhou o mar azul de seu olhar nos profundos olhos dele. Mulder sentiu-se estremecer. Abraçou-a fortemente, suplicando sua proximidade. Deixou que seus lábios tocassem delicadamente as maçãs de seu rosto, provocando sensações que lhe percorriam o corpo prazerosamente. Sentia sua respiração acelerar a cada nota musical. Mulder puxou-a para si em definitivo, obrigando-a a cessar seus movimentos. Ela cerrou os olhos totalmente entregue. Permitiu que as emoções que lhe tomavam se expandissem em sua escuridão. Entreabriu os lábios, sem fôlego. Podia perceber a respiração de Mulder, ofegante. _ Mulder... - seus lábios acariciaram os dele graciosamente ao sussurrar. _ Não diga nada agora... - balbuciou Mulder. Suas bocas se uniram, finalmente, compartilhando o sabor do amor que lhes invadia. Trocaram um beijo quente e apaixonado, libertando sentimentos que habitavam as profundidades de suas almas. Afastaram-se lentamente, ainda sedentos daquela paixão avassaladora que lhes arrebatava o coração. Dana aninhou-se ao peito de Mulder, sendo enlaçada ardentemente por seus braços. Sua cabeça girava, entorpecida pela fusão de sentimentos que borbulhavam dentro de si. Sentiu o queixo dele apoiar-se sobre seus cabelos. Surgiu um enorme desejo de encontrar seu olhar. Scully abriu os olhos, porém a escuridão continuava. O som da música havia cessado. Percebia sombras movimentarem-se ao seu redor. A energia elétrica havia se esgotado. Os garçons agitavam-se em busca de lampiões. Olhou para seu parceiro procurando uma explicação. Mulder lhe sorriu ternamente, ainda envolvido pelo que acabara de acontecer. Sentiu seu coração derreter-se por dentro e fixou seu olhar no dele. Uma voz rouca interrompeu aquele momento de contemplação. _ Agente Scully! Afastou-se de Mulder num pulo, buscando a origem daquele som que a chamava. Um vulto destacou-se na multidão. _ Xerife Andrew? O que faz aqui? - indagou Mulder insatisfeito pela interrupção. _ Encontraram outro corpo! - disse o xerife exaltado - Precisamos ir até lá imediatamente! _ Como nos encontrou aqui? - perguntou Mulder desconfiado. _ Imaginei que estivessem aqui, esse é o melhor restaurante das redondezas e o mais próximo de onde estão hospedados. _ E como explica essa escuridão? - indagou Scully, ainda atordoada. _ Houve um curto-circuito na central de energia, mas logo será resolvido. Vamos? - o xerife abriu passagem para Scully seguir. Edifício Edna Houston 21h58min _ Esse edifício está em construção há vários anos. Será o primeiro da nossa cidade. - explicou o xerife. Ambos observavam a estrutura do pequeno prédio. O edifício possuía três andares, cada um contendo dois apartamentos. Para aquela cidadezinha seria um enorme progresso. O corpo havia sido encontrado no térreo, onde estavam. O xerife os levou até o local exato. _ O corpo foi encontrado aqui. - apontava. Mulder se deteve a observar cada detalhe daquela cena, procurando qualquer pista que auxiliasse na resolução daquele caso. _ Estamos levando agora o corpo para o necrotério da cidade. - informou o xerife Andrew. _ Mulder, acho que vou aproveitar e seguir com o xerife até o necrotério para fazer uns exames. _ Certo, Scully, vou permanecer por aqui. Scully distanciou-se em companhia de Douglas Andrew. Mulder os observava, sem conseguir afastar a raiva que ainda sentia do xerife por ter chegado em um momento tão inoportuno. Encarou novamente o local onde a vítima havia sido localizada. Sua lanterna iluminou algo que lhe chamou a atenção. Recolheu um destroço que ficara esquecido ao chão. Ruas de Houston 23h50min O veículo deslocava-se lentamente entre as estreitas ruas. A escuridão permanecia. A pequena cidade estava coberta de lampiões. _ Gosta de música, agente Scully? - indagou o xerife olhando- a nos olhos. _ Han han. O xerife ligou o rádio e uma canção familiar lhe penetrou os ouvidos, arrancando-lhe um sorriso. _ Gosta dessa música? _ Lembra minha infância. - sorriu Scully. Dana então virou-se para o xerife, assustando-se com sua visão. Uma mancha de sangue se fazia notável em uma das mangas de sua camisa. _ Está ferido, xerife? - perguntou, preocupada. _ Oh, não é nada, não se preocupe! - disse o xerife afastando as mãos cuidadosas de Scully. _ Como se machucou? _ Durante um chamado que recebi ontem. Sabe como são violentos esses bandidos. _ Em uma cidade tão pequena e com uma aparência tão pacífica como Houston, também há bandidos violentos? - Scully não acreditava na história que ele estava contando. _ Sim. Mas menos perigosos do que os das grandes cidades. O silêncio prevaleceu durante o restante do percurso. _ Chegamos! - avisou Andrew, estacionando em frente ao necrotério. Nesse momento, as luzes acenderam como num passe de mágica, voltando a iluminar toda a cidade. Laboratório de Análises 25/10/2000 02h25min _ Scully. - ela respondeu do outro lado da linha. _ Scully, onde está? _ Estou com o xerife. _ Ainda? _ Sim, ficamos esperando os resultados dos exames. _ Scully, preste atenção ao que vou dizer, é muito importante. Esse homem é perigoso, mantenha-se distante dele. _ De onde tirou isso, Mulder? _ Depois que vocês se dirigiram ao necrotério eu encontrei algo na cena do crime. _ Uma prova? _ Sim. Era um pedaço de pano, rasgado, coberto por uma enorme mancha de sangue. Trouxe ao laboratório e o resultado da análise foi feito pelo pessoal de plantão, e saiu agora. O sangue encontrado pertence ao xerife. Tudo indica que ele esteve na cena do crime antes de chegarmos lá. Automaticamente a imagem do ferimento no braço do xerife veio a sua mente. Ela o olhou por alguns instantes, apavorada. _ Scully, está me ouvindo? Scully! Como resposta, ouviu o som seco do celular sendo desligado do outro lado da linha. Chamou seu número novamente, preocupado. O serviço indicava que estava fora da área de cobertura. Não se deteve por mais nem um segundo, seguiu até seu carro decidido a procurá-los. Necrotério 02h50min _ Por favor, senhorita! Mulder dirigia-se a uma jovem que se encontrava junto a um balcão perto da porta de entrada. _ Eu procuro o xerife e uma agente federal que o acompanhava... _ O xerife? Ele saiu daqui há alguns minutos. _ Obrigado! - Mulder saiu em disparada. Ruas de Houston 03h40min Já havia percorrido toda a cidade. Não fazia mais idéia de onde poderia encontrá-los. Preocupava-se com a segurança de sua parceira. Temia pelo pior. Tentou novamente seu celular, angustiado. Uma voz masculina respondeu prontamente. _ Alô. _ Eu quero falar com ela! - disse Mulder, tomado de ódio. _ Eu sabia que você não iria desistir tão facilmente. Ela está aqui, mas não vou deixar que ouça sua voz. Quero que sinta saudades... - respondeu o xerife, finalizando com uma sonora gargalhada. _ Desgraçado! O que você quer? _ De você? Nada! Mas eu a quero... Descobriu minha identidade, não foi, agente Mulder? Descobriu o que me esforcei durante anos para encobrir... Agora vou me vingar! - falou sadicamente. _ Alimenta-se de sangue, xerife? - perguntou Mulder, irônico. _ Não me faça rir, agente Mulder! Apenas quero avisá-lo de que sua amiga não tem muito tempo... _ Vou matá-lo!!!!!! - gritou Mulder, ouvindo o outro celular sem sinal. Chamou seu número novamente, em desespero. _ Não desiste mesmo, agente Mulder! Que persistência! _ O que você quer? - perguntou Mulder, aparentando calma. _ Já tenho o que quero... _ É sangue que quer, não é? - Mulder estava perdendo a paciência - Pois lhe proponho uma troca. Você terá o sangue que quer, mas solte Scully. _ Quer estar no lugar dela, agente Mulder? _ É o que pretendo. - respondeu Mulder, decidido. Uma estridente gargalhada ecoou pelo ambiente. _ Valoriza-a tanto assim? Que comovente! _ É o que quero. _ Está certo. Na verdade, eu não queria mesmo desperdiçar uma gracinha dessas... Além disso, posso reencontrá-la depois, não é, Dana? Esteja aqui dentro de uma hora. Estacione na esquina, do outro lado da rua. Venha sozinho e nada de surpresas, senão ela morre. Entendeu? _ Sim, mas onde estão? _ No edifício Edna Houston. _ Estarei aí no horário. - Mulder fez uma pausa - É um vampiro, xerife? Mulder ainda pôde ouvir sua gargalhada antes do telefone ser desligado. Estranhava que o xerife tivesse aceitado uma troca tão facilmente. Acreditava que ele realmente não pretendia soltar Scully. Tinha certeza de que o xerife tentaria matar não apenas sua parceira, mas ele mesmo. Rua Edna Houston 04h35min Mulder estacionou seu veículo na esquina daquela rua como combinaram. Chegara antes do horário previsto. A ansiedade lhe tomava o coração. Cerrou os olhos por um instante, revivendo todas as emoções da noite anterior. Sofria por sua parceira ter que enfrentar mais essa prova. Mais uma entre tantas. Apertou os punhos num ato de nervosismo. Sentia que, de certa forma, a culpa lhe pertencia. Se não fosse por ele, sempre envolvido com seus casos bizarros, jamais teriam chegado àquele lugar. Mas, se não fosse pelos "Arquivos X", talvez nunca tivessem se conhecido. Respirou profundamente. Seu corpo estava trêmulo. Algo lhe apertava por dentro o peito. Finalmente saiu do carro. Fixou seu olhar no edifício, tentando desvendar em que andar estariam. Repentinamente, um forte impacto atirou-o a uma longa distância, jogando seu corpo contra uma parede. Manteve-se inconsciente durante alguns minutos devido à pancada. Sua cabeça estava zonza. Não conseguia concatenar as idéias. Apoiou-se sobre os braços, forçando o corpo a erguer-se num impulso. Levantou-se com dificuldade. Encarou espantando a visão a sua frente. Avistava novamente o prédio, totalmente em chamas. Uma equipe de bombeiros invadia o local, munida de vários equipamentos, acompanhada por alguns policiais que uniram-se aos oficiais. Provavelmente haviam sido contatados pelos moradores vizinhos. Sentiu uma ânsia desesperada ferir-lhe o coração. Caminhou com dificuldade até o final da calçada, ainda com os olhos colados àquela cena. Tentava engolir os soluços que lhe pressionavam o peito, querendo fluir num pranto desesperado. Libertou, num sussurro, sua maior angústia. _ Scully... - as lágrimas preencheram por completo seu olhar. Aproximou-se de um dos oficiais da equipe de bombeiros, com o distintivo em mãos, explicando a delicada situação. Organizaram uma busca por toda a extensão do prédio. Mulder enfrentava um de seus inimigos mais temidos: o fogo, essa força da natureza que considerava invencível e assustadora, a qual poucas vezes dispusera-se a resistir. Adentrou o prédio seguido por parte da equipe, que espalhou- se em busca de algum vestígio de sobrevivência. Hospital Municipal de Houston 10h05min _ Ele está acordando! - disse à enfermeira. A voz familiar lhe fez dirigir o olhar ao vulto que aproximava-se da beirada da cama. _ Senhor? - indagou surpreso. Skinner estava de pé, junto ao seu leito, fitando-o seriamente. _ Vim assim que soube, agente Mulder. _ Assim que soube de quê? O que aconteceu comigo? Onde está Scully? _ Não se lembra? Acabou intoxicando-se com a fumaça do incêndio. Foi acudido por um dos bombeiros que o auxiliava na operação de busca. - Skinner explicava pausadamente. _ Incêndio? Não me lembro bem... - sentiu uma forte dor de cabeça ao se movimentar. _ Deve permanecer deitado, agente Mulder. São ordens médicas. _ Scully... Onde está Scully? _ Lamento. Ela se foi no incêndio... As imagens embaralhavam-se em sua mente. Não conseguia definir exatamente o que acontecera. A cena do edifício em chamas voltou a sua visão claramente, por um instante. Apavorou-se. _ Não pode ser! Não pode ser! - exaltou-se. _ Tente manter a calma, agente Mulder. Sugiro que tire umas férias para organizar as idéias. _ Não! Não! Onde ela está? Diga! Eu preciso dela! - aumentou o tom de voz. _ Sinto muito... Nós a perdemos. - disse Skinner, mantendo a postura. _ Não! Scully! Scully! Scully! - gritava desesperadamente, despertando as atenções a sua volta. _ Enfermeira! Acho melhor aplicar-lhe um sedativo. - chamou Skinner. _ Eu não quero ser dopado! Eu quero Scully! - disse com a voz embargada. Entregou-se totalmente a um doloroso pranto. As lágrimas deslizavam livremente por sua face, sem que as percebesse nos olhos. Liberava, agora, os soluços que antes apertavam em seu peito. Desesperou-se por completo, perdendo a noção de seus próprios sentidos. A enfermeira aplicou-lhe a injeção sem que conseguisse se defender. A alta dose lhe fez desmaiar imediatamente, aniquilando-lhe as forças em sua totalidade. _ Mantenha-me informado sobre seu estado. - sussurrou Skinner à enfermeira, fechando a porta do quarto atrás de si. Sede do FBI 13/10/2002 09hs Prendia entre os dedos aquele brilhante objeto. Observava-o, rememorando fatos de um passado próximo. Desde que perdera sua parceira, jamais voltara a ser o mesmo homem. Atravessara com dificuldades os últimos anos. Após sua morte, atirou-se profundamente ao trabalho, tentando amenizar a dor e o remorso dentro de si mesmo. Diversas vezes, por ordens superiores, os "Arquivos X" haviam sido fechados. Se não fosse pela intervenção do Diretor Assistente Skinner, talvez nem tivesse mais o direito de exercer suas funções como agente federal. Emocionalmente, ainda encontrava-se profundamente abalado. Sentia-se totalmente infeliz, indigno de prosseguir sua vida. Muitas vezes perdera sua própria compostura no trabalho, provocando enormes desentendimentos. Não conseguia mais seguir sua conduta durante as investigações. Surpreendia-se descrente e insano. Com o resultado da perícia, o único pertence de Scully encontrado foi a correntinha com o pingente em forma de cruz que agora segurava em suas mãos. Seu corpo não havia sido identificado entre as vítimas. Acreditava-se que talvez tivesse sido totalmente consumido pelo fogo. Muitos operários que trabalhavam próximos ao local haviam sido atingidos pelas chamas. Incrivelmente o xerife havia sido localizado com vida e posteriormente foi levado a um presídio. Alguns dias depois, foi descoberto morto em sua cela por um golpe certeiro na nuca, tendo seu corpo dissolvido absurdamente. Após esse trágico episódio, inconformado com as evidências, Mulder iniciara uma verdadeira batalha. Não aceitava a realidade de que Scully já não pertencia mais ao mundo dos vivos. Pessoalmente, havia comandado várias buscas aos destroços que restaram do prédio, procurando por provas e pela causa da explosão. Não obteve sucesso em nenhuma delas. O acidente parecia ter sido previamente muito bem premeditado. Revirou a cidade e as redondezas em busca de sua parceira. Nos últimos anos, dedicara muito mais tempo às investigações sobre o referido assunto do que aos trabalhos que realmente lhe eram designados. Sentia que a partir daquele momento, aquela era sua missão. Não descansara um só segundo desde então. Visitava esporadicamente o túmulo vazio de sua parceira. Aquele lugar lhe fazia reviver as mais doces e as mais trágicas recordações. Estava sofrendo intensamente, ainda. Tinha a impressão de que seu calvário jamais se findaria. Desejava verdadeiramente a morte em determinados momentos. Estava sucumbindo a culpa e a saudade. Apenas reunia suas forças para continuar precariamente, porque acreditava que era o mínimo que poderia fazer por ela, que havia lhe feito tanto... Escapava de seu olhar uma lágrima, sem que percebesse. Num profundo suspiro jogou-se sobre uma das cadeiras, finalmente examinando a pasta que tinha em mãos. Era mais um "Arquivo X". Área 51 13/10/2002 09hs As sombras tornavam obscura sua visão. Havia sobrevivido a mais uma noite de sono agitado e delírios. Sentada sobre seu leito, mantinha o olhar parado, fixo, paranóico. Mal encontrava forças para se movimentar. Tinha a saúde debilitada, não possuía recordações, não possuía identidade. Sentia-se menos agitada naquela manhã. A única lembrança que lhe habitava a mente era o sonho que tivera durante a madrugada. Um par de olhos verdes, profundos e brilhantes, perseguia-lhe por entre lindas colinas e campos verdejantes, fazendo-a fugir sorridente. Sentira-se feliz finalmente, ainda que por poucos minutos. Suas reflexões alienadas foram interrompidas pelo enfermeiro, que trazia sua enorme dose de comprimidos diária. Fez menção de tomá-los, mas assim que o rapaz se afastou, livrou-se deles. Não tinha a intenção de medicar-se mais. Acreditava que possivelmente a grande quantidade de medicamentos que lhe eram ministrados poderiam estar causando tal estado de enfraquecimento, esquecimento e angústia. Sentia-se abandonada por completo. Sua única identificação era um código registrado à cabeceira de sua cama, uma entre tantas naquele ambiente. Estava cercada por mais diversos leitos, por todas as partes. Centenas de pessoas encontravam-se ali internadas, naquele ou em outros recintos. Não conseguiam estabelecer nenhum tipo de comunicação coerente. Talvez, assim como ela, mal fizessem idéia do motivo pelo qual ali se encontravam, levando uma vida praticamente vegetativa. Sede do FBI 15/10/2002 10hs Há alguns minutos havia sido requisitado à sala de seu superior. Aguardava impaciente. _ Senhor Mulder, pode entrar. - anunciou a secretária. _ Obrigado. - disse, adentrando a sala rapidamente. O Diretor Assistente Skinner parecia concentrado na leitura de alguns documentos sobre sua mesa, mas ao perceber a entrada do agente, desviou o olhar imediatamente. _ Sente-se, agente Mulder. - disse apontando o assento em frente a sua mesa - Temos um assunto muito sério a tratar. _ Pode dizer, senhor. _ Recebi ordens para encerrar os "Arquivos X" novamente. _ Como? - questionou Mulder sem acreditar. _ É a realidade, agente Mulder. E além disso, foi solicitado o afastamento temporário de suas funções no Bureau. Não acreditamos que esteja em condições de levar o seu trabalho adiante. _ O senhor também está envolvido nisso? - aumentou a voz. _ Estou agindo pelo seu bem. Não me parece em boas condições psicológicas. Isso está interferindo em seu trabalho! _ Mais alguma coisa, senhor? - disse Mulder, ironicamente. Área 51 15/10/2002 22h30min Sentia-se mais disposta desde que começara a recusar os remédios. Momentos de lucidez alternavam-se com sua insanidade. Por breves segundos, recordara-se de nomes e identificações. Um extenso número perturbava-lhe a mente há horas. As luzes do estabelecimento haviam sido apagadas há alguns minutos. A total penumbra cegava-lhe completamente os olhos. Arriscou-se a erguer o corpo, reunindo finalmente, forças para se levantar. Caminhou pelo recinto, tateando os objetos a sua volta, procurando não provocar nenhum ruído. Avistou ao final do imenso corredor um pequeno foco de luz. Uma das janelas ainda permanecia aberta, trazendo ao interior uma pequena claridade vinda de uma lamparina que iluminava a varanda. Apoiou-se em seu parapeito, jogando o corpo bruscamente para fora. Caíra em uma área cimentada, causando algumas pequenas escoriações em seu corpo. Permaneceu imóvel por alguns instantes, em busca da recuperação das forças desgastadas. Com dificuldade, levantou-se, procurando afastar-se dali. Caminhou em direção a uma vasta floresta. Área 51 16/10/2002 07h25min A brisa soprava leve, porém insistentemente. O sol brilhava alto no céu e queimava-lhe a pele clara e delicada, sem nenhuma proteção. Seus pés descalços moviam-se sobre o tapete de folhas amareladas que se formara no chão. A temperatura era agradável, anunciando o início de mais uma manhã de outono. A claridade fazia com que seus olhos se parecessem esmeraldas, numa constante mutação de cores. Seus passos seguiam um destino incerto. Todas aquelas horas de caminhada as quais já havia se submetido levaram seu corpo à exaustão, suas condições físicas estavam debilitadas. Mas seu coração lhe movia. A dor que trazia dentro de si havia se transformado em uma coragem inabalável, que a fazia lutar contra seu próprio metabolismo. Por um momento parou e permitiu ao seu físico fragilizado provar alguns segundos de descanso, caindo ao chão sobre seus próprios joelhos. Sua pulsação estava acelerada, os pensamentos confusos. Dirigiu o olhar ao céu, num ato de súplica. Cerrou então seus olhos, enterrando a cabeça entre as mãos, concentrando-se apenas no interior de sua própria mente, reunindo todas as suas forças na tentativa de manter acesa sua última lembrança ainda viva. Porém, seus esforços eram em vão, dentro de si, permanecia a certeza de que aquela recordação jamais se apagaria. Sentiu uma forte angústia ferir-lhe o peito, transbordando livremente por sua face. Aquela imagem havia se eternizado em sua memória, era tudo o que lhe vinha a mente em todos os momentos. Mas ela sequer poderia imaginar a quem pertenciam aqueles olhos intensamente verdes, penetrantes e sinceros, que lhe seguiam tornando-se únicos e repetitivos em suas lembranças, habitando desde seus sonhos até sua realidade, refletindo seus próprios atos. Enxugou o rosto com o próprio tecido dos trajes que lhe vestiam, respirando profundamente. Finalmente se levantou, obrigando o corpo a obedecer seus impulsos. Permaneceu ainda algum tempo de pé, parada naquele local, refletindo sobre sua busca. Seus pensamentos ainda continuavam perturbados, mas sentia o coração um pouco menos pesado. Percebeu que ainda lhe restava um pouco de força interior para prosseguir e imediatamente pôs-se a caminhar. Para si mesma guardava a certeza de que aquela era sua única e última esperança de recuperar sua verdadeira identidade e pretendia concretizar tal fato, mesmo que lhe custasse a vida. Tentava naquele instante, fazer sua crença maior que seu desgaste, sacrificando-se ao repetir cada passo. Os membros falhavam aos seus comandos, suas passadas eram praticamente arrastadas por sua vontade de prosseguir. Um brusco impulso jogou-lhe ao chão. Provavelmente tropeçara em algum obstáculo. Seu corpo permaneceu imóvel, estendido de bruços sobre as folhas por longos segundos. Sentiu a respiração acelerar, tornando- se ofegante. Ergueu a cabeça com dificuldade. Os ombros pesavam-lhe. Apoiou as mãos fechadas ao solo, procurando levantar parcialmente o corpo. Os braços se arquearam, jogando seu físico novamente ao chão, causando um forte impacto. Um fio de dor percorreu por todo seu corpo. Percebia as pálpebras pesarem sobre os olhos, os pés latejantes, um paladar de sangue em seus lábios. Um ruído ensurdecedor invadia sua audição, interrompendo seus pensamentos. Uma mancha negra assombrava sua visão obscura. As mãos abriram-se num gesto de fraqueza. Finalmente seus sentidos foram tomados por completo, e seu corpo desfaleceu num profundo desmaio, entregando-se totalmente ao esgotamento e ao delírio... Retomou sua consciência algumas horas depois. Dores musculares atrofiavam-lhe todo o corpo. Apoiou os cotovelos ao chão, curvando a coluna, praticamente obrigando o próprio físico a erguer-se. Mantinha os pesados olhos abertos com dificuldade. Finalmente pôs-se em pé, reiniciando imediatamente a caminhada, esgotando a cada passo suas últimas energias. Apartamento de Mulder 16/10/2002 10hs O afastamento do trabalho fazia-lhe refletir ainda mais sobre os fatos dos quais se julgava culpado. Seu corpo permanecia em repouso, porém sua mente não descansava há anos. Jamais se resignara com o destino que a vida havia traçado. Tornara-se um ser imensamente amargurado, e dentro de si, relutava em dar continuidade à vida. Talvez ainda lhe restasse um frágil fio de esperança, que mantinha seus sentidos ativos. Resolvera, nas últimas horas, remexer o passado e reiniciar a busca por sua parceira. Essa tornara-se a razão de sua vida. Necessitava encontrar ao menos um vestígio de seu corpo, para ter certeza do acontecido. Quando concretizasse esse último desejo, sua existência estaria terminada. O estridente ruído do toque do telefone celular cortou-lhe os pensamentos. _ Mulder. _ Me... ajude... - a voz rouca implorava. _ Alô! - insistia Mulder sem entender o apelo. Uma respiração trêmula e ofegante pôde ser ouvida do outro lado da linha. A ligação caiu em seguida. Intrigado com o estranho telefonema, Mulder solicitou sua identificação ao FBI, descobrindo que a ligação havia sido chamada de um telefone público em uma estrada na área 51. Talvez, um antigo informante quisesse restabelecer contato. Pegou uma jaqueta e saiu, batendo a porta atrás de si. Área 51 12h10min Seus olhos percorriam todo o caminho que desmanchava-se com a paisagem. A estrada encontrava-se completamente deserta. Nenhuma pista de quem quer que fosse que houvesse efetuado aquela ligação. Inspirou profundamente, tentando relaxar. Uma imagem chamou- lhe a atenção ao longo do caminho. Parou o carro. Correu em direção a pessoa que se encontrava desmaiada à beira da estrada, procurando acudi-la. Esforçou-se para virar o corpo para cima, já que estava estirado ao chão de bruços. Finalmente conseguiu. Seus olhos instantaneamente cobriram-se de lágrimas. _ Scully! Scully... fale comigo! Abraçou-se fortemente ao seu corpo inerte. Desabafou por alguns segundos, todo o tormento que lhe dilacerava a alma durante aqueles anos. Envolveu-a em seus braços, carregando seu corpo até o carro. Por alguns instantes, ela chegou a abrir os olhos, arrancando-lhe um sorriso aliviado em meio às lágrimas, mas perdeu os sentidos logo em seguida. Apartamento de Mulder 31/10/2002 07h30min As batidas à porta despertaram-lhe. Levantou-se do sofá, ainda atordoado pelo sono. Encaminhou-se até a porta vagarosamente. Finalmente a abriu. _ Bom dia, Mulder! Pelo visto eu lhe acordei... _ Bom dia. Entre, Scully. - afastou-se da porta, abrindo-lhe passagem. Ela plantou-se no meio da sala, fitando-o curiosamente. _ Vejo que se recuperou muito bem, Scully! - disse aproximando-se e fazendo-a sentar-se no sofá. _ É verdade, mas ainda restam no meu corpo resíduos e conseqüências dos fortes medicamentos que me eram aplicados. - explicou. _ Mas, afinal, qual a finalidade de tais remédios? _ Bem, acredito que a fusão dos medicamentos submete a um estado de enfraquecimento físico e amnésia, além de provocar depressão. _ Não pudemos encontrar o local onde você esteve presa durante esses anos. Era em meio à floresta, de acordo com sua descrição. Mas não pudemos organizar uma busca por ser uma área restrita. _ A essa hora eles já devem ter acabado com as provas, Mulder. - disse num suspiro. _ Realmente não lembra como chegou até lá? _ Não... E acho que talvez nunca me lembre, acredito que estava inconsciente. _ Talvez... - após responder abriu um largo sorriso. _ De que está rindo? - perguntou desconfiada. _ Estou feliz por te ter de volta! _ Eu também... Mulder, na verdade, vim lhe agradecer. O Diretor Assistente Skinner me disse que você não descansou até me encontrar. Fico emocionada por suas atitudes... - disse com os olhos marejados de lágrimas. _ Sou eu quem deve lhe agradecer. Mesmo na sua ausência, você me guiou... Ela fixou seu olhar no dele, relembrando que quando estava perdida, havia sido ele quem a salvara mais uma vez, habitando seus sonhos e despertando suas recordações. Aconchegou-se em seus braços, sendo totalmente envolvida. Sem poder controlar a emoção, permitiu que algumas poucas lágrimas rolassem, umedecendo a camisa de seu parceiro. A proximidade de Scully lhe fazia refletir sobre os penosos anos que ambos haviam enfrentado. Agarrou-se mais fortemente a ela, fazendo-a sentir-se protegida. Mulder ergueu seu rosto, apoiando seu queixo entre os dedos. Ainda emocionada, ela encarou seus olhos apaixonados, que lhe buscavam incessantemente. Scully aproximou-se mais, fazendo com que ele unisse seus lábios aos dela ardentemente. Entregaram-se totalmente à doçura daquele momento. Separaram-se e Mulder a encarou timidamente. _ Jamais permitirei que volte a sofrer novamente! - disse, sentindo as lágrimas emergirem de seu olhar. Scully voltou aos seus braços, apoiando-se sobre seu peito, sentindo o calor de sua pele queimar-lhe suavemente o rosto. Mulder acariciava seus cabelos, apoiando seus lábios sobre eles. Permaneceram unidos durante longos momentos. Restava-lhes a certeza de que nem a morte jamais os separaria...