Título: Lições de Tempestades Autora: Alice J. Foster (Fe) Disclaimer: Não são meus, são do tio CC, 1013, FOX, etc. Classificação: shipper, angst, vignette. Feedback: Por favor! alice_j_foster@hotmail.com Censura: 12 anos. Sumário: Quais as lições que as tempestades podem ensinar? Notas da autora: Eu dedico essa fic à Patricia Emy que me fez o gigantesco favor de betar minha fic Barreiras. Muito obrigada, Paty! E claro, como não poderia ser diferente, um grande abraço para minhas companheiras ADAS e para o meu companheiro CDAS. Telma e Déia, obrigado por betar essa fic! A gente brinca, mas quero que vocês saibam que isso significa muito para mim e que confio em vocês o bastante para analisar criticamente meu trabalho, que para mim, é preciosíssimo. Amo vocês. Cris e Anna, prometo que ainda betarão alguma fic minha, não vão se sentir excluídas, hein? Um beijo para todas vocês! +++++ Lições das Tempestades Por Alice J. Foster (Fe) +++++ J. Edgar Hoover Building 8:35 pm Mulder e Scully andavam pela garagem do FBI. Ele na frente e ela atrás procurando as chaves do carro. - Scully, vamos dar uma esticada? - Por que toda vez que você diz isso acabamos com um caso nas mãos? - Eu juro que isso não vai gerar nenhum caso. Scully considerou a oferta de Mulder por algum tempo e respondeu: - Espere, Mulder. Eu vim com meu carro, não vou deixá-lo aqui. Hoje é Sexta-feira, não quero vir aqui Sábado de manhã para pegá-lo. - Está bem. - ele seguiu na frente em direção ao carro dele. Scully caminhou até seu carro enquanto Mulder seguiu em direção ao dele. Ao chegar até seu carro ela notou uma nota lá dentro, um pequeno bilhete aparentemente escrito às pressas. Ela abriu rapidamente a porta do lado do motorista e leu o bilhete. "Encontre-me amanhã às 10:00 am no Jefferson Memorial. Tenho meios para tornar seu sonho realidade. Venha sozinha". Sem assinatura. Scully sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Ela fechou a porta e saiu em direção ao carro de Mulder, entrando silenciosamente pela porta do passageiro. - Não vai com seu carro? - o rádio dentro do carro tocava uma música dos anos 70, e Mulder parou de batucar com o dedo no volante para olhar para Scully. - Mudei de idéia. Vamos ao seu apartamento, por favor, Mulder. - ele olhou em direção a ela, mas percebeu que não adiantaria fazer mais perguntas, apenas a afastaria ainda mais. Enquanto isso, Scully tentava controlar seu coração. Mulder desligou o rádio e seguiu em direção ao apartamento, ambos envoltos num silêncio que ao invés de confortante, como geralmente era entre os dois, cheio de inseguranças. +++++ Apartamento de Mulder 9:29 pm - Scully, o que houve na garagem do FBI? - Mulder perguntou ao entrarem em seu apartamento. - Nada, Mulder. - ela disse ainda tentando mascarar seus sentimentos, como sempre fazia. - Eu apenas precisava estar aqui. - Mulder sabia que algo estava errado. Scully nunca "apenas" precisava estar com ele. Quando eles ficavam juntos era porque algum deles estava precisando. Ela ficou imóvel em frente ao sofá, cabisbaixa. Ele também ficou imóvel, ambos esperando que o outro tomasse a iniciativa. Meses de relacionamento ainda não tinham sido suficientes para tamanha liberdade e, ao mesmo tempo, eles estavam mais próximos que nunca. Tantas coisas mudavam e algumas ainda permaneciam e sempre permaneceriam iguais. Mulder cansou-se de esperar e foi até ela, envolvendo-a em seus braços. - Obrigada. - ela disse, o som de sua voz abafado pelo tecido da camisa dele. Ela não parecia que ía dizer mais nada. Ele beijou sua testa e eles continuaram assim por muito tempo, ele dando apoio e ela quietamente aceitando. +++++ 08:59 am - Mulder, eu estou indo buscar meu carro. - Scully disse ao sonolento Mulder. - Vamos mais tarde, eu te levo. - Não, eu pegarei um táxi. Você iria apenas usar isso como pretexto para me arrastar para o porão e arranjar algum caso para investigarmos esse fim-de-semana. - ela disse sem querer deixar transparecer a razão real pela qual ele não poderia ir com ela. Ela havia refletido muito durante a noite e decidira não dizer nada a Mulder até que ela soubesse do que se tratava o bilhete. - Nós poderíamos fazer outras coisas no porão do FBI. - ele disse em uma voz rouca que forçou Scully a ignorar a reação que seu corpo teve ao som. - Eu achei que nós havíamos acabado de fazer "coisas". - Scully retrucou, tentando suavizar o seu próprio humor. Mulder abriu apenas um olho, e levantou uma sobrancelha, gesto característico dela, mas nele, ao invés de inquisitivo se tornava convidativo. Talvez se ela não estivesse tão preocupada com o que iria acontecer em decorrência de sua pequena "reunião" com alguém, até ali desconhecido, ela tivesse aceitado. - Eu vou indo. Tchau. - ela queria dizer *me liga* ou *te vejo mais tarde*, mas não tinha coragem suficiente. Ela apenas o beijou levemente na ponta do nariz e saiu. +++++ 09:47 am Scully chegou ao Jefferson Memorial, na chuvosa manhã. O lugar era grande e havia dezenas de pessoas passeando, mesmo com a garoa. O bilhete não dava mais detalhes em relação ao local exato do encontro, então ela ficou de pé, próxima a um banco, na esperança de que se a pessoa havia colocado um bilhete em seu carro, provavelmente a conhecia fisicamente. E, então, ela tentou controlar seus medos e ansiedades. Quem poderia ser? Quem poderia conhecer seus sonhos? Quem poderia realizar um deles e o que pediria em troca? Ela aceitaria? Foi então que Scully o viu. - Você estava morto! Isso não é possível! - ela disse quando conseguiu se recuperar do susto. - Aparentemente não, Agente Scully. Posso certificá-la de que estou vivo. - Mas eu vi com meus próprios olhos. Isso não é possível, você lev... - Achava que esses anos nos Arquivos X tinham abalado seu ceticismo, Agente Scully. Vejo que estava errado. - interrompeu Garganta Profunda. - O que você quer? - A questão não é o que eu quero. É o que eu posso lhe oferecer. Scully sabia que isso viria. Mas, mesmo assim, ela não estava preparada. - Do que está falando? - questionou Scully em seu modo defensivo, braços cruzados e com uma distância considerável de seu oponente. - Seu maior sonho. Uma criança que você conceba. Uma criança a qual você dará a luz. Novamente Scully não estava preparada. Tudo que ela queria era esquecer o que esse homem estava oferecendo, pois ela sabia que isso só traria problemas. - Não é possível, eu sou infértil. - E quanto a Emily? De onde você acha que ela saiu? Nós temos os meios. - Por que você me daria isso? - Eu não disse que daria. Seria uma troca. - Eu não estou disposta a fazer troca alguma. - Não? Estou disposto a realizar seu maior sonho. Acho que você não pode colocar preço nele, pode? Você teria feito qualquer coisa por Emily, não? Qualquer coisa para tê-la com você agora. Como aquele homem ousava falar de Emily? A verdade é que ela não faria qualquer coisa, ela não fez. Mulder questionou-lhe se ela usaria todos os meios possíveis para salvá-la e ela tinha respondido que não. Se ela fizesse Emily sofrer mais um minuto, ela não seria melhor que os homens que a tinham criado. Mas se aquela fora a decisão certa, por que ela se sentia tão mal? Por que parecia que ela tinha sido injusta com Emily e consigo mesma? - Ela tinha uma doença incurável. - Os lábios de Scully tremiam com o esforço dela em não sacar sua arma e atirar naquele homem em um lugar público. Mas ela sabia que não seria sensato. Esses homens não existiam. Matá-los não tinha efeito, apenas conseqüência. - Mas eu posso assegurar-lhe que essa nova criança nasceria saudável. Uma criança com seu DNA e normal aos olhos de qualquer observador. - O que quer dizer com normal aos olhos de qualquer observador? - Naturalmente teríamos que escolher o pai. Está disposta? - Scully não respondeu, ao invés disso, olhou para o chão. - O que pedimos não é nada perto do risco que corremos oferecendo- lhe isso. Veja bem, meus associados têm a mente muito fechada. Subestimam demais seus inimigos e por isso é que diversas operações nossas não deram certo. Eu nunca a subestimei como eles o fizeram. Subestimar? Ela se lembrou do começo de sua parceria com Mulder, quando ela lutava para ser aceita, tentava achar um modo de agradar a seus superiores. Ela nem se recordava de quando aquilo deixara de importar. Quando tudo que passou a ser importante era a busca. - Do que está falando? - Quando eles a colocaram para trabalhar com Mulder, não sabiam que você poderia se tornar uma arma contra nós. Mas está na hora de consertar esse erro permanentemente. - Scully virou seu rosto na direção oposta ao homem que conversava com ela, tornando impossível que ele pudesse observar seus olhos e, assim, observar suas emoções. - Só querermos que você se afaste definitivamente de Mulder. - Isso não é possível. - Scully começou a se afastar. Ela sempre esperou que um dia chegassem até ela com essa proposta e sempre se preparou para recusá-la. - Eu não lhe disse uma coisa, Agente Scully. Naturalmente, o filho seria de Mulder. - com isso Scully parou de andar. Seus olhos fecharam e ela ficou sem resposta. Certamente, ela não esperava por isso. Uma criança. Dela e de Mulder. Valeria a pena? Certamente, não. Mas ela estivera errada antes. - O material genético de Mulder é imprescindível para a nova raça. - Garganta Profunda caminhou até ela e parou ao seu lado, olhando para uma família correndo junta, fugindo da chuva que engrossava. Ele pegou um maço de cigarros em seu bolso e acendeu um, protegendo-o da chuva com sua mão. - Não sabia que você fumava. - Scully disse, quase que imperceptivelmente. Sua voz trêmula, com medos e indecisões. - Não fumava antes. Foi a má companhia. Espero sua resposta nesse mesmo lugar dentro de 24 horas. - A resposta é não. - Scully respondeu, não digna de confiança. - Estarei aqui de qualquer maneira. E, com isso, ele foi embora, deixando-a indecisa na chuva que não parecia parar tão cedo. +++++ 12:36 am Scully chegou em seu apartamento encharcada, tirou seu casaco e se dirigiu ao banheiro. Ela ignorou sua imagem no espelho e preparou a banheira. A água da chuva ajudava no sentido de esconder a real razão pela qual seus olhos estavam molhados. E a roupa úmida não parecia um desconforto, pelo contrário, deixava-a fria por fora, ajudando a controlar a transparência de suas emoções. O telefone tocava insistentemente, mas ela se recusou a atendê-lo, assim como havia feito com seu celular nas últimas duas horas. Ela mergulhou em seu banho de banheira, esperando que a água quente fosse suficiente para relaxar os músculos tensos. Mas no fundo ela sabia que nenhuma água sob nenhuma temperatura seria suficiente para dissipar a tensão em seu corpo e mente. Não era justo. Não era justo com Mulder ou com ela. Mas ela queria. Ela desejava. Poderia existir vida longe de Mulder? Ela poderia viver feliz longe dele? Não. Mas ela poderia viver feliz com a lembrança e um filho dele? Essa era a pergunta. E se ela se recusasse, poderia um dia se perdoar? Será que ELE a perdoaria algum dia se ela aceitasse? O medo era grande. Ela sabia por diversas pessoas que quando ela esteve separada dele durante aqueles três meses, ele tinha desmoronado. E também quando ela teve câncer. Ela tinha medo de que ele cometesse alguma besteira. Ela se amaldiçoava por estar sequer considerando a proposta. E, ao mesmo tempo, ela sabia que era impossível não pensar na mesma. Afinal, os homens que a elaboraram certamente desejavam isso. +++++ 10:50 pm Mulder chegou ao prédio de Scully e avistou o carro dela na garagem. Ele subiu rapidamente até o apartamento dela e bateu na porta. - Scully? Scully, está aí? Por que não atendeu ao telefone? Nenhuma resposta. Ele já tinha tentado procurá-la em diversos lugares por várias horas. Já tinha anoitecido e ele ainda não tinha notícias dela. Ele se sentia um idiota. Ela poderia ter saído com alguma pessoa. Afinal, eles nunca tinham tornado seu relacionamento oficial. Mas algo dentro dele dizia que esse não era o caso. Algo lhe dizia que tinha alguma coisa errada. Ele pegou a chave dela, para emergências apenas, e entrou em seu apartamento. - Scully? - Vá embora, Mulder. - veio uma voz fraca do quarto. - Scully, está tudo bem? - Eu já te disse para ir embora, Mulder. - ele caminhou lentamente até o quarto e abriu a porta. Scully estava sentada em sua cama, de pijamas, segurando sua cruzinha e com os olhos inchados. - Scully? O que houve? - Nada. Não houve nada. Por favor, vá embora, Mulder - ela disse firmemente. Mulder não disse nada. Apenas caminhou até a cama e a puxou em seus braços). Ela resistiu no começo, mas cedeu depois e começou a chorar, molhando a frente da camiseta dele. Ele se movimentou rapidamente para tirar a jaqueta que estava molhada da chuva e sentou-se do lado dela na cama e a abraçou novamente. Ele não fez pergunta alguma até que ela deixou de soluçar. - O que houve, Scully? - Eu não quero falar sobre isso. - ela não podia. Por que ele não entendia??? - Scully, eu te conheço melhor que qualquer um. Eu sei que você nunca chora. NUNCA. Apenas em caso de morte. Você acabou de chorar mais do que eu vi em todos os nossos anos juntos e quer que eu acredite que não há nada de errado? - ele tentava se controlar. Estava cansado dessa baboseira de "estou bem". - Isso não vai mais acontecer, Mulder. Eu vou me controlar melhor. - ela enxugou algumas lágrimas com a manga do pijama e tentou, sem sucesso, parecer apresentável novamente. - Não é isso, Scully! Seja sincera comigo! Se você quiser chorar, chore. Quiser rir, ria. Eu não vou pensar menos de você como ser humano, como parceira, como qualquer coisa! Você é a pessoa mais forte nesse mundo para mim, mas isso não quer dizer que você precise ser forte o tempo todo! Ela não disse nada. Apenas ficou apertando seu edredon. Passaram- se pelo menos cinco minutos até que ela falou alguma coisa. Mulder quase não escutou de tão baixa que sua voz era. - Eu me encontrei com o Garganta Profunda. Mulder pensou em interromper e perguntar de que diabos ela estava falando, mas ele sabia que se fizesse isso, ela não falaria mais nada. - Ele me ofereceu algo difícil de recusar. Mas o preço é muito alto. - Do que está falando? - Ele perguntou depois de recuperar sua voz; - Ele não morreu. Ele está "amiguinho" do Fumacinha. Ele me fez uma proposta. As informações demoraram a serem compreendidas pelo cérebro de Mulder. - Que proposta? - ele olhava para ela, mas ela não conseguia olhá-lo nos olhos. - Não quero falar sobre isso. - ela evitava ferozmente o olhar dele. - Scully, fale comigo. O que ele queria? - Que eu deixasse você, os Arquivos X. Tudo. - novamente a voz dela adquiria um tom quase que imperceptível. - Você não pode estar considerando isso, está, Scully? - ela não respondeu. - Você está considerando. Eu não acredito. Você vai desistir. - ele não podia acreditar. Como ela poderia estar considerando desistir agora? Sete anos depois? Ambos ficaram em silêncio por vários instantes, as respirações ofegantes, os olhares descrentes. - O que eles estão lhe oferecendo, Scully? - Já disse que não quero falar sobre isso. - Ela se levantou e foi em direção à janela, observar a tempestade ainda forte lá fora. - Scully, não me deixe do lado de fora. Não me exclua disso, por favor, eu não poderia agüentar! Ela continuava a observar o céu lá fora. E a Verdade? E se ao final eles falhassem e só as Mentiras sobrevivessem? - Uma criança. - ela disse, seus olhos fechados numa expressão de extrema dor. - O que? - ele não compreendia uma palavra do que ela dizia. - Mulder, estão me oferecendo uma criança. Nossa. Minha e sua. Ele não poderia acreditar no que escutava. - Não acredito nisso. Você acha que eles estão falando a verdade? Eles estão mentindo de novo. É mais uma mentira para me desacreditar! Como eles podem ter meu material genético? - Você não pode ter certeza de nada, Mulder. Eles podem estar falando a verdade. - É apenas mais uma mentira criada por eles, Scully. Mais uma mentira para desacreditar o meu trabalho! - Nem tudo é sobre você, Mulder! - Scully gritou enquanto Mulder se levantava e colocava a mão na cintura, numa posição de indignação. - É só eles oferecerem uma criança que você já pensa em abandonar tudo? Ela não respondeu. Seus olhos novamente cerraram-se. - Existe algo que você não sabe, Scully. Em Allentown. Eu achei algo. - Do que está falando, Mulder? - Óvulos. Seus óvulos. Estão numa clínica de fertilidade na Virgínia. Ela se virou para encará-lo e ele sentiu sua alma gelar com o olhar dela. - Mulder, você teve óvulos meus todo esse tempo e nunca me disse nada? Como você pôde fazer isso comigo? - Eu não sabia como tocar no assunto. - ele se sentia um lixo humano. Nenhum sentimento novo para Fox Mulder, mas isso não o ajudava a se sentir melhor. - E quanto a Emily? Você poderia ter me contado quando eu a achei. - Exatamente, Scully. Emily. ELES sabem o seu ponto fraco. É por isso que estão lhe propondo isso. Você não pode considerar essa proposta! - Meu ponto fraco, Mulder? MEU ponto fraco? E sua irmã? Quantas vezes eles já não usaram isso para acabar com o NOSSO trabalho? Você não tem o direito de me dizer o que considerar ou não! - Você não tem o direito de colocar a Samantha nisso! - Por que não, Mulder? É fácil falar da Emily ou qualquer outra criança se o problema sou eu, não é? - Estou indo embora. - Ótimo, Mulder. - Então está bem, aceite a proposta, viva feliz com a mentira que eles criarem. - Talvez eu aceite. - ela disse olhando novamente para o chão. Ele pegou a jaqueta e saiu. Lá fora a tempestade continuava. +++++ 10:13 am Scully caminhava rapidamente até o local onde ela se encontrara no dia anterior com Garganta Profunda. O dia estava apenas nublado, sem chuva, mas a tempestade dentro dela continuava. Ela já havia colocado a armadura ao se levantar, numa tentativa de impossibilitar que qualquer um a machucasse, inclusive ela mesma. Seus passos tornavam-se cada vez mais rápidos. Ele já estava lá. - Que bom que chegou. - disse o homem em seu sobretudo. - Não sabia que estava com pressa. - Scully retrucou sarcástica. - Não estava. Paciência é a maior das virtudes, Agente Scully. E então, quando irá se juntar a nós? - ele falava com tamanha certeza, que gelava a espinha dorsal de Scully. Ela hesitou por um instante antes de continuar. - Nunca. Não haverá negociação. A única razão pela qual vim aqui hoje é para dizer a você e a seus aliados que não existe preço em minha parceria com Mulder. Vocês têm que aprender a viver com seus erros. Pois vocês podem fazer o que quiserem, que jamais nos separaremos. Jamais. Nosso compromisso um com o outro e com a Verdade - que vocês tentam esconder – é maior que qualquer coisa que vocês possam nos oferecer. Eu vim aqui também para informar-lhe que é melhor que pare de nos procurar. Ou vocês irão se acabar sozinhas. Não vão saber nem o que os atingiu. - e com isso ela foi embora, deixando um Garganta Profunda completamente abismado, sem saber o que dizer ou fazer. Ela só queria sentir dentro de si a mesma certeza com a qual respondeu. +++++ 11:09 am Ela nem se deu ao trabalho de bater na porta como ele o fizera na noite anterior no apartamento dela. Simplesmente abriu a porta e se surpreendeu com o estado do apartamento. Tudo estava revirado, objetos quebrados no chão, enquanto Mulder se encontrava sentado em seu sofá, um copo vazio na mão e uma garrafa de uísque pela metade sobre a mesa. Scully parou próxima ao sofá e olhou para ele, sem se aproximar muito. - Não estou bêbado, Scully. Deve ser uma conspiração. Eles devem ter manipulado meu corpo de maneira que o álcool não faça mais efeito. - Neste caso talvez eu deva agradecê-los por alguma coisa. Ele esboçou um sorriso e olhou em direção a ela. - Além de nossa miséria? - Não, Mulder. Nossa miséria foi produto nosso. E de nossas palavras e sentimentos. - Você estava certa, Scully. Eu não tenho direito de jogar na sua cara qualquer coisa relacionada a crianças. E eu não tinha o direito de esconder de você qualquer coisa relacionada a seus óvulos. Acho que eu sempre secretamente esperei que se você desejasse ter filhos, seria comigo. Então não importaria se eu guardei o fato de você ou não. Parece que eu estava errado. - Não completamente, Mulder. Ele ficou olhando para ela até que ela continuasse. - Se eu quiser ter filhos, será com você. Não tenha dúvidas. Mas não sei se serei capaz de esquecer o que você fez. Guardar um segredo que não era seu para guardar. Mas sei que irei te perdoar. - ela então percebeu que estava olhando para a mesma mancha no carpete dele pelos últimos cinco minutos e olhou para ele. - Eu também não tinha o direito de falar sobre Samantha.- ela respirou fundo antes de continuar - Mulder, você mesmo disse ontem, você me conhece melhor que qualquer pessoa e eu também o conheço. E isso faz com que nós saibamos o que não podemos dizer sem que o outro fique magoado. E, quando estamos com raiva, usamos exatamente isso como armas. Mas isso não quer dizer que fossem verdades. Ele olhou para a janela. O sol parecia tentar raiar, mas as nuvens ainda o impediam. - Mas eu ainda me sinto péssimo sobre Emily. - ele olhou para ela - Você sabe que eu a amava como se ela fosse minha? - Scully se surpreendeu com o que ele disse, mas tentou não demonstrar. - Talvez ela fosse. - O que? Do que você está falando, Scully? - Esqueça. Apenas algo que eu gostaria de esclarecer em nossa próxima busca pela Verdade. - Você não aceitou. - Scully ficou em dúvida se era uma pergunta ou uma afirmativa. - Não pude. Eu falei algo hoje para ele que eu não poderia ter certeza. Eu disse a eles que jamais nos separaremos. Quando eu disse isso, eu quis dizer que nem eles nem ninguém poderiam nos separar, nem nós mesmos. Eu menti, Mulder? - Não. Não sei, espero que não. Só sei que eu vou tentar fazer de tudo para que os acontecimentos de ontem não se repitam, mas isso é tudo que eu posso prometer. - É o bastante, pelo menos para mim. Ele olhou diretamente nos olhos dela pela primeira vez desde que ela entrou pela porta do apartamento. - Scully, eu não quero que você mude. - Eu também não quero que você mude. - Eu não quero que você me deixe. - Eu não vou te deixar, Mulder. Não importa o que aconteça, eles podem tentar nos separar, mas qualquer separação será temporária. Ele parou por um segundo e sorriu. - Eles não me agüentariam por dois dias, Scully. Até os ETs iriam perder a paciência comigo. Eu iria choramingar o tempo todo, iria ficar fazendo perguntas idiotas, eles me devolveriam rapidinho. - Scully interpretou isso como trégua e foi até ele. Ela se sentou do lado dele e o abraçou. Ele puxou a cabeça dela para seu peito e ela foi deixando finalmente a tensão dispersar. - ETs não existem, Mulder. - ela disse brincando com a camiseta dele. - O que você disser, Scully. O que você disser. - ele disse sorrindo. Assim ambos adormeceram, abraçados e sorrindo, aproveitando a calmaria antes da próxima tempestade. Pois as tempestades sempre existiriam. O que eles aprenderiam com elas era o que importava. E as tempestades só pareciam mostrar que dois lutavam muito melhor que um. Era uma chance a mais de sobrevivência. Talvez fosse a única. +++++ Feedback: alice_j_foster@hotmail.com