Título: "Lembranças" Autora: Déia Mulder e-mail: deiamulder@ig.com.br Classificação: Não sei. Mas contém um pouco de violência e conceitos religiosos. Categoria: Shipper/Romance de época. Sinopse: Richard é um jovem padre. Lilith uma jovem camponesa que pratica bruxaria. Eles se conhecem e se apaixonam perdidamente. Mas quanto custará esse amor? Nota da Autora: Essa história é baseada em Lilith e Richard. Lilith era uma bruxa que viveu na idade Média e se apaixonou por Richard, que era um padre. Os dois viveram uma história de amor linda! Eu li uma fic da One, com certeza muita gente também já leu, chama-se "Memórias de Lilith". Tem um pedacinho da fic que fala sobre esse amor. Resolvi pegar a idéia emprestada e depois de muito pesquisar e descobrir que Lilith realmente existiu, saiu essa fic que espero que gostem! Não sei se a história deles aconteceu exatamente assim, mas foi o que me veio à cabeça. Ah! Mais uma coisa. Nesta história, a Lilith é a Scully e o Richard é o Mulder, portanto quando estiver escrito Richard imaginem o Mulder e quando estiver escrito Lilith imaginem a Scully, ok! Me mandem feedback, por favor!!!! "Nunca os seres humanos se atiraram tão cegamente uns contra os outros, nunca o cristianismo se desacreditou mais, frente ao mundo inteiro, como no processo contra as bruxas." "Lembranças" O sol era escaldante. Alguns camponeses trabalhavam na lavoura enquanto outros descansavam um pouco. No meio deles estava uma linda jovem de cabelos avermelhados e feições delicadas com um vestido de camponesa e um lenço que lhe cobria parcialmente a cabeça, permitindo que seus cabelos compridos e cacheados lhe adornassem os ombros. Seu nome? Lilith. Aproximou-se de um banco e sentou-se, descansando um pouco. Fechou os olhos e respirou fundo, sentindo a suave brisa acariciar-lhe o rosto e mexer levemente em seus cabelos cor de fogo. Terminaram a colheita já tarde e Lilith não sabia ao certo explicar o que havia dentro de seu coração. Um sofrimento de repente apoderou-se de seu ser, levando-a a derrubar algumas lágrimas. Seu pai morrera quando ainda era criança e sua mãe foi condenada a morrer na fogueira por bruxaria. Lilith, assim como sua mãe, não era bem vista pelas pessoas exatamente por isso. Mas ninguém tinha provas, então não podiam fazer nada contra ela. Continuou sentindo uma angústia tomar conta dela. Uma enorme solidão invadiu seu coração e Lilith chorou. Talvez pela falta da mãe. Resolveu, ir até a Igreja se confessar. Quem sabe isso lhe ajudaria a limpar sua alma e levasse embora aquele turbilhão de sensações ruins que lhe tiravam o sossego. E assim fez, migrando até a Igreja. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Richard estava impaciente, desde que o padre Simião (SKINNER) lhe dissera que haviam pego outra bruxa. Richard estava ajoelhado frente ao altar, com os olhos fechados e as mãos unidas, rezando. Lilith adentrou a Igreja lentamente. Lágrimas de sofrimento lhe cobriam a bela face como um manto. Entrou no confessionário. Richard foi logo em seguida, abrindo a pequena janelinha e fazendo o em nome do pai. LILITH (CHORANDO): Perdoe-me padre, porque pequei. Há muito tempo que não me confesso. RICHARD: Diga-me, filha. Qual o seu pecado? LILITH (CHORANDO): Eu pequei, padre! Sou uma bruxa! Richard arregalou os olhos incrédulo. O que faria agora? Tinha o dever de denunciá-la a Inquisição, mas algo o impedia. Não sabia ao certo o por que, mas não podia denunciá-la. RICHARD: Filha, isso é uma coisa muito séria. Se for alguma brincadeira..... LILITH (CHORANDO CONVULSIVAMENTE): Acha que eu viria até aqui dizer uma coisa dessas se não fosse verdade, padre? Acha que eu mentiria na casa do Senhor? Posso falar com senhor frente a frente, padre? Por favor? Richard abriu a porta do confessionário e saiu de dentro dele. A visão que teve foi a mais linda e a mais maravilhosa de toda a sua vida. Tentou tirar esses pensamentos da cabeça. Contemplou aquele rosto meigo e delicado por algum tempo. Os cabelos vermelhos como fogo que cobriam seus ombros como uma linda moldura. Os olhos azuis como o mar, agora molhados pelas lágrimas que caíam resplandecentes, contornando seu rosto. Lilith olhou Richard no fundo dos olhos. Como era lindo! Os olhos verdes, os cabelos lisos e castanhos, com uma teimosa mecha que insistia em cair- lhe sobre os olhos. Puniu-se por estar ali parada desejando um padre. Sim, era desejo! Um forte desejo que só contribuía para aumentar seu sofrimento. Ambos puniram-se por seus pensamentos, mas o que se formou ali era amor. O mais puro amor! O amor verdadeiro. A luz no meio da escuridão. Já era tarde demais, esse estranho sentimento já havia tomado conta de seus corações e de suas almas. Não tinha mais como voltar atrás! Richard pediu gentilmente que Lilith se sentasse em um dos bancos da igreja. E assim ela fez. Richard sentou-se ao seu lado. Estava enfeitiçado por ela. Sentia seu estômago revirar, suas pernas tremerem, suas mãos suarem. Mas ele não podia. Não podia ter esse tipo de sentimento. Era um padre. Fez seus votos de lealdade perante Deus e desejar uma mulher era o maior dos pecados. Lilith tinha o rosto abaixado e chorava baixinho. Richard, mesmo tremendo, encostou seus dedos no queixo dela e ergueu seu rosto, obrigando-a a fitá-lo. RICHARD (GENTIL): Qual seu nome? LILITH (SOLUÇANDO): É Lilith. RICHARD: Então, Lilith, você é bruxa! Não parece! LILITH (SUPLICANDO ENTRE LÁGRIMAS): Apesar de não fazer mal às pessoas, eu vim aqui pedir ao senhor que me entregue à Inquisição. Por favor, eu não tenho mais motivos prá viver. Tudo me foi tirado. Minha mãe morreu faz um ano e meu pai morreu quando eu ainda era uma criança. Só me resta morrer! RICHARD (COMPLACENTE): Lilith, eu não posso fazer isso! Eu não sei por que, mas não posso. Eu não sei o que você julga ser bruxaria. Eu não posso fazer isso sem ter certeza, e mesmo que tivesse não o faria! LILITH (CHORANDO): Eu curo as pessoas. Faço remédios que curam pessoas doentes. Minha mãe também fazia. Foi condenada à morrer na fogueira, por fazer o bem. (GRITANDO ENTRE LÁGRIMAS) Que mundo é esse que matam pessoas inocentes, padre? Que pessoas são essas? Eu fiquei ali parada olhando minha mãe definhando entre o fogo e não podendo ajudar! Não podendo fazer nada além de olhar! Lilith levou as mãos ao rosto e se curvou, apoiando a cabeça nas pernas. Richard olhava pesaroso aquela mulher chorando convulsivamente à sua frente. Ela parecia carente, precisando de carinho. Colocou as mãos em seus cabelos e acariciou levemente. Lilith ergueu a cabeça e pegou nas mãos dele. O rosto molhado e os olhos inchados. Tão vermelhos quanto seus cabelos. LILITH (SUPLICANDO): Por favor, padre! Me deixe morrer! Richard não resistiu. Colocou seus braços em volta do corpo dela e a abraçou. Um abraço cheio de carinho e afeto. Lilith permitiu- se chorar ainda mais, nos braços daquele homem, que apesar de ser um estranho, parecia que o conhecia há muito tempo. E ela chorou. Lavando sua alma e purificando seu ser. Sentindo uma sensação de leveza atravessar-lhe o coração. Uma sensação que ela não podia explicar, mas que era muito boa. Richard sentiu o mesmo. Seu coração palpitava aceleradamente, enquanto sentia o rosto molhado de Lilith em seu pescoço. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Lilith chegou em casa naquela noite pensando em Richard. A conversa dos dois a fez sentir melhor. Seu coração, agora, parecia preenchido totalmente. Sentiu uma gostosa leveza em seu íntimo e sorriu. Sentou-se na cama e fechou os olhos, ainda sentindo o perfume dele em suas roupas. Ficou a pensar. Não podia estar apaixonada por ele! Isso era um sacrilégio! Sua mãe se envergonharia dela. Mas não podia lutar contra esse sentimento. Deitou-se na cama sentindo suas pálpebras cansadas. Fechou os olhos e dormiu. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Richard estava sentado em sua cama pensando em Lilith. Ela era uma moça estranha mas muito bonita. Permitiu-se sorrir, por um instante, mas depois o sorriso foi sumindo dando lugar a um semblante de pânico. Estava apaixonado por ela, tinha certeza. Talvez realmente ela fosse uma bruxa e o teria enfeitiçado. Aqueles olhos azuis tão envolventes. Será que era apenas fingimento, todo aquele sofrimento na Igreja? Não, não podia ser. Ele olhou em seus olhos, viu a solidão estampada neles. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Sacudiu a cabeça para ambos os lados e levou as mãos a cabeça, tentando tirar o rosto dela da mente, mas era em vão. Cada detalhe de Lilith estava gravado como ferro em brasa na sua memória. Algumas gotas pingavam de seus olhos involuntariamente. Desta vez, era ele quem chorava. Mas como lutar contra um sentimento que devasta a quem possa sentir. Ele não tinha por onde fugir. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx O sol já brilhava no horizonte e Lilith colhia flores em um enorme jardim. Richard passeava com os braços cruzados e a cabeça baixa procurando um meio de afastar a lembrança dela de sua mente. Levantou a cabeça e avistou Lilith, colhendo flores, com o rosto triste. Não resistiu e se aproximou dela, nervoso. RICHARD (GRITANDO E CHORANDO): O que você fez comigo, sua bruxa. Lilith levantou-se assustada com a atitude daquele homem que não parecia em nada o jovem cavalheiro com quem conversara ontem. LILITH (RECEOSA, ASSUSTADA): Nada!.... Eu não fiz nada! RICHARD (NERVOSO): Você me colocou algum feitiço, não é possível. Eu não posso sentir o que estou sentindo. Não posso! Richard caiu de joelhos na frente dela. Levou as mãos ao rosto e chorou. RICHARD (CHORANDO): Por favor, eu te imploro. Tire isso que estou sentindo de mim! Eu sou um padre, não posso ter desejos pela carne. Lilith abaixou-se e afastou as mãos dele do rosto delicadamente. Se olharam nos olhos. Richard tinha o rosto molhado pelo sofrimento e Lilith sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas. Ele também sentia o mesmo por ela. O mesmo amor desesperado que ela sentia dentro de seu peito. Ficaram se olhando algum tempo. LILITH: Eu.... não sei o que dizer.... só sei que.... estou apaixonada por você! Eu sei que não devia desejar um padre, mas eu não posso evitar. O que eu sinto aqui dentro (LEVOU AS MÃOS AO PEITO) é tão forte e profundo que não precisa de palavras, meu olhar diz tudo. Eu amo você! RICHARD (OLHANDO NO FUNDO DOS OLHOS DELA): ..... Eu puni meus sentimentos ontem. Me pegava pensando em você. No seu rosto, seus olhos. E quer saber.... eu não quero lutar contra isso! Eu não consigo, é mais forte do que eu. Lilith sorriu, olhando o homem à sua frente com ternura. Richard retribuiu o sorriso dela. Realmente ela tinha razão, não era preciso palavras. Richard era capaz de interpretar tudo que estava escrito naqueles belos olhos cor de mar. Ficaram se olhando por um longo tempo. Richard colocou uma das mãos no rosto de Lilith e ela colocou sua mão em cima da dele. Fechou os olhos, sentindo o leve toque das mãos dele. Aproximaram seus corpos e Lilith enlaçou o pescoço de Richard. Sentiram seus rostos se aproximarem cada vez mais. Ela deslizou uma das mãos para o belo rosto dele, acariciando levemente com o polegar. Richard fechou os olhos e aproximou ainda mais seu corpo do dela. Lilith roçou seu rosto de leve no rosto dele. Ambos tinham os olhos fechados. Suas bocas estavam quase unidas. Lilith tinha os lábios entreabertos e Richard podia sentir o hálito quente dela em seu rosto. Ela sentiu os lábios de Richard encostando nos seus. Parecia que estavam flutuando em milhões de estrelas. Richard aprofundou ainda mais o beijo, colhendo dos lábios dela o mais puro mel. O beijo durou o que parecia ser uma eternidade. Afastaram suas bocas e se olharam. Richard sorriu entre lágrimas e Lilith fez o mesmo. Apesar de tudo estavam se sentindo bem. Uma leveza tomou conta deles e se abraçaram. Um abraço apertado, cheio de ternura e respeito. O amor é assim. Chega e entra sem pedir licença, invadindo os corações dos mortais, sem distinção de raça, classe ou religião. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Lilith chegou em casa e sentou na cama de sua humilde cabana. Sentiu os olhos inchados e a garganta embargada. Ficou olhando para o nada e sentiu lágrimas rolando pelo seu rosto, como forma de desabafo. Foi deitando lentamente e virou-se de lado, abraçada ao travesseiro. Chorou, como havia fazendo involuntariamente nos últimos dias. "Eu beijei um padre!" pensou. Esse amor a consumia por dentro. A lembrança do rosto dele não lhe saía da mente. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Richard entrou em seu quarto cabisbaixo. Sentiu-se envergonhado entrando na casa do Senhor, depois de ter beijado uma camponesa. E o que é pior, ela era uma bruxa. Esses pensamentos ficaram martelando em sua cabeça. Seu coração estava apertado e cheio de amor, por uma linda mulher. Ele iria se encontrar com ela amanhã, longe dali. Em uma floresta que Lilith costumava brincar quando era criança. O que a Igreja faria com ele se descobrisse o envolvimento dos dois? E o que é pior, o que faria com ela, que além de tudo era uma bruxa? Sentiu um medo crescente dentro de si e rezou. Fechou os olhos e uniu as mãos. Enquanto rezava, as lágrimas corriam impiedosas e desesperadas por sua face jovial. RICHARD (IMPLORANDO): Me perdoe, Senhor! É mais forte do que eu! Por favor, me perdoe! Richard caiu na cama. As lágrimas molhando os lençóis da cama. Será que o amor é isso? Consome cada pedacinho do ser humano, levando-o ao desespero? Seja como for, Richard estava amando. E sabia que era amado, também. Sorriu entre lágrimas e decidiu que iria fazer exatamente o que havia dito à Lilith algumas horas atrás: não lutar contra o que estava sentindo. Flashs do beijo trocado com ela veio-lhe a mente. Fechou os olhos e sorriu. Ainda sentia o gosto de sua boca. Os lábios rubros tocando os seus. Que sensação maravilhosa! Pediu perdão mais uma vez a Deus, só que desta vez em pensamento. Fechou os olhos e se entregou ao sono. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Richard esperava impaciente por Lilith. Havia chegado à alguns minutos e parecia que fazia uma eternidade. Avistou Lilith chegando calmamente, com os cabelos voando ao leve toque da brisa fria daquela tarde. Foi se aproximando dele e seus lábios esboçaram um leve sorriso. Richard aproximou seu corpo do dela e a abraçou carinhosamente. Lilith deitou sua cabeça no peito dele e fechou os olhos, sorrindo. Ficaram ali algum tempo, um sentindo o outro. Richard sentia o perfume dos cabelos dela invadir-lhe as narinas docemente. Afastaram seus corpos e se olharam nos olhos, sérios. Sentiam um desejo enorme brotar-lhes dentro do peito e aproximaram seus lábios num beijo doce. Os corpos ainda colados. Novamente a sensação de leveza. Não pensaram em nada, apenas deixaram que o beijo acontecesse, calmo e delicado, como uma flor. Afastaram os lábios calmamente, buscando fôlego. Richard colocou ambas as mãos no rosto de Lilith e esta sorriu. RICHARD (SÉRIO): Eu amo você, Lilith. Aconteceu tudo muito rápido. Você não entrou somente na Igreja aquele dia. Você entrou na minha vida! E eu não quero deixar que você saia. Nunca! LILITH (ENTRE LÁGRIMAS): Eu não vou sair. Custe o preço que custar. Eu não vou sair de sua vida e não vou permitir que você saia da minha. Trocaram outro beijo apaixonado. LILITH: Posso te pedir um favor? RICHARD (ACARICIANDO O ROSTO DELA): Claro! O que é? LILITH: Me abençoe?.... Por favor, Richard! Eu preciso disso! Richard olhou nos olhos dela. Sabia o que ela estava sentindo e era exatamente o que ele sentiu ontem, quando pediu perdão à Deus. RICHARD (AFASTANDO SEU CORPO DO DELA): Ajoelhe-se! Lilith ajoelhou-se na frente dele e fechou os olhos. Richard colocou as mãos na cabeça dela, fechou os olhos e rezou. Lilith sentia algumas lágrimas rolarem por sua face. Sabia que ele também chorava. Sabia que ele também sofria. Mas a verdade é que não estavam dispostos a abrir mão do que sentiam. Nunca! Richard pegou nas mãos dela e Lilith abriu os olhos molhados e o fitou. Richard fez com que ela se levantasse, sempre olhando no fundo dos olhos dela. LILITH (SORRINDO ENTRE LÁGRIMAS): Demorei tanto tempo prá me apaixonar e tinha que ser justamente por um padre! RICHARD: Nós não mandamos no coração, Lilith. Eu sou um ser humano como qualquer outro, estou arriscado a me apaixonar. E fico feliz que tenha acontecido justamente com você. Uma pessoa maravilhosa que me fez enxergar outra realidade. Que me fez entender o verdadeiro significado da vida. Lilith aproximou-se dele. Acariciou seu rosto com a ponta dos dedos, passando por seus lábios e o beijou. Richard enlaçou-lhe a cintura e retribuiu o beijo com paixão. Uma paixão verdadeira. Um fogo que ardia por dentro e que deixou marcado no coração de ambos o verdadeiro amor. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Lilith chegou em casa se sentindo renovada. Não sentia mais aquele desespero por dentro a queimar-lhe a alma. Sentia uma sensação gostosa de felicidade e paz. Sentou-se na cama sorrindo e fechou os olhos. Pensou em Richard. Naqueles belos olhos verdes que lhe transmitiam uma tranquilidade indiscritível. Sorriu um pouco mais. Como era bom amar e sentir-se amada. Do lado de fora da casa dela, um batalhão de pessoas com tochas de fogo na mão, que luziam a luz da lua, aproximavam-se. MULTIDÃO (GRITANDO): Morra bruxa! Morra bruxa! Morra bruxa! Morra bruxa! Lilith assustou-se. O sorriso que antes brilhava em seu rosto, deu lugar ao desespero. Levantou-se depressa da cama e aproximou-se da janela. As pessoas gritavam e empunhavam as tochas de fogo, como loucas. Lilith afastou-se da janela, levou as mãos a cabeça e chorou. Mais uma vez. Logo agora que ela estava tão feliz. Logo agora que havia descoberto o verdadeiro significado da vida, ao lado do homem que amava. Não! Isso não poderia estar acontecendo! Não podia ser verdade! Lilith ajoelhou-se no chão, ainda com as mãos na cabeça, e soluçou. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Richard acordou de um sobressalto, suado e assustado. Sentou- se na cama e olhou para os lados. Não sabia ao certo o que estava sentindo. Um medo invadiu-lhe a alma, de repente. RICHARD (MURMURANDO, ASSUSTADO): Lilith! Levantou-se correndo da cama, vestiu a batina e saiu correndo da Igreja, feito louco. Tinha certeza, ela corria perigo! Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Richard chegou em frente a casa de Lilith. Empurrava as pessoas que gritavam sem parar, abrindo espaço prá sua passagem. Quando conseguiu avistar a casa dela, viu que algumas pessoas à seguravam pelos braços e ela tentava com todas as suas forças se soltar. Aproximou-se. RICHARD (GRITANDO): O que está acontecendo aqui? UM DOS HOMENS QUE À SEGURAVAM (GRITANDO): Ela é uma bruxa! E o senhor é um profano! MULTIDÃO (EM CORO): É! UMA MULHER (GRITANDO): Que morram os dois! MULTIDÃO: Morte aos dois! Morte aos dois! Richard e Lilith assistiam a tudo aquilo assustados. E agora como seria? Será que Lilith morreria, assim como sua mãe? Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Richard estava amarrado com as mãos prá trás. A corda que amarrava suas mãos estava atada à uma roldana e ele tinha alguns arranhões pelo corpo. O Arcebispo (CANCEROSO) aproximou-se dele, com uma cruz nas mãos. Parou em sua frente e olhou em seus olhos. ARCEBISPO: Como pôde? Como pôde trair seu Senhor da forma mais baixa possível? Andar às escondidas com uma bruxa! Uma mulher que não nega o sangue da mãe! E como ela, vai definhar na fogueira! RICHARD (GRITANDO): Ela não é má! Ela cura as pessoas, ela faz o bem! ARCEBISPO (COLOCANDO A CRUZ NA FRENTE DO ROSTO DE RICHARD): Negue sua profanação diante da cruz! Negue! Richard virou seu rosto e fechou seus olhos. O Arcebispo fez sinal com a cabeça e os carrascos começaram a guindar Richard até o teto. Richard não emitia som algum. Preferia a morte, a ter que viver longe da mulher que amava. Quando ele chegou bem lá no alto, os carrascos soltaram a roldana e Richard caiu bruscamente, ficando à apenas algumas polegadas do chão. Ele continuava quieto e foi repetido a mesma tortura várias vezes. Seu corpo já mostrava vários hematomas e Richard se sentia cansado. Tombou o corpo prá frente, os braços caídos ao longo do corpo. O lindo rosto, mostrava sinais de sofrimento. Fechou os olhos vencido. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx As mesmas torturas aplicadas em Richard, foram aplicadas em Lilith. Seu corpo também doía e tinha hematomas profundos. Richard ficava se perguntando como aquele corpo tão pequeno e tão frágil, havia suportado tamanha tortura. Ele mesmo estava quase desabando no chão, suas pernas já não comandavam mais seus movimentos. Ele suportou por ela. Pelo amor que sentiam e jurou prá si mesmo que não desistiria. Que não se entregaria. Iria achar um meio de tirá-la dali, nem que tivesse que dar sua própria vida. Foram julgados e condenados a morrer na fogueira. Lilith nem ao menos chorava. Tinha o olhar perdido. O rosto cansado. Corpo doendo. Mas resistiu bravamente as torturas. Por Richard. Somente por ele, seu grande amor. O homem que lhe ensinou que a vida é um aprendizado constante e é prá ser vivida intensamente. Caminhavam lado a lado. Atrás deles, os condenados a penas leves, caminhavam com uma vela nas mãos. A noite estava quente e as estrelas brilhavam no céu. Lilith e Richard caminhavam na frente do cortejo com as mãos amarradas. Cabeças erguidas, olhares perdidos. Nem ao menos se olhavam. Foram amarrados, um de costas pro outro, em um tronco grande e forte. Lenhas estavam amontoadas no chão, ao redor deles. Richard tocou as mãos de Lilith, que estavam amarradas as suas. Apertou fortemente, oferecendo-lhe proteção. Multidões de pessoas se amontoavam uma em cima das outras, prá poder ver a execução. Quando os carrascos iam atear fogo nas lenhas, houve um tumulto no meio das pessoas. Gritaria prá todos os lados. Pessoas correndo, outras se espancando. A confusão era geral. Richard e Lilith arregalaram os olhos. Os carrascos corriam para apartar a briga, mas acabaram participando dela. As pessoas se espancavam e gritavam como loucos. Richard viu ali um meio de escapar e tirar Lilith dali. Forçou os pulsos tentando desatar a corda, muito bem atada. Forçou mais um pouco e conseguiu afrouxar o nó. Soltou Lilith, tomou sua mão entre as sua e saiu correndo com ela dali. Ninguém percebeu. No alto de uma montanha, a mãe de Lilith (MARGARETH) olhava satisfeita a confusão. Com um sorriso no rosto, sumiu misteriosamente. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Eles ainda corriam. Richard segurava firme as mãos de Lilith. Adentraram uma floresta bem distante da cidade. LILITH (CANSADA, PARANDO DE CORRER): Richard, eu não agüento mais! Por favor! RICHARD (ABRAÇANDO O CORPO FRÁGIL DELA): Nós conseguimos! Escapamos! (TOMADO O ROSTO DELA ENTRE AS MÃOS) Eu amo você, Lilith. E o tempo todo só pensei em você. Foi seu amor que me deu forças prá agüentar. Ambos derrubavam lágrimas. Richard encostou seus lábios molhados nos lábios de Lilith e eles se beijaram. Um beijo urgente, apaixonado. Cheio de amor. Richard olhou Lilith nos olhos e sorriu. Ela retribuiu o sorriso e os dois foram procurar um lugar prá ficar. Encontraram uma cabana no meio da floresta e ali permaneceram. Richard cuidou dos ferimentos de Lilith e ela finalmente adormeceu. Ele ficou velando o sono dela como se ela fosse uma deusa. Passeava com as mãos nos cabelos vermelhos dela e sorria. Não demorou muito, adormeceu também. MÃE DE LILITH (ENTRE AS NUVENS): Seja feliz, minha filha! Eu salvei vocês com um feitiço e eles não vão mais incomodá-los. Nunca mais! Lilith acordou sobressaltada e sentou-se na cama. Richard acordou também com os movimentos dela. RICHARD (PREOCUPADO): O que foi, meu amor? LILITH (CHORANDO): Minha mãe. Ela apareceu prá mim, num sonho. Lilith deixou-se ser abraçada por Richard e chorou. Richard fechou os olhos, compadecido. Embalava o corpo dela como se ela fosse uma criança frágil, precisando de carinho. Beijou-lhe os cabelos. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Richard e Lilith viveram felizes ali mesmo naquela cabana. Tiveram seus filhos, um menino e uma menina. Já estavam velhos, mas o amor que existia entre eles, jamais acabaria. Continuaria presente, por todos os dias de suas vidas. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx SCULLY (CUTUCANDO MULDER): Mulder?! (CUTUCA DE NOVO): Mulder?! Mulder acorda assustado. Olha prá ela. Havia dormido no escritório e tinha tido um sonho estranho. Muito estranho! Tinha sonhado que era um padre e Scully era uma bruxa! SCULLY: Não vai prá casa, Mulder? MULDER (SONOLENTO): Vou! .... Scully, você conhece a história da bruxa Lilith? SCULLY (CONFUSA): Quem, Mulder? MULDER: Nada não, Scully. Vamos prá casa! Mulder levanta-se e apanha o paletó da cadeira. Pára na porta e dá passagem para Scully, colocando a mão em suas costas, como ele sempre faz. Sai do escritório e fecha a porta. Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx Do lado de dentro da sala, uma mulher de cabelos cor de fogo, sorri, abraçada a um homem alto de olhos verdes. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxx "Amar é sorrir por nada; é ficar triste sem motivo; é andar com a cabeça baixa, nas nuvens, murmurando, palavras sem sentido. É a ternura imensa, Pelas flores, pelos pássaros; É sentir-se só no meio da multidão; E se a pessoa amada não estiver presente: É a vontade de chorar sem motivos É o privilégio de sentir-se dona de um tesouro.... VOCÊ!"