FAN FICTION AUTORA : Sky E-MAIL : selmasky@ig.com.br DISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo. CLASSIFICAÇÃO : Shipper SINOPSE : Os sentimentos de Scully após o episódio William. CONTËM SPOILERS OBSERVAÇÕES : Aguardo um feedback, por favor digam o que acharam. LAÇOS DE FAMÍLIA Nenhuma luz... As sombras projetavam-se nas paredes como chacais em busca da presa... Escuridão... Sua vida havia se enchido dela, desde o momento em que procurara a verdade. Tateara no escuro por longos nove anos e nos poucos momentos em que a luz acendeu-se para ela fora para mostrar uma verdade que deveria permanecer eternamente escondida. Chovia lá fora e sua alma sangrava dentro do peito Vazio... Solidão e medo haviam sido suas parceiras Elas haviam rondado cada um de seus passos e antecipado qualquer de suas ações Haviam enterrado suas convicções em terras tão profundas que ela sucumbira a elas Dor... Todas elas se acumulavam em sua porta, batiam vorazes para pleitear o único alento que lhe restara Ela o havia sequestrado...seu único consolo...seu sonho...sua vida... Os cabelos espalhavam-se em completo desalinho, vestindo de cobre os travesseiros amarrotados e úmidos. Ela não tinha o benefício do sono, quando seu coração poderia ser roubado do desespero e entregue às malhas da inconsciência. Seu corpo se encolhia no leito e seu desespero não conhecia limites. Perdera tudo... Sua carreira, o parceiro constante, o homem amado, o filho nascido da perseverança. Não havia família, trabalho, ideal... nem sua fé sobrevivera... não havia amigos... O estalar da porta rompeu o silêncio e seus pensamentos. Por um instante, imaginou que tudo não passara de um longo pesadelo e que seu pai entraria em seu quarto para abraçá-la ao retornar de uma longa viagem. _ Dana ? _ a voz chamou cuidadosa Não era seu pai, tampouco havia sido um pesadelo. A realidade mostrava-se muito mais dolorosa. _ Dana, você precisa descansar...sei que é muito difícil, mas você precisa descansar ou não vai suportar. O soluço abafado no travesseiro foi a única resposta que ela poderia dar e, naquele momento, sentindo os braços ternos a envolverem, ela percebeu que ainda havia amigos. Mesmo que alguns tivessem sido sequestrados pela estupidez, mortos como em um script de mau gosto idealizado por algum roteirista entediado, ainda que outros tivessem sido levados pela busca que eles abraçaram, ainda havia aqueles que, embora chegando na conclusão de sua jornada, a amparavam com o carinho desvelado de seus corações generosos. _ Chore, minha amiga...Deixe que sua alma se liberte de tanta dor _ Mônica dizia com os olhos também marejados de pranto _ Mas, acima de tudo, acredite que esta foi a melhor maneira de protegê-lo. De abençoá-lo com a ignorância de tanta miséria. Scully respirou profundamente. Seus dedos correram pelo rosto na tentativa inútil de impedir que as lágrimas corressem. _ Há nove anos_ ela começou_ Entrei no porão do FBI armada de fé e vontade. Acreditei que faria diferença naquele lugar e meu consolo é saber que cumpri minha missão. Nada permaneceu o mesmo desde que eu e Mulder começamos esta jornada. Nossa vida mudou...muitas vidas mudaram. _ Dana, vocês fizeram um grande trabalho...Salvaram muitas vidas... _ Hoje _ ela continuou_ Depositei meu último tributo no altar do dever, mas não acredito que vá conseguir seguir adiante. Durante todo esse tempo, prometi proteger as pessoas e, no entanto, só consegui com que escapassem por entre meus dedos. Minha irmã se foi...minha filha...vários agentes...contatos...talvez tenha perdido Mulder...tudo porque acreditei poder protegê-los. _ Dana _ Mônica interrompeu _ Não faça isso com você. Não fosse por sua causa, muito mais pessoas teriam perdido a vida. Ela pareceu não ouvir e continuou com os olhos fixos no teto. _ Mas não meu filho...minha arrogância não irá perdê-lo...Eu lhe dei a vida uma vez...agora o farei novamente...uma vida que ele jamais poderia ter ao meu lado..._ ela soluçou _Mas dói tanto...Entreguei meu filho e a confiança de Mulder ao desconhecido...Ele jamais me perdoará... _ Dana, não fale assim. Você fez o mesmo que ele. Ambos estão tentando proteger William... _ Não, ele não irá aceitar. .. _ Você não sabe, Dana... Scully sorriu com tristeza e suspirou, voltando-se para encarar a mulher ao seu lado. _ Você sabe quem é o pai do meu filho, não é ? _ ela perguntou subitamente Mônica não respondeu de imediato, encarou-a nos olhos e balançou a cabeça confirmando. Aquela mulher não falava sobre si mesma, não dava espaço para confidências, após tantos e tão dolorosos sofrimentos ela permanecera inalterável em sua reserva. Era nítido o sentimento que ela nutria pelo parceiro e que era ardentemente correspondido, mas eles jamais falavam sobre isso, não admitiriam que ninguém se envolvesse no mundo que eles haviam criado para manter a salvo a única coisa que não se quebrara ao longo do tempo, aliás, a única coisa que os mantinha firmes na caminhada. Mas ainda que aprisionado pela discrição, o sentimento brotava deles, espelhava-se em suas mínimas atitudes, declarava-se no trato diferenciado que mantinham, no iluminar de seus semblantes quando apenas se olhavam, no reconhecimento mútuo ainda que não houvesse uma única palavra. O sentimento extravasava deles como a luz não se deixa reter pelo vidro da lâmpada. _ Impossível não amar Mulder _ Scully continuou sob o olhar atento da outra agente _ Aliás _ ela sorriu novamente _ Impossível se manter indiferente a ele. Você pode odiá-lo, temê-lo, admira-lo, mas jamais ficar indiferente... _ E você avançou um passo... _ Sim...e isso compensa tudo pelo qual passei até hoje. Ele me olha e minhas certezas se fortalecem...Quando vi aquele homem...eu sei que sou uma cientista...sou treinada para acreditar em dados, para validá-los...mas minhas convicções científicas não se aplicam a Mulder. Eu o reconheceria habitando qualquer outro corpo, ainda que estivesse disperso no universo...eu o reconheceria no brilho de uma estrela...ainda que não esteja ao meu lado, eu posso senti-lo e nem mesmo quero encontrar alguma explicação lógica para isso_ ela respirou fundo antes de continuar_ Eu sabia que aquele não era o homem que eu amo, mesmo que todos os exames do mundo dissessem o contrário. Mônica sorriu. _ Algumas coisas estão além de nossas explicações, nem por isso são menos verdadeiras. Scully abarcou o quarto com o olhar e a dor recrudesceu quando parou sobre o berço agora vazio. As lágrimas voltaram céleres e ela encerrou a conversa com voz trêmula. _ Eu precisava protegê-lo..._ e as palavras se atropelaram em seus lábios _ Protegê-lo de nós... Mônica chorou com ela. Caminhando a passos incertos até a porta, ela rezava para que a dor não conseguisse roubar a razão da mulher ruiva, tão rudemente testada. O corpo humano assegura à criatura, mecanismos de defesa contra todos os males que possam atingi-lo. Ainda que nada possa fazer para evitar o sofrimento, ele reage aos assaltos do desespero imobilizando a mente na inconsciência por algum tempo ou definitivamente. Scully entregou-se aos braços do alheamento e, após remexer-se por horas no leito, adormeceu em meio às lágrimas. A casa mergulhara no silêncio. Mônica recolhera-se ao sofá e a exaustão tomou conta dela, que se entregou ao sono de bom grado. Quando amanhecesse, talvez as perspectivas não parecessem tão assustadoras. O vento agitava a cortina serenamente. O estalido na porta fora quase imperceptível e o ruído dos passos foi abafado pelo caminhar cuidadoso e o solado de borracha. Um olhar saudoso tomou conta do semblante cansado do homem. Atravessando o corredor, parando apenas para fitar a mulher estendida no sofá, ele tocou a maçaneta da porta com cuidado. O corpo pequeno estava encolhido na cama completamente vestido. Ele aproximou- se devagar, guardando na memória cada detalhe do quarto de decoração infantil. Fitando o berço, seus olhos se tornaram brilhantes enquanto a mão deslizava pelo lençol manchado de sangue. Um suspiro inaudível escapou de seus lábios. Retrocedendo, ele acercou-se da cama e após alguma relutância, sentou-se sobre o colchão, fazendo com que o corpo da mulher deslizasse e viesse juntar-se mais ao dele. Debruçando-se sobre ela, seus olhos adquiriram brilho intenso, ganhando luz e calor. Os dedos tocaram o cabelo vermelho, afastando dos olhos a mecha que insistia em cobrir-lhe o perfil amado. Ao sentir o toque, Scully abriu os olhos ainda atordoada e suas pupilas se dilataram ao reconhecer o rosto tão próximo ao dela. Mas as palavras não puderam ser ditas, já que seus lábios foram tomados pelo toque apaixonado dos dele. Embora soubesse que tudo não passava de mais um sonho do seu espírito combalido, ela entregou-se à cálida sensação de aconchego e proteção que aqueles braços sempre lhe proporcionaram e parecia correto confidenciar-lhe suas dores, embora soubesse que o simples fato de senti-lo ali já significava que ele tinha conhecimento dos fatos. _ Não pude retê-lo, Mulder...Não parecia justo transformar a vida dele no mesmo inferno em que nós nos perdemos....Sei que você irá me odiar, mas... _ Jamais odiaria você, Scully..._ ele interrompeu, tocando os lábios dela_ Sei exatamente o quanto seu gesto está doendo porque o sinto da mesma maneira. Mas ele merece a oportunidade que não tivemos _ ele continuou, beijando a face molhada da mulher, fechando os olhos para sentir os dedos dela correrem por seu rosto, afugentando as lágrimas que teimavam em aflorar. _ Até quando, Mulder ? Até onde conseguiremos levar isso ? _ Até termos certeza de que nada irá machucá-lo, parceira. _ E como teremos certeza disso ? Mulder cerrou os olhos e as imagens descortinaram-se em sua frente. O quarto era bem decorado, provinciano na opinião dele e a voz da mulher acompanhando a música religiosa fez seu corpo estremecer. Mas o cuidado dela com o bebê, seu sorriso sereno e feliz ao qual se juntou o do homem que entrava no quarto com o móbile nas mãos, tranqüilizou sua alma. William foi levado ao berço e seu semblante tranqüilo trouxe paz ao belo homem de olhos verdes, que sorriu abraçando a mulher em seus braços com mais intensidade. _ Nós sempre saberemos, Dana _ ele falou, tocando de leve os lábios dela e voltando-se para fitar o móbile de estrelas que girava lentamente sobre o berço vazio, enquanto o bebê, a quilômetros de distância, focalizava o brinquedo sobre sua cabeça, movimentando-o na mesma rotação_ Não caminhamos em vão até aqui. Se desistirmos agora, eles vencem. Temos um motivo a mais para continuar nossa busca. Essa é a nossa vida, nossa fé. Tentei de todas as maneiras mantê-la longe disso... _ Quando você vai entender que eu não quero estar longe, Mulder ? _ ela interrompeu _ Eu nunca quis e me afastar de você e, agora do nosso filho, foi a única maneira que encontrei de mantê-los comigo, ainda que não ao meu alcance. Nós temos um compromisso, selamos este acordo quando você tocou minha mão pela primeira vez. Eu te disse que estava ali para resolvermos juntos qualquer situação. Eu te disse que encontraríamos a verdade. Estamos nisso juntos. Ele a apertou junto ao peito. _ Então, agora procure descansar e acredite em mim. A separação é apenas momentânea. Quando for a hora, voltaremos a nos reunir... _ Eu quero acreditar _ ela respondeu mais calma. Um sorriso esboçou-se em seus rostos e ela se entregou aos braços dele e ao beneficio do sono. Na manhã seguinte, ao abrir os olhos, ainda sentiu o calor e o perfume do corpo dele ao seu lado, mas estava sozinha. Sentou-se e a primeira imagem que ganhou foco foi o berço do filho, e, no alto dele, o móbile que, agora, estava despojado de uma estrela. _ Dana ? _ a voz de Mônica interrompeu sua contemplação _ Como você está ? Scully conseguiu sorrir, seu semblante denotando uma serenidade que parecia ter sido roubada definitivamente na noite anterior. _ Tudo ficará bem _ ela murmurou _ Agora eu acredito. FIM.