FAN FICTION AUTORA : Sky E-MAIL : selmasky@ig.com.br DISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo. CLASSIFICAÇÃO : Shipper SPOILER : Nenhum, apenas algumas referências a episódios antigos SINOPSE : Scully e Mulder são designados para investigar alguns assassinatos que irão mexer com os seus sentimentos, crenças e antigas recordações. AGRADECIMENTOS : Bom, nessa fic eu acabei de descobrir que sou uma péssima beta leitora. Depois da ajuda de duas das minhas autoras preferidas, Késsia Nina e Alexandra Morgilli, me senti incapacitada para tal função. Ainda não tenho certeza se o prazer maior foi o de escrever o texto ou receber as páginas revisadas com comentários fantásticos. Obrigada meninas. DEDICATÓRIA : Não sou muito chegada a dedicatórias porque sempre me parece que estou sendo injusta com alguém que dispôs de seu tempo e paciência para me ajudar a escrever. Mas, nesse caso, não posso evitar. Essa estória só foi possível graças aos minutos impagáveis de longos bate-papos, por e-mail ou telefone, com a Alexandra Morgilli, discutindo pontos essenciais da personalidade da Scully e foi um imenso prazer poder entender a personagem através de uma mente tão similar à dela. Apesar do ceticismo, os melhores diálogos sobre as crenças de Scully tem o toque pessoal dessa nossa amiga que perdeu algumas horas de bom estudo pra me ajudar a compreender a mente fantástica dessa incrível cientista católica. Ale, você foi incrível e essa estória é pra você, amiga. OBSERVAÇÕES : Espero que gostem e aguardo um feedback com seus comentários e sugestões. A música mencionada é You Needed Me e quem canta é o Boyzone. INTOLERÂNCIA "O que o Senhor exige de ti, exceto que ajas com justiça, ames com misericórdia e caminhes humildemente com teu Deus ? " Profeta Miquéias – extraído do livro "O Caminho para a Bitínia"de Frank Slaughter O dia estava chegando ao fim. Mais alguns minutos e o sol mergulharia definitivamente no horizonte, levando com a ele a segurança que seus raios quentes e luminosos traziam a todas as criaturas, dando-lhes calor e esperança. Após sua partida, tudo se tornaria frio e melancólico e, para aqueles cuja vida resumia-se ao passar das horas, tudo ficaria silencioso enquanto a solidão começaria a espreitar na porta de entrada, esperando a chegada daqueles que se enterrariam em seus lares tristes para esperar que o sol viesse resgatá-los de suas próprias aflições. Para uma pessoa em particular, a noite era sinônimo de angústia ainda maior. Estivera sozinho durante toda a sua vida e a solidão já era mais uma companheira do que uma adversária, aprendera a conviver com ela. Mas, na situação em que se encontrava, não sabia se temia mais estar ali, sem ninguém por perto ou se sentir a presença de alguém que ele não podia identificar, sequer podia ver. O som de passos deixou-o alarmado. Era um caminhar apressado que se esforçava para manter-se no anonimato, mas ele o reconheceria em qualquer lugar do mundo e reconhecê-lo trouxe-lhe mais medo do que alegria. A porta rangeu de leve e uma figura pequena, oculta pelas sombras, avançou relutante até ele. Aproximou-se e com muito custo conseguiu suster o grito de apreensão que aflorou em seus lábios. Seus olhos imediatamente ficaram rasos do pranto que ela controlava para não desabar. Chegou mais perto e procurou escutar-lhe a respiração. A imobilidade a qual ele se entregava dava-lhe a fria e angustiante sensação de que já era tarde demais. Mas o estremecimento que sua mão sentiu ao tocar naquele rosto vincado pelo sofrimento deu-lhe a esperança e energia necessárias para agir. Retrocedeu alguns passos e analisou o ambiente. Era uma sala pequena e escura. A única luz vinha das velas sobre um altar, coberto de símbolos e adereços que deveriam ter algum significado para alguém. Não havia janela e o pouco ar que entrava ali vinha do vão da porta e era pesado, úmido e sufocante. Nas paredes, haviam pregos onde se amontoavam instrumentos estranhos e exóticos, mas que certamente serviam apenas como forma de torturar alguém que, inadvertidamente, provocasse a cólera daquele que habitava ali. No meio do cômodo, suspenso pela corrente presa ao gancho do teto, estava o corpo exânime do seu parceiro. Ele não alcançava o chão, que estava a alguns pouquíssimos centímetros dos seus pés. Apenas mais uns dois elos na corrente seriam o bastante para que ele tocasse o solo e pudesse descarregar um pouco do peso do próprio corpo, aliviando os braços que, suspensos sobre sua cabeça sustentavam-no completamente. Para a mente insana de quem havia escolhido aquele método de tortura deveria ser um prazer inigualável ver os músculos tensos, as mãos brancas devido à falta de circulação do sangue, os pulsos sangrando graças às algemas que os envolviam e pensar que uns míseros centímetros poderiam acabar com tamanho suplício. Ela ficou cega de ódio. Iria encontrar o responsável e puní- lo de uma maneira que ele jamais esqueceria. Contemplar aquele quadro causava-lhe estremecimentos e, embora sua análise tivesse demorado apenas alguns segundos, ela já se sentia culpada por se perder em conjecturas enquanto seu único amigo jazia inerte naquele covil. Procurou pelas paredes, algo que a ajudasse a soltar os pulsos de Mulder. Encontrou uma espécie de alicate e voltou para junto dele. Mulder usou suas últimas energias para levantar o rosto e fitar a parceira. Já não tinha certeza se queria continuar vivendo. Os momentos de angústia que o levaram até ali, aliados às dores atrozes que consumiam todo o seu corpo, faziam-no desejar o descanso, o esquecimento, mesmo que para isso fosse obrigado a desistir da luta. Mas, fitar o semblante de Scully sempre lhe dava alento bastante para tentar seguir em frente. Sobretudo quando notava-lhe o desespero estampado nas faces por não conseguir aliviar-lhe a dor, como se ela acreditasse que estava somente em suas mãos livrá-lo e protegê-lo de qualquer sofrimento. No entanto, cabia a ele protegê-la. Ela precisava ir embora. Precisava tirá-la dali o quanto antes. _ Saia daqui, Scully _ ele murmurou num fio de voz _ Antes que seja tarde. Scully o fitou sem conseguir conter as lágrimas. _ Não vou deixá-lo aqui, Mulder. Não me peça isso. _ Ele está vindo, Scully... _ Como sabe ? Quem é ele Mulder ? De repente o corpo dele pareceu contrair-se e ele apertou o maxilar com força, enquanto seu corpo era sacudido por um espasmo. Scully foi jogada a alguns metros, sua arma caindo próxima à porta. E seus olhos não acreditavam no que viam, muito menos seus ouvidos estavam preparados para o barulho que encheu o ar. Mulder mal tinha forças pra gritar. Não havia ninguém mais na sala, mas ela distinguia nitidamente o som de um açoite cortando o ar e, pela expressão dolorosa do parceiro, ela tinha certeza de que era sobre seu dorso que ele corria, lambendo- lhe a pele e cravando-se cruelmente sobre a carne, abrindo sulcos intermináveis sobre o corpo convulsionado, até estalar no chão, enquanto o parceiro tentava recuperar um pouco do ar perdido na tentativa inútil de gritar, mas a agonia estava apenas por começar e Scully percebeu o que viria a seguir. Ela pôs-se de pé como um raio e instintivamente o abraçou, tentando impedir que a tortura continuasse. Não questionava o que estava acontecendo, sentia-o apenas e, embora toda a sua racionalidade dissesse que era impossível , ela só tinha algo em mente : aliviar a dor do parceiro. Estranhamente, seu gesto pareceu surtir efeito. Os sons extinguiram-se, tudo foi novamente envolvido em silêncio. Após alguns instantes, um único barulho podia ser ouvido. Os soluços dela que cortavam o ar, enquanto, num esforço heróico, desprendia os braços dele das correntes, sentindo todo o peso do corpo inerte tombar sobre ela, derrubando-a no piso frio. Ela envolveu-o nos braços e deixou-se embalar pelas lágrimas. CONVENTO SAINT KATHERINE Julho de 1975 O claustro era pequeno e abafado. Padres não deveriam ter conforto, não poderiam conhecer os prazeres da vida. Isso os deixaria fracos e daí a cometer pecados ia pouca distância. O rigor ao qual ele deliberadamente se havia entregado não o incomodava. Era preciso haver regras, disciplina, respeito, obediência. Era o que esperavam dele: rigidez. E ele havia se tornado um homem rígido, forte, correto. Não havia, em seus traços, nada do garoto corado e alegre que corria pelos campos atrás dos filhotes da fazenda. Não havia nada do garoto temeroso, que chorava quando o trovão ribombava ou os raios cortavam o céu. Nunca mais fôra chamado ¨menininha¨ como quando corria para os braços amorosos da mãe em busca de amparo, do socorro para um ferimento ou das palavras judiciosas quando de algum aborrecimento. Aquele garoto fraco estava morto. Nunca mais haveria de chorar, lágrimas eram sinônimo desobediência aos desígnios de Deus. Ele não chorava, não se lamentava, apenas cumpria seu dever. Da criança sentimental restava apenas uma incômoda lembrança, repudiada pelos golpes certeiros do flagelo ao qual se auto-infringia. Agora só havia aquele servo fiel, homem austero, que enfrentaria qualquer desafio para redimir os espíritos indóceis que viviam sob sua proteção. E aquele era o momento de levar a termo o merecido castigo que seu insolente tutelado havia pedido. Nada de abrandamento, nem mesmo quando as impressionáveis irmãs imploravam-lhe compaixão. Não havia compaixão. Ela enfraquecia a alma e deixava o corpo à mercê do demônio. Era preciso cortar o mal pela raiz. E ele era o instrumento que Deus usava para trazer as ovelhas de volta ao rebanho, mesmo que fosse a golpes de açoite. Saiu de seu buraco escuro qual um anjo vingador. As vestes longas e negras davam-lhe um ar assustador, principalmente quando aliadas ao chicote que ele trazia firmemente preso entre os dedos. Sua expressão: uma máscara do frieza e fanatismo. Entrou pela nave da igreja a passos largos. Ao ouvir os soluços sufocados ele esboçou um gesto de contrariedade e uma ruga formou-se em sua face, dando-lhe um ar ainda mais sinistro. O menino chorava abraçado à irmã de caridade. Ao ver a figura do padre caminhando para ele, apertou os braços em torno da mulher que inutilmente tentava acalmar-lhe o espírito conturbado e amedrontado. _ Irmão.._ ela começou _ Por favor, poupe-o de tais castigos. Estive a falar com nosso pobre rebelde e ele prometeu-me ouví-lo doravante. Tenha piedade. Seu corpo já transformou-se em chaga viva. Por favor, peço-lhe a misericórdia com que o Pai sempre agraciou seus filhos. O homem arrancou o menino dos braços dela, indiferente aos seus apelos e obrigou-o a deitar-se de bruços sobre a laje fria entre os bancos, em frente ao altar. _ Cala-te ou serei obrigado a punir-te igualmente. Não vês que tenho a obrigação de formar o caráter desses meninos ? Tuas palavras denotam a tentação de Satanás. Mas eu hei de resistir às investidas do mal. Só a mim o Senhor nosso Deus confiaria a missão de livrar essas almas do pecado. O Sr. Collins aqui tem a fronte altiva, mas eu vou lhe dobrar o espírito, nem que para isso seja obrigado a partí-lo ao meio. Saia daqui ! _ Por favor, senhor _ o menino interrompeu com voz insegura _ Foi uma brincadeira. Eu já me arrependi e pedi perdão ao meu colega de quarto, não pretendia assustá-lo daquela forma. Tenha piedade _ ele implorou contrito. Mas o reverendo calou-o com o chicote sobre o rosto, o que abriu imediatamente um sulco na face delicada . E o homem não teve piedade. Castigou-o com violência e o menino travou os dentes. Nenhum gemido foi ouvido dos seus lábios, nenhuma lágrima correu pela face coberta de sangue. O chicote formava espirais no ar antes de estalar no dorso frágil do garoto. A irmã não suportou mais, correu até ele e cobriu-lhe o corpo ferido com o seu próprio e sentiu sua carne sendo dilacerada pelo golpe torturante. Talvez a ira do tirano tenha ultrapassado as fronteiras do absurdo. Talvez o espírito amoroso e dócil da freira não tivesse a verdadeira noção de sua atitude ou ainda, seu corpo delicado não fosse preparado para tamanha provação, mas o fato é que, na segunda vez em que o infame instrumento tocou sua pele, ela tombou de lado, soltando apenas um gemido doloroso e deixou a vida. Tudo cobriu-se de um silêncio tumular. O sacerdote deixou cair a arma e prostrou-se ao solo. O menino, quando tomou conhecimento do que havia ocorrido, levantou-se como um raio, amparando o corpo da pequena mulher que, sem medir esforços, havia lhe poupado maior suplício, entregando-se à morte no lugar dele. Então, ele começou a gritar, sua voz podia ser ouvida à distância. Em pouco tempo a capela forrava-se de gente com ar assustado e recriminador. O verdugo apenas mantinha os olhos fixos na imagem do Cristo sobre o altar, que parecia fixá-lo com um brilho indefinível nos olhos e se, para o menino, significava a condenação de sua crueldade, para o estranho espectro de ser humano simbolizava um sinal da aprovação divina pelos seus atos. O fato foi publicado em todos os jornais. Repórteres vinham de longe para retratar as atrocidades daquele homem. Apesar de todos os protestos e pedidos de pena de morte e prisão perpétua para tão abominável indivíduo, que usava as mais variadas formas de tortura para castigar os garotos colocados sob sua responsabilidade, vários atenuantes, assim como a alegação de insanidade temporária, fizeram com que sua pena fosse estipulada em cinqüenta anos, tendo ainda o benefício de sair em liberdade condicional após cumprir metade da pena, se demonstrasse bom comportamento. Collins, a penúltima vítima do sacerdote, assistiu ao enterro da sua defensora, entregue a um pranto convulsivo. Era um belo garoto de dez anos, órfão desde o nascimento e que vivia pulando de instituições de menores até ser levado aos cuidados daquele orfanato, onde todos os seus conhecimentos de vida miserável haviam sido subestimados ao chocar-se com a assustadora vida que conheceu ali. O reverendo lhes dava o sobrenome, mas nunca compreendeu o real sentido disso. Eram sua propriedade, a massa que ele queria moldar ao seu bel prazer. Os órfãos foram transferidos, cada um para uma instituição diferente, o que custou a Collins sua última surra naquele local. Todos os garotos se revoltaram ao saber que iriam para outros lugares, as amizades formadas ali, destruídas pelo incidente, e descontaram sua raiva sobre o pobre e infeliz garoto que, sem qualquer vínculo com o orfanato, sentia-se indiferente quanto ao seu destino. A única com quem ele havia se identificado, descia agora para o sombrio silêncio do túmulo e ele tinha apenas uma coisa em mente : vingar-se de todos os que o haviam machucado. Nunca mais haveria de chorar, jamais se dobraria ou lamentaria. Seria forte, rígido como o homem que havia ajudado a destruir o pouco de vida que conhecera. SEDE DO FBI Washington - DC Julho de 2000 Mulder virou-se para encarar a parceira assim que a viu entrando na sala. O sorriso e olhar que ela já conhecia estavam estampados em seu semblante. _ Deixe-me adivinhar _ ela começou antes que ele dissesse qualquer coisa_ Temos um novo caso. _ Elementar meu caro Watson _ ele sorriu _ Já estou tão manjado assim ? _ Você brilha quando pressente um bom enigma, Mulder. _ Pressinto ? _ ele franziu a testa _ Desde quando você passou a acreditar que eu pressinto alguma coisa ? _ Desde a primeira vez em que eu entrei aqui e senti um frio na barriga quando vi o projetor ligado e você ansioso. Ele meneou a cabeça e pediu que ela se aproximasse. _ Três mortes, Scully. Sem nenhuma causa externa aparente, mas..._ ele colocou o primeiro slide _ A autópsia do Sr. Richard Collins concluiu que seu corpo foi dilacerado por algum objeto cortante, talvez uma navalha, um chicote ou coisa parecida.... _ Mas deveria haver marcas na pele, Mulder ..._ ela interrompeu _ Mas não há. Ninguém conseguiu identificar o que realmente aconteceu com seu corpo. Aparentemente, a morte foi causada por esses cortes que provocaram uma hemorragia interna. _ Pode ter alguma causa orgânica, Mulder. Algum tipo de doença degenerativa...algo que destrua as células ...um tumor... _ Não para esses tipos de marcas, Scully. Os legistas não souberam explicar. A carne estava cortada, mas as feridas partiam de fora pra dentro, embora a pele esteja intacta. Segundo eles, não havia qualquer sinal de tumor, os outros órgãos estavam intactos, é como se tivesse sido surrado e depois coberto novamente com a própria pele... Ela nada disse, limitou-se a esperar que Mulder continuasse. _ O segundo caso é o do Sr. Edward Collins... _ Eram parentes ? _ ela interrompeu novamente _ Foi algum tipo de chacina ? _ Não _ ele a fitou com aquela expressão eufórica _ Ao que tudo indica, nunca se viram. Um era de Nova Iorque, o outro de Boston. Também não foram identificados traumas externos, mesma causa mortis. _ E o último ? _ Michael..._ ele a fitou irônico _ Acho que não preciso dizer o sobrenome, não é Scully ? Isso está ficando monótono. Foi encontrado em sua casa de praia, em L.A.. Nenhuma testemunha. Morte por hemorragia, como se houvesse sangrado por algum ferimento, mas que não está visível em parte alguma do seu corpo. _ Qual a sua teoria ? _ ela perguntou. _ Quer saber ? _ Mal posso esperar para ouví-la _ ela respondeu irônica. _ Não faço a menor idéia e..._ ele aproximou-se dela , colocou as mãos em torno de seu rosto e levou os polegares até os supercílios _ Nem adianta erguer essa sobrancelha...ainda não tenho nada, mas vou conseguir. Ela assustou-se com o gesto dele. Ficou sem jeito, mas ele pareceu não notar. Estava empolgado demais com o caso para reparar no efeito que o toque tão íntimo teve sobre ela e Scully agradeceu por isso e também por ele seguir na frente, enquanto ela recolocava sua pulsação no ritmo normal. _ Aonde estamos indo ? _ ela perguntou, postando-se ao lado dele. _ Ao necrotério _ ele sorriu _ Tem um corpo fresquinho lá esperando por suas mãos habilidosas _ concluiu com sarcasmo. _ Michael ? _ Sim, ele era de Washington. Apenas passava as férias em LA. RESIDÊNCIA DE RICHARD COLLINS Nova Iorque Richard chegou em casa angustiado. Não queria se sentir assim. Não queria se sentir culpado, mas não havia como evitar. Entrou na cozinha tirando a gravata e abriu a geladeira. Despejou uma boa quantidade de vinho num copo e foi para o quarto. Suas roupas foram sendo jogadas pelo caminho. _ Algo o incomoda, Richard ? Ele parou assustado no meio da escada. Não havia ninguém, mas ele tinha certeza de que haviam falado com ele. _ Quem está aí ? _ ele balbuciou trêmulo. Coragem nunca havia sido o seu forte. _ Quero ajudá-lo a livrar-se da dor. Da culpa por suas atitudes mesquinhas e indignas. _ Quem é você ? _ o pobre homem perguntou, correndo para o quarto e fechando a porta atrás de si. Uma cadeira foi posta imediatamente, para bloquear a entrada _ Vá embora _ ele gritou nervoso. Mas a porta se abriu, tranqüilamente, como se nada a impedisse e a cadeira arrastada até o meio do quarto. _ Sente-se, filho. Vamos conversar. Richard tremia e mal se sustinha sobre as pernas. Desabou sobre a cadeira mais por medo do que por obediência. _ Agora diga-me, o que o aflige ? _ Eu não fiz nada. Foi meu sócio, eu juro _ ele murmurava sem convicção _ Eu não queria fazer isso, mas ele disse que era a única saída. Os funcionários estão revoltados. Eu fugi, não podia ficar lá. _ Causou prejuízo àquela gente, não foi ? Sua ganância os deixou na miséria. Tem idéia de quantas pessoas você arrastou ao buraco ? _ Eu não tive culpa _ o homem chorava_ Me perdoe . _ Eu vou te redimir _ disse a voz soturnamente Então um outro som preencheu o ar ao redor. Algo que trouxe a Richard lembranças de sua infância. Ele nada falou, dobrou-se resignado sobre a cadeira e abraçou os joelhos. As lágrimas corriam abundantes, até que ele, exausto, não agüentou e se pôs a gritar, pedindo clemência para seu dorso dilacerado. _ Não há misericórdia Foi só o que ele pode ouvir antes de perder os sentidos. HOSPITAL MEMORIAL DE WASHINGTON Sala de autópsias. Scully tirou o lençol do corpo e o analisou de longe por alguns instantes. Não havia marcas aparentes. Nada que pudesse levar à conclusão de que ele houvesse sido espancado ou agredido de alguma forma. _ Por que não fizeram a autópsia ainda ? _ ela perguntou virando-se para a legista que acompanhava o caso. _ Porque seu parceiro disse que somente você poderia fazê-la _ ela respondeu contrariada _ Então, se me dão licença, vou fazer meu trabalho. A mulher passou por eles rapidamente e Scully balançou a cabeça fitando o parceiro. _ Por que não deixou que ela fizesse ? _ Porque ela poderia não reparar em detalhes imprescindíveis, Scully. Coisas que só você saberia identificar. Ela revirou os olhos. _ Se está pensando que eu vou abrir esse corpo e ficar procurando por sangue verde, acho melhor você mesmo fazer a autópsia _ ela respondeu estendendo o bisturi. Mulder aproximou-se. _ Não é isso, Scully. Você sabe o que procuramos. Eles iriam dizer simplesmente que foi morte por hemorragia causada por algum fator desconhecido e enterrar o caso. _ E por que não pode ser isso ? O que quer que eu descubra, Mulder ? _ Porque a carne está dilacerada se a pele não foi tocada, se há algum vestígio de tóxicos no corpo... _ Qualquer médico poderia ter feito isso. Era só você dizer o que queria... _ Mas eu só confio em você, Scully. Ela abaixou a cabeça, enquanto tirava o blazer, pegando o usual uniforme verde do hospital. Depois voltou a encará-lo com cinismo.. _ Às vezes acho que você sente prazer em me deixar na companhia de gente morta... _ Bom...pelo menos assim eu não corro risco de alguém ficar te assediando _ ele respondeu com ironia _ Tenho que ir _ concluiu rapidamente. _ Aonde vai ? _ Scully perguntou contrariada. _ Encontrar uma enfermeira interessante pra me fazer companhia enquanto você trabalha....brincadeira _ ele emendou rapidamente, ante o olhar que ela lhe dirigiu e foi saindo com um sorriso debochado nos lábios e as mãos para o alto. Ao chegar à porta, ele voltou-se para ela que continuava na mesma posição_ A propósito, Scully. Só te peço pra fazer isso porque você fica sexy nesse uniforme _ ele riu e piscou pra ela. Scully respirou fundo e sacudiu a cabeça. _ Saia daqui, Mulder _ respondeu simplesmente. _ Eu volto pra te buscar. Vou ver se consigo alguma coisa sobre as vítimas. Scully concordou e terminou de se preparar para a realização da autópsia. LOCAL DESCONHECIDO Um homem caminhava de um lado para o outro. Estava atarefado e compenetrado. Parecia preparar-se para um ritual. Vestia uma roupa longa e negra. Colocava algumas coisas, objetos estranhos sobre um altar que já acomodava uma fila interminável de velas brancas. Uma cruz pendia de cabeça para baixo sobre uma das paredes. Seus olhos estavam estranhamente fixos, como se estivesse em transe. Ele levantou-se. Colocou-se no centro do quarto e pegou um chicote. Respirou fundo várias vezes, enquanto seus lábios se moviam incessantes, mas nenhum som era ouvido. De repente, levantou o instrumento e começou a movimentá-lo, elevando-o no ar. Em seguida começou uma dança monótona com o chicote, como se estivesse aplicando um castigo em alguém. Enquanto repetia diversas vezes o mesmo movimento ritmado, não parava de repetir algo para si mesmo, até que o açoite pendeu de seu braço extenuado. Então ele se aproximou do altar e deitou-se de bruços em frente a ele, permanecendo assim até que as luzes das velas foram lentamente consumidas, deixando o ambiente mergulhado numa tenebrosa escuridão. ESCRITÓRIO DE EDWARD COLLINS Boston Edward não sabia como começar o assunto. Estava visivelmente nervoso. Há alguns meses vinha tentando ter essa conversa, mas sempre adiava, temendo a reação da esposa. Algumas vezes, chegava em casa resoluto. Tinha direito a ser feliz. Sua vida sempre fôra tão miserável. Por que não poderia sonhar com alguns bons momentos ? Não podia negar que Hannah tinha lhe ajudado de alguma forma. Dera-lhe filhos fortes e amorosos. Mas era tão deselegante e sem graça. Martha era linda. Nem sabia como ela havia se interessado por ele. Bom, tinha seus méritos. Trabalhara arduamente para chegar até ali. Seus esforços foram recompensados de alguma forma. Tinha uma situação estável e uma amante apaixonada. Por que não conseguia se sentir confortável? Martha exigia uma solução, mas ele não estava totalmente certo quanto a abandonar Hannah. Sentia-se um traidor, bom, na verdade, era o que ele era. Entrou no escritório e os olhos perscrutadores da assistente repousaram sobre ele. Um leve arquear de sobrancelha resumia a pergunta. Não, ainda não falara com ela, foi a resposta muda, feita com um declínio de cabeça. Ela desviou os olhos e exibiu um semblante de mágoa, virando-se para o computador a fim de ignorar a presença dele. Não havia ninguém no escritório além dos dois e Martha pegou sua bolsa e saiu pela mesma porta que ele entrara. Caminhando com raiva, Edward entrou em sua sala. A porta fechou- se atrás dele com estrondo, mas ele não se intimidou. _ Sua escolha já foi feita _ uma voz sussurrou-lhe ao ouvido. Edward virou-se , mas não havia ninguém. Saiu novamente do escritório e chamou pela mulher. Ninguém respondeu. Ele voltou e foi até o lavabo contíguo à sua sala. Jogou a água fria sobre o rosto e olhou- se no espelho. Assustou-se ao acreditar ver um vulto. Mas tudo estava quieto. _ Adúltero ! _ alguém gritou. Por um momento ele achou que Hannah tivesse descoberto tudo e vinha cobrar-lhe explicações. Mas não havia ninguém mais ali. _ Martha ? Hannah ? O que é isso ? Antes, porém que pudesse sair, algo envolveu-lhe a cintura e puxou-o para trás, fazendo-o cair sobre o piso frio do banheiro. _ Quem está aí ? _ ele gritou _ O que está acontecendo ? _ Ela foi sua companheira e você a traiu, homem sujo. Precisa se purificar. Eu vou redimí-lo. Edward apertou os olhos com força. _ Minha culpa _ murmurou _ Não há misericórdia _ ouviu em resposta, enquanto o açoite corria célere por seus membros. HOSPITAL MEMORIAL Washington-DC Mulder voltou no final da manhã. Havia conseguido mais detalhes sobre as vítimas e tinham informado mais um caso, agora em Washington. Queria levar Scully até a cena do crime. _ Já terminou ? _ ele perguntou entrando na sala e vendo-a colocar o blazer. _ Faltam apenas os resultados dos exames toxicológicos. Tem alguns detalhes estranhos e... _ Você me conta no caminho_ ele interrompeu _ Há mais uma vítima, David Collins e agora está aqui em Washington, quero dar uma olhada no local. Eles seguiram para o carro. _ O que descobriu ? _ ele perguntou assim que entraram. _ Realmente algumas partes do corpo, sobretudo as costas, parecem ter sofrido algum trauma interno, mas o estranho é que qualquer ataque desse tipo teria que passar invariavelmente pela pele. Mas acho que essas marcas não são as responsáveis pela morte dele... _ Como assim ? _ Quero fazer a autópsia nesse outro corpo, Mulder. Houve uma perda significativa de sangue, mas não condiz com um caso de hemorragia interna. Parece que houve uma causa externa . _ Ele foi encontrado em casa, não houve nenhuma informação de que houvesse sangue no local... _ Alguém pode tê-lo matado em outro local e depois o levado pra casa... _ Não...a namorada dele disse que ele a deixou em casa no começo da tarde e ela falou com ele no telefone residencial a noite. Não saiu depois disso. Pelo menos foi o que o caseiro contou. Ele entrou na casa depois de ouvir os gritos de Michael, mas já o encontrou morto. Ela suspirou. _ E você ? O que conseguiu ? _ Pedi aos escritórios em Boston e Nova Iorque que me mandassem os depoimentos sobre as vitimas de lá. Procurei na lista e há pelo menos 1600 pessoas com o sobrenome Collins. Acha que se colocássemos um anúncio no jornal _ ele soltou uma das mãos do volante e escreveu no ar _ "Se seu sobrenome é Collins, você está em apuros", acha que eles nos procurariam ? Ela deu um meio sorriso. _ Você consegue brincar com tudo, não é ? _ É uma forma de aliviar o stress _ ele respondeu dando de ombros _ Eu não posso levar minhas revistas pra qualquer lugar que eu for... Ao contrário do que ele imaginava, ela não riu. Fitou-o por um longo momento e seu semblante não demonstrava felicidade. _ Você deve se sentir muito sozinho, Mulder _ ela respondeu ao cabo de alguns minutos. Toda a ironia e sarcasmo dele desapareceram. Ele abaixou os olhos, virou o rosto e procurou algo fora do carro. Por sorte ou azar eles estavam chegando ao local do crime. Mulder desceu do carro sem dizer nada e ambos tentaram esquecer o assunto. Entraram na casa. As inevitáveis fitas amarelas isolavam a área. Tudo estava aparentemente em ordem, não havia vestígios de luta. A vítima estava deitada de bruços sobre a cama, as pernas unidas e os braços abertos. Sem marcas de sangue. RODOVIA WEST MARU Los Angeles - Califórnia Um carro seguia rapidamente pela estrada ¨Eu o matei¨, pensava um homem alto, de aproximadamente trinta anos. ¨Meu filho e eu o matei¨. Batendo a mão sobre o volante, ele recitava a mesma frase incansavelmente. Esboçou um cumprimento para o caseiro e entrou na garagem. ¨Ela quis assim, eu não queria¨, continuava em sua ladainha. Entrou na casa e tirou a roupa, jogando-se na piscina. Nadou por algumas horas, até sentir o corpo começar a ter câimbras. Um exercício físico talvez o fizesse esquecer do que havia feito. Tomou um banho quente e se estendeu na cama. O telefone tocou. Michael atendeu sem muito ânimo. _ Não...tudo bem...vou dormir...nos falamos amanhã. Eu sei...foi melhor assim. Desligou e deitou-se de bruços. ¨Não foi melhor assim¨, pensava sozinho, as lágrimas engrossando-se sob suas pálpebras. _ Você o matou _ uma voz fez eco aos seus pensamentos. Ele acreditou ser sua própria consciência falando em voz alta. _ Tarde demais para se arrepender _ a mesma voz continuou a falar _ Suas mãos tiraram-lhe a vida. _ Eu queria essa criança _ Michael defendeu-se, sem ao menos perceber, em sua agonia, que não havia ninguém ali _ Ela não queria. Está preocupada em perder o emprego. Essa criança só atrapalharia agora. Podemos ter outros filhos. _ Essa era a sua chance. Você não a mereceu. Mas eu vou redimí- lo Michael sentiu o corpo em brasas. Apertou os lençóis entre os dedos e rezava para que a dor física suplantasse a agonia intima em que estava. _ Não há misericórdia _ ouviu sussurrarem em seu ouvido, antes de fechar completamente os olhos. APARTAMENTO DE SCULLY Georgetown Scully realizou a autópsia somente para comprovar o que eles já sabiam. Era o mesmo quadro das outras vítimas. Terminava o dia quando, finalmente, ela se dirigiu para casa. Estava cansada, mas curiosa ao mesmo tempo. Nunca vira um caso desses na medicina. Mulder não voltara. Estava atrás de informações. Quando abriu a porta do apartamento o telefone tocou. _ Scully ! _ ela atendeu. _ Oi Scully, onde está ? _ Chegando em casa Mulder. _ Ótimo, estou indo para aí . _ Agora ? _ ela perguntou desalentada _ Queria tomar um banho, Mulder _ resmungou. _ Pode tomar Scully, ou está esperando que eu me ofereça pra esfregar suas costas ? _ ele perguntou com ironia, sorrindo ao imaginar a expressão dela. _ Mulder eu queria dormir..._ ela rebateu, ignorando o comentário. _ Ok, eu te dou banho e ponho na cama _ continuou e depois mudou o tom de voz _ É importante, Scully. Tenho novidades sobre o caso e se ficarmos dormindo outra pessoa pode morrer. Ela desistiu _ Está bem. Vou deixar a porta aberta... _ Do banheiro _ ele riu divertido _ Isso é um convite ? _ Mulder pára ! _ ela brigou sem muita convicção. _ Não precisa deixar a porta aberta. Você me deu a chave, esqueceu ? _ Não, não esqueci. Você ainda não conseguiu perdê-la ? _ Quando foi que eu perdi alguma coisa que você me deu, Scully ? _ Espere, vou ter que pegar a agenda _ ela respondeu sarcástica. _ Você anota isso ? _ Após todos esses anos ? Eu não tenho sua memória Mulder _ agora era ela quem se divertia. _ Não quero mais falar com você agora , sem graça_ ele respondeu emburrado _ Daqui a pouco estou aí e...Scully ? _ O que é ? _ Lave bem atrás das orelhas. Ela nem respondeu. Desligou na cara dele e entrou no banho. Olhou a porta alguns segundos e balançou a cabeça. "Será que ele teria coragem ?", pensou, sorrindo de leve. Meia hora depois ela entrou na sala com os cabelos molhados e vestida com jeans e blusa. Mulder estava sentado no sofá, ainda com as roupas de trabalho, as mangas da camisa arregaçadas e a gravata frouxa. Tinha espalhado alguns papéis sobre a mesa de centro. _ Oi _ ele cumprimentou_ Cheiro bom... Ela apenas aproximou-se, sentando-se ao lado dele. _ O que tem aí ? _ perguntou. _ Quatro mortes, todos Collins, todos com hemorragia e marcas de espancamento, mas sem lesões sobre a pele. _ Isso nós já tínhamos. _ É, mas agora eu descobri a relação entre eles _ Mulder respondeu com ar vitorioso _ Todos estiveram num orfanato num distrito do Maine . Eles herdaram o sobrenome do reverendo responsável por eles. Ele os registrou com seu nome, dava-lhes casa e comida, em troca os órfãos cediam seus corpos para que ele exercitasse seu senso de justiça. _ Não entendi ... _ O reverendo Collins era mais um tirano do que um pai para as crianças. Ele as adotava, mas queria colocá-las no caminho reto e para isso não tinha pudores de açoitá-los à menor contrariedade. Num de seus acessos, ele espancou um de seus tutelados até que uma das irmãs da Ordem colocou-se sobre o menino e ele a matou chicoteando- a. _ Um padre ? _ ela perguntava surpresa. _ Não é incomum a rigidez e a intolerância entre o clero, Scully. Ele as levou ao extremo. _ E onde ele está ? _ Numa prisão estadual, no Maine. Pegou cinqüenta anos e deve ser libertado em breve por bom comportamento. Eram vinte crianças, todas sofreram maus tratos. Dez deles foram adotados após esse incidente, em que o convento deixou de ser um orfanato e desses, dois estão fora do país e mudaram de nome. Os arquivos de adoção estão selados, não poderemos localizá-los. Temos quatro desses órfãos mortos, então resta-nos encontrar os outros seis_ ele fez uma pausa e a fitou com ironia_ Tenho a impressão que esse trabalho vai me dar fome. Que tal uma pizza ? _ Você nunca come nada que preste ? Posso preparar alguma coisa._ ela ofereceu. _ Uma pizza é o bastante Scully. Nesse momento, preciso de suas habilidades como investigadora, embora vá te cobrar esse convite muito em breve _ ele respondeu com um meio sorriso. Voltaram-se então para o trabalho. Ao cabo de algumas horas, eles haviam conseguido uma relação com os dados das possíveis vítimas, reportagens e fotos sobre os fatos ocorridos vinte e cinco anos atrás. Scully fechou os olhos com força enquanto corria os olhos pelo texto à sua frente. Mulder entrou na sala, saindo da cozinha e parou ao ver o semblante dela. _ Encontrou alguma coisa ? Scully pareceu não ouvir e ele se aproximou. A tela mostrava uma reportagem feita na época do assassinato da freira do convento. Manchetes escandalosas falavam das atrocidades cometidas pelo homem que a imprensa batizou como o ¨Torturador da Fé¨. _ Tudo bem, Scully ? _ Mulder perguntou, vendo que ela não notara sua aproximação, absorta que estava em seus próprios pensamentos. Ela ergueu a cabeça e, por uma fração de segundos, Mulder pode ver a confusão e emotividade em seus olhos. _ Como um ser humano, instruído em leis de caridade e bondade pode fazer algo assim ? _ ela murmurou. Mulder respirou fundo e tocou-a no ombro, como um convite para que ela o seguisse até o sofá. _ Venha . Acho que já fizemos muito por hoje. Já temos os dados das possíveis vítimas. Vamos comer alguma coisa. Ela obedeceu, mas não tocou em nada e Mulder percebeu que ela queria uma resposta. Talvez precisasse ouvir alguma coisa que afastasse a má impressão que o caso estava lhe causando. _ Scully _ ele começou _ Sei que esse caso é assustador. Não acredite que porque eu estive brincando sobre isso que não saiba da seriedade do que estamos vendo. Se está sentindo-se mal em continuar eu...poderia... _ Não _ ela cortou _ Não vou me afastar do caso, Mulder. É só que..._ ela o fitou por um instante, demonstrando dúvida. _ Ele não foi muito digno como um instrumento de propagação de fé, não é?_ Ele tentava romper a estranha barreira que parecia ter se formado em torno da parceira _ É. Não foi_ o efeito pareceu ser o inverso do esperado e ela o olhou entristecida. _ Scully..._ ele se aproximou mais dela e tocou suas mãos_ eu sei que isso está te incomodando e se quiser falar...sei que não conversamos muito, afinal é quase como se você pudesse ler meus pensamentos sempre._ ele sorriu, encabulado e depois voltou a olhar para ela com ternura _ Mas, às vezes, algumas coisas precisam ser pronunciadas, para que possam ser resolvidas ou pelo menos ficar mais claras para nós mesmos. _ Eu estive num colégio católico..._ ela suspirou _ Este ambiente não é totalmente estranho para mim. _ Já tinha visto algo do gênero ? Já passou por algo parecido Scully ? _ ele cortou preocupado. _ Não _ ela apressou-se em responder _ Eles... eram rígidos. A disciplina era uma norma, mas nunca vi algo assim. Como pessoas que se dedicam a divulgar a fé, a humildade, o amor..como podem agir assim ? Mulder nada disse. Ela suspirou brevemente e sustentou o olhar do parceiro, como se pudesse encontrar ali o amparo, através da sinceridade com que ele sempre a apoiava. Desviou finalmente o olhar e recomeçou a falar reticente, como se estivesse apenas externando um diálogo travado internamente e que ainda não tinha conclusão _ Esse homem.... o reverendo Collins...Eu, eu não consigo aceitar, Mulder. Não consigo entender... Ele deveria ser um símbolo de tolerância, de bondade...deveria fazer parte da face humana que conhece o perdão... E de repente, ele me mostra que essa mesma face é capaz de ser contaminada pela incompreensão, pela violência, pela cegueira e crueldade. Pelo amor de Deus...eram apenas crianças_ ela murmurou. Mulder não tinha uma resposta para dar-lhe, pelo menos nada que fosse agradável e ao mesmo tempo sincero. Nunca havia se importado realmente com questões de fé religiosa. Isso era algo secundário em sua família. Aliás, tudo o que se relacionava a envolvimento familiar era secundário em sua casa. Havia apenas mágoas e segredos. Nada mais. E era apenas pela sua experiência profissional que poderia dizer algo. _ Nunca tive qualquer inclinação religiosa _ ele começou _ Para mim, sempre foi sinal de manipulação das massas. Como se pode conciliar textos que falam de sentimentos sublimes com as atrocidades cometidas em nome deles ? Como Deus permitiria que tantas pessoas fossem mortas em nome da fé ? Talvez esses ensinamentos façam sentido no papel, mas as criaturas não estão preparadas pra eles. Quantas vezes eles foram distorcidos ? Serviram apenas aos próprios interesses de alguns tiranos escondidos em batinas. Você teria sido queimada há poucos séculos atrás, simplesmente por ter cabelos vermelhos. Ele se arrependeu imediatamente do comentário. Viu o efeito que teve sobre a parceira e se recriminou por isso. _ Me desculpe, Scully _ agora era a vez dele se perturbar _ Não era exatamente isso que eu queria dizer. A religião nunca fez parte da minha vida, só tive contato com o lado negro dela. O problema não está na fé e sim nas pessoas que a divulgam. As igrejas sempre se preocuparam mais com a forma do que com o conteúdo, com regras, normas e eu sempre tive a impressão de que o objetivo principal era o de condicionar as pessoas e fazê-las seguir algo simplesmente pelo convencionalismo. Apenas disciplina e rigidez. Scully balançou a cabeça. _ Não é assim, Mulder. Eu fiz parte desse ambiente. Nem tudo é assim. Também questionei algumas atitudes da igreja. Sabe que jamais compactuaria com a violência e a manipulação e a Inquisição me parecia distante demais para que eu pudesse justificá-la, mas não pense que nunca recriminei esse lado. Mas eu conheci um outro ambiente. Eles me ensinaram coisas boas, ensinamentos de compaixão e compreensão _ ela suspirou _ Um pouco de disciplina não é de todo mau, Mulder. Regras são úteis para nos dar direcionamento. ..Aprendi a amar e temer a Deus... _ Não se pode amar alguém que você teme, Scully_ ele esboçou um sorriso _ Sabe ? Sua inclinação religiosa é algo que me intriga. _ Como assim ? _ ela perguntou. _ Como uma pessoa racional e cética, que exige provas pra tudo, pode aceitar uma religião tão cheia de crendices, de sinais e fatos aceitos simplesmente pela fé ? Scully ficou em silêncio por algum tempo. Mulder percebia pela expressão, que aquele era um assunto que a perturbava, mas tinha curiosidade em saber. Ela questionava qualquer coisa que não estivesse baseada em princípios experimentados. Porque esse elo com a religião ? Ela não voltou a fitá-lo. Desviando os olhos e fixando um ponto indefinido da sala, recostou-se no sofá e começou a falar relutante. _ É como se tudo ficasse pequeno de repente, sem valor, sem um rumo... Sei que parece loucura...sempre confronto suas crenças com a razão e a ciência e agora estou aqui, lamentando a mácula que isso tudo lançou sobre minhas referências de fé. Esse crime me fez questionar exatamente sobre isso que você falou. Esse lado negro da fé que eu tinha medo de questionar. Desde que eu nasci, fui instruída a aceitar esses dogmas como verdades irrefutáveis. Ela faz parte da minha rotina de infância, quando esperava ansiosa para irmos ao culto, minha família, todos juntos_ ela suspirou _ Era o momento em que estávamos unidos pelo mesmo objetivo. Meu pai estava lá e minha mãe parecia feliz. A disciplina sempre foi uma regra para mim, era o modelo de educação de meu pai e...sabe o quanto eu o amava e ainda amo. Mulder a ouvia atento, incentivando-a com o olhar para que continuasse. Era tão raro ela falar sobre si mesma, sobre seus medos e referências...E era bom ouvi-la. Fazia com que se sentisse próximo a ela, fazendo parte dessa vida que ela deixava de lado para seguir com ele em busca de aventuras e respostas.. Algo que ficara perdido desde que trabalhavam juntos e que ela escondia para suas raras tardes de paz familiar. Ele entendeu o que ela queria dizer antes mesmo do que ela própria. Naquele louco mundo no qual eles viviam, a fé que ela abraçara era a única coisa que sobrevivera intacta ao açoite da verdade. Talvez porque ela não a questionasse ou simplesmente porque era o único elo que ainda possuía com um mundo bom, generoso. Um período em que suas únicas preocupações eram os estudos e o convívio familiar. Mesmo que não acreditasse, precisava ajudá-la a manter essa crença segura dentro dela. _ Não...eu não acho que você é louca._ ele sorriu _ Na verdade, sempre admirei isso em você, Scully. Essa capacidade de resguardar uma parte de você a salvo, apesar de tudo pelo que já passou. Sei o que a fé significa na sua vida. Sei que você não é uma religiosa maluca que acredita cegamente em tudo o que alguém que se intitula enviado de Deus possa vir a dizer. Acho que você preserva esse lado de sua vida para se sentir perto daqueles a quem você ama, da sua família, de se sentir parte de algo bom na humanidade, diferente do que você vê no seu dia a dia no nosso trabalho. Vemos coisas ruins todos os dias Scully, mas você nunca perdeu a fé no ser humano. Admiro isso... Não permita agora que esse homem abale... _ Não é a ele que eu questiono, é a mim mesma. Não vê ? _ ela continuou com olhar perturbado _ De nada me serviu essa crença. Ela foi uma mentira que eu inventei para me sentir segura _ ela titubeou _ integrada...Como eu poderia aceitar isso quando questiono qualquer fato que não possa ser autenticado pela ciência e a razão? Scully sentia vontade de chorar. Não fossem os seus rígidos controles, teria caído num pranto doloroso. Doía demais ter que se separar de algo que lhe dava a segurança de sentir-se pertencente a algum lugar, de fazer parte de um grupo que ela amava profundamente. Tudo o que vivera entre os muros do colégio, os segredos e descobertas gravados na memória como presentes de infância. A fé aceita devido à sua ingênua necessidade de afeto. Algo guardado junto com o estranho medo de se envolver e magoar-se. Todo esse universo pertencia ao arquivo em sua memória que ela não ousava questionar. Era aonde ia buscar forças para seguir adiante. Mas não podia mais se enganar. Sua verdadeira realidade estava diante de seus olhos. Não havia este lugar. O fio cortante de um açoite o tinha feito desaparecer. Ela sentiu os dedos do parceiro envolverem seu queixo e só então de seu conta de que estava imersa em seu próprio mundo. Ele parecia preocupado e, ela suspirou, era sua obrigação livrá-lo desse sentimento. _ Não se preocupe comigo, Mulder. Sou adulta o bastante para lidar com essa perda. Eu já havia começado a perder mesmo antes de sair do colégio, quando fugia para fumar escondido ou sair sem autorização. Um dia eu não me considerei mais digna desse meu mundinho e entrei para o FBI. Você faz parte desse meu ato de rebeldia. Talvez por isso eu o questione tanto, talvez porque eu precise provar a mim mesma que tudo aquilo foi um remendo criado por mim para suprir outras carências. Eu me afastei da Igreja por tantos anos, voltei a ela quando me senti frágil e talvez seja a hora de me desligar de uma vez. Apenas dói um pouco romper com esse último laço. _ Não, Scully. Você está errada. Não pode abandonar esse mundo. Ele faz parte de você. É a sua essência. Sim, existem pessoas cruéis, intolerantes, gananciosas e autoritárias nele, mas eles estão por toda a parte. A sua fé, tudo o que te ensinaram de bom, tanto no colégio como principalmente em sua casa são verdadeiros e puros. Você me fez acreditar na bondade humana através se sua personalidade generosa e, eu tenho certeza, foi lá, entre o rigor e o afeto da sua crença , que seu caráter se formou e, acredite, eles fizeram um excelente trabalho _ ele concluiu com um sorriso. _ Agora você está me bajulando _ ela respondeu sorrindo timidamente. _ Scully não abra mão de suas crenças. A minha única fé é na verdade e você é responsável por uma parte considerável dela.. Eu vejo a religião através de você, embora não dê esse nome. Você põe em prática diariamente o que aprendeu lá. Você dispõe de todo o seu tempo pra se dedicar à justiça, a salvar vidas. Você consegue ser gentil com as pessoas mais miseráveis e, ao invés de crucificá-los, você procura desculpas para essas atitudes, com está fazendo agora. O reverendo está errado, o ser humano e não o padre. Ele distorceu o que aprendeu, não quer dizer que esses ensinamentos não sejam bons. Não existe qualquer conflito entre sua fé e sua racionalidade Scully. Você acredita na parte moral da religião e sentimentos não podem ser explicados racionalmente. Quanto aos seus milagres e maravilhas _ ele sorriu, vendo que ela parecia mais calma e sedenta de que ele a ajudasse a organizar seus próprios pensamentos _ Como você mesmo me disse: Nada acontece em contradição à natureza só ao que conhecemos dela, então...você tem muito trabalho pela frente. Não deixe que nenhuma criatura insensível, e aí eu também me incluo, roube sua serenidade _ Você não é insensível Mulder_ ela interrompeu _ Não você. E daria um excelente psicólogo _ ela concluiu sorrindo e, num gesto extremamente inusitado, beijou-lhe a face _ Obrigada por tentar resgatar a minha fé. Agora acho que seria bom dormirmos um pouco. Temos que viajar daqui a algumas horas. Ele concordou e levantou-se. Ainda a encarou por alguns segundos. _ Tem certeza de que está bem ? Ela concordou com a cabeça. _ Bom, então te pego às oito _ ele concluiu e dirigiu-se para a porta , voltando-se para fitá-la com ironia _ Gostaria de ter te conhecido num uniforme de colégio. _ Boa noite, Mulder _ ela respondeu balançando a cabeça e sorriu quando viu a porta se fechar atrás dele. Deitou-se e adormeceu quase imediatamente. Scully só acordou na manhã seguinte, apenas o tempo necessário para se arrumar e Mulder batia em sua porta. Seguiram viagem minutos depois. YORK VILLAGE Maine Ao chegarem na cidade, instalaram-se num hotel, em quartos contíguos como vinham fazendo durante todos os anos de parceria. Em seguida, procuraram a polícia local e foram recebidos com más notícias. A lista já havia se reduzido. Mais um homem estava morto, Thomaz Collins e agora eles tinham certeza da ligação entre as vítimas.. _ Talvez alguém esteja eliminando as provas, Scully_ Mulder comentou enquanto deixavam a delegacia. _ Provas de que, Mulder ? O reverendo foi preso, houve uma investigação na época e, embora eu acredite que ele merecia a cadeira elétrica pelo que fazia com os órfãos, ele foi punido. Ainda está na prisão. _ Ele poderia estar fazendo isso de lá... _ ele respondeu desafiador Scully parou de andar e se virou para fitá-lo. _ Carrie novamente ? _ ela falou arqueando a sobrancelha _ Perdoe-me se estou sendo muito cética, Mulder _ continuou com ironia _ Mas o pensamento não abre chagas no corpo. _ Mas abre na mente, no coração... _ Ah, meu Deus ! _ ela cortou _ Mulder eu posso até admitir vingança como motivo e sei que algumas idéias podem assassinar o bom senso de qualquer um _ ela continuou enfática, vendo-o sorrir de leve_ mas aquelas marcas são reais, portanto provocadas por algum objeto material e se ele está preso... Espere _ ela franziu a testa _ Você pode estar certo. Pode ser que alguém esteja fazendo o trabalho do reverendo, ou adotando suas práticas, algum de seus tutelados... Mulder concordou com a cabeça, era bom tê-la de volta, após a conversa da noite anterior. Questionando e contrariando tudo o que ele dizia e, às vezes, ele pensava se não era apenas para irritá-lo. Já sentia falta daquela expressão de sobrancelha levantada que ela lhe dirigia diversas vezes no dia, era melhor isto do que vê-la com os olhos úmidos, os ombros caídos e o semblante angustiado. _ Num lugar desses Scully, todos são vítimas e algozes ao mesmo tempo. Talvez o assassino queira punir quem o fez sofrer e, nesse caso, o reverendo pode ser uma vítima em potencial _ Mulder completou o pensamento dela e fitou-a com ironia _ Sabe ? Acho que aqueles fantasmas, no Natal, estavam certos. Sua maior alegria é provar que eu estou errado, mas sempre acaba concordando comigo. Ela cruzou os braços sobre o peito e o fitou sarcástica. _ Então devo concluir que você é um egomaníaco e narcisista farisaico ? Ele ficou emburrado. _ Pelo que me lembre você disse que não tinha boa memória. _ Eu procuro não esquecer assuntos relevantes. Ela meneou a cabeça e o olhou com falsa compaixão. _ Vamos lá Narciso_ riu colocando a mão sobre o ombro dele_ Temos trabalho. Vamos tentar contatar as prováveis vitimas. _ Não vai fazer a autópsia ? _ Mais tarde. Pedi ao delegado que me avisasse quando o corpo fosse para o necrotério. Não há mais pressa no caso dele, infelizmente chegamos tarde. Espero que possamos fazer algo pelos outros. Ele concordou e entraram no carro. Aquela região era particularmente bonita naquela época do ano. Era outono e o frio não permitia um longo passeio pelas praias de águas geladas, mas através do vidro do carro, eles podiam ver o sol iluminando a água e plataformas onde alguns homens pescavam ao lado de crianças ansiosas. Era final de semana e as pessoas comuns aproveitavam o dia para estar com a família, brincar com os filhos, passear com o cachorro e relaxar das tensões diárias. O barulho das ondas tornava a melodia das horas mais calma e induzia à introspecção. Lentamente, o ambiente sereno e colorido tingiu os pensamentos dos agentes que, longe demais da realidade tranqüila dos cidadãos, permitiram-se ser invadidos pela calmaria. Embora todas as suas ações estivessem voltadas para a solução do caso. Mulder surpreendeu-se tamborilando no volante do carro, enquanto Scully repousava os olhos sonhadores no mar que venerava. Chegaram à primeira residência e foram obrigados a deixar a contemplação de lado.A lista agora contava com cinco nomes : John, Daniel, Peter, William e Christopher. Era complicado interrogar aquelas pessoas. A maioria não queria relembrar o passado. Alguns se irritavam com as suspeitas que poderiam recair sobre eles, porém, todos tinham um álibi para os dias dos assassinatos. Tudo o que eles haviam conseguido era deixar aquelas pessoas sobressaltadas com receio de serem as próximas vítimas, mas isso não era de todo ruim pois, quer o assassino fosse um deles, quer não, agora todos seriam mais cuidadosos e já saberiam que a polícia havia feito a ligação entre eles. Foi um dia exaustivo e Scully ainda teria uma autópsia pela frente. Mulder a deixou no necrotério antes de ir falar com o delegado sobre um possível pedido de proteção para aquelas pessoas. Faltava ainda um último órfão: Christopher Collins, mas já era tarde e ele morava um pouco afastado da cidade. Iriam até lá após Scully terminar os exames. Mulder voltou uma hora depois e ela estava no final do trabalho. Parecia exausta. Passava das oito quando eles chegaram ao hotel. _ Quer comer alguma coisa ? _ Mulder convidou. _ Não...acho que não...Não conseguiria erguer um garfo _ Ela reclamou, desabando sobre a cama_ Andamos o dia todo pra nada. _ Bom... pelo menos sabemos quem são essas pessoas. Faltam apenas o reverendo e um tal Chris Collins. _ Podemos deixar pra amanhã, não é ? _ ela falou com voz súplice_ Há dois dias que não dormimos direito, fiz três autópsias, não sou mais tão jovem, Mulder. Ele concordou com a cabeça, vendo-a deitada de bruços na cama, sem sapatos, abraçada ao travesseiro. _ Não precisava concordar tão rápido _ ela sorriu. Mulder levantou-se e foi até a cama. Sentou-se e ela fez menção de levantar-se, mas ele a impediu. _ O que foi ? _ ela murmurou sem jeito. _ Vamos lá minha velha, relaxe _ ele brincou, apoiando as mãos nas costas dela e pressionando-a contra o colchão_ Vou te provar que não sou tão egomaníaco assim _ continuou, deslizando as mãos pelos ombros dela , em movimentos circulares e precisos. Scully fechou os olhos e se deixou levar pelo toque quente das mãos do parceiro, procurando dormir antes que começasse a desejar que a massagem extrapolasse o cunho terapêutico. Ao vê-la adormecida, Mulder perdeu alguns minutos estudando- lhe as feições e sorriu, colocando um cobertor sobre ela e saindo sem fazer barulho. HOTEL PORTLAND York Village - Maine Manhã seguinte Scully levantou bem disposta. Não se lembrava quando o parceiro havia saído do quarto, mas ainda tinha a grata sensação de seus dedos sobre a pele. Saiu e encontrou-o na soleira da porta. _ Dormiu bem ? _ Mulder perguntou. Ela apenas afirmou com a cabeça. _ Obrigada _ murmurou _ Nem vi quando saiu. _ Quando você começou a falar dormindo _ ele falou sério. _ Está brincando ?! _ ela exclamou assustada. _ Não e é incrível o que vocês, garotas católicas, escondem _ ele completou, tentando manter a seriedade ante a expressão dela. Mas não conseguiu segurar o riso e ela revirou os olhos. _ Acho melhor irmos até o presídio _ Scully resmungou, balançando a cabeça. Ele acercou-se dela. _ Seja sincera, Scully. Você ficou com medo. O que está me escondendo ? _ Acha que uma simples massagem vai fazer com que me confesse a você ? _ Bom, eu já te coloquei pra dormir, quem sabe quando surgir a oportunidade do banho... _ Mulder, temos um caso para investigar. Pessoas ameaçadas que precisam de nossa ajuda. Que tal se levarmos isso um pouco mais a sério. _ Nossa, você sempre acorda mal humorada assim ? Ok, vamos até o presídio falar com o tal torturador. Scully franziu a testa. Ela iria até o presídio, encararia o reverendo e o interrogaria. Isso não significava que ela não estivesse se sentindo muito incomodada com a situação. Face a face com aquele homem, tinha certeza, suas dúvidas renasceriam. Sua fé seria confrontada. Novamente eles se deixaram envolver pelo clima da região. Absortos em seus próprios pensamentos. _ Não acha que o mar possui algum encantamento particular ? _ Scully perguntou de repente, voltando-se para o parceiro, após perder alguns minutos contemplando a praia que margeava a pista aonde eles andavam. _ Encantamento ? _ ele repetiu desviando o olhar para encarar a paisagem _ Acho que ele te traz boas lembranças_ ele a fitou carinhoso_ Sente muito a falta dele, não é ? Scully balançou a cabeça confirmando, meio sem jeito por perceber o quanto o parceiro já conhecia seus pensamentos. Realmente o mar lembrava demais um tempo feliz de sua vida. Seu pai...sua ingenuidade...Virou o rosto, fugindo daquele belo par de olhos que a fitava atento e gentil. _ Também gosto do mar _ ele continuou _ É lindo, dá uma sensação gostosa de paz...me faz lembrar de você... Ele ergueu o rosto e sorriu para ele que retribuiu sereno. O celular tocou e Mulder franziu a testa ao ouvir o barulho. Raramente tinham tempo para conversar. Embora estivessem juntos quase todas as horas do dia, raros eram os momentos em que podiam se abandonar a uma conversa tranqüila. Gostaria de poder sentar-se com ela na areia e apenas ver o tempo passar ao seu lado. Retirou o aparelho do bolso e atendeu , ficando em silêncio ao ouvir a voz do outro lado. _ Aconteceu novamente, Scully_ explicou ao desligar _ Temos mais uma vítima. Precisamos ir até lá. Mulder fez o retorno e seguiram para o local do crime. ACADEMIA PERFORMANCE York Village – Maine Tinha medo de dirigir, sofria a cada vez que era obrigado a sentar num banco de carro e seguir para algum lugar. Gostaria de nunca ter aprendido. Gostaria de jamais ter concordado em levar a filha àquela festa. Ela nem mesmo queria ir naquele dia. O que mais doía era olhar para ela, presa a uma cadeira de rodas, esforçando-se para se adaptar e demonstrando, pelo semblante compreensivo e as palavras gentis, que não o culpava pelo ocorrido. Ele entrou na academia, como fazia diariamente desde o acidente da filha e cumprimentou o faxineiro. Aquelas horas de solidão e trabalho físico lhe faziam enorme bem. Precisava estar forte para ajudar sua Beth. Ela precisava de braços fortes que a conduzissem pela casa, ajudassem a acomodá-la na cadeira e na cama. Muito embora ela reclamasse desses pequenos cuidados, dizendo-se capaz de fazê-los sozinha, era a forma que ele encontrava de se redimir. E o tempo que passava se exercitando, fazia com que demorasse mais para chegar em casa e sentir-se novamente deprimido. Colocou a bolsa no chão e pulou, alcançando as argolas. Mas uma voz o impediu de começar. Talvez alguém fazendo eco aos seus pensamentos. _ Está arrependido, não é ? Agora ela jamais poderá ter uma vida normal. _ Quem está aí ? _ Bebeu um pouco naquela noite, não foi ? Nunca conseguiu abandonar realmente o vicio . _ Não é verdade. Há anos que não bebo _ o homem respondeu apreensivo, apertando os dedos em volta das argolas. _ Mentiroso. Eu conheço você. Posso ler sua mente. Você estava bêbado quando bateu o carro e deixou sua filha deficiente. _ Não ! _ o homem murmurou_ Eu tomei apenas um cálice de vinho. Não foi minha culpa. _ Você a traiu e a machucou, filho. Você foi fraco, é um fraco. Seu vício fez isso, mas ainda é tempo de se redimir. _ Como ? _ ele sussurrou. _ Deixe-me ajudá-lo. E ele ouviu o barulho cortando o ar e lembrou-se do menino frágil que corria para junto das freiras em busca de socorro. Seus olhos encheram-se de lágrimas. _ Tem razão ele soluçou _ Minha culpa. Ajude-me. Ele cravou os dedos nas argolas, enrolando os pulsos na corda para sustentar o corpo chacoalhado pelo rigor do castigo. ACADEMIA PERFORMANCE Dez horas depois Scully desceu primeiro do carro. A policia já havia isolado o local e havia algumas pessoas amontoadas do lado de fora, tentando saber o que havia acontecido. Ela esperou o parceiro e ambos entraram na academia. Um homem estava preso às argolas de um aparelho de ginástica. Seu corpo suspenso no ar e as mãos apertadas sobre os anéis. Um delegado aproximou-se dos agentes para explicar. _ O nome dele é Peter Collins. Costumava fazer ginástica nesta academia todos os dias durante a noite. Como conhecia o dono, tinha as chaves e passava algumas horas se exercitando. O faxineiro ouviu gemidos e depois gritos, mas quando chegou já o encontrou morto, pendurado nas argolas. Disse que ninguém mais entrou aqui. _ Acho que não precisaremos da autópsia para saber o que aconteceu, não é ? _ Mulder concluiu. Scully suspirou. _ Levem o corpo e peçam para fazer a autópsia, vamos falar com os outros antes que seja tarde demais, Mulder. Talvez devêssemos levá- los para um local seguro. RESIDÊNCIA DE CHRISTOPHER COLLINS Rockland - Maine Meia hora depois, eles bateram na residência de Chris Collins. Uma mulher jovem, carregando um bebê veio atendê-los. _ Bom dia _ Scully começou _ Poderíamos falar com o Sr. Christopher Collins ? _ O que querem ? _ a jovem perguntou desconfiada. _ Somos do FBI _ Mulder explicou, mostrando a insígnia _ Queríamos apenas esclarecer alguns fatos. Ela abriu a porta, dando-lhes passagem. Entraram numa sala muito simples, mas limpa e organizada. Um outro bebê estava no berço no meio do caminho. _ Desculpem a bagunça _ ela justificou-se, sem jeito _ Estava amamentando. Sentem-se por favor _ convidou, colocando o filho no berço. _ Belas crianças , Sra ? _ Mulder falou gentil. _ Margareth...Meg. Chris é o meu marido_ ela apresentou-se, olhando para o berço em seguida _.Não sabe que loucura é cuidar de duas crianças ao mesmo tempo _ continuou sorrindo com ar orgulhoso. _ Está fazendo um bom trabalho _ ele respondeu. A mulher sorriu agradecida. _ O que querem com o Chris ? _ Apenas esclarecer algumas dúvidas. Ele está ? _ Scully interrompeu. _ Deve estar chegando, ele nunca se atrasa. Trabalha a noite. Mal terminou de falar e a porta foi aberta. Ela levantou-se e dirigiu-se para ele. Abraçaram-se com carinho. _ Bom dia, Meg _ ele cumprimentou, beijando-a nos lábios _ Como passou a noite ? _ perguntou. Ela se afastou e ele viu os agentes na sala. Ergueu a sobrancelha para a mulher com ar interrogativo. _ Temos visitas ? _ falou ao ouvido dela. _ Venha _ Meg conduziu-o até eles. Era um homem alto de braços musculosos, cabelos castanhos cortados rentes e olhos acinzentados. Tinha uma aparência agradável, um sorriso gentil e amistoso. _ Bom dia_ ele estendeu a mão para cumprimentá-los_ Acho que não nos conhecemos, não é ? _ Somos do FBI, Sr. Collins. Gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas. Ele parecia surpreso e um pouco apreensivo. _ O que há de errado ? _ perguntou. A fisionomia modificando- se instantaneamente. _ Estamos investigando alguns assassinatos que ocorreram no último mês. _ O Chris está trabalhando num emprego fixo há seis meses _ Meg interrompeu _ Ele não fez nada de errado. _ Sabemos disso, Sra. Collins. _ Eu já paguei por meus erros _ Chris falou apressado, levantando-se para caminhar pela sala _ Acho que já está na hora de pararem de me perseguir. _ Não há qualquer perseguição, senhor _ Scully explicou _ Sente- se por favor, vamos esclarecer tudo. Sabemos que teve problemas com a justiça até bem pouco tempo. _ Mas agora estou limpo _ ele cortou. _ Sim, mas é sobre algo um pouco mais antigo que queremos falar _ agora era Mulder quem interrompia _ Esteve em vários abrigos até ser preso, não é ? O semblante do homem estava visivelmente alterado, mas ele nada disse. _ Seu sobrenome foi dado por um reverendo... _ Ah, não ... _ ele falou levantando-se novamente _ Esse homem não vai mais amaldiçoar minha vida. _ Senhor, o que tem a nos dizer sobre o período em que esteve naquele orfanato ? Ele voltou-se para os agentes. Havia agonia em seus olhos, agora úmidos. Ele não respondeu, apenas olhou para a esposa por um longo momento, depois deu as costas para os agentes e tirou a camiseta. Scully soltou uma exclamação ao ver o corpo do homem. As cicatrizes cortavam todo o seu dorso, formando uma espécie de teia sobre a pele. _ Isso _ Chris respondeu, enquanto Meg fechava os olhos e saía da sala, levando os bebês com ela _ Essa é a única recordação que eu tenho daquele lugar e daquelas pessoas miseráveis. O que mais querem saber? _ Desculpe, senhor _ Scully começou, quando ele virou-se para fitá-los, já vestido novamente _ Seis pessoas foram assassinadas, todos com o mesmo sobrenome que o seu, os órfãos que viveram com o senhor naquele orfanato, até que o reverendo foi preso. _ Há seis meses que estou trabalhando, que consegui ajeitar minha vida. Não sei e nem quero saber de nada sobre aquele homem e sobre os outros garotos. Para mim eles deixaram de existir. _ Viajou para algum lugar durante o último mês ? _ Sim, fiz algumas viagens a pedido da empresa em que trabalho. Faço transporte de cargas. Precisei viajar algumas vezes. Mas há documentos na empresa que comprovam onde eu estive e quando. _ Obrigado senhor _ Mulder encerrou_ Entraremos em contato se precisarmos de mais detalhes. Scully olhou surpresa para o parceiro, mas não disse nada. Seguiu-o até a porta e foram embora. _ O que é isso, Mulder ? Ele é o nosso principal suspeito até agora. Tem motivo, não tem álibi. Não acha que deveríamos prendê-lo para interrogatório ? _ Viu o estado das costas dele, Scully ? Aquelas são marcas de infância e ainda assim são muito profundas. Tem idéia de como ele deve ter sido surrado para ainda conservar aquelas cicatrizes ? _ É um bom motivo pra querer se vingar, não ? _ Viu como ele olhou pra esposa e para os filhos ? Ele quer recomeçar, Scully. Talvez esteja tendo a primeira oportunidade de se acertar na vida. Por que iria colocar tudo a perder por causa de uma vingança? _ Pra começar do zero. Você mesmo disse que poderia ser alguém querendo eliminar provas. Se as marcas estão nítidas nas costas dele, imagine como estão em suas lembranças. _ Não podemos prendê-lo com isso simplesmente. _ Talvez não prendê-lo, mas ele precisa ser vigiado. Aliás, todos eles precisam. Ela pegou o celular a fim de falar com o encarregado do caso. Havia agora quatro prováveis vítimas, além do reverendo. Scully pediu ao delegado que investigasse aonde Chris Collins havia estado na noite anterior, enquanto eles iriam falar com o reverendo no presídio. PENITENCIÁRIA DO ESTADO Maine Um homem alto, de corpo rígido, apesar da idade, foi levado até eles na sala de visitas da prisão. Devia ter quase sessenta anos, mas seu corpo era esbelto, suas feições austeras e compenetradas. O uniforme da prisão estava imaculadamente limpo e passado. _ Em que posso lhes ser útil, senhores ? _ disse com voz firme, assim que se sentou. _ O senhor é o reverendo Collins, não ? _ Não sou mais reverendo. Fui afastado de minhas funções quando vim pra cá. _ Foi condenado pelo assassinato de uma freira, não é ? _ Já cumpri minha pena, jovem _ ele interrompeu Scully _ Tudo o que quero agora é voltar ao meu ministério. Há muitas almas perdidas nesse mundo e é meu dever conduzi-las aos braços do Criador. _ A golpes de açoite ? _ Mulder perguntou sarcástico _ Leva muito a sério sua missão de pastor. _ Mulder ! _ Scully interrompeu. Precisavam da cooperação daquele homem. Não tinha sequer vontade de olhá-lo nos olhos, mas ele era uma provável vítima e sua obrigação era protegê-lo embora isso lhe causasse um certo asco. O homem fixou os olhos em Mulder, seu semblante permaneceu impassível, mas havia algo de assustador na maneira como ele encarava seu oponente que, com ar desafiador, sustentava-lhe o olhar. _ Deve ter sido um péssimo filho, garoto. Ter levado muita tristeza e sofrimento para aqueles que o cercaram. Falta-lhe disciplina e responsabilidade . É a pessoas como você que eu pretendo me dirigir _ ele respondeu decidido. Embora quisesse permanecer indiferente, Mulder sentiu o peso daquelas palavras que, segundo pensou, eram a expressão da verdade. Qualquer um que se aproximasse dele, fatalmente iria sofrer, mas tentou recuperar o sangue frio. _ Seus antigos tutelados estão sendo assassinados, senhor. Tem alguma idéia de quem poderia estar fazendo isso ? Ele mudou de expressão, um esboço de sorriso cínico formou-se no canto de seus lábios. _ Com a vida que levavam não me admira de que todos esses vagabundos estejam morrendo. São vitimas de sua própria incúria. Homens fracos, cheios de vícios e culpa. _ O senhor parece ter uma opinião bem específica dessas pessoas que não vê há vinte e cinco anos_ Scully comentou. _ A árvore só é forte quando podada no início, caso contrário seu tronco cresce torto e frágil. Se estivessem sob minha responsabilidade, tenho certeza de que teriam se tornado homens de honra. Você sabe o que eu quero dizer _ ele completou virando-se para Scully _ A menos que a cruz em seu pescoço seja apenas um adereço de moda. _ Nós vimos as marcas de sua educação nas costas de Chris Collins_ Mulder falou, tentando inconscientemente afastar a atenção do homem sobre sua parceira. Não lhe agradava vê-lo dirigindo-se a ela, ainda mais querendo estabelecer sintonia por partilharem a mesma crença. Não queria mais dúvidas na mente de Scully. As feições do homem se contraíram e ele cuspiu de lado. _ Esse maldito garoto era o pior deles. Imagino que deva estar preso em algum lugar. _ Esteve por alguns anos, mas agora está refazendo a vida. E se acha que prisão só serve pra maus elementos, o senhor não deveria estar aqui, não é mesmo ? Mulder sentia um prazer cruel em provocar o homem. Algo em sua expressão o incomodava mais do que queria admitir. _ Ninguém sabe os desígnios de Deus para os seus servos. Se Ele julgou necessário que eu estivesse aqui, não posso contestá-Lo. Mas a morte desses garotos é uma prova evidente de que eles nada valiam. _ O senhor sabe de alguém que tivesse motivos para querer assassinar essas pessoas?_ Scully perguntou. _ Estou aqui há vinte e cinco anos. Como posso saber a que desregramentos esses infelizes se entregaram? _ Obrigada senhor, se necessário, voltaremos a procurá-lo. O reverendo virou-se para Mulder e pareceu entrar dentro de sua mente, tal a fixação de seus olhos. Depois sorriu imperceptivelmente e falou com voz calma. _ Já cumpri minha missão aqui dentro. O rebanho do Senhor está disperso, precisa de um pulso firme para conduzí-lo ao redil. Estarei à disposição se quiser aprender sobre disciplina e honra, filho. Vai evitar muito sofrimento para os que te cercam. Posso ajudá- lo, ainda, a moldar seu espírito rebelde. _ Obrigado, reverendo, mas prefiro conservar meu corpo imaculado _ ele respondeu com cinismo. _ As feridas na consciência costumam ser mais dolorosas. _ Tenho certeza de que as marcas que o senhor deixou naqueles garotos não foram apenas físicas _ Mulder retrucou, virando- se e apoiando a mão no ombro da parceira, conduzindo-a para fora, enquanto o reverendo fitava-os com ar compadecido, sorriu imperceptivelmente e olhou para a ruiva que seguia ao lado do homem arrogante . _ É uma pena que tenha se envolvido com ele, filha _ falou para si mesmo _ Não devia ter se afastado de seus princípios. Agora está tão frágil quanto ele e somente eu poderei ajudá-la a retomar o bom caminho. Scully passou pelo portão de entrada ainda silenciosa, mas assim que se viu fora daquele lugar, voltou a indagar o parceiro. _ Por que foi tão agressivo, Mulder ? _ Ora, Scully, você viu aquele sujeito ? Não me diga que ele conseguiu comovê-la ? _ Não Mulder, não me comoveu. Eu mal conseguia fitá-lo. Mas ele está preso por aqueles crimes.Talvez seja uma das vítimas. Gostando ou não, nós temos obrigação de protegê-lo. Ele conheceu aqueles garotos e tudo indica que é alguém tentando se vingar do que passou no orfanato. Ele poderia ter nos ajudado de alguma forma. Você não devia ter sido tão impulsivo. Mulder respirou fundo, deixando cair os ombros. _ Tem razão. Acho que queria agredi-lo pelo que fez àqueles garotos, pelo que fez a você e sua crença. Talvez acredite que o castigo dele não foi o bastante. _ Obrigada por se preocupar comigo, Mulder. Mas eu estou bem. Só não gostaria de encontrar mais nenhum daqueles homens mortos. Precisamos achar o assassino.Nosso maior suspeito ainda é Chris Collins. Não posso sequer imaginar o que eles passaram na infância, mas isso não justifica as mortes atuais. O celular dela tocou. Era o delegado informando que Chris tinha saído logo após a visita deles. Não compareceu ao trabalho, passando a maior parte da noite na rua, voltando somente durante a madrugada para casa. _ Acho que já temos motivo suficiente para prendê-lo, Mulder. _ Scully, ele não teria motivos pra matar as pessoas que passaram pelo mesmo que ele. Não faz sentido. _ Talvez esteja se vingando nos outros, já que não pode descontar no reverendo. Não são raros os casos de pessoas que desenvolvem um comportamento violento ou psicótico após passarem por situações traumáticas na infância. _ Há uma coisa que você está esquecendo. Como é que ele faz pra matar essas pessoas sem, aparentemente, tocar nelas ? Ele não me pareceu ser dado a feitiçarias, Scully, ao contrário, pareceu bastante simplório. _ De qualquer maneira, temos que falar com ele novamente. Entraram no carro e seguiram imediatamente para lá. Chris, porém, não estava em casa. Tampouco havia chegado ao trabalho. Passou o resto da madrugada com a esposa, mas sumiu no começo da manhã o que o fazia ainda mais suspeito. Meg atendeu-os com os olhos inchados. Parecia ter chorado a noite toda. Não estava tão tranqüila e amigável como no dia anterior. _ Sra. Collins, perdoe-nos, mas se não disser onde está seu marido, ele poderá ser indiciado pelo assassinato dessas pessoas_ Mulder tentava convencê-la a cooperar. _ Eles o condenarão de qualquer maneira _ ela cortou ríspida _ Sempre o perseguiram. Ele estava bem agora _ disse começando a chorar desalentada _ Por que estão fazendo isso conosco ? Com nossos filhos ? Scully olhou para as crianças dentro do berço e sentiu-se mal com a situação. Havia uma família ali que, fatalmente, seria destruída se as suspeitas se confirmassem. _ Ele não fez isso, senhora _ Meg falou, como se lesse os pensamentos de Scully _ Ele jamais fez mal a ninguém. Suportou tudo sozinho. Vocês não fazem idéia do estado em que o encontrei quando nos conhecemos há três anos e, após o nascimento das crianças, acreditamos que finalmente teríamos paz. Mas isso nunca acontece. Uma das crianças começou a chorar e Meg tirou-a do berço, embalando-a nos braços. Seu rosto e atitudes modificaram-se ao conversar com o filho. Ela começou a cantar baixinho para ele, parecendo ignorar a presença dos agentes, a falta do marido e tudo à sua volta. Estava compenetrada em acalmar o bebê que resmungava em seu colo. _ Não tema, filhinho_ ela sussurrava_ Nós vamos ficar bem. Essas pessoas vão nos ajudar. Papai em breve estará em casa, não se preocupe. Ele adormeceu novamente e Meg voltou-se para eles. _ Vocês deveriam tentar isso, algum dia. _ Como ? _ Scully perguntou sem entender. _ Ter filhos. Iriam ver a vida de uma outra forma. Mulder fitou a parceira que tentava, em vão, esconder a emoção que aquelas palavras lhe causavam. Ela levantou-se apressada. _ Sra. Collins, peça ao seu marido para nos procurar , caso contrário, seremos obrigados a prendê-lo como suspeito. Meg parecia mais tranqüila agora. Como se estivesse vendo algo além daqueles acontecimentos. Já sorria. _ Não tema _ ela falou para Scully _ Você ainda terá tudo isso também, mas, por hora, não o perca de vista _ falou indicando Mulder _ Cuidem-se. Ambos seguiram silenciosos até o carro. Scully estava visivelmente perturbada, embora se esforçasse para disfarçar. _ Scully _ Mulder começou _ Acho melhor te deixar no hospital para fazer a autópsia enquanto eu volto para falar com os familiares das vítimas novamente. Não sei se uma vigilância aqui seria o ideal, já que ninguém conseguiu ver nada, mas talvez ajude se tiver alguns policiais com as outros homens, pode evitar que novas mortes aconteçam. Ela concordou com a cabeça e não prolongou a conversa. Estava imersa em seus próprios pensamentos. Mulder seguiu para a residência dos Collins e após cada conversa, começou a tirar algumas conclusões. Entrou no carro para buscar Scully. Queria discutir suas teorias com ela. Ia organizando as informações enquanto rodava. A mulher de Peter Collins não sabia o que dizer sobre a morte do marido. Estava muito chocada ainda. Contou-lhe que ele andava triste ultimamente. A filha deles havia sofrido um acidente e estava impossibilitada de andar. Ele sentia-se culpado por isso, uma vez que, era ele quem dirigia o carro quando aconteceu. Estavam saindo de uma festa e ele não se perdoava. Mas nada indicava que ele pretendesse se matar ou tivesse alguém que o odiasse a ponto de matá-lo. Sobre o orfanato, eles raramente falavam . Peter superara completamente a orfandade, nunca havia mostrado raiva ou ressentimento em relação a isso. As outras duas famílias das vitimas, das quais Mulder havia conseguido o depoimento através dos outros escritórios do FBI, tinham estórias muito parecidas. Thomaz Collins não se casara e morava com os pais adotivos, tivera uma noiva que abandonara dias antes do casamento porque acreditou que ela o traísse. Quando soube a verdade, tentou reatar o compromisso, mas já era tarde. Ela havia cometido suicídio. Ele nunca mais quisera se aproximar de ninguém, mas mesmo a família dela havia entendido e o perdoado embora ele mesmo nunca se desculpasse. David Collins era um homem bem sucedido, tinha mulher e três filhos e viviam bem. Aparentemente envolvera-se com drogas no passado, mas agora sua ficha estava limpa. Mulder começou a ver um certo padrão nas estórias. Todas as vítimas sentiam-se culpadas de alguma forma. Todas elas se consideravam responsáveis por causar algum sofrimento a alguém. Pesquisando um pouco mais, ele descobriu que a empresa de David tinha ainda um certo contato cm um grupo conhecido pela suspeita em tráfico de drogas. E se essas pessoas estivessem sendo levadas a cometer suicídio devido à culpa que carregavam consigo ? Talvez Chris Collins tivesse encontrado alguma forma de punir as pessoas que o haviam feito sofrer através de suas próprias culpas.Talvez o reverendo tivesse algum cúmplice fora da cadeia. LOCAL DESCONHECIDO O homem movimentava-se pela sala. Um sorriso maléfico estampava- se em seu rosto. Mas dessa vez não pegou o chicote. Simplesmente deitou-se no colchão e fechou os olhos. Começou a recitar algo, mas não havia som, somente os seus lábios se mexiam. Após algum tempo, ele pareceu entrar em transe. Ele levantou-se com os olhos fechados e se pôs a caminhar em círculos. HOSPITAL ESTADUAL Maine Mulder estacionou o carro, mas não precisou entrar no prédio. Scully o esperava do lado de fora, sentada num banco, com olhar perdido. Ela se levantou e caminhou até ele. _ Terminou ? _ ele perguntou ao vê-la sentada ao seu lado. Ela afirmou com a cabeça, mas não disse nada e ele estranhou. _ Algum problema ? Ela não falou nada por alguns instantes e ele não insistiu. Colocaram-se em movimento. _ O que acha que a Sra Collins quis dizer com aquilo ? _ ela perguntou subitamente. Mulder pensou um pouco antes de responder, mas continuou com os olhos na estrada. _ Sobre o quê ? _ tentou disfarçar . _ Sobre eu não perder as esperanças...Como ela poderia saber o que eu quero ? Ele suspirou e olhou para a parceira que buscava uma resposta nele. _ Dá pra ver em seus olhos o efeito que uma criança tem sobre você, Scully. Não precisa ser nenhum especialista pra perceber o quanto você gostaria de ser mãe_ ele concluiu voltando-se para a estrada. Scully calou-se e passou a mirar o mar lá fora. Começava a chover e em poucos instantes uma tempestade de formou, agitando as águas salgadas e ela começou a sentir-se infeliz. Um sentimento estranho passou a dominá-la. Lembrava-se de alguns momentos de sua vida como se tivessem acontecido há apenas alguns minutos, mas a dor era multiplicada por sentir tudo de uma só vez. Sua abdução, a morte de Melissa, sua esterilidade, seu câncer...Emily. Seus olhos encheram- se de lágrimas e ela começou a sentir-se sufocada.Precisava sair dali. A angústia aumentava a cada segundo. De repente, o mar lá fora parecia o local ideal para se estar. Mesmo que as ondas estivessem escuras e a chuva caísse pesadamente. Ela queria sair. A estrada que levava à residência de Chris Collins era bastante deserta. Ela corria paralela à orla marinha e era basicamente, uma vila de pescadores. Era um local agradável para se passear, mas não tinha muita infraestrutura. Aqui e ali, viam-se algumas casas, porém, durante a tempestade as ruas estavam vazias. Ainda demorariam para chegar ao local desejado e Mulder já havia notado a mudança da parceira. Sentia-se culpado. Acreditava ter feito tudo o que era possível para devolver-lhe o sonho da maternidade, mas, esgotadas as possibilidades, tinha achado melhor deixar o assunto cair no esquecimento, embora soubesse que nada a faria esquecer disso, sobretudo quando ele a via ao lado de alguma criança. Ele não teve tempo de prever a atitude dela. Ao parar num cruzamento, tudo o que pode fazer foi virar a cabeça assustado para acompanhar com os olhos sua parceira saindo do carro e partindo em desabalada carreira em direção ao mar, em meio à tempestade. Mulder apenas jogou o carro para fora da estrada e demorou somente o tempo necessário para se livrar do cinto e correr atrás dela. _ Scully !? _ ele gritava sem entender. Mas ela não o ouvia, estava adentrando o mar. A água já alcançava seus joelhos e uma onda mais forte a derrubou. Mulder se desesperou. Para sua sorte, ele podia correr muito mais rápido que ela, devido ao tamanho de suas pernas e antes que as águas a tragassem completamente, ele envolveu-a pela cintura e a ergueu nos braços. _ Scully ? _ ele exclamou _ Pelo amor de Deus o que está fazendo ? Está me escutando ? O que há com você ? Só então ela pareceu voltar a si. Fitou-o com olhar perdido e começou a tremer e a chorar ao mesmo tempo, completamente encharcada. _ Eu..._ ela balbuciou _ Não sei...havia alguém...uma voz e... Mulder sacudiu a cabeça e a abraçou forte, saindo da água. _ Depois falamos sobre isso _ ele murmurou _ Você está gelada. Estavam ambos ensopados ao chegarem na pista novamente, um pouco mais pra frente de onde haviam deixado o carro. Mulder não poderia demorar muito para livrá-la daquelas roupas molhadas porque ela parecia ter entrado em choque. Murmurava frases sem sentido e ele respirou aliviado quando viu o motel alguns metros à frente de onde estavam. Nem pensou em voltar para buscar o carro, apertou-a nos braços e o atendente não sabia o que fazer quando o viu chegar. _ Depressa _ ele gritou autoritário _ Preciso de um quarto com água quente, agora ! O rapaz pegou o molho de chaves e levou-o até um dos chalés enfileirados do outro lado do pátio. Entraram e Mulder colocou a parceira numa poltrona, tirando a insígnia do bolso e acompanhando o outro até a porta. _ Preciso de um médico . _ Não há médico aqui na vila _ ele explicou _ Deve demorar pra chegar. _ Arranje um _ ele concluiu fechando a porta. Voltou até a parceira e viu que ela tremia, fechando os olhos. _ Não durma Scully _ ele falou preocupado, correndo para encher a banheira. Voltou ao quarto já sem camisa e começou a tirar a roupa dela com ar preocupado. _ Scully, fale comigo. O que aconteceu ? _ ele insistia, vendo o corpo da parceira ser sacudido por tremores. Ele a levantou nos braços e a mergulhou na banheira de água quente, enquanto ela se abraçava aos joelhos. Ele ajoelhou-se ao seu lado e apoiou as mãos em suas costas. _ Deite-se, precisa se aquecer. Scully se deixou conduzir. Estava confusa, alheia. Sentia apenas uma das mãos do parceiro em suas costas e a outra em seu rosto e sobre os cabelos. Minutos depois, ela a tirou de lá, envolvendo-a num cobertor e colocando-a na cama. Depois ele mesmo voltou ao banheiro, enxugou –se e voltou para junto dela. _ Você ainda está fria_ ele falou tocando-lhe a face. Deitou- se ao lado dela e trouxe-a para junto do peito _ Venha, eu vou te aquecer_ continuou, esfregando-lhe o corpo por cima do cobertor_ Apenas não durma. Não precisa falar sobre o que aconteceu. Conte-me alguma coisa de você _ disse erguendo-lhe o queixo_ Não pode dormir. Diga-me, o que você gostava de fazer na faculdade... Como se chamava seu namorado... Scully, diga alguma coisa . _ Não sei o que era Mulder _ ela murmurou _ Não lembrar o nome do namorado é comum, Scully. Agora não saber o que ele era, é bem mais complicado. Ele era tão terrível assim ? _ ele brincava para incentivá-la a falar. Scully esforçou-se para sorrir, mas sentiu um calafrio ao lembrar-se do ocorrido. _ Havia uma voz, como se estivesse dentro de mim, como se comandasse meus passos e...foi horrível. Ficava me fazendo lembrar das pessoas que sofreram por minha causa _ ela contou, recomeçando a chorar. Mulder apertou-a mais e alisou-lhe os cabelos. _ Não pense nisso, Scully. Esqueça. Foi um sonho ruim. Você está muito impressionada com esse caso. Talvez devesse voltar para casa. _ Não vou embora, Mulder. Não enquanto não tiver certeza de que aquelas pessoas ficarão bem. Eu...foi tão estranho. Era como se eu estivesse sendo conduzida, alguém que tivesse ascendência sobre mim. Eu via o que estava fazendo, mas não me sentia com forças para impedir, parecia certo fazer aquilo depois do que eu fiz com as pessoas ao me redor. _ Scully precisa parar. Nada do que aconteceu até hoje foi culpa sua. Você apenas queria a verdade. Eles não só a afastaram de nós, como nos fizeram acreditar que somos os responsáveis. Não pense assim, você fez tudo o que podia para ajudar, por favor, não se culpe. _ Se você não estivesse lá, provavelmente eu teria mergulhado no mar e..._ ela suspirou_ O que é isso Mulder ? O que estão fazendo conosco ? _ Estão tentando nos enfraquecer, parceira. Mas não vão conseguir, não é ? Acalme-se, por favor, não pense mais nisso. Ela permaneceu quieta por vários minutos. Ele descia as mãos pelos braços dela, voltava a subir até chegar aos cabelos e ela se acalmou. _ Estou bem agora, Mulder _ ele voltou a falar _ Juro_ continuou encarando-o_ Foi apenas uma loucura..._ ela não completou. _ Não quero vê-la se arriscando Scully. Se este caso está mexendo assim com você, é melhor que vá embora. Não estará me ajudando assim. _ Quem garante que isso vai passar se eu for embora ? Talvez o único jeito de fazer acabar seja pegando o assassino, Mulder. Talvez seja por isso que eu esteja tão impressionada. Seis pessoas já foram mortas e nós não temos nada. _ Tem certeza de que ficará bem ? Quero que fique perto de mim. Não vou tirar os olhos de você até esse caso terminar. O susto havia passado. O corpo dela estava quente novamente. Ele estava quente, embora ainda estivesse com as calças úmidas. O calor de ambos começou a espalhar-se sobre o lençol e ele tranqüilizou-se. _ Estou bem, comandante_ ela brincou_ Não vou me afastar. Mulder a fitou com uma expressão irônica e terna ao mesmo tempo. _ Admita, Scully. Você levou a sério aquela estória de eu te dar banho e colocar pra dormir não foi ? Ela sorriu e desviou os olhos para a porta ao ouvir o toque. Mulder levantou-se para atender o recepcionista ao lado de outro homem que ele adivinhou como sendo um médico. _ Não preciso de médico, Mulder _ Scully resmungou, sentando- se e segurando o cobertor sobre o peito. _ Quero ter certeza, Scully. Se estiver bem, seguiremos, caso contrário, pegaremos o primeiro vôo para Washington. Vou buscar o carro. _ Está chovendo . _ Já estava quando você entrou no mar _ ele corrigiu _ Não posso me molhar mais do que isso. Já volto. Após obter a informação de que a parceira estava bem, Mulder a obrigou a voltar ao hotel para trocar de roupas, enquanto ele seguia até a casa de Chris. Desta vez, Scully não teve argumentos, ele era o lado racional e ela foi obrigada a voltar com o médico para a cidade. RESIDÊNCIA DE CHRIS COLLINS Não havia ninguém em casa e Mulder não se sentiu constrangido por entrar sem autorização. Foi ao andar superior e, num dos quartos, estranhou a quantidade de livros. Passou os olhos sobre os títulos e viu muitos relacionados à psicologia, domínio da mente, hipnose e coisas do gênero. Mais ainda, havia diversas obras sobre a Igreja Católica, a Inquisição e assuntos sobre tortura e similares. Ele sentiu-se desconfortável. Talvez Scully tivesse razão. Ele poderia estar se utilizando de algum dom especial para ferir as pessoas que o machucaram na infância. Abriu uma das gavetas e o que viu deu-lhe a certeza de que Chris era realmente culpado. Havia uma pasta com artigos de jornal, falando sobre os crimes, uma reportagem mais antiga, contando sobre uma das vitimas e, por último, algumas paginas amareladas que descreviam as atrocidades ocorridas há vinte e cinco anos atrás. Uma foto no cemitério mostrava algumas freiras e crianças e, em destaque, a imagem de Chris Collins, apontado como a última vitima do reverendo, cujo perfil aparecia marcado em vermelho, na mesma reportagem. Numa caixa também estavam um crucifixo de contas brancas, mas com manchas vermelhas que ele deduziu com sendo sangue. Por último, ele viu um exemplar de bolso do Novo Testamento, amarelado e surrado pelo uso. Mulder caminhou até o quarto e revistou o armário no closet. Numa prateleira alta, ele descobriu uma caixa. Dentro dela havia uma batina negra e ele entendeu tudo. Ouviu um barulho no andar de baixo e repôs rapidamente a caixa no local. Tomou a pasta e desceu as escadas com passos largos. Porém, tombou desacordado quando sentiu algo bater em sua nuca. HOTEL PORTLAND York Village – Maine Scully chegou ao hotel e trocou de roupas, tentou falar com o parceiro, mas o celular estava fora de área ou desligado. Ela esperou alguns minutos e voltou a ligar, mas nada aconteceu. Estava cansada, começava a anoitecer e era bem provável que Mulder estivesse vigiando a residência de Chris. Pediu ao delegado que verificasse já que ela estava sem carro. Não tinha tido tempo de falar com Mulder sobre a autópsia. Havia encontrado uma marca diferente naquele corpo, ou talvez não tivesse reparado nas outras autópsias. Era uma espécie de marca circular sobre o pulso, como pequenas bolas. Talvez uma pulseira de contas que tivesse sido apertada com força suficiente para deixar marcas arredondadas. O tempo deles estava terminando. Havia apenas quatro pessoas e ela achou por bem pedir ao delegado que lhes desse proteção extra. LOCAL DESCONHECIDO Um dor intensa na cabeça era tudo o que sentia. Abriu os olhos devagar, mas o quarto estava muito escuro. Tentou mexer os braços mas eles estavam presos. Ergueu a cabeça ao ouvir o som de passos, mas não conseguiu distinguir ninguém ali com ele. _ Chris não precisa fazer isso _ ele argumentou _ Sei o quanto sofreu durante esses anos, mas isso não vai ajudá-lo a superar, ao contrário, você está deixando de ser a vitima para se tornar o carrasco dessa gente. Eles sofreram tanto quanto você, consegue compreender ? Ninguém respondia, e só então Mulder se deu conta de sua real situação. Percebeu que seus braços estavam presos por suas algemas numa corrente. Estava sobre uma mesa que, sem aviso, foi arremessada longe. Fazendo-o ficar suspenso pelos elos presos a um gancho no teto. Sentiu cada músculo de seus ombros e braços se retesarem ao suportar o peso de seu corpo . Os pulsos sendo feridos pelas algemas, numa posição que o deixava completamente indefeso e dolorosamente machucado. _ Chris por favor, me escute. Logo a policia saberá o que você está fazendo. Não complique ainda mais sua situação. Pense em Meg e nos seus filhos. Podemos encontrar um tratamento adequado para você e... _ Cale-se _ a voz cortou o ar _ Acha mesmo que está em condições de fazer algo por alguém, agente Mulder ? Quantas vítimas você mesmo já fez ? Quanta arrogância acreditar que pode me ajudar quando na verdade não pode fazer nada por você mesmo. Pense em suas próprias culpas. Vou ajudá-lo a se redimir. Você sairá daqui limpo, sua alma poderá ser enviada novamente ao redil do Senhor, redimida e submissa. _ Quem ....? _ Cale-se já disse ! _ a voz interrompeu-o Mulder não teve tempo de pensar. Ouviu um barulho estranho cortando o ar e era tarde para tentar se proteger de alguma forma quando sentiu sua carne sendo rasgada. Soltou um grito dolorido e podia sentir o sangue correndo do corte em suas costas. _ Maldito, desgraçado ! _ ele berrou. _ Isso é bem pouco pelo mal que já causou, meu pobre diabo. Não te dói na consciência ter o sangue de tantas pessoas em suas mãos ? Pessoas que você diz ter amado ? Todas elas mortas por causa da sua estúpida necessidade de saber a verdade. Quer a verdade ? Eu vou contá-la a você. Estão todos mortos por sua culpa, nunca pensou em ninguém além de você mesmo. _ Não é verdade _ ele respondeu em voz baixa _ Tudo o que busquei até hoje foi justiça. _ Justiça ?_ o homem interrompeu_ Você não sabe o que é justiça. Você é um fraco, covarde. O açoite correu mais uma vez pelas costas dele, fazendo seu corpo balançar com o golpe e Mulder travou os dentes para não gritar novamente. _ Você não cuidou de sua irmã e por isso ela desapareceu _ continuava a voz _ Não tente esconder. Eu leio a sua mente como a um livro aberto. Você está cheio de culpa, mas continua fazendo vítimas. A pequena Samantha poderia ter sido feliz se você, com sua arrogância, não tivesse imaginado que poderia socorrê-la sozinho. Tudo o que fez foi observá-la partir. _ Não _ Mulder agora apenas sussurrava. Não sabia se a dor maior vinha dos golpes sobre sua pele ou das palavras mordazes daquele homem que parecia realmente ler sua alma. _ Seu pai tentou ajudá-lo e mais uma vez você falhou . Ele morreu em suas mãos, não foi ? Você não pode protegê-lo e mais uma pessoa se tornou vítima do seu egoísmo. _ Tudo o que eu fiz foi para tentar ajudá-los. _ Ajudá-los ou tentar aliviar sua própria consciência ? Sua mãe implorou para vê-lo e o que você fez ? Continuou obstinado e ela deu cabo da própria vida. _ Eles a mataram _ ele gritou O açoite estalou novamente. _ Não tente me enganar _ o homem vociferou_ Sua última vitima ainda está por vir, não é mesmo ? Vai matá-la igualmente, antes de tirar tudo o que ela possui de bom. Já lhe tirou pessoas que ela amava. Já a fez desejar a morte tantas vezes...O que mais vai tirar dela? Mulder pareceu recobrar o sangue frio. Se ele realmente podia ler seus pensamentos era sobre a parceira que ele estava falando e, mesmo que tivesse que morrer ali, sob o chicote daquele homem, não o deixaria machucar Scully. _ Foi você que a fez entrar no mar, não foi ? Seu desgraçado. Se se aproximar dela eu mesmo o mato, entendeu ? Não ouse se aproximar dela! _ Você deve pagar por sua insubordinação_ o outro interrompeu _ Falta-lhe disciplina, filho, regras são para serem seguidas e não violadas. Sua inconseqüência já fez muitas vitimas. Mas agora eu estou aqui e vou ensiná-lo. Você há de aprender, garoto. E a tortura começou de fato, as palavras daquele homem penetravam o espírito ferido de Mulder. Sim, ele se sentia culpado, sempre se sentira assim, desde o desaparecimento de Samantha. Aquele homem podia entrar em sua mente e ler no mais recôndito tudo o que ele lutava desesperadamente para manter adormecido. Todas as culpas que, se viessem a tona, acabariam por enlouquecê-lo. Ele não precisava usar o chicote em seu dorso, ao contrário, Mulder teria preferido ser açoitado sem piedade do que ouvir ao discurso que aquela voz fria e eloqüente jogava sobre ele. Lembrava-se agora de que, mesmo quando Samantha vivia com eles, sentia-se responsável pelas intermináveis discussões de seus pais. Para uma criança, qualquer desavença dentro de seu lar estaria forçosamente relacionada a ela e para Mulder não era diferente. Ele não conseguiu manter os pais unidos após a abdução da irmã. Tampouco sentiu-se amado naquele lar e por isso, se escondeu de todos. Estudar fora foi a melhor opção para sair do inferno vivido dentro de casa. Encontrar os Arquivos X pareceu-lhe a oportunidade de se redimir junto aos seus pais. Encontraria a irmã, mas, ao contrário, perdeu o pouco que ainda tinha. Havia conquistado uma aliada, mas ela também sofreu as conseqüências de aproximar-se dele. De certa maneira, ele a havia feito perder a irmã, havia tornado-a estéril e feito com que se expusesse aos mais diversos riscos para socorrê-lo de sua impetuosidade e imprudência. Mulder apertava os dedos ao redor da corrente, enquanto a voz discursava monotonamente sobre todos os seus medos, abrindo- lhe o peito para mostrar-lhe o quanto ele havia se aprisionado dentro de si mesmo afim de continuar obstinadamente sua busca. _ Pare _ ele murmurou por fim_ Deixe-me em paz. Eu não pedi por isso. Eu não queria machucá-los. Pare com isso . Ouviu o som da risada ecoando no ar. _ Temos tempo, meu caro. Ainda não se arrependeu do que fez. Você não tem fé. Nada em que acreditar, mas quando eu terminar estará implorando a misericórdia divina. A silencio envolveu o local. Mulder perdeu os sentidos antes que a voz terminasse de falar. Estava exausto. York Village – Maine Scully alugou um outro carro. Mulder ainda não havia aparecido e ela começou a estranhar. Ligou novamente para o delegado e ele atendeu na casa de Chris. _ Agente Scully, seu parceiro não está aqui. A Sra. Collins acabou de chegar , ela disse que entraram na casa, porque ela deu falta de alguns papéis em sua biblioteca. Mas o marido não apareceu e ela se recusa a dizer aonde ele está, se é que ela sabe. Ele não apareceu no trabalho, mas não levou roupa alguma e...espere. Após alguns segundos ele voltou ao telefone. _ Parece que há algumas gotas de sangue no carpete, junto à escada...ela não sabe de onde vem e... _ Estou indo _ Scully interrompeu-o _ Mande fazer uma busca detalhada na casa e não deixe que a Sra. Collins saia daí. Trinta minutos depois, Scully parava em frente à casa. _ Sra. Collins _ ela começou após falar com o delegado _ Pessoas inocentes estão morrendo. Seu marido pode estar por trás desses assassinatos... _ Não foi ele _ ela cortou _ Eu pedi que ele fugisse. Não vê ? Ele irá pegá-lo se souber onde está. Ele o tem perseguido durante toda a vida. _ Ele quem, Meg ? _ O reverendo...eu consegui afastá-lo, mas vocês apareceram e tudo recomeçou. Vai matá-lo se souber onde está ! _ Ninguém irá matá-lo, Meg. Meu parceiro desapareceu e deve estar com Chris. Ele vai morrer se não o encontrarmos. Seu marido precisa de tratamento. Precisa nos ajudar. _ Vocês não entendem... _ O que não entendemos, Meg ? Onde está o seu marido ? Pense nos seus filhos, pense em você. Nó iremos encontrá-lo com ou sem a sua ajuda. _ Eu pedi que ele não me contasse. Assim o reverendo não poderia entrar em minha mente. _ Com assim entrar em sua mente ? _ Quando conheci o Chris, ele estava quase enlouquecendo. Eu o ajudei. Conseguimos afastar o reverendo... _ Meg, não estou entendendo. Explique melhor. _ Chris foi meu paciente quando estava na penitenciária do estado. Estava completamente perturbado e eu o ajudei. Ele dizia que todos o estavam perseguindo. Todos os seus fantasmas da infância, sobretudo o reverendo. Ele o encontrou na cadeia e aquele monstro disse que iria se vingar. Disse que podia entrar na mente dele e saber de tudo o que ele pensava. _ E o que ensinou a ele, Meg ? Como ele conseguiu fazer o que fez àquelas pessoas ? Os livros na biblioteca, acredita que ele possa controlar mentes ao ponto de matá-las ? _ Não foi ele. Está apenas se protegendo e tentando proteger os outros. O rádio do delegado tocou. _ Como não encontraram nenhum deles ? Scully parou para ouvir a conversa. _ O que foi delegado ? _ Parece que os outros Collins desapareceram. _ Como desapareceram ? Não estavam sob vigilância ? _ Meus homens não tinham ordens para interceptá-los. Eles só vigiavam as residências. Parece que todos saíram. Encontraram-se num bar e depois sumiram. Scully voltou-se para Meg. _ Para onde eles foram ? _ perguntou enfática. _ Não posso lhes dizer. _ Meg, aquelas pessoas correm risco de vida. Se acredita que Chris as está ajudando, como pode ter certeza de que todos não serão levados ao reverendo ? Como pode saber se ele não entrou na mente de algum deles e Chris os está conduzindo à morte. Por um momento, Scully viu dúvida nos olhos da mulher. _ Sei que é psicóloga treinada e deve saber como pessoas com mente perturbada podem ser sugestionáveis. Talvez Chris ainda não esteja forte o bastante. Talvez ele pense que está ajudando, quando está acontecendo o contrário. _ Seu parceiro está com ele, agente Scully. _ Como ? Meu parceiro está com quem ? Com Chris ? _ Com o assassino _ ela respondeu com olhar distante _ Ele precisa de você. _ O que está dizendo ? _ Scully avançou sobre ela, segurando- a pelos ombros _ Seu marido vai matar meu parceiro? Por quê ? Onde ele está ? A mulher começou a chorar. _ Sinto muito _ disse simplesmente _ Ele permitiu que sua mente fosse violada. _ Onde ele está ? _ Não sei, sinto muito, não sei dizer. O reverendo... _ O reverendo está preso, Meg. Não tente acobertar seu marido. Scully saiu da casa. O desespero começou a alojar-se dentro dela. _ Mulder onde você está ? _ murmurava, enquanto tentava falar com ele no celular, sem sucesso. O delegado saiu atrás dela. _ O que acha que está acontecendo ? _ ele perguntou. _ Acho que de alguma forma, Chris está fazendo isso. Não sei que tipo de tratamento a mulher dele fez, mas acho que só aumentou sua psicose. Ele se sente ameaçado por essas pessoas e está eliminando-as uma a uma. _ E o reverendo ? _ Não sei, ele está preso. Como poderia saber onde estava meu parceiro? O que encontrou na casa ? _ Havia uma batina numa caixa , uma bíblia e um terço manchado de sangue. Scully ficou lívida. _ Deixe-me vê-lo. O delegado entregou-lhe o cordão de contas brancas e, pelo tamanho delas, Scully quase pôde deduzir que eram do mesmo tamanho das marcas encontradas no corpo que ela examinou. Voltou a casa quase correndo e encarou a outra mulher. _ Senão me disser onde ele está agora, vou mandar prendê-la como cúmplice, Meg. Onde Chris levou aquelas pessoas ? Meg começou a chorar. _ O convento _ ela murmurou_ Chris disse que lá as irmãs os protegeriam. _ Aonde fica o convento ? _ Scully perguntou ao delegado. _ As freiras foram transferidas para o convento Saint Mary, há uns cem quilômetros daqui. O antigo convento está abandonado. _ Tente falar lá e veja se as irmãs estão com eles. Se não houverem chegado, diga-lhes para recebê-los e não dizerem nada até chegarmos. Ligue com o presídio e peça para reforçarem a segurança do reverendo. Meg _ ela continuou virando-se para a mulher _ Tem um outro lugar para ficar ? Meg balançou a cabeça positivamente. _ Ótimo . Pegue seus filhos e vá para lá. Faremos o possível para que ninguém mais se machuque. _ Você não entende, agente Scully _ Meg falou _ Meu marido e seu parceiro correm perigo. Precisa afastar o reverendo. _ Ele está preso, Meg. _ Ele não precisa estar em liberdade para matar essas pessoas. Ele usa somente sua mente. _ Isso não faz sentido. Me desculpe, sei que está preocupada com seu marido. Faremos tudo para trazê-lo em segurança. O delegado interrompeu a conversa. _ Agente Scully, eles ainda não chegaram ao convento. Podemos tentar interceptá-los antes. _ Ok_ ela concordou_ Mande seus homens cuidarem da casa, façam uma revista.Espere a resposta do presídio e depois siga para lá, vou indo na frente. Scully tinha pressa em chegar. Quando já havia andado uns quatro quarteirões, seu celular tocou. _ Agente Scully, o reverendo foi solto há algumas horas. Está em liberdade condicional. _ Tem o endereço de onde ele está ? _ Sim e você deve estar perto. Fica a dez quadras daqui. Ela pegou o endereço e seguiu para lá, mesmo a contragosto. Encontraria com eles na estrada, mas teria que esperar um policial para manter o reverendo em segurança. Chegou minutos depois a uma loja e o dono a atendeu solícito. _ Sei que está acomodando um senhor que saiu da prisão hoje _ ela começou. _ Sim, ele ficará aqui. É um sujeito calado e meio esquisito. Reclamou que o quarto não estava bem arrumado e mandou que tirássemos o tapete e as cortinas. Disse que era luxúria _ o homem contou rindo _ Mas não está aqui. Ele chegou após o almoço. Guardou as coisas dele e saiu há umas duas horas. Estava com sua batina e uma sacola. Parecia um soldado. _ Pode me dar a chave do quarto ? O homem a acompanhou e abriu a porta. As roupas estavam na gaveta, tudo organizado e limpo. Ela olhou ao redor e se deteve num álbum de fotos sobre a cama. Eram imagens antigas de uma igreja. Alguns garotos e irmãs de caridade. _ Sabe onde é isso ? _ Parece o convento onde ele morava quando foi preso. Está abandonado hoje. Fica há uma hora daqui. _ Ele não disse nada antes de sair ? _ Eu perguntei, mas ele só me respondeu que iria terminar o que havia começado. Scully agradeceu. Ligou para o delegado. Não havia motivo para mandar um policial ali. Ela saiu e voltou à rodovia. Passou em frente ao presídio e parou pensativa. Não sabia explicar o motivo, mas precisava entrar ali. O guarda que a atendeu parecia totalmente descontraído. _ O revendo ? Ele saiu esta manhã e, quer saber ? Foi um alívio. _ O que quer dizer ? _ Aquele homem era um louco. Durante o tempo que esteve aqui, alguns detentos morreram só pelo olhar dele. _ Não compreendo... _ Ele era o diabo em pessoa, agente. Acredite em mim. Meus companheiros não acreditam, mas eu tenho certeza de que ele podia matar apenas com o olhar. Parecia um padre, mas acho que era um feiticeiro. A cela dele dava medo, ninguém se atrevia a chegar perto, nem o diretor. _ Como assim ? _ Olhe por si mesma... O guarda a levou até a antiga cela do reverendo. _ Mesmo com a libertação dele, ficamos com medo de retirar as coisas que ele deixou. Era um cômodo apertado, extremamente limpo , sem qualquer coisa fora do lugar. O vaso sanitário, a um canto, parecia estar completamente desinfetado e Scully não entendeu. _ Ele era asseado demais para vocês ? _ ela perguntou com ironia. _ Veja as marcas nas paredes _ o guarda indicou. Havia algumas perfurações sobre o cimento, algumas marcas de quadros e, sobre a cama, a imagem de uma suposta cruz. Só que de cabeça para baixo. _ O que são as marcas ? _ Ninguém sabe, mas durante a noite, podíamos ouvir os gritos e os sons que vinham daqui. Achávamos que ele estava se auto- flagelando, como aqueles padres nos conventos, mas ele não tinha um único arranhão. Havia um altar aqui com umas coisas estranhas. O telefone tocou e ela afastou-se para atender. _ Agente Scully ? _ dizia uma voz chorosa _ Sim, quem é ? Meg ? _ Ajude-os agente Scully. Fiquei sabendo que o reverendo foi solto. Ele vai matá-los. Precisa ajudá-los. _ Estamos a caminho do convento, Meg. Vamos encontrá-los. _ Não agente _ a mulher interrompeu _ Ele quer terminar o que havia começado. Não vê ? Ele vai voltar ao convento. Lá ele é muito mais forte. _ Com assim, Meg ? Não entendo. _ O convento abandonado. Ele deve estar indo para lá. Precisa impedí-lo. _ Pode deixar Meg. Estou indo para lá. Scully não sabia direito o que fazer. O delegado já estava indo ao novo convento e se Meg tivesse razão? Achou por bem seguir seus instintos e pegou a estrada que levava ao antigo orfanato. Dirigiu a toda velocidade. Em pouco mais de meia hora ela estacionou em frente ao convento abandonado, no final da rua de uma pequena vila. O mato crescia livremente por todo o local. Trepadeiras cobriam quase todo o prédio dando-lhe um ar ainda mais lúgubre. Não havia iluminação e ela temia que, ao acender a lanterna sua presença fosse notada. Então seguiu com cautela para o interior. O silêncio pairava pesado no ar. Havia um longo corredor que terminava numa escadaria larga que alcançava o andar superior, dividindo-o em dois outros corredores. Era um local muito grande, mas ela não tinha alternativa senão seguir em frente, atrás do parceiro. Passou por amplos salões que deveriam servir antigamente como refeitório, salas de aula ou de trabalho, mas que agora encontravam-se cobertas pela poeira . Ouviu um rangido sob seus pés e percebeu que estava sobre uma espécie de porão. Num dos cantos da sala viu um alçapão e, com cuidado para não fazer barulho, ergueu-o e iluminou a pequena escada com a lanterna, apenas o tempo suficiente para memorizar o local e descer no escuro. Havia algumas velas acesas no corredor úmido que davam uma iluminação assustadora ao local. Eram espécies de celas enfileiradas. Não havia ninguém nas duas primeiras, mas ela pode ouvir nitidamente os gemidos vindos da última porta. CONVENTO SAINT KATHERINE Maine O dia estava chegando ao fim. Mais alguns minutos e o sol mergulharia definitivamente no horizonte, levando com a ele a segurança que seus raios quentes e luminosos traziam a todas as criaturas, dando-lhes calor e esperança. Após sua partida, tudo se tornaria frio e melancólico e, para aqueles cuja vida resumia-se ao passar das horas, tudo ficaria silencioso enquanto a solidão começaria a espreitar na porta de entrada, esperando a chegada daqueles que se enterrariam em seus lares tristes para esperar que o sol viesse resgatá-los de suas próprias aflições. Para uma pessoa em particular, a noite era sinônimo de angústia ainda maior. Estivera sozinho durante toda a sua vida e a solidão já era mais uma companheira do que uma adversária, aprendera a conviver com ela. Mas, na situação em que se encontrava, não sabia se temia mais estar ali, sem ninguém por perto ou se sentir a presença de alguém que ele não podia identificar, sequer podia ver. O som de passos deixou-o alarmado. Era um caminhar apressado que se esforçava para manter-se no anonimato, mas ele o reconheceria em qualquer lugar do mundo e reconhecê-lo trouxe-lhe mais medo do que alegria. A porta rangeu de leve e uma figura pequena, oculta pelas sombras, avançou relutante até ele. Aproximou-se e com muito custo conseguiu suster o grito de apreensão que aflorou em seus lábios. Seus olhos imediatamente ficaram rasos do pranto que ela controlava para não desabar. Chegou mais perto e procurou escutar-lhe a respiração. A imobilidade a qual ele se entregava dava-lhe a fria e angustiante sensação de que já era tarde demais. Mas o estremecimento que sua mão sentiu ao tocar naquele rosto vincado pelo sofrimento deu-lhe a esperança e energia necessárias para agir. Retrocedeu alguns passos e analisou o ambiente. Era uma sala pequena e escura. A única luz vinha das velas sobre um altar, coberto de símbolos e adereços que deveriam ter algum significado para alguém. Não havia janela e o pouco ar que entrava ali vinha do vão da porta e era pesado, úmido e sufocante. Nas paredes, haviam pregos onde se amontoavam instrumentos estranhos e exóticos, mas que certamente serviam apenas como forma de torturar alguém que, inadvertidamente, provocasse a cólera daquele que habitava ali. No meio do cômodo, suspenso pela corrente presa ao gancho do teto, estava o corpo exânime do seu parceiro. Ele não alcançava o chão, que estava a alguns pouquíssimos centímetros dos seus pés. Apenas mais uns dois elos na corrente seriam o bastante para que ele tocasse o solo e pudesse descarregar um pouco do peso do próprio corpo, aliviando os braços que, suspensos sobre sua cabeça sustentavam-no completamente. Para a mente insana de quem havia escolhido aquele método de tortura deveria ser um prazer inigualável ver os músculos tensos, as mãos brancas devido à falta de circulação do sangue, os pulsos sangrando graças às algemas que os envolviam e pensar que uns míseros centímetros poderiam acabar com tamanho suplício. Ela ficou cega de ódio. Iria encontrar o responsável e puní- lo de uma maneira que ele jamais esqueceria. Contemplar aquele quadro causava-lhe estremecimentos e, embora sua análise tivesse demorado apenas alguns segundos, ela já se sentia culpada por se perder em conjecturas enquanto seu único amigo jazia inerte naquele covil. Procurou pelas paredes, algo que a ajudasse a soltar os pulsos de Mulder. Encontrou uma espécie de alicate e voltou para junto dele. Mulder usou suas últimas energias para levantar o rosto e fitar a parceira. Já não tinha certeza se queria continuar vivendo. Os momentos de angústia que o levaram até ali, aliados às dores atrozes que consumiam todo o seu corpo, faziam-no desejar o descanso, o esquecimento, mesmo que para isso fosse obrigado a desistir da luta. Mas, fitar o semblante de Scully sempre lhe dava alento bastante para tentar seguir em frente. Sobretudo quando notava-lhe o desespero estampado nas faces por não conseguir aliviar-lhe a dor, como se ela acreditasse que estava somente em suas mãos livrá-lo e protegê-lo de qualquer sofrimento. No entanto, cabia a ele protegê-la. Ela precisava ir embora. Precisava tirá-la dali o quanto antes. _ Saia daqui, Scully _ ele murmurou num fio de voz _ Antes que seja tarde. Scully o fitou sem conseguir conter as lágrimas. _ Não vou deixá-lo aqui, Mulder. Não me peça isso. _ Ele está vindo, Scully... _ Como sabe ? Quem é ele Mulder ? De repente o corpo dele pareceu contrair-se e ele apertou o maxilar com força, enquanto seu corpo era sacudido por um espasmo. Scully foi jogada a alguns metros, sua arma caindo próxima à porta. E seus olhos não acreditavam no que viam, muito menos seus ouvidos estavam preparados para o barulho que encheu o ar. Mulder mal tinha forças pra gritar. Não havia ninguém mais na sala, mas ela distinguia nitidamente o som de um açoite cortando o ar e, pela expressão dolorosa do parceiro, ela tinha certeza de que era sobre seu dorso que ele corria, lambendo- lhe a pele e cravando-se cruelmente sobre a carne, abrindo sulcos intermináveis sobre o corpo convulsionado, até estalar no chão, enquanto o parceiro tentava recuperar um pouco do ar perdido na tentativa inútil de gritar, mas a agonia estava apenas por começar e Scully percebeu o que viria a seguir. Ela pôs-se de pé como um raio e instintivamente o abraçou, tentando impedir que a tortura continuasse. Não questionava o que estava acontecendo, sentia-o apenas e, embora toda a sua racionalidade dissesse que era impossível , ela só tinha algo em mente : aliviar a dor do parceiro. Estranhamente, seu gesto pareceu surtir efeito. Os sons extinguiram-se, tudo foi novamente envolvido em silêncio. Após alguns instantes, um único barulho podia ser ouvido. Os soluços dela que cortavam o ar, enquanto, num esforço heróico, desprendia os braços dele das correntes, sentindo todo o peso do corpo inerte tombar sobre ela, derrubando-a no piso frio. Ela envolveu-o nos braços e deixou-se embalar pelas lágrimas. O som dos passos vindo no corredor a fizeram recobrar o sangue frio, porém não havia muito espaço para que ela se mexesse, já que Mulder estava debruçado sobre seu colo. Scully viu a arma a distância, mas não teve tempo suficiente para resgatá-la. Os passos estavam em frente à porta, que se abriu com estrondo. _ Saia da frente ! _ um homem alto, vestindo uma túnica negra exigiu _ Terá sua oportunidade de se redimir. _ Quem é você ? _ ela balbuciou, tentando identificar as feições do homem na escuridão, sem ter certeza se era mesmo o reverendo ou Chris, tentando se passar por ele. O reverendo entrou completamente no quarto e Scully não pode evitar um estremecimento ao fixar seu semblante. _ Já disse para sair. Não quero matá-la novamente, mas se não me der escolha, não hesitarei. _ Reverendo Collins _ ela murmurou _ O que está fazendo ? _ Eu o estou ajudando. Ele precisa aprender e eu vou ensiná- lo. Garotos fracos, todos eles _ o homem dizia andando pelo quarto. Foi quando Scully percebeu o chicote nas mãos dele_ Inúteis. Eu sempre disse. Deixe-os comigo, eu sei como educá-los. Mas não, as malditas irmãs, sempre interferindo e olhe agora. Todos culpados, fracos. Eu os teria ajudado. Culpa daquele garoto. Ele vai pagar. Ah. Eu hei de ensiná-lo. Maldito seja. Ele vai pagar . Scully olhou para a arma junto à porta, mas qualquer movimento seu provocaria a reação do padre. Precisava argumentar. Ele estava visivelmente desequilibrado. _ Reverendo, eles estão mortos. Deixe-nos ir. Podemos ajudá- lo. Precisa me escutar. Mas o açoite voou no ar e foi parar a alguns centímetros dela que recuou aterrada, estreitando os braços em torno do corpo do parceiro. _ Pare com isso ! _ ela gritou _ Em breve haverá tantos policiais aqui que você não poderá escapar. Eu o caçarei com a um rato, seu miserável. Não ouse tentar machucá-lo. Uma gargalhada sinistra preencheu o ar. _ Agora está forte, não é ? Eu já a matei uma vez, minha pequena irmã. Você pagou pelos erros daquele garoto insolente, posso fazer o mesmo de novo. Ele é mau, eu preciso livrá-lo do demônio antes que seja tarde demais. Talvez seu corpo pereça mas sua alma será purificada, afaste-se dele ou serei obrigado a corrigí-la também. Sei que não é totalmente inocente. Mulder recobrou os sentidos e tentou afastar a parceira, receando que aquele homem louco pudesse usar o chicote nela, mas Scully não permitiu. _ Scully, afaste-se. Foi ele que te induziu a entrar no mar. Procure ajuda, mas não deixe que ele te machuque. Eu posso agüentar. Vá, saia daqui, enquanto pode _ ele sussurrou. _ Quieto, Mulder. Jamais vou me afastar. O homem se aproximou, seus olhos estavam brilhantes e ele tinha um semblante totalmente transtornado. Ergueu a arma, fazendo rodeios no ar e ia abaixá-la sobre ela, quando uma voz atrás dele o impediu. _ Solte-os, seu monstro! Até quando irá arruinar nossas vidas ? O reverendo girou sobre os calcanhares para encarar Chris. Seus olhos soltando chispas. _ Deveria tê-lo matado naquela época, seu bastardo_ disse crispando os dedos. _ Não vai machucar mais ninguém. Você não tem qualquer direito sobre nós. _ Cale-se ! _ o homem ordenou com os olhos arregalados _ Já corrigi seis de vocês, vou trazê-los de volta ao rebanho e vou dobrá- lo, filho... _ Filho ? _ o rapaz gritou _ Jamais soube o significado disso. _ A Irmã Mary morreu por sua causa, filho. Você a matou _ o reverendo começou a falar com voz mansa _ Se não tivesse sido insubordinado ela ainda estaria viva. _ Não foi culpa minha _ o rapaz sussurrou abalado _ Sua crueldade a matou. _ Não filho, foi você. Eu sinto a culpa em seu peito.... _ Chris, não o deixe dominá-lo _ Scully gritou O reverendo voltou-se para ela e desceu o chicote, mas ele não chegou a atingí-la. Tombou inerte sob o corpo do padre. Scully olhou para Chris que, com a arma em punho, acertara o seu torturador. Depois soltou o revólver e ficou com olhar perdido por alguns instantes. A voz da agente trouxe-o de volta à realidade _ Ajude-me a tirar meu parceiro daqui _ ela falou _ Não se culpe Chris. _ Eu não queria fazer isso_ ele murmurou aproximando-se dela. Eles colocaram Mulder no banco traseiro do carro. _ Fique com ele _ o rapaz falou _ Vai precisar muito de você. _ Ele precisa ir ao hospital _ ela corrigiu. _ Não _ Chris balançou a cabeça _ Precisa falar com ele. Seu corpo logo estará curado, mas se não ajudá-lo, poderá perdê- lo para sempre. _ Não entendo _ Scully falou, apoiando a cabeça de Mulder sobre suas pernas com cuidado. _ As piores dores não deixam marcas no corpo, agente Scully. Ajude-o a se perdoar, ou antes, faça-o entender que não é culpado. O resto do caminho foi feito em silêncio. Scully ocupava-se em vigiar as reações do parceiro que parecia preso a um sonho ruim, acalmando-se quando ela o tocava e murmurava em seu ouvido. Hospital Memorial Maine Mulder permaneceu inconsciente durante toda a noite. Às vezes, ficava agitado, debatia-se e murmurava frases incoerentes. Scully temia que ele ainda estivesse sob o efeito hipnótico do reverendo. Temia que ele não conseguisse sair daquele estado. Seu corpo não apresentava qualquer marca, mas ela sabia que sob a pele havia ferimentos difíceis de serem curados. Meg foi até lá falar com ela. _ Me perdoe, agente Scully. Tinha medo que algo acontecesse ao Chris. Ele é muito importante para mim. _ Eu sei _ Scully respondeu, olhando para o parceiro. Meg a fitou intrigada e sorriu em seguida. _ Eu sei que é médica, agente Scully. Sei que conhece muito mais sobre doenças do que eu. Mas não sabe com o que está lidando. Tratar o corpo dele em nada vai adiantar. Não percebe ? Essas chagas são ilusórias. Nem você consegue explicar como isso foi possível. _ O que quer dizer ? Ele está sendo tratado. Não tenho como explicar o fato de a carne estar ferida sem que a pele seja atingida, mas eu fiz os exames, os cortes estão lá, são visíveis e os medicamentos que eu estou usando devem ajudar a cicatrizá- los. _ Vê como ele se agita ? _ Meg interrompeu _ Você precisa tirá- lo do pesadelo. Precisa ajudá-lo a aliviar a dor. _ Eu estou aqui. Que mais posso fazer ? _ Faça-o sentir. Deixe que ele perceba que você está realmente aqui. Converse com ele. Eu achei que estava ajudando Chris com a minha psicologia. Que o estava tornando mais forte, mas o que realmente o salvou foi saber que eu estava lá. Ciência e racionalidade não ajudam a curar mágoas. Ele irá se curar, mas precisará saber que não está sozinho. Apesar de não acreditar realmente no que a mulher lhe dizia, Scully deixou que sua mão vagasse pelo corpo dele. Tocando- lhe os cabelos, acariciando seu rosto, apertando-lhe a mão e ele pareceu acalmar-se. Então ela se lembrou de algo que acontecera anos atrás. Ela estava, tal qual ele, cansada e infeliz. Tudo o que desejava era o silêncio e o alheamento, mas bastou que ele pedisse, que demonstrasse o quanto a queria ao seu lado para que ganhasse forças e lutasse para viver. Durante sua abdução ele foi seu elo com o mundo, fizera a diferença entre a vida e a morte e agora ela precisava fazê- lo ver o mesmo. E mesmo no incidente da praia, ela só voltou a si quando sentiu a mão dele envolvendo-lhe a cintura. Se era somente isso o que ele precisava para restabelecer-se, ela sorriu de leve, não havia o que temer. A noite transcorreria serena. Ele ficaria bem, ambos ficariam. Algumas horas depois A pressão adicional sobre seu braço não chegava realmente a incomodar. Transmitia-lhe um calor brando e dava-lhe uma agradável sensação de proteção. Mulder abriu os olhos lentamente. Sorriu ao descobrir o motivo de se sentir tão bem. Os cabelos vermelhos estavam espalhados no travesseiro junto a ele, escondendo parcialmente a face pálida. Podia sentir-lhe a respiração compassada, misturada a dele. Sentia seu cheiro tão próximo que temia se mexer e acabar com o encanto, mas, pensando friamente, ela deveria estar bastante mal acomodada naquela posição, debruçada sobre seu ombro, com uma das mãos envolvendo-lhe o rosto. Era bom demais aquele contato terno sobre a pele, mas não poderia durar para sempre, concluiu triste. Ele estava deitado de lado na cama. Ainda sentia as costas doloridas, mas somente quando ergueu o braço e tocou o rosto da parceira foi que realmente sentiu o quanto estava ainda machucado. Não conseguiu conter o gemido e fechou os olhos com força. Era como se um milhão de agulhas estivessem encravadas no corpo. Scully abriu os olhos imediatamente e fitou-o sem jeito. _ Desculpe _ ela murmurou, com o rosto a alguns centímetros do dele, os grandes olhos azuis atentos e preocupados _ Acho que te machuquei. Peguei no sono sem perceber. _ Não _ ele envolveu o rosto dela com a mão _ Vai melhorar se eu continuar vendo tudo azul assim_ brincou. _ Com está ? _ Como um garoto que acaba de levar uma surra do grandalhão da escola. _ O grandalhão não vai mais te incomodar _ ela sorriu. _ Deu um jeito nele, parceira ? _ Não, mas Chris Collins fez. _ Ele o matou ? Ela concordou com a cabeça. _ Fique quieto agora. É mais difícil tratar de um ferimento que não se pode ver sobre a pele. _ Não sei o que pensar, Scully. Nem sei porque ainda estou aqui. _ Porque eu iria te matar se você morresse. Ele riu. _ Isso é algo que eu gostaria de ver. _ Mas eu não _ ela respondeu séria _ Tinha razão. Ainda não sei como, mas o reverendo matou aquelas pessoas. Talvez com a força do próprio pensamento, não sei. _ Na verdade Scully. Acho que essas pessoas queriam morrer de alguma forma, pela culpa que sentiam. Talvez achassem a punição justa, merecida mesmo. _ Não é assim, Mulder..._ ela começou, levantando-se a andando pelo quarto. _ Ele me disse coisas que me fizeram pensar..._ ele fechou os olhos por um minuto_ Talvez minha busca seja somente por mim mesmo, pra satisfazer meu ego e...eu não tenho poupado ninguém. Principalmente as pessoas que eu amei. Scully voltou para junto dele. Tocou seus cabelos com afeto. _ Não vê que é isso o que ele queria ? Fazer com que você se sentisse culpado por algo que está além do seu alcance ? Mulder