FAN FICTION AUTORA : Sky E-MAIL : selmasky@ig.com.br DISCLAIMER: Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não havendo nenhum interesse lucrativo. CLASSIFICAÇÃO: Drama/Shipper SINOPSE: Mulder está sendo obrigado a fazer escolhas OBSERVAÇÕES: Aguardo um feedback. Por favor, digam o que acharam. HE'S BACK A verdade O local estava envolvido num mórbido silêncio, tudo em volta parecendo clamar por ar, luz, fé e esperança. Uma mulher exausta, trajando as vestes cirúrgicas entrou na sala, arrancando com um gesto cansado o protetor que segurava seus cabelos. Um barulho quase imperceptível se fez ouvir e ela passeou os olhos ao redor. Só então reparou no homem encolhido e silencioso sentado num sofá, cujas mãos enterradas nos cabelos, não escondiam totalmente a face angustiada dele.Aproximou-se e tocou-lhe o ombro. _ Ela é forte, agente. Talvez a pessoa mais forte que eu conheci. Até entrar nessa sala, não conseguia imaginar o que a prende aqui, após tanto sofrimento. Mas agora, acho que posso adivinhar porque ela se agarra tão desesperadamente à vida__ A médica parou um instante, deixando que ele absorvesse as palavras dela _ Conseguimos pulso, a respiração está fraca, ela entrou em coma, mas ainda assim, permanece viva. Um leve sorriso esboçou-se no rosto desfigurado de Mulder. _ Ela vai viver. _ ele disse convicto. Alguns dias se passaram, Mulder havia deixado o hospital apenas o tempo de ir até seu apartamento e praticamente mudar-se para o hospital. O berçário era mantido em constante vigilância e, por ordens expressas de Doggett, um agente permanecia no hospital para assegurar que nada aconteceria a Scully. _ Fox, você deveria ir para casa descansar um pouco, está muito abatido, filho _ Margareth era a última a tentar convencê-lo a descansar. Todos os outros que haviam tentado eram recebidos com indiferença. Ele permaneceu em silêncio. Fitou o semblante da parceira. Correu o olho pelo quarto e respondeu com voz que traía sua emoção. _ Eu a deixei sozinha, Sra. Scully. Em todas as vezes que ela precisou de mim, eu não pude estar com ela. Sua filha já perdeu muito por ficar comigo e eu, ao contrário, só ganhei com a presença dela, inclusive uma filha e... _ E você ainda não foi vê-la, Fox. Não sai desse quarto. Acha que a Dana ficaria feliz por saber que você não quer conhecer sua filha? Mulder levantou os olhos agoniados para ela. Margareth sabia o quanto aquilo o torturava, mas era preciso tentar fazer alguma coisa para tirá-lo daquele torpor. _ Eu...Não posso, Sra. Scully. Eu já tentei, mas não posso fazer isso sem ela _ disse, fitando Scully _ Não seria justo. _ Mas Fox, ela é sua filha e de Dana. Sabe o quanto ela se magoaria se você recusasse essa criança... _ Eu não a recusei, só que..._ ele escondeu o rosto entre os braços, sobre o leito de Scully e não disse mais nada. Margareth respirou fundo e abaixou a cabeça, aproximando-se para passar as mãos sobre os cabelos dele e sair sem dizer mais nada. _ Scully, fala comigo _ Ele começou a dizer quando ficou sozinho _ Não abandone a luta agora, por favor. Não sou só eu que preciso de você. Nós temos uma garotinha. Eu a vi apenas por um instante, mas ela é linda como você e...Eu não vou conseguir cuidar dela sozinho, por favor, reaja. "Sinto meu corpo flutuando, vejo cores e ouço sons indefinidos, timbres familiares, mas que não posso identificar. Tento correr até eles, mas meus membros estão entorpecidos. Não sei onde estou, nem para onde devo seguir. Às vezes, tudo se torna completamente escuro e eu tenho medo. Não consigo gritar ou me mover e só lágrimas quentes conseguem escapar à imobilidade. Então ouço esse som e ele é como música em meus ouvidos. Ele trás as cores torna o ambiente mais leve e eu sinto meu corpo levitar. Tento distinguir o que significa, mas minha mente não parece capaz de assimilar e entender . A escuridão envolve-me todas as vezes que começo a pensar em minha vida... minhas escolhas... meus medos...no homem que faz parte dessa jornada e que, estranhamente, a ajudou a chegar ao fim. Sim, ele. Eu carregava algo que só a nós pertencia e ele quis tirá-lo de mim. Por que fez isso ? Por que não compreendeu o que representava pra minha vida o nascimento dessa criança ? E então me entrego ao Desespero, em meio às sombras. Mas aquele som me socorre, me dá alento. Há alguns minutos, percebi que uma claridade começava a se aproximar de mim. Eu a quero, mas ao mesmo tempo, tenho medo de que ela me obrigue a ver a verdade, a encarar minhas perdas. Às vezes, pareço lembrar a sala de cirurgia e de Mulder ao meu lado, mas são impressões confusas, distantes, talvez surgidas da minha necessidade de acreditar em alguma coisa, mas a única verdade é a de que minha filha deve estar morta. Mulder pode ter morrido. Ainda ouço o barulho ensurdecedor dos tiros ecoando no hospital e depois o silêncio. Sei que não posso me esconder para sempre, mas o que me espera adiante? Lá fora? A verdade? Sim, ela sempre esteve lá fora, mas nunca ao meu alcance ou do de Mulder. Quando chegamos a vislumbrá-la, percebemos, tardiamente, que não estávamos preparados para ela. Não medimos as conseqüências. Não avaliamos os riscos até que nos chocarmos com ela e a claridade da descoberta nos cegou, nos feriu e talvez nos mate. Lamento não poder voltar à época em que eu era apenas mais uma, sofrendo da ignorância saudável que a maioria das pessoas possuem que as faz acordar cheias de esperança e fé, acreditando que tudo ficará bem, mas eu sei que nada estará bem. A luz intensificou-se e agora posso distinguir um vulto caminhando por ela. Pela primeira vez, consigo descontrair as feições. A claridade ilumina tudo à minha volta e vejo que não estou só. Será que apenas a menção da palavra fé foi capaz de transformar o ambiente ao meu lado? Não importa. Vejo Melissa aproximando-se, os mesmos cabelos avermelhados, o mesmo sorriso irônico e os olhos desaprovadores voltados para mim. _ O que está fazendo, Dana? Por que está fugindo? _ Não tenho mais nada, Missy_ disse, sem compreender porque ela estava zangada comigo. _ Você não sabe o que tem, Dana. Abra os olhos. Olhe ao redor. Não pode abandonar a luta. Ainda há muito a fazer, pessoas que precisam de você. _ As únicas pessoas que precisavam de mim podem estar mortas. _ Você só irá saber se voltar. Se abrir os olhos e olhar ao redor. _ Eu tenho medo. _ Nada morre, Dana. Eu estou aqui. Papai, Samantha, Emily, todos os seus fantasmas queridos. _ Emily_ consegui sussurrar, sentindo as lágrimas deslizando pelo rosto. _ Nós nos alimentamos do amor de vocês, Dana. Mas nunca de seu desespero e medo. Isso apenas nos afasta. Nós caminhamos ao lado das pessoas, mas não podemos percorrer o caminho por elas. Nossa estrada chegou ao fim e não havia nada que você ou qualquer outra pessoa pudesse fazer porque, embora vocês não saibam, foi o caminho que escolhemos. Volte irmã, termine seu caminho e poderemos nos reencontrar, não agora. Assim você só estará se distanciando de nós. _ Missy, não vá. Não quero ficar sozinha _ lamentei ao vê-la se afastar. _ Então lute, Dana. Tudo novamente mergulhou na escuridão. Mas aquele som que me trazia alento, que me dava paz e segurança, que projetava cores ao meu redor, tornou-se mais forte e, agora, eu já podia distinguir o que me dizia. Ele está aqui _ disse, sentindo-me revigorada de novas esperanças _ Mulder está aqui e chama por mim. Penso que abrir os olhos seja tarefa árdua, mas me surpreendo com a facilidade com que consigo erguer as pálpebras e reconhecer o ambiente e reconhecê-lo em meio ao caos. Ele sempre estará aqui: não há o que temer."". _ Mulder? _ Scully murmura, mexendo os dedos de leve. Um sorriso manso começa a estampar-se na face pálida e torturada do homem sentado ao lado do leito. Mulder mantém os cotovelos apoiados na cama, enquanto busca a mão dela ao lado do corpo. _ Oi _ ele murmura com os olhos úmidos. _ Você está horrível _ Scully fala sorrindo. Mulder não diz nada. Levanta-se, debruça-se sobre ela e, enterrando o rosto em seus cabelos, desata num choro de alivio. Alguns minutos se passam até que ambos voltem a serenar-se. _ Tive medo que me abandonasse _ Mulder falou, beijando a mão que retinha entre as suas. _ Também tive medo, Mulder, mas agora não mais. _ Vou chamar o médico e... _ Não _ ela impediu segurando a mão dele. _O que foi? _ Preciso saber Mulder _ ela respira fundo_ Preciso saber do bebê. Mulder volta a sentar-se, mas não diz nada. _ Ela... Mulder balança a cabeça negando. _ Está viva? _ Scully sorri. Mulder sorri em resposta. _ Você a viu? Ele nega novamente com a cabeça. _ Não a viu? Por que Mulder? Há algum problema com ela. Diga- me. _ Ela está bem Scully. Poderá vê-la quando quiser. _ E você, por que não quer vê-la? Não a quer? Mulder passou os dedos sobre os cabelos dela. _ Antes eu não podia Scully. Não sem você. _ E se eu morresse Mulder? Iria deixá-la sozinha? _ Nós dois não sobreviveríamos sem você, Scully. Ela tocou a não dele. _ Agora eu estou aqui. _ E nós ficaremos bem. Scully não pode ver a filha imediatamente. Estava passando por vários exames. Sua saúde parecia se restabelecer lenta, mas seguramente. A Dra. Matthews pediu a Mulder que fosse conversar com ela e ele sentiu-se imediatamente apreensivo. _ Sente, Sr. Mulder _ disse a médica, assim que o viu entrar. _ Algum problema com Scully? _ Com ela não. Parece que ela irá se recuperar perfeitamente. Mas o bebê... _ O que há com ela? _ Me escute, por favor_ ela disse, levantando-se e colocando os exames da menina no painel _ Vê essa área, próxima ao pescoço? Mulder assentiu. _ A bolsa com o líquido, que estava infectando a mãe, parece estar se rompendo. Ela esteve na incubadora todos esses dias e percebemos que a membrana, que envolve o liquido, está ficando mais fina. Temos medo que o líquido infecte o bebê e ocorra o mesmo que ocorreu à mãe. Mulder sabia que isso não ocorreria, que o liquido fazia parte do sistema da criança era o que a tornava um híbrido e o motivo pelo qual ela era tão valiosa para as pesquisas. _ É possível eliminar essa bolsa? Quero dizer, bloquear a produção do líquido? _ Não sabemos exatamente como se forma essa substância. _ Mas ela não está diretamente ligada ao bebê, ou seja, a remoção não influenciaria o desenvolvimento dela. _ Aparentemente não. A criança é absolutamente normal, mas não sabemos como bloquear o produção disso. _ Pode fazer alguns testes? _ Se você autorizar... _ Faça isso. Mulder voltou ao quarto de Scully. Ela estava sedada, devido aos exames que estava fazendo e ele permaneceu ali, remoendo suas apreensões. A médica voltou a chamá-lo no dia seguinte. Scully insistia em ver a filha, mas Mulder pedira ao médico que a proibisse temporariamente. Queria primeiro saber o que fazer, antes de alarmá-la. _ Não temos como classificar a substância. Aparentemente é como um ácido. Um de nossos técnicos sofreu queimaduras ao manipular alguns exames. _ Eu pedi que tudo fosse feito com equipamentos especiais por causa do risco de contaminação... _ Nós sabemos, mas ele não havia sido informado. _ E como ele está? _ Foi um contato bem pequeno. Não haverá problemas. Mas não podemos arriscar uma cirurgia. Isso pode matar o bebê. Mulder saiu da sala arrasado, sem saber o que fazer. Parou em frente à porta do quarto de Scully e respirou fundo antes de entrar. Não podia exclui- la da decisão. _ Mulder, pode me dizer o que está acontecendo? Eu quero ver minha filha! Por que não a trazem? O que estão me escondendo? Pelo amor de Deus, Mulder! Ela sequer tem um nome! _ Eu já cuidei disso, Scully _ ele disse, aproximando-se e sentando-se na ponta da cama. Tirou um papel do bolso e entregou a ela. Scully desdobrou-o e leu o registro de nascimento da menina. Permaneceu quieta for um minuto e somente depois voltou a fitá-lo. _ Por que fez isso? _ ela murmurou. _ Tinha medo de nunca mais ouvir ou dizer esse nome. Ela sorriu e buscou as mãos dele. _ Obrigada... Dana K. Scully-Mulder. Como vou saber quando estará falando comigo? _ Você sempre será Scully para mim_ ele disse, mostrando seu sorriso de menino. Mas o clima durou apenas um minuto. Mulder voltou a ficar sério, uma ruga de dúvida e apreensão marcando a testa. _ O que tem pra me dizer, Mulder? _ Scully...Você sabe do problema que o bebê tinha. Da substância que ela está produzindo e que estava de contaminando... _ Sei...O que está acontecendo? _ A membrana que envolve o ácido está se rompendo. Acho que, como não pode mais escoar para o seu sangue, está voltando para o bebê. Eu...Sei que é difícil, mas... _ Não me esconda nada, Mulder. _ Ela está se tornando um híbrido, Scully. Só não sei se ficará como Emily ou como Gibson, quer dizer, a toxina matou a Emily, mas...Eu sei que você não acredita... Eu acho que tornou Gibson o que ele é. _ E o que podemos fazer? _ Scully já sentia os olhos rasos de água. _ Não sei. Scully _ ele disse, levantando-se e aproximando-se da janela e olhando para fora, talvez esperando que a resposta pudesse vir dali. _ Ela vai morrer não é? _ Scully murmurou _ Não sei o que dizer, Scully, nem o que fazer, mas não vejo...Não gostaria que ela vivesse como essas crianças. Ela não teria paz e não sei como conseguiríamos protegê- la e...Espera ai... Mulder pareceu lembrar-se de algo. Pegou rapidamente as chaves do carro e beijou a testa da parceira. _ Volto num minuto, Scully. _ Mulder.O quê... _ ela suspirou. Ele já havia saído. Scully não queria esperar para ver a filha somente quando estivesse morrendo. Levantou-se com dificuldade, sentindo tonturas e agarrou-se à cama até sentir- se segura. Caminhou a passos vacilantes e chegou ao berçário. Havia apenas um bebê ali. Não estava mais na incubadora. Dormia serena e ela não se conteve. Deixou as lágrimas descerem livremente enquanto se encostava ao vidro de separação, descendo a mão sobre ele, como quem acaricia alguém. _ O que faz aqui? _ perguntou a médica ao vê-la. _ É minha filha, não é? _ ela murmurou sem se voltar. A médica passou os braços sobre os ombros dela. _ Quer segurá-la? _ Eu posso? _ Scully perguntou, secando os olhos e esboçando um sorriso. _ É sua filha. Entraram e Scully aproximou-se do berço. Fitou a menina por alguns instantes, conferindo e gravando os detalhes dela na mente. Era uma garotinha forte, grande. A pele muito branca e alguns fios dourados emolduravam o rosto pequeno e delicado. Scully debruçou-se sobre ela. Passou os dedos pelo rosto quente e rosado. Tomou-a nos braços com cuidado e começou a embala-la. Aproximou o rosto do dela e sentiu o contato da pela macia da filha. A médica saiu, deixando as duas a sós e Scully pôs-se a falar com a menina serenamente, contando estórias, sussurrando melodias infantis e ela acordou. Seus olhos eram grandes. A cor não podia ser definida, mas eram claros e brilhantes. Elas continuaram ali, se conhecendo, sentindo o contato carinhoso uma da outra e Scully esqueceu o tempo, mergulhando na cálida sensação de que tudo sairia bem enquanto estivessem juntas. Não haveria conspirações, doenças, medos e angustias para afastá- las. Ela precisava acreditar nisso. Era seu único amparo, além da presença fiel do parceiro. Mulder voltou uma hora depois e seu coração disparou ao ver que Scully não estava no quarto. Correu pelo corredor com ar assustado até que encontrou uma enfermeira. _ Dana Scully _ disse apressado _ Ela estava naquele quarto. Devia ter um homem vigiando e... _ Calma senhor_ a mulher interrompeu _ Ela está no berçário com a filha. O segurança está com ela. Mulder correu até lá e estacou ante o vidro de proteção. Seus sentidos foram todos alterados ante a visão de Scully segurando a filha. Sentiu as mãos trêmulas, os olhos úmidos. Não havia como descrever em palavras o que sentia vendo-a ali, segurando a filha, murmurando algo que ele não podia ouvir. Ficou apenas olhando, sentindo o coração apertado, mas não sabia se de tristeza ou alegria. Scully percebeu a presença dele e o encarou através do vidro e somente o olhar que ela lhe dirigiu foi suficiente para restabelecer todas as suas energias. Iria fazer qualquer coisa para mantê-las juntas, não importava a que preço. Scully sorria ternamente e o convidava a entrar. _ Dana? _ falou dirigindo-se à filha _ Esse é o papai. Mulder acercou-se delas e envolveu-as com os braços. Ficaram ainda mais algum tempo com a menina, mas não ousavam se sentirem felizes, um sem número de perguntas presas na garganta sem coragem para saírem. Não podiam sonhar ou fazer planos. Scully voltou para o quarto e Mulder sentou-se ao seu lado. _ Scully... _ Não quero perdê-la, Mulder _ ela o interrompeu _ Não posso. _ Me escute. O Canceroso me deu esse envelope quando te encontrei. Disse que era para o bebê e que eu saberia quando usá-lo._ Ele abriu o envelope e retirou um pequeno frasco _ É um chip igual ao seu, Scully. Talvez nossa esperança esteja aqui, mas teremos que correr o risco ou perdê-la definitivamente. Não sei qual o efeito disso para ela, pode acelerar o processo ou estagná-lo. Teremos que escolher. Scully pegou o frasco, girando-o nos dedos. Não estava certa do que fazer. Tinha tanto medo quanto Mulder. _ O que acha? _ ela perguntou. _ Que não temos opção. Podemos tentar isso ou vê-la vivendo em hospitais pelo resto da vida, sem saber se ela acordará conosco ou não. _ Faça Mulder _ ela disse após algum tempo. A médica não entendeu o sentido daquilo. Scully teve que explicar milhões de vezes antes que ela se convencesse do que eles pediam. O chip foi implantado e agora era questão de tempo para saber quais as reações daquela atitude extrema. Não havia mais nada que eles pudessem fazer. Scully já poderia voltar para casa, mas ela se manteve irredutível. Só sairia dali após esgotar todas as possibilidades de levar a filha com ela. Mulder entrou no quarto apressado. Pela forma como ele sorria, iluminando todo o rosto e espraiando-se ao redor, ela sabia o que vinha lhe dizer e sorriu com ele. . A bolsa estava regredindo. O liquido parecia evaporar e, finalmente, eles puderam respirar aliviados. _ Vamos para casa, Scully. _ Mulder finalizou. " Minha incursão no passado permite que tente desatar os nós aos quais minha vida foi amarrada. Nessas estranhas malhas, destinadas a me perder, machucar, enlouquecer, mas que formaram a trilha segura pela qual caminhei até hoje. Um ponto indefinido e iluminado permaneceu como meu guia, não sei se o desespero na busca pelas respostas ou se o suave e determinado brilho nos olhos de alguém que hoje é mais do que poderia expressar, como um uma chama aquecendo num dia frio de inverno. E envolto nesses estranhos fios que eu arrisco a chamar de destino e que talvez não passe de um obstinado desejo de saber, eu cheguei até aqui, onde me encontro agora. Meus olhos repousam sobre você. Deslizo meus dedos pelo seu corpo pequeno e delicado, com medo de machucar sua pele fina e macia. Demoro-me na contemplação de sua face encantadora e inocente, sua tez rosada e aveludada. No imenso azul de seus olhos percebo o quanto estou preso ao seu encanto, não só porque eles representam vida para mim, mas porque trazem imaculadas as lembranças de um sentimento que superou todos os limites, rompeu todos as amarras e se infiltrou em mim avassaladoramente. Como não poderia deixar que esse sentimento abarcasse também a sua presença, fruto de sensações que eu já não me achava capaz de sentir? Suas mãos pequenas que buscam curiosamente tocar meu rosto, aquecendo minha alma, acalentam-me mais do que eu poderia fazer por você Um dia você vai saber o que a sua presença significou para mim... meu resgate... minha redenção. Junto com você vieram a esperança e a fé e talvez eu nunca seja fluente o bastante pra te dizer o que significam essas palavras que, literalmente, conduziram minha jornada e que se personificaram nos passos firmes que caminharam ao meu lado. Mas junto à fé e à esperança, cresceram também sentimentos que me assustam pela intensidade...medo e apreensão. E só percebo que meus braços se estreitaram ao seu redor quando ouço seu gemido leve. Murmuro um pedido de perdão e não contenho o riso. Tão parecidas...até mesmo na maneira heróica e contida de demonstrar desconforto ou dor. Lentamente vejo seus olhos se fecharem e quase a acordo novamente. Não quero perder esse brilho, sua luz. Mas você se aconchega, solta um murmúrio de simples prazer e adormece serena. Sinto-me preenchido de paz, que aquece meu coração. Você confia em mim, entrega-se sem receios ao meu amparo e isso me completa porque apenas uma pessoa penetrou o estranho e confuso mundo dos meus sentimentos e emoções. A mesma pessoa que me fez sentir vivo, honesto, especial; que resumiu, nos contornos suaves que envolvem a personalidade determinada, todos os meus ideais de lealdade, generosidade e amor; que me tomou por completo, dando-me você e permitindo-me fazer parte do seu mundo do qual, eu aspiro, nunca mais sair". _ Mulder? Ele sobressaltou-se ao ouvir a voz de Scully ao seu lado. _ Oi..ahn..nós estávamos conversando _ disse sorrindo. Scully baixou os olhos para a menina que dormia tranqüila nos braços dele e por um momento deixou seu pensamento fugir. "Em vários momentos da minha vida, questionei a validade das minhas escolhas. Muitas vezes me deixei levar ao sabor do vento que me acariciava ou castigava. Vendo- os juntos, porém, qualquer dúvida se dissipa. Sinto o mundo parar, nada se move, os sons se extinguem, as vozes calam seus pensamentos e apenas o pulsar de nossos corações batem em uníssono. Parece só existir esse momento, esse espaço entre os seus braços que antes abrangiam apenas a minha presença e que se alargaram, não muito, só um pouquinho, para incluir esse pequeno corpinho que ele estreita com cuidado junto ao peito. Parecem tão unidos pela similaridade de gênios. Sinto que nela já vive a mesma obstinação e paixão que nasceram dele, desde o modo desesperado como ela lutou para sobreviver, apesar de tudo. E agora estão juntos, reclusos em um mundo só deles. Mundo que, se antes, era feito de medo e pesadelos, hoje parece iluminar-se e renovar- se em sonhos e fantasias. Mas eu sei, tenho a dolorosa certeza de que não poderá durar e isso me entristece ao mesmo tempo que me fortalece. Ninguém poderá nos machucar enquanto estivermos presos nesse mesmo abraço." _ Amanhã volto ao Bureau, Mulder. _ Ainda é cedo Scully, não podemos arriscar. _ Também quero protegê-la. _ Então por que não permanece com ela? Sabe que não poderemos deixá-la sozinha. _ Ela ficará com minha mãe. Já falamos sobre isso. _ E eu não deveria ser consultado? Scully ri do inconformismo dele. _ Está parecendo um chefe de tribo, Mulder _ Scully, não há graça nisso e antes que diga qualquer coisa, não é uma atitude machista minha. Ela precisa de proteção. Não podemos nos afastar dela, não os dois. _ E até quando acha que conseguiremos escondê-la, Mulder? Ele abriu a boca e voltou a fechá-la sem respostas. _ Eu sei o quanto será difícil me afastar dela agora, mesmo que por algumas horas, mas não posso ficar aqui, esperando que alguém venha levá-la, como fizeram com Samantha. Sabe que será de pouca ajuda a presença de alguém ao lado dela. Se eles a quiserem, nada os impedira de levá-la a não ser o nosso trabalho. _ Como assim? _ Precisamos desmascarar essa farsa, Mulder, para dar um futuro tranqüilo a ela e a nós dois. Precisamos estar prontos para ele. _ Acredita na colonização? _ Se acredito ou não, isso não importa. O fato é que existe uma ameaça, que corre tanto no meu como no seu sangue. Seja lá qual for a origem disso, que faz parte da cadeia genética de nossa filha, precisa ser conhecido, estudado, neutralizado. Se acredita mesmo que é de origem extraterrestre, que eles pretendem uma invasão ou colonização, nós precisamos estar prontos para combatê-los... _ A vacina? _ Você já a usou e eu estou aqui. Então precisamos conhecer o inimigo, não interessa de onde ele veio. _ O que quer fazer? _ Vou voltar ao trabalho. Podemos investigar juntos. Agora já temos as respostas. Precisamos aprender o que fazer com elas. A verdade nunca esteve lá fora: ela está dentro de nós e... _ A verdade nos salvará... _ ele completou, fazendo eco aos pensamentos dela. Ele colocou a filha nos braços dela e a puxou para si, fazendo-a sentar-se sobre suas pernas, abraçando as duas a um só tempo, exatamente como Scully acreditava ser a única maneira de sentir-se absolutamente segura. Ele acariciou a face do bebê adormecido e tocou os lábios da parceira. Não havia como retroceder no caminho que eles escolheram trilhar, em busca de respostas, verdades, do conhecimento, ciência, amor. Mas estavam ali, e enquanto pudessem, permaneceriam juntos na estrada. O círculo fechara- se para eles e era uma agradável sensação estar preso nele. _ Acho que salvará a nós três_ ele finalizou. FIM