Graceland FAN FICTION ESCRITA POR: Bellefleur X (bellefleur_x@hotmail.com) DISCLAIMER: Os personagens desta estória pertencem a seus criadores. CATEGORIA: Shipper (troppo, desta vez!) CLASSIFICAÇÃO: NC-17 (pelo menos tentei...) SPOILER: Não há. TIMELINE: Essa estória pode se passar a qualquer momento entre a segunda e a sétima temporada. Eu prefiro imaginá-la lá pelo meio da sexta... SINOPSE: Será realmente que Elvis não morreu? Mulder e Scully estão prestes a ser confrontados com essa e outras verdades, num lugar muito, muito estranho... AGRADECIMENTO: À Graça, pelas idéias que continua me dando e pela estimulante impaciência que tem demonstrado em ler e opinar sobre tudo que escrevo. PAGAMENTO: Em forma de feedbacks (positivos ou negativos) é sempre bem vindo. NOTAS: 1. Essa fic foi escrita para o IV Desafio do site Shipper X. Os temas propostos eram agentes presos em algum lugar estranho ou crossover com filme, livro, lenda, whatever... Por motivos diversos, optei pelo primeiro e saiu isso que se segue... 2. Ok... Não existe um mausoléu de Elvis. É licença poética de minha parte para dar sentido à fic. Na verdade, Elvis The Pelvis está enterrado, juntamente com seu pai e sua avó, se não me engano, nos jardins de Graceland, sua mansão em Memphis, Tennessee, num lugar que recebeu o poético nome de Meditation Garden. 3. Não sou propriamente fã de Elvis. Por isso, talvez, os que se enquadram nessa categoria não venham a gostar muito dessa minha estorinha. Tudo o que posso dizer é que procurei tratar o Rei com todo respeito e que escolhi as canções citadas na fic depois de ouvir muuuiiitas vezes todos os discos de Elvis disponíveis na internet. 4. As canções citadas podem ser ouvidas na Usina do Som (http://www.usinadosom.zip.net/). Procure em [Rádios Pessoais] por uma denominada Graceland criada por Bellefleur X. Suas letras completas podem ser encontradas no site Legends of Music (http://www.legendsofmusic.com/ElvisPresley/lyrics.html). Graceland "Love me tender, Love me sweet, Never let me go..." (Love Me Tender) Juro que se essa música tocar mais uma vez... Não sei... Acho que sou capaz de matar alguém! É a quarta vez, pelas minhas contas, o que deve significar que já estamos aqui, presos nesse mausoléu, a pelo menos umas quatro horas. Se meu relógio não tivesse parado... Ah, Mulder e suas malditas idéias... Visitar o mausoléu de Elvis, ora essa! "Ah, vamos lá, Scully!" ele disse com aquele sorriso sedutor. "Vai me dizer que você nem uma vez desejou ir até lá? Nem que fosse só para conferir se ele está realmente morto ou se foi mais um caso de abdução alienígena...? Hein?" completou, piscando o olho, tão Mulder... "Mulder, eu estou cansada. Quero ir para casa..." respondi meio sem convicção. No fundo, acho que queria mesmo visitar o ídolo dos filmes de minhas tardes preguiçosas depois da escola. "Prometo que vai ser rápido." ele disse com voz suave. "Além disso, sabe- se lá qual será a próxima vez que teremos uma oportunidade como essa de fazer turismo em Memphis às expensas do Governo..." "Ok." acabei por concordar. No fundo, acho que queria levar alguma boa lembrança desse lugar. E uma ou duas horas descontraídas na companhia de Mulder sempre têm potencial para gerar boas lembranças. Afinal, toda essa viagem a Memphis tem se revelado mesmo uma enorme perda de tempo. Um caso de possessão demoníaca, recheado por assassinatos rituais e magia negra, vozes de espíritos e coisa e tal, nos trouxe até aqui. A polícia e o escritório local do Bureau viram-se incapazes de solucionar o mistério e, coincidentemente, ah, malditas coincidências, Mulder acabou por tomar conhecimento do caso e NOS ofereceu para investigá-lo. Com tantas coisas mais importantes para fazer em Washington, lá fui eu para o Tennessee, desperdiçar meu precioso final de semana com autópsias nojentas e sessões espíritas cheias de truques de quinta categoria. Um dia inteiro examinando cadáveres, mais um outro tanto correndo de um lado para o outro atrás do suspeito para descobrir, por fim, que a tal possessão demoníaca fora resultado de uma mente especialmente doentia, uns quantos filmes de terror e, aproximadamente, cinco garrafas de tequila. Sim, isso mesmo. Um homem mau e desequilibrado que, depois de muito bêbado, deu vazão à toda sua loucura, assassinando duas mulheres com requintes de crueldade e alguns crucifixos, estacas de madeira e muito, muito sangue em inscrições apocalípticas e símbolos malucos espalhados pelos corpos das vítimas e paredes do cômodo onde foram mortas. Preenchidas as formalidades de costume, entregue o assassino à polícia local, nossa missão em Memphis estava cumprida e era hora, e já não era sem tempo, de finalmente irmos para casa, tentar aproveitar as poucas horas que restavam do fim de semana. Mas, qual! Mulder, sempre Mulder, e suas idéias brilhantes... E a idiota aqui que não sabe dizer não quando ele exibe no rosto aquele sorriso cheio de dentes e sedução... Mea culpa também, assumo. Mas isso não dá a ele o direito de ficar ali sentado, com aquele ar divertido estampado na cara. Como se fosse a coisa mais engraçada do mundo passar a noite de domingo aqui, trancados nesse mausoléu, ouvindo incessantes vezes as mesmas malditas canções de Elvis que servem como música ambiente desse lugar. Ah, Mulder, tento refrear com toda força a vontade que sinto nesse exato momento de partir sua cara ao meio e tirar esse sorriso idiota daí... "My name should be trouble, My name should be woe, Cause trouble and heartache Is all that I know..." (Danny) Cada vez que ouço essa canção, me identifico mais com ela. Só hoje, acho que já estou umas três ou quatro vezes mais identificado... Coisa mais doida essa que nos aconteceu. Certamente, esse era o último lugar do mundo onde eu imaginaria ficar preso. E, principalmente, com Scully. Lá está ela, sentada encostada na parede oposta, evitando olhar para mim, tentando fingir que nada está acontecendo, que está absolutamente calma e controlada. Mas seus olhos soltam faíscas cada vez que ela os move rapidamente em minha direção, quando pensa que não estou vendo. Sua pele exala irritação e impaciência. Acho que ela me daria uma bofetada agora se isso não fosse macular a imagem de equilíbrio e autocontrole que ela se esforça tanto para passar ao mundo. Pobre Scully. Devia deixar as emoções fluírem mais, de vez em quando. Como eu faço... Ora, a quem você está querendo enganar, Fox Mulder? Não há ninguém ouvindo essa conversa. Apenas você e a sua consciência, seu idiota pretensioso. Desde de quando você é, como quer apregoar, expansivo e sentimental? Logo você, sempre se escondendo atrás de alienígenas e fantasmas do passado, acreditando piamente em estranhos, mas não em seus poucos amigos... Ah, melhor deixar para lá. Mergulhos no self definitivamente não combinam com esse lugar. O fato é que estamos aqui. Presos. Por quê e como isso aconteceu ainda não consegui entender. Foi como se, de repente, todos os outros visitantes e guardas de seguranças e funcionários desaparecessem no ar. A porta se fechou, a iluminação principal se apagou e pronto. Presos, prisioneiros, trancados no mausoléu de Elvis. Ainda tentei forçar a porta, Scully procurou uma saída de emergência. Mas quem colocaria uma saída de emergência em um túmulo? E, aí, o resto aconteceu. Os celulares deixaram de funcionar, os relógios pararam. Tudo muito, muito estranho. Se não fosse muita paranóia de minha parte, diria que estamos vivendo uma experiência de contato imediato. Mas não, não faz sentido. Aqui estamos nós, sob a pouca luz da iluminação de emergência, sozinhos, ouvindo mil vezes as mesmas baladas de amor. Fôssemos outras pessoas, depois de tanto tempo juntos, provavelmente estaríamos desfrutando desse momento romântico único. Mas, qual! Cá estamos nós, recostados em paredes opostas, separadas por dois metros de distância, encolhidos em nós mesmos como duas malditas ostras, separados por um milhão de anos- luz de ressentimentos acumulados. Nos primeiros vinte minutos, mais ou menos, em que estivemos presos aqui, ainda trocamos umas poucas palavras enquanto tentávamos arquitetar um jeito de sair, um meio de nos comunicarmos com o exterior, qualquer coisa. Mas estamos em um túmulo, certo? Onde, é óbvio, não existem janelas, nem saídas alternativas, nem interfones. Para que existiriam, afinal? Para que os mortos aqui enterrados pudessem olhar a paisagem lá fora, saber se vai ou não chover hoje? Ou, talvez, para chamarem a segurança e informar que há dois agentes do FBI, dois dos mais estúpidos deles, trancafiados aqui dentro, conspurcando com seu egoísmo a serenidade de sua última morada? Depois que a compreensão de que não há outra alternativa além de esperarmos que alguém abra esta porta e nos liberte nos atingiu em cheio, como um raio em meio a uma tempestade, o silêncio mais pesado de que tenho notícia caiu sobre nós. Na primeira hora desse nosso solene mutismo, ainda pensei em entabular alguma conversa leve e descontraída para tentar matar o tempo, fazê-lo passar mais rápido. Mas cada vez que eu estava prestes a abrir a boca para dizer algo, o olhar acusador de Scully dardejava em minha direção e a voz me morria na garganta, inibida, assustada. Finalmente, desisti e me conformei com esse silêncio tumular, o que faz todo o sentido do mundo em se tratando de um mausoléu. Tudo ia muito bem, tirei a gravata, desabotoei o colarinho. Cheguei até mesmo a cochilar por uns breves instantes. Mas, então, esse diabinho perverso que se esconde em algum lugar sombrio de minha cabeça resolveu se manifestar. E agora decidi que quero provocar Scully até que ela fique tão irritada que não consiga mais se conter e pule para fora de sua concha. Nem que seja para me dar um tapa. A simples idéia do contato de sua mão quente e macia contra meu rosto é suficiente para me eletrizar. Por isso, a cerca de meia hora, estampei no rosto, o que espero que seja, meu melhor sorriso e fico aqui, olhando para o nada, como se achasse extremamente divertida toda essa situação. E fico esperando. Em algum momento, ela tem que morder a isca. Tomara que não demore muito... "Every time you kiss me I'm still not certain that you love me Every time you hold me I'm still not certain that you care Though you keep on saying You really, really, really love me Do you speak the same words To someone else when I'm not there Suspicion torments my heart Suspicion keeps us apart Suspicion why torture me..." (Suspicion) Me encolho em meu canto e fecho os olhos, tentando dormir. Mas, mesmo com os olhos bem fechados, continuo enxergando em minha frente esse maldito sorriso zombeteiro de Mulder. Ele dança e brinca em minhas pálpebras cerradas, dando alegres cambalhotas, saltitando de um lado para o outro, para depois parar desafiador diante de mim, outra vez. Pode ser pura mania de perseguição, porém começo a acreditar que Mulder está me provocando, querendo me tirar do sério. Se ele apenas imaginasse o quão próximo está de consegui-lo... Engraçado como se pode, tão rapidamente, chegar perigosamente perto de odiar uma pessoa que no segundo anterior era seu melhor amigo, alguém em cujas mãos eu entregaria minha vida... Amor e ódio, diria Chloe, minha companheira de quarto na faculdade, são duas forças de igual direção e intensidade, apenas com sentidos opostos. Chloe e sua mania de engenheira de querer explicar a vida através da Física. Amor e ódio... Às vezes, acho que Mulder não confia em mim do mesmo modo como confio nele. Me parece que aquela velha mística de que eu teria vindo trabalhar nos Arquivos X apenas para contradizê-lo, expô-lo ao ridículo até conseguir invalidar completamente seu trabalho, ressurge, em certos momentos, e o faz afastar-se de mim. E, então, ele resolve inverter os papéis e ficar contra mim. Como agora. Não! De jeito nenhum posso deixá-lo me derrotar nesse joguinho psicológico idiota em que ele está querendo me fazer entrar. Preciso me controlar. Respiro fundo para me acalmar. Tento me lembrar os nomes de todos os estados americanos e de suas capitais. Conto até dois milhões. Qualquer coisa para me abstrair dessa situação e me manter senhora de mim, no controle de minhas emoções. Em vão. Sinto o olhar irônico de Mulder queimando em minha orelha, embora ainda mantenha os olhos fechados com tanta força que começo a vislumbrar manchas brilhantes com formas psicodélicas. Não adianta. Abro os olhos e olho em sua direção, apenas para confirmar o que já sabia. Que, de fato, ele me encara com aquele risinho irritante nos lábios. Não, não era uma peça pregada por minha imaginação. Droga! O sangue começa a borbulhar em minhas veias. Se eu fosse um dragão, certamente estaria expelindo fogo pelas narinas. Preciso me controlar, preciso me controlar... "We're caught in a trap I can't walk out Because I love you too much baby Why can't you see What you're doing to me When you don't believe a word I say? We can't go on together With suspicious minds And we can't build our dreams On suspicious minds..." (Suspicious Minds) Acho que consegui! Ela se ergueu de seu lugar e olha furiosa para mim. Dá um meio passo em minha direção e pára, sem despregar os olhos de mim. Ela vai reagir, vai se desentocar! Vai me xingar, me cuspir, me bater! Que seja! Que venha! Desde que reaja... Apenas um passo nos separa, mas ela não o dá. Fica ali parada por um longo instante, me fuzilando com o olhar. Reforço meu sorriso, tentando fazê-lo mais cínico, irritá-la até que abandone essa pose ridícula de mulher- máquina fria e inabalável. Ela TEM que reagir. Ela se balança sobre os calcanhares. Seus punhos se contraem com força, desenhando claramente os ossos da mão magra contra a pele branca. Me preparo. É agora! Repentinamente, no entanto, ela se vira e caminha na direção oposta, tateando os bolsos do casaco com se procurasse algo, os olhos azuis esquadrinhando o teto. "Fogo!" ela exclama triunfante, parada sob um sprinkler preso ao teto. Remexe os bolsos com mãos nervosas, retirando seu conteúdo e o examinando sob a fraca iluminação. Sua expressão é de desalento, após o minucioso exame dos objetos do último bolso. "Você tem um fósforo, um isqueiro, qualquer coisa que produza fogo?" pergunta sem me olhar. Compreendo seu intento. "Aqui." digo, estendendo-lhe uma caixa de fósforos que apanhei na cafeteria suja onde tomamos o desjejum essa manhã. Ela olha para o sprinkler e depois em torno. Uma sombra de decepção volteja em seus olhos. "Você alcança?" pergunta, ainda sem me dirigir o olhar. Estendo o braço para o alto, fico nas pontas dos pés. Ainda assim, um bom metro e tal ainda se interpõem entre minha mão e o sprinkler candidato a nosso salvador. Balanço a cabeça, desanimado. O rosto de Scully se cobre de frustração, enquanto ela fica olhando fixamente para o dispositivo no teto. Mas espere! Para tudo há uma solução. Me aproximo e a seguro pela cintura, erguendo-a do chão. Ela estremece sob minhas mãos. Olha para baixo e seus olhos encontram os meus. Seu rosto é uma fria máscara de desprezo. Não digo uma palavra, apenas sustento seu olhar. Até que ela percebe que, se estender o braço para o alto, sua mão estará a uns poucos centímetros do sprinkler. A tempestade iminente serena outra vez. Ela tenta acender o primeiro fósforo, mas suas mãos trêmulas o deixam escapar e cair. Com esforço, consegue acender o segundo e o estende em direção ao dispositivo. A chama agita-se no ar e se apaga. Ela acende o terceiro e o quarto fósforos, mas o fenômeno se repete, a chama tremeluz e se apaga, como que soprada por lábios invisíveis. Meus braços e ombros começam a doer com o esforço de sustentar Scully no ar. Ela ainda persiste tentando. Ela nunca desiste... Fósforo após fósforo, a chama se apaga misteriosamente, sem nem ao menos aquecer o sprinkler. Ela me faz um sinal para que a ponha no chão. Obedeço prontamente, meus pobres músculos agradecem o alívio proporcionado pela deposição da carga. "Não... Os fósforos sozinhos não estão adiantando muito." ela diz como que para si mesma, novamente apalpando os bolsos. Pesco de dentro de um de meus bolsos um folheto de informações turísticas sobre Graceland e o estendo a ela, que o toma e enrola em forma de tocha. Com um suspiro, ela acende o último fósforo que restou na caixa e, com ele, ateia fogo à sua tocha improvisada. Num esforço tremendo para meus músculos cansados, suspendo Scully pela cintura novamente, até que a chama da tocha alcance o sprinkler. A chama arde forte contra o metal, nos enchendo de esperança. Porém, inesperadamente, o mesmo misterioso fenômeno se repete e o fogo tremula e vacila, até lentamente se extinguir por completo. Os músculos de meu pescoço parecem agora querer se romper. Chega! Tento colocá-la no chão com todo cuidado que consigo, apoiando o peso de seu corpo contra o meu, fazendo-a escorregar por meu tórax abaixo lentamente. O contato de meu peito com as pernas, o abdômen e os seios de Scully me é extremamente agradável. Quando estamos quase cara a cara, no entanto, minhas forças me deixam e Scully acaba tocando o solo muito mais rápida e violentamente do que era minha intenção e cai, estatelada. "Me desculpe." peço, tentando oferecer minha mão para ajudá- la a se levantar. Não consigo, meus braços pendem pesados e dormentes ao longo do corpo, os ombros paralisados pelas agulhadas de uma cãibra iminente. Só me resta permanecer parado olhando para Scully, enquanto ela, furiosa, tenta se pôr de pé. "Só me faltava essa..." ela reclama, manquitolando em direção ao lugar onde estava sentada antes de tudo isso acontecer. Torceu o pé na queda. "Por que você não avisou que ia me largar no chão, Mulder?" sua voz é áspera. Ah! Agora a culpa é minha? "Meus braços estavam me matando. Não consegui mais sustentá- la. Você é bem pesadinha, sabia?" respondo quase sem pensar, me arrependendo imediatamente do que disse. Pronto! Lá está a tempestade pela qual eu estava esperando. Lá, no fundo do azul dos olhos de Scully, um maremoto se aproxima. Ondas gigantescas começam a se formar em seu olhar e ameaçam me tragar para as profundezas, esmagar-me ossos ao me atingirem. É melhor me preparar para o impacto. "Maybe I didn't treat you Quite as good as I should have Maybe I didn't love you Quite as often as I could have Little things I should have said and done I just never took the time You were always on my mind You were always on my mind..." (Always On My Mind) Subitamente, fiquei furiosa. Furiosa com Mulder. Não com o que ele fez ou disse, com seu sorrisinho idiota, com suas piadinhas bestas. A estes já me habituei com o passar dos anos. O que me enfurece são suas inseguranças, seus medos, os fantasmas atrás dos quais ele se esconde. Como uma criança brincando de pique, ora ele se expõe por um instante, ora se esconde, aguardando que eu me aproxime para fugir em desabalada carreira quando chego mais perto. Suas demonstrações de fraquezas humanas, suas lágrimas, sua dor, sus angústia, são sempre seguidos por sumiços repentinos, correndo atrás de alguma coisa louca em que um ilustre desconhecido pouco confiável o fez acreditar. E quando todas as suas crenças se mostram infundadas e todas as suas esperanças se mostram vãs, ele se esconde por trás daquele ar egoísta de que "o mundo está contra mim, mas eu não me importo". Nunca se abre verdadeiramente, nunca se expõe por inteiro. Sempre vestido pela armadura de sarcasmo que ele julga protegê- lo dos perigos dos sentimentos. Ali está ele, parado de pé diante de mim, me fitando sem expressão definida. O sorriso desapareceu de sua face. Ele espera. Espera por minha resposta agressiva, por uma explosão. Mas não vou dar-lhe este prazer. Não vou tomar parte em mais esse joguinho imbecil. Não vou me deixar manipular por sua psicologia barata. Não desta vez. Sou soberana de minhas emoções, posso dominá-las. Não vou propiciar a ele, o que ele não me dá, uma exibição de fraqueza, estourando como um balão superinflado por suas provocações. Num esforço sobre-humano, engulo a raiva e me calo. Ele me fita, vagamente atônito. Posso ler a provocação em seus olhos. Ele me chama para a briga. Só que, desta vez, não vou aceitar o convite. Vou apenas ficar sentada em meu canto, esfregando meu tornozelo dolorido, sustentando o olhar de Mulder e tentando apascentar minha ira. Ele que saia de sua toca e se exponha, se quiser. "Whether you're riding down a highway Or walkin' down a street It makes no difference, baby I'm gonna love you just as mean 'Cause holdin' your little hand Makes me feel so very nice Anyplace is paradise When I'm with you..." (Anyplace is Paradise) Não acredito, não posso acreditar que ela vai simplesmente se calar outra vez. Onde está seu orgulho, Scully? Reaja! Faça alguma coisa! Grite, chore, me agrida, mas faça alguma maldita coisa! Reaja, Scully, por Deus, reaja! Ela não pode se sentar novamente em seu canto e ficar muda. Como se estivesse tudo bem. Como se nada tivesse acontecido. Como se eu não estivesse aqui. Não pode. Não é justo. Ela não pode ficar ali, estática, me encarando, olhando bem dentro de meus olhos como se não me visse. Me faz sentir tão pequeno, tão insignificante. Subitamente, sou transportado no tempo. Tenho quatorze ou quinze anos e enfureci minha mãe por ter desarrumado o quarto de Samantha. Durante toda a tarde, tentei fazer com que mamãe conversasse comigo. Preciso tanto conversar com alguém... Mas ela não me deu atenção, sempre silenciosa, como tem sido desde que Samantha desapareceu. Passa as tardes deitada no sofá da sala, as cortinas fechadas, os olhos semicerrados, ouvindo tristes árias. Tento, me esforço por chamar sua atenção, fazê-la ver que eu existo. Mas nada parece dar resultado. Então, como uma criança mimada, entro no quarto de minha irmã, mantido tão cuidadosamente arrumado, proibido a mim como um santuário e o profano, derrubando metodicamente cada boneca e cada bichinho de pelúcia de suas prateleiras, arrancando violentamente as cobertas da cama e as atirando ao chão. "O que você está fazendo, Fox?" pergunta mamãe com ar chocado parada na porta. "É o quarto de Samantha..." "Mas ela desapareceu..." eu digo, num daqueles repentes de insensibilidade adolescente, e me arrependo no mesmo instante. A mão de mamãe se congela no ar, sem desferir o tapa que fiz por merecer. Quero que ela me bata, que grite comigo, que me faça sentir que existo outra vez. Mas ela apenas fica parada lá, me fitando com olhar vazio, como se eu não estivesse ali. E, depois, se volta e vai embora, me deixando sozinho novamente. Me faz sentir tão pequeno, tão insignificante, tão solitário... Do mesmo modo que a indiferença de Scully. "Are you lonesome tonight Do you miss me tonight? Are you sorry we drifted apart? Does your memory stray to a brighter sunny day When I kissed you and called you sweetheart? Do the chairs in your parlor seem empty and bare? Do you gaze at your doorstep and picture me there? Is your heart filled with pain, shall I come back again? Tell me dear, are you lonesome tonight?..." (Are you lonesome tonight?) Diante de meus olhos, mudanças foram se processando na expressão de Mulder nos últimos minutos. Desde que me sentei outra vez aqui e o olhei nos olhos, ele não se moveu de seu lugar. A provocação que eu lia em seus olhos foi se dissipando lentamente, dando lugar primeiro a um olhar vazio, perdido. Foi como se, por alguns momentos, ele estivesse longe, muito longe daqui. E a transformação foi, gradualmente, tomando todo o seu rosto. Um véu sombrio baixou sobre seu semblante. O cinza claro de sua íris foi escurecendo até adquirir a tonalidade de um céu de tempestade. O arco audacioso da sobrancelha desapareceu, o maxilar contraído, que reforça a deliciosa covinha em seu queixo, relaxou, retorcendo para baixo os cantos da boca. E, então, foi tomando seu corpo. Os ombros largos encurvaram-se, os braços pendem inertes ao longo do corpo. Ali está ele, de pé, à minha frente, abatido, derrotado. Tão, tão imensamente triste como jamais o vi antes. Meu coração se contrai. Posso jurar que vejo o brilho de uma lágrima no canto de seu olho. Diante de mim, está um Mulder que conheço pouco. Um menino grande, tão sozinho, tão carente. Pedindo para ser posto no colo e acarinhado. Eu pedi por isso, provoquei e, agora, aí está, diante de mim. Um momento de fraqueza. O sarcástico Fox Mulder, mendigando timidamente uma migalha de afeição. Meu coração se contrai. Dói. Amor e ódio, diria Chloe... Um amor sepultado por toneladas de insegurança, negações, ressentimentos mútuos. Meu amor por Mulder. Talvez seja a hora de trazê-lo à tona. "É agora ou nunca!" murmura a voz caliente de Elvis em meu ouvido. Começo a pensar se toda esta estória de mausoléu e espíritos não está começando a me contaminar... Melhor não pensar. Melhor deixar fluir. Dou por mim de pé, em frente a meu parceiro, suas mãos nas minhas. Seu olhar perdido parece não me ver. "Mulder." minha voz sai quase num sussurro. Ele estremece, como que arrancado de seu mundo de sonhos. Ou pesadelos. "Me desculpe..." ele começa. Seus olhos hesitam em fitar os meus. Fox Mulder tem medo! Não o deixo prosseguir. Nas pontas dos pés, calo suas desculpas colando meus lábios aos seus. "É agora ou nunca..." repete Elvis. Que seja! "Kiss me quick, while we still have this feeling Hold me close and never let me go 'Cause tomorrows can be so uncertain Love can fly and leave just hurting Kiss me quick because I love you so..." (Kiss me Quick) Ela me beijou! Tudo está escuro, o nó em meu peito tão apertado que mal consigo respirar. E em algum lugar muito longínquo, julgo ouvir a voz de Scully, chamando meu nome. Em meio à confusão em que está mergulhada minha mente, começo um atabalhoado pedido de desculpas. Nem sei exatamente pelo que me desculpo. Por tudo. Por nada. Pelo que fiz e o que deixei de fazer. Pelas palavras ditas e as caladas. Não sei. Até que, na névoa, sinto o contato de algo quente e macio em meus lábios. E percebo: ela me beijou! Um beijo suave, pétalas de rosa tocando minha boca. Desfruto deste instante breve e infinito, a iminência de seu fim, pairando como uma guilhotina sobre meu coração. Mas me surpreendo: ela continua me beijando! Sua língua quente e úmida desliza suavemente por meus lábios e insinua-se entre eles, pedindo passagem. Não resisto, permito. Sua língua serpenteia provocante em minha boca, acariciando-me, atiçando-me. Não resisto, retribuo. Afinal, ela está me beijando! A sensação é melhor que o melhor de meus tantos sonhos com ela poderia supor. Seu beijo é gentil e exigente, suave e rude, suplicante e imperioso. Tudo a um só tempo. É abrasador. E o gosto de sua boca, que tão longamente imaginei provar, é, simultaneamente, doce e amargo, paraíso e inferno, pecado e redenção. Ela está me beijando! Eu a estou beijando! Não um daqueles beijos como tantos que trocamos, inocentes, temerosos. É um beijo de verdade, terno e ardente, como se troca com quem se ama. Tão longo e tão intenso que tenho dúvidas se sobreviverei a ele. Subitamente, ela pára e afasta a cabeça para trás, me olhando nos olhos. As mãos largam as minhas e pousam espalmadas em meu peito. Ela vai me repelir. Droga! O que foi que fiz? Será que correspondi com mais ardor do que ela esperava? Será que a feri, que a assustei? A velha insegurança ameaça me dominar. Mas Scully apenas me olha, bem dentro dos olhos. E sorri... As mãos em meu peito deslocam-se até meus ombros, por deixado o paletó, numa gentil carícia por sobre o tecido de minha camisa. Com um único movimento, ela empurra o casaco por meus ombros e ele vai ao chão. Seus dedos ágeis desabotoam-me a camisa e a lançam, também, ao solo. Depois, começam a desenhar descuidados os contornos dos músculos de meu abdômen, de meu tórax. As almofadas carnudas de suas pontas deixam um rastro de fogo em minha pele. Um arrepio gostoso me percorre, do cóccix até a base do pescoço, quando as polpas de seus dedos roçam meus mamilos. Suspiro, deliro. Em instante algum, seus olhos deixam os meus. Tampouco eu consigo desviar meu olhar do seu. E o que vejo nesses belos olhos é o que sempre sonhei ver nos olhos de uma mulher. É o que sempre ansiei ver nos olhos de Scully. Ela me quer! O azul de seus olhos parece querer me tragar, quando ela entrelaça as mãos em minha nuca e captura minha boca e meus sentidos em um novo beijo. Quando afinal recupero o controle de meus braços, envolvo a cintura de Scully, trazendo-a para mais perto de mim. Minhas mãos, audazes, cuidam em puxar sua blusa de dentro do cinto e deslizam incautas pela maciez veludosa da pele de suas costas. Ela estremece sob meu toque, enterrando os dedos em meus cabelos. Sinto o fogo do desejo ardendo-me nas entranhas. É minha vez de interromper o beijo. E a vez de Scully me fitar surpresa. Ouso desabotoar-lhe a blusa com uma das mãos, de baixo para cima, botão por botão, com deliberada lentidão. Minha outra mão traça os contornos angulosos de seu rosto. Ela fecha os olhos, suspira absorta. O último botão cede e a blusa se abre, revelando a pele alva de seu colo, os seios pequenos, escondidos sob o cetim do sutiã, sobem e descem ao ritmo de sua respiração. Contemplo extasiado, os olhos bem abertos na tentativa de captar cada detalhe. Temo piscar e, ao abri-los outra vez, descobrir que tudo não passa de um sonho. Com um movimento, ela despe seu casaco e blusa que escorregam-lhe pelos braços e vão se depositar no chão, ao lado de minhas roupas. Minhas mãos ganham vida própria e pousam na branca pele de seus ombros. Meus dedos brincam pelas sardas que se distribuem desigualmente na superfície macia. Depois, deslizam pelas alças do sutiã cor de creme, desenham-lhe os contornos, percorrem a elevação sob o tecido de onde se destaca agora o contorno dos mamilos enrijecidos. Ela geme quando meus dedos roçam e acariciam os pequeninos botões ocultos pelo cetim. Impaciente, Scully derruba mais uma barreira, desfazendo o fecho e atirando ao chão o sutiã, descortinando os seios arfantes, as auréolas rosadas como flores do campo de cujo miolo se projetam os mamilos retesados. Exibindo- se, oferecendo-se. Para mim. Tomo-lhe os seios em minhas mãos, em minha boca, enquanto ela arfa e geme. Por mim. "It's now or never, come hold me tight Kiss me my darling, be mine tonight Tomorrow will be too late, it's now or never My love won't wait..." (It´s Now or Never) Deus, como é bom! Eu já havia me esquecido o quanto! A úmida língua de Mulder que acaricia meus seios, os dentes que mordiscam meus mamilos, as mãos que deslizam por minhas costas, minha cintura, meus cabelos... Um carrossel de prazeres é o que ele me proporciona. Agarro seus cabelos com força, enterro as unhas em suas costas. Gemo, suspiro. A parte baixa de meu ventre me dói. Sinto uma pulsação entre as pernas. Eu o quero! Minhas mãos voam independentes de meu consentimento até a fivela de seu cinto. Momentos depois, não há mais cinto, não há mais calças. Apenas o cetim negro de suas boxers separa sua ereção de mim. Não resisto à tentação e deslizo meus dedos pelo tecido macio, percorrendo toda a extensão de seu membro rígido. O som que sai de sua garganta é gutural, quase inumano. O olhar que ele me dirige é fogo e perdição. A intensidade do desejo revelado por seus olhos me assusta, por um instante. Mas é Mulder. Entregaria minha vida em suas mãos sem pestanejar. Ele toma meu rosto entre as mãos e seu olhar se suaviza. Depois me beija terna e carinhosamente. Como se me pedisse calma. As batidas de seu coração descompassado contra meu peito me revelam, no entanto, que ele, na verdade, pede calma a si mesmo. A pressão de algo rígido contra minha barriga me faz lembrar claramente. Ele me quer. O latejar da carne entre minhas pernas não me deixa esquecer. Eu o quero. Deus, como o quero! Tento me livrar de minhas calças, mas, subitamente, minhas mãos tremem e meus esforços são inúteis. Mulder percebe minha dificuldade e me afasta as mãos, gentilmente, tomando para si a tarefa de eliminar mais essa barreira. Como num passe de mágica, minhas calcinhas e suas boxers também deixam de constituir impedimentos. Observo Mulder por um longo momento, glorioso em sua nudez. Já estivemos despidos diante um do outro outras vezes. Mas desta vez é diferente. Sinto como se fosse a primeira. Contemplo seus ombros largos, seus braços fortes, os músculos bem definidos de seu peito, o abdômen seco, suas longas, quase infinitas, pernas, o esplendor de seu sexo intumescido. Por mim. Vejo em seus olhos que o sentimento é mútuo. Ele me estuda com seus olhos sagazes, percorrendo meu corpo com o olhar, deixando uma trilha de calafrios pelo caminho, provocando uma descarga elétrica onde os olhos se detém. Nos seios, nas coxas, no púbis. Fazemos amor com os olhos... Mas não basta! Eu o quero. Tomo sua mão e o conduzo até o jazigo que se localiza no centro do mausoléu. Numa rápida olhada, leio a inscrição sobre a lápide: "Elvis Aaron Presley Janeiro, 8, 1935 Agosto, 16, 1977" Me desculpe, Elvis... "O amor não espera." Elvis me responde. Deito-me sobre a lápide sem me importar com o contato gélido do mármore com minhas costas. Mulder me observa. Hesita. Olho em seus olhos, toco seu braço, num convite silecioso, numa aprovação muda. E ele aceita. Então, num instante, não há mais Mulder e Scully, não há mais parceiros, nem agentes, nem FBI. Apenas homem e mulher, anônimos, unidos e sintonizados pelo tesão. Os corpos movendo-se em sincronismo, as respirações em uníssono. Bocas e mãos agitando-se, debatendo- se em busca do prazer. Mas, não. Ainda não é isso o que quero. Não quero sexo casual e anônimo. Foi bom, tchau, até mais ver. Não é isso. Quero mais, muito mais. Quero algo para sempre ou por quanto tempo dure mais que a eternidade de um momento. Quero amor. E estanco. E retrocedo. Até que ele não esteja mais dentro de mim. Ele me fita com olhos incrédulos. Os lábios movem-se em palavras mudas. Como um dos peixes de seu aquário. E percebo que há uma nova barreira começando a se interpor entre nós. Preciso ser rápida. "Há algo que preciso lhe dizer antes de seguirmos adiante com isso, Mulder." eu digo, não reconhecendo a agudeza de minha própria voz. Ele ainda me fita, mudo. As mãos se crispam sobre as coxas. Observo seu pomo-de-adão deslocando-se para cima e para baixo, quando ele engole em seco. Vejo a agonia da dúvida estampada em seus olhos. As palavras me fogem, não sei por onde começar. Temo que o que quer que eu diga possa assustá-lo, afastá-lo de mim e de minha vida, arruinar o pouco que temos, que é tanto para mim. Respiro fundo, fecho os olhos, tentando reordenar as idéias embotadas pelo desejo, tentando colocar as coisas em perspectiva. Diga o que tem que ser dito. Coragem, Scully! "Veja, Mulder... Não quero destruir nossa amizade com o que quer que aconteça entre nós. Não posso permitir que algo aconteça, se não pudermos nos encarar no escritório na segunda-feira de manhã." começo a dizer. Sua expressão é de dor. Seus olhos cinzentos têm um brilho úmido. Prossigo. "Não quero que o que está para acontecer entre nós acabe sendo apenas o que parece ser, sexo." Ele continua me fitando, aturdido, como se não entendesse nada do que falo. É... Acho que estou confusa. Que não consigo me expressar direito. Que, como de hábito, estou tornando complicado algo que poderia ser dito de forma tão simples. "Coragem, Dana." murmura Elvis em meu ouvido. Respiro fundo mais outra vez. "O fato é que amo você, Mulder..." consigo enfim articular. "I just can't help believin' When she smiles up soft and gentle With a trace of misty morning And the promise of tomorrow in her eyes I just can't help believin' When she's lying close beside me And my heart beats with the rhythm of her sighs This time the girl is gonna stay This time the girl is gonna stay For more than just a day..." (I just can't help believing) "Amo você." ela disse. Quando pensei que estava tudo perdido, que ela iria voltar atrás, que iríamos acrescentar mais essa mágoa, essa frustração ao nosso rol já tão extenso, ela me diz isto. "Amo você, Mulder." Meu coração bate tão forte dentro do peito que temo que vá explodir. Que exploda! Se eu morrer nesse exato instante, morro feliz. Ela me ama! Façam soar os clarins, façam repicar todos os sinos. Ela me ama! Mal consigo crer em meus ouvidos. Dana Scully disse que me ama! A mim, Fox Mulder, o estranho Mulder, o último dos solitários de plantão. Ela me fita, aguardando. Há um quê de insegurança, de dúvida em seu olhar. Aguarda que também eu diga que a amo? É possível que tenha dúvidas quanto a isso? Se há muito tomei consciência de que a amo desde a primeira vez em que a vi? Naquele dia, quando ela foi entrando no escritório, com seu lindo narizinho empinado e seu ar de "eu não acredito em nada dessas suas baboseiras"... É verdade que demorei a me dar conta, mais precisamente a admitir para mim mesmo o quanto a amo. Mas a amo desde sempre. Como nunca imaginei ser possível amar alguém. Ela continua a me fitar, a insegurança crescendo em sua expressão. "Ora, diga logo, Fox. Não seja cruel." ouço Elvis dizendo em minha cabeça. Com prazer, Elvis! "Compreendo sua preocupação, Scully. Também eu não gostaria de estragar o que temos por causa de uma eventualidade." começo a falar e me arrependo. Não era o que eu queria dizer. Percebo que ela está por um nada à beira de explodir em lágrimas. A voz de Elvis insiste, "Não seja cruel." "E não é isso o que eu quero que seja. Não uma eventualidade." continuo. "Porque amo você, Scully. E sexo, com quem se ama, não é, de modo algum, uma eventualidade." Ela sorri. O sorriso mais belo que já vi. O sorriso de Scully. E me abraça. Enlaçando seus braços em torno de meu corpo, como se temesse minha fuga. Enterrando sua cabeça em meu peito e o cobrindo de beijos. E a abraço em resposta. Afundando meu nariz em seus cabelos e bebendo-lhe o aroma e embriagando-me com seu perfume de mulher. E Elvis continua falando em sua canção, contando sobre a promessa de amanhãs, muitos amanhãs que se revela nos olhos da mulher amada. As promessas escritas nos olhos de Scully. E nos amamos. Sem pressa. Sem interrupções, desta vez. Somos Fox Mulder e Dana Scully, parceiros, amigos, amantes. Fazendo amor como se pela primeira vez em nossas vidas. Ela murmura incoerências em meu ouvido, enquanto exploro seu corpo com minhas mãos, minha boca, meu corpo. E grita meu nome quando as ondas de prazer se abatem com força sobre ela. "Muuulderrr!" ela grita. E eu amo o jeito como ela grita e a amo ainda mais por isso. E a sensação de seu grito ecoando em meus ouvidos, de suas unhas cravando- se em minha carne é tão intensa que, segundos depois, não mais resisto e me entrego ao gozo. "Sculleeee..." grito eu também seu nome, enquanto estremeço de prazer. "Love me tender, love me sweet, never let me go..." canta Elvis no sistema de som pela, sei lá, milésima vez, eu acho. Que importa? Estou deitado sobre o mármore frio da tumba de Elvis. Estou feliz. "You have made my life complete, and I love you so..." cantarola desafinada minha parceira, apoiada sobre o cotovelo, desenhando círculos distraídos em meu peito nu. Ela exibe no rosto uma expressão indefinível em palavras. Ela está feliz. O que será de nós daqui para frente? Não me importa. Como vamos lidar com essa situação? Não sei. O que importa agora é que nada mais será como antes. Não haverá mais recusas, não haverá mais negações. Eu a amo, ela me ama. É o que basta. Carinhosamente, recoloco atrás de sua orelha uma mecha dos cabelos ruivos que teima em lhe cair sobre o rosto. "For my darlin' I love you, and I always will." ela cantarola sorrindo, acompanhando os acordes finais da canção. Ergo a cabeça o suficiente para tocar-lhe a ponta do nariz com meus lábios. Os dedos que brincavam em meu peito deslizam macios até meu queixo. Traçam os contornos de meu maxilar, provocando-me arrepios na pele do rosto tornada áspera pela barba que começa a despontar. Redesenham meus lábios. Sua boca une-se à minha em um beijo terno. O ruído irritante da campainha do celular nos faz quase pular de susto. Nos entreolhamos espantados. "Agente Mulder, é Skinner. Onde você está?" pergunta a voz do Diretor Assistente no aparelho. "É uma longa estória, senhor..." respondo, evitando maiores explicações, enquanto observo Scully vestir suas roupas, sempre com um sorriso nos lábios, sempre cantarolando distraída. Visto-me eu também, um momento antes apenas da grande porta que nos mantinha aprisionados ser aberta de par em par por um aturdido funcionário da mansão. Os raios fulgurantes de sol do dia magnífico lá fora invadem e tomam conta de cada recôndito do mausoléu. Num reflexo, olho de relance para meu relógio de pulso. 10:00 da manhã, ele me diz, todos os ponteiros movendo-se alegremente pelo mostrador outra vez. "Estranho, muito estranho..." digo em voz alta para mim mesmo. "O quê?" pergunta Scully. Aponto seu relógio que também funciona novamente como se nunca houvesse estado parado. "Deve ser um Arquivo X..." ela acrescenta com uma piscadela. "Never know how much I love you, Never know how much I care, When you put your arms around me, I get a fever that's so hard to bear..." canta Elvis enquanto deixamos nossa doce prisão de mãos dadas. "Wise men say only fools rush in But I can't help falling in love with you Shall I stay would it be a sin If I can't help falling in love with you..." (Can't help falling in love) Por que as pessoas têm de ser tão complicadas? Por que fazem dos sentimentos coisas confusas? Por quê, se o amor é tão simples? De todos os casais apaixonados que já passaram por esse mausoléu, creio que este certamente foi o mais problemático de todos. Normalmente, os casais que aparecem por aqui estão apenas aguardando uma oportunidade, um empurrãozinho para ficarem juntos. Basta uma baladinha romântica e bingo! Lá estão eles, jurando-se amor eterno, sorrindo enamorados, trocando beijos e abraços e tudo o mais que convém ao amor. Às vezes, preciso até usar de algum truquezinho barato para conseguir tirá-los daqui ou contê-los para que seus arroubos mais íntimos não sejam exibidos aqui, em público. Mas Fox Mulder e Dana Scully são um caso à parte. Como duas pessoas inteligentes podem se comportar de maneira tão idiota quando o assunto é amor? Como um homem e uma mulher que se amam tão intensamente quanto esses dois puderam passar tanto tempo negando-se, não admitindo esse sentimento? É inacreditável. É irracional. Deve haver algum espírito de pouca luz por trás disso tudo. O fato é que foi difícil, mas consegui! Deu trabalho. Foram necessárias muitas horas de solidão e silêncio e muitos truques sujos e muitos sussurros instigadores ao pé do ouvido, mas consegui. Fiz mais um casal feliz. Não é à toa que sou chamado de Elvis, o Rei do Amor. Muitas das vezes, depois que vão-se embora os enamorados, o amor acaba e os então ex-enamorados o tratam de forma banal. Bastam um copo d'água e uma aspirina e pronto! Estão completamente curados. Mas, então, não era amor o que sentiam. Amor de verdade é uma doença incurável, crônica. A aspirina ameniza a dor, mas não a cura. Amor de verdade é um punhal cravado no coração. O punhal pode ser retirado, mas a ferida que ele abriu não se fecha nunca. Amor de verdade se alimenta dos sorrisos, das alegrias. Mas somente cresce com as lágrimas, com os sofrimentos. Amor de verdade é um jogo no qual não há vencedores nem vencidos. E nem precisa havê-los. Amor de verdade não é disputa, não é competição. Amor de verdade é compartilhar o bom e o ruim, a alegria e a tristeza, o sorriso e a lágrima, sem distinção. Porque amor de verdade é dar sem esperar receber. Porque amor de verdade não se acaba, é para sempre. Bem, belo discurso, mas agora preciso ir. Há outros casais apaixonados por aí, precisando de minha ajuda neste exato momento. Como aquele que vem entrando ali pela porta... "Love me tender, Love me sweet, Never let me go You have made My life complete And I love you so..." F I M