T¡tulo: Fumbling Towards Ecstasy Autora: Alice J. Foster (Fe) Classifica‡Æo: shipper (algu‚m acha que eu escrevo algo a nÆo ser shipper?) Censura: essa ‚ fraquinha. Eu juro, ‚ fraquinha, censura livre. Sum rio: Bem, ‚ depois de Orison. Scully ficou abalada e vai consultar uma psic¢loga do Bureau e pensa em sua rela‡Æo com Mulder. Disclaimer: NÆo sÆo meus, se o Mulder fosse meu, eu obrigaria o DD a tirar aquela foto da x¡cara sem a x¡cara (pelo bem do personagem , ‚ claro)... Devaneios … parte, eles pertencem ao CC, 1013, FOX, etc... O t¡tulo ‚ de uma m£sica da Sarah McLachlan e parte da letra da m£sica foi usada aqui (eu traduzi, mas ficou p‚ssima a tradu‡Æo). Notas da autora: eu dedico essa ao pessoal do f¢rum shipperx. Essa fic foi escrita ap¢s nosso encontro e eu peguei muitos pontos que n¢s conversamos l . Segundo a classifica‡Æo da Paty, ‚ n¡vel m‚dio de glicose (nÆo tem Fox, nÆo tem nada muito melado, eu tentei me controlar). Feedback: Please!!! Por favor gente, s¢ uma notinha, mesmo se for para falar que nÆo gostou. Como diz uma autora que eu nÆo lembro, o que nÆo me mata me faz mais forte. E-mail da autora: alice_j_foster@hotmail.com +++++ "Dana, vocˆ est aqui por que?" As duas mulheres estavam sentadas, uma de frente para outra, Scully num sof desconfort vel com a situa‡Æo. A outra mulher com os olhos fixos em um bloco de anota‡äes, ocasionalmente olhando para Scully. "Vocˆ sabe o porquˆ." "Sim, eu sei, mas vocˆ precisa admitir." "Eu estou aqui porque mais uma vez eu quase morri." "Mas isso nÆo acontece sempre em seu servi‡o?" "Sim. Vocˆ ‚ psic¢loga do Bureau, vocˆ sabe pelo que os agentes passam." "Eu sei, mas como eu disse, eu preciso que vocˆ admita.  um passo importante no processo." "Eu nÆo consigo compreender a razÆo pela qual o Diretor Assistente Skinner me enviou aqui." "Na verdade foi um pedido conjunto do Diretor Assistente Skinner e do seu parceiro, o agente especial Mulder." "O quˆ?" "Dana, eles estÆo preocupados com vocˆ. Por que vocˆ acha que esse seu £ltimo encontro com a morte foi diferente?" Scully suspirou. Ela nÆo poderia se abrir com essa mulher. Mas o peso se tornara muito grande. "Esse encontro foi mais pessoal. Eu novamente perdi minha compostura em rela‡Æo a Mulder." "Dana, vocˆ gostaria de discutir a sua rela‡Æo com Mulder." Scully nÆo respondeu, ao inv‚s disso, manteve seu olhar concentrado em seus dedos, que estavam entrela‡ados em seu colo. "Ok, vamos come‡ar pelo mais f cil." A psic¢loga continuou, nÆo sem antes escrever em seu bloco. "Fale sobre sua rela‡Æo com seus familiares." "Eu nÆo vejo como isso ‚ relevante." "Dana, vocˆ se consultou previamente com a antiga psic¢loga do Bureau, a Dra. Karen Kosoff. Ela tra‡ou seu perfil psicol¢gico. Eu preciso saber se os fatos ainda sÆo acurados ou se eles necessitam ser modificados." "Certo. Desde que eu me consultei por £ltimo com a Dra. Kosoff, minha fam¡lia nÆo teve muitas mudan‡as, meu pai continua morto, assim como minha irmÆ, minha mÆe continua a mesma, presente quando eu pe‡o, meu irmÆo Charlie continua ausente e meu irmÆo Bill continua me questionando, mas ele est mais presente desde o cƒncer." Scully falava, tentando acabar logo com a situa‡Æo. "Aqui est , em sua ficha. O que aconteceu?" "Eu fui diagnosticada h trˆs anos. A misteriosa cura chegou antes que eu morresse." "Misteriosa cura?" "Sim, at‚ hoje nÆo foi encontrada uma explica‡Æo cient¡fica para a remissÆo de meu cƒncer." "O que vocˆ acha que aconteceu?" "NÆo sei. Milagre. F‚. Confian‡a. For‡as desconhecidas." Scully disfar‡adamente colocou a mÆo sobre sua nuca para checar o implante. "Vocˆ tentou se consultar com um terapeuta durante ou ap¢s a doen‡a?" "NÆo. Eu tentei me consultar quando Emily morreu, mas nÆo consegui passar de uma consulta." "Emily?" A mulher consultou as fichas em sua mesa. "Minha filha, Emily." "Filha?" Ela pegou uma pasta. "Aqui est . Mas nÆo consta em sua ficha licen‡a maternidade." " porque eu nÆo soube de sua existˆncia at‚ o momento em que a conheci, h dois anos e meio." A expressÆo da psic¢loga foi de completa incredulidade. "Como assim?" "Ela foi concebida sem meu conhecimento. Eu nunca poderia imaginar que possu¡a uma filha. Se nÆo tivesse observado e analisado os resultados de DNA, eu nunca acreditaria. Eu nunca dei a luz …quela crian‡a, mas ela era minha filha." "Entendo." A psic¢loga disse, mesmo com Scully sabendo que ela jamais entenderia. "Agora sobre o £ltimo incidente." "Eu atirei em um prisioneiro foragido, que fora condenado por necrofilia e que tentou me matar h alguns anos." "Certo. Vocˆ disse que perdeu sua compostura em rela‡Æo ao seu parceiro. O que houve?" "Eu fui fraca." "Isso ‚ normal, Dana. ·s vezes precisamos descarregar nossas emo‡äes." "Eu nÆo posso. Eu nÆo posso deixar que Mulder me veja assim." "Por que nÆo, dana. Ele ‚ seu parceiro, ‚ normal que isso aconte‡a. Todos os parceiros dentro do FBI dividem uma confian‡a para manter-se vivos. ·s vezes essa confian‡a deve ser usada. Vocˆ deve deixar que Mulder veja suas fraquezas …s vezes." "Vocˆ nÆo entende, eu confio em Mulder. Mais do que confio em mim mesma …s vezes. Mas eu nÆo posso deixar que ele me veja com a minha guarda baixa. Vulner vel." "Por que?" "Porque sempre acontece algo. Ou melhor, sempre quase acontece algo." "Como assim?" Scully novamente se fechou. "Dana, o que acontece?" "NÆo quero falar sobre isso." "Certo." A mulher em frente … Scully escrevia rapidamente em um papel. "Eu estou bem." "Certo, Dana." "Pare de falar 'certo', por favor. E o que vocˆ est escrevendo?" A psic¢loga ignorou Scully por alguns instantes. "Dana, vocˆ nÆo quer falar sobre Mulder porque nÆo est pronta. Vocˆ precisa descobrir o que ele significa para vocˆ." "Ele ‚ meu parceiro. Ele me salvou in£meras vezes e eu o salvei tamb‚m. Ele ‚ a £nica pessoa em quem confio." "Mas vocˆ precisa descobrir o que est por tr s disso. Por tr s da rela‡Æo de vocˆs. Eu posso perceber que essa rela‡Æo nÆo ‚ apenas profissional. E vai al‚m de uma simples rela‡Æo pessoal tamb‚m." A mulher pegou o papel no qual estava escrevendo e o entregou a Scully. "Essas sÆo algumas questäes que eu quero que vocˆ responda sobre Mulder. Vocˆ ir respondˆ-la para si mesma. Semana que vem, em uma outra consulta, vocˆ ir me dizer o que descobriu." Scully nÆo respondeu. Estava fitando o papel, sem lˆ-lo. Apenas olhando, observando a folha enquanto tentava colocar seus pensamentos em ordem. "Ok. Eu irei pensar nisso. Mas nÆo posso prometer nada." "S¢ me prometa que ser sincera consigo mesma. Isso j ‚ o suficiente." Scully nÆo respondeu, apenas saiu porta afora. +++++ Ap¢s a consulta, Scully voltou para o porÆo. Mulder, mesmo ap¢s um ano e meio, tentava recolocar alguns arquivos que foram recuperados ap¢s o incˆndio, em ordem. Ele passava o tempo livre tentando juntar peda‡os soltos de pap‚is, tentando montar um quebra-cabe‡a. Tentando reconstruir parte dos casos, que nÆo conseguiam ser encontradas nos pap‚is resgatados, em sua mem¢ria eid‚tica. Scully entrou e foi silenciosamente at‚ ele, que estava com a cadeira de costas para ela. Ela deu a volta pela mesa dele, e ficou do lado dele. "Por que vocˆ fez isso?" "O que?" Ele virou-se e olhou para ela. "Mulder, n¢s trabalhamos juntos h 7 anos. Eu acho que vocˆ sabe do que eu estou falando." Ele voltou seu olhar para o objeto que previamente obtinha sua aten‡Æo. "Vocˆ precisava." "Mulder, quem ‚ vocˆ para dizer-me o que eu preciso?" "Como vocˆ disse, eu sou seu parceiro h 7 anos." "Isso nÆo lhe d o direito." "Eu nÆo o fiz sozinho, o Skinner me apoiou." "O Skinner ‚ meu chefe, isso lhe d esse direito. E o que lhe d esse direito, Mulder?" Ele olhou novamente para ela. "Nossa amizade." "NÆo, Mulder, nenhuma amizade lhe d esse direito. Se vocˆ tivesse me procurado antes, tudo bem, mas sem o meu consentimento?" "Eu sou psic¢logo, Scully." "At‚ a¡ eu sou m‚dica, e eu te dou a op‡Æo quando vocˆ necessita de tratamento." "Eu tenho esse direito porquˆ eu..." "Vocˆ o que, Mulder?" Ele desviou o olhar para nÆo olh -la nos olhos. "Nada." "àtimo. Eu estou indo para casa." "Ainda sÆo 11:21 a.m., Scully." "Dane-se." Mulder se assustou, mas nÆo disse nada. Para sua parceira o tratar dessa maneira ‚ porque a situa‡Æo estava ruim. ++++++ Scully chegou em casa soltando ar pelas orelhas. Ela havia xingado diversas pessoas no trƒnsito, ignorado um vizinho e ainda conseguiu torcer o p‚ quando entrou em casa. "Cigarros, onde est aquele ma‡o?" Ela procurou furiosamente nas gavetas, arm rios. "Droga. Esquece os cigarros, eu preciso de gelo para o meu p‚." Ela caminhou mancando at‚ a geladeira e pegou gelo no congelador, depois ela foi at‚ o banheiro e pegou uma aspirina. Ela tomou o comprimido sem gua, foi at‚ o sof e sentou exalando um ar de irrita‡Æo. Ela checou o p‚ e percebeu que nÆo estava quebrado. Com uma pomada anti-inflamat¢ria e a bolsa de gelo ela deveria estar melhor no dia seguinte. Aos poucos ela foi se acalmando e colocou o r dio para funcionar. Deitou-se no sof e pensou no que havia acontecido. Ela pensava em voz alta, sua voz ecoando no apartamento vazio, juntamente com as m£sicas vindas das caixas de som. Ela relembrou a conversa com a psic¢loga. Ela nÆo poderia falar de sua rela‡Æo com Mulder. Ela sabia que do modo como ela falou, soltando os fatos como verdade nua e crua, s¢ iria piorar a concep‡Æo da psic¢loga sobre ela. Mas ela nÆo confiava o bastante na ouvinte de seus problemas. Ela nÆo conseguia falar consigo mesma sobre ela e Mulder, quem dir com uma estranha. Ela pegou o papel que a psic¢loga havia lhe entregado. Ela sentou-se e come‡ou a ler o papel. As questäes come‡avam, mas Scully nÆo conseguiu terminar de ler. Sua mente j vagava em torno da primeira questÆo. #Qual o papel de Mulder quando vocˆ teve cƒncer?# Foi o primeiro pensamento de Scully. NÆo foi culp -lo, nÆo foi de como ele nÆo soube lidar com a doen‡a. Foi sobre a busca da cura. Como ele se preocupou e passou por tudo para poder achar a cura, inclusive da fam¡lia dela. Inclusive o desejo de encontrar sua irmÆ. #E em rela‡Æo a Emily?# Scully parou com esse pensamento. Tudo parecia girar em seu apartamento. As emo‡äes muito fortes, feridas nÆo fechadas. Mas ela deveria ser sincera. Ela deveria tentar. Ela nÆo poderia recuar. Ela jamais recuava. #O agente Mulder j se comportou como algo mais que seu parceiro?# A pr¢pria mente de Scully j come‡ava a formular suas pr¢prias perguntas. Scully sentiu um pouco de raiva subindo … sua cabe‡a. Scully se espantou com seu pr¢prio pensamento. Scully estava confusa. Ao inv‚s de necessitar saber o papel de Mulder em sua vida, ela agora precisava saber o papel dela na vida de Mulder. Scully se perdeu em suas d£vidas. Scully respirou aliviada por ter achado uma resposta, ou algo perto disso. Scully levantou e pegou mais gelo no congelador, a dor passando de seu p‚ para sua cabe‡a, sua mente exausta pelo turbilhÆo de pensamentos passando por ela. Scully tremeu … men‡Æo daquele nome. Scully come‡ou a sentir a dor em seu p‚ diminuindo consideravelmente e a dor em sua cabe‡a permanecendo est vel. Scully passou os dedos em seus l bios. Scully continuou sentindo sua boca, pensando, sem notar que estava realizando o movimento. Scully deitou-se contra o bra‡o do sof , colocando o bra‡o por cima da testa e fechando os olhos. Scully come‡ou a relaxar em seu sof , tirou o outro sapato. Ela colocou o p‚ ainda um pouco inchado sobre uma almofada e o outro em cima do sof . Ela soltou um suspiro e continuou com seus pensamentos, a honestidade consigo mesma assustadora e confortante ao mesmo tempo. Scully voltou a ficar tensa, a bolsa de gelo esquecida na mesinha de centro, o gelo derretendo. Scully parou para prestar aten‡Æo na letra da m£sica: And if I shed a tear I won't cage it. (E se eu derramar uma l grima eu nÆo vou prendˆ-la) I won't fear love (Eu nÆo vou temer o amor) And if I fear a rage I won't deny it. (e se eu sentir uma f£ria eu nÆo vou neg - la) I won't fear love. (Eu nÆo vou temer o amor) Scully sorriu involuntariamente, quase sem perceber. Scully pensou no que os dois j haviam passado, todas as mem¢rias passando por sua mente rapidamente. Toques de mÆo, olhares eloqentes, palavras trocadas, momentos que ela jamais esqueceria. Mulder poderia ser quem tem a mem¢ria fotogr fica, mas ela tinha uma ¢tima mem¢ria tamb‚m. Ela pensou na emo‡Æo que esses momentos trouxeram. Cada pequeno momento que ajudou os dois a continuarem. A nÆo desistirem. Cada toque min£sculo que a fez perder noites de sono como uma colegial. Os arrepios que ela sente quando ele faz uma brincadeira. Ela pensou no que cada momento proporciona, a for‡a que ‚ gerada. Scully come‡ou a se apavorar. Scully estava j pensando em ir comprar cigarros, ou at‚ u¡sque mesmo, j que a bebida tamb‚m ajudaria o esquecido p‚, que agora voltava a doer. A campainha tocou e a tirou de seus pensamentos, mas mesmo assim ela conseguiu pisar forte com o p‚ torcido, fazendo aumentar ainda mais a dor. "J vai. M**da!" Ela abriu a porta para achar Mulder do outro lado, com um cara de cachorro pidÆo, implorando para deix -lo entrar. Ela fechou a porta da mesma maneira que abriu e voltou mancando para o sof . "Scully?" Scully gritou do outro lado da porta. Ele abriu a porta com cuidado. "Scully, o que houve?" "Mulder, vai embora." "Scully, o que houve com seu p‚?" "Eu estou bem, Mulder." "P ra com essa porcaria.  super raro vocˆ falar palavrÆo e vocˆ acabou de soltar um. O que est acontecendo?" "Nada. Eu nÆo quero conversar. Eu estou com minha arma." "àtimo, eu tamb‚m estou com a minha. Vocˆ mira melhor que eu, mas eu consigo acertar." "Mulder, eu nÆo quero conversar. NÆo hoje, nÆo agora." "Quem falou em conversar? Eu prometo que fico quieto, s¢ me deixe olhar esse p‚." "Mulder, eu sou m‚dica." "Scully, eu nÆo gosto de falar isso, mas cala a boca!" Ela se espantou, mas deixou que ele verificasse o p‚. "Scully, nÆo precisa ser m‚dico para saber que isso aqui t inchado. Espera aqui." Ele colocou o p‚ sobre as almofadas e voltou do banheiro. Ele foi at‚ a cozinha e sentou-se no sof . Ela continuava apreensiva, nervosa, mas nÆo tanto quanto a hora que ele chegou. Ele sentou-se no sof e colocou o p‚ dela no seu colo. Ele passou um copo de gua para Scully junto com alguns comprimidos de Ibuprofeno. Ela bebeu a gua para agentar os comprimidos enquanto ele passava uma pomada anti-inflamat¢ria no p‚ dela. Eles ficaram em silˆncio, a dor sendo aliviada pelas mÆos de Mulder, o Ibuprofeno ainda sem fazer efeito, o silˆncio permitindo que cada um mergulhasse em seus pr¢prios pensamentos. "Eu nÆo estou pronta, Mulder." "Para quˆ?" "Para falar." "Isso ‚ normal, Scully. Algumas coisas sÆo dif¡ceis de serem discutidas." "Mas por que ‚ dif¡cil fazer com que eu mesma entenda?" "Porque n¢s nÆo somos pessoas comuns, Scully. Tudo na nossa vida ‚ diferente.  evidente que isso..." Ele falou movimentando a mÆo entre eles. "tamb‚m ‚ dif¡cil. ·s vezes eu gostaria que vocˆ nunca tivesses entrado naquele porÆo, Scully." Ela fechou os olhos. "Mas, Scully, quando eu penso como seria minha vida, tudo passa a valer a pena. Porque se vocˆ nÆo tivesses entrado, eu estaria morto. Talvez nÆo clinicamente morto, mas sem vida, sem razÆo para viver. Eu poderia estar at‚ trabalhando para o Fumacinha. Mas eu nÆo sei o porquˆ vocˆ ficou. Vocˆ perdeu tanto." Ela abriu os olhos e olhou para ele. "Mulder, eu …s vezes penso em como seria se eu nÆo tivesse te conhecido." Dessa vez ele que desviou o olhar. "eu sou p‚ssima para dizer essas coisas, mas eu vou tentar. Mulder, vocˆ mudou minha vida. Vocˆ me deu o que eu sempre busquei. Vocˆ me deu algo para lutar. Se eu nÆo tivesse te conhecido, eu seria uma dona-de-casa, talvez com um marido e filhos." Ele olhou para ela, e ela viu culpa nos olhos. Ele tentou falar, mas ela nÆo permitiu. "Mas, preste aten‡Æo, Mulder, eu nÆo seria feliz. Eu nÆo saberia de todas as mentiras que existem nesse mundo. Eu nÆo poderia lutar contra isso. Tudo que eu perdi, eu nÆo culpo ningu‚m. Eu nÆo te culpo, portanto eu nÆo quero que vocˆ se culpa. Vocˆ me deu uma verdade para procurar. E eu vou ach -la. Com vocˆ." Eles ficaram em silˆncio por v rios minutos, olhando-se. Nenhum dos dois se atrevendo a alterar a distƒncia entre eles. "Vocˆ pensa em uma vida normal, Mulder?" "Raramente. Eu nÆo gosto de voltar para a realidade depois de imaginar esses sonhos." "Hoje eu estive pensando no que aconteceria se vocˆ se casasse com outra mulher e como as coisas ficariam." Ela olhou para baixo. "Scully, isso nunca vai acontecer." "Mulder, vocˆ nÆo sabe o dia de amanhÆ..." Ela a cortou antes que ela terminasse. "Scully, olhe para mim." Ela olhou. "Isso nÆo vai acontecer, eu te prometo." "Eu pensei hoje, Mulder. Tudo o que eu fiz foi pensar, pensar em tudo que nos aconteceu. Eu cheguei em casa no almo‡o e agora j ‚ de noite. Eu pensei todo esse tempo e tudo que eu descobri forma mais d£vidas. Tudo o que eu fiz foi pensar e de nada me ajudou." "Que bom." "O que?" "Vocˆ fez algo mais do que torcer o p‚ e falar palavräes." Mesmo sem querer, ela riu. "Escuta, Scully, existe algo em nossas vidas que seja de f cil compreensÆo?" "NÆo." "Nada jamais vai ser f cil para n¢s. Mas n¢s vamos ficar bem." "Bem como?" "N¢s vamos ficar bem se n¢s soubermos o que n¢s significamos um para o outro." "O problema ‚ que eu nÆo sei. Ou melhor, eu sei." Ela movimentava as mÆos na frente de seu corpo, sem saber o que dizer. "Scully, vocˆ sabe o que vocˆ significa para mim. Vocˆ ‚ a £nica pessoa que eu confio. Eu daria minha vida por vocˆ." "Eu tamb‚m, Mulder. Mas nÆo ‚ isso que eu quero dizer." Ele entendeu o que ela queria dizer. E entÆo ele desviou o olhar e levou o copo vazio para a cozinha, cuidadosamente tirando o p‚ dele do colo dele o colocando nas almofadas. Ele andou pela cozinha, lavou o copo, secou, guardou, o mais lentamente poss¡vel. Ele foi at‚ a mesa, pegou a bolsa de gelo, caminhou at‚ a pia, tirou a gua de dentro da bolsa, pegou mais gelo e levou de volta para Scully. Ela ficou im¢vel todo o tempo, o olhar fixo em um ponto no chÆo ao lado do sof , seus pensamentos e sentimentos se confundindo e se chocando, ao mesmo tempo ignorando o homem que caminhava por seus apartamento e sentindo cada movimento dele, mesmo sem vˆ-lo. Scully recebeu a bolsa de gelo, colocou em seu p‚, todo esse tempo, nenhum dos dois disse uma palavra, o silˆncio confortante e amedrontador ao mesmo tempo. "Eu vou indo." Mulder disse j andando em dire‡Æo … porta. Ele mantinha a cabe‡a baixa, sem olhar para ela. "Mulder, espera." Ele andou novamente at‚ o sof . "NÆo, Scully. N¢s conversamos muito hoje. Vocˆ precisa pensar. Eu tamb‚m. Tchau." Ele se abaixou e beijou a cabe‡a dele. Ele se endireitou e continuou em dire‡Æo … porta. Scully fechou seus olhos. A porta abriu e fechou. ++++++ Scully abriu a porta do apartamento de Mulder sem se preocupar em bater. Ela pegou a chave marcada 'Mulder' e a virou na fechadura. A porta se moveu para revelar um Mulder sentado no sof . A cabe‡a nas mÆos, os olhos fechados, sem se preocupar em olhar para ela. "NÆo se assustou?" ela perguntou assustada por nÆo dar de cara com uma arma. "Eu sabia que era vocˆ, escutei o barulho dos saltos. Um pouco descompassados por causa do seu p‚ machucado. Por que mesmo com o p‚ machucado vocˆ insiste em usar esses sapatos?" "NÆo est mais doendo." Ela foi para a frente dele e sentou-se na mesinha de centro. "O p‚. O p‚ nÆo est mais doendo." Ele olhou para ela sabendo o que ela queria dizer. "Como n¢s conseguimos fazer isso, Mulder?" "Fazer o que?" "Discutir nossos sentimentos e depois sair sem mais nem menos. Esquecer que conversamos." "NÆo, Scully. N¢s fingimos que esquecemos. Para o nosso bem. O bem de nosso trabalho." "Mas isso nÆo faz bem. Parece que sim, mas nÆo faz. Quantas vezes estivemos aqui? Eu j te perguntei isso uma vez em rela‡Æo … verdade, mas agora ‚ em rela‡Æo … n¢s? Quantas vezes n¢s estivemos aqui, … beira dessa linha tˆnue? Quantas vezes n¢s quase a ultrapassamos? Para depois fingir que nada aconteceu? E n¢s nÆo mais andamos de um s¢ lado dela, n¢s agora andamos em cima dela, bem em cima dessa linha. E eu temo que algum dia n¢s iremos cair. E nÆo importa o lado, se n¢s cairmos, n¢s vamos nos machucar." "Mas e se nÆo funcionar?" "Eu tenho medo, tamb‚m. Mais do que vocˆ imagina. Mais do que vocˆ tem. Mas eu estou cansada de esperar um pr¢ximo assassino ou uma conspira‡Æo para ultrapassarmos essa linha. Eu estou cansada de esperar a quase morte, ou uma quase separa‡Æo para n¢s conversarmos." Os dois ficaram em silˆncio. Nenhum deles falou nada at‚ que o outro estivesse pronto para ouvir. Eles ficaram olhando para baixo, as testas quase encostando. Imersos em d£vidas e esperan‡as. "Lembra de Ed Jerse?" Scully perguntou, sua voz trˆmula. Ele soltou algo parecido com uma risada. "Pode ter certeza que eu lembro de Ed Jerse, Scully." "O que vocˆ ia dizer?" "Eu nÆo me lembro." "Mulder, com sua mem¢ria, vocˆ tem que lembrar." Ele olhou para ela e sorriu. "S¢ se vocˆ me contar a verdade." Ela olhou para ele. Ele ficou com medo de que a tivesse magoado. "Eu quis. Quis muito. Mas nÆo pude." "Vocˆ sabe porque eu nÆo continuei a falar?" Ela mexeu a cabe‡a negativamente. "Eu tive ¢dio. De mim mesmo. Por quase deixar vocˆ morrer. E quando vocˆ me chamou naquele hospital para falar que vocˆ tinha..." "Cƒncer, Mulder. Eu sei que at‚ hoje vocˆ tem dificuldade de falar sobre isso comigo, mas vocˆ pode falar. Eu estou bem. Vocˆ me curou." Ela envolveu as mÆos dele com as suas. "entÆo, quando vocˆ me disse que tinha cƒncer, eu tive medo. E esse ¢dio de mim mesmo aumentou. Eu quis morrer. Mas eu prometi que antes eu encontraria a cura. E quando eu encontrei, e olhei em seus olhos, eu nÆo quis mais morrer. Eu quis viver." "Mulder, todas as vezes que eu fui parar em um hospital, temendo que a doen‡a iria finalmente me levar, a sua for‡a, o seu apoio, foram fundamentais. Eles me deram for‡a para sair andando de todos aqueles quartos de hospitais. Me deram for‡a para continuar vivendo, para agentar mais um dia, mais uma noite." Ele se aproximou mais e colocou a cabe‡a entre o ombro e o pesco‡o dela, e logo ela come‡ou a sentir as l grimas que deslizaram. "Eu sinto muito, Scully. Eu agi como um idiota." "Isso foi h muito tempo, Mulder. NÆo importa como vocˆ agiu, o que importa ‚ que vocˆ estava l . Agora, o que vocˆ ia dizer quando eu voltei da Filad‚lfia?" Eles se separaram. Mulder recostou-se no sof . Ele fechou os olhos. "Eu quis dizer tanto, Scully. Eu quis dizer que a sua vida tamb‚m era minha. Eu quis dizer que vocˆ nÆo poderia ter feito aquilo, que havia sido irrespons vel. Eu nÆo tinha esse direito. E ainda nÆo tenho." Ela ficou em silˆncio por alguns minutos. Fechou os olhos tamb‚m, registrando o que ele dissera. "Ainda bem que vocˆ nÆo disse." Ele abriu os olhos e olhou para ela. Ela nÆo fez nada por alguns segundos e finalmente abriu os olhos. "Por mais que eu saiba que eu fui de certa maneira..." ela pensou na palavra. "impulsiva, digamos, e eu sei que de certa maneira minha vida ‚ sua como a sua ‚ minha, se vocˆ tivesse dito isso, eu teria te matado. Eu estava arrasada e isso teria sido a £ltima gota d' gua." "Eu sinto muito, Scully." "Mulder, vocˆ j carrega uma culpa de gera‡äes, pare de se sentir culpado de tudo. Vocˆ ‚ tÆo culpado como eu. Cada vez que vocˆ me machuca de alguma forma, a culpa ‚ minha tamb‚m." "Mesmo assim, eu nÆo poderia ter sequer pensado nisso. Vocˆ estava doente, vocˆ estava doente por minha causa." "E como eu disse, foi vocˆ que achou a cura. Cada acontecimento ruim que aconteceu comigo me serviu para perceber o que vocˆ significa para mim. Serviu para me fazer mais forte. Eu nÆo seria feliz sendo aquela agente ingˆnua que entrou naquele porÆo." "Mas foi minha culpa. Semana passada vocˆ quase morreu por minha culpa. Se h alguns anos eu nÆo tivesse te arrastado para um caso por causa de um jogo, vocˆ nÆo teria passado por aquilo e pelo que vocˆ passou semana passada." Scully parou por um segundo, pensando no que dizer. "Mulder, vocˆ esteve l para mim?" ele concordou. "O que vocˆ fez semana passada depois que eu atirei em Pfaster?" "Eu..." ele nem termina de dizer. "Vocˆ se ofereceu para me defender. Sem me julgar, sem pensar em mais nada a nÆo ser em mim. Vocˆ me trouxe para c e cuidou sozinho para que meu apartamento voltasse ao normal. Vocˆ adiou o meu depoimento para que eu pudesse descansar. Vocˆ esteve l para mim. Isso ‚ o que importa. Eu penso nessas coisas todos os dias antes de dormir. Se eu nÆo tivesse passado por aquilo, ele ainda estaria andando pelo mundo, fazendo mais v¡timas." Ele nÆo disse nada, ao inv‚s ele apenas olhou para baixo, mantendo seu olhar longe do dela. "Mulder, olhe para mim." Ela colocou a mÆo no queixo dele e o fez olhar para ela. "Eu pensei em tudo isso hoje. E em mais ainda. Eu cheguei … conclusÆo de que eu jamais chegarei … uma conclusÆo clara. NÆo ‚ algo que n¢s possamos simplesmente chegar a um consenso e pronto, resolvido." "Alguma outra decisÆo?" "NÆo. Somente mais d£vidas. Qualquer lado da linha envolve riscos gigantescos. Qualquer movimento em falso pode significar muito." "Scully?" "O que?" "Por que vocˆ veio at‚ aqui?" "Como assim, por que?" "O que te motivou?" Ela se levantou e se curvou para beijar a cabe‡a dele. Ele compreendeu. "Eu vou indo." Scully se endireitou e amea‡ou andar at‚ a porta mas ele segurou a mÆo dela. Ela parou e ficou olhando para a porta, logo fechou os olhos e tudo o que ele fez foi segurar a mÆo dela. Ambos tremiam, ele sem olhar para ela e ela com os olhos fechados. Depois de silenciosos minutos, ele soltou a mÆo dela. E fechou os olhos esperando que ela fosse embora. Mas depois de alguns segundos ele percebeu que nÆo ouvia o som do salto dela, e abriu novamente os olhos para vˆ-la ainda encarando a porta, sem se mover um cent¡metro. "NÆo posso." Ela disse, sem olhar para ele. "Acho que tamb‚m nÆo." Ele colocou as mÆos em frente ao seu rosto. "NÆo, vocˆ nÆo entendeu, eu nÆo posso ir embora." Ela lentamente virou-se. Ele olhou para ela, ela tinha algumas l grimas em seu rosto, mas sua expressÆo continuava a mesma, como se as l grimas fossem apenas intrusas. Ele se levantou e a abra‡ou. NÆo um abra‡o lento, eles simplesmente colidiram-se. E as paredes que os separam tamb‚m colidiram. As d£vidas nÆo tÆo fortes quanto a certeza. E eles separaram apenas suas faces, mantendo o resto de seus corpos juntos e se olharam. Ele lentamente foi em dire‡Æo a ela, separando um pouco mais de seus corpos por causa da altura dela, e ela se levantou um pouco. E seus l bios se tocaram no que algu‚m de fora chamaria de beijo, mas era muito mais. Era confian‡a. UniÆo. Desejo tamb‚m. Amizade. Mas nenhuma palavra poderia definir aquilo. Amor parecia min£sculo perto daquele ato. Palavras eram insignificantes, indignas. Eles esqueceram qualquer l‚xico para se entregar aos sentimentos, emo‡äes. +++++ "Vocˆ respondeu …quelas perguntas, Dana?" "Eu tentei." "Conte-me sobre isso." "Eu tentei responder. Eu fui sincera. Mas nÆo ‚ poss¡vel responder …quelas perguntas. Elas sÆo tÆo complexas quanto o Universo." "Mas eram perguntas simples." "Nada vai ser simples entre n¢s dois." "Entendo." Scully j estava come‡ando a ficar com raiva desse 'entendo'. Se a mulher nÆo entendia, por que ela falava que entendia? "Bem, acho que essa terapia nÆo ser necess ria." "Vocˆ tem certeza, Dana." "Tenho. Eu estou livre. Ainda tenho d£vidas, mas elas nÆo mais sÆo tÆo importantes. O agente Mulder poder continuar com um tratamento se necess rio." A mulher olhou desconfiada para ela. Mas Scully apenas sorriu. Um sorriso que deixou a psic¢loga sem op‡äes. "Est bem. De qualquer maneira, foi um prazer conhecˆ-la." "O prazer foi meu." Scully saiu pela porta do consult¢rio, tendo a certeza de que nunca mais entraria ali. +++++ Scully entrou no escrit¢rio dos Arquivos X. Ela parou na porta e observou o escrit¢rio. Observou os pequenos detalhes. Observou o lugar que era dela tanto quanto era de Mulder. "Como foi?" "Normal. J me despedi. E j enviei o relat¢rio para Skinner." "O que ela disse?" "Nada. NÆo sei se ela percebeu." "Espero que nÆo." Ele olhou para ela que caminhava lentamente em dire‡Æo … mesa dele, olhando … sua volta. "Vocˆ acha que as coisas vÆo mudar muito?" "Elas vÆo mudar. Muito. Mas …s vezes mudan‡as sÆo boas. J sobrevivemos a uma semana. Eu nÆo sei o que vai mudar. Talvez nosso trabalho mude o m¡nimo poss¡vel. Mas vale a pena." "Eu sei que vale." Eles se olharam profundamente nos olhos. "Bem, acabou de chegar esse caso, Scully, vocˆ vai adorar." "Mulder, por que ‚ que quando vocˆ diz isso eu tenho certeza de que eu vou odiar?" "NÆo, Scully, ‚ s‚rio, eu juro que esse ‚ um caso legal, ‚ um m gico que gira a cabe‡a, vocˆ tem que ver..." E assim eles voltaram ao trabalho. E as mudan‡as foram para melhores. Porque conspira‡äes, assassinos seriais e mutantes gen‚ticos seriam mais f ceis de vencer. Seria mais f cil agentar tudo pois eles estavam juntos. E juntos eles eram mais fortes. +++++