Frisco FAN FICTION ESCRITA POR: Bellefleur X (bellefleur_x@hotmail.com) DISCLAIMER: Os personagens desta estória pertencem a seus criadores. CATEGORIA: Sei lá! Conto, eu acho. Angst e Drama, com certeza. CLASSIFICAÇÃO: Sem restrições. SPOILER: Não há. SINOPSE: Uma calamidade pode trazer à tona o melhor e o pior das pessoas. Eu que o diga... AGRADECIMENTO: A Sky, Késsia e Graça, pelos elogios e, principalmente, pelas críticas sinceras. A Claudia Modell, brava defensora dos fracos e oprimidos, que com sua pena ferina (esse é boa) partiu em minha defesa durante o ataque das shippers malvadas. PAGAMENTO: Em forma de feedbacks (positivos ou negativos) é sempre bem vindo. NOTA: Tive a idéia para essa estória numa bela tarde de domingo assistindo a um desses documentários do Discovery Channel ou algo que o valha. Os fatos vêm de lá, o resto é pura ficção. Frisco PRÓLOGO Ninguém pode avaliar as verdadeiras dimensões de uma catástrofe até ser envolvido por ela. Mesmo assim, como parte integrante do desastre, não se pode compreendê-lo em sua plenitude, mas apenas pela experiência individual de cada um. Quando se fala em calamidades, os números não são significativos senão para os governantes ou para aqueles que observam de fora o desenrolar dos fatos. Toda estatística, nestes casos, é vazia e sem sentido porque não reflete os acontecimentos em sua essência, mas apenas seus resultados visíveis. São as pequenas coisas, as mudanças de conceitos e de atitudes, o modo de encarar o próximo como um companheiro de infortúnio, que dão a verdadeira medida de um desastre. Esta estória tem a ambiciosa pretensão de relatar uma das grandes catástrofes de nossos tempos como vista pelos olhos de duas de suas vítimas. E, através desta visão pessoal dos acontecimentos, tentar resgatar um pouco do real significado humano do desastre. Vamos aos fatos. Embora não haja registro escrito, conta-se que, quando os colonizadores espanhóis primeiro chegaram à baía de San Francisco, na Califórnia, no final do século XVIII, avistaram, na praia, três índios que choravam. Por causa disso, o piloto espanhol atribuiu à baía o profético nome de Enseada dos Chorões. Lendas à parte, entre 1769 e 1776, os conquistadores espanhóis, soldados e padres franciscanos, exploraram a região ao redor da baía, buscando o melhor lugar para ali estabelecer um forte e duas missões religiosas. Em outubro de 1776 foi, finalmente, fundada a missão de San Francisco de Assis comemorada com fanfarras e foguetório, que assustaram os habitantes nativos. Imediatamente depois, iniciou-se a conversão dos índios e, com ela, a colonização da Califórnia. As doenças do homem branco, sarampo, cólera, varíola, sífilis, no entanto, rapidamente devastaram a população indígena, de tal modo que, em 1833, apenas 204, dos cerca de 300000, habitantes nativos restavam na área da baía. A despeito de sua vocação como posto avançado do Reino de Espanha, foi somente no final da década de 1830 que San Francisco, nessa época denominada "pueblo" de Yerba Buena, assumiu sua vocação comercial. Com a incorporação da Califórnia como território dos EUA e a descoberta de ricos filões de ouro na área, a região viu-se subitamente inundada por uma horda de rancheiros e aventureiros, saltando de uma população de 459 almas, em 1847, para 56000 habitantes, em 1860. Data também deste período a chegada de navios lotados de trabalhadores chineses aos portos da cidade. O crescimento da cidade, já batizada de San Francisco, desde 1851, teve de ser rápido o bastante para suprir as necessidades geradas pelo espantoso aumento de sua população. Fábricas, armazéns, fundições foram construídos na área denominada South-of- Market com essa finalidade e nela também estabeleceram-se os trabalhadores necessários para manter os negócios operando, um grupo cosmopolita formado, além dos chineses, por alemães, poloneses, franceses, austríacos, irlandeses, chilenos e mais um sem número de trabalhadores de diversas nacionalidades reunidos inicialmente pela Corrida do Ouro e que ali permaneceram depois que o sonho dourado se acabou. Em 1900, um de cada cinco habitantes da cidade residia em South-of- Market, em casas geminadas de madeira. Em abril de 1906, a cidade foi abalada por um violento terremoto seguido por um incêndio que durou quatro dias e a reduziu a ruínas. Cerca de três anos depois, a cidade havia sido quase que completamente reconstruída. Desde então, San Francisco tem crescido sem parar, acabando por tornar-se uma das mais demograficamente diversificadas dos Estados Unidos. Embora permaneça sendo um importante centro financeiro e mercantil, devido à sua grande tolerância à não conformidade, a cidade tornou-se também uma Meca do turismo internacional. Em 1989, a área de San Francisco voltou a ser sacudida por um violento tremor que alcançou 7.1 pontos na escala Richter e deixou um saldo 62 mortos e 3800 feridos, causando prejuízos estimados em 6 bilhões de dólares. O estado da Califórnia situa-se sobre a junção de duas placas tectônicas subterrâneas, denominada Falha de San Andreas. Tais placas movimentam-se lentamente sob a superfície terrestre há milhões de anos. Quando essas placas movem-se uma de encontro à outra, os terremotos ocorrem ao longo da Falha de San Andreas. Literalmente milhares de pequenos abalos ocorrem na Califórnia todos os anos. No entanto, são poucos os registros de terremotos realmente significativos tais como os ocorridos em San Francisco em 1906 e 1989. Conhecidos os dados concretos, passemos à ficção. PARTE I – Tempos Antigos A San Francisco do início do século XX despontava como uma das cidades mais belas da América. As ruas limpas e arborizadas próximas à baía vicejavam com seus belos casarões, os reluzentes automóveis que as percorriam velozes, as maravilhas da novíssima iluminação pública a eletricidade. Um mundo próspero e bem organizado por onde circulava gente rica e bonita, a elite de Frisco, como era carinhosamente chamada a cidade por seus habitantes. Esse era o mundo onde habitava William Mulder III. Nascido em Boston, no seio de uma família tradicional e abastada, sua mãe orgulhava-se de que seus antepassados haviam chegado à América junto com os pioneiros no Mayflower. Aos trinta e dois anos, Mulder, como ele preferia ser chamado, era um daqueles homens a quem a idade acrescenta distinção sem apagar os traços alegres da juventude. Formado em Eton, na Inglaterra, "como os nobres", costumava dizer esnobe sua mãe, administrava os negócios da família nas diversas cidades por onde se espalhavam. Londres, Paris, Milão, Estocolmo, Nova York, Berna, Madri já haviam sido sua morada temporária, assim como o era agora San Francisco. Um homem do mundo, um bon-vivant, refinado, sofisticado, hospedando-se sempre nos melhores hotéis, freqüentando os melhores teatros e restaurantes, disputado nas festas das famílias mais influentes por onde quer que fosse. "Um belo rapaz", suspiravam as mocinhas casadouras. "Um ótimo partido", retrucavam suas mães. Mas todo o luxo e glamour dessa resplandecente San Francisco não se sustentavam sozinhos. Milhares de pessoas trabalhavam nos bastidores desse mundo de sonhos para mantê-lo funcionando. Eram imigrantes, em sua maioria, irlandeses, chineses, italianos, gente humilde e trabalhadora que, com seu suor, era responsável pela manutenção do brilho e do deslumbramento da cidade. Gente pobre que morava em casas simples em South-of-Market, uma parte pouco nobre da cidade conquistada ao mar e aos pântanos por sucessivos aterros no lado oposto às belas mansões brancas dos ricos. Gente humilde que batalhava seus poucos dólares com esforço e vivia de sacrifícios para manter a dignidade. Esse era o mundo de Katherine Scully. Nascida ali mesmo, na área pobre de Frisco, pertencia à terceira geração de uma numerosa família de imigrantes irlandeses. Seu pai, trabalhador do porto, carregara e descarregara navios durante trinta anos para sustentar a família até sofrer um trágico acidente que lhe ceifou a vida, havia cinco anos. A Katherine, a filha mais velha, coubera, desde então, o sustento da mãe e dos quatro irmãos menores. A diligente mocinha, com dezenove anos na ocasião, não se intimidou diante da responsabilidade e, de emprego em emprego, vinha conseguindo cumprir esta difícil tarefa, embora com o prejuízo de sua vida pessoal. Os vizinhos e conhecidos diziam que a jovem ruiva assustava os pretendentes com a expressão sisuda e fechada que tinha sempre estampada em seu belo rosto. Não tinha namorados, nem amigas, era introvertida e pouco se divertia, seu pensamento sempre voltado para o dever de manter a família. O Grand Hotel de San Francisco era um imponente construção de linhas neoclássicas a poucos quarteirões da baía. Sua sólida estrutura de quatro andares, toda em pedra e argamassa, era considerada indestrutível. O contraponto à impressão pesada causada pela estrutura eram as amplas janelas avarandadas que a pontuavam, com suas balaustradas de ferro em arabescos tão rebuscados que lembravam finas rendas pendendo da fachada. O mais refinado hotel de Frisco, estrategicamente localizado no coração da cidade, bem no meio de seu centro financeiro e comercial e, ao mesmo tempo, próximo dos melhores restaurantes e dos teatros mais badalados. Certamente o local mais adequado, senão o único, para servir de residência temporária a William Mulder, que ocupava um enorme e luxuoso apartamento no último andar do hotel. Um dos postos de trabalho mais disputados de San Francisco, conhecido tanto pelos bons salários que costumava pagar a seus funcionários, como pelas generosas gorjetas distribuídas por seus abastados hóspedes. Certamente o melhor dos empregos que Katherine Scully já tivera, a dois anos trabalhando como camareira no hotel. Os primeiros tímidos raios de sol infiltravam-se pela fina gaze das cortinas, enchendo o quarto com sua luminosidade suave e difusa. A manhã de 18 de Abril de 1906 despontava como uma bela e agradável manhã de primavera. William Mulder despertou sobressaltado, sentando-se de um pulo na cama não desfeita. Tinha a boca seca, um desagradável aperto no estômago, o coração descompassado. Um pesadelo, certamente, embora ele não conseguisse lembrar-se ao certo qual. Levantou-se em busca da jarra de água sobre o aparador de mármore. Encheu o copo de cristal e sorveu todo seu conteúdo de uma só vez, os olhos fechados na tentativa de recordar o pesadelo. Não conseguia. Abriu os olhos e deparou-se com sua própria imagem refletida no imenso espelho de moldura dourada pendurado sobre o aparador. Tinha a aparência cansada, os olhos cinzentos sombreados por olheiras que começavam a se formar, os cabelos despenteados. Passou vagamente a mão sobre o queixo onde a barba começava a despontar, procurou arranjar os cabelos com os dedos. Tirou a gravata borboleta que pendia descuidada da gola da camisa desabotoada sobre a lapela do smoking negro. Na noite anterior, havia assistido, juntamente com a boa sociedade de Frisco, a uma impressionante encenação de Carmen estrelada por ninguém menos do que Enrico Caruso, o mítico tenor, no Mission Opera Theater. Depois da ópera, jantara em casa de um banqueiro local tão interessado em financiar-lhe a construção de uma nova fábrica na cidade, quanto em conseguir nele um bom marido para a filha mais velha. Entediante. Tentando salvar a noite, seguira para cear em um restaurante da moda, na companhia de amigos boêmios e intelectuais que afetavam seu desapego pelos bens materiais em infindáveis discussões existencialistas, mas não esboçavam a mínima reação no momento de pagar a conta, que sempre ficava a cargo do rico Mulder. Subitamente, achou-se cansado daquilo tudo, daquela existência sem sentido, nem razão de ser. Estava na hora de deixar San Francisco, concluiu. Encheu novamente o copo de água e ia levá-lo aos lábios, quando se deu conta do silêncio incomum que enchia o ar. Cinco horas da manhã, marcava seu relógio de algibeira. Estranho. Nem mesmo o canto dos pássaros ou o latir dos cães na rua podiam ser ouvidos. Era como se o mundo houvesse parado. Espiou a rua lá embaixo por uma janela, mas à exceção de um chinês, puxando um carroção carregado de frutas e verduras, que seguia, provavelmente, em direção ao mercado, não havia mais ninguém lá fora. Era cedo ainda. Ainda sentindo um desconfortável aperto nas entranhas, dirigiu-se à porta do apartamento. Tinha uma sensação estranha, um pressentimento, quando abriu a porta para espiar o corredor. Kathy Scully trancava a porta do quarto que acabara de arrumar. Havia conseguido um trabalho adicional no turno da noite para obter dinheiro extra para a extensa lista de medicamentos de que sua mãe necessitava para combater uma pneumonia. Estava cansada. Apesar do trabalho noturno não ser tão duro quanto o diurno, não estava acostumada a passar noites em claro. Atribuía ao cansaço a desagradável sensação de angústia que a invadia em meio ao silêncio opressivo que reinava naquela manhã. Angústia, cansaço, qual nada! Sabia que tinha de ser superior a tudo aquilo se quisesse sobressair-se no trabalho. E era para isso que trabalhava. Não fora à toa que conseguira, em apenas dois anos, ser promovida de ajudante de lavanderia a camareira chefe de andar. E tinha consciência de que, se perseverasse em seus esforços, poderia galgar a governança em mais alguns anos. Katherine não se considerava exatamente ambiciosa. Mas tinha uma família para manter e faria tudo o que estivesse ao seu alcance para proporcionar-lhes uma vida melhor. Scully, como era chamada no hotel para diferenciar-se das oito outras Katherines que ali trabalhavam, assustou-se com o ruído de uma porta sendo aberta. Virou-se bruscamente, ficando frente a frente com William Mulder. - Bom dia, sr. Mulder. – disse ela, tentando não deixar transparecer o susto em sua voz. – E me desculpe se o acordei... – acrescentou gentilmente diante do hóspede mais notável do hotel. Ele apenas sorriu da expressão assustada da moça e meneou a cabeça, como se dissesse "não importa". Sempre com um leve sorriso, examinou a bela camareira longamente. Os grandes olhos azuis que se sobressaíam da tez alva, a boca pequena de lábios carnudos e rosados, o queixo diligente, a mecha de cabelos ruivos que insistia em escapar da touca branca que cobria sua cabeça. O corpo miúdo, que ele adivinhava bem feito, estava escondido sob o austero uniforme negro cujo vestido deixava entrever apenas os tornozelos envoltos em grossas meias, também negras. Os pés calçados em feios sapatos abotinados pareciam pequeninos demais para sustentar- lhe o corpo. Ela deixou-se olhar pelo ilustre hóspede, ao mesmo tempo em que o examinava, também. Sem dúvida um homem bem apessoado, dono de um belo par de olhos estreitos e profundos, onde o cinza se mesclava com a cor de avelãs. Um rosto anguloso com malares salientes, onde o nariz, apesar de um tanto grande, encaixava-se com perfeição. Seus ombros eram largos e os braços fortes tinham as mãos enterradas nos bolsos do smoking negro. Era alto, quase tão alto quanto o batente da porta, com pernas longas, quase infinitas. Um conjunto deslumbrante, muito diferente dos indefectíveis rapazes das vizinhanças de South-of-Market que viviam se insinuando para ela. Scully parecia apreciar o exame que ele lhe fazia e o examinava também, Mulder percebeu, gostando da idéia. Tratava-se de uma bela mulher, forte, saudável, muito diferente das mocinhas lânguidas, louras e doentias que normalmente encontrava na sociedade. Inconscientemente, ele começou a despi-la em pensamentos, imaginando-lhe o colo alvo, os seios firmes, as coxas macias... A intensidade do olhar foi tamanha que a camareira corou, embaraçada, e irritou-se com isso, terminando por desferir uma sonora bofetada no rosto do hóspede. Imediatamente, arrependeu-se. - Me de-desculpe, senhor... – gaguejou sem jeito. Ele levou a mão à bochecha, ainda sorrindo, com uma expressão entre surpresa e divertida, quando um trovejar distante encheu o silêncio. Era um ruído cavo e surdo que foi se fazendo mais e mais intenso. A ele misturavam-se os estalos e rangidos do madeirame empregado na construção, das portas e caixilhos de janelas e das vigas de sustentação do teto quando o solo tremeu pela primeira vez. E depois, os ruídos dos objetos: os cristais que começavam a vibrar, o lustre do corredor que balançava de um lado para o outro, como um pêndulo. Tudo o que estava solto ou colocado sobre as mesas e aparadores, copos, vasos, livros, relógios, tudo quicava sobre as superfícies onde estava e acabava por espatifar-se no chão com estardalhaço. Então, as paredes e o chão foram fortemente sacudidos, rangendo e estalando. Quadros despencavam de seus lugares, vidros que se quebravam, o reboco se desprendia das paredes, engrossando o rugido até torná-lo tão ensurdecedor que os sons que o compunham não mais poderiam ser distinguidos. Num reflexo, William Mulder agarrou a camareira Scully pelo braço e a puxou com força para dentro do quarto, apenas um instante antes do enorme lustre do corredor desabar no chão, exatamente sobre o ponto onde ela havia estado. O tremor intensificou-se desmesuradamente, violentas ondas de choque inclinavam as paredes em ângulos inimagináveis, fazendo com que o chão constantemente fugisse sob os pés de hóspede e camareira e os obrigando a apoiar-se um no outro para se manter de pé. O piso ondulava como a superfície encapelada do mar fustigada pelo vento, até que desapareceu por completo sob os pés assustados do casal. "Às 5:13 da manhã de quarta-feira, 18 de abril de 1906, a cidade de San Francisco, na Califórnia, foi sacudida durante 48 segundos por um terremoto cuja magnitude chegou a 7.8 pontos na escala Richter. Apenas para efeito de comparação, os terremotos que atingiram a Califórnia, em outubro de 1989, e Kobe, no Japão, em janeiro de 1995, alcançaram, respectivamente, 7.0 e 6.9 pontos e os tremores mais intensos de que se tem notícia chegaram a 8.9 pontos. O abalo pôde ser sentido desde Coos Bay, no Oregon, até Los Angeles, Califórnia. Centenas de casas e edifícios ruíram, entre eles a Prefeitura da cidade e o posto central dos Correios. Milhares de pessoas ficaram feridas ou desabrigadas e centenas perderam a vida." Tão repentinamente quanto havia começado, o terremoto cessou e um silêncio impressionante pairou sobre San Francisco. Tão silencioso estava que Katherine Scully, deitada sobre os escombros, em algum lugar que ela não saberia dizer qual era, teve a impressão de poder ouvir caírem à sua volta os grãos de poeira que tornavam o ar quase irrespirável. Estava escuro, muito escuro e sufocante onde ela estava. Não sentia dor, de modo que concluiu que não estava ferida. Apenas lhe era difícil respirar o ar quase sólido de partículas que a envolvia. Arfava, como se tivesse uma das crises asmáticas de Tommy, seu irmão caçula. Um aperto tomou seu peito quando pensou na família. Como estariam a mãe e os irmãos após aquele violento terremoto? Talvez estivessem feridos. Talvez, mesmo, estivessem mortos... Um nó formou-se em sua garganta com a idéia. Ela sentiu rolarem sem querer pela face lágrimas quentes de desespero. Não podia suportar a idéia de ficar sozinha. Sozinha... Um calafrio percorreu seu corpo, diante da idéia. Tinha medo da solidão mais do que de qualquer outra coisa na vida. Sacudiu a cabeça com força, para espantar a idéia que a apavorava. Talvez estivessem bem, dizia com firmeza a si mesma, tentando acalmar-se. Outros terremotos já haviam ocorrido antes. A bem da verdade, desde outubro do ano anterior, San Francisco vinha sendo sacudida regularmente por tremores de intensidade variável e nada havia acontecido à sua casa, até então. Era uma casa baixa, construída por seu pai com as próprias mãos; simples, mas resistente. Sim! Era bem possível que, naquele exato momento, seus irmãos estivessem sentados ao redor da grande mesa de madeira, na cozinha, falando todos ao mesmo tempo, na habitual algazarra, enquanto a mãe, de pé, em frente ao fogão, preparava o café da manhã. Sim. Era melhor pensar daquela forma e começar a procurar depressa um modo de sair dali. Antes que eles soubessem o que havia sucedido ao hotel e ficassem preocupados com ela. Decidida, começou a tatear ao redor de seu corpo para tentar determinar sua localização e, principalmente, um modo como sair dali. Acima de seu peito, havia uma superfície lisa e inclinada que prosseguia ao longo de todo seu corpo, elevando-se um pouco em direção à cabeça. Possivelmente, uma parede tombada. Estendeu os braços para frente, acima da cabeça, e verificou que havia espaço suficiente para sentar- se. Estaria firme aquela parede? Para tirar a dúvida, deitada como estava, esticou os braços para trás da cabeça e percebeu que, às suas costas, a situação era a mesma, havia outra parede que, provavelmente, servia de apoio àquela que se inclinava sobre sua cabeça. Sim. Parecia seguro sentar-se. Com alguma dificuldade, conseguiu seu intento. Lutou durante alguns momentos para recobrar o fôlego, o ar denso de poeira tornava o mínimo movimento em um esforço hercúleo. Voltou a tatear ao redor, aleatoriamente. Os dedos de sua mão esquerda esbarravam em pedaços de madeira e vidro, tapetes felpudos e muitos destroços de pedras e argamassa das paredes, teto e piso do edifício. Numa dessas explorações táteis, seus dedos tocaram algo macio e frio. Pele humana. Os dedos de uma mão. Fria, possivelmente, morta. A idéia causou tanta repulsa a Katherine que ela recolheu sua mão ao regaço, assustada. Oh, Deus! Dividia o pouco espaço de que dispunha com um cadáver! Podia ouvir as batidas de seu próprio coração martelando surdas em suas têmporas. Respirou fundo, sorvendo montanhas de poeira, para se acalmar. No silêncio de seu cárcere, podia ouvir o gotejar distante de algum encanamento rompido. "Um cadáver!", pensava Kathy, assustada. Quisera ter para onde fugir, a idéia de ter um cadáver tão perto lhe causando náuseas. "É apenas um corpo sem vida.", tentava acalmar a si mesma. "Os mortos não oferecem perigo. Os vivos, sim...", insistia. O gotejar constante da água era o único ruído que ouvia, além de seus próprios batimentos cardíacos. Decidiu distrair-se, contando os pingos. "Um, dois, três, quatro..." O estratagema funcionou. Antes do qüinquagésimo pingo, já havia recuperado a calma e resolvido continuar com a exploração das vizinhanças. Atrás e acima havia paredes sólidas, ela já o sabia. À sua direita, podia sentir o toque de uma superfície lisa, certamente, outra parede, que se estendia por todo o seu lado direito, até onde ela conseguia alcançar. Não seria por ali sua saída. Restava apenas explorar o lado esquerdo. "O cadáver!" O pensamento a assaltou novamente e ela obrigou-se a contar os pingos d'água outra vez. Com relutância, sua mão recomeçou a tatear a escuridão de seu lado esquerdo. Evitava, deliberadamente, as cercanias do ponto onde imaginava ter tocado o cadáver. Ao menos daquele lado, parecia não haver uma parede que restringisse sua passagem. Apenas destroços cobriam o chão. E o cadáver... Inclinou ligeiramente o corpo, tentando alcançar além do comprimento de seu braço estendido no ar. Havia um vazio, até onde podia perceber. Katherine Scully pôs-se de joelhos, decidida a engatinhar na direção em que acreditava estar sua saída dali. Mesmo que aquilo implicasse em passar por sobre o cadáver. No primeiro movimento que fez, esbarrou novamente na mão fria. Julgou ouvir um gemido muito baixo e seu coração disparou novamente. "Pare com isso, Scully. Mortos não gemem. É apenas sua imaginação.", ralhou consigo mesma. Amaldiçoando a escuridão, tateou na direção onde achou que deveria estar o tronco do morto. Sim, ali estava e havia espaço suficiente para passar por sobre ele sem tocá-lo. Lentamente, esticou-se, apoiando uma e depois a outra mão no chão, além do corpo. Ergueu um dos joelhos para colocá-lo no vão entre o braço e o tronco do cadáver e, então... Escorregou. Uma de suas mãos havia se apoiado sobre algo roliço, um pé de mesa, talvez, e o objeto deslizou, levando seu equilíbrio junto. Scully caiu com estardalhaço, diretamente sobre a barriga do corpo estendido abaixo dela. - Ui! – soou uma voz masculina na escuridão. Ao menos não se tratava de um cadáver, ela pensou aliviada. - Me desculpe. – disse, erguendo-se e recuando até sua posição inicial. - Me desculpe, me desculpe. – gracejou a voz em falsete. – Isso é tudo o que você sabe dizer, mocinha? – acrescentou o homem, cuja voz ela instantaneamente reconheceu. - Sr. Mulder? – ela grunhiu contrariada em resposta. – O senhor está bem? - Agora que você saiu de cima de mim, creio que sim. – respondeu Mulder com ironia. - Me desculpe, novamente... Não tive a intenção... – o tom era seco, apesar da humildade das palavras. - Não se preocupe. Eu estava apenas brincando. – ele respondeu gentilmente, já arrependido do gracejo. – E, por favor, chega de pedir desculpas, ok? A camareira não respondeu, mas ele quase pôde vê-la, assentindo com a cabeça. - E já que você perguntou... Não... Acho que não estou ferido, embora a cabeça me doa um pouco... – sua voz soava vaga, como se estivesse falando consigo mesmo. - Mas há algo sobre meu ombro que não me deixa mover... Acho que é um móvel... um criado mudo, talvez. Você poderia me ajudar, por favor, mocinha? - Scully. Katherine Scully é meu nome. – informou ela com voz cortante, enquanto tateava pelo tronco do homem à procura do que o prendia. - William Mulder. – respondeu, divertido com a irritação de Scully. – Mas acho que você já sabe... O toque macio da seda do smoking de Will Mulder era como uma carícia para os dedos esfolados de Kathy e, a despeito das condições, ela não podia se negar o prazer de desfrutar do toque do tecido caro. Seguindo seu caminho de tentativas e erros, seus dedos alcançaram o queixo do homem onde a barba que despontava causou-lhe um frisson de deleite e susto, fazendo-a recuar. Finalmente, suas mãos encontraram o obstáculo que impedia o homem de erguer-se. Parecia, realmente, um criado-mudo, ele tinha razão, caído sobre seu ombro direito. Tentou empurrá-lo, mas o móvel não se movia. - Não dá para empurrar. Vou tentar erguê-lo. Em três, ok? Um... dois... três... – contou, erguendo sem dificuldade o móvel, mais leve do que ela poderia supor. Ouviu o entulho se movimentando e pôde sentir o deslocamento de ar, quando Mulder se pôs sentado ao seu lado, recolocando em suspensão no ar os montes de poeira. - Muito obrigado, mocinha. – ele agradeceu com sinceridade, sua respiração ruidosa do esforço. - Apenas retribuí seu gesto, lá no corredor. – respondeu seca. Aquele homem a incomodava. Era cínico, debochado. "Mocinha, mocinha..." Mesmo quando tentava ser gentil, havia algo em sua voz, no modo como ele falava que... Era um janota, um dândi, isso sim. Esnobe, pretensioso, tentando esconder-se sob a aparência de um cavalheiro. Mais um entre os tantos rapazes ricos e mimados que vez por outra apareciam no hotel. Ele a irritava. Definitivamente. Enquanto tentava retomar o compasso de sua respiração, Will repassava, divertido, os diálogos que tivera com a camareira. Acostumado às mocinhas tolas da sociedade, que emudeciam aparvalhadas quando confrontadas com seu sarcasmo, surpreendera-se com a reação daquela ruivinha. Ousada, respondera a altura às suas ironias. Com a educação e a finesse de uma dama. Sim! Ele gostava daquela arrogante camareira Scully. No silêncio que se instalara entre os dois, podiam agora ouvir distantes as sinetas dos carros de bombeiros e alguns gritos abafados. E havia sempre aquele gotejar contínuo em algum ponto próximo de onde estavam. E a escuridão. Tão densa que não lhes permitia ao menos divisar os vultos um do outro. - É preciso achar... – começou ela. - Precisamos encontrar... – começou ele, simultaneamente. - ...um modo de sair daqui. – terminaram em uníssono. Sorriram, cada um para si mesmo, do sincronismo de seus pensamentos. Ao menos concordavam em alguma coisa. - Minha vez de pedir desculpas... – falou Mulder. – Mas quando você caiu por cima de mim, estava... – o tom de sua voz era isento de qualquer sarcasmo, apenas a incitava a continuar a sentença. - Estava tentando passar para o seu lado esquerdo, – replicou ela, - que parece ser o único onde não há um muro sólido impedindo a passagem. Will estendeu seu braço esquerdo vagarosamente e constatou que ela estava certa. Até onde seu braço alcançava, para o lado e na diagonal, para cima, aquela parede do covil parecia composta por entulho. Um amontoado de fragmentos de pedra e pedaços de móveis e sabe-se lá mais o quê, tinha um bom potencial como ponto de escape daquele lugar. - Parece que você está certa. – sua voz misturou-se, na escuridão, ao ruído do entulho sendo remexido. – Sim... Este lado não é sólido, posso tentar cavá-lo. - Podemos! – ele ouviu dizer, aproximando-se, a voz de Kathy. Um instante depois, Will pôde distinguir o roçar do vestido da ruiva contra a seda de sua própria roupa. E, logo a seguir, o barulho produzido pelas mãos dela, cavucando o entulho. - Espere! – fez ele, estendendo a mão às cegas até esbarrar no ombro da mulher, roçando seu seio no caminho. Ela ficou rígida sob seu toque. Se houvesse um mínimo de claridade, ele estava certo que teria sido vítima de outro tapa. Não fora intencional o que fizera. Mas, por alguma razão que não saberia explicar, não pediu desculpas. Apenas continuou a falar como se nada houvesse acontecido. - É melhor concentrarmos nossos esforços num mesmo ponto, mais perto do alto deste monte. – disse, guiando as mãos delas com as suas para um ponto determinado no monte de entulho. – Desse modo, nosso trabalho renderá mais. Scully não pronunciou uma única palavra, apenas retirou as mãos das dele um tanto bruscamente e recomeçou a escavar no ponto indicado. Por dentro, fervia de indignação. Abusado aquele senhor Mulder. Tocá-la daquele jeito! É certo que, dada a escuridão, o toque poderia ter sido absolutamente acidental. Mas ele nem ao menos pedira desculpas... Descarado, abusado. Só porque ela era uma humilde camareira, isso não lhe dava direitos sobre ela... Ajoelhado ao seu lado, Will Mulder também remexia o entulho, distraído. Aquele toque fortuito no seio da ruivinha... Parecia ainda sentir a maciez de sua carne nas pedras ásperas onde cavava. Havia corado, no momento do toque, tinha certeza. Pudera sentir o sangue fluindo com força para sua cabeça, as orelhas queimando, as bochechas formigando. Sorte aquela escuridão toda encobrir sua maldita timidez! Sim, porque não passava de um meninão tímido, por debaixo do fino verniz de refinamento, das afetações de homem do mundo... Um garoto bobo que ruborizava ao tocar o seio de uma bela mulher... Vários pequenos tremores, sem maiores conseqüências que não levantar um bocado de poeira, ainda sacudiam o solo de tempos em tempos. Homem e mulher realmente não lhes tomavam conhecimento, entretidos que estavam em seus pensamentos. Assim como pareciam não se importar com o calor que começava a fazer ali dentro, nem com o ar viciado que respiravam. Grossas bagas de suor escorriam por seus rostos e pescoços, umedecendo-lhes as roupas. O ar pesado e quente ia tornando- lhes a respiração cada vez mais penosa, turvando-lhes a visão. Mas ambos pareciam completamente alheios ao desconforto. A raiva surda não permitia que Kathy sentisse os males que a aspereza do entulho ia infligindo às suas mãos. Cavava para sair dali, cavava para afastar-se daquele homem o mais rápido possível. Cavava, alheia a tudo o que não fosse o simples ato de cavar. Pedra após pedra, pedaço após pedaço iam sendo retirados do lugar sem que isso revelasse o mínimo resultado prático. Nem um sopro de ar fresco, nem uma ínfima réstia de luz. Mulder começava a imaginar se estavam, de fato, escavando na direção correta. Mas como sabê-lo? Não havia como. Por isso, persistia cavando. Por isso, e pelos fortuitos toques de mãos que ocasionalmente ocorriam com a irritada ruiva. No processo de escavar o entulho na completa escuridão, por vezes, suas mãos se esbarravam, por vezes, seus dedos se entrelaçavam, enchendo Will de um estranho contentamento que o animava a continuar cavucando, mesmo sem resultados. E, uma vez mais, aconteceu. Os dedos de Will esbarraram acidentalmente nos de Kathy. Mas não foi, em absoluto, por acidente que eles se entrelaçaram na seqüência. Tampouco foi por acidente que os dedos dele aprisionaram gentil, mas firmemente, os da ruiva entre os seus. Por alguns longos segundos, ela não esboçou reação, como que paralisada sob o toque. Kathy remexia, absorta, o entulho, quando um bocado de poeira das escavações caiu sobre sua cabeça. A pobre estremeceu, recordando-se subitamente de sua casa, de sua família. Procurou ser objetiva e controlar-se, mas parecia ver diante de seus olhos as velhas paredes ruindo. Os gritos aterrorizados de seus irmãos e o silêncio sepulcral de sua mãe ecoavam sinistros em seus ouvidos... E temeu intensamente a solidão. Não pôde evitar as lágrimas que rolaram quentes por suas faces cobertas de poeira, deixando trilhas lamacentas por onde passavam. E, então, um alento... Sentiu o toque em suas mãos, seus dedos aprisionados tão carinhosamente por outros, afugentando a escuridão que ameaçava tomar sua alma. E, por um instante, teve certeza de que não estava sozinha. Uma louca sensação lhe dizia que nunca estaria. E deixou-se ficar daquela forma, paralisada, quase contente, até quando, enfim, despertou de seus devaneios para a situação real e percebeu de quem partia aquela gentil carícia. - Droga! – Kathy exclamou irritada, enquanto tentava arrancar com violência os dedos de sua prisão. Mas sua irritação foi abafada por um violento tremor que a fez desequilibrar-se e cair sobre William Mulder, o derrubando ao solo. O monte aparentemente compacto de escombros, que haviam tão obstinadamente escavado durante as últimas horas, desabou sobre eles, um momento depois que o homem rolou sobre seu lado e cobriu o corpo de Scully com o seu, protegendo-a dos destroços que caíam com força sobre os dois. "Vários tremores secundários continuaram abatendo-se sobre a cidade de San Francisco nas horas que se seguiram. A maior parte deles, apenas movimentos leves de acomodação do solo sem maiores conseqüências. Às 8:14 da manhã, entretanto, um violento abalo sacudiu a cidade, fazendo ruir grande parte das construções já afetadas pelo choque principal e espalhando pânico entre a população." O mundo chegava na forma de ecos distantes aos ouvidos de Katherine Scully. Cães gemendo e uivando, sinos tocando ao longe e vozes abafadas misturavam-se ao zunido alto em seus ouvidos, em uma confusa cacofonia. A cabeça lhe doía leve, mas incomodamente. Seus braços, presos, não a deixavam mover- se. E havia aquela pressão em seu peito, tão grande que mal a deixava respirar. Entreabriu os olhos, aturdida, e a branca claridade a ofuscou, a obrigando a cerrá-los outra vez. Talvez tivesse morrido, imaginou. Mas, nesse caso, haveria cães no paraíso ou no inferno, ela os podia ouvir latindo. Não... Não acreditava que houvesse cães por lá. Logo, devia estar viva! Então, devia esforçar-se para entender o que se passava. As coisas voltavam à sua mente aos poucos e desordenadas. A escura prisão entre escombros... O terremoto... Escavar o entulho em busca de uma saída... William Mulder... Sim. Agora recordava-se do violento abalo secundário e das paredes e pedras desabando sobre sua cabeça. Respirou fundo, sufocada. "Ar fresco!", alegrou-se quando uma lufada de ar frio encheu seus pulmões. Forçou-se a abrir os olhos, a despeito da claridade que a cegava. Demorou a acostumar-se com a luz, após quase três horas de absoluta escuridão. Porém, quando o fez, pôde perceber a nesga de céu azul visível por uma brecha nos escombros, bem acima de sua cabeça, pela qual penetrava, também, o raio de sol que teimava em ofuscá-la. Era um belo dia de primavera, lá fora, ela não pôde deixar de pensar, ao ver um bando de pássaros cortando, em revoada, a fresta azul celeste. Pássaros negros. "Gralhas!", disse a si mesma, quando o grasnar soturno feriu-lhe os ouvidos. "Mau agouro..." diria vovó Scully em seu obscuro mundo de superstições irlandesas. Um calafrio percorreu o corpo de Katherine ao associar os pressagos pássaros à imagem de sua casa em ruínas, silenciosa como um túmulo, como se todos nela estivessem mortos... Mordeu os lábios com tal força para conter o pranto que o gosto acre de sangue se fez presente em sua boca. Logo agora, que estava tão próxima de escapar daquele cárcere, agora que podia ver o céu, justo naquele momento, não se podia deixar esmorecer. Não devia, não tinha o direito de deixar morrerem as esperanças. "Mau agouro é bobagem, vovó.", insistiu para si mesma, bravamente varrendo os pensamentos sombrios para algum canto escuro de sua cabeça. "Controle-se e lute, Katherine Scully!" ordenou, obrigando-se a engolir as lágrimas. Um gemido abafado a arrancou do transe e a fez voltar a cabeça dolorida para o lado. Compreendeu, de súbito, a razão da pressão em seu peito. Will Mulder jazia desacordado sobre ela. Usara seu próprio corpo como escudo para protegê-la. Mas os escombros haviam sido inclementes com ele. Sua cabeça, apoiada no solo e voltada para Scully, exibia um grosso filete de sangue que lhe descia pela testa. Seu corpo imóvel e o de Kathy, por extensão, estavam parcialmente soterrados por uma pilha de fragmentos de paredes que cobriam parte de suas costas e suas pernas. Ao menos, estava vivo. Ela podia sentir-lhe o hálito quente na orelha. - Sr. Mulder! – chamou em voz baixa, quase um sussurro. Nada. Nenhuma reação foi esboçada pelo homem desacordado. Talvez o ferimento em sua cabeça fosse mais grave do que parecia, ela imaginou, começando a preocupar-se. Ele era pesado demais para que ela conseguisse movê-lo. Poderia estar, então, condenada a ficar ali para sempre... - Sr. Mulder! – repetiu, um pouco mais alto, desta vez. Outro gemido foi a resposta. E mais outro, à medida em que ele abria os olhos vagarosamente. Will Mulder estava, também, confuso. De um rosto de mulher, muito próximo ao seu, um par de enormes olhos azuis o fitava de esguelha. Não conseguia atinar a quem pertenceriam. Seu corpo todo doía. Ele inspirou com força, necessitando do ar. Sentiu doerem-lhe ainda mais as costas ao fazê-lo. Quando exalou o ar, um mecha de cabelos ruivos deslocou-se, agitando-se sutilmente no ar diante de seus olhos. "Ah, a ruivinha Scully...", lembrou-se. - Sr. Mulder! – ela chamou uma vez mais, ao ver os olhos cinzentos se abrirem. – Como se sente? Pode mover-se? Ruidosamente, o monte de escombros mudou de posição quando Mulder, apoiando os cotovelos um de cada lado da cabeça de Kathy, ergueu o tronco, posicionando-se sobre a mulher. Tão próximo estava o rosto de Will do da moça que tudo o que ele conseguia enxergar eram os olhos azuis... Furiosos... Ele não se pôde furtar um sorriso, quando ela bufou, incomodada. Ele demorava-se mais do que o necessário naquela posição, apenas para vê-la naquele estado. Enfim, ergueu mais um pouco o tronco, apenas o suficiente para ter uma clara visão do rosto feminino. Lindo, ainda que coberto de poeira. Trilhas de lama em suas bochechas revelavam que ela estivera chorando, o enchendo de um desejo pungente de poder acalentá-la nos braços. Seus olhos detiveram-se nos lábios rosados que ele sentiu-se tentado a beijar. Por um breve instante, pareceu sentir-lhes o sabor doce, a textura macia. Mas percebeu que ela mordiscava o lábio inferior irritada. "Melhor ter cuidado...", concluiu. Ao pôr-se, finalmente, de quatro, o fez de forma tão brusca que bateu com força a cabeça contra o muro sólido que servia agora de teto ao covil. - Ui! - exclamou, abaixando-se ligeiramente. Desta vez, foi Kathy quem não pôde furtar-se um sorriso. "Fica ainda mais bela quando sorri...", Will pensou em meio à dor, enquanto se agachava encolhido ao lado dela. Foi somente então que ele se deu conta de que a escuridão em que estavam mergulhados anteriormente dera lugar à claridade e percebeu a fresta por onde a luz do dia invadia o covil. Ele ainda contemplava, entre perplexo e maravilhado, a nesga azul de céu, quando Scully, sentada, começou a procurar um meio de ampliá-la. - Vai ficar o dia todo, aí, olhando, ou vai me ajudar? – perguntou sarcástica, os lábios torcidos num meio sorriso, tentando empurrar, já de joelhos, a parede sólida onde Mulder havia batido com a cabeça. Ele sorriu do jeito sempre surpreendente dela e adiantou-se para ajudá-la. A cada minuto que passava, achava a ruivinha mais e mais interessante, aumentava seu desejo de conhecê-la melhor. Porém, enquanto esforçava-se para aumentar a abertura na parede, Will ia, aos poucos, tomando ciência de que sair dali implicava em que a vida retornaria ao seu curso normal, que cada um seguiria seu caminho e que, talvez, nunca mais ele viesse a encontrar a bela camareira novamente. Que, fora daquele claustro, voltariam a ser o rico hóspede e a humilde camareira, distanciados por um abismo quase que intransponível, na sociedade mesquinha em que viviam. Fantasiou-se em sua casa, em Boston, comunicando a seus pais, por exemplo, seu iminente casamento com a pequena Scully. A expressão de desaprovação da mãe dançou-lhe, por um momento, diante dos olhos. Certamente, ela, com seu esnobismo, seria uma daquelas pessoas que nunca aceitariam uma possível ligação entre ele e alguém de classe inferior. E assim o fariam muitos outros em seu círculo de relações. Porém, o preconceito social não era um fenômeno unilateral, proveniente das classes abastadas, ele sabia. Ainda tinha viva a lembrança da última vez em que estivera em uma das fábricas de sua família, em Detroit, e resolvera unir-se aos operários, no refeitório, para o almoço. Mesmo que eles não soubessem quem era ele e não o pudessem identificar como "o filho do patrão", no mesmo instante em que se sentou na comprida mesa, ao lado dos rapazes, a acalorada discussão que levavam converteu-se em um silêncio incômodo e, por mais que Mulder tentasse entabular alguma conversa com eles, tudo o que obtinha em resposta eram desconfortáveis monossílabos. Embora a ruivinha não lhe parecesse, a princípio, intimidada por essa diferença social, Will não podia ter certeza de que sua reação não se devesse à pressão e ao estresse impostos pela situação em que se encontravam. Nem que, na volta ao "mundo real", sua adorável petulância não murcharia por completo. Tamanha incerteza o fazia desejar não sair daquele confinamento. Isso e mais a quase certeza de que, fora dali, ele a perderia para sempre. Para sempre. Para nunca mais. E o pensamento o devastou. De repente, foi como se seus braços perdessem as forças. Não queria mais sair dali. Não queria perdê-la... Constatou que a amava... Estava amando! Era inacreditável, dadas as circunstâncias, mas, sim, a amava. Acreditava ter encontrado a mulher de sua vida e simplesmente não a podia deixar escapar. Embora ela não o soubesse... Ao mesmo tempo, no entanto, sabia que não poderiam ficar ali enclausurados para sempre. Com os braços suspensos no ar, observou longamente o semblante da ruiva, procurando decidir o que fazer. Ela, atarefada, parecia não percebê-lo, os olhos espertos, velozes, investigando, explorando os escombros, varrendo cada canto, cada fenda, de um lado para o outro, sem descanso, até, enfim, cruzarem com o olhar de Will. E ali permanecerem, como que aprisionados. E o que Katherine viu nos olhos cinzentos naquele momento foi algo muito diferente do que vira horas antes, quando ainda havia o corredor do hotel. Quando o mundo ainda se dividia em ricos e pobres, hóspede e camareira. O que ela viu naquele olhar foi solidão, uma súplica por carinho, uma imensa tristeza, um pedido comovido de desculpas, um menino carente de atenção... Um caldeirão de sentimentos confundia-se em olhos profundos onde o cinza se mesclava com a cor de avelãs. A irritação e a raiva que agitavam o azul do olhar da mulher cederam lugar à serenidade e à aceitação, fornecendo coragem suficiente a Will para tomar-lhe o rosto entre as mãos e pousar os lábios sobre os dela, num beijo terno e breve. Voltou a fitá-la, apreensivo, sem soltar seu rosto, em busca de algum sinal de desaprovação. Mas não havia sinal algum e ele reaproximou-se, pressionando com os seus os lábios de Kathy, dessa feita com ardor. Sua língua insinuou-se, traçando os contornos da boca da mulher, que estremeceu, entreabrindo os lábios para recebê-lo. - Fogo! – gritaram vozes do lado de fora. Imediatamente, o cheiro amargo de queimado tomou o ar, separando o casal. Instantes depois, a fumaça começava a invadir o parco espaço a que estavam confinados por cada fresta entre aos escombros, os obrigando a lutar com rapidez para aumentar a fenda na parte superior do covil. A fumaça escura dominava todo o espaço, os fazendo tossir. O crepitar das chamas em algum lugar próximo já era audível, quando, num esforço final, Will e Kathy conseguiram deslocar um pedaço de parede, ampliando a fresta o suficiente para que pudessem esgueirar-se para fora. A imponente construção que um dia fora o Grand Hotel não passava agora de uma pilha alta de escombros, do topo da qual Katherine Scully e William Mulder procuravam descer. Em um ponto das ruínas, próximo aonde haviam emergido, erguia-se uma grossa coluna de fumaça negra. De qualquer maneira, correndo, pulando, tropeçando, escorregando, caindo, rolando, ambos conseguiram, enfim, atingir o chão. Deixaram-se ficar, deitados lado a lado, no meio da rua, sem fôlego, os olhos fitos no céu azul, alheios às pessoas que circulavam ao redor, tontos do susto e do esforço. O som cavo dos cascos dos cavalos nos paralelepípedos e o tilintar das sinetas anunciando a chegada dos bombeiros os obrigaram a erguer-se do chão e sair do caminho, retirando-se para a calçada. Mas onde deveria estar a calçada, havia um monte de tijolos que até o dia anterior faziam parte da imponente fachada do banco que se localizava defronte ao hotel. Por todo o lado para o qual se olhasse, havia pilhas de tijolos e concreto e cacos de vidro e destruição. Scully olhava em volta aturdida, assustada. Os olhos esgazeados vagavam pelos escombros, nervosos. Mulder, parado ao seu lado, a observava sem saber ao certo o que fazer. - Tenho que ir! – ela disse simplesmente, virando-se e seguindo em direção a South-of-Market, sua vizinhança. Não lhe disse adeus, não lhe dirigiu um único olhar. Apenas saiu andando, deixando para trás um desconcertado Will, pasmo a observá-la desaparecer numa esquina. Num impulso, ele a seguiu, primeiro correndo em seu encalço, depois caminhando silencioso ao seu lado, sem ousar quebrar seu silêncio com perguntas ou comentários que pudessem soar tolos. Caminhar ao lado dela já lhe bastava. Os olhos curiosos de William distraíam-se em observar as pessoas que lotavam as ruas. Havia mulheres e crianças em camisolas e senhores distintos andando de pijamas pela via pública como se estivessem na intimidade de suas alcovas. Outros ainda envergavam os fraques elegantes com os quais haviam provavelmente ido à ópera, na noite anterior, tendo ao lado suas esposas em longos vestidos de noite, suas jóias faiscando ao sol da manhã, os cabelos fugindo ao rigor dos penteados e caindo desordenados sobre os olhos. E havia a velha senhora que carregava uma grande gaiola dourada na qual havia quatro lindos gatinhos, enquanto o ocupante de direito, um papagaio, encarapitava-se no ombro da dona. E o homem calvo com grandes bigodes de pontas retorcidas que levava nos braços, como se fosse um bebê, um vaso de violetas para o qual murmurava palavras de conforto. Não havia histeria ou pânico por onde passavam. Só uma aceitação muda e tácita da tragédia como um fato coletivo, um desígnio divino contra o qual não se podia lutar. De tempos em tempos, Mulder examinava o rosto de Katherine em busca de algum sinal que revelasse o que ela poderia estar pensando. Mas seu rosto era uma máscara de pedra, indecifrável, na qual a única emoção visível era a determinação. Ela andava e andava como se aquela fosse a única coisa a ser feita no mundo. Embora, inicialmente, Scully parecesse não perceber que ele a acompanhava, foi graças a seu braço estendido, barrando o caminho do distraído companheiro, que ele salvou-se de ser atropelado por um automóvel em disparada, quando atravessavam uma rua. Ela não compreendia porque ele a seguia. Mas o fato dele a acompanhar não a incomodava em nada. Estranhamente, proporcionava-lhe mesmo uma sensação de segurança que ajudava a amenizar os maus pressentimentos que tinha em relação ao estado como encontraria sua casa. No caminho até lá, seguiam passando por diversas ruas onde o tremor não havia causado mais danos que uns poucos vidros quebrados ou rachaduras no reboco das paredes. Em outras, os postes que sustentavam os fios elétricos inclinavam-se nos ângulos mais absurdos ao longo de toda a extensão das calçadas. À medida em que iam penetrando na área mais pobre de San Francisco, porém, os sinais da destruição causada pelo terremoto iam se tornando mais e mais evidentes. Ruas inteiras não passavam de pilhas de escombros. Na rua Valencia, um andar inteiro dos três que compunham o Valencia Street Hotel havia afundado no solo, como se a terra o houvesse engolido. Dezenas de cidadãos remexiam os escombros na tentativa de resgatar as cerca de duzentas pessoas soterradas com o desabamento. Por todo lado, grossas espirais de fumaça emergiam das ruínas. As chamas consumiam a cidade. "Centenas, talvez milhares de pessoas perderam suas vidas quando as casas de South-of-Market ruíram no solo liqüefeito sob elas. Muitas dessas construções incendiaram-se imediatamente e seus habitantes aprisionados não puderam ser resgatados. No Valencia Street Hotel, diversas pessoas afogaram-se devido ao rompimento de uma tubulação de água quando o hotel afundou no solo." Quanto mais penetravam naquele caos de destruição e morte, mais visivelmente perturbada ia ficando Katherine. Suas mãos revolviam inquietas os bolsos do avental outrora branco de seu uniforme. A respiração era curta e ofegante, enquanto mordiscava nervosamente o lábio inferior. Andava cada vez mais rápido, com passos impressionantemente longos para suas pernas curtas. Mulder era obrigado a apressar o passo para acompanhá-la. Após dobrarem uma esquina, Kathy subitamente estacou, a respiração suspensa, os olhos abertos como se quisessem saltar das órbitas. Não havia uma única parede de pé naquela rua. O solo, liqüefeito pelo tremor, engolira até mesmo os escombros. Ela ainda avançou alguns metros antes de parar novamente diante de uma dessas ruínas, semi-enterradas no chão. Ela olhava transtornada, a pilha lamacenta de pedras e entulho. A boca entreaberta dirigiu uma pergunta muda a um homem idoso de aparência rude que a tudo observava a alguma distância. O homem apenas encolheu os ombros e baixou os olhos sombrios, enquanto a cabeça acenava uma sutil negativa. Scully permaneceu imóvel, com os olhos secos, contemplando os escombros. Os braços pendiam ao longo do corpo e as mãos apertavam freneticamente as dobras das saias. Não emitia um único som, apesar de seus lábios moverem-se numa ladainha incessante. Aquilo não estava acontecendo... Não podia estar... Sua mãe, Tommy, Betty, Nell, Eric... mortos... todos mortos... Não estava acontecendo! Mortos. Recusava-se a acreditar. Por que fora poupada, oh, Deus? Por quê? Para ficar sozinha? Apodrecer na solidão? Não era justo. Não podia estar acontecendo... Seus olhos incrédulos não podiam aceitar que, sob aquele monte de pedras, jaziam sem vida todos os seus entes queridos, todos os que lhe haviam restado. Quis correr até os escombros, escavá-los com as próprias mãos até encontrar sua família ou abrir neles um buraco tão grande que pudesse enterrar-se com ela. Mas não tinha forças. Um cansaço tão grande abatia-se sobre ela que não seria capaz de mover- se um centímetro de onde estava. E deixava-se ficar ali, sentindo-se tão impotente quanto jamais sentira-se antes. Tão vazia que nem mesmo lágrimas parecia ter para derramar. Como um raio, a compreensão do que acontecera naquele local atingiu William Mulder. Ali, sob o monte de escombros jaziam a casa, a família, a vida de Scully. Ele pôde sentir sua tristeza e compadeceu-se dela. Desejava ardentemente poder reverter a situação que a afligia, mas sabia ser impossível ressuscitar os mortos. Ao mesmo tempo, no entanto, não suportava vê-la desamparada, sofrendo como sofria, em silêncio, engolindo as lágrimas. E tudo o que lhe ocorreu, na ocasião, foi tentar amenizar-lhe o sofrimento como pudesse. Assim, acercou-se respeitosamente da mulher e pousou a mão em seu ombro, o pressionando suavemente. Ela estremeceu e voltou-se lentamente para ele, erguendo a cabeça para fitá- lo. Tinha os olhos rasos d'água, das lágrimas que continha a tanto custo. Will a envolveu em um abraço. E, com a cabeça enterrada em seu peito, ela finalmente deu vazão ao pranto que tentara evitar. E chorou e soluçou como nunca em sua vida. Chorou a dor imensa que sentia, o aperto que estrangulava seu peito, seu coração. Soluçou toda a amargura e o ressentimento que trazia contra a Natureza, contra o mundo, contra Deus por terem feito aquilo com ela, por terem-na deixado só. E chorou até que o pranto lavasse sua alma e levasse em sua torrente toda dor e todo o ressentimento que ela carregava dentro de si. E chorou até que suas lágrimas secaram e ela sentiu-se, novamente, vazia, oca, sozinha, morta. Não poderia precisar por quanto tempo deixou-se ficar desamparada, em prantos, envolta naquele abraço. Nos braços de um estranho que a apertava junto ao peito e acariciava seus cabelos sem nada dizer. Mas lentamente o calor do abraço do estranho, a gentileza de suas carícias a foram preenchendo outra vez, a trazendo de volta ao mundo dos vivos. E Katherine compreendeu que, em honra da memória dos que haviam partido, deveria continuar vivendo. E lutando. Gentilmente, desvencilhou-se dos braços que a envolviam e afastou-se um pequeno passo para trás, apenas o suficiente para poder encarar o rosto daquele que a trouxera de volta à vida. Com os olhos baixos, inspirou profundamente. A seguir, tomou-lhe as mãos nas suas e as levou aos lábios, pousando um singelo beijo em cada um dos nós esfolados de seus dedos. Depois, fitou os olhos cinzentos tão intensamente que a Mulder pareceu que ela lhe alcançava a alma, que lhe descobria todos os segredos. - Obrigada. – sussurrou Katherine, de modo quase inaudível. Um sorriso triste estampou-se em seu semblante quando William repetiu-lhe o gesto, beijando suas mãos feridas. - Obrigado. – ele murmurou em resposta. Nada mais restava a ser feito ali. Por mais que desejasse, o olhar de Scully não seria capaz de fazer ressurgir das pedras frias seus entes queridos. As quadras próximas já ardiam consumidas pelo fogo voraz que começava a devorar a cidade. As chamas aproximavam-se rapidamente de onde estavam e, em breve, o local todo estaria semelhante a uma filial do inferno. Em silêncio, William pousou o braço ao redor dos ombros de Katherine que se deixou conduzir para longe dali. "O fogo começou simultaneamente, por toda a cidade, quando as donas de casa começaram a preparar o café da manhã para suas famílias, sem se dar conta da ameaça que representavam as chaminés em ruínas. Por toda parte, nuvens de fumaça e chamas começaram a se espalhar. O trabalho dos bombeiros foi grandemente prejudicado pelo rompimento das tubulações de água." Por onde quer que passassem, na parte baixa da cidade, o cenário era o mesmo. Ruínas e escombros, postes inclinados nas calçadas onduladas de onde jorravam jatos de água provenientes das tubulações rompidas. E havia o fogo, o grande incêndio que já se alastrava por toda Frisco. Bombeiros e cidadãos comuns uniam-se na tentativa de combater as chamas que ameaçavam devastar a cidade. Mas seus esforços pareciam inúteis. Mal logravam extinguir as labaredas em um local, o fogo ressurgia devastador num ponto logo adiante. Comentava-se que, entre as vítimas da catástrofe, estava o Comandante do Corpo de Bombeiros, o que explicava a aparente desordem no combate às chamas. Outro comentário corrente informava que o exército, na figura do General Funston, era o poder vigente na cidade agora em regime de lei marcial. Milicianos postavam-se em cada esquina com o objetivo de impedir saques às casas abandonadas, às pressas, por seus moradores, com permissão de "atirar para matar" naqueles que ousassem desobedecer às ordens. Um alarido de vozes enchia o ar quando Kathy e Will aproximaram-se da Shreve & Co., uma joalheria parcialmente devastada pelo sismo. Da pequena multidão agrupada em frente à loja, subitamente, destacou-se um homem que passou em disparada por Mulder e Scully, os derrubando ao chão. O estampido de um tiro fez calar as vozes do grupo, enquanto o fugitivo desabava pesadamente no meio da rua, mortalmente ferido. O miliciano que o alvejara dispersou a multidão aos gritos e encaminhou-se com passos rápidos até o moribundo, não dispensando mais que um olhar de soslaio para o casal caído na calçada. Fez rolar o corpo caído com o pé, deu uma breve examinada, certificando-se de que o homem estava, de fato, morto, e virou-lhe as costas, voltando ao seu posto. O ferimento causado pelo segundo tremor na cabeça de Will sangrava novamente, uma vez que, na queda, sua cabeça havia chocado contra o calçamento. Um fino filete de sangue escorria por sua orelha quando ele ajudou Katherine a erguer- se do chão. - Você está ferido! – disse ela, enquanto sacava do bolso de seu avental empoeirado um lenço milagrosamente branco e com ele fazia uma compressa no ferimento que atou à cabeça de Will com uma tira rasgada de suas anáguas. – Precisa de cuidados médicos... O Central Emergency Hospital fica aqui perto... Vamos até lá! - Não é necessário. É apenas um arranhãozinho... – ele protestava sem entusiasmo. Seus protestos foram vãos, uma vez que Scully já o rebocava vigorosamente pelo braço a caminho do hospital. Ele a acompanhou amuado, como uma criança levada pela mãe ao dentista. Surpreenderam-se, porém, ao chegar lá, com o estado em que se encontrava o hospital. A construção de tijolos aparentes estava parcialmente destruída, com sua fachada de pedra totalmente arruinada, as chaminés desmoronadas, o madeirame de sustentação do telhado exposto e o arco de pedra da entrada rachado e prestes a desabar. Um atarantado enfermeiro que tentava manobrar uma carroça na entrada do pátio os informou que todo o atendimento de emergência estava sendo feito no Mechanics' Pavilion, perto dali. Indiferente aos protestos de Mulder, Scully o fez seguir até o pavilhão. - Sua cabeça precisa de cuidados. Não há o que argumentar. – afirmava imperiosa, quando, de tempos em tempos, ajeitava o curativo da cabeça de William. O Mechanics' Pavilion era uma grande estrutura de madeira, normalmente usada para exposições e feiras. Dentro dela, jaziam em compridas filas de colchões cerca de duzentas pessoas, em sua maioria com ferimentos na cabeça ou nas pernas. Uma dezena de médicos e enfermeiras andavam atarantados em meio aos feridos que não paravam de chegar e formavam um confuso amontoado na entrada do pavilhão. - Espere-me aqui! – ordenou Kathy a seu acompanhante, enquanto se afastava decidida em busca de alguém que os atendesse. Will se deixou ficar, aparvalhado, parte pela confusão que o cercava, parte pela ligeira tontura que sentia. Acompanhou a moça com o olhar até que ela desaparecesse no meio da multidão. Ainda tentava localizá-la, quando um grito foi ouvido. - O telhado está em chamas! Cercado pela massa assustada, William acabou vendo-se forçado a abandonar o pavilhão no corre-corre que se formara entre os que estavam perto das portas. Do lado de fora, podia ver as chamas que ardiam no telhado. Procurava por Katherine com o olhar entre as pessoas que deixavam o edifício, mas não conseguia encontrá-la. As garras do medo fecharam-se apertadas sobre sua garganta, tornando-lhe difícil a respiração. O medo de perdê-la... "Um princípio de confusão se formou quando o telhado do Mechanics' Pavilion incendiou-se, por volta de 1:00 da tarde, até que o médico chefe, com um berro, pedisse calma e comandasse a evacuação ordeira do prédio. Os feridos foram transferidos o Golden Gate Park, o Children's Hospital e o Presidio em ambulâncias ou quaisquer veículos que estivessem à mão. Os corpos dos mortos foram abandonados às chamas." Foi com um alívio imenso que, finalmente, William viu Katherine emergir pelas grandes portas de madeira, trazendo nos braços uma criança com a perna enfaixada. Aproximou-se, trêmulo de susto, ao mesmo tempo em que ela entregava a criança aos cuidados de uma gorda enfermeira. Atordoada, a ruiva recebeu o abraço apertado do homem sem nada compreender. Muito estranho aquele senhor Mulder! A abraçava como a uma velha amiga que não visse a vinte anos, quando não haviam se passado mais que cinco minutos desde o alarme de incêndio... Muito estranho... Meio louco! O lenço atado à cabeça de Will estava empapado de sangue. Suas feições estavam pálidas e seus lábios, descorados. Gotículas de suor perolavam sua testa e lábio superior. Parecia prestes a desfalecer. Prontamente, ela tomou seu braço e o foi conduzindo em direção a um dos automóveis parados nas proximidades. Porém, um ferido grave tomou sua frente e ocupou o último lugar disponível no veículo. Kathy, então, indagou ao motorista para onde seriam levados os feridos e, nem bem ouviu a resposta, já fez menção de retomar a caminhada na direção indicada. Will, no entanto, desta vez, permaneceu imóvel. - Veja bem, Katherine. – argumentou ele, convicto, parecendo, repentinamente, recuperar-se. – Os feridos estão sendo transferidos para lugares muito distantes e nós, com certeza, não vamos conseguir uma condução até lá... E minha cabeça não está assim tão mal... Além disso, o fogo está se alastrando rapidamente e precisamos sair daqui o mais rápido possível... E... – prosseguia ele numa ladainha sem fim. - Ok! Está bem. – cortou ela. – Você não quer ir, é seu direito. Tudo bem. – ele abriu um sorriso de criança feliz diante das palavras de Scully. – Mas prometa-me que, assim que houver uma oportunidade, vai me deixar fazer um curativo decente nesse ferimento, ok? – ela arrematou, sorrindo também da expressão quase infantil de felicidade de Mulder. Seguiram caminhando para algum lugar onde o incêndio parecesse mais distante. Já passava muito das duas da tarde quando William e Katherine chegaram a Nob Hill, a parte alta de San Francisco. Naquela região, onde estavam situadas as residências dos primeiros milionários da Califórnia, o tremor também deixara visíveis as marcas de sua devastadora passagem. Mulder estacou por um longo momento diante de um belo pórtico com elegantes colunas de mármore branco, tudo o que restara da mansão dos Towne, uma importante família de Frisco com quem mantinha relações comerciais. Um portal para um passado glamouroso que não mais existia. Um pouco adiante, localizava-se a residência do banqueiro Cartwright onde havia jantado após a ópera, na noite anterior. Apenas a bela escadaria em curva em mármore rosado com corrimões de cobre ricamente trabalhados permanecia de pé, imponente, levando a lugar nenhum. Estranho... Fora apenas na noite anterior que estivera ali, mas lhe parecia ter acontecido uma eternidade atrás. Pelas calçadas, aqui e ali, as pessoas agrupavam-se ao redor de fogões improvisados nas calçadas a partir de pilhas de tijolos. O aroma de café que impregnava o ar próximo a um desses grupos, fez recordar a Will e Kathy que seus estômagos estavam vazios até aquela hora. - Aceitam um pouco de café? – indagou a simpática senhora que cuidava do fogo. Sem hesitar, acercaram-se do fogão, onde a gentil mulher serviu a cada um uma caneca fumegante de café e um pãozinho. Sentaram-se no meio fio, ao lado dos outros, saboreando o calor reconfortante da bebida e seu efeito lenitivo sobre seus corpos cansados. Kathy observou divertida que a alegre senhora que os convidara trazia cada pé calçado em um sapato diferente, provavelmente um descuido causado pela pressa em abandonar sua casa após o tremor. Assim como havia feito com eles, a mulher abordava todos os que passassem, oferecendo- lhes conforto e solidariedade na forma do café quente com pão. Um pouco que podia significar muito para quem, como Kathy, havia perdido tudo. A vista, a partir da colina onde estavam, era apocalíptica. A cidade, lá embaixo, transformada em ruínas pela mão poderosa do terremoto, ardia agora sob as chamas do gigantesco incêndio. - Atenção, por favor! Todos parados por um instante! – gritou um homem que apontava uma câmera fotográfica em na direção do grupo, imortalizando Mulder, Scully, a gentil senhora dos sapatos trocados, todo o estranho ajuntamento reunido em volta do fogão de tijolos em uma fotografia cujo pano de fundo era a impressionante destruição urbana lá embaixo. Um fiel testemunho do momento que San Francisco atravessava. Era estranho como, no geral, os ânimos não transpareciam a gravidade do momento. As pessoas, impressionantemente calmas dada a situação, pareciam indiferentes ao desastre. Mesmo aquelas que tudo haviam perdido demonstravam este comportamento estóico. Talvez mantivessem a louca esperança de que tudo não passasse de um pesadelo. Talvez a calamidade houvesse de tal forma anestesiado seus sentidos que elas fossem incapazes de reagir de outro modo. Talvez fosse apenas a aceitação pura e simples do destino como uma fatalidade incontestável. Mesmo William e Katherine reagiam dessa forma, a despeito de todas as dificuldades e perigos que já haviam enfrentado até o momento. Ao longe, ouviam-se as explosões que devastavam quadras inteiras, lá embaixo, numa tentativa desesperada de conter o avanço do fogo abrindo-se vãos suficientemente largos que impossibilitassem sua propagação. E nem mesmo esse trovejar constante de dinamite parecia afetar as pessoas. Will e Kathy vagavam sem destino pelas ruas de Nob Hill. Caminhavam lado a lado, em silêncio, entregues a seus pensamentos. A companhia um do outro era suficiente para satisfazê-los. Paravam aqui e ali para apreciar o que viam. Como uma casa que tivera apenas a parede frontal derrubada, com seus moradores sentados nas poltronas da sala, tomando chá e conversando como se fosse mais uma outra tarde calma de primavera. Tudo o que restava de uma construção em uma esquina eram duas paredes. De uma delas, à beira da calçada, pendia um letreiro de ferro onde, em letras negras cuidadosamente pintadas sobre o fundo amarelo, lia-se "Vidros". Na outra, miraculosamente intocado pelo terremoto, sem uma trinca que fosse, havia um grande espelho com as bordas bisotadas em belas flores e arabesco caprichosos. Nele, refletiam-se as imagens de um homem e uma mulher. Ele, alto e de porte atlético, usava o que um dia fora um elegante smoking, agora pardacento de lama e pó. Ela, de estatura baixa e compleição delicada, envergava um sisudo uniforme negro, também enfeado pela sujeira. Tinham ambos os cabelos desgrenhados e as feições escondidas sob uma grossa camada de poeira. E, nos olhos, ah, os olhos... Um surpreendente e complexo misto de abandono e enlevo e tristeza e contentamento. Mulder e Scully sorriram, simultaneamente, do que viram no espelho. - Nossa! – exclamou Kathy. – Eu nem havia percebido o quão esquisitos devemos estar parecendo desse jeito. - Não mais estranhos do que quaisquer outras pessoas que tenham sobrevivido a um desabamento. – ele respondeu com um sorriso brincalhão. – Parecemos vivos, só isso! – acrescentou. Arrependeu-se imediatamente de tê-lo dito, quando percebeu a sombra de tristeza que voejou no semblante de Katherine. - Sim... vivos... – disse ela em voz baixa e soturna. Mas a sombra dissipou-se no instante em que Will, delicadamente, tocou seu cotovelo, a induzindo a seguir em frente. Com a caminhada... Com a vida... Logo adiante, havia o que, até horas atrás, fora uma praça. Os bancos de pedra quebrados e as árvores arrancadas pelas raízes davam a dimensão do tremor, naquele local. No entanto, bem no centro do caos, estava uma fonte onde querubins milagrosamente poupados da destruição jorravam água pelas boquinhas. William e Katherine aproveitaram-se da benção daquela água corrente e abundante para limpar seus rostos, pescoços, mãos, suas almas. Com gentileza, Scully obrigou Mulder a sentar-se na borda da fonte e, em seguida, usando uma tira de pano branco arrancada de suas fartas anáguas, começou a limpar-lhe habilmente o ferimento na cabeça. Removida a crosta de sangue seco que cobria a área, ela percebeu aliviada tratar-se de um corte superficial cujo sangramento abundante devera-se à região fartamente irrigada em que se localizava. Will aceitava tudo imóvel e mudo. A destreza com que Kathy manuseava o ferimento, a leveza de suas mãos o surpreendiam agradavelmente. Faziam-no pensar em outras épocas, em sua infância, quando seus pais ainda não eram tão ricos e sofisticados. Pensava nas traquinagens do pequeno William pelas ruas do bairro, que invariavelmente resultavam em um joelho ou cotovelo esfolado, e no quanto ele ansiava por receber os cuidados carinhosos da mãe ao chegar em casa. Até o dia em que ela descobrira que "não era chique" fazer esse tipo de coisa. A partir de então, todos os machucados do menino eram, sem exceção, tratados por uma das criadas e os carinhos da mãe foram escasseando na mesma medida em que ela foi incorporando-se ao "mundo chique". O Will adulto ainda sentia falta dos carinhos de sua mãe... Com os olhos atentos, Katherine perscrutou o jardim semi destruído ao seu redor e dirigiu-se ligeira a uma árvore caída, voltando, em seguida, com um punhado de folhas nas mãos. - Vovó Scully era uma velha irlandesa supersticiosa. – explicava ela, enquanto amassava as folhas entre as palmas das mãos. – E meio bruxa, também! – acrescentou com um sorriso engraçado, ao aplicar um emplastro das folhas maceradas sobre o ferimento de Mulder. – Ela me ensinou muitos segredos druidas sobre os poderes curativos das plantas. E, já que não temos nada melhor para tratar esse ferimento, acho que isso terá que bastar, por ora. – arrematou, completando o curativo com mais tiras de pano rasgadas de suas anáguas e um nó apertado. Quando voltou a olhar para o rosto de William, ao encerrar o curativo, ele a contemplava embevecido. Kathy, subitamente envergonhada com o olhar, soltou uma mecha dos cabelos castanhos que havia ficado presa entre as bandagens e tentou colocá-la em seu lugar. Mas a mecha, teimosa, voltou a cair sobre a testa de Will, emprestando um ar de menino bonito às feições do homem sentado à sua frente. Com vagar, ele tomou- lhe as mãos entre as suas e as levou aos lábios, num agradecimento mudo. Katherine teve de se esforçar para evitar que as lágrimas, que insistiam em encher seus olhos, não saltassem deles e lhe escorressem pela face. Andava muito lacrimogênea aquele dia, irritou-se em pensamentos. Um aroma gostoso de comida trazido pela brisa invadiu suas narinas, substituindo por um momento o cheiro amargo de queimado que enchia o ar. - Acho que a fome está começando a me deixar louca, mas sinto cheiro de bife! – exclamou Scully, agradecida por algo que a afastasse da iminência do pranto. - Então estou louco também! Bife com batatas! – disse Mulder, levantando-se de um pulo. – E vem dali! Vamos? – acrescentou, puxando Katherine pela mão, na direção indicada. De fato, um pouco adiante, um dos novos milionários locais servia a quem passasse pela rua bifes e batatas assados por ele mesmo numa churrasqueira improvisada construída sobre os restos do muro de sua mansão. Da casa, atrás dele, pouco restara além de uma lareira de pedra, que erguia-se como um monumento ao caos, em meio ao amontoado de ruínas. - Se a vida nos dá limões, façamos uma gostosa limonada! – dizia ele sorrindo, enquanto preparava seus bifes. – Tanto me deu o Senhor antes. E agora me convida a reparti-lo. Venham, amigos! Compartilhem comigo as bênçãos de Deus! De bom grado, Mulder e Scully aceitaram o alimento oferecido e o comeram com apetite voraz. A primeira refeição de verdade que faziam naquele dia... Um pedaço de pão, que acompanhava a refeição, no entanto, foi cuidadosamente guardado por Katherine no bolso de seu avental. - Para uma eventualidade. – explicou ela ante o olhar inquisidor de Will. Ricos e pobres irmanados pela calamidade dividiam nas calçadas o banquete frugal proporcionado por aquele homem. - Deus o abençoe, senhor. – foram as palavras de Kathy ao cavalheiro, ao devolver-lhe os pratos de folha de flandres, após a refeição. - Que o Senhor te acompanhe, menina. – respondeu o homem, sorrindo e tocando-lhe de leve a testa, numa benção. Andavam, perambulando a esmo, em busca de algum lugar para descansar. Por todo lado, as ruas estavam apinhadas de gente. Famílias em fuga carregavam seus poucos pertences no que quer que possuísse rodas: carroças, carrinhos de bebê e carrinhos de brinquedo cruzavam por eles repletos de mantimentos e utensílios de cozinha, grandes malas montadas sobre patinetes passavam, abarrotadas de roupas e cobertores. Um homem arrastava ruidosamente atrás de si um pesado baú de madeira, preso por cordas aos seus ombros. Um bando de crianças, alheio à gravidade da situação, corria em volta do pobre diabo gritando-lhe "ôas" e "upas", como se fosse um cavalo puxando uma charrete. Nas escadarias de um prédio em ruínas, Will e Kathy avistaram uma jovem mãe e sua filha pequena, sentadas nos degraus. - Quero ir para casa, mamãe. Quero ir para casa. – choramingava a menina em voz débil. - Não temos mais casa, querida. Recoste-se aqui e tente tirar uma soneca, meu bem. – dizia a mulher com mais suave e reconfortante das vozes, apertando a filha contra o peito. Tinham ambas uma aparência debilitada, a criança parecia prestes a desmaiar. Kathy compadeceu-se das duas e, aproximando-se, ofereceu-lhes o pedaço de pão que tinha tão cuidadosamente guardado mais cedo. - É pouco, eu sei. – desculpou-se ela à mulher. – Mas espero que ajude. Dos olhos da mãe, uma singela lágrima brotou num agradecimento silencioso à generosidade da jovem ruiva. Sua atenção foi atraída por uma voz que proferia impropérios em altos brados. Pertencia a um homem de longos cabelos grisalhos desgrenhados que, vestido em um robe de seda grená, andava pelas ruas em passos rápidos, descalço, esbravejando contra quem ousasse lhe dirigir o olhar. - Carter! – chamou Mulder, que nele reconheceu seu amigo Cornelius Carter, o escritor de contos fantásticos. Ainda na noite anterior, Mulder e Carter haviam estado juntos, durante a ceia, envolvidos em uma longa discussão com mais outros convivas. Na ocasião, ambos haviam defendido com ardor a futilidade dos sentimentos e a total inutilidade do amor na vida do ser humano. - Um subterfúgio para os fracos. – argumentara Mulder. - O ópio dos ignorantes. – acrescentara Carter. Tão distante parecia a Will aquela argumentação... Compreendia-se, naquele instante, um total ignorante até aquele dia, agora que conhecia o verdadeiro sentido do amor. De volta ao presente, o homem encaminhou-se até ele, parando a poucos centímetros de seu rosto e, como resposta, começou a cuspir palavrões e obscenidades com olhar ensandecido. Foi tamanha a surpresa de Mulder, que ficou sem ação, enquanto o enlouquecido Carter gritava, cuspia e gesticulava sobre seu rosto. - Com licença, senhor! – Scully salvou a situação, empurrando Carter para o lado e puxando Mulder pelo braço para longe dali. De longe, William voltou-se para observar Carter, que agora dirigia toda sua loucura a um poste de iluminação, gesticulando e gritando-lhe impropérios, completamente louco, totalmente inconsciente do ridículo de sua condição. Pobre Carter! Que o inferno tivesse piedade de sua alma, Mulder não pôde deixar de pensar com uma ponta de ironia. O sol já se punha no horizonte quando William e Katherine encontraram, por fim, um local para repousar suas pernas fatigadas. Um recanto idílico. Um belo caramanchão recoberto por uma viçosa trepadeira de flores escarlates escondia sob sua sombra um grande banco de pedra. A partir dali, descortinava-se uma magnífica vista da baía num ângulo do qual nem a destruição do abalo, nem a fumaça do incêndio eram visíveis. Apenas o plácido mar azul e o horizonte tingido pelos tons avermelhados do crepúsculo compunham o sereno quadro. Sentaram-se lado a lado no banco de pedra. O sol, transformado em uma bola ardente e alaranjada, desaparecia rapidamente, como se mergulhasse nas águas do mar para seu descanso noturno. - Quando eu era criança, - começou Scully, em tom nostálgico, os olhos pregados no sol poente, - meu pai sempre me levava para ver o pôr do sol na praia. Ele dizia que, se eu fosse uma boa menina e se Deus estivesse satisfeito comigo, eu ouviria um "tchiii..." quando o sol mergulhasse por completo no mar. Nem preciso dizer que nunca ouvi nada... Calou-se. Mulder a ouvia em respeitoso silêncio, seus olhos saltando ora para o horizonte, ora para a expressão absorta da ruiva. Por fim, o astro rei mergulhou rápida e definitivamente no horizonte, com se engolido pelo mar agora avermelhado dos raios solares. - E continuo não ouvindo... – prosseguiu ela. – Por que Deus não está satisfeito comigo? – acrescentou, depois de um momento, com voz rouca. Os olhos azuis, ainda fitos no horizonte, estavam rasos d'água. Sem uma palavra, Mulder envolveu-lhe os ombros estreitos com o braço e beijou-lhe os cabelos com ternura. Ela deixou-se ficar, entregue ao calor daquele abraço, abandonada aos sentimentos. A tristeza a envolvia como um manto. Uma melancolia, indefinível em palavras. Não podia evitar de pensar em sua mãe, em Eric e Tommy e Nell e Betty. Soterrados sob toneladas de pedras, nas ruínas de sua casa... Doía-lhe tanto a idéia que as palavras morriam-lhe na garganta, as lágrimas enchiam-lhe os olhos. E havia o medo da solidão que tão pungente a assaltara durante todo aquele dia. O mais terrível de todos os seus pesadelos: ficar só. Tantas vezes acordara no meio da noite, banhada em suor, um grito contido na garganta, após o mesmo pesadelo recorrente, no qual se via despertando, de repente, completamente só, em meio ao nada. Apenas deserto e desolação para qualquer lado que olhasse. E sempre, nessas ocasiões, apurara o ouvido para escutar o ressonar suave e tranquilizador de Nell, com quem dividia a cama. E agora, não havia mais Nell. Não havia mais família ou lar. Apenas o fantasma da solidão rondando seu caminho. Uma rajada gélida da brisa noturna a fez estremecer, arrancando Katherine de seus sombrios devaneios. Somente então, percebeu que já escurecera. Will depositou seu casaco, gentilmente, sobre os ombros de Kathy e, depois, voltou a envolver-lhe os ombros com o braço. Seus olhos cinzentos estavam fitos no horizonte. Do outro lado da baía, eram agora visíveis as luzes de Alameda e Oakland. - Estive pensando... – disse ele. Sua expressão era sonhadora, quase que contente. – Amanhã, vamos tentar pegar o ferry-boat para o outro lado. Tenho amigos em Alameda que poderiam nos abrigar por uns dias, até as coisas voltarem ao normal. O que você acha? Assim falando, voltou-se para Katherine. Seus olhos encontraram o azul dos dela e Scully poderia jurar que brilhavam, apesar da escuridão. E ele sorria, um sorriso bobo que o deixava com ar de menino. E ela não pôde deixar de sorrir, em resposta, fazendo com que o olhar de Mulder se tornasse ainda mais luminoso. E não pôde deixar de sentir que o fantasma da solidão, que tanto a atemorizava, desvanecia-se como que por mágica... Então, com um suspiro arrancado do fundo das entranhas, Kathy compreendeu, por fim, o que sentia. Estava amando... Amava aquele estranho senhor Mulder, que a olhava de forma tão intensa que, naquele exato momento, tornava sua respiração difícil. Com uma das mãos, ela afastou a mecha de cabelos castanhos que teimava em cair-lhe na testa, enquanto a outra envolvia a graciosa covinha no queixo de Will e aproximava seu rosto do dela. "Estou sendo ousada demais! O que ele vai pensar de mim?", ocorreu-lhe num segundo. "Dane-se! O que quiser pensar, desde que compreenda que o amo...", imaginou no segundo seguinte. Pousou seus lábios sobre os dele, levemente. Surpreso, Mulder não reagiu no primeiro instante. Porém, no momento seguinte, seus braços envolveram Scully e a aproximaram de seu corpo e seus lábios pressionaram os da mulher com mais força, num beijo correspondido com igual ardor, num sentimento compartilhado com igual intensidade. Lá em cima, um milhão de estrelas faiscavam no céu, pontilhando o veludo negro da noite com um milhão de diamantes. Novamente, tudo era escuridão, tão negra, tão densa, quase que se podia tocá-la... William estreitava os olhos tentando, em vão, encontrar Katherine. Ele a sabia próxima, podia ouvir-lhe a respiração, aspirava-lhe o aroma dos cabelos. Mas não a via. E o temor de perdê-la, de não mais conseguir encontrá-la o dominava. Queria gritar seu nome, chamá-la, mas as palavras morriam em sua garganta. Subitamente, uma claridade forte preencheu tudo. E ele a viu, parada a uns poucos metros de distância. Quis correr até ela, mas uma muralha de fogo brotou do chão, interpondo-se entre os dois, impedindo a passagem. Will tentava desesperadamente atrair a atenção de Kathy. De alguma forma, ele sabia que, embora as chamas representassem um obstáculo intransponível para ele, Katherine poderia facilmente atravessá-las e vir até ele em segurança, se assim o desejasse. Mas ela contemplava o céu, absorta, alheia a tudo o que se passava ao seu redor. Então, a claridade se fez mais intensa sobre ela, um facho de luz muito alva que a tragou em seu interior fazendo-a flutuar no espaço. William gritou, mas seu grito saiu mudo da boca. A lua ia alta no céu, quando Mulder despertou sobressaltado, o peito esmagado pela tensão, o coração batendo descompassado. Apreensivo, voltou com cuidado a cabeça para o lado. A visão de Scully, ressonando tranqüila, os cabelos ruivos derramando-se sobre seu ombro, o acalmou. Felizmente, não passara de um pesadelo. O que sentira, no entanto, fora cruelmente real! Ainda eram vívidas em sua lembrança as imagens do fogo e da luz e de Scully flutuando no ar, em direção ao espaço. Um pesadelo real demais... Estreitou o aperto do braço que envolvia a mulher e, em resposta, ela aninhou-se ainda mais contra ele, sorrindo em seu sono. Will observou longamente o semblante feminino, tão sereno em seu repouso, tão diferente da máscara indecifrável que ela envergava mais cedo. O brilho prateado da lua emprestava reflexos pálidos à pele muito branca e lançava estranhas sombras nos olhos cerrados sob as longas pestanas. O ritmo suave de sua respiração agia como um bálsamo sobre os receios de William, devolvendo-lhe, pouco a pouco, a calma e restaurando-lhe a habitual disposição sonhadora. Era-lhe uma sensação totalmente nova aquela de estar amando daquela forma. Aquela louca sensação de contentamento, de satisfação em apenas tê-la ao seu lado, somada à outra, contraditória, de que nem todo o tempo do mundo passado ao lado dela seria suficiente para abrandar a dor dos breves momentos de separação, o confundia e estarrecia. Era a primeira vez que sentia-se assim. Havia tido envolvimentos com muitas outras mulheres antes. Desde as filhas da boa sociedade até as coristas e atrizes de vaudeville, nenhuma outra mulher o havia feito sentir daquele modo antes. Apaixonado, definitiva e irremediavelmente apaixonado. Entregava-se por inteiro aos devaneios delirantes de sua paixão. Contemplava as estrelas, imaginando, para cada uma delas, algo que gostaria de fazer com Scully, um lugar que visitariam, um presente que lhe daria, um modo de fazê-la feliz... Embora desperta, Scully hesitava em abrir os olhos. Temia que a agradável sensação de tranqüilidade e bem estar que sentia se dissipasse ao abri-los. Estava tão em paz consigo mesma quanto não se sentia a tempos. Sonhara com sua mãe, seu pai, seus irmãos, reunidos, felizes. Em seu sonho, eles não falavam, apenas sorriam. Mas ela podia ouvir-lhes os pensamentos e eram os melhores possíveis. "Liberte-se, Katherine!", lhe diziam. "Nós estamos bem. Viva sua vida e seja feliz!" E foi com essas palavras, ecoando em seus ouvidos, na voz suave de sua mãe, que despertou. "Seja feliz, Katherine..." E a primeira coisa que percebeu, ao despertar, foi o aconchego do braço que a envolvia e estreitava, do ombro onde sua cabeça repousava. E sorriu, feliz. Sim, ousava dizer-se feliz, apesar de tudo. Finalmente, abriu os olhos, com vagar, e viu-lhe o perfil delineado contra a escuridão. Tinha a expressão sonhadora, contemplava as estrelas. Os cantos da boca retorciam-se sutilmente para cima, num sorriso. Ela podia dizê-lo feliz, tal como ela. E isso aumentou seu contentamento. Então isso era amar! Alegrar-se com a felicidade do outro, sofrer com seu sofrimento, ser dois e ser um, ao mesmo tempo... Envolto que estava em seu mundo de sonhos e planos, William pareceu não perceber que era observado. Katherine não resistiu, soprou-lhe de leve a orelha. Ele voltou a cabeça para encará-la, seu mais belo sorriso estampado no rosto. Os olhos encontraram-se, azul e cinza, mesclando-se, fundindo- se, aprisionando-se mutuamente. E, pela eternidade do momento que durou aquele olhar, apenas William e Katherine, Mulder e Scully existiram em todo o universo. Com um rugido, uma coluna de chamas surgiu da encosta da colina a cerca de dez metros de onde estavam Will e Kathy, os obrigando a levantar-se e retirar-se dali, à medida em que o fogo avançava inclemente em sua direção. Num minuto, não havia mais caramanchão ou trepadeira de flores escarlates ou recanto agradável. Apenas um inferno flamejante, no local onde até instantes antes fora seu paraíso particular. Afastaram-se rapidamente, enquanto o fogo começava a surgir aqui e ali, por toda Nob Hill, galgando a colina e espalhando o pânico. Assustadas, as pessoas corriam de um lado para o outro a procura de um local seguro. Mulder conduzia Scully pela mão, procurando evitar a confusão que se formara, mas, ao mesmo tempo, andando no contrafluxo da multidão que se deslocava em direção ao Golden Gate Park, à beira da baía, na parte baixa da cidade. "Por volta de 09:00 PM, a brigada de incêndio tentou erguer uma barricada que impedisse o avanço do fogo na direção de Nob Hill. Seus esforços foram inúteis e, no início da madrugada de 19 de Abril, o incêndio começou a se alastrar naquela área." Quando, enfim, conseguiram desvencilhar-se da massa humana e do fogo, respiraram aliviados. Tudo ficara estranhamente calmo e silencioso, depois de afastarem-se da balbúrdia da turba apavorada. Havia apenas o crepitar distante das chamas para encher o silêncio e a claridade da lua para iluminar a noite, já que qualquer outro tipo de luz fora proibido pelas autoridades, temerosas do surgimento de novos focos de incêndio. As sombras alongadas das ruínas sobre o calçamento irregular compunham figuras bizarras no chão. Uma brisa quente e poeirenta soprava da direção onde estava o fogo, enchendo-lhes as narinas do cheiro acre de fumaça e anunciando que sua propagação até onde estavam não tardaria. Estacaram na entrada de uma alameda ladeada por árvores frondosas. Estava muito escura, as copas espessas impediam a passagem dos raios fracos do luar. Mulder hesitou, apertando a mão de Scully com força. Algo em seu coração, na boca de seu estômago, formigando em suas pernas, lhe dizia para não seguir adiante, para não entrar por aquela aléia obscura. Mas a urgência imposta pelas chamas que avançavam céleres na direção do casal, fê-lo contrariar os instintos e mergulhar, junto com Scully, no breu do caminho sombrio. A cada passo que davam, o silêncio e a escuridão adensavam-se ameaçadores, a realidade parecia ficar mais distante. Mulder ia ficando mais e mais apreensivo, à medida em que avançavam, as sensações dolorosas do pesadelo de ainda a pouco tornavam-se mais vivas. Os dedos de Scully, que ele apertava fortemente entre os seus, pareciam-lhe tornar-se imateriais, como se fossem areia, escapando-lhe por entre os dedos. A angústia o ia dominando, secando-lhe a saliva, aumentando o nó na garganta, a opressiva dificuldade de respirar. De súbito, o vento fraco cessou, o ar tornou-se surpreendentemente parado, o crepitar do fogo silenciou. William parou, assustado, mas Katherine prosseguiu em frente, seus dedos finalmente escapando das mãos de William. Mais dois passos e ele não mais a conseguia avistar nas trevas. Queria chamar-lhe o nome, pedir que voltasse, porém o nó em sua garganta não deixava a voz sair. Quedava paralisado, como se os pés estivessem cravados no chão. Abria os olhos desmedidos, tentando divisar os contornos da mulher, mas seus esforços eram vãos. Katherine, por sua vez, seguia em frente, pela escuridão, compelida por um chamado que ressoava baixo em seus ouvidos, atraída por uma sombra que divisava ao longe. Nem ao menos deu-se conta de que caminhava agora sozinha, que William havia ficado para trás. Tudo o que sabia era que precisava continuar andando, perseguir aquela voz que a chamava, alcançar o vulto que lhe acenava na escuridão. E avançou, como que hipnotizada, até que um nesga de céu visível por entre as folhas das árvores atraiu sua atenção. Escuro, pontilhado por um milhão de estrelas, tão vasto, tão belo, tão intrigante. Desejou alcançar uma daquelas estrelas, tomá- la nas mãos... - Você quer ir até lá? Quer conhecer as estrelas? – perguntava a voz em sua cabeça. - Sim! – respondeu Kathy sem hesitação, os olhos fitos no esplendor dos astros, nas promessas de libertação com que lhe acenavam. Will, estático, aterrorizado, ainda esforçava-se por encontrar Kathy em meio às trevas. Como em seu sonho, a sabia próxima, ouvia sua respiração. Mas não a conseguia enxergar, por mais que tentasse. Repentinamente, tudo fez-se claro e brilhante, como se a luz do sol a tudo iluminasse. A inesperada claridade ofuscou William, que piscou repetidas vezes até acostumar-se e conseguir divisar Katherine, parada um par de metros adiante, distraída, olhando as estrelas. Quis gritar, mas não conseguia. As recordações do pesadelo o machucavam agora que se tornavam lentamente realidade. A dolorosa certeza do que estava por acontecer, de como tudo iria terminar, o esmagava, tornando ainda mais difícil sua reação. Mulder, que sempre se dissera agnóstico e vangloriava-se de não crer senão na ciência, rogava agora pela interseção divina para impedir que eles a levassem. Orava e suplicava pela vida de Scully como não faria por sua própria vida. - Não deixeis que eles a levem, Senhor! Oh, Deus, não permitis que eles a tomem de mim... Embora não soubesse quem ou o quê poderiam ser "eles", parecia-lhe claro e certo que eram "eles" os responsáveis pelo que estava acontecendo. E a claridade que a tudo preenchia foi se intensificando e tornando-se alaranjada, até assemelhar-se a uma muralha de chamas interposta entre Will e Kathy. Uma barreira que somente ela poderia transpor, pelo simples fato de querer fazê-lo. William queria chamá-la, trazê-la de volta à realidade, mas as palavras morriam estranguladas em sua garganta. E a claridade se fez mais e mais intensa até tornar-se tão brilhante quanto mil sóis e concentrar-se, muito branca, em torno de Katherine. Ela contemplava o espetáculo deslumbrada, a ciranda de luzes e cores brincando lá no alto, a atraindo irresistivelmente para si. E foi se sentindo leve, leve, até perceber que seus pés não mais tocavam o solo, que flutuava no ar. Era tão boa a sensação de voar... Ela olhava a rua lá embaixo, as casas, as árvores, tudo ficando pequenino, distante à medida em que subia. - Veja, Mulder, como tudo é tão belo daqui de cima! – exclamou alegremente. E foi, então, que o viu, parado lá embaixo, os braços estendidos para o alto, em sua direção, a boca entreaberta, os olhos esgazeados. Mulder! Mulder! Como um relâmpago, ela compreendeu o que estava se sucedendo e quis voltar. - Deixem-me! Deixem-me! Não quero ir! – gritava Scully em pensamentos. - Mas você vai conhecer as estrelas... Como você queria... – respondia, entre sedutora e zombeteira, a voz em sua cabeça, enquanto ela era alçada cada vez mais alto no céu. Seu último pensamento, antes de mergulhar na névoa brilhante do esquecimento, que a perseguiria, nos anos vindouros, foi doloroso e amargo: nunca havia dito a Mulder que o amava... Com os pés solidamente grudados no chão, Mulder observava Scully, a flutuar no espaço, subindo, subindo até desaparecer num clarão. - Scully! – conseguiu finalmente gritar, os braços estendidos no vazio, como se quisesse alcançá-la. Com um estrondo, a claridade desapareceu, tornando-se apenas um rastro de luz que cortou veloz o firmamento. Envolto pelo silêncio e pela escuridão, Mulder caiu de joelhos sobre o calçamento, os olhos cravados no céu, acompanhando o rastro luminoso que desaparecia no éter. Quando o último traço da luz enfim se extinguiu, ele curvou-se sobre as pernas, enterrou a cabeça entre as mãos e chorou. Solitário e arrependido. Nunca havia dito a Scully que a amava... PARTE II – Tempos Atuais "Você tem e-mail!" dizia a mensagem que pipocou, de repente, na tela do notebook de Fox Mulder. Com enfado, ele interrompeu a absorvente tarefa de arremessar lápis em direção ao teto de sua sala no porão do Quartel General do FBI e voltou os olhos para examinar o que lhe fora enviado. Torcia para que não fosse mais uma notificação de auditoria interna no Bureau ou um daqueles avisos de encerramento do prazo de prestação de contas de viagem que o Departamento Financeiro vivia lhe enviando. "Muito estranho" dizia o assunto da mensagem. "david_duchovny@hotmail.com" estava escrito no remetente. Mulder esboçou um sorriso maroto. "Ah, Melvin! Quisera você...", pensou divertido ao identificar um dos muitos endereços de e-mails disfarce usados pelos Pistoleiros Solitários. Bem, ao menos, havia uma chance de ser algo interessante, imaginou enquanto abria a mensagem. Nela, além do texto, havia dois arquivos anexados, imagens, pelo que pôde perceber, que ele, curioso, foi imediatamente abrindo, sem nem mesmo ler o texto antes. O primeiro arquivo era a digitalização de uma foto que mostrava um grupo de pessoas vestidas à moda do início do século XX. Mulheres em vestidos compridos, alguns homens com paletós de corte antiquado, outros em mangas de camisa e suspensórios. As pessoas da foto reuniam-se em torno de uma pilha de tijolos erguida no meio da rua sobre a qual repousava um caldeirão, à guisa de fogão improvisado. Entretanto, o que realmente chamava atenção na imagem era o cenário que lhe servia de pano de fundo. Do alto da colina onde o grupo se encontrava, podia-se ver edifícios semi- destruídos e pilhas e pilhas de escombros até onde a vista alcançava. E fumaça, rolos de fumaça negra que emergiam aqui e ali por toda parte na paisagem. Pareceu a Mulder, por um momento, já ter visto aquela imagem antes. Déjà-vu, Discovery Channel, não fazia a menor idéia de qual fosse a origem da lembrança! Contemplou a fotografia longamente, tentando entender o porquê os Pistoleiros a haviam enviado a ele, mas não conseguiu atinar com a razão. "Talvez fosse melhor ler o texto da mensagem, Fox..." disse uma vozinha zombeteira em sua cabeça. De fato, lá estava a explicação, escrita no jeito disléxico de Frohike: "encontrei essa foto (fig1) no bco de img do Congresso. tirada em 1906, depois do gde terremoto de Sfrancisco. reparar nas pessoas na foto. a outra (fig2) é uma ampliação da (fig1). será um caso pro AX??? ;) fui!!! txau, frohike" Com a curiosidade atiçada pelo texto, Fox Mulder abriu a segunda imagem que mostrava os rostos de um homem e uma mulher jovens. Ele os contemplou por alguns segundos, perplexo. - Scully, você precisa ver uma coisa! – chamou, com grande excitação, interrompendo a parceira, concentrada na elaboração de um relatório. Dana Scully levantou-se um tanto a contragosto e caminhou devagar até a mesa do parceiro. Não que a atividade que Mulder havia interrompido fosse muito interessante. A bem da verdade, era um dos relatórios mais entediantes que já tivera que escrever em seus muitos anos de FBI. Mas levara uma boa meia hora para conseguir concentrar-se o suficiente para começar a escrevê-lo e, certamente, levaria outra meia hora, no mínimo, para retomar o fio da meada, depois. Que fosse! - Do que se trata, Mulder? – perguntou, acercando-se com um suspiro. Pelo tom da voz dele, certamente alguma notícia sobre o aparecimento de círculos misteriosos nos campos de trigo, em Iowa, ou avistamentos de luzes em algum canto esquecido por Deus, no Novo México. - Recebi isto dos Pistoleiros. – respondeu com os lábios torcidos num meio sorriso, diante da visível irritação da ruiva. – Veja que curioso... – completou, abrindo a primeira imagem a qual a mulher examinou atentamente por alguns instantes. - San Francisco, grande terremoto de 1906. – afirmou segura, após o exame, acrescentando irritada, - E...? Apesar dos anos de trabalho juntos, Mulder sempre se surpreendia com a perspicácia de Scully. Como ela podia saber aquilo tudo com tanta certeza? Melhor nem perguntar, concluiu, abrindo o texto do e-mail que a mulher leu rapidamente. - Continuo não entendendo onde você... – começou ela exasperada, interrompendo-se quando o parceiro mostrou-lhe a segunda foto. - Somos nós na foto, Scully. – disse o agente, apontando a imagem na tela de seu computador. De fato, ali, cobertos por uma grossa camada de poeira, com os cabelos desgrenhados e vestidos em trajes de época, estavam estampados, no sépia da fotografia antiga, os rostos de Mulder e Scully. Bastante mais jovens, era verdade, mas perfeitamente reconhecíveis, a despeito da pouca definição da imagem. Ela se deixou ficar, atônita, fitando com os olhos arregalados a ampliação da velha fotografia. Difícil acreditar no que via, mas era seu rosto ali! Registrado numa imagem capturada a mais de noventa anos atrás... Por um momento, imagens desconexas bailaram diante de seus olhos. Um corredor luxuoso repleto de portas fechadas, uma nesga de céu azul, um quarteirão inteiro tornado em ruínas, um grande sol alaranjado se pondo no mar, luzes tão intensas que feriam seus olhos... Tudo entremeado pela visão apocalíptica de chamas e labaredas que pareciam querer consumi-la. Uma estranha melancolia a invadiu, até ser dissipada pela visão de um par de olhos cinzentos e um belo sorriso de menino. E um calor agradável que brotava de algum canto escondido de sua alma engolfou seu corpo como uma onda. Foi quase como uma das tais experiências extra corpóreas das quais Mulder tanto falava... Estranhas sensações dominaram Scully por um instante, quando ela contemplava aquela não menos estranha fotografia. No entanto, seu tão decantado ceticismo prevaleceu e seu bom senso a fez examinar a imagem na tela do notebook com seu notório olhar crítico. Era difícil acreditar naquela foto... Muito difícil acreditar... Principalmente, em se tratando de algo enviado por Frohike... - Sabe que dia é hoje, Mulder? – perguntou ela quando um sorriso triunfante lhe surgiu no rosto. Ele olhou para o mostrador de seu relógio rapidamente e arrematou a triste constatação batendo com a mão espalmada contra a testa, num gesto deliberadamente teatral. - Droga! Primeiro de abril... 1 X 0, Pistoleiros! – acrescentou, com um ar decepcionado. A expressão de triunfo de Scully cedeu lugar a um suave sorriso de compreensão diante da decepção de Mulder. - Feliz Dia dos Bobos, parceiro. Era, ao mesmo tempo, engraçada e comovente a expressão desconsolada de Mulder. Como uma criança que percorreu todo o longo caminho até a sorveteria, sonhando com uma casquinha de chocolate, apenas para descobrir, ao chegar lá, que o freezer estava quebrado... Os cantos da boca caídos, o olhar bobo, os ombros derrotados. Num arroubo de compaixão, Scully o obrigou a levantar-se e jogou-lhe o paletó sobre os ombros. – Venha! Depois dessa, eu lhe pago o almoço... - convidou, enquanto rebocava um amuado Fox Mulder pelo braço, em direção à porta do escritório. Por um momento, pelo canto do olho, ela teve a impressão que o rosto de Mulder estava todo sujo de poeira e que, em lugar do paletó Armani de corte impecável, o parceiro envergava um antiquado smoking negro rasgado e coberto de sujeira. Sacudiu a cabeça levemente para afastar aquela insistente sensação de déjà-vu que a perseguia desde que colocara os olhos naquelas estranhas fotos. "Talvez essas fotos mereçam um pouco de investigação...", disse uma vozinha curiosa dentro de sua cabeça. "Ora! Deixe de besteira, Dana Scully!", ralhou mais alto a voz da razão, forçando a ruiva a recuperar o senso crítico e seguir para o almoço e mais um dia nos porões do FBI. EPÍLOGO (versão original) Katherine Scully reapareceu, em 1907, em pleno deserto de Nevada, próximo ao local onde, anos mais tarde, seria erguida Las Vegas. Insistia em contar a quem quer que fosse sobre os seres de pele cinzenta e grandes olhos negros amendoados que a haviam levado e sobre os estranhos e dolorosos procedimentos a que fora submetida dos quais guardava pequenas cicatrizes em forma de meia lua nas mãos e no rosto. Tão desconexas e pouco convencionais eram suas estórias e tamanhas sua convicção e sua fé no que contava, que acabou sendo considerada louca e mantida interna em uma instituição psiquiátrica. Ao final de dez longos anos, ela percebeu que o único modo de ser libertada era fazer o que o mundo esperava dela. Passou, então, a negar tudo em que acreditava. Dizia que toda aquela estória sobre homenzinhos cinzentos e experimentos bizarros que havia repetido sem cessar durante tanto tempo não passava de um delírio seu e que, na verdade, não era capaz de recordar-se do que havia acontecido com ela entre 1906 e o momento em que fora encontrada no deserto. Convencidos de que seu surto psicótico estava superado, os médicos, finalmente, a liberaram, numa tarde chuvosa de 1917. A partir de então, Kathy vagou solitária pelo meio oeste americano, viajando como clandestina em trens de carga, muito antes dessa prática se tornar uma febre entre jovens e velhos no país. Amargou fome e frio e uma existência solitária, sobrevivendo de trabalhos ocasionais como lavar pratos ou varrer ruas em troca de comida. Veio a falecer vítima de pneumonia em um abrigo da Cruz Vermelha em Baltimore, Maryland, numa noite fria de inverno em 1929. Deixava o pequenino William, de oito anos de idade, fruto de um estupro sofrido durante suas andanças pelos vagões de carga da vida. Enquanto viveu, nunca mais pôs os pés em San Francisco. Simplesmente, não conseguiria suportá-lo. Tampouco voltou a tocar nas estórias do passado, embora, à noite, ao fechar os olhos, se sentisse constantemente observada por um par de olhos cinzentos profundos. O episódio de seu seqüestro, aos poucos, tornou-se uma sucessão de lembranças vagas e confusas, a fazendo, por vezes, imaginar se não havia realmente se tratado de um pesadelo. Nesses momentos, levava a mão à nuca e apalpava a pequena cicatriz rosada que lá havia, convencendo-se de que tudo havia sido real. William Mulder III passou os anos seguintes a 1906 procurando pela pequena Scully por todos os lugares. Contratou os melhores detetives e investigadores particulares, chegou ao extremo de consultar médiuns e videntes, em busca de informações sobre o paradeiro da bela ruiva que, com sua petulância e destemor, fisgara seu coração num espaço de tempo tão curto e tão longo quanto as vinte e quatro horas de um dia. Com o passar dos anos e o insucesso das buscas, foi se tornando um homem calado e introvertido, acabando por ser apelidado de Estranho nas rodas que antes freqüentava. Foi voluntário no Exército, em 1917, na primeira leva do alistamento para a Primeira Guerra Mundial, e combateu os alemães nas trincheiras lamacentas dos campos de batalha da França e da Bélgica. Nesse tempo, tinha o costume de oferecer-se como voluntário para toda sorte de missões consideradas perigosas ou impossíveis. Sobreviveu a ataques de gás mostarda, estilhaços de bombas e a uma perfuração no abdômen causada por uma baioneta. Voltou à pátria, ao fim da guerra, com o peito coberto de medalhas e o coração vazio de esperanças. Casou-se por conveniência, em 1921, com Lucille, uma jovem lânguida, loura e doentia, filha da boa sociedade de Boston, que lhe deu três filhos. Visitava San Francisco, religiosamente, em todos os dias 18 de Abril, na vã esperança de reencontrar Scully em uma esquina qualquer. Numa noite fria do inverno de 1929, em plena Grande Depressão, faleceu, vítima de um aneurisma cerebral. Suas últimas palavras, ditas a Bill, o filho caçula, foram: "Não confie em ninguém." Seu maior tesouro, conseguido a custo num leilão e guardado a sete chaves numa pequena caixa de madeira perfumada, ele o legou às chamas da lareira, na noite anterior à sua morte. Uma preciosa e solitária lágrima rolou por sua face quando o fogo consumiu a velha foto esmaecida onde um rapaz e uma moça, com os cabelos desgrenhados e os rostos sujos de poeira, apareciam em meio a um estranho grupo de pessoas diante do cenário aterrador de uma cidade devastada pelo sismo e purificada pelas chamas. Sim, o fogo, enfim, os havia separado. F I M NOTAS FINAIS: 1. Nunca existiu um Grand Hotel em San Francisco. Nem nenhum dos hotéis elegantes da época desabou durante o terremoto propriamente dito. O Grand Hotel foi projetado e construído pela minha imaginação apenas para poder vir abaixo na estória. 2. Dados reais e fotos sobre o Grande Terremoto e o Incêndio de 1906 podem ser encontrados no site do San Francisco Museum (http://www.sfmuseum.org). 3. Por diversas razões, essa acabou se tornando uma estória polêmica. Meu objetivo inicial não era escrever uma fanfic, mas um conto. Peguei emprestados dos personagens de X-Files algumas características físicas e psicológicas e partes dos nomes. Mas SEMPRE disse, e insisto nisso, que os personagens poderiam chamar-se Joãozinho e Maria ou Fred Flintstone e Mortícia Addams. A porção XF da estória foi introduzida apenas para torná-la uma fanfic. Mas tenham sempre em mente, por favor, que os personagens que sofreram tanto na narrativa NÃO SÃO nossos velhos conhecidos do seriado. Portanto, não me crucifiquem ou me chamem de nomes que suas mamãezinhas não aprovariam. 4. No mais, sinto muito se vocês acabaram por detestar essa estória, mas MANDEM feedback. Please!