Título: Família Autora: Alice J. Foster Censura: Livre (ok, eu uso a palavra sexo, mas não tem nada de mais) Classificação: Shipper (algupem esperava outra coisa?) e Ponto de Vista da Scully. Spoilers: Pós REQUIEM!!! Vocês foram avisados. Disclaimer: era uma vez um surfista. Ele estava entediado e criou um roteiro. Esse roteiro virou uma série. E essa série ficou famosa. E essa série tinha personagens legais. E o fãs decidiram brincar com eles. Aí o surfista ameaçou processar os fãs. E os fãs o ignoraram e continuaram... De qualquer maneira, eles pertencem ao surfista (vulgo Chris Carter), aos executivos da Fox e etc... Sinopse: Seis meses após a abdução de Mulder, Scully reflete enquanto segue uma pista... +++++ Os últimos meses foram um inferno. Um inferno diferente de tudo que eu já tinha experimentado. Mas o último mês foi pior. Minha vida nunca foi fácil. Nada nunca ficou bem por muito tempo. Sempre algo acontece. Em grande parte é minha culpa. Mas dessa vez não foi minha culpa. Pelo menos não diretamente. Eu sempre gostei de desafios. Eu sempre gostei de idéias novas. Quando eu quero algo eu vou atrás. Depois eu penso nas conseqüências. Quando eu me juntei ao FBI, eu estava incerta. Mas eu precisava de uma fuga, de um novo desafio. Não posso pensar em rotinas. Se existe algo que me dá arrepios é o pensamento de uma vida onde nada de novo acontece. Depois que eu me juntei ao FBI isso certamente não é o caso. Eu sempre me envolvia em relacionamentos que eu sabia que não tinham futuro, mas era bom enquanto eles duravam. Eu sentia que era algo novo, inesperado. Sempre me envolvi com as pessoas mais difíceis. Instrutores, professores, sempre com quem as pessoas não esperavam que eu me envolvessem. Isso não foi o caso com Mulder. Todos esperavam que nós nos envolvêssemos. Depois que eu fui colocada para trabalhar com ele e desbancá-lo minha vida mudou. A dele também. Mas estava longe de ser nossa vida. Eu já tinha desafios o bastante na vida profissional para não querê-los na vida pessoal. E de repente eu não tinha mais uma vida pessoal. De repente eu não podia mais me desligar do trabalho e simplesmente sair com amigos. Os poucos amigos que eu tinha eu perdi contato ao longo dos anos. De repente minha vida se tratava do trabalho e do Mulder. Eu vivia para achar uma verdade que eu não acreditava e com um homem que significava tudo para mim mas que eu não admitia. De repente eu acordava todos os dias para um novo desafio. A rotina não era mais uma conhecida minha. Os anos passaram. Eu acabei tomando por minha uma verdade que era dele. Eu acabei procurando as minhas próprias verdades. Com o tempo, a verdade dele também perdeu a importância para a minha verdade. Antes de saber a verdade sobre Samantha, nós queríamos a minha verdade, a nossa. E isso nos aproximou ainda mais. Nosso relacionamento se aprofundou. Nós éramos mais próximos que qualquer casal e mais distantes que simples colegas. Sabíamos mais um sobre o outro do que sobre si mesmos, mas não conhecíamos as menores manias um do outro. E ambos deixamos de nos preocupar com futilidades e tudo o que importava era o outro e a nossa busca. Nossa proximidade não é daquelas que nós sabemos o que o outro fazia quando era pequeno, qual foi o nome do primeiro amigo, coisas assim. É daquela proximidade que se sabe o que o outro vai dizer antes que ele diga. Que com apenas um olhar é possível a comunicação. Eu sempre soube que ele era um homem e eu uma mulher. Mas antes de pensar que nós éramos de sexos opostos, nós éramos simplesmente a pessoa mais importante um pro outro. Aquela pessoa que você morreria ou mataria por ela. Não poderia ser definida como amizade aquela relação. Nós simplesmente sabíamos que poderíamos falar sobre tudo um com o outro, sem ser julgados, mas que mesmo assim, preferíamos ficar calados. Claro que eu julgo as teorias dele, mas é diferente. Tudo o que eu sei é que um dia eu acordei e percebi que a única causa ela qual eu ainda vivia, a única causa pela qual valeu a pena ter sido curada do câncer, era o Mulder. Minha mãe exerce um papel forte na minha vida, mas não como Mulder. Minha família sempre foi importante, mas é difícil viver numa família grande. Eu chegava em casa para achar minha mãe cuidando de Charlie, Melissa falando ao telefone, Bill pensando em algo que certamente não me incluía. A única pessoa que me dava plena atenção era Ahab. Mas ele sempre estava fora. Sempre no mar. Resultado, uma família onde todos se amam, mas cada um tem sua própria vida. Todos criticam um ao outro, mas ninguém escuta, todos devem parecer felizes nos feriados e ponto final. Eu amo minha mãe, mas é difícil nos falarmos. Eu só contei a ela do câncer depois de Mulder. E só porque foi necessário. E depois de Emily, minhas relações com eles se reduziram à quase inexistência. Quando Missy e Ahab eram vivos era diferente, mas depois que eles morreram, tudo pareceu sem valor. Aqueles jantares foram ficando menos freqüentes. As visitas sempre corridas e sem teor valioso. Tudo parecia insignificante. Menos Mulder e nosso trabalho. Isso nunca foi insignificante. Quando eu percebi que não poderia mais desistir, que jamais poderia simplesmente dar as costas e ir embora, eu me revoltei. Eu fiquei mal. Quando eu percebi que não adiantava lutar. Minha vida havia mudado. Eu também. E eu percebi que eu gostava da mudança. Deixei de me importar com os outros e com meus próprios medos e deixei que minha relação com Mulder chegasse a um novo nível. O nível sexual. Não que fosse só sobre sexo. Nunca foi fácil definir nosso relacionamento. Essa transição só tornou as coisas mais inexplicáveis. Era ótimo poder estar com ele nos finais de semana. Era ótimo poder senti-lo próximo a mim, poder tocar, poder ser tocada. Mas era horrível ter que controlar cada gesto. Era horrível não poder simplesmente abraçá-lo quando ele precisava. Era horrível ter esperar que ele chegasse em casa numa Sexta á noite para poder beijá-lo, sabendo que ambos desejamos aquilo a semana inteira. Nós já somos paranóicos, ficamos ainda mais. Mas tudo valeu a pena. Depois do Ano Novo, aí tudo mudou ainda mais. Não tentamos tanto esconder nosso relacionamento. Eu ainda não tinha vida pessoal. Agora eu tinha Mulder. Ele era minha vida pessoal e profissional. Ele era tudo para mim e eu era tudo para ele. Eu sempre fui uma mulher auto-suficiente. Nunca dependi de um homem. Mas com Mulder é diferente. Vale a pena se entregar porque eu sei que para cada momento que eu me entrego eu sou recompensada com um momento em que ele se entrega. Ele se tornou tudo. Se tornou tudo e mais um pouco, aliás. E agora eu não tenho Mulder. Não tenho nada. Mas a cada momento que eu penso assim, cada momento que eu penso no inferno que tem sido esses últimos meses, eu simplesmente olho para minha barriga. E tudo vale a pena. Lutar, viver. Cada dia que eu acordo com a esperança quase morta, tudo que eu faço é sentir meu bebê. E então eu ganho forças para lutar mais um dia. Para sair da cama e buscar o Mulder. Estou agora em uma floresta, andando com Skinner e meus pés estão inchados, meus novos 20 kg apoiados neles, minha respiração está cansada, refletindo o resto do meu corpo. Recebi uma chamada anônima me informando que Mulder poderia estar nessa floresta. Estamos na Flórida, é uma floresta pequena mas densa e já está escurecendo. Já entrei no oitavo mês de gravidez. Na verdade, estou quase no final do oitavo mês. Mais uma semana apenas. Deveria repousar mas não posso. Simplesmente não posso ficar sentada enquanto Mulder pode estar sofrendo. Eu não disse nada ao Skinner, mas a voz do telefonema parecia incrivelmente com a da mãe de Mulder. E eu também estava sonhando com ele quando o telefone tocou. Eu liguei instintivamente para Skinner. Ele tem me ajudado nestes últimos meses. Ele ajudou também nosso trabalho. Ele ampliou a equipe de Arquivo X. Existe agora uma nova dupla, Agentes Especiais John McDoug e David Ridley. Eles são super gentis comigo. Mas não são como eu e Mulder. Ambos têm tendências a acreditar mas precisam de provas. Eles estão nessa floresta também, a uns 20 passos de nós. Eu trabalhei em poucos Arquivos X desde que Mulder desapareceu, mas eles sempre pediram ajuda na parte médica ou científica e eu gostava de ajudar. Ridley diz ter sido abduzido quando ele tinha 10 anos. O departamento cresceu e agora eles têm um espaço físico deles no terceiro andar bem maior que o porão. Me ofereceram também uma sala conjunta à deles, mas eu recusei. Não poderia deixar nosso escritório, muitas lembranças. Todo dia quando eu entro naquele escritório, eu vejo Mulder, sentado na cadeira olhando para mim. E aqui estamos, eu que não deveria estar aqui, procurando Mulder. Tem também uma equipe de busca lá atrás. E uma a nossa frente, que entrou por outro local na floresta. Todos carregamos rádios e tem helicópteros e ambulâncias à nossa espera. Meu corpo dói mas eu não desisto. Mulder não desistiria. Não que Mulder pudesse engravidar, mas ele jamais desistiria. Ele jamais desistiu quando era comigo. Nosso filho ou nossa filha chuta incessantemente minha barriga. Às vezes dói um pouco, mas é bom saber que ele ou ela está ali, vivo, se mexendo. "Você está bem, Scully?" "Sim, senhor. Estou bem. Continue, estou logo atrás." Skinner está preocupado. Eu não quero que ele se preocupe comigo, eu quero que ele se concentre em achar o Mulder. Sinto uma pressão em minha cabeça. "Por aqui." Eu aponto para nossa direita. "O que?" "Por aqui." "Como você sabe?" "Eu só sei, vamos." "Ok." Skinner me segue enquanto fala alguma coisa no rádio. Eu começo a me sentir familiar com o local. Eu vi essa parte da floresta em meu sonho. Tem um pequeno riacho logo a nossa frente, eu sei que tem. Dou mais 50 passos para achar o riacho. Não precisamos nem de ponte, é raso e tem pedras por toda parte. Mesmo contra as recomendações de Skinner eu atravesso o riacho sem segurança alguma. Andamos por mais 5 minutos e encontramos a equipe que Ridley está liderando. Eu os ignoro e continuo andando. O sol já quase não é mais visto. Andamos por mais quinze minutos até chegar em um clareira. E lá está. Um vagão de trem. No meio de uma floresta. "Scully, não entre lá, pode deixar que nossos homens entram." Skinner grita em vão. Em passos mais rápidos que o meu corpo pode permitir, eu logo chego ao vagão. Não sei porque, espero encontrar corpos queimados no chão. Mas não encontro. Só encontro Mulder. "Ele está aqui." Lágrimas começam a vir aos meus olhos. Ele está desacordado. Ele não está em uma mesa cirúrgica nem nada do tipo, está simplesmente em uma cama, com um cobertor do exército. Não foi feita incisão alguma em sua cabeça. Eu escuto os paramédicos chegando no helicóptero. Eles conseguem pousar na clareira e logo aparecem três homens com uma maca. Eles levantam o corpo do Mulder e o transferem para a maca. Estão levando-o para o helicóptero. Eu estou logo atrás. Um dos paramédicos me avisa sobre o risco de voar num helicóptero em meu estado, mas eu o ignoro. Eu sei que o movimento do helicóptero pode ser perigoso, mas de jeito algum eu irei ficar longe de Mulder. Eu entro com a ajuda de Skinner no helicóptero e ele se despede com palavras que eu não ouço. Tudo que me importa é o homem à minha frente. Eu acho a mão dele enquanto o paramédico o examina e coloco as minhas mãos em volta da dele. A mão dele se abre e eu vejo minha cruzinha. Eu a seguro entre minha mão e a dele. Esse símbolo já deixou de ser religioso há algum tempo para mim. Não, não que tenha deixado de ser religioso, mas eu não mais o uso pela religião católica. Eu o uso porque ele simboliza minha fé e a do Mulder unidas. Fé em nós mesmos e em nossa busca. Quando eu entreguei minha fé a ele, eu entreguei a minha esperança também. Esperança de que ele voltasse. E ele voltou. +++++ Estamos no hospital. Estou sentada ao lado da cama do Mulder. Skinner está sentado no canto da sala e três agentes estão do lado de fora. O médico de Mulder entra na sala. Eu nem me preocupo em levantar, estou cansada demais para isso. "Sra. Mulder?" Eu penso em dizer que não, mas nem me importo. Não vou gastar tempo explicando isso. "Os exames voltaram. Ele possui algumas toxinas não identificáveis no sangue. As toxinas estão sendo neutralizadas por ele mesmo e em breve ele deve acordar." Eu estava aqui quando eles retiraram sangue. Vermelho. Não verde, vermelho. Eu mesma examinei o corpo dele atrás de cicatrizes, mas não achei nenhuma. Pedi raios x para que eu possa checar a cavidade nasal dele. Mas ele não irá fazer mais exames por hoje. Estamos ambos cansados. Eu olho para Skinner e ele está dormindo. Eu tenho que sorrir com essa visão. Um homem de quase dois metros de altura, sentado numa cadeira e babando. Ele também deve ter dormido pouco nos últimos meses. Todos nós sofremos muito. Eu estou segurando a mão do Mulder e coloco minha cabeça na cama, ao lado de nossas mãos. Logo o sono me leva. +++++ Acordo para achar uma mão acariciando meus cabelos. Logo eu percebo de quem é a mão. "Scully?" "Mulder!" eu gostaria de dizer que pulo da cadeira, mas com todo esse peso eu acabo me levantando lentamente. Ele ainda está de olhos fechados e em um piscar de olhos Skinner está do outro lado da cama. "Onde eu estou?" "Num hospital ao norte da Flórida." "Minha cabeça está doendo." "Tudo bem, Mulder, não tente se mexer." Eu tento falar calmamente, mas minha voz treme. Skinner sobe a cama de modo que Mulder está praticamente sentado. Mulder tenta abrir os olhos e depois de várias tentativas, ele consegue. Ele primeiro olha para mim. Ele não vê meu abdômen. Apenas meu rosto. Ele me puxa para um abraço. Eu fecho os olhos apenas sentindo o prazer de ter os braços dele à minha volta. Quando eu abro os olhos Skinner não está mais na sala. Mulder se separa do abraço e ele têm lágrimas nos olhos. Ele olha fixamente para o local onde nosso filho ou filha se encontra. Finalmente ele percebeu. "O que, como?" Ele parece completamente perdido. Eu simplesmente abro um sorriso e logo depois ele também sorri. "Mas, como?" ele ainda parece um pouco perdido. Muito perdido. "Não sei. Desisti de tentar entender há algum tempo. Descobri logo depois que você desapareceu. Já fiz todos os testes possíveis e ele ou ela parece ser normal. A data de concepção bate com a noite que você voltou da Inglaterra. Claro que pode haver certa margem de erro mas a margem é pequena." "Eu sinto muito. Eu jamais deveria ter te deixado sozinha." "Na verdade, Mulder, por mais que eu tenha sofrido, pelo menos algo de bom aconteceu. Desde que você desapareceu, não foi reportada nenhuma abdução nos Estados Unidos. Mas foi difícil. Mais difícil do que eu poderia imaginar. Seis meses sem você foi mais do que eu poderia imaginar." Mutuamente desistimos de trocar palavras e novamente nos abraçamos. Nosso bebê seguramente protegido entre nossos corpos. Eu sinto as lágrimas dele em meu pescoço, e as minhas lágrimas também caem livremente. Ele se separa e olha fixamente para minha barriga. Eu sinto nosso bebê chutando. "Ai!" Ele olha preocupado. "Ele ou ela chutou." "Posso sentir?" "Claro." Eu abro os últimos botões da minha camisa para gestantes e encosto a mão dele na minha pele. Novamente o bebê chuta. Mulder sorri e chora ao mesmo tempo. "É real." "Claro que é real, Mulder. Eu odiaria pensar que eu engordei 20 quilos nos últimos meses por nada." Ele sorri de novo. "Agora volte a dormir. Você precisa do descanso." Ele me obedece. "Eu te amo, Scully." "Eu sei, Mulder." E o beijo na testa. Ele só sorri enquanto ele deixa o sono o levar. +++++ Estamos entrando em meu apartamento. A viagem de volta foi cansativa, horas e horas em um carro pois não era recomendado nem que eu ou Mulder viéssemos de avião. Skinner dirigiu o tempo todo. Ele nos deixou aqui e eu agora caminho pela sala. Eu deixo meu casaco e minhas chaves em cima da mesa. Mulder olha para tudo, como se estivesse checando para ver que tudo continua no lugar. Ele se dirige à cozinha e inspeciona tudo superficialmente. "E meu apartamento?" "O senhorio pediu de volta. A maior parte das suas roupas já estava aqui, mesmo. Os peixes estão logo ali." "Eles estão vivos?" "Sim, quantas vezes eu te disse que se você alimentá-los, eles duram mais de uma semana?" "Ah..." Ele diz com um sorriso. Ele continua com a inspeção, chegando ao banheiro e quarto. Ele volta à sala onde eu estou sentado no sofá, pés em cima da mesinha de centro. Ele senta-se do meu lado e me vira para poder pegar meus pés e colocá-los no colo dele. Ele começa a massagear meus tornozelos inchados e nós não trocamos mais palavras. Não precisamos. Só a presença um do outro já é suficiente. +++++ Não mais conversamos. À noite eu simplesmente fui para meu quarto, ele veio atrás, trocamos de roupa e deitamos juntos, sem trocar uma palavra. Eu acordo com o movimento da cama. Ele está se debatendo. Pesadelo. Quando eu voltei da minha abdução eles eram constantes. Eu olho no relógio da cabeceira. 3:23 am. "Scully..." Ele me chama no sono. Eu simplesmente me aproximo dele e coloco meu braço em volta dele. Ele vira e me abraça, minha barriga entre nós. Ele se acalma e ambos voltamos a dormir. +++++ Agora eu sei como Mulder deve ter se sentido durante o câncer. Eu vejo que ele não está bem, mas ele continua respondendo que não há nada de errado. Mas diferente do câncer, eu posso estar com ele todas as noites. Quando ele chora dormindo, fala e às vezes treme. Eu posso ajudá-lo. Ele tem tentado parecer feliz perto de mim. Acho inclusive que ele esteja, mas não do modo que ele mostra. Ele está se curando por dentro ainda. Estamos no escritório, ele quis ver como andam as coisas, mas me prometeu que ia ficar longe dos arquivos. Eu conheço o Mulder o suficiente para saber que se ele achar algum caso interessante ele irá me arrastar para onde for com 9 meses de gravidez. Já se passaram três dias da data estipulada pelo médico. Eu não deveria nem estar subindo e descendo escadas, andando muito, mas eu não escutei as recomendações médicas por tanto tempo, não começarei agora. Minha mãe disse que não sabia como uma médica poderia fazer o que eu fiz nesses últimos meses, mas eu vejo o Mulder e eu sei que valeu a pena. Tudo que eu fiz me é recompensado quando ele olha com aqueles olhos ternos para minha barriga. Quando eu finalmente posso sentir o toque dele novamente. Descemos no elevador através de olhares. Todos olhavam para Mulder. Depois olhavam para o meu abdômen. Grande parte do FBI sabe, ou pelo menos espera, que a criança seja do Mulder. Espero que ninguém pense o contrário. Mulder conheceu Ridley e McDoug e agora ele está olhando em volta do nosso escritório, inspecionando tudo, como ele fez com meu apartamento. "É bom vê-lo de volta, agente." Skinner está parado na porta, olhando para nós. Mulder está olhando em volta do escritório, mais exatamente próximo ao pôster. Eu estou parada no meio da sala, braços cruzados. "É bom estar de volta, senhor." Mulder diz sem olhar para Skinner. "Agente Scully, deduzo que já tenha entrado em licença maternidade, já que não vêm trabalhar há uma semana." Ooops. Esqueci de mandar meu pedido ou de ligar para o Skinner. Minha memória anda terrível com essa gravidez. "Sim, senhor. O agente Mulder também entrará de férias por um mês." "Certo." Mulder nem percebe que existem outras pessoas na sala, ele continua inspecionando. Ele pára em frente à mesa dele, que agora é minha e fica olhando as duas placas com nomes. A minha placa está ao lado da dele, e ao lado estão algumas cascas de semente de girassol. Eu caminho até ele, ignorando Skinner. Eu abro uma das gavetas e atiro um saco de sementes de girassol aberto na direção dele. "Scully, posso falar com você lá fora?" "Sim, senhor." Eu saio com Skinner e Mulder continua a andar pela sala. "Como ele está lidando?" "Relativamente bem. Pesadelos. Ele está consciente de que seis meses se passaram, mas ao mesmo tempo ele gostaria de que nada tivesse passado." "Ele aceitou as 'mudanças' bem?" Ele olha para minha barriga. "Sim. Ele também está feliz." "Ótimo." Skinner retira-se e eu volto para o escritório. Eu caminho até Mulder, que tem as costas viradas para mim, e coloco a mão no ombro dele. "Vamos?" "Vamos." Ele responde cuspindo uma casca de semente de girassol. "Scully?" "Que?" "Você fez um bom trabalho." "Obrigado. Teria feito melhor com você, mas obrigado." Eu apago a luz, sabendo que pelo menos um mês se passará antes que eu volte aqui. ++++++ Saímos do escritório e Mulder quis andar no parque. Estamos sentados na beira do rio Potomac, no mesmo lugar que costumávamos nos encontrar quando os Arquivos X foram fechados pela primeira vez. "Ai!" Eu digo quando uma dor começa no meu útero e se espalha para minhas costas. "O que foi?" Mulder já está preocupado. "Mulder, acho que é uma contração." "Vamos para o hospital." "Não, vamos esperar mais um pouco, pode ser alarme falso." "Você tem certeza?" Ele está com aquela cara de pânico. "Sim, eu sou médica. Pode ser Haxton-Bricks." "Ok." Ele encosta-se no banco, incerto de minha resposta, mas quieto. +++++ Ok, não era alarme falso. Eu estou preocupada. Já estamos no hospital há cinco horas e estou sem dilatação alguma. Já estou na sala para a cesariana. Já passei por diversos tipos e estágios de dor, mas nada se compara a isso. Mulder está completamente pálido. Eu não queria uma cesariana, mas eu sei que eu estou arriscando o bebê se eu tentar um parto natural. Os batimentos cardíacos dele ou dela caíram e eles decidiram me trazer para a cirurgia. Estou deitada numa cama que é pequena demais para o tamanho do meu corpo, Mulder está numa veste cirúrgica ao meu lado, e existe um tecido pendurado sobre minha barriga, me impossibilitando de ver o que acontece lá embaixo. Eu me lembro de minhas aulas na faculdade e tento lembrar todos os procedimentos de uma cesariana, para ver se os médicos estão fazendo tudo certo. Mas é difícil lembrar meu próprio nome por causa da anestesia misturada à dor. Claro que doeria mais se eu não tivesse tomado a anestesia, mas mesmo sem sentir minhas pernas, tudo dói. Estou cansada demais e quase desmaiando. Minha mente passa a tentar se concentrar apenas em ter essa criança. E logo, antes que eu desmaie. Meus olhos estão pesados e eu os fecho por um instante. O sono está me chamando, mas eu sinto Mulder apertando minha mão. "Não desista, Scully. Fique acordada." Ele me beija na testa. Eu me sinto mal, ele é que passou por uma experiência difícil. Ele é quem deveria estar recebendo minha ajuda, não ele me ajudando. Mas eu agüento. Os médicos e enfermeiros se movimentam constantemente na sala. Eu vejo sangue na luva de um médico. Tem um médico e dois residentes na sala, o da luva ensangüentada é um dos residentes. "Estamos quase conseguindo, Dana." Uma enfermeira me diz, e eu viro para Mulder. Ele está com os olhos na direção dos médicos, tentando ver alguma coisa. Eu aperto a mão dele e ele olha para mim. É tudo que eu preciso, esse olhar para me dar força. Um residente pede que eu faça força para baixo e eu tento, com toda minha força restante. De repente, eu ouço um choro na sala. "É um menino." Mulder vai até eles e volta com um bebê sujinho enrolado num tecido verde. Mulder o coloca sobre mim. Ele é a coisa mais linda do mundo. Eu não consigo acreditar que eu tenha concebido algo assim. Tão belo. Só agora é que eu realmente me dei conta de que sou mãe. Uma rápida olhada para Mulder me revela que ele está chorando. As lágrimas também estão em meus olhos, mas eu não as derramo. Não tenho forças para derramá-las. Uma enfermeira o leva e eu finalmente relaxo um pouco. E de repente eu durmo. +++++ Eu acordo em um quarto de hospital, com balões e flores por todos os lados. Mulder está do meu lado e minha mãe está sentada num sofazinho do outro lado. "Mulder?" Ele percebe que eu acordei. "Bom dia." Ele levanta e me beija a bochecha. "Dana! Parabéns." "Obrigada, mãe." "Cadê ele?" "Está no berçário, eu vou buscá-lo." "Não, Mulder. Fique aqui, peça alguma enfermeira, eu não quero que você vá a lugar algum." Eu ainda estou preocupada. Não quero que ele se afaste de mim nem por um segundo. "Eu vou." Minha mãe deixa o quarto. "Obrigada, Scully." Mulder diz enquanto se abaixa e encosta seus lábios aos meus. Desde que ele voltou, esse foi o primeiro contato íntimo que tivemos. Alguns minutos se passam e minha mãe não voltou. "Scully, eu só vou até ali e já volto, não se preocupe." Mulder parece preocupado também. Eu sento sozinha no quarto por vários minutos. Skinner aparece na porta. Ele está pálido e está tentando parecer calmo. "O que aconteceu?" "Ele não está no berçário." "O que?" eu tento me mexer, mas os pontos estão doendo muito. "A segurança do hospital está procurando por ele. Foram todos alertados." "Eu pensei que um agente estava lá." "Estava. Ele teve um descuido e de repente o bebê não estava mais lá. Dois agentes já estão olhando as câmeras de vigilância." "Isso não é possível." As lágrimas já estão surgindo. Isso não pode estar acontecendo. Eu quero meu filho de volta. Eles não podem fazer isso. "Dana, fique calma. Você passou por uma cirurgia, tem que ficar calma." Skinner diz e eu me espanto à menção do meu primeiro nome. "Eu vou ficar calma quando vocês me trouxerem meu filho de volta." "Nós iremos achá-lo." Uma enfermeira entra no quarto e injeta algo em mim. "O que você injetou?" "Apenas algo para a senhora relaxar." "Eu não quero um calmante, eu quero..." Eu tento dizer, mas o efeito de droga é rápido. +++++ Quando eu acordo novamente, Skinner está no quarto. Ele percebe que eu estou acordada e sai rapidamente do quarto. "Mulder, ela está acordada!" Ele grita no corredor. Mulder entra no quarto com nosso filho nos braços. "O que aconteceu?" "Nós o achamos num quarto no oitavo andar. Você dormiu por cinco horas." "Ele está bem?" "Sim." Mulder concorda enquanto me entrega nosso filho. Ele está me escondendo algo. Eu olho para nosso bebê. Ele tem cabelo castanho claro, que eu suspeito irá se tornar da cor do cabelo do Mulder. Ele pisca e eu percebo que os olhos dele são azuis esverdeados. Espero que a cor dos olhos não mude, eles são lindos. Eu quero mais respostas, mas tudo que eu quero agora e observar nosso filho. Estamos apenas nós três na sala. Mulder ainda está preocupado. Ele também está visivelmente cansado. "Você precisa descansar, Mulder." "Depois. Depois eu descanso." Ele consegue se sentar na cama, ao meu lado. Volto minha atenção para nosso filho, os bracinhos perfeitos. Então eu noto um curativo no braço direito. "o que foi isso?" Mulder não tem coragem de olhar em meus olhos. "O que é isso, Mulder?" "Eu acredito que seja um implante." As palavras dele registram e trazem mais dor. Eu não acredito que eles tocaram em meu filho. Eu não acredito que eu não pude protegê-lo. Eu olho para Mulder e vejo que ele sente o mesmo. Até quando isso vai acontecer? "Até quando isso vai acontecer, Mulder?" Eu pergunto para ele, já que não consegui uma resposta sozinha. "Sinceramente, Scully, não sei." Ele passa a mão sobre a cabeça de nosso filho. "Eu gostaria de saber. Mas eu não sei, eu só queria poder largar tudo e ir morar com vocês num lugar longe disso tudo. Poder proteger vocês." "Mas se nós desistirmos, eles vencem." "Eu sei." "Então, nós temos de continuar lutando." "Scully, nós iremos conseguir um dia. Vai chegar o dia em que essa conspiração terá um fim. Vai chegar o dia em que a Verdade será revelada. Nós iremos descobri-la. Eu não só quero, como eu tenho que acreditar nisso. Se não, toda nossa luta, toda nossa busca até agora, tudo o que nós perdemos, foi tudo em vão. E eles vencerão, depois de tudo isso." "Eu não quero desistir, Mulder. Mas nós vamos precisar tomar mais cuidado. Temos uma nova vida para cuidar." "Eu sei. Eu quero te agradecer, Scully. Muito obrigado por fazer isso possível." "Você também tornou isso possível, Mulder." "Ele é real." "É, Mulder, eu também acho difícil de acreditar." Nossas mãos se encontram enquanto nós acariciamos o bebê. O toque é eletrizante. Mulder ainda tem esse poder. Fazer com que eu me sinta melhor com apenas um olhar, um toque. Agora, nesse hospital, mesmo cientes do risco que nosso filho corre, só existimos nós três. Mais nada. Mais ninguém. Mulder se vira para olhar para mim e eu encosto meus lábios aos dele. O toque é sutil, mas já é o suficiente para mandar calafrios pelo meu corpo. Eu recuo do beijo e ele sorri para mim. "Eu te amo, Mulder. Sinto muito por não dizer isso mais vezes." "Eu te amo também, Scully. Eu não quero que você repita sempre. Você me diz com seu olhar. É o bastante." "Eu também o amo." Eu digo movendo minha cabeça em direção ao nosso filho. "Eu também." Mulder fecha os olhos. "Como isso aconteceu, Scully?" ele vê que eu não entendo o que ele quer dizer. "Como que eu volto depois de seis meses, os quais eu não tenho memórias, para de repente ter uma família? Há seis meses, nós ainda estávamos tentando esconder do mundo inteiro que estávamos juntos e de repente..." "Eu sei. Eu tive seis meses para me ajustar. Não osso imaginar como foi para você que teve que se ajustar a tanto em tão pouco tempo." "Mas eu estou feliz, Scully. Antes eu fiquei me crucificando porque por minha causa você não poderia mais ter filhos." "E por sua causa eu o tive." "Como assim?" "Mulder, eu acredito que esse filho não seria possível se não fosse por você. Não só por causa dos 'acontecimentos', mas eu acredito que por alguma razão, só você poderia ser o pai dessa criança. Na noite que ele foi concebido, eu fui guiada até você. É muita coincidência." "Scully, é você que está falando? A minha cética parceira?" "E mãe do seu filho, não se esqueça." "Eu jamais esqueceria." "O que eu quero dizer, Mulder, é que, eu não sei o porquê nem o como essa criança existe, mas acho que ele existe simplesmente porquê ele precisava existir. Eu só tenho medo de que não possamos protegê-lo." "Eu não posso te assegurar que nada vai acontecer a ele. Mas eu posso te assegurar de que eu farei o possível e o impossível para tentar protegê-lo." "Eu também, Mulder." Ficamos em silêncio por alguns instantes. Apenas observando a vida que criamos. "Mulder, e se ele não foi nossa criação como nós acreditamos? E se ele foi criação daqueles homens?" "Scully, você amava Emily?" "Sim. Com todo meu coração" "Então. Nós também o amaremos. Mas não existem provas dizendo que ele não foi criação nossa e apenas nossa. Essa criança e minha e sua e de mais ninguém. Nós a amamos e isso é o suficiente." Novamente nos silenciamos. Mulder em surpreende com um beijo. O beijo é suave e leve. Mas o simples contato nos dá força. O choro de nosso filho nos faz recuar. "Acho que ele está com fome." Eu digo enquanto peço Mulder que me ajude com a camisola. Eu estou com um pouco de receio. Nunca fiz isso antes. Mas a natureza toma seu curso e após alguns instantes, nosso filho está calmamente mamando. "Qual vai ser o nome dele, Scully?" "Não sei." "Tudo menos Fox." "Ou William. Muitos Williams na família." "Que tal John?" "John? Eu gosto de John. Simples e ele não vai apanhar na escola por causa disso. John Scully- Mulder?" "Ótimo, nós já temos um nome para você. John." Eu digo para meu filho enquanto ele dorme quietamente e mama. Eu estou quase chorando novamente. Eu não costumo chorar e conseguia inclusive resistir aos hormônios maior parte do tempo durante a gravidez, mas isso e demais. Quando eu olho para essa pequena vida em meus braços e vejo Mulder do meu lado, eu não penso no passado. Eu não penso em sofrimento. Tudo que eu penso é no presente. "Mulder, eu não tenho móveis para ele. Tudo que eu tenho são poucas roupas." Eu começo a me desesperar. Eu simplesmente estava tão preocupada com Mulder que eu esqueci de comprar a mobília do bebê. "Shh. Nós vamos nos preocupar com isso depois. Sua mãe disse que iria cuidar disso." Eu relaxo novamente. A respiração de Mulder me acalma. Eu penso no futuro. Mas o máximo que consigo pensar é em sair desse hospital. Eu sei que em um mês eu voltarei a trabalhar. Não sei como conciliarei um emprego como meu e um bebê, mas eu darei um jeito. E eu terei Mulder comigo. Não sei se conseguiremos protegê-lo, mas tudo o que importa é que ele existe. Ele está aqui. Ele é nosso. E eu estou feliz. Eu tenho aqueles que mais amo ao meu lado. Eu pensarei no amanhã quando ele chegar. Eu decido parar de pensar e simplesmente sentir. Sentir meu filho mamando. Sentir o toque da mão de Mulder em meu braço. Sentir o amor que flutua entre nós. Porque é isso que importa. Qualquer mal que nos fizeram é esquecido quando eu olho para meu filho. E agora uma nova vida começa. Agora nós somos uma família. ++++++ The End. e-mail: alice_j_foster@hotmail.com