FAN FICTION DISCLAIMER : Os personagens desta estória pertencem aos seus criadores e divulgadores, minha única intenção é o entretenimento de fãs que, como eu, apreciam o seriado, não há nenhum interesse lucrativo. CLASSIFICAÇÃO : Shipper SINOPSE : Mulder e Scully vão para uma pequena cidade investigar assassinatos de mulheres e, lá, descobrem algo mais surpreendente. OBSERVAÇÕES : Obrigada à minha amiga e beta leitora Small Iêda que, mesmo cheia de trabalho, fez as revisões e me deu ótimas dicas para a estória. Essa fic é longa e merece algumas explicações adicionais. A lenda foi criada por mim. Esta cidade existe, mas eu não tenho a mínima idéia do porte e das atividades que eles desenvolvem lá, apenas gostei do nome e da localização dela. E, por último, mas muito importante, por favor, gostaria de saber a opinião de vocês. Enviem-me um feedback. FLORESTA ESTADUAL Chovia forte em toda a região. No meio das trilhas, a água infiltrava- se impiedosa, transformando a terra fofa em lama pardacenta, coberta de mato. As montanhas, ao longe, pontilhavam o firmamento de estranhas esculturas. O silêncio na mata foi subitamente rompido pelo barulho de passos apressados em meio às folhagens. Uma mulher de respiração ofegante corria desabridamente, sentindo o fio cortante das folhas machucarem seu rosto delicado. Sua respiração acelerada quase não permitia que ouvisse de onde vinham os sons a persegui-la. Ela corria com os imensos olhos azuis perscrutando tudo ao redor. Suas mãos pequenas não impediam que a folhagem fosse totalmente afastada do caminho e ela já sentia o sabor amargo do sangue correndo por inúmeros pequenos cortes feitos sobre a pele sensível. Mas não havia tempo para análises Precisava sair o mais rapidamente possível dali. Sentia-se perdida. As lágrimas de desespero já afloravam violentas em seus olhos, impedindo-a de enxergar totalmente o caminho a percorrer. Sentia seus pulmões explodindo em busca de ar, mas não podia se dar ao luxo do descanso. De repente, tudo ficou mais leve: sentiu seu corpo sendo jogado violentamente no barranco que, devido ao seu desespero, não vira surgir subitamente em seu caminho e ela rolou freneticamente até o fundo da depressão, seus belos cabelos vermelhos voando ao sabor do vento cortante que zunia impiedoso, penetrando e vergastando- lhe o corpo convulsionado pelo pavor e incredulidade. Ao chegar ao fundo, sentiu-se envolvida pela completa escuridão da noite. Os pássaros recusavam-se a cantar. Os animais procuravam furnas impenetráveis a fim de se protegerem daquela estranha presença que percorria as matas em busca de algo...Ou alguém. A mulher escondeu-se sob a folhagem. Seus olhos intensamente abertos e alertas captavam qualquer movimento próximo a ela, embora apenas seu medo e agonia fossem capazes de acompanhá-la naquele momento. Lentamente a razão, característica intrínseca de sua mente lúcida e bem treinada, tomou as rédeas daquela alma assustada e ela pode serenar seus instintos. Respirou fundo várias vezes, sentindo o ar impregnado do cheiro de mato e terra invadir suas narinas, correr célere pela garganta e impregnar seus pulmões como uma lufada de vida nova: era novamente dona de suas emoções. Com cuidado, colocou-se de pé, bateu a mão pelo corpo espantando a poeira e as folhas que agora faziam parte de sua vestimenta e passou os dedos sobre o rosto, retirando-os salpicados pelo seu próprio sangue. Agarrou-se às pequenas raízes que nasciam junto ao barranco, usando-as como apoio para subir novamente à pequena trilha junto às arvores. Subitamente, porém, sentiu seu corpo congelar. Os batimentos cardíacos elevaram-se a ponto de machucarem as paredes finas de seu coração, despejando uma quantidade enorme de sangue e adrenalina em suas veias, congestionando seus olhos e explodindo em sua cabeça, como um aviso intermitente de perigo. As mãos que se agarravam às dela eram de uma força descomunal, ainda mais em se tratando de um fardo tão pequeno e leve quanto sua constituição física. Sentiu os dedos frios fecharem-se sobre seus punhos, puxando-a sem comiseração, arrastando-lhe o corpo sobre as paredes do barranco e, a um só esforço, colando-o de encontro à figura outrora tão amada e que, agora, lhe causava um estremecimento desmedido de pavor. Somente ao se encontrar junto a ele, que a fitava com olhos endurecidos e frios -- estranhamente diferentes daqueles que a buscavam com ternura, carinho e confiança -- foi capaz de sentir as vibrações de suas cordas vocais, numa tentativa desesperada de recuperar o espírito que habitava aquele corpo e que parecia ter sido sugado ou expelido . _ Mulder, por favor! _ ela começou a dizer, carinhosamente _ Volte pra mim, Mulder. Esse não é você. Está me machucando, por favor, pare! Mas ele parecia surdo às suplicas dela, enquanto a mantinha firmemente presa junto ao peito. Puxou a cabeça dela para trás, mergulhando o verde de seus olhos que se confundiam com as matas ao redor, dentro da retina dela, parecendo querer devassar todos os seus pensamentos e sentidos. Aproximou-se e ficou a poucos centímetros do rosto dela, a respiração estranhamente compassada e tranqüila, tão imprópria para uma situação como aquela em que havia percorrido tão longa distância, numa corrida enlouquecedora, tranqüilidade que contrastava imensamente com a respiração ofegante e entrecortada dela. Ele entreabriu os lábios, deixando que sua língua passasse caprichosamente sobre um pequeno corte no rosto dela, sugando o sangue quente que descia até próximo aos lábios. _ Você será minha, Mali _ ele disse com voz monocórdia e soturna _ A qualquer preço. Ergueu-a nos braços e apertou-a de encontro ao peito, enquanto ela desfalecia de medo e cansaço. ETERNO Sky RODOVIA 42 Arredores de Omaha O carro rodava há várias horas. Scully, com ar contrariado, fitava ora o mapa, ora o parceiro que ignorava completamente a orientação que ela tentava lhe passar sobre o destino a seguir. Ela impacientou-se, jogou o mapa no banco de trás com raiva e virou-se para ele. _ Mulder, se nós passarmos mais uma vez por aquele poste de iluminação ele irá nos cumprimentar. Pelo amor de Deus! O que há com você? Estamos perdidos, não percebeu? Não bastasse me arrastar durante a madrugada para uma estrada praticamente deserta, que liga nada a lugar algum, ainda se dá ao luxo de se perder. Que diabo, Mulder! Estou falando com você! Ele limitou-se a fitá-la com olhos divertidos, para, em seguida, sorrir cinicamente. _ Misturando Deus e o diabo numa mesma frase, Scully? Que coisa horrível! Nem parece a garota católica que eu conheço. _ Você não me conheceu quando eu freqüentava um colégio católico, Mulder... _ Hum...Interessante...E o que isso significa exatamente? _ Que há muito tempo eu deixei de lado a misericórdia cristã. Se você não parar esse carro imediatamente em algum lugar e se informar decentemente para onde diabos está me levando, eu vou esganá- lo com minhas próprias mãos. Ele virou-se para ela com sua melhor expressão de pânico e ela mesma espantou-se com sua resposta, respirou fundo e acompanhou-o no riso. _ Tá certo, Mulder. Eu admito: estou cansada. Preciso de um banho... Uma cama. Estamos andando o dia todo nesse carro. Se você fizer isso, eu prometo que deixo para executá-lo amanhã e ainda te deixo fazer um último pedido, ok? Mulder a fitou com um brilho diferente nos olhos. _ Qualquer pedido, Scully...? Ela sentiu-se constrangida pela intensidade daqueles belos olhos verdes. _ Ali, em frente, parece haver um posto de gasolina, Mulder _ ela interrompeu, mudando de assunto _ Pare ali e vamos nos informar, por favor. Mulder estacionou e saiu do carro, enquanto ela se dirigia ao banheiro. Ele entrou numa pequena loja para tentar localizar- se. Um senhor de cabelos grisalhos estava atrás do balcão lendo um jornal velho e amassado. _ Senhor? _ Mulder se aproximou _ Poderia me informar que estrada eu devo pegar para chegar a Sioux Falls, próximo à cidade de Omaha? O homem ergueu os olhos do jornal para encarar a elegante figura do homem à sua frente. _ Está um pouco longe de lá senhor. Terá que retornar à rodovia principal. Mais ou menos uns três quilômetros à frente há uma indicação para a estrada que segue de Omaha para Sioux. Mas é um trajeto longo e a estrada ali para aqueles lados não é a melhor. _ Tem um lugar onde se possa passar uma noite? Scully entrava na loja e viu Mulder conversando com o senhor. Aproximou-se rapidamente. _ E então? _ ela interrompeu. E mais baixo para ele _ Algum indício de civilização? Mulder voltou-se e sorriu para ela. _ Estamos meio fora do trajeto, Scully. Teremos que voltar à rodovia... _ Mas são quase cinqüenta quilômetros até lá Mulder _ ela resmungou. O senhor os fitava com interesse, principalmente para a mulher que, com gestos contidos, puxava uma mecha dos cabelos acobreados para trás da orelha, enquanto fitava intensamente o homem à sua frente. _ Há uma cidadezinha aqui perto _ o senhor interrompeu _ a uns cinco quilômetros pela estrada oeste. Há uma pousada lá. Poderiam passar a noite e recomeçar amanhã. Mulder aceitou a sugestão de bom grado, olhando para as feições aborrecidas da parceira que largava os braços ao longo do corpo numa atitude de desalento. Pegaram as coordenadas do local e seguiram para o carro. Ao se afastarem ligeiramente, o senhor pegou o telefone e começou a conversar com alguém do outro lado da linha: _ Estão aqui...Não...Eles parecem mais um casal em férias...Não...Escute-me...Mudei de idéia...Você vai entender quando a vir...Ela poderá ser a última... IMEDIAÇÕES DE OMAHA Mulder entrou na cidade mergulhada no silêncio. Era realmente uma cidade pequena: nada além de uma igreja, algumas lojas, casas de madeira sem graça ou beleza, uma praça e mais alguma coisa perdida entre alguns quilômetros de plantações. Scully estava estranhamente calada. Seu humor não estava dos melhores e Mulder achou por bem não insistir numa conversa. Entraram num pequeno motel, próximo à entrada da cidade, cercado pelas árvores que se perdiam mata adentro. Scully gemeu ao pensar na quantidade de bichos e insetos que deveriam infestar aqueles quartos sujos e isolados e a promessa de esganar Mulder voltou a dançar em sua mente. _ Pronto, Scully: suas chaves. Cuidado para não ser mordida por nenhuma cobra. Ela o fulminou com o olhar. _ Bom...Talvez elas é que devessem te temer, não é? _ ele completou com sorriso amarelo _ Boa noite, Scully. _ Não espere que eu vá te desejar o mesmo, Mulder. Ela entrou e bateu a porta com raiva. Por que sempre o deixava convencê-la a embarcar naquelas aventuras ? Como podia ser tão imbecil que, por mais que sua mente a questionasse, sempre cedia aos desejos dele? Tomou um banho quente, ou quase isso, já que o chuveiro mal pingava algumas gotas mornas sobre as costas dela. Deitou-se na cama e estava tão exausta que não sentia nem fome, nem frio. Os insetos que sobrevoavam a lâmpada também não chegavam realmente a incomodá-la. Precisava dormir, somente isso. Mas um barulho começou a se formar no fundo de seus ouvidos e começou a tomar forma, aumentando de volume. Ela sentou-se na cama e prestou atenção. Pareciam tambores ou alguma espécie de instrumento musical que entoava uma cantiga melancólica e monótona. As batidas eram as mesmas e iam se intensificando à medida que o tempo passava. Sentiu seu coração disparar desagradavelmente. Não queria admitir, mas aquele barulho a incomodava e assustava ao mesmo tempo. Sabia que era irracional, mas mesmo assim não conseguia impedir que mexesse com seus sentidos. Levantou-se e colocou o roupão. Encaminhou-se até a porta e a abriu lentamente. Percebeu uma claridade ao longe, parecendo que a mata se incendiava e, antes que tivesse novamente o controle de suas emoções, estava em frente à porta de Mulder, batendo um pouco mais nervosamente do que de costume. Mulder demorou alguns minutos para abrir. Ele piscava os olhos, numa clara demonstração de quem acabara de acordar. Estava apenas de Bose e a olhou espantado. _ Algum problema, Scully? _ perguntou, bocejando. _ Eu...Desculpa... Já estava dormindo...? ...Eu não... _ Tudo bem! Entre _ ele convidou _ O que foi? Ela não pode recusar o convite. Estava com medo e aquele lugar lhe causava arrepios, mesmo sem perceber. Sentou-se na ponta da cama e o fitou envergonhada. Mulder pegou uma camiseta e vestiu-se para cobrir o dorso nu. _ Está ouvindo? _ ela murmurou. _ O quê? _ Esse barulho, como um tambor... Essa melodia estranha. Mulder apurou os ouvidos. Ouviu a batida cadenciada e ficou quieto por alguns minutos. _ Quando vinha para cá, vi alguma coisa na mata ao lado. Parecia que estava em chamas e... _ Está com medo, Scully? _ Mulder cortou-a com ar divertido. Ela ficou embaraçada. Levantou-se, indo em direção à porta. _ Desculpe...foi bobagem minha...eu... _ Não...Espere...Pode ficar aqui. Eu não vou te gozar porque está com medo, Scully. _ Eu não estou com medo, Mulder. Mas nesse momento a claridade pareceu invadir o quarto dele. Os dois seguiram automaticamente para a janela, afastando a cortina e colocando-se lado a lado para espiar lá fora. Uma estranha procissão seguia pela rua: pessoas vestidas com uma espécie de toga branca, carregando archotes, seguiam atrás de um homem alto, com veste azul clara e um cajado com um círculo na ponta. Traziam tochas acesas e os agentes sobressaltaram-se quando o homem virou o rosto em direção ao quarto do hotel, parecendo saber que eles o estavam vendo pela fresta da cortina. Instintivamente Mulder colocou a mão nos ombros de Scully e cerrou a cortina. _ O que será isso? _ ele perguntou intrigado. _ Não sei, Mulder. Mas não gostei da maneira como aquele homem nos olhou. Estou com um mau pressentimento. _ Mau pressentimento? Scully, é você mesma quem está falando? Desde quando você acredita em pressentimentos? _ Mulder riu, encaminhando-se para a porta a fim de sair. _ Não, Mulder! _ ela pediu, segurando-o pelo braço _ Não saia, por favor!. Mulder estranhou bastante o pedido dela. Não era típico de Scully sentir esse tipo de medo irracional. Na verdade, ela também não se reconhecia naquela situação. Porém os olhos daquele estranho homem pareciam ter penetrado em sua alma, causando um grande desconforto, uma sensação ruim de que algo estava para acontecer e eles terminariam por fazer parte disso. Eles perderam algum tempo nessas divagações e quando, mesmo a contragosto, Scully o seguiu até a porta, a procissão já não estava mais lá. Parecia haver desaparecido de repente. Voltaram e pararam em frente ao quarto dela. Ao abrir a porta, porém, Scully arregalou os olhos e recuou um passo. Sua cama estava coberta por flores e folhagens e, num dos cantos, ela acreditou divisar o vulto de um homem. Mulder entrou logo atrás dela e não entendeu porque ela havia parado tão abruptamente. _ O que foi ? _ perguntou intrigado. _ Não está vendo ? _ ela murmurou assustada, virando-se para a sair. Ele adiantou-se e entrou no quarto, olhando ao redor minuciosamente. _ Você deixou a toalha molhada sobre a cama ? _ ele debochou _ Lamentável, Scully _ continuou voltando-se para ela. Scully voltou-se novamente e não havia mais nada lá. Tudo em perfeita ordem. _ Mulder eu vi....eu... _ O que viu, Scully ? Ela começava a duvidar de seus próprios olhos, andou pelo quarto parecendo buscar por alguma coisa, recolheu a toalha e levou- a ao banheiro, mas não havia nada fora do lugar. Encontrou os olhos de Mulder fitando-a com ar de dúvida. _ O que foi ? _ ele voltou a perguntar. _ Nada...esquece _ ela respondeu relutante _ Mulder...será que poderíamos dar uma olhada nos relatórios desses assassinatos ? _ Tudo bem _ ele respondeu dando de ombros. _ Então vamos _ ela continuou, encaminhando-se para a porta. Não admitiria para ele. Estava bastante cansada. Mas a idéia de ficar, naquele quarto, sozinha não lhe parecia nada agradável. _ Agora ? _ ele a fitou intrigada _ Scully, tem certeza de que está bem ? Você parece cansada. Ela disfarçou. _ Desculpe, Mulder. Sim eu estou bem...é que perdi o sono e achei que...deixa pra lá...amanhã nos vemos isso _ concluiu sem qualquer convicção. _ Não..._ ele cortou _ Tudo bem...também estou sem sono. Ela parecia assustada, mas ele não disse nada. Entraram no quarto dele. Sentaram na cama e começaram a estudar o caso. _ Ainda não entendi o que esse caso tem de especial, Mulder. Parece um caso comum de assassinato. Crime passional, só isso. _ Tem algo estranho aqui, Scully. O subdelegado me pediu ajuda porque não estava conseguindo progressos na investigação. Parece que a comunidade de Sioux não é muito aberta. Duas mulheres foram mortas, ao que tudo indica, pelos maridos que desapareceram sem deixar pistas. _ Talvez não tenham procurado direito... _ Se Sioux for do tamanho dessa cidade dá pra verificar até embaixo dos jardins em menos de um dia. E não foi encontrado nada. Parece que as mulheres foram sacrificadas em algum ritual. Não havia um único sinal de luta nos corpos. _ Foram feitas autópsias? _ Sim e elas apontam morte por asfixia, mas não há marcas no pescoço, nem sinais de agressão. Ele levantou-se e caminhou pelo quarto, elaborando alguma teoria. Ela o acompanhava com os olhos. Gostava de ver como a mente dele trabalhava; como mudava de expressão ao tentar entender o caso, às vezes, mordiscando o lábio inferior, piscando lentamente, murmurando frases inteligíveis e, quando menos se esperava, ele derramava alguma idéia esdrúxula sobre ela. Era quase um ritual que ela acompanhava atenta e ansiosa. Mas seus olhos estavam pesados. Não conseguiria mantê-los abertos por muito tempo. Ele tinha razão: ela estava exausta. _ Scully e se... Mulder voltou-se para fitar a parceira debruçada sobre a pasta, os olhos cerrados. Ele sorriu, aproximando-se dela. Tirou as pastas de cima da cama e puxou os lençóis. Acercou- se dela e tocou-lhe os cabelos. Scully abriu os olhos, assustada, sobretudo pela proximidade dele. _ Deite-se Scully, precisa descansar _ ele murmurou, pressionando os ombros dela e ajudando-a a estender-se no leito. Depois desatou o nó do roupão dela e Scully arregalou novamente os olhos. _ Calma, não se assuste. Só estou desfazendo o nó para não te machucar. Ela riu, retirou o roupão, deixando à mostra o pijama de cetim cinza e enfiou-se embaixo dos lençóis, ajeitando-se, enquanto ele jogava o roupão aos pés da cama. _ E você? _ ela perguntou sonolenta. _ Não se preocupe. Não estou com sono. Ela fitou-o embaraçada por alguns segundos. _ Deite-se aqui quando quiser dormir _ sussurrou, acomodando- se num dos lados da cama e fechando os olhos imediatamente para não ver a expressão dele. Mulder voltou a atenção novamente para a pasta, mas não conseguiu mais se concentrar. Desviou os olhos para a figura serena, adormecida em sua cama. Parecia tão frágil quando estava dormindo, tão pequena e delicada. Olhando-a assim não seria possível imaginar do que ela seria capaz; da força que habitava dentro dela, onde, por vezes sem conta, ele buscara alimento para não desistir. Deixou a pasta sobre a mesa e dirigiu-se para a cama. Deitou- se cuidadosamente para não acordá-la e se perdeu na contemplação daquele semblante tão precioso para ele. Demorou-se fitando os cabelos em desalinho espalhados no travesseiro, os contornos finos do rosto, a pele branca e aveludada, a curva singular do nariz, os cílios cerrados emoldurando os olhos daquela cor maravilhosa que ele tão bem conhecia em todas as suas nuances, que variava de acordo com a luz e o estado de espírito dela; os lábios cheios, cuja maciez ele sentira apenas uma vez, durante uma bem aventurada passagem de ano. A corrente no pescoço dela brilhava com a luz da lua que invadia o quarto. Ela guardava uma das mãos sob o travesseiro e a outra apoiada junto ao rosto. Tão serena...Tão segura... A confiança que ele sabia que ela depositava nele não lhe permitiu passar além dos ombros dela, muito embora seus olhos teimassem em descer um pouco mais, para a dobra do tecido de cetim que se arredondava para dar forma ao busto dela. Afastou esses pensamentos e repreendeu-se, cerrando as pálpebras com força. Na sua imaginação, Mulder deixou um beijo se formar em seus lábios, atravessar a pequena distância que os separava e repousar, terno, quente e apaixonado, sobre a boca rosada à sua frente. Depois fechou os olhos lentamente e deixou-se embalar pelo sonho ou ...fantasia.. Scully abriu os olhos devagar, acostumando-se à claridade que invadia o quarto. Sentiu a respiração quente sobre sua nuca e estremeceu de leve. Ela estava de costas para Mulder. O seu corpo muito próximo ao dele, sentiu o peso do braço sobre sua cintura e sentiu o ar sumindo lentamente. Tentou sair daquele abraço, mas não podia negar que estava gostando daquele contato quente sobre a pele. No entanto, o seu senso de responsabilidade sempre falava mais alto e, embora fechasse os olhos e suspirasse imperceptivelmente, afastou o corpo do dele. Mulder acordou imediatamente sentindo o constrangimento crescer entre eles, quando ela voltou-se para fita-lo. O silêncio de respirações suspensas invadia o quarto, enquanto seus olhos evitavam o confronto direto. Após algum tempo ele decidiu quebrar o gelo. _ Eu juro que fiquei o tempo todo quietinho, Scully. Você é quem invadiu meu espaço _ ele justificou-se, sorrindo. Ela sentou-se na cama, ajeitando a roupa. Virou-se para fitá- lo e sorriu também. _ Obrigada, Mulder! Dormi como uma criança. _ Disponha! _ ele respondeu irônico, enquanto acompanhava os movimentos dela pelo quarto, até que saísse. Meia hora depois ele batia na porta dela. _ Está pronta? _ perguntou quando a viu _ Temos que ir. Ela balançou a cabeça e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si. Ao chegarem no carro, viram que o pneu estava arriado. Scully sentia o sabor da vingança aflorar em seus lábios através de um sorriso. _ Parece que seu dia não vai começar bem, não é Mulder? Ele praguejou, tirou o blazer e verificou os pneus. O estepe não resolveria nada. Precisariam de quatro pneus novos pra colocar o carro em movimento. _ Alguém fez isso, Scully. _ Talvez haja algum posto ou borracharia por aqui. Podemos ver na recepção. Saíram em direção à entrada do motel e não perceberam o par de olhos que acompanhava todos os seus movimentos. _ Alguém esvaziou os pneus do nosso carro, aqui no seu motel, senhor... _ Mulder começou ao entrar. _ Impossível. Ninguém aqui faria isso e, pelo horário que chegaram ontem, não havia mais ninguém acordado na cidade. _ O fato é que estamos sem condições de seguir viagem. Há algum lugar que possa consertar isso? _ Vou ligar para o Leo. Ele pode arrumar pra vocês, mas vai demorar um pouquinho. _ Ok _ Mulder respondeu contrariado _ Há algum lugar onde possamos tomar um café? O homem indicou uma lanchonete a poucos metros dali e eles seguiram para lá. Escolheram um lugar para sentar e aguardaram o atendimento. _ O que vão querer? _ perguntou o atendente solícito. Mulder olhou para Scully e ela fez seu pedido. _ Um café e torradas e um pedaço de torta também _ ela pediu Mulder a fitou, sorrindo. _ Acabou o regime? _ Estou faminta, Mulder. Desde ontem pela manhã que não como nada decente. _ O mesmo pra mim _ Mulder concluiu, dispensando o atendente que os fitava interessado. _ Vocês não são aqui das redondezas, não é? _ ele perguntou curioso. _ Viemos de Washington, mas só de passagem. Estamos indo para Sioux Fall. _ Sioux Falls? _ o rapaz repetiu _ Conhece? _ Scully perguntou. _ Aqui é Sioux Falls. Não sabiam? _ Um senhor na estrada disse que teríamos que retornar à estrada principal para chegar até aqui. _ Mulder cortou. _ Deve ser o Joe. Ele sempre faz isso. É brincadeira. A maioria das pessoas que vêm para cá, acaba se perdendo na estrada. _ Ah! _ eles exclamaram juntos. _ Então onde poderíamos encontrar o sub delegado Fletcher? O rapaz pareceu perturbado. _ O Bill? Sinto muito. Ele...ele não está mais na cidade. _ Mas ele me chamou até aqui _ Mulder apressou-se em dizer quando viu o olhar furioso que Scully lhe lançava. _ Bom... _ o rapaz pareceu perder a espontaneidade _ Ele morreu há dois dias e...Com licença, vou providenciar o café. Mulder olhou intrigado para a parceira. _ Há algo estranho aqui, Scully. _ Nós... Nós somos estranhos aqui, Mulder _ ela o fitava com aquela tão conhecida expressão de sobrancelha levantada. Terminaram o café e voltaram ao motel. O mecânico havia arrumado os pneus, mas os avisou que o carro não estava funcionando. _ O que aconteceu? _ Scully reclamou. _ Não sei, senhora.Fui testar o carro e ele está pifado. Acho que foi uma pane no sistema elétrico. Teria que rebocá-lo para a oficina para consertar... Mulder suspirou: _ Ok. Vamos ficar nesse motel mesmo. Nos avise assim que estiver pronto_ e dirigindo-se para Scully _ Vamos procurar o delegado. _ O que querem com ele? _ interrompeu o homem. _ O subdelegado Fletcher nos chamou. Somos do FBI _ Mulder apresentou- se, mostrando a insígnia _ Sabe o que aconteceu a ele? _ Bom..._ o homem parou reticente _ Ele bebia muito e... Mulder não quis olhar para a parceira. Podia adivinhar a expressão dela à medida que o homem falava. _ Ele se matou há dois dias. _ E quem está cuidando dos casos de assassinato que ocorreram aqui há um mês? _ Que assassinatos? Não estou sabendo de nada disso...Desculpem. Tenho que ir.Vou mandar buscar o carro e aviso quando estiver pronto. O homem não deu chance de eles perguntarem mais nada. _ Parece que te fizeram de bobo, Mulder e, a mim, por tabela. _ Você viu as fotos, Scully. Há duas mulheres mortas _ Ele pode ter inventado tudo. _ Por que faria isso, Scully? _ Bom _ ela suspirou _ Se eu morasse numa cidade sem graça como esta, já estaria até acreditando em OVNIS _ ela terminou, fitando-o com ironia. Mulder estava aborrecido. _ Vou falar com o delegado. _ Vou com você. Não há mais nada pra se fazer aqui. Chegar à delegacia era tarefa bastante simples. Aliás, movimentar-se naquela cidade era ridículo: tudo ficava, no máximo, a três ou quatro quarteirões. A cidade acabava aí. Esperaram alguns minutos até que viram o mesmo homem da estrada entrar na sala. _ Em que...? Oh! São vocês. Foi muito difícil achar a cidade? _ Teria sido mais fácil se tivesse dito que aqui era Sioux Falls. _ Mulder respondeu mal humorado. _ Desculpe, senhor. Nossa única distração aqui é brincar com as pessoas perdidas que tentam chegar a Omaha. Dificilmente alguém tem como destino nossa pequena cidade. Em que posso ajudá-los? Eles tiravam as insígnias do bolso e mostraram ao homem. _ Suponho que o senhor seja o delegado? _ Scully perguntou. _ Sim, senhora. Joe Smith _ O homem respondeu _ O que está acontecendo? _ O subdelegado Fletcher entrou em contato conosco. Pediu nossa ajuda no caso dos assassinatos de duas mulheres aqui na cidade. Os respectivos maridos sumiram após o evento e... _ Oh, meu Deus! Então foi isso! _ O quê? _ O Bob estava meio perturbado nos últimos dias. Ele sempre bebeu um pouco além da conta, mas ultimamente...A mulher dele morreu há um mês, mas de morte natural. Ele foi transferido para cá há pouco tempo e parece que eles não se adaptaram à nossa vida tranqüila. _ Disse que a mulher dele morreu...É uma dessas? _ Scully disse, mostrando as fotos para ele. O homem olhou-as por uns instantes. _ Não senhora. A Alice era morena e alta. _ Como ela morreu? _ Não sabemos ao certo. Ela tinha asma. Parece que teve uma crise e ele não estava em casa para ajudá-la: Só sabemos que morreu por problemas respiratórios. _ Foi feita autópsia? _ Sim senhora. O hospital tem os laudos. _ E essas mulheres, o senhor as conhece? _ Mulder perguntou. _ Essa era Beth _ o homem falou comovido _ Ela era uma bela jovem. Morreu no inicio do mês de insuficiência respiratória, foi encontrada morta. Parece que saiu sozinha, se perdeu na mata e ... Ela cantava no coral da igreja...Tinha tantos planos... A outra é a Lucy. Ela se afogou no lago... _ Foi acidental? _ Scully perguntou. _ Sim, claro. Era dia de festa na cidade. Estávamos num piquenique e acho que ela se excedeu na bebida. Foi nadar no lago e nós só percebemos o ocorrido na manhã seguinte porque ela não voltou. _ Três mulheres mortas de maneira tão parecida, é estranho não? _ Não vejo nada de estranho, senhor. A Beth nasceu e se criou aqui. Era uma jovem agradável e todos gostavam dela. Sempre teve uma saúde delicada. Alice já tinha problemas quando veio para cá e a Lucy foi uma fatalidade, então... Há alguma prova mostrando o contrário? _ E quanto aos maridos delas? _ O que têm eles? _ Estão desaparecidos e... _ À exceção do subdelegado Fletcher, que se suicidou, não há nenhum marido desaparecido. Eles estão bem, apesar de tudo. _ Bem? _ Mulder perguntou impressionado _ Poderia falar com eles? _ Com certeza, posso lhes dar o endereço. Mulder saiu de lá intrigado, não conseguindo se satisfazer com as explicações do delegado. _ Mulder, não há nada estranho. Apenas uma total perda de tempo. O subdelegado poderia estar embriagado, infeliz pela perda da mulher. Talvez em busca de alguma coisa interessante para fazer e começou a inventar estórias e acreditar nelas. Talvez não imaginasse que alguém lhe daria crédito. Scully olhava para ele com ironia, como quem pensa que só mesmo Mulder poderia acreditar num amontoado de besteiras dessa. _ Scully, o homem estava assustado. Disse que estavam fazendo coisas estranhas na cidade; que as mulheres foram mortas em rituais. Não se pode inventar tudo isso. _ Não se deve inventar, Mulder. Isso não quer dizer que não se possa... _ Você poderia pelo menos dar uma olhada no corpo do subdelegado Scully? Só pra ter certeza? Ela o fitou penalizada. _ Ok, Mulder. Eu posso vê-lo. NECROTÉRIO MUNICIPAL Scully ficou no necrotério da cidade para fazer a autópsia, enquanto Mulder visitava os viúvos. Uma enfermeira estava de plantão na sala de autópsia e pareceu não gostar da intromissão da agente. _ Não sei o que vocês estão procurando_ ela disse _ Ele só não foi enterrado porque há uma pessoa da família que virá buscá-lo para o enterro em Omaha, de onde ele veio. Não há nada errado aqui. Ele era um bêbado comum. Scully chateou-se com a falta de piedade da mulher e não respondeu nada. Apenas pediu para ficar sozinha. Examinou o corpo que estava bastante inchado. A bala atravessara a têmpora dele e a morte, com certeza, deveria ter sido instantânea . Após um cuidadoso exame da posição e da trajetória da bala, porém, ela pôde concluir que o homem havia morrido devido a um tiro, mas não dado por ele mesmo, até porque suas mãos não apresentavam qualquer vestígio de pólvora. RESIDÊNCIA DOS ADAMS Mulder chegou à casa de uma das vítimas. Aron, o marido de Beth, veio atendê-lo. Disse que ainda tinha a mente confusa e que não se recordava muito bem do que havia ocorrido nos dias que antecederam a morte da esposa, nem soube explicar porque só aparecera em casa um dia após o falecimento dela. O mesmo ocorreu com o Sr. Mattewson . Ele também não estava em casa quando a esposa faleceu. Lembrava-se apenas de ter ido ao piquenique e se recordar da mulher somente no dia seguinte. Embora eles também estranhassem essa falta de lembranças, tinham-na à conta do abalo causado pela morte das esposas tão novas ainda. Não havia nenhuma circunstância que os levasse a se tornar suspeitos, uma vez que, em ambos os casos, as mortes haviam sido tidas como naturais ou acidentais. Mulder voltou ao hospital e encontrou Scully . _ Alguma coisa? _ ele perguntou, entrando na sala. A enfermeira estava com ela e Scully apenas balançou a cabeça negativamente. _ E você? _ ela disse, fitando-o de uma forma que ele entendeu como não sendo propício falarem ali. _ Nada também _ respondeu e, dirigindo-se à enfermeira _ Há algum lugar onde possamos jantar nessa cidade? Na presença de Mulder, a mulher tornou-se mais gentil e cordata, sorrindo ao responder. _ Há a lanchonete do Mark,, próximo ao motel onde vocês estão... _ Lanchonete do Mark _ Mulder repetiu_ Parece que é o único lugar pra se comer aqui não é? A mulher saiu, passando por ele sorridente e sussurrando-lhe próximo ao ouvido. _ Se quiser jantar comigo, posso preparar algo especial. Mulder correu os olhos da mulher para a parceira que o olhava intrigada. _ Nós agradecemos, mas vamos até a lanchonete, obrigado. Scully, você vai demorar? Ela tirou o avental e as luvas e encaminhou-se para ele. _ O que ela queria? _ Nos convidar para jantar com ela _ Mulder respondeu sorrindo ironicamente. _ Nós? Os olhos dela voltaram-se para a porta, por onde a mulher havia saído e depois para Mulder novamente, que a encarou com ar inocente, encolhendo os ombros. Ela esboçou um sorriso. Afinal...ele havia ficado. Eles voltaram ao motel, tomaram banho e trocaram de roupas. Já havia escurecido quando chegaram ao restaurante. Jantaram tranqüilamente, mas algo parecia errado. As pessoas que passavam por eles os olhavam com uma certa hostilidade. Seria comum se estivessem curiosos sobre eles, mas a maneira como se portavam não evidenciava apenas curiosidade. _ Acho que estamos fazendo sucesso nesse fim de mundo, Scully _ Mulder brincou. _ Preciso falar com você, mas acho que aqui não é um bom lugar. Vá ao meu quarto depois, ok? _ Uau, Scully ! Isso é um convite? Ela fez exatamente a expressão de desdém que ele esperava e sorriu. _ Eu quero ir embora daqui o quanto antes. Por volta das onze horas, Mulder bateu na porta do quarto de Scully. Ela veio abrir, vestindo um conjunto escuro. Mulder, ao contrário, usava jeans e camiseta. _ Há algo aqui, Mulder _ ela começou assim que ele entrou. _ O que descobriu? _ Que o subdelegado foi assassinado. A posição da bala na têmpora indica claramente que ele não poderia ter atirado daquela forma. Além do mais, não havia vestígios de pólvora. _ Então ele deve ter descoberto algo.... _ Sim, mas o quê? _ Fui falar com o Sr. Adams e o Sr. Mattewson e há algo errado com eles também. Não se lembram ou não querem falar sobre os momentos que antecederam e precederam a morte das esposas. Dizem que não sabem o que aconteceu. Num dia, elas estavam lá e no outro, estavam mortas. _ Acha que permitiriam a exumação dos corpos? _ Podemos tent.. Nesse momento eles ficaram quietos. A mesma melodia da noite anterior começou a tocar, lúgubre e distante. Scully sentiu um arrepio percorrer a espinha, mas não disse nada. Foram até a janela e perceberam a claridade ao longe, vinda de dentro da mata. _ Scully ,isso pode estar relacionado com as mortes, não acha ? _ Quer sair agora para investigar? _ ela perguntou sobressaltada. _ Está com medo? _ ele riu. _ Claro que não, Mulder _ ela disse, encaminhando-se para a porta e pegando um agasalho sobre a cadeira. Saíram para a rua. Nenhum barulho era ouvido além do som ritmado da música. _ Não é estranho que ninguém se incomode com isso? _ ela perguntou. _ Muito estranho, Scully. Vamos pela mata. Eles entraram na floresta, guiados pela luz das tochas. Scully relutava em admitir, mas estava com medo, como se sentisse que havia algo de ruim pairando no ar. O local, que a princípio parecia perto, obrigou-os a entrar cada vez mais no interior da mata, mas eles estavam muito preocupados em chegar até lá para se preocuparem com a volta. Finalmente chegaram a uma clareira. Viram várias pessoas reunidas em volta de um grande círculo traçado no chão com símbolos cabalísticos. O som da música era produzido por alguns instrumentos manuseados por quatro homens. Eles ficaram apenas observando escondidos. Um homem destacava-se com sua veste azul. Dirigiu-se para o centro do círculo e começou a entoar um cântico estranho, sendo acompanhado pelas mulheres ao redor. Um homem foi trazido ao círculo, suas roupas substituídas pela túnica branca. O líder se aproximou, recitou algumas frases, fez gestos no ar com uma faca e Scully sobressaltou-se, imaginando que ele iria golpear o homem. Ela sentiu a mão de Mulder sobre seu braço, impedindo-a de reagir. _ Ele vai esfaqueá-lo, Mulder _ ela sussurrou indignada. _ Acho que não Scully _ ele respondeu _ Parece apenas um ritual de iniciação. Não podemos impedi-los, não existe lei contra pessoas vestirem-se de branco e cantar, embora essa música esteja me mando nos nervos. O líder abaixou a arma, aproximou-se de homem e selou-lhe os lábios com os dele. A música agora estava num ritmo frenético, perturbador. O homem permaneceu imóvel, enquanto o líder se afastava dele, sussurrando-lhe algo no ouvido, para depois sentenciar em voz alta. _ Traga-a até mim, selaremos o amor que os une . Ela será sua eternamente. Subitamente, todos ficaram quietos e, aos poucos, foram se dispersando pela mata, claramente terminando o ritual. Mulder e Scully permaneceram escondidos até que todos saíssem, encaminharam-se então até o circulo e averiguaram o local. Não parecia haver nada errado, mas quando Scully atingiu o centro do local, sentiu o coração apertar-se no peito, seus olhos foram guiados até uma mesa improvisada, parecendo um altar e ela assustou-se ao perceber a semelhança daquele altar com a imagem que vira em seu quarto no dia anterior. Um leito coberto de folhas e flores. Eles saíram de lá, só então percebendo que estavam perdidos, suas lanternas não iluminavam muito e, naquela escuridão, a mata parecia muito mais assustadora. _ E agora ? _ Scully perguntou irritada. _ Acho que teremos que esperar amanhecer, Scully. Podemos ficar aqui mesmo. Há até uma cama _ ele comentou irônico. _ Esse lugar me dá arrepios, Mulder. _ Foi apenas algum ritual religioso, Scully. Apesar de que, se aquele homem tentasse me beijar daquele jeito, nós teríamos ao menos um assassinato real para investigarmos _ Mulder falou, fazendo uma careta. Eles se acomodaram próximo ao circulo. Scully se recusou a deitar no leito de pedra, estava bastante mal-humorada. _ Que ótimo ! Suas idéias são fantásticas Mulder ! "Vamos ver o que vão fazer" e agora ? Estamos perdidos. Ninguém sabe que estamos aqui ! Viemos investigar um caso de um subdelegado alcoólatra. E eu estou aqui, nesse fim de mundo, cercada de insetos e animais e morrendo de frio _ ela praguejava, tentando se ajeitar sob uma árvore. _ Eu não posso fazer nada quanto aos insetos, Scully, mas se você parar de resmungar...eu posso aquece-la. Mulder parecia nunca perder o humor e isso a irritava mais ainda. Não respondeu, cerrou os olhos e encolheu-se mais abraçando os joelhos. O silêncio se estabeleceu por alguns minutos. Mulder a fitava de soslaio. Notou que o corpo dela estremecia às vezes e suspirou levantando-se e aproximando-se dela. Tirou o casaco de couro e ajoelhou-se, colocando-o nas costas dela. Scully levantou os olhos e puxou o casaco sobre os ombros. _ Obrigada _ murmurou sem jeito. Mulder sentou-se ao lado dela. _ Desculpe...Parece que não há nada mesmo aqui. Sinto ter te envolvido nisso. Não deveria ter te convencido a vir. _ Eu estaria resmungando do mesmo jeito se não tivesse me chamado _ ela sorriu _ Já teria vindo atrás de você, talvez mais irritada ainda. Ele retribuiu o sorriso e entendeu um dos braços. _ Venha aqui _ convidou-a _ Está frio, eu posso te aquecer. Ela aceitou a oferta, envolveu-se no abraço dele, respirando devagar...aspirando o cheiro dele timidamente, permaneceu quieta. _ Parece que estamos ficando peritos em nos perder nas matas, não é ? _ ele começou, puxando assunto. _ Até agora conseguimos nos sair bem _ela respondeu _ Espero que continuemos a ter sorte. _ Se eu não me perder sozinho...acho que realmente não me importo de estar aqui.O lugar é lindo, a companhia sempre agradável _ ele falou , mirando um ponto distante, evitando olha-la de frente_ Seria bom poder esquecer um pouco o mundo lá fora _ continuou, sentindo-a estremecer ligeiramente. Ele deslizou o braço sobre os ombros dela, para cima e para baixo, friccionando para aquece-la., enquanto a trazia para mais perto de si. Scully sentia o coração pulando na laringe, prestes a saltar pela boca. Queria ouvir aquilo, era bom demais ouvir, mas tinha medo, não havia como evitar, sentia um enorme medo de ir adiante no que ela sabia, seria profundo demais para haver volta. Fechou os olhos e continuou quieta, apenas se aconchegando mais no ombro dele. Mulder pareceu recordar-se de algo e um sorriso maroto formou-se em sua face. _ Eu ainda tenho a mesma teoria sobre a melhor forma de manter o calor do corpo num lugar desses _ ele falou com voz trêmula , abaixando a cabeça para tentar fitá-la e suspirou resignado. Ela permanecia com os olhos fechados. Ele dobrou um dos joelhos e manteve a outra perna esticada. Com o outro braço, trouxe-a para se recostar sobre sua perna acomodando-a em seu peito e envolvendo-a com os dois braços. Demorou-se no estudo dos traços de seu rosto e novamente suspirou, ajeitando a mexa de cabelo que caia sobre os olhos dela. _ Eu dispensaria o saco de dormir _ murmurou, apoiando o queixo na cabeça dela e fechando os olhos. Mulder acordou e Scully não estava a vista. Chamou por ela, apreensivo e viu-a surgir em meio às folhagens. _ Onde foi ? _ Procurar água, mas não encontrei nada por aqui. _ Temos que tentar achar o caminho de volta. Começaram a caminhar pela mata, tentando se lembrar do caminho que tinham feito, mas quanto mais caminhavam, mais pareciam se embrenhar mata adentro. _ Não estamos saindo, Mulder. Estamos entrando cada vez mais na mata. _ Schhii _ Mulder cochichou _ Ouça Ela ficou em silêncio e prestou atenção. _ Água? _ falou após um tempo. _ Devemos estar perto de algum rio. Se chegarmos lá, será mais fácil nos localizarmos. Vamos. Mas encontraram apenas uma fonte. Beberam e seguiram adiante. Deveria haver algum riacho próximo. Scully quase não conseguia mais caminhar, mas seguia ao lado dele. Após quase uma hora chegaram às margens de um estreito riacho. _ Mulder _ Scully murmurou, sentando-se numa pedra _ Eu não posso mais. Estou exausta. Preciso descansar. Estou sentindo meu corpo em brasas. Ele parou e fitou-a. Scully estava pálida, a respiração acelerada. Seria injusto pedir que continuasse. Se ele estava cansado, podia imaginar a situação dela. Apenas não poderiam passar outra noite naquele lugar. Não sem algum abrigo sobre eles. Mulder abaixou-se na margem do rio. Lavou o rosto na água fria e uma sensação de alivio percorreu seu corpo. Olhou para ela, sentada na margem, molhando um lenço na água e refrescando as faces. Ele sorriu. Até numa situação extrema como aquela, Scully sabia ser comedida. Ele tirou as botas, a camisa e entrou na água, caminhando até o meio do riacho, sentindo a água penetrar nas pernas através da calça. _ Venha, Scully. Isso vai ajudá-la a recuperar as forças. _ Essa água está gelada, Mulder. _ Não está não _ ele sorriu _ Está ótima. Vamos lá! Vai te fazer bem. À vontade de entrar era grande. A sensação da água fria sobre a pele, naquele calor e cansaço enormes que ela estava sentindo, cairia como um bálsamo. Mas como entrar ali e depois caminhar com as roupas molhadas pela mata? De repente uma idéia brotou em sua mente. Por que não fazer o mesmo que ele? Eram parceiros há um longo tempo, amigos sinceros. Já haviam passado por situações de maior exposição do que aquela e, pelo amor de Deus, era apenas Mulder e a água! E, desta vez, foi ele a se surpreender com a atitude dela que, livrando-se da camisa, dos sapatos e da calça, entrou na água em direção a ele, com um incrível sorriso desafiador dançando nos lábios, enquanto os olhos escondiam um brilho tímido e acanhado. Ele apenas a observava, embevecida. Era linda, sem dúvida e surpreendente. Sorriu estendendo as mãos para ela. _ Você mentiu, Mulder _ ela resmungava para desviar a atenção dos olhos dele que estavam fixos em seu corpo, cuja pele arrepiava-se devido ao frio _ Está gelada demais. _ Eu não podia imaginar que você se despiria para entrar aqui, Scully _ ele brincou, mas o tremor da voz e na mão que ela tocou ao se aproximar dele, desmentia a falsa tranqüilidade que ele aparentava e isso causou uma agradável sensação para ela, que sentiu o sangue correr mais acelerado pelas veias, aquecendo imediatamente seu corpo. _ Não acha que eu colocaria aquelas roupas molhadas depois, não é? _ ela falou, tentando mostrar-se indiferente. Por mais que se esforçasse para manter os olhos acima da linha dos ombros dela, era impossível para ele não tomar consciência de todo o resto que se estendia além daquele ponto. Era a mulher que ele amava, tinha certeza. Sozinha, com ele, onde ninguém poderia repreendê-los ou vigia-los, surpreende-los ou interrompê-los e...O que era aquilo? Ela estava quase nua! Claro que ele ainda acreditava no caso que estavam investigando, havia algo errado, mas, desde que chegaram àquela cidade, o clima entre eles estava mais tenso. Pela segunda vez ela havia estado nos braços dele e Mulder ainda se lembrava nitidamente das sensações que sentira, além disso, o lugar era maravilhoso e...ela estava quase nua. Ele não conseguia afastar esse pensamento de sua mente. A cada palavra pensada ou falada, ele surgia com maior força e urgência... Ela estava quase nua. Mulder chamou-se à responsabilidade e ao respeito. Que diabos! Era Scully. Ele já a vira nua e não reagira assim. Mas seu demônio interior continuava sussurrando aquele pensamento em sua mente, como um mantra, um refrão de um hino sacro, melodioso e hipnótico. E essa mensagem subliminar não permitia que ele conseguisse coordenar frases coerentes sem que voltasse novamente à mente: ela estava quase nua. É certo que não podia distinguir nada por trás da lingerie negra. Aliás, por que ela havia colocado aquele lingerie durante o dia? Só então se lembrou que eles haviam saído durante a noite; que ela estava vestida completamente de preto quando saiu do quarto, talvez para se camuflar na mata, apesar do destaque que a vestimenta dava à pele branca e os cabelos avermelhados. Não...Não era isso. Ela já estava trajada daquela maneira quando eles foram jantar...completamente negra. A lingerie era extremamente apropriada. ¨Chega, Mulder! _ ele pensava_ O que está fazendo? Não seja um pervertido. Ela não é uma daquelas mulheres de suas malditas fitas e...Deus! _ ele suspirou_ Esse é o problema...ela não está num vídeo. Ela é minha parceira, companheira, amiga de todas as maneiras. É minha confidente e é real, incrivelmente real e, ao mesmo tempo, minha maior fantasia. _ Mulder? _ Scully estava assustadoramente próxima a ele, os olhos aflitos e curiosos voltados para sua face e ele sobressaltou- se_ Algum problema? _ Não...não... _ ele gaguejou. _ O que faremos agora? ¨Antes de você entrar nesse rio... desse jeito... eu sabia exatamente o que iria fazer, Scully _ Mulder divagava novamente_ Mas, agora, eu sei apenas o que eu quero fazer, mas ainda não sei se devo.¨ _ Eu..._ Mulder respirou fundo, buscando fixar os olhos e o pensamento num ponto distante daquela mulher _ Acho que...se seguirmos o curso do rio , devemos chegar a alguma vila, ou fazenda, ou algo assim. _ É, tem razão _ Scully disse, afastando-se dele e mergulhando de cabeça na água para ressurgir em seguida. Mulder manteve-se no mesmo local, chumbado ao solo pelo poder daquela imagem. Apenas sua mente trabalhava incessante quando ela voltou para junto dele. Os cabelos colados ao pescoço, a água formando um escoadouro que escorregava pela pele, circulava os cílios, brilhantes pelo reflexo da luz, deslizava pelas maças do rosto, escondia-se junto ao pescoço , brincava pelos ossos salientes da clavícula e, ele se esforçava para não ir adiante, mas ele sabia que ela desembocaria no macio vale entre o busto. E para completar sua tortura, ela ainda sorria feito uma menina. _ Não vai mergulhar? _ dizia com uma voz que ele já classificava como falsa inocência, porque não era possível que ela não soubesse o que estava fazendo com ele naquele momento_ Devia ter tirado essa calça, Mulder. Vai ser horrível caminhar nessa mata com as roupas molhadas. _ Eu estou bem _ ele apressou-se em dizer. Já estava sendo um sacrifício não deixar que ela percebesse como seu corpo estava reagindo diante daquela visão. Imaginava como seria se estivesse protegido apenas pelo fino tecido de cetim de suas boxers. Mas Scully notou o constrangimento dele e achou por bem sair dali. Há algum tempo que eles brincavam desse jogo de sedução...meias palavras...duplo sentido...toques prolongados...olhares intensos. Não era justo o que estava fazendo, apesar de se sentir extremamente feliz com a situação. Ela caminhou em direção à margem e sentou-se sobre uma pedra. Mulder a seguiu com os olhos enquanto ela caminhava e não conseguia proibir sua mente de tecer fantasias. Subitamente, virou-se de costas para ela e mergulhou na água. Ao retornar, sentiu alivio apenas momentâneo quando divisou, através dos olhos embaçados pela água , a silhueta de Scully em contato com os raios do sol. Ela toda brilhava, estendida sobre a vegetação. ¨Isso, Scully_ ele resmungava consigo mesmo _ Mas não me culpe se de repente eu agir como o animal que eu estou me sentindo e te atacar sem piedade. Meus Deus! Cadê os nativos dessa terra? Os fantasmas de ontem à noite...Os aliens...O Canceroso? Maldição! Onde estão todos eles quando se precisa ? "". Mas ele não podia continuar ali. Do jeito que sentia seu sangue ferver nas veias, em breve a água estaria borbulhando e a explicação que ele teria para dar sobre o fenômeno não seria de maneira alguma sobrenatural ou extraterrestre. Ao contrário: dessa vez, ele tinha provas irrefutáveis de que o que estava acontecendo era absolutamente humano, mas provavelmente ela não seria tão receptiva, quando, numa das poucas vezes ele concordasse que havia uma explicação bastante científica para o fenômeno. Seguiu até a margem, virou-se de costas e sentou-se sobre uma pedra. Permaneceram assim por alguns minutos. Scully tinha completa ciência de que ele estava ali. Não abrira os olhos, mas podia sentir os dele pousados sobre ela, ainda que somente em pensamentos. Isso não poderia estar acontecendo _ ela dizia para si mesma _ Não poderíamos estar nos sentindo atraídos dessa forma. Somos parceiros, que droga! Mas tem sido impossível não notar o clima quase sólido que nos tem envolvido. Por que eu faço isso? Por que sempre tenho que me apaixonar pelo homem errado? Mas...bem...Mulder não é exatamente o homem errado, ao contrario, ele é perfeito. Ela abriu os olhos e passou a fitá-lo de costas, seus pensamentos voando como as nuvens ao vento. "Mulder... Perfeito nas curvas musculosas dos ombros e dos braços que tantas vezes já me ampararam; lindo, no seu sorriso de criança que descobre o mundo; sutil, em sua maneira casual e pretensiosa de andar, como se nada nem ninguém pudessem atingi-lo; gentil, em seu tom de voz sussurrada que me desequilibra e estreme-se; soberbo, na forma intensa de expor uma teoria; incrível, na maneira de se comunicar somente através do olhar, olhar que eu conheço e distingo em qualquer circunstância: na maneira gélida ou cheia de significados de demonstrar seus sentimentos; encantador em se fazer apaixonar, sem parecer se dar conta do quão poderosa é a sua alma irrequieta e ardorosa, capaz de despertar ódios e paixões sem limites... Feliz ou infelizmente, eu não pude sair ilesa desse contato." _ Agora são quase onze horas, Scully _ ele interrompeu abruptamente os pensamentos dela, falando sem se voltar _ Acho que seria besteira tentarmos caminhar . O sol está muito forte e nos cansaríamos mais rápido. _ Acha seguro permanecermos aqui, Mulder? _ ela não sabia se estava preocupada com as visões da noite anterior ou com a que tinha agora sob suas vistas: o dorso nu de Mulder esbatido pelos raios luminosos do sol. _ Não _ ele respondia com os mesmos pensamentos que ela, temeroso em voltar-se para fitá-la e denunciar, através do olhar, o desejo que suas palavras encobriam _ Não sei se é seguro, mas não temos muitas opções. Acredite em mim _ ele disse, respirando fundo e tomando coragem para virar-se e fitá-la _ Eu fui escoteiro, lembra? Aprendemos que caminhar num sol desses pode nos prejudicar mais do que ajudar. Ela se sentou sobre a blusa e tentou dar ordem aos pensamentos. _ O que acha que era aquilo? _ Parecia algum ritual de magia, algum culto exótico. _ Ele falou em levar uma mulher até lá. Em selar um pacto de amor eterno. Acha que farão algum sacrifício ? _ Sacrificar a pessoa que se ama agora, para viver com ela eternamente? Isso é loucura. _ Sim é _ ela respondeu distraída _ Mas havia algo errado com aquele homem. _ Talvez estivesse sob o efeito de algum transe hipnótico. Mas realmente é estranho, sobretudo aquele beijo. Argh ! _ ele comentou debochado. _ Acredita nisso? _ Em quê _ ele virou-se para encará-la, enquanto ela se sentava ao lado dele _ Naquele beijo ? _ Amor eterno ...sacrifícios por amor... Mulder engoliu em seco. Não tinha resposta para aquela pergunta, mas sabia que faria qualquer sacrifício para mantê-la junto a ele, por quanto tempo fosse possível e tinha a mais clara convicção de que nunca havia se sentido assim e que para ele aquilo seria eterno. _ Acredito que se possa amar tanto alguém que isso se torne eterno, durante o período de vida que temos. Mas acho que se pode sacrificar- se por esse amor e não sacrificá-lo, quer dizer, não se pode sacrificar alguém que se ame, dizendo que viverão eternamente juntos. _ Já se sentiu assim? A pergunta pulou dos lábios dela sem que percebesse. Não tinha idéia do que perguntava, mas queria desesperadamente ouvir a resposta. Por um instante de insanidade, uma brecha em sua racionalidade, ela arriscou alto. Apenas queria saber. Mulder limitou-se a fitá-la, devassando-a com os olhos. "O que você quer ouvir, Scully ? Não pode querer que eu me entregue de pés e mãos atados pra você e depois simplesmente ignorar o que pediu..O que eu posso te dizer sem me entregar completamente?" Mulder deitou-se sobre a vegetação, sentindo o contato úmido da terra sobre a pele já seca. Colocou a mão sobre o rosto a fim de filtrar os raios de sol e perguntou-lhe à queima roupa: _ O que quer saber exatamente, Scully? Sabe o que está perguntando, não? Ela colocou-se ao lado dele, apoiando-se no cotovelo e repousando o rosto na mão. _ Sei _ ela murmurou. "Isso Scully, arrisque _ uma voz dizia dentro dele _ Torne isso real. Faça acontecer. Eu estou desesperado para saber o que você quer. Estou farto desse jogo de meias palavras, de frases formuladas em pensamento e alteradas pelo senso de responsabilidade, pelo crivo da racionalidade. Apenas me diga que posso seguir sem assustá-la demais com o que sinto, sem assustá-la tanto quanto eu me sinto assustado com isso." Mas ela não cedeu: recolheu novamente as armas e desviou o olhar, sussurrando de maneira distante. _ Não precisa dizer. Foi bobagem, curiosidade, não sei. Não acredito que pudesse ser real. Desculpe se te constrangi. Mulder soltou um longo suspiro e sem responder, apenas tomou a mão livre dela e colocou em seu peito, fazendo-a sentir a pulsação acelerada de seu coração. Algo ocorreu, no entanto. Talvez embalada pela batida ritmada do coração dele; talvez lendo em seus olhos o que aquele gesto significava. Além de todas as possibilidades, contrariando qualquer lógica ou racionalidade que ele pudesse imaginar. Quem sabe, talvez por uma abençoada interferência divina, que assoprasse para longe todos os temores e reservas dela? Não importa qual a motivação. O fato é que ele viu que ela se inclinava e depositava, em seus lábios, um beijo tão suave quando quente, mas que teve o dom de suspender as batidas em seu peito, para depois explodir num carnaval de sensações. E ela não parou, debruçou-se ainda mais, encostando o tronco quase nu sobre o dele, enquanto aprofundava o beijo, deixando sua língua escorregar para dentro dos lábios dele. Mulder ficou atônito apenas por um milésimo de segundo. No instante seguinte, estava com as mãos nas costas dela, pressionando-a de encontro ao seu peito. O beijo foi interrompido pelo som de latidos próximos. Alguém se aproximava. Scully levantou-se a contragosto. Estendendo a mão, cobriu-se com a blusa e pôs-se de pé para vestir a calça. Mulder a imitou, vendo que o delegado se aproximava segurando um cachorro. _ Nem em sonhos acredite que isso termina aqui, Scully. Minha memória já registrou cada detalhe, então...não imagine que ... _ Mulder murmurou no ouvido dela. Ela apenas fitou-o com um pequeno sorriso formando-se no canto da boca. _ O que fazem aqui? _ o homem interrompeu _ Saímos pra dar uma volta e nos perdemos _ ironizou Mulder _ Como nos encontrou ? _ Passei no hotel para falar com vocês e o recepcionista disse que os viu saindo à noite, com lanternas. O resto eu pude concluir. O que procuravam ? _ Alguma pista sobre esses assassinatos. O senhor tem conhecimento de algum culto realizado nessas matas ? _ Culto ? _ o delegado repetiu, arqueando a sobrancelha. _ Sim, vimos uma espécie de ritual aqui na mata ontem _ completou Scully. _ Não sei de nada sobre isso. Acha que tem algo a ver com os casos ? _ Não sei, só que... _ Não temos o hábito de sair atrás das pessoas para ver o que fazem durante a noite, a menos que seja ilegal. _ interrompeu o homem irritado _ Querem sair daqui, ou pretendem virar a nova versão do Tarzan e da Jane ? _ concluiu com ironia. Eles trocaram um olhar e balançaram a cabeça, seguindo o delegado. _ Ele sabe de algo _ Mulder sussurrou no ouvido de Scully, enquanto caminhavam até a viatura de polícia. Mulder e Scully voltaram para a cidade, estavam cansados, mesmo assim, interrogaram novamente os maridos das vítimas. O delegado levou-os para conhecer os locais onde foram achados os corpos, mas também não encontraram nada significativo, apenas um pedaço de tecido branco, próximo ao local onde o corpo de uma das mulheres foi encontrado. Já era noite quando seguiram para seus quartos, desabando sobre a cama. De certa forma, ambos estavam agradecidos pelo trabalho extra e o cansaço que os impediam de pensar sobre o ocorrido na mata. Algumas horas mais tarde, Scully voltou a ouvir a estranha melodia. Antes de se levantar ouviu as batidas na porta e deu com Mulder, vestido com jeans e camiseta. _ Scully, arrume-se, por favor. Posso apostar que esse tecido vem de uma daquelas túnicas _ disse apontando a mata. Saíram novamente, ocultando-se nas folhas para assistir ao ritual. Do meio da mata foi trazida uma mulher. Ela mantinha os olhos muito abertos. Seguindo ao lado de um homem, que eles reconheceram como o mesmo da noite anterior. Tinha o olhar distante quando foi colocada no centro do círculo, parecendo alheia a tudo. Scully queria interferir, mas Mulder a impediu. _ Vamos ver o que eles farão, Scully _ ele sussurrou no ouvido dela. _ Eles irão matá-la, Mulder _ ela cochichou indignada. _ Ainda não podemos, se for o mesmo que aconteceu na noite passada, não há nada ilegal quanto a isso _ ele cortou incisivo _ Espere mais um minuto. O líder aproximou-se da mulher e colocou a mão sobre sua testa. Ela aprumou-se instantaneamente. O homem que a trouxera entrou no círculo, aproximou-se e acariciou-lhe a face. _ Agora te entrego a ele para que possamos estar juntos eternamente _ ele falava, agarrando a roupa dela e a despindo num só golpe. Depois pegou um estilete, dobrou o braço e fez uma pequena inserção no próprio pulso. O sangue jorrou lentamente. Em seguida, tomou o braço dela e fez o mesmo. O líder uniu, então os dois cortes e começou a recitar um texto ritmado. Scully olhava estarrecida para o espetáculo. Mulder mantinha- se silencioso ao lado dela, ainda com a mão sobre seu braço. A mulher foi deitada sobre um leito de pedra no alto do círculo e então o homem foi afastado e seguro por outros ao lado dele. Algo mais estranho se passava agora. O homem começava a gritar o nome da mulher. _ Susan, acorde! _ ele berrava _ O que estão fazendo? Por que ela está despida? Soltem-na! O que vão fazer? Mas parecia tarde. O líder debruçou-se sobre a mulher e a beijou com sofreguidão. Parecia um culto bizarro, mas então a mulher começou a debater-se e os agentes não esperaram. O que a principio parecia ter sido feito com o consentimento dos dois envolvidos, ficava claro que era conseguido através de algum artifício, porque eles pareciam sair de um transe. As pessoas ao redor começaram a cantar e gritar histericamente enquanto a mulher se contorcia. O homem parecia chumbado ao solo e repetia apenas pedidos de desculpa, num lamento desesperado. Mulder entrou no local gritando, ordenando que o líder se afastasse da mulher, mas ele parecia surdo a qualquer coisa, assim como todos ao redor. Scully atirou pra cima e as atenções voltaram-se para eles. O líder tinha os olhos estranhos, amarelados e sua expressão era horrível de se ver quando se dirigiu a eles. A mulher não mais se debatia e, ao sinal do homem, algumas pessoas começaram a se aproximar deles. Alguém segurou o pulso de Scully antes que ela atirasse e Mulder disparou contra ele, mas, estranhamente sua arma não funcionou. Ele pulou sobre o homem, soltando Scully e eles viram nos olhos daquelas pessoas a mesma expressão assustadora do líder. Mulder segurou Scully pela mão e saíram correndo pela mata. Ela quase voava atrás dele, as folhas machucando seu rosto enquanto tentava manter-se em pé. Viam apenas as tochas iluminadas, seguindo atrás deles. _ Scully, corra! _ Mulder gritava Eles sentiam os passos atrás deles, enquanto a gargalhada sinistra, assim como as palavras de ordem do homem, os seguiam por todos os lados. _ Eu a quero! _ eles ouviam o som ecoando no ar _ Tragam-na pra mim! Ela será minha...finalmente! Mulder entendia que aquelas palavras eram dirigidas à figura da parceira e imaginar que ela poderia passar pelo mesmo que a mulher sobre a laje de pedra o deixava apavorado. Instintivamente, sabia que a mulher já estava morta quando invadiram o local. Uma corrida alucinante travou-se por alguns minutos. O coração acelerado...Os sentidos alterados...Todas as ações coordenando-se numa só idéia : saírem dali... vivos. Num desvio da pequena trilha, Mulder perdeu o equilíbrio e ambos tombaram pela encosta. Os gritos surgiam atrás deles cada vez mais altos e distintos e, antes que pudessem se reequilibrar novamente, foram interceptados pelas apavorantes visões daquelas pessoas que fechavam o círculo ao redor deles. Mulder cobriu Scully com seu corpo, mas foi tomado por um estranho torpor e tudo escureceu. FLORESTA ESTADUAL Os raios do sol eram filtrados pelas folhas das imensas árvores de troncos irregulares. O chão estava úmido pelo orvalho que se acumulara durante a noite. Podia-se notar o corpo de um homem deitado de bruços. Suas roupas estavam sujas e ligeiramente rasgadas. Parecia completamente desacordado, mas quando um raio de luz incidiu sobre aquela bela face pálida, ele estremeceu ligeiramente. Abriu os olhos e, após alguns segundos, apoiou-se em um dos cotovelos para se levantar.Um suspiro de alívio brotou de seus lábios: um exame mais atento daquela cena o deixou perceber que não estava só. Sob seu corpo, quase totalmente coberto por ele, estava a parceira, ainda sem sentidos. Ele a fitou por um momento, antes de levar a mão até sua face, afastando os cabelos que teimavam em cair sobre os olhos. _ Scully? _ ele murmurou junto ao ouvido, tirando o peso do corpo de sobre ela. Scully abriu os olhos e o fitou assustada, sentando-se imediatamente. _ Calma, está tudo bem _ ele dizia junto a ela_ Como está se sentindo? Scully colocou o rosto entre as mãos. Sentiu as pontadas de dor causadas pelos arranhões e pelo longo tempo em que tivera o corpo de Mulder sobre si. _ Eu estou bem Mulder...Quer dizer..Eu acho. Meu corpo está moído. O que aconteceu? Foi real, não foi? Aquelas pessoas... _ Eu vi o mesmo que você, Scully. Não sei o que aconteceu depois. _ A mulher...deve estar por aqui...Precisamos fazer uma busca e.. _ Não sabemos onde estamos, Scully. Corremos feito loucos pela mata.Não sei nem se conseguiremos voltar ao motel_ ele disse, levantando-se e estendendo as mãos para ela. _ O que era aquilo, Mulder? Por que estão sacrificando aquelas mulheres? O que está acontecendo aqui? _ Eu tenho as mesmas perguntas que você, parceira. Mas agora, precisamos sair daqui. Ouviram um ruído e ficaram em silêncio, vendo um homem aproximar-se deles. _ Quem é você ? _ perguntou Mulder _ O que fazem aqui ? _ o homem cortou. _ Estamos perdidos, senhor..._ respondeu Scully _ Sei _ o homem retrucou desconfiado. _ Somos agentes do FBI _ completou Scully, tirando a insígnia de dentro do bolso _ Estamos investigando um caso de assassinato. _ Não vão descobrir nada. É melhor irem embora daqui o quanto antes _ o homem respondeu apressado e virou-lhes as costas. _ Espere! _ Mulder segurou-o pelo braço _ Sabe de alguma coisa? Viu alguma coisa? Se souber, seria bom se nos ajudasse. O homem parou, relutante. Fixou demoradamente o semblante de Scully e um brilho emotivo surgiu em seus olhos antes de falar: _ Venham comigo. Mulder e Scully seguiram o homem até uma cabana tosca, próxima ao riacho. Eles sentaram-se em volta da mesa e o homem lhes ofereceu uma bebida que foi aceita de bom grado. _ O senhor sabe ou viu alguma coisa sobre essas mortes? _ Vocês são da cidade. Provavelmente não estão acostumados com as coisas estranhas que acontecem por aí. Não sei se vão acreditar. O homem beirava os sessenta anos. Tinha a pele lisa e dura, castigada pelo sol que a havia escurecido consideravelmente. Seus olhos eram amendoados, à semelhança dos índios que habitaram aquela região há muito tempo atrás. Sua altura também era bastante invulgar, assim como o porte atlético e rígido de seu corpo que disfarçava muito bem a idade, que se fazia notar apenas pelos vastos cabelos grisalhos. _ Ficaria impressionado com a nossa capacidade de acreditar nas coisas _ respondeu Mulder, sorrindo. O homem sorveu o resto da bebida e começou a falar mansamente, como se o som de suas palavras tivesse o poder de fazê-lo retornar ao passado. _ Há muitos anos, quando os meus antepassados habitavam essas paragens, havia um guerreiro chamado Aykatan. Ele era um homem poderoso, mas muito perverso. Pertencia à tribo Sioux e sua lei era a dominação. Em todas as aldeias que ele passava, deixava um rastro de destruição, violência e ódio. _ O que isso tem a ver com as mortes? _ Scully interrompeu. _ Havia uma mulher, da tribo dos Cherokees. Ela era linda como a manhã e forte como a tempestade. Seus cabelos de fogo eram cultuados na aldeia e todos diziam que ela era a filha do Deus Sol e enviada para prover a nação Cherokee. Ela era fruto de um sentimento profundo que uniu uma imigrante irlandesa e um índio. Mas se na aparência ela se assemelhava em tudo à mãe, desde a pele alva, os cabelos vermelhos e os olhos de um azul profundo e brilhante, em suas veias corria o sangue orgulhoso e obstinado de sua raça paterna. O homem suspirou antes de continuar. _ O odioso guerreiro a encontrou uma vez, a primeira em que seus olhos se cruzaram. Foi num dia terrível para ela, quando toda a sua família havia sido dizimada pelos próprios homens de Aykatan. Ele não participara da execução dos membros da tribo, como era seu costume. Na verdade, estava perdido na contemplação da beleza exuberante daquela mulher e, quando deu acordo de si, percebendo que era a família dela que tombava nas mãos de seus subordinados, tão ou mais brutos do que ele próprio, já era tarde demais. Ele não deixou que a tocassem, mesmo quando ela, em meio ao desespero, apoderou-se de uma faca e abateu um de seus homens. Travaram uma verdadeira batalha para dominá-la. Aykatan nunca mais viu o colorido sereno dos olhos dela. O azul que refletia a calmaria do oceano, agora havia se transformado num tom violáceo, quase negro, única testemunha da tempestade que rugia dentro dela. Ele a manteve cativa por quase cinco anos, mas ela jamais pronunciou uma única palavra desde então. Ela comia, bebia, dormia, mas parecia ter morrido. Apenas o brilho de seus olhos dava conta dos sentimentos que a possuíam. O grande Aykatan fez de tudo para se aproximar dela: vociferou, agrediu, falou manso, contemporizou, deu-lhe presentes....tudo inútil. Ela não se dignava fitá-lo e, quando o fazia, ele sentia-se estremecer pelo ódio visto ali refletido. Ela foi a ruína dele. Seus homens diziam que ele estava enfeitiçado, que ela deveria ser bruxa na nação de onde viera e intentaram matá-la. Aykatan descobriu a trama e, durante a noite, munido apenas de uma faca e uma tocha, fugiu com ela para as matas, com seus próprios homens a persegui-lo. Mas eles conseguiram escapar, chegando a essas paragens, onde se acomodaram Mali, a mulher de cabelos de fogo, nunca deixou que ele se aproximasse, que a tocasse ou falasse com ela. Estranhamente, Aykatan aceitava tudo. Parecia estar realmente tocado pela chama ardente da paixão, e se esforçava de verdade para agradá- la: modificou seus hábitos, serenou seus ânimos. Sua paciência era largamente admirada por aqueles que não lhe conheciam o passado e julgavam a bela mulher como uma alma perversa que fazia sofrer um homem justo. Mali, porém, jamais cedeu. Mesmo assim, nunca tentara fugir e isso dava ao homem alguma esperança de, um dia, vir a ser aceito por ela. Apareceu, contudo, um outro homem na pequena vila. Colono europeu, de bela aparência, encantou-se com a mulher que, malgrado seus esforços de se manter obscura, despertava desejos e sentimentos tão infelizes quanto intensos. O colono cercou-a de gentilezas e ela permaneceu indiferente. Meses depois, tomado pela loucura gerada com a indiferença dela e movido pelos mesquinhos pensamentos de cobiça e paixão, o homem a abordou em sua própria casa. Não entendia o mutismo a que ela se entregava, uma vez que, já a vira conversar com as crianças e mulheres da aldeia. Tentou de todas as maneiras convencê-la a abandonar Aykatan, sugerindo-lhe sonhos venturosos para o futuro deles. Mali apenas mantinha-se em silêncio e o colono perdeu completamente a razão. Investiu sobre ela e a agarrou, tencionando beijá-la. A mulher não emitiu um só gemido, apesar dos esforços que fazia para se livrar de seu contato. Era um homem imenso, tendo sua força multiplicada pelo desejo. Não passara despercebido a Aykatan o interesse do colono e em sua cegueira, pareceu ver que Mali lhe correspondia o intento. Chegando a casa, viu aquela triste cena em sua frente e tudo se tornou escuro como a noite. Avançou para o homem que, em poucos minutos, jazia inerte no chão. Desnorteado, acreditou haver cumplicidade da mulher, uma vez que raros eram os que tinham coragem de aproximar-se de sua casa, seja pela pouca receptividade de Mali, ou pela extremada reserva dele. Aproximou-se dela como uma fera, completamente transtornado, e viu seus olhos brilharem emotivos, a cor azulada reaparecendo por um momento. Aykatan imaginou que essa transformação fosse devida à visão do amante e seu sofrimento chegou ao extremo. Pela primeira vez, em mais de cinco anos, Mali dirigiu-se a ele, mas Aykatan não se achava em condições de ouvi-la. Tomado por um ciúme insano, esbofeteou- a sem comiseração. Mali amaldiçoou-o naquela hora e suas palavras cravaram- se no peito dele como uma sentença. Ela dizia que ele jamais teria paz e que seu espírito permaneceria cativo, sem consolo, sem amor até que ele lhe implorasse perdão, e ela nunca o daria. Enlouquecido, ele puxou-a pelo braço e fez um corte, juntando o sangue dela ao do homem morto, amaldiçoando-a de igual maneira, dizendo que ela era a mais linda e impiedosa mulher que conhecera e que o castigo dela seria nunca poder ficar com o homem amado; que em todos eles, ela o veria. Após isso, ele agarrou-a e beijou-lhe os lábios, mas estranhamente, parece que o Sol compadeceu-se de sua filha e ela expirou imediatamente após o beijo, deixando-o tão desesperado que sumiu pelas matas e jamais foi encontrado. O homem silenciou, parecia se perder em divagações. Os agentes se fitaram. Mulder com os olhos brilhantes de interesse, enquanto Scully mostrava um ar irritado. _ É uma estória e tanto senhor, mas não entendi qual é a ligação _ ela falou, dirigindo-se ao homem _ Ele está de volta. Não percebem? Ele revive seu drama através desses casais desafortunados... _ Mas...como pode ser ? _ Scully como sempre continuava cética. _ De alguma maneira, ele possuiu o espírito do líder de nossa comunidade, o Pastor Smith. Ele era um homem impetuoso e determinado, possui enorme carisma e tem conseguido atrair os moradores do local que parecem render-lhe um estranho louvor. Acredito que ele tenha encontrado os restos de Aykatan e o feito renascer através de sua magia. Ele é um homem temerário. Conhece os preceitos do poder oculto aos homens comuns. _ Então deveríamos prendê-lo _ Mulder interrompeu. _ Não conseguirão fazer isso. Viram o que aconteceu ao subdelegado. _ Como o senhor sabe de tudo isso? _ As pessoas não ligam muito para o que um velho pensa ou diz, minha cara. Minhas raízes começaram na época em que Aykatan e Mali ainda eram vivos e essa estória tem sido passada através das gerações. Sempre esperamos a hora em que eles retornariam. Parece que é o tempo de reajuste, mas, infelizmente, essa oportunidade caiu em mãos erradas. _ Acha que os espíritos de Aykatan e Mali estão de volta? Que ele tomou o espírito do Pastor? E onde está a mulher? _ Mulder parecia cada vez mais empolgado. _ É em busca dela que ele está. Todas essas mulheres mortas....ele precisa do perdão dela. _ Mas para isso mata quem atravessa seu caminho. _ Scully cortou aborrecida. _ Não percebe? Elas não o querem. Mali as afasta dele. Prefere matá- las a deixar que ele as possua. _ Senhor? O que podemos fazer para acabar com isso? _ Mulder interrogou. _ Encontrem Mali e convençam-na a perdoá-lo. Scully levantou-se. Estava irritada com tanta bobagem, mas não queria se indispor com o homem por causa de suas crendices. Já sabiam quem era o responsável pela morte. Estando ou não possuído, o Pastor Smith cometera os crimes com a ajuda das pessoas da cidade e principalmente dos maridos delas. _ Pode nos dizer como chegar até a cidade? _ Eu os deixo lá. Entraram na caminhonete do homem e seguiram todo o caminho em silêncio. Ao parar em frente ao hotel, Mulder desceu primeiro e, antes que Scully fizesse o mesmo, o homem a puxou pelo braço, depositando algo em sua mão e sussurrando em seu ouvido. _ Não se separe disso. Leve-o com você até que o perigo tenha passado. Era da minha filha e, por favor, faça com que ela o perdoe. Scully não entendeu, mas guardou o embrulho no bolso e saiu do carro. _ Acreditou nessas estórias, Mulder? _ Scully perguntou ao parar em frente à porta do quarto. _ Você não? Scully revirou os olhos. _ Vou tomar um banho. Depois vamos encontrar o Pastor Smith e terminar com isso, ok? _ Acha que conseguiremos prendê-lo? Lembra-se do que o homem disse? _ Sim, eu me lembro e acho que ele é tão louco quanto o homem que lhe pediu para vir até aqui. Eu não sei porque o Pastor Smith faz isso, mas não acho que ele esteja possuído pelo espírito de quem quer que seja. _ E essas pessoas que o seguem? Vai prender a cidade inteira, Scully ? _ Escuta Mulder, eu não sei como ele faz isso. Talvez essas pessoas estejam sendo submetidas a algum tipo de transe hipnótico e, nesse caso, são tão vitimas quanto as mulheres mortas, mas precisamos investigar e punir os culpados e não sair atrás de um casal morto há anos e que, mesmo assim, continua tendo crises de ciúme. Mulder riu da irritação dela e saiu do quarto, indo trocar de roupa. Passaram o resto do dia tentando localizar o pastor, mas tudo em vão. Descobriram que o Pastor Smith e o delegado eram irmãos, mas ele também não se encontrava na cidade. Para os agentes, era difícil conseguir identificar as pessoas que participaram do culto, devido à escuridão e à face desfigurada que elas apresentavam naquela noite. Ninguém havia notado a falta da mulher que - eles podiam afirmar - havia sido morta na mata. Todos estavam silenciosos e reticentes, como se houvessem perdido a memória; como os maridos das mulheres mortas. Já estava escurecendo quando eles voltaram ao hotel. Scully não via a hora de sair daquele lugar e seu mau humor havia aumentado consideravelmente. Ligaram para o escritório do FBI em Omaha pedindo ajuda, mas ela só chegaria na manhã seguinte, uma vez que nenhum agente parecia disposto a viajar até lá, à noite, para perseguir fantasmas. Ela fechou-se no quarto e tomou um banho. Sentou-se na cama e retirou do bolso o pequeno embrulho que o homem havia lhe dado: era um pingente feito de osso, suspenso numa fita de couro e que representava o sol. Ela observou-o por vários minutos, deitada sobre a cama e acabou adormecendo com ele entre os dedos. Acordou minutos depois, sobressaltada pelo barulho que vinha de fora do quarto. A estranha melodia invadia o ambiente e parecia extremamente próxima. Ela sentiu-se tremer e instintivamente se pôs em pé, mas ninguém apareceu. Segundos depois, tudo foi novamente envolvido em silêncio e, então, ela ouviu um baque surdo no quarto ao lado... o quarto de Mulder e, esquecendo-se de qualquer receio que tivesse, abriu a porta e correu até ele. A porta estava aberta e Mulder não se encontrava mais lá. Scully olhou à distância, na entrada da mata e pode ver a claridade produzida pelas tochas, iluminando a silhueta que ela distinguiria em qualquer lugar do mundo: Mulder estava com eles e não parecia estar sendo constrangido a segui-los. Voltou rapidamente em seu quarto e muniu-se de uma lanterna, pegou sua arma, colocando atrás do casaco e ia saindo quando seus olhos foram atraídos para a cama. Voltou até lá e pegou o cordão. Colocou-o no pescoço e saiu em seguida. Scully colocou-se a caminho, mas, ao chegar, teve tempo somente de ver que Mulder tivera suas roupas substituídas pela túnica branca e entrou em choque quando o pastor aproximou-se e colou os lábios aos dele. Tão chocada estava que resvalou numa pedra, perdendo o equilíbrio e caindo para trás com grande estrondo. Ao se levantar, viu que a atenção das pessoas estava direcionada para o local onde ela se encontrava, protegida pela escuridão e apenas por um segundo, seus olhos encontraram-se com os de Mulder, mas ele já não habitava mais aquele corpo. _ Traga-a para mim. Ela será sua eternamente se a trouxer até mim. Vá! Agora! Scully ouviu aquelas palavras com os olhos desmesuradamente abertos. Viu que Mulder virava-se e caminhava em sua direção e percebeu que tudo estava perdido. FLORESTA ESTADUAL Chovia forte em toda a região. No meio das trilhas, a água infiltrava- se impiedosa, transformando a terra fofa em lama pardacenta, coberta de mato. As montanhas, ao longe, pontilhavam o firmamento de estranhas esculturas. O silêncio na mata foi subitamente rompido pelo barulho de passos apressados em meio às folhagens. Uma mulher de respiração ofegante corria desabridamente, sentindo o fio cortante das folhas machucarem seu rosto delicado. Sua respiração acelerada quase não permitia que ouvisse de onde vinham os sons a persegui-la. Ela corria com os imensos olhos azuis perscrutando tudo ao redor. Suas mãos pequenas não impediam que a folhagem fosse totalmente afastada do caminho e ela já sentia o sabor amargo do sangue correndo por inúmeros pequenos cortes feitos sobre a pele sensível. Mas não havia tempo para análises Precisava sair o mais rapidamente possível dali. Sentia-se perdida. As lágrimas de desespero já afloravam violentas em seus olhos, impedindo-a de enxergar totalmente o caminho a percorrer. Sentia seus pulmões explodindo em busca de ar, mas não podia se dar ao luxo do descanso. De repente, tudo ficou mais leve: sentiu seu corpo sendo jogado violentamente no barranco que, devido ao seu desespero, não vira surgir subitamente em seu caminho e ela rolou freneticamente até o fundo da depressão, seus belos cabelos vermelhos voando ao sabor do vento cortante que zunia impiedoso, penetrando e vergastando- lhe o corpo convulsionado pelo pavor e incredulidade. Ao chegar ao fundo, sentiu-se envolvida pela completa escuridão da noite. Os pássaros recusavam-se a cantar. Os animais procuravam furnas impenetráveis a fim de se protegerem daquela estranha presença que percorria as matas em busca de algo...Ou alguém. A mulher escondeu-se sob a folhagem. Seus olhos intensamente abertos e alertas captavam qualquer movimento próximo a ela, embora apenas seu medo e agonia fossem capazes de acompanhá-la naquele momento. Lentamente a razão, característica intrínseca de sua mente lúcida e bem treinada, tomou as rédeas daquela alma assustada e ela pode serenar seus instintos. Respirou fundo, várias vezes, sentindo o ar impregnado do cheiro de mato e terra invadir suas narinas, correr célere pela garganta e impregnar seus pulmões como uma lufada de vida nova: era novamente dona de suas emoções. Com cuidado, colocou-se de pé, bateu a mão pelo corpo espantando a poeira e as folhas que agora faziam parte de sua vestimenta e passou os dedos sobre o rosto, retirando-os salpicados pelo seu próprio sangue. Agarrou-se às pequenas raízes que nasciam junto ao barranco, usando-as como apoio para subir novamente à pequena trilha junto às arvores. Subitamente, porém, sentiu seu corpo congelar. Os batimentos cardíacos elevaram-se a ponto de machucarem as paredes finas de seu coração, despejando uma quantidade enorme de sangue e adrenalina em suas veias, congestionando seus olhos e explodindo em sua cabeça, como um aviso intermitente de perigo. As mãos que se agarravam às dela eram de uma força descomunal, ainda mais em se tratando de um fardo tão pequeno e leve quanto sua constituição física. Sentiu os dedos frios fecharem-se sobre seus punhos, puxando-a sem comiseração, arrastando-lhe o corpo sobre as paredes do barranco e, a um só esforço, colando-o de encontro à figura outrora tão amada e que, agora, lhe causava um estremecimento desmedido de pavor. Somente ao se encontrar junto a ele, que a fitava com olhos endurecidos e frios -- estranhamente diferentes daqueles que a buscavam com ternura, carinho e confiança -- foi capaz de sentir as vibrações de suas cordas vocais, numa tentativa desesperada de recuperar o espírito que habitava aquele corpo e que parecia ter sido sugado ou expelido . _ Mulder, por favor! _ ela começou a dizer, carinhosamente _ Volte pra mim, Mulder. Esse não é você. Está me machucando, por favor, pare! Mas ele parecia surdo às suplicas dela, enquanto a mantinha firmemente presa junto ao peito. Puxou a cabeça dela para trás, mergulhando o verde de seus olhos que se confundiam com as matas ao redor, dentro da retina dela, parecendo querer devassar todos os seus pensamentos e sentidos. Aproximou-se e ficou a poucos centímetros do rosto dela, a respiração estranhamente compassada e tranqüila, tão imprópria para uma situação como aquela em que havia percorrido tão longa distância, numa corrida enlouquecedora, tranqüilidade que contrastava imensamente com a respiração ofegante e entrecortada dela. Ele entreabriu os lábios, deixando que sua língua passasse caprichosamente sobre um pequeno corte no rosto dela, sugando o sangue quente que descia até próximo aos lábios. _ Você será minha, Mali _ ele disse com voz monocórdia e soturna _ A qualquer preço. Ergueu-a nos braços e apertou-a de encontro ao peito, enquanto ela desfalecia de medo e cansaço. Scully abriu os olhos lentamente. Estavam chegando à clareira. Mulder a segurava nos braços, estranhamente alheio a tudo. Ela tentou desvencilhar-se, mas, naquele momento, as forças dele sobrepujavam qualquer reação dela. _ Mulder _ ela suplicava _ Esse não é você! Por favor, Mulder. Eles irão me matar. Vai conseguir viver com isso? Domine-se! Afaste isso de você, Mulder.!! Mas as súplicas dela quedavam-se inúteis e ele apenas limitava-se a apertá-la mais fortemente junto ao peito. Chegaram à clareira com ela debatendo-se para se soltar, num esforço inútil. Ele a levou até o centro do círculo e só então a colocou no chão. O pastor Smith aproximou-se e tocou-lhe a testa . Scully sentiu seu corpo congelar. Queria reagir, mas tudo parecia em vão: seu corpo estava aprisionado por uma força que ela desconhecia. Viu quando Mulder aproximou-se com uma faca na mão e seus olhos encheram-se de pânico ao perceber o que a esperava. Sentiu as mãos dele sobre seu corpo, despindo-a de suas roupas, mas não tinha mais controle sobre suas atitudes: era como se fosse mera espectadora de um espetáculo cuja principal atração seria seu corpo inerte sobre uma laje fria. Mas um lampejo de esperança renasceu em sua mente ao fitar o parceiro. Ao vê-la despida, parece que algo nele acendeu-se; um brilho de reconhecimento e ternura perpassou em seus olhos e ela sentiu-se confiante para tentar convencê-lo. Num esforço imenso, sua voz libertou-se: _ Mulder? Está me reconhecendo? Mulder, não faça isso! Ajude- me a sair daqui ! Ele o está dominando. Escute-me, por favor, Mulder, não faça isso ! _ as lágrimas já corriam abundantes pelo rosto dela. Mas a voz soturna do homem elevou-se como um trovão. _ Faça o pacto! Ela será sua! Vamos! O olhar de Mulder modificou-se novamente, alheio e frio. Buscou o braço dela e fez um pequeno corte. O sangue brotou ligeiramente enquanto ela soltava um gemido, Apavorada demais que estava para gritar. Ele repetiu o gesto em si mesmo e misturou seu sangue ao dela. _ Nunca mais nos separaremos, Mali. Somos um só agora. Ele fará nosso amor eterno. O líder entrou no círculo e afastou Mulder, aproximando novamente seus lábios dos dele e o agente retrocedeu cambaleante. Scully foi conduzida até o leito improvisado e, pelo magnetismo irradiado daquele homem, obrigada a deitar sobre ele . Seus olhos, porém, buscavam os de Mulder desesperadamente e viu um novo brilho nascendo neles, enquanto alguns homens aproximavam-se e o seguravam pelos braços. Tudo ficou confuso para ela, então. Ouvia os cânticos entoados, misturados às palavras do homem e, ao fundo, os gritos alucinados do parceiro. O pastor debruçou-se sobre ela com sua estranha face desfigurada, os olhos naquele tom amarelado que eles viram no dia anterior. Scully sentia todos os seus nervos clamarem por alguma reação, mas seu corpo não lhe obedecia mais. De repente, percebeu mais alguém ao seu lado: uma mulher aproximava- se. Seus cabelos acobreados eram longos e luziam mesmo na escuridão. Seus olhos soltavam chispas e parecia carregar todo o ódio do mundo em seu coração. Sua expressão não era muito diferente da do homem debruçado sobre ela, agora ligeiramente trêmulo, demonstrando um certo desalento e medo. _ Mali? _ ele sussurrou com voz apagada _ É você? Eu a tenho procurado em todas elas. _ Nenhum amor, nenhuma alegria _ ela vociferou com raiva _ Não sei porque fui atraída até aqui. Você não terá.... Ela parou repentinamente, fitando o pescoço de Scully e ficou completamente perturbada. _ Meu colar... _ murmurou insegura, suas feições se suavizando ante a visão do amuleto. Scully estava em choque com os acontecimentos que, incrédula, via desenrolarem-se em sua frente. Todas as suas convicções cientificas foram deixadas de lado para que ela pudesse entender o que acontecia. Subitamente, tudo pareceu muito claro e ela pegou-se acreditando. _ Mali? _ Scully conseguiu dizer _ Mali, me escute. Só você pode acabar com isso. Não deixe que mais pessoas morram por causa do seu passado infeliz. Precisa perdoá-lo. Em principio, Scully não tinha convicção das palavras que dizia, mas ao ver que a mulher parecia se perturbar, sentiu-se segura para continuar. _ Onde o conseguiu? _ ela dizia indiferente às palavras de Scully _ Meu pai me deu quando eu era criança. Foi tirado de mim quando ele morreu e eu o escondi. Enterrei-o comigo e ele desapareceu. Scully entendeu, então, o motivo do amuleto; o porquê do índio o haver dado a ela. E, verdade ou não, fantasia ou alucinação, ele era a sua única esperança de sair com vida e as palavras surgiam em sua mente sem que ela pensasse realmente nelas. _ Mali, seu pai me deu isso. Pediu que o perdoasse. Só assim você poderá ter paz, você e Aykatan. Por favor, esqueça seu ódio! Seu pai está bem. Sua família inteira está _ ela arriscou _ Esqueça, Mali; perdoe. Os olhos da mulher estavam marejados de lágrimas enquanto segurava o amuleto entre os dedos. Seus olhos fixaram Aykatan e ela pareceu extremamente cansada. Não disse nada por um longo momento. Fitou o céu e murmurou: _ Sinto-me tão cansada. Preciso de paz. O que posso fazer? Como esquecer a ruína na qual minha vida foi mergulhada? Como não me odiar pela minha aparência que só me trouxe amargura e despertou sentimentos malsãos? Você esteve com meu pai? Como é possível? Ele está morto. Esse homem o matou! Meu pai jamais pediria que eu o perdoasse. _ Não é verdade, Mali. Seu pai anseia pela paz, tanto quanto você. Não percebe? Seu sofrimento, seu ódio não permitem que nenhum deles possa seguir adiante. Não se culpe. Vocês precisam seguir adiante _ Scully falava convicta, como se alguém estivesse orientando as palavras. _ Não foi você quem provocou tanta infelicidade. Perdoe-o, esqueça. A mulher deixou a cabeça pender nos ombros, os soluços sacudindo seu corpo, enquanto ela cobria os olhos com as mãos. Após a crise, voltou seus olhos para o homem à sua frente e depois para Scully. _ Perdoa-lo é fácil _ ela murmurou _ Mas jamais poderei me perdoar por me permitir amar o homem que desgraçou minha vida, que tirou minha família... O pastor sentiu as lágrimas fluírem de seus olhos. Então era isso! Todo o ódio que ela lhe dirigira por toda aquela vida foi por ter se apaixonado por ele. Aykatan afastou-se do pastor. Seu espírito vagava agora sozinho, ao lado da mulher tão amada, por quem ele havia morrido e da qual ele havia sido o algoz. _ Perdoe-me, Mali _ ele murmurou cuidadoso _ Perdoe-me pelo mal que te causei e por acender em seu peito um sentimento que você despreza. Perdoe-me por te amar tanto, mas é muito maior do que eu. Se minha presença te faz tão mal, eu me afastarei para sempre, mas preciso do seu perdão. Eu posso tentar viver sem o seu amor, mas jamais conseguirei dar um passo se sentir o seu ódio me acompanhando. Por favor... A mulher ergueu os olhos marejados para ele e, sem que ela pudesse esconder, um brilho emotivo surgiu ao fundo e isso foi como um laivo de luz, iluminando toda a existência dele e jogando no esquecimento todo o sofrimento passado durante aqueles anos. Ele se animou a continuar: _ Se puder ter seu perdão, minha amada, nunca mais voltarei a me aproximar de ti. Os olhos dela perturbaram-se novamente. _ Se afastará de mim se eu o perdoar? _ ela disse à meia voz _ Pra sempre. Após tanto tempo de dor e sofrimento, Aykatan pôde fitar novamente aqueles olhos que ele aprendera a amar. Não mais a escuridão assustadora do mar em tempestade, não mais o brilho odioso que havia sido seu fantasma durante todo aquele tempo: apenas o azul tranqüilo e luminoso do céu na primavera. _ Não entende? A maldição que você me lançou iniciou-se no exato momento em que foi pronunciada. Sentir seu beijo e me ver morrendo deu-me a certeza que eu escondia de mim mesmo: você era o homem que eu amava e jamais eu poderia ficar ao seu lado. Porém, mesmo sem poder, eu não posso...não quero me afastar...não consigo seguir sozinha. Toda a minha força foi consumida na tentativa de te odiar e...agora... preciso de você para voltar a caminhar sozinha. Scully pôde, então, ver a transfiguração daquela feição sombria: tudo nele iluminou-se e tornou-se mais suave, mais belo; sua pele perdeu a expressão abatida e macabra e um novo e belo colorido estampou-se em suas faces. _ Venha comigo, Mali _ ele sorriu embevecido. A mulher relutou por um momento, mas depois sorriu e estendeu-lhe a mão. _ E quanto a mim? _ gritou o pastor _ Você me prometeu seu poder, seu dom. Eu quero dominar as pessoas, assim como você. Eu quero ser um líder ! Aykatan voltou-se para o homem com uma expressão de tristeza. _ Poder e dominação não trazem alegria. Agora sei disso. Meu único dom é o de amar essa mulher. Ela tem o total poder e dominação sobre minha alma. Não faça isso com você. Não cometa o mesmo erro que eu. O pastor gritou e empunhou a faca. _ Você prometeu. Faltava apenas mais uma _ disse, descendo a mão para enterrar a arma no peito de Scully. Mas algo o deteve: suas forças sumiram instantaneamente e ele tombou inerte, dando visão para que Scully notasse o parceiro, de arma em punho, atrás do homem morto. As pessoas ao redor pareciam sair de seu transe e olhavam a cena, horrorizadas. Em meio ao alarido geral, apenas o casal, invisível para a maioria, parecia ter encontrado, finalmente, a paz. _ Perdoe-me Scully _ Mulder sussurrou aproximando-se dela e cobrindo-a com seu casaco. _ Tire-me daqui, Mulder _ ela respondeu simplesmente, enquanto guardava nos arquivos de sua mente a visão daquele casal que se afastava para longe. SEDE DO FBI Dois dias depois. Scully caminhava pelo corredor vazio, apenas o som de seus passos quebrando o silêncio em que estava mergulhado o porão. Abriu a porta do escritório e estranhou. Olhou o relógio que marcava nove horas e não entendeu porque Mulder não estava ali. A polícia fora acionada assim que Mulder recuperou a lucidez. De Omaha, vieram um novo delegado e um assistente. O caso parecia incompreensível. Não havia como culpar mais ninguém dos crimes e sobre o pastor pesava apenas a acusação de ter tentado matar uma agente do FBI, sendo morto pelo parceiro dela. Ninguém na cidade recordava direito dos fatos ocorridos e Mulder e Scully voltaram para Washington, silenciosos. Havia muita coisa em suas cabeças para que tentassem conversar sobre isso. Scully aproximou-se da mesa e viu que Mulder já havia feito seu relatório e o deixado sobre a mesa. Ela suspirou, sentou-se na cadeira dele e fechou os olhos, pensativa. Muita coisa ficara sem explicação. O velho índio que os havia tirado da mata não estava mais lá. Nenhuma busca foi capaz de localizar a cabana dele. Foram encontrados na casa do pastor, alguns objetos antigos, livros de magia e um esqueleto que, pelas análises, parecia pertencer a alguém que teria vivido há uns duzentos anos. As outras mortes foram tidas como ocasionais e a morte do subdelegado não deixou pistas de quem a havia cometido. Mas não era em nada disso que Scully estava pensando. Lembrava-se apenas dos momentos vividos até a "solução" do caso. Ainda de olhos fechados, tocou o ferimento no pulso, coberto por um curativo. "Amor eterno _ ela pensava _ Poderia realmente existir? Simbolicamente, o sangue dele corre em minhas veias e, por Deus, como eu o sinto assim...correndo...vivendo dentro de mim: sem dor, mas eterno. Meu sentimento é infinito, eu bem sei. E a maneira como ele reagiu quando estávamos na mata, sozinhos... Sei que não devo, mas impossível não idealizar esse momento. Ainda sinto o calor dos lábios dele, aqueles lábios... macios...quentes...Esqueça Scully ! Possivelmente, ele estava sob efeito de alguma droga, mesmo durante o tempo em que estávamos dentro da água, lado a lado...Afinal, nunca saberemos o que aconteceu antes de acordarmos na mata....sozinhos..." Scully ouviu os passos no corredor e involuntariamente seus lábios se abriram num sorriso. Conheceria aquele caminhar em qualquer lugar. Viu se aproximando da porta, entrando na sala, mas sobressaltou- se visivelmente quando, ao abrir os olhos, deu com o rosto de Mulder a apenas alguns centímetros do seu, o olhar penetrando em sua alma, perturbado e triste. _ O que foi, Mulder? _ ela apressou-se em dizer. _ Desculpe, não queria assustá-la. Fiquei preocupado de te ver assim. Achei que não estivesse se sentindo bem. _ Eu estou ótima, Mulder. _ E ...o corte ? _ ele perguntou relutante, apontando para o pulso dela. _ Está sendo tratado. Não foi nada demais... _ Desculpe, Scully _ ele a fitou, desalentado _ Jamais pensei em te machucar _ Mulder aproximou-se e tocou de leve o ferimento que ela ganhou na testa, causado pela corrida desabalada pela mata, fugindo dele. _ Não pense nisso, Mulder. É o que está te afligindo, não? Escute _ Scully aproximou-se tomando a mão dele e apontando para o seu pulso _ Nós dois fomos vítimas. Você não estava no controle de suas ações e... _ Isso não me consola, Scully! Eu poderia ter feito isso com qualquer pessoa, ter sido drogado, hipnotizado, ou seja lá o que for, mas nunca poderia me permitir te machucar...e se... _ Esqueça, Mulder. A única razão de eu estar aqui é porque você atirou no pastor. Salvou-me de qualquer maneira e... _ Salvei? _ ele riu sarcástico _ Eu te coloquei lá, Scully. Desde o momento em que nós saímos de Washington, você foi contra e eu quase te levei pra morte...Pior: eu teria te matado. _ Não, Mulder_ ela aproximou-se, tocando-lhe o rosto _ Você jamais teria feito isso. _ Como pode ter certeza, Scully? _ Eu te conheço melhor do que qualquer um, talvez até do que você mesmo. Eu vi seus olhos. Vi a luta que estava travando para não se deixar influenciar. Você venceu Mulder: eu estou viva, estou aqui. A única coisa que fez comigo foi...ela sorriu balançando o braço _ um pacto e um pacto de sangue. Mulder tomou o pulso dela, passando os dedos de leve no curativo igual ao seu. Voltou-se para o próprio braço e fitou-a, mais sereno, seus lábios se abrindo num pequeno sorriso. _ Agora tenho uma parte de você em mim, Scully _ ele levou a mão dela até seus lábios, beijando-lhe o pulso_ Acho que minha melhor parte. Ela afastou-se embaraçada, fugindo ao contato. _ O que achou de tudo isso? Quer dizer...aquela estória que ouvimos... _ Eu ouvi o mesmo que você, Scully. E você mesma me contou que viu aquela mulher; que ouviu a conversa deles. Ela reconheceu o amuleto que aquele homem te deu. Ela colocou a mão no bolso e retirou o cordão, fitando-o por algum tempo. _ Não fosse por isso _ ela começou _ Acharia que tudo não passou de uma alucinação nossa. Talvez tenham colocado esse cordão em mim quando nos encontraram na mata. Talvez tudo a partir daquele momento tenha sido fruto de nossa imaginação, causado por alguma coisa feita pelo Pastor Smith... _ Eu não tinha qualquer amuleto, Scully. Acha que imaginamos tudo? _ Mulder perguntou com os olhos brilhantes, encaminhando-se até a porta e trancando-a_ Acha que o que vimos e fizemos depois que acordamos na mata foi apenas alucinação? _ Eu...Mulder o que está fazendo? _ ela estranhou _ Por que trancou a porta? Você está bem? _ ela continuou afastando-se quando viu que ele se dirigia para ela com um olhar diferente_ É você mesmo aí, não é? _ ela murmurou, impedida de recuar mais devido à parede atrás de si _ Está me assustando... _ Sou eu mesmo, Scully: sem drogas, alucinações, índios, contos ou lendas _ ele parou em frente a ela _ Não tenha medo. Não vou te machucar ou fazer qualquer coisa que você não queira. _ Por que está agindo assim, Mulder? _ ela continuava com os olhos muito aberto, o coração aos pulos. _ Acredita mesmo que estivéssemos sobre a influência de alguém ou alguma coisa quando acordamos na mata? Quando chegamos àquele rio e você entrou na água...daquele jeito. Acha que não era você? Que não estava consciente do que fazia? Você se lembra não é? _ Me lembro _ ela sussurrou tão baixo que ele foi obrigado a se inclinar para ouvi-la. _ Eu também, Scully. Lembro-me de cada minuto, de cada palavra, de cada detalhe do que vi... _ E...? _ ela perguntou, tomando coragem para encarar o olhar dele. _ E eu lembro, principalmente, de que eu disse que nem em sonho aquilo terminaria ali. Ela soltou um longo suspiro, olhou para ele e sorriu. _ Aquilo foi uma loucura, não é? _ Tudo em mim está clamando por essa loucura, Scully. Há nem sei quanto tempo desejo que seja assim e minha memória é excelente, mas o que eu sinto não pode ser considerado pela medida de tempo normal: é maior do que o tempo que estamos juntos. Parece que sempre existiu. Eu já contaminei a parte de você que corre em minhas veias e ela também concorda que, alucinação ou não, ela quer seguir adiante, dar mais um passo e eu quero saber se... _ Se a porção sua que está em mim conseguiu me influenciar? _ Você já consegue ler meus pensamentos. Isso significa alguma coisa, não é? _ Não Mulder...não conseguiu me influenciar _ ela respondeu, sentindo- o se afastar com olhar desapontado _ Espere _ ela completou _ Não há como contaminar algo que possui a mesma natureza e... Encanta-me saber que nós sofremos do mesmo mal. Também não me importo que lá tenha sido alucinação, desde que, agora, seja real. Mulder passou os dedos pelo cabelo dela, descendo devagar até atingirem sua nuca. Seus lábios tocaram-se com calma, suavemente, permanecendo unidos por alguns instantes antes que seus olhos se abrissem e eles se perdessem na contemplação um do outro. Mulder acariciou-lhe o rosto, deslizando de leve as costas da mão pelo pescoço dela, passando pelo ombro, seguindo para o busto e acomodando- se firme e segura sobre a cintura dela, puxando-a para ele e beijando- a novamente. _ Mulder? _ Scully murmurou afastando-se ligeiramente dos lábios dele _ O telefone ...pare _ ela sorriu, colocando os dedos sobre a boca dele _ Está tocando, Mulder. Deveríamos atendê-lo. _ Não _ ele resmungou, beijando os dedos dela _ Deixa tocar. _ Estamos no Bureau, Mulder _ ela se afastou _ Estamos trabalhando. Mulder suspirou e pegou o telefone sobre a mesa, sem tirar os olhos dela. _ É bom que seja importante _ disse ao atender. _ Agente Mulder? Onde vocês estão? Mulder olhou para Scully com expressão de desdém. _ O senhor ligou para nossa sala, não é? _ Eu sei pra onde liguei. Por que demoraram tanto pra atender...preciso falar com vocês urgente. Mulder riu malicioso. _ A Scully estava me mostrando uma coisa interessante. Ela o fulminou com o olhar. _ Terá que ficar para depois. Mulder, quero que vá até a sub- distrito aqui em Washington. Há um suspeito de assassinato que quero que você interrogue. _ Por que eu, senhor? _ Porque você é funcionário do FBI _ Skinner responder de maus modos _ O suspeito diz que era contatado por aliens para cometer os crimes e recusasse a cooperar. _ Está bem. Nós estamos indo. _ Nós não: você irá. Quero a agente Scully aqui em minha sala... _ Por quê? _ Quero que ela faça a autopsia do corpo encontrado. _ Não pode ser outra pessoa? _ O que está acontecendo, Agente Mulder? Quero Scully nesse caso, pode ser? _ Ok. Ela está subindo. Mulder desligou o telefone com raiva. _ O que foi? _ Parece que há um complô _ ele resmungou para depois rir de si mesmo _ Sem problemas, já esperei tanto _ disse para si mesmo _ Skinner quer que eu vá interrogar um suspeito, enquanto você faz a autópsia. Temos que ir até a sala dele. _ Ok _ ela respondeu, passando por ele e pegando o casaco. Mulder estranhou o ar contrariado dela e a segurou pelo braço. _ Scully...tudo bem ? Olha...se não quiser continuar com isso eu... _ ele falou relutante. _ Está brincando! _ ela apressou-se em dizer _ Lembre-me de deixar minha arma com a assistente do Skinner ou eu não respondo por mim. Ele riu aliviado e seguiram para o elevador. Ambos foram para as tarefas designadas e Scully passou o resto do dia no hospital. Houve demora na liberação e transporte do corpo e quando ela começou a autópsia já passava do meio dia. Os exames tomaram toda a sua tarde e ela ainda teve que concluir os relatórios, deixando-os no escritório de Skinner, antes de seguir, exausta, para casa. Chegando em casa, demorou-se muito tempo na banheira, refrescando e relaxando o corpo extenuado. Ouviu o som do telefone quando saia do banheiro e já imaginava quem poderia ser. Durante todo o dia, sua mente funcionou paralelamente às tarefas que desempenhava. Enquanto manuseava os instrumentos de autópsia, seus pensamentos corriam distantes. _ Scully? _ Mulder falou antes que ela dissesse qualquer coisa. _ Terminou o interrogatório? Onde estava até agora? _ Eu...você poderia ir até meu apartamento? _ Agora? _ Por favor, esse caso está bastante interessante... _ Mulder, acabei de chegar...passei o dia com um cadáver... _ É importante, Scully. Queria resolver isso hoje. Ela gemeu e encolheu os ombros. _ Por que não vem até aqui? _ Eu pedi pro Frohike deixar alguns papéis em meu apartamento. Por favor, Scully. Eu prometo que depois deixo você dormir o dia inteiro. _ Tá ...estou indo. _ Eu também estou indo pra lá. Espere-me. Scully desligou o telefone e voltou ao quarto para trocar de roupa. APARTAMENTO DE MULDER Scully chegou arfante em frente à porta. Bateu de leve, mas mingúem atendeu. _ Droga _ ela resmungava, tirando a chave do bolso _ Não bastasse a falta de energia...Mulder ainda não chegou. Ela entrou acostumando-se à escuridão. Foi direto até a sala e chamou pelo parceiro, embora tivesse quase certeza de que não o encontraria. Mas, de súbito, ela prendeu a respiração. Sentiu braços a envolvendo pelas costas e sorriu. _ Mulder? _ ela perguntou, certa da resposta. Nesse instante a luz voltou, iluminando fracamente o ambiente, através do abajur ligado. Ela voltou-se para se encaixar no abraço do parceiro. _ Você demorou! _ ele reclamou. _ Seu prédio estava sem energia. _ Acho que me descobriram. _ Foi você quem desligou ? _ ela perguntou assustada _ Por quê? _ Para que você não visse a mesa. Ele levou-a até a sala de jantar e Scully estacou sorrindo. _ Você cozinhou?_ perguntou, o rosto iluminando-se com a visão. _ Aí seria demais, não é? Encomendei tudo. Mas acho que posso acender as velas. _ E quanto ao caso, Mulder? _ O que tem ele? _ Disse para eu vir aqui para discutirmos o caso. _ É o que pretendo fazer. _ Mas... _ Ah! Você pensou que era o caso de homicídio? _ Foi o que você me disse... _ Não _ ele interrompeu, puxando a cadeira para que ela se sentasse _ Eu não disse que era o caso de homicídio. Disse que era um caso...o nosso para ser mais exato. Ela riu. _ Me enganou _ falou simplesmente _ Não tinha certeza se você viria se eu dissesse o motivo explicitamente_ ele falou, abaixando-se em frente a ela. _ Também não tenho certeza _ ela concordou, segurando o rosto dele entre as mãos _ Isso está me assustando. _ Podemos deixar como está...se você preferir _ a voz dele era apenas um murmúrio que ele se esforçava para manter firme. Ela nada disse. Apenas manteve-o junto dela, os dedos percorrendo a nuca e descendo pelo pescoço. Mulder tomou coragem e apoiou as mãos nos ombros dela, aproximando-a e tocando-lhe os lábios de leve. Suas mãos desceram para a gola da camisa dela, os dedos descendo até atingirem o primeiro botão, tocando-lhe a pele de relance . _ Preciso que me diga, Scully. Não me deixe na dúvida mais uma vez...quero saber se você prefere realmente parar por aqui _ ele falava-lhe ao ouvido , passando a língua no lóbulo da orelha, sentindo-o entre os lábios. A camisa já estava quase totalmente aberta, mas ele parou e buscou os olhos dela, esperando a resposta. Scully encarou-o, tão cheio de desejo e paixão e se acovardou. Sua voz tremia sem qualquer firmeza. _ Isso é covardia _ ela suspirou _ Mulder...prefiro que...vamos parar por aqui...parar antes que seja muito tarde Mas as frases que ela formulava contrastavam demais com as feições que exibia, tão..afogueadas...tensas... quase como se o que dizia não fosse formulado por ela mesma. Mulder não estava disposto a desistir. Não dessa vez, não até descobrir até onde eles poderiam chegar, sem se distanciarem irremediavelmente. ¨Pelo amor de Deus! _ ele pensava _ Nós já chegamos aqui...meu corpo, meu cérebro, meus músculos, tudo pede por isso...não dá pra voltar...não quero voltar "". De súbito, ele decidiu jogar toda a sua sorte numa única cartada, sendo a reação dela, o termômetro para indicar o vencedor. Escorregou a mão, da nuca para o colarinho da camisa . Mergulhou os olhos plenos de desejo no mar atormentado à sua frente e, sem perder o foco dos olhos dela, juizes da peleja, agarrou as dobras da blusa, semi-aberta e aproximou-a, encostando o peito ao dela. _ Vai precisar de mais convicção do que isso pra me fazer desistir, Scully. Ela suspirou e repousou as mãos nas costas dele, tão tremulas que ele sorriu e soltou a blusa para buscar-lhe as mãos, trazendo-as para os lábios. _ Você está tremendo! _ disse confiante, entrelaçando os dedos aos dela. E Scully entregou-se. Naquele jogo, não poderia haver um vencedor e um perdedor: ou ambos ganhavam, ou iriam perder...se perder irremediavelmente. _ Por sua causa...pelo que estamos fazendo...pelo que estamos arriscando...mas, Mulder... _ ela murmurou, os lábios tão próximos que ele podia sentir o hálito quente._ Eu tenho fome. Mulder afastou-se e desviou os olhos para a mesa com ar indagador. _ É isso? _ ele riu _ Está com fome?. Mas Scully continuou a fitá-lo com seriedade, as mãos perdendo-se dentro da camisa dele, delineando os contornos musculosos dos ombros, fazendo-o suspirar, fechando os olhos. _ Faminta de você _ ela completou Ele abriu os olhos, suas feições modificaram-se instantaneamente. Seus lábios abriram-se num sorriso acolhedor, antes de consumirem os dela com paixão. Seus corpos se entregaram vencidos, ou antes, vencedores...abraços apertados...mãos curiosas que desnudavam segredos...desejos. Mulder teve tempo apenas de trocar de lugar , sentando-se com ela sobre os joelhos, sentindo, arfante, o calor que ele não imaginava que Scully pudesse produzir, e o que era melhor, era por ele que ela estava em chamas e, plenos de paixão, se entregaram ao prazer do gozo, da entrega, do amor. "De que importa a duração de um amor? Por qual medida pode ser calculado um sentimento que extravasa todos os sentidos, ultrapassa as barreiras impostas pelo medo e a racionalidade e se espalha, alastrando-se como o fogo na mata sedenta?". Relembrando o poeta, "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito, enquanto dure." Afinal, ETERNO é o amor daqueles que não tem medo de deixa-lo vir à tona, para mostrar o quão profundo ele pode ser, independente do quanto for necessário se expor para bem vive-lo . E é certo que, assim como Mali e Aykatan, Scully e Mulder estariam sempre juntos, superando obstáculos, vencendo distâncias, ultrapassando existências, para reviver o momento mágico que os uniu, num mesmo destino. Apenas que, para eles, não havia resgates, máculas ou ódios, o amor que sentiam havia sido purificado pela cumplicidade e dedicação...uma conquista arduamente desejada."". FIM