Arquivo X pertence ao Chris Carter e a Fox. Os personagens Hannibal, Clarice Starling, Ardelia Mapp, Paul Krendler e Barney são criação de Tomas Harrys. Todos eles foram tomados por empréstimo, apenas para a diversão dos excers. Esta fic é dedicada aos amigos muito queridos dos foruns da ShipperX (a excelente página da Késsia Nina) e em especial à minha "psiquiatra" favorita, a Dr.a Clarissa, que teve a paciência de Jó de ler e reler pedaços desconexos de texto e me encorajar com seu humor e ternura a concluir finalmente esta estória. Aviso: Esta estória baseia-se em alguns dos acontecimentos narrados no livro Hannibal, de Tomas Harrys. Então, se você não quiser saber o final do livro, não leia a fic! A névoa tornava difícil destinguir as imagens reais das desenhadas pelo medo, dentre todas as sombras que repentinamente projetavam-se nas paredes sujas do casario em ruínas do cenário. Tudo era torpe e distorcido...Nada fazia sentido. Enquanto ouvia o som de seus próprios passos ecoando noite adentro, já não enxergava mais o caminho a seguir, os olhos obstruídos por lágrimas de pesar e dor...a mente girando num turbilhão de pensamentos desconexos, doentes...sentiu que, de fato, enlouquecia. Andava ainda, mas não sabia porque. Respirava e sentia seu coração pulsar, o sangue fluir pelas veias e artérias de seu corpo, mas não sabia porque. O peso da culpa e da dúvida dominava seus pensamentos como uma multidão de insetos inquietos, destruidores, que consumiam sua mente com apetite feroz. Num instante de lucidez incompreensível, estacou. Olhou ao redor e, sentindo- se como o afogado que volta a tona pela última vez, em busca do ar que já não pode mais achar, suspirou... Buscou então a arma presa ao coldre, posicionou o cano de encontro a têmpora direita.... lembrou-se de um nome, sempre repetido mas nunca antes com tanto desespero....- Mulder!- disse para o vazio, num último esforço para libertar-se daquele pesadelo... Um disparo único. O alívio imediatamente tomou seu corpo, que tornou-se leve, como se a matéria fosse transformada em sonho, os pensamentos diminuindo em número ao ponto de tornarem-se novamente quase compreensíveis...apenas no último segundo de vida que lhe restara... Ali, naquele lugar sujo e desolado, jazia imóvel o corpo de Dana Scully, enfim em paz.... A verdade está lá fora Palácios do Éter Alexandra Panontin Morgilli Quase um ano antes FBI- 8:00 am. "Canibal desafia o mundo" Era a manchete da primeira página do exemplar aberto do Washington Post, atrás do qual podia-se imaginar, pela posição confortável dos pés sobre a mesa, um encantado e perplexo Fox Mulder. _ Lendo jornal em serviço, Mulder? _ a voz inconfundível de Scully quebrou o silêncio onde a mente de Mulder vagava, absorta nos mórbidos detalhes dos crimes do Dr. Hannibal Lecter. _ Sabia que ele fugiu do país com uma agente do FBI? _ Primeiro, bom dia. Segundo...ele quem? _ Ele. O canibal. _ dizendo isso virou para ela a página do Post que trazia a última foto tirada de il monstro, como era chamado na imprensa mundial, desde que fora descoberto na Itália e conseguira novamente fugir . _ Não há provas de que ela tenha ido com ele, Mulder. Ao que me consta, ele pode tê-la matado. A agente Clarice Starling tinha uma ficha de bons trabalhos prestados ao FBI, embora o tal Paul Krendler do Departamento de Justiça, segundo descobriu-se recentemente, não tivesse medido esforços para prejudicá- la e barrar sua ascensão dentro do Bureau. Não acredito que ela se deixasse levar por uma mente doentia como a do Dr. Hannibal. _ Não sabia do seu interesse pelo caso, Scully. _ Não foi um interesse pelo caso em si, mas confesso que tenho uma grande simpatia pela agente Starling. Talvez por sermos mulheres num universo tão masculino, talvez por algumas semelhanças na postura em relação ao Bureau...as escolhas de vida direcionadas pela profissão. Não sei ao certo..._ Um bom observador notaria que seu olhar tornara-se entristecido enquanto dizia estas palavras. _ Entendo._ Mulder, um bom observador, achou que não deveria aprofundar o assunto. Os sentimentos de Scully eram um território delicado e ele não sentia-se preparado para lidar com eles naquele dia..._ já a mim, encanta a personalidade do Dr. Lecter. Um caso totalmente complexo e apaixonante para a psicologia . _ Afinal, Mulder, qual o seu interesse real nesse caso? Não vejo a ligação com os Arquivos X. A menos que você esteja insinuando que Hannibal Lecter não é humano... _ Ele é humano, Scully. E é isso que perturba. Esse tipo de monstro humano, capaz de coisas inimagináveis e horrendas...como Donnie Pfaster, lembra-se? _ Como me esqueceria...se bem que...nem eu tenho tanta certeza quanto à humanidade dele...Mas ainda não entendi o interesse em Hannibal. Nós vamos investigar o caso? _ Na verdade não. Nós só vamos checar uma informação, para uma amiga minha. Ela, assim como você, não se conforma com o que dizem sobre Clarice Starling ter fugido com Hannibal Lecter. Ardelia Mapp e Clarice eram como irmãs e ela desconfia que algo mais complexo aconteceu do que um caso de amor entre a "bela e a fera." _ Que pista, Mulder? Pelo que sei, não há notícias de Hannibal Lecter desde que o corpo de Paul Krendler foi encontrado, depois de aparentemente, ter servido de prato principal para o seu interessante Dr. Lecter. _ Um antigo enfermeiro, do Manicômio Judiciário Estadual de Baltimore, que melhorou de vida subitamente com a venda de alguns itens de propriedade do Dr., parece ter entrado em contato com Ardelia. Como ela é constantemente vigiada e teme colocar a vida de Clarice, se é que ela está realmente viva, em jogo com alguma atitude indiscreta, ela pediu minha ajuda, já que ninguém nunca acreditaria que nós estaríamos investigando um assunto tão terreno... _ Sei. E quando é que vamos conhecer este enfermeiro...como é mesmo o nome dele? _ Barney. Estou aguardando o sinal de Ardelia para o contato com ele. Mas acho que vou sozinho cuidar disso, Scully. Preciso que me dê cobertura por aqui... . _ Entendo. Só uma coisa, Mulder..._ ela assumiu uma expressão preocupada _não arrisque sua vida por algo que você não sabe o que é... _ Não se preocupe, é só um favor a uma agente. Vou, verifico, volto e deixo as decisões a serem tomadas nas mãos de Ardelia. Argentina, Teatro Colón, 15 dias depois Seguindo a pista que Barney passara à Ardelia Mapp, já era a quinta noite em que Mulder comparecia ao Teatro Colón, devidamente paramentado e portando um pequeno binóculo. Assumindo seu lugar já habitual no balcão, preparou-se para passar novamente todo o espetáculo observando a platéia, em busca do dileto casal que Barney jura ter reconhecido a uma distância bastante segura, durante uma noite de ópera em Buenos Aires. Como os hábitos refinados de Hannibal eram um vício irremediável, Mulder tinha esperanças de encontrá-los ali, durante o Festival Wagneriano do Teatro Colón. Se sua busca não desse em nada, pelo menos agora ele tinha certeza de que a mitologia nórdica estava repleta de provas de contatos com seres extraterrestres. Afinal, já era a quinta vez seguida em que via aqueles homenzinhos verdes correndo pelo palco, chamados de nibelungos, provavelmente um disfarce convincente na época... Embora não soubesse qual a face atual de Hannibal Lecter, tinha visto várias fotos de Starling, com as quais mentalmente conferia a imagem de cada uma das mulheres, lindamente trajadas, que entravam no teatro. Num balcão lateral, portanto transversal à posição de Mulder, entretanto, outros olhos devidamente treinados perscrutavam não a platéia, mas o próprio Mulder. O espetáculo já atravessara as primeiras horas e no palco as Valquírias já recolhiam os corpos dos heróis para levá-los ao sagrado Valhalla, quando um brilho distinto atraiu a atenção de Mulder. Adornando o pescoço de uma mulher no camarote frontal ao palco, esmeraldas indiscretas refletiam a luz da cena final de Götterdämmerung como pequenos holofotes verdes, exatamente como Barney descrevera... O olhar, expressivo e inteligente, imediatamente despertou a mente de Mulder. Era ela. Tinha de ser ela. Aquela era a agente Clarice Starling. Não a vira antes porque estava atento aos casais e naquela noite, no camarote, só havia a mulher. Onde estaria Hannibal? Mulder agitou- se, mas por fim, achou melhor conter-se até o final do espetáculo. Tudo o que queria era ter a chance de falar com Clarice, conforme prometera a Ardelia. Precisava saber se ela estava consciente, se agia por livre vontade. Depois disso, voltaria aos EUA e passaria à agente Ardelia a decisão de avisar as autoridades. Mais tarde, na saída da ópera, Mulder esperou na porta por Clarice, receoso de que Hannibal estivesse fazendo a mesma coisa... _ Clarice? Clarice Starling? Por favor, preciso falar com você...Venho da parte de alguém que lhe enviou isso..._ então Mulder retirou do bolso interno do casaco um anel com uma esmeralda inconfundível...Clarice tomou nas mãos a jóia e reconheceu a inscrição que ela mesma mandara fazer, como uma última despedida silenciosa da amiga a quem muito pouco pudera explicar : "A.M.- C.S." _ Não sei do que se trata, cavalheiro...e meu nome não é Clarice. Diga a essa pessoa que não posso fazer nada por ela, lamento. Se me dá licença, meu marido me aguarda. _ dizendo isso, tomou o caminho do jaguar preto parado na frente do teatro, com um manobrista a segurar a porta aberta, aguardando que ela tomasse seu lugar ao volante. _ Dê uma chance a ela, Starling. Ela acha que você é uma vítima, quer provar sua inocência....teme por sua vida ao lado dele..._ Mulder insistia, agora junto à janela do jaguar. Por um minuto ela pareceu titubear. Seu olhar ficou distante, como se estivesse muitos anos no passado... _ Aqui não, por favor...encontre-me na praça Libertad , logo ao amanhecer. Não posso falar agora...como já lhe disse, meu marido me aguarda não costumo atrasar-me. Praça Libertad, 5:10 am Não sabia exatamente a que horas era o amanhecer, mas como não conseguia mesmo dormir, vestiu-se e saiu assim que o relógio marcou a proximidade das 5:00h. Num casaco grosso o bastante para agasalhá-lo do frio da alvorada argentina, Mulder aguarda pacientemente pela chegada de Clarice Starling. O que ele não sabe é que mais alguém aguarda a mesma coisa... Depois de meia hora de espera, Mulder percebe a aproximação do Jaguar preto, faróis acesos para vencer o resto de escuridão que o amanhecer já dissipa. O carro pára e dele desce a mulher com quem falara na noite anterior. Ela o convida a caminhar, e o som dos saltos contra o piso faz com que Mulder subitamente pense em Scully. Na verdade não eram só os saltos...Starling era realmente parecida fisicamente com Scully e tinha a mesma altivez no olhar... _ Sr...hã...ainda não me disse seu nome....e talvez prefira assim. De qualquer maneira, deve ser alguém de confiança da pessoa que o mandou aqui... _ Mulder. Meu nome é Mulder. Ardelia e eu somos amigos de uma época anterior ao FBI. Calma, eu sou agente, mas minha viagem não é oficial...é apenas um favor a uma amiga. Ela viria pessoalmente, mas tem sido rigorosamente vigiada desde o seu desaparecimento....Teme colocá-la em risco. Precisa dar a ela uma razão para continuar acreditando em você, Clarice. A face da mulher se tornou triste. Uma tristeza muda, indecifrável... _ Talvez eu não possa mais, Sr. Mulder. Dizendo isso, Starling afastou-se um passo e sua mão direita buscou algo dentro da bolsa... Depois disso, tudo o que aconteceu foi tão rápido que o mundo parecia estar em convulsão, numa imitação medíocre das cenas finais da ópera que vira na noite anterior, destruindo qualquer sentido de ordem na mente de Fox Mulder... Ouviu-se um tiro, ao mesmo tempo que um grupo de homens aproximava-se gritando, em espanhol e Clarice Starling caía, deixando aparecer sob seu corpo uma poça quente de sangue... Enquanto um dos soldados argentinos perguntava se Mulder estava bem, outro tomou a mão direita de Clarice, ainda dentro da bolsa e verificou o que ela pretendia tirar dali. Um envelope, destinado a Ardelia Mapp. _ Achamos que fosse atirar no senhor, agente Mulder- foi a única explicação que ouviu para aquela cena insólita. Totalmente horrorizado, tomando o corpo inerte de Clarice em seus braços, Mulder gritava por uma ambulância, enquanto perguntava quem mandara aqueles homens ali. _ O que vocês fizeram!!! O que vocês fizeram... À distância, os homens que prepararam tudo aquilo usufruíam, em silêncio, da glória conquistada até ali. Tudo agora seria questão de tempo para capturar Hannibal Lecter. A isca, já fora colocada no anzol...e era uma isca irresistível... ************* Manchetes dos principais jornais argentinos: " Agente do FBI encontra traidora. " " Emboscada americana conta com polícia argentina para capturar a amante do Monstro e descobre o lugar onde moraram no último ano" " FBI encontra e mata agente que fugiu com perigoso Canibal" Num sótão alugado naquela tarde, olhos repletos de dor e inteligência relêem as notícias, uma a uma, transformando cada agulhada que sente no peito em ódio....em sua mente, um nome _ Fox Mulder- na pronúncia, um timbre distinto e assustador ... Sobre uma pequena mesa, apenas alguns poucos pertences pessoais que conseguira trazer consigo, dentre os quais os últimos desenhos que fizera dela e o laptop especial do Sr. Krendler, cujo acesso irrestrito aos arquivos do FBI seria agora mais útil do que nunca antes. Trouxera os desenhos num momento de desespero, mas não precisava deles...ela estava em sua mente, com tantos detalhes...lá ela continuava viva, real, esperando por ele... Dez dias depois Sala dos Arquivos X - porão do FBI _ Mulder, você precisa parar de se culpar pela morte de Clarice. Foi uma armadilha. Você e Ardelia foram usados por homens covardes que temiam tanto Hannibal Lecter que preferiram jogar toda a operação em cima de você....Você não teve culpa, não podia imaginar... _ Será que não? Será que eu realmente podia acreditar que ninguém ligaria Ardelia a mim e me seguiria até a Argentina? Fui ingênuo e Starling está morta. Ela não merecia morrer . Aquilo foi uma execução sumária. Ela não estava armada...ela confiou em mim e eu a levei para os bicos dos abutres ... _ Você não sabia! Chega de culpar-se por tudo, Mulder...sua irmã, seu pai, Clarice. Não foi você! Você foi um personagem nessas histórias e não o autor! Não havia mais o que dizer. Os dois se deixaram ficar em silêncio. Mulder, tentando ver o que a parceira lhe mostrava. Scully, tentando afastar da mente o mesmo sentimento sombrio de seu parceiro, que a assolava toda vez que pensava em Melissa... Seis meses depois Liceu de Belas Artes de Washington Segunda feira O edifício do Liceu de Belas Artes estava magnificamente iluminado pelos primeiros raios de luz da manhã, que entravam por todas as grandes vidraças e formavam desenhos no piso. De seu pequeno gabinete, destinado aos novos acadêmicos, ainda não aprovados pelo conselho, o Prof. Telcer usufruía não apenas das cores matinais, mas também da maravilhosa música que lhe chegava aos ouvidos, depois de percorrer os belos corredores da escola, a partir do auditório. Encantado com a execução das variações Goldberg, não resistiu e deixou-se levar até chegar ao auditório, que contrariando a rotina, estava com janelas e portas abertas, não apenas para deixar sair as notas de Bach, mas também para deixar entrar o ar matinal, que emprestava a sala um frescor atípico. Tal qual um gato de passos leves e delicados, Telcer adentrou em silencio ao auditório, sem ser notado pela pessoa ao piano. Essa, totalmente envolvida pela música que saia do grande piano negro ao toque de seus dedos, nem imaginava que tinha companhia, muito menos que fosse objeto de análise de figura tão singular. Enquanto ouvia, a mente de Telcer deixou-se levar de volta ao seu castelo da memória , onde todos os seus tesouros e lembranças estavam guardados. Onde pessoas estavam catalogadas, em intrincadas imagens mentais, indecifráveis a qualquer outro código que não a seqüência de chaves que só Telcer possuía. Caminhando pelo etéreo corredor de piso polido, onde o ritmo dos passos era definido pela distância entre as colunatas romanas que o ladeavam, chegou a um átrio, novo, recentemente concebido, ao qual ligavam-se salas espetaculares, repletas das lembranças dos dois últimos anos de sua vida. Lá, deixou-se ficar parado, olhando a face esculpida em mármore fino, a mais honesta e instigante que já conhecera. A imagem da mesma mulher aparecia em muitos dos detalhes daquelas salas, tal qual um selo real, que marca todos os tesouros de um reino. Embora a música e as imagens o deixassem totalmente enlevado, no minuto seguinte, foi atraído a um ponto da cena em sua mente onde a luz não se atrevia a chegar. Na complexa arquitetura criada por suas teias de memória, espaços de puro deleite estético repartiam importância com masmorras e buracos assustadores, onde lembranças ruins encontravam abrigo. Num desses cômodos escuros, úmidos e de onde saiam sons inumanos, Telcer viu a face do animal que tirara dele sua paz: a raposa ... _ Prof. Telcer, não o havia notado. Há quanto tempo esta aí? _ Não o bastante para me fartar de sua bela execução de tão sublimes notas, Sr.a Bel. _ Telcer foi arrancado de suas lembranças pela voz da mulher que, ao perceber sua presença, interrompera a música e quebrara o torpor em que ele se encontrava.... _ Sempre gentil, Prof. Melhor seria se já tivéssemos de volta o cravo, ainda no restaurador. Que faz aqui, tão cedo? Não sabia que mais alguém aqui partilhava de minha inclinação para o toque de alvorada..._no íntimo, ela mesma corrigia sua frase, lembrando-se de como seu marido sofria para fazê-la iniciar cedo o dia... _ Hoje farei minha apresentação ao conselho, como bem sabe, uma vez que é uma das conselheiras. Cheguei cedo para rever minhas anotações, mas acabei hipnotizado pelo som, que me trouxe até aqui..._ enquanto falava, Telcer juntava imagens para catalogar Bel. Até agora, a jovem conselheira não atraíra ainda sua atenção...até agora. Vendo-a assim, ao piano, sob a luz da manhã, ela tocou nele uma nota diferente...e ganhou uma imagem na mente de ... Hannibal. _ Claro que não haveria de esquecer-me, prof. Telcer. Se é que posso perguntar, sobre o que vai dissertar esta tarde? _ Dentre tantos aspectos da história da arte, a arquitetura sem dúvida é uma de minhas especialidades. Entretanto, não gostaria de ater-me aos princípios frios da forma. Gosto de ver a arquitetura como um exercício da fé acima do raciocínio. Talvez daí o fascínio que sinto por alguns arquitetos especificamente. Hoje vou falar sobre um catalão cuja fé foi talhada em formas sublimes... _ Gaudí. Antoni Gaudí _ a mulher concluiu com entusiasmo, antes que ele tivesse tempo de terminar a frase. _ Vejo que é uma apreciadora das artes sob as mais diversas formas Sra. Bel... _ Sou acima de tudo curiosa, prof. Telcer e agora sinto-me ansiosa com sua apresentação. Estarei lá, no horário marcado. Acredito que todos no conselho estejam nutrindo uma certa expectativa em relação a sua peça. Desejo-lhe boa sorte _ Com um sorriso, Silvia Bel levantou-se, enquanto juntava suas partituras e olhava o relógio _ minha aula vai começar...perdi a noção do tempo! _ Estarei falando com uma dedicação especial, agora que sei que na platéia haverá quem compartilhe comigo a admiração pelo assunto escolhido._ Enquanto falava, Telcer terminou de montar a imagem mental a qual buscaria sempre que precisasse achar a jovem Sra. Bel: Um camafeu negro, com o monograma dourado, deixado sobre um piano, que pode muito bem estar numa das salas da Casa Milá, numa manhã ensolarada. Hoje, Telcer estava poético...e confiante. Seus planos estavam seguindo o caminho previsto....Tudo andava muito bem... Três meses depois Apartamento de Dana Scully 3:15 a.m. No quarto ainda iluminado pela luz do abajur ligado por uma Dana Scully que aparentemente dormiu enquanto lia, o som estridente do telefone era tão incômodo que não pôde mais ser ignorado... _ Humm, alô... _ a voz saiu entremeada com um resmungo, típico de quem foi acordada no meio da noite... _ Scully, sou eu _ Mulder, por sua vez, parecia agitado... _ O que foi Mulder ? _ seus olhos buscaram o relógio sobre a mesinha de cabeceira _ Meu Deus, são 3:00 horas da manhã! _ de repente sentiu uma grande sensação de "déjà vu". _ Eu sei, mas aconteceu algo muito grave. Preciso que se encontre comigo no necrotério da cidade, o mais cedo possível... _ Certo... Estou indo...mas é bom que não seja uma crise de solidão...ou você não voltará de lá, isso é um aviso... Necrotério Municipal, 5:00 a.m. Scully obviamente não tivera tempo ou vontade de vestir-se com a elegância habitual, pois era uma das raras vezes em era vista usando jeans e sapatos baixos. Caminhando já com a certeza de que Mulder não a chamara aquela hora para nada, venceu a distância entre o estacionamento e a administração do necrotério municipal rapidamente. Lá, foi informada de que Mulder estava com o legista da noite, numa das salas de autópsia. Achando a sala, abriu e espiou cautelosamente antes de entrar, como se temesse dar a impressão de estar invadindo o espaço de um colega médico. _ Entre Scully, esse é o Dr. Cook. Ele está me ajudando a iniciar as investigações. _ Dana Scully _ dizendo isso, apertou a mão do médico, que sorria para ela com um ar meio abestalhado._ Então, o que temos aqui, Dr. Cook? _ Hã...sim, claro _ o homem voltou ao planeta _ Temos um jovem, do sexo masculino, 22 anos, sem nenhuma outra causa morte aparente além da óbvia... _ E qual seria a causa óbvia? - perguntou já com receio da resposta, uma vez que o cadáver parecia extremamente pálido. _ Hipovolemia. Quase todo o sangue deste jovem parece ter sido removido. No local, entretanto, não foi achada nem uma única gota...Trabalho limpo. _ Há sinais de ferimentos? _ Um único corte, pequeno, na jugular. _ Certo. Provavelmente o crime aconteceu em outro lugar , e o corpo foi removido...não entendo a nossa relação com ocaso, Mulder... _ Digitalis....isso lhe diz alguma coisa? O crime não aconteceu em outro lugar...não haveria tempo para isso. Esse jovem saiu de casa para ir a aula de arte e foi encontrado morto, diante de um livro aberto, totalmente exangue. Junto do livro, um copo de refrigerante, com veneno digitalis suficiente para derrubar um exército...algo lhe parece familiar, Scully? _ As Evas...mas não pode ser, nós mesmos as prendemos...houve uma fuga? Alguma das Evas está solta? Como não fomos avisados? _ Nenhuma daquelas Evas está solta, mas isso não significa que não existam outras...nunca encontramos Eva 6 ou soubemos a extensão total do projeto...podem haver outras e, ao que tudo indica, as mortes recomeçaram... _ Não sei...o veneno foi encontrado num refrigerante abandonado junto ao corpo ? Isso não combina com a maneira das Evas agirem. Elas não deixaram nada explícito, exceto quando tentaram incriminar a outra Eva...Esse veneno é facilmente encontrado. Podemos estar lidando com um imitador ... _ Um imitador que sabe exatamente o tipo de veneno e a forma como os outros corpos foram encontrados? Esses dados não estão exatamente disponíveis para qualquer um. Vamos Scully, admita, devemos pelo menos verificar as possibilidades... _ Vamos investigar. Eu apenas estou tentando checar todas as hipóteses..._ Ela sabia que nada faria o parceiro desistir da idéia antes de esgotá-la. _ Quero que interrogue a pessoa que achou o corpo, a Sr.ª Bel. Encontro você no Liceu de Belas Artes de Washington, dentro de duas horas. _ E você vai aonde? _ Ela ainda ousava espantar-se com as atitudes inexplicadas do colega. _ Vou verificar algumas informações úteis. Depois nos falamos._ dizendo isso, saiu. O brilho dos olhos verdes não escondia sua empolgação com o caso. Scully limitou-se a seguir com o olhar as passadas vigorosas do parceiro em direção à porta. Decidiu então que voltaria ao seu apartamento e iniciaria seu dia novamente, dando-se ao luxo de tomar até um café da manhã, pois ao começar um caso, nunca sabia quando teria tempo para isso novamente. Q.G. dos pistoleiros solitários, 6:00 a.m. _Mulder? Você não dorme, não?_ Foi a recepção entre espantada e curiosa de Frohike, que abria a seqüência absurda de fechaduras para permitir a entrada do agente. _Só quando passo férias no Mar da Tranqüilidade. Na verdade preciso que me ajudem com informações... _Há!...achei que queria jogar Tomb Raider V...já recebemos a versão beta, sabe? _ Frohike estava ácido, naquela manhã..._entre, Mulder. Onde está sua parceira? Você não a "abduziu" da cama logo cedo dessa vez? _Scully está me esperando em uma cena de crime. Você está insinuando que eu a incomodo fora de hora? _Nãaao, não...esquece, cara. Em que podemos ajudá-lo, então? _Preciso de uma lista de locais onde possa encontrar uma droga, Digitalis. Preciso saber tudo, como é vendido, qual a documentação necessária. Não é aspirina, logo não deve ser vendido em qualquer esquina. Quais os laboratórios com autorização para usar essa droga, quem comprou... _Só isso? _Não...também preciso que acessem arquivos do governo, sobre a situação atual do projeto Litchfield... _Sabia...isso não podia ficar só numa lista de farmácias...Dê-nos um prazo, Mulder. Ligamos pra você assim que tivermos alguma resposta. Só que enquanto isso, tem um outro assunto, que talvez interesse a você... Liceu de Belas Artes, 7:00 a.m. _ Sr.a Bel, sou a agente Dana Scully, FBI. Estou investigando a morte de seu aluno, M. Henry ._ enquanto mostrava sua identificação, Scully aproveitou para verificar que o lugar parecia bastante sossegado, àquela hora da manhã... _ Estou a sua disposição para ajudar no que puder. Pobre Henry. Tinha tanto talento...como pode acontecer algo tão horrível aqui dentro da escola? _ Quem mais estava no prédio, naquela hora? _ Eu sou sempre uma das primeiras pessoas a chegar, eu e o prof. Telcer que ontem chegou junto comigo. Encontramo-nos nas escadarias, conversamos um pouco no auditório, como temos feito praticamente todos os dias nos últimos meses e quando fui para a biblioteca, encontrei o rapaz, debruçado sobre a mesa. Pensei que tivesse apenas caído no sono, porque esses meninos às vezes passam a noite toda perseguindo uma inspiração. _ Era seu aluno de música? _ Não. Era da turma de literatura. Um escritor . _ Esse prof. Telcer, esteve com você o tempo todo? _ Sim, estivemos conversando desde a nossa chegada até o momento em que fui para a biblioteca. _ A biblioteca, não tem um funcionário responsável? Como o aluno conseguiu entrar lá tão cedo? _ Aqui nesta escola temos alguns procedimentos diferentes. Os alunos tem permissão para acessar a biblioteca e as salas de concerto mesmo nos horários não convencionais. Basta que para isso, comuniquem com antecedência a administração. Lidamos com artistas aqui e a liberdade é indispensável... _ Entendo. Quer dizer que alguém já sabia que Henry entraria mais cedo, ontem? _ Sim, a administração já tinha conhecimento disso, e informou o guarda da portaria, para que permitisse sua entrada. _ Esse guarda, onde posso encontrá-lo? E também gostaria de falar com o outro prof., se possível. _ Claro, venha comigo... No pequeno e bem organizado gabinete, o toque pessoal de Telcer podia ser sentido em cada um dos incomuns objetos de decoração e em cada livro. Expostos na única parte onde as paredes não estavam cobertas pelas estantes de livros, desenhos feitos a mão, de paisagens e edifícios antigos com traços e detalhes impressionantes . Enquanto esperava, Scully não pôde evitar a comparação entre o desconhecido e seu parceiro. De maneiras antagônicas, na forma de ordem e caos, eram homens parecidos. A sala que dividia com Mulder, no FBI, era um retrato da personalidade dele. Cada detalhe lá tinha uma história e era importante por algum motivo. Debaixo da aparente desorganização, reinava a genialidade do agente, capaz de localizar em segundos qualquer uma das peças do grande quebra cabeças que vinha montando ao longo dos anos. De alguma maneira, sentia que o dono daquele gabinete era um homem assim, e seria capaz de imprimir sua marca pessoal até numa caverna, usando da ordem absoluta como uma ferramenta, assim como Mulder usava o caos. _ Srta. Scully, eu suponho. Fui avisado de sua visita. _ o homem elegantemente vestido de preto entrou sem fazer barulho e surpreendeu Scully folheando um de seus livros _ Aprecia a obra de H. Melville, Srta. Scully? Posso emprestar-lhe o volume, se desejar... _ Não, não é preciso _ Scully não gostou de ser apanhada em devaneios._ É que tenho uma ligação especial com essa história... _ Será por causa da grande baleia branca ou do obsessivo capitão? Almas obsessivas podem ser muito atraentes para algumas pessoas _ ele falava com ela com uma incômoda intimidade _ mas creio que o assunto que a trouxe aqui foi a morte de nosso aluno, e não minhas divagações literárias... _ Soube que o Sr. estava no prédio, no momento em que o corpo foi encontrado. Lembra-se se viu mais alguém aqui? O guarda da entrada disse que ausentou-se da portaria por cerca de quinze minutos. Seria possível que nesse período alguém entrasse sem ser notado? _ Acredito em todas as possibilidades, agente Scully. Mas acredito sobretudo na inteligência humana. O crime me parece muito bem planejado para ser coisa de alguém que estava apenas passando e sentiu-se compelido a entrar e matar um jovem. Você não acha isso? _ Sim, de fato, há dados nesse caso que indicam algo mais, como o Sr. mesmo disse..._ o olhar daquele homem deixava Scully estranhamente desconfortável, como se ele estivesse olhando não para ela., mas para além dela...ou para dentro dela. Como uma graça divina, o celular tocou..._com licença, prof._ e ela afastou-se um pouco do homem. _Scully... _Sou eu. Acabei de pedir algumas informações aos nossos amigos hackers sobre o projeto Litchfield e sobre onde encontrar o veneno. _Sobre o veneno eu mesma poderia informá-lo... _Eu sei, mas acabo de obter uma informação realmente interessante. Na verdade já estou quase aí, então explico o resto daqui a pouco. Como sempre, desligaram sem despedidas. A agente voltou sua atenção novamente para o homem a sua frente, que ainda a fitava como se estivesse naquele momento imaginando coisas..._ Desculpe a interrupção, prof. _Tudo o que ela desejava agora é que Mulder chegasse logo, estava desconfortável ali...mas o espírito da investigadora falou mais alto_ O Sr. tem alguma idéia sobre que tipo de inimizades esse aluno teria? Se provocou alguém ou se estava envolvido com algum tipo de grupo? _Era um bom escritor... jovem, talvez um pouco imaturo como todo garoto, mas saía-se bem nas minhas aulas. Diria até que gostava delas, uma vez que escritores sempre podem aproveitar o conhecimento em história da arte como referência para suas narrativas...Não acredito que Henry fosse o objetivo específico do assassino... _ O Sr. parece ter uma teoria sobre esse crime...Gostaria de dividí-la? _ Ora, agente Scully...sou apenas alguém que leu livros demais...Não tenho a pretensão de fazer o seu trabalho...nunca conseguiria chegar próximo do seu tino investigativo..._ mais uma vez ele parecia sibilar, e isso provocou uma reação estranha na mulher ruiva. _ Desculpe-me, mas o Sr. fala como se me conhecesse de algum lugar ...já nos vimos antes? _ Não, creio que não...eu me lembraria, com certeza_ os olhos dele sorriam... _ Scully! _ O chamado, mais uma vez salvador do parceiro foi como uma lufada de ar no pequeno gabinete, onde a atmosfera havia se tornado densa, inexplicavelmente. _ Prof. Telcer, este é o agente Mulder. Quando os dois trocaram um aperto de mãos, Mulder ainda carregava o olhar brilhante que ela vira de manhã, mas o outro homem não esboçou qualquer reação. Continuava com o mesmo olhar perturbador, ou pelo menos o era para Scully. _ Temos de ir, Scully. Há uma pista e coisas que quero discutir com você no caminho, então seu carro fica aqui e depois o pegamos..._ele realmente continuava empolgado... _ Sei...Bem..._ela não queria falar sobre o caso na frente daquele homem _ então vamos. Gostaríamos de voltar a fazer-lhe perguntas mais tarde, prof. _ agora ela queria sair dali... _ Sem dúvida, estarei aqui para qualquer pergunta, Srta. Scully. Qualquer pergunta... Scully despediu-se e saiu, ainda sentindo o olhar dele sobre eles, acompanhando-os enquanto desciam as escadarias da escola em direção ao carro... Sentado agora com as mãos entrelaçadas e os cotovelos sobre a mesa, ele acompanhou com o olhar através da vidraça de seu gabinete a raposa, cujo espírito inquieto parecia estranhamente domado junto aquela mulher ..._interessantíssimo..._ foi a única palavra ouvida de seus lábios... Mulder dirigia, enquanto Scully olhava para ele com aquele ar habitual de expectativa. _ Onde vamos? Você descobriu algo sobre onde foi comprado o veneno? _ Estamos indo ver outra vítima... _ Outra? Mesmas características? A vítima ainda está no local do crime? _ Nossa, como você faz perguntas!_ ele sabia que piadas podiam ser um risco, mas não resistiu... _ Fala sério, Mulder..._ às vezes ela se fazia de mal humorada só porque era isso que ele esperava dela. Um joguinho pessoal e divertido. _ Não, já foi para o necrotério...ontem... _ Ontem? Não entendo...se havia outra vítima com as mesmas características, por que o Dr. Cook não nos informou hoje de manhã?! O que é que você não está me contando, Mulder? _ É que não há nenhuma característica coincidente com o caso anterior. _ Não há? Então é outro caso? Vamos investigar os dois ao mesmo tempo? Explica logo isso... _ Essa vítima, na verdade foi encontrada ontem, num depósito da loja de conveniência onde trabalhava. O detalhe que merece nossa atenção é que foi encontrada sem o fígado, que isso foi feito sem o uso de instrumentos cirúrgicos e que um objeto pessoal da vítima desapareceu. E antes que você diga qualquer coisa, vou acrescentar que investiguei todos os casos de morte violenta que deram entrada essa semana no necrotério de Washington e adivinha o que encontrei? Scully limitou-se a arquear a sobrancelha direita e aguardar o resto da narrativa do parceiro... _ Na segunda-feira eles receberam um corpo, ou melhor um esqueleto que só faltou ter um dos ossos autografado "Virgil Incanto com amor". E..._ele não queria que ela dissesse nada antes que ele desse o fechamento planejado_ E, a menos que isso aqui seja Gothan City e tenham aberto as portas do Asilo Arkham e liberado todos os criminosos do nosso passado...acho que você tem razão e estamos lidando com um imitador! Um imitador muito perigoso e que tem informações incomuns sobre os Arquivos X. _ Santa conclusão, Batman - ela não podia deixar de se espantar com a conclusão do parceiro, mas não se iludiria, ele não tinha terminado de narrar sua teoria ainda _ E...vamos, continue, Mulder... _ E...eu acho que é alguma armação pra cima de nós. Nós somos os alvos destes crimes, Scully. _ Alguém está matando estas pessoas , imitando casos dos arquivos X por nossa causa? Tem idéia de quem? _ Eu acho que tem a ver com nossas inimizades antigas, nossos caros consorciados...Essas informações não estão a disposição de qualquer tarado de rua e esses crimes exigem conhecimentos variados, de medicina, química...não me parecem obra de um homem só..._nesse momento ele já não parecia tão entusiasmado. Sentia-se até um pouco paranóico, vendo a expressão de Scully, que ainda o fitava com aquela bendita sobrancelha lá no alto... _ Tá bom, Mulder. Digamos que eu aceite sua teoria de que somos o centro do universo. Por que usariam uma seqüência tão complexa de fatos para nos atingir? Sabemos que existem meios muito mais simples de acabarem conosco do que criar toda essa encenação. Mas acho que você tem razão em grande parte: os casos, se não forem incríveis coincidências, têm alguma relação com os Arquivos X e temos de descobrir qual é, antes que mais pessoas morram ... _ Você faz o exame dos corpos? Sei que você adora essa parte_ brincar era a maneira dele admitir que tinham de partir de algum lugar palpável para iniciar a investigação... _ Por Que? Você quer fazer?_ ela sabia aceitar um pedido de trégua e assumiu um tom conciliador_ Você me deixa no necrotério, eu faço os exames, verifico até que ponto as características são coincidentes com os casos antigos e nos encontramos depois no FBI. Enquanto isso você pode repassar os arquivos e enumerar possíveis suspeitos...Que tal? O carro finalmente parou na porta do necrotério municipal, e subitamente Scully desejou que o Dr. Cook não estivesse lá. _ Um dia aprendo a fazer essas autópsias só pra tirar esse prazer de você..._ ele sabia que ela estava tentando dar a ele tempo para que sua mente trabalhasse em uma nova e assustadora teoria e sentia-se grato por isso..._ Me liga quando terminar, e eu venho apanhar você. Bom trabalho, doutora... _ Até mais tarde, Mulder. Sala de Mulder e Scully FBI Mulder destrancou a porta e pisou sem querer num envelope deixado ali por alguém que não seguia os procedimentos rotineiros, como usar os serviços do garoto que distribuía as correspondências dentro do Bureau, por exemplo... O envelope pardo não tinha nenhum tipo de inscrição, mas como estava sob sua porta, só podia ser para ele...ou para Scully...mas como ele chegara primeiro...abriu. Dentro, um bilhete: Me intriga um mistério: Por que é que a raposa aceita a coleira e age como um cão doméstico, seguindo comportado a mão que o cerceia? Será que a raposa não é mais um ser selvagem? Traiu sua índole e vendeu-se por um pouco de segurança e estabilidade? Terá sido uma boa escolha? E por que é que a raposa vai ao monumento a Washington, sozinha, a meia noite? Essa eu mesmo repondo. Vai para buscar respostas. Vai porque é da sua natureza e não pode resistir. Ass. : Alguém que tem perguntas e respostas. Necrotério municipal, 0:40 a.m. Scully amaldiçoou a idéia de ir sem o seu carro para aquele lugar. Já fazia mais de meia hora que tentava falar com Mulder para pedir a carona combinada e discutir com ele suas conclusões dos exames dos corpos, mas ninguém atendia no apartamento ou no escritório e o celular estava fora de serviço, só pra variar. Não se preocupou por que afinal essa não era uma situação incomum. Pensou em chamar um taxi, mas foi interceptada por um solicito Dr. Cook, que agora depois de meia hora de conversa já sabia chamar-se Robin e que a levou gentilmente para casa. Talvez, qualquer outra mulher tomasse pelo menos alguns minutos do tempo para prestar atenção ao médico de cabelos precoce e charmosamente grisalhos, mas Scully não ouvira sequer o que ele disse durante o trajeto. Sua mente só se perguntava onde diabos estaria Mulder... Casa de Dana Scully Havia um recado de Mulder na secretária eletrônica, dizendo que ele pedia desculpas pela carona, que seu celular estava sem bateria novamente, que ele tinha que verificar uma pista e que no dia seguinte se falariam. Simples assim. Estranhamente, o homem não parecia nem um pouco interessado nos resultados das autópsias, que ela gastara o dia todo para realizar. Nem um boa noite ele deixou gravado. Dana Scully percebeu que estava reclamando demais, provavelmente resultado do cansaço, e deixou-se finalmente conquistar pela idéia de um banho relaxante e uma boa noite de sono. No dia seguinte falaria com Mulder... FBI- Dia Seguinte. 2:00 p.m. Na mesa de Mulder, mãos inquietas folheavam relatórios, rabiscavam papéis. Depois, voltavam a folhear os relatórios. Uma olhadela no relógio e a velha sensação de estar de fora de uma parte importante da história voltou a crescer, causando primeiro um desconforto na altura do estômago, depois se espalhando pela coluna como uma impressão de mau agouro...Impressão não, isso fora há duas horas atrás...agora era quase uma certeza ... Tomando uma decisão que temia já estar atrasada, saiu de sua sala e entrou sem aguardar o anúncio de sua presença na sala de seu superior imediato. _ Sr., desculpe a urgência, mas preciso falar-lhe imediatamente... O homem tirou os óculos, num gesto que já vira dezenas de vezes: _ No que posso ajudá-la, agente Scully?- Skinner sentiu pelo olhar da mulher que a situação era grave e não questionou sua entrada. _ É sobre o agente Mulder, Sr. Ele desapareceu... Dois dias depois Mulder ainda não dera sinal de vida mas a busca do FBI resultara na descoberta do bilhete, onde alguém marcava um encontro com ele no monumento a Washington, na noite em que ele não fora buscá-la. O bilhete foi virado do avesso e analisado por todos os meios conhecidos, mas não revelara nada além das impressões do próprio Mulder. Era coisa do imitador responsável pelas mortes da última semana, disso ela tinha uma certeza quase mórbida. Mulder não cumpria regras e o assassino sabia disso. As palavras o instigavam de maneira irresistível, e contrariando todo e qualquer bom senso, ele fora àquele encontro sozinho, sem ela. E agora poderia estar morto e ela não queria pensar nessa possibilidade. Repetia o tempo todo que o plano era complexo demais para acabar assim._ Tinha de ter algo mais. Se alguém pretendia matar Mulder, não precisaria de tantos cuidados..._ Scully prendia-se à sanidade apenas pela louca esperança de encontrar lógica e racionalidade na mente doentia de um assassino cruel... Talvez ela tivesse sorte... Manhã do dia seguinte, FBI Scully já estava de volta à sala de onde saíra há menos de três horas. Na verdade, tinha ido à sua casa apenas para trocar de roupas e checar a secretária eletrônica e a caixa de correio, na esperança de algum contato do imitador, seqüestrador, assassino...ela já não sabia mais como referir-se a ele... Então seu corpo experimentou uma sensação de choque de adrenalina, quando ao abrir a porta avistou um envelope pardo sobre a mesa de trabalho antes vazia... O envelope, não trazia remetente ou destinatário, o que indicava que havia sido entregue por outro meio independente do correio. Talvez o imitador tivesse sido ousado o suficiente para entregá-lo pessoalmente... Scully, apesar da ansiedade, tomou o cuidado de usar luvas para abrir a misteriosa correspondência, para que eventuais impressões não fossem perdidas. Dentro, um desenho. Um desenho feito a carvão, num traço inconfundível, que a mente de Dana Scully reconheceu imediatamente ...e a visão daquela imagem foi como o som de um disparo e fez despertar seu senso de urgência e perigo...sentiu um desespero sufocante. Usando o celular para não perder tempo, discou imediatamente um número, enquanto corria em direção ao carro... - Senhor, sou eu, Scully. Preciso de apoio imediatamente no Liceu de Belas Artes. O nome do suspeito é. Telcer, é professor lá e tenho certeza de que é o nosso homem...e ele está com Mulder! Foi tudo uma armadilha...desde o começo _ as idéias se encaixavam tão rápido, que Scully mal tinha tempo de transformá- las em palavras..._Mais uma coisa...estamos lidando com alguém muito perigoso, senhor. Talvez mais do que poderíamos imaginar... Sabia que isso tudo muito provavelmente seria inútil, mas o Liceu era a única ligação que tinha com o suspeito .Enquanto dirigia como louca para lá, Scully vislumbrou mais uma vez o desenho, agora jogado sobre o banco do passageiro como uma ameaça sinistra naquela cópia a carvão da famosa pintura "A Lição de Anatomia" de Rembrandt...Scully já vira dezenas de vezes aquela imagem, numa reprodução na biblioteca da faculdade: sete médicos acompanham atentamente o mestre mais experiente, que disseca o braço esquerdo de um cadáver...só que neste desenho...além de ter seu braço direito dissecado...o cadáver tinha... a face de Mulder! ****** Na escola, carros de polícia dominavam toda a cena, numa confusão sem igual. Skinner, que já a esperava na escadaria, anunciou que não havia nenhuma pista de Telcer... _ Scully, quem é esse homem? Você disse que havia sido uma armadilha desde o início...Uma armadilha para Mulder? É alguém que ele prendeu? _ Telcer...Telcer _ Scully repetia como se estivesse esquecendo algo, enquanto andava de um lado para outro...e seu corpo inteiro entrou em alerta quando entendeu suas próprias palavras..._ Não senhor...é alguém a quem ele magoou . Alguém muito perigoso, e eu só percebi porque ele quis que eu soubesse..._ mostrou então o desenho ao diretor assistente, que continuou com ar intrigado, sem entender muito além de reconhecer o rosto de Mulder no esboço..._ Esse desenho, além da ameaça óbvia à vida do agente Mulder é um quadro famoso, que indica que o assassino, além de desenhar muito bem, é um conhecedor de artes...reconheci o traço, há desenhos exatamente como esse nas paredes do gabinete do prof. Telcer. O pior, é que só então percebi o óbvio...Telcer...é na verdade um anagrama estúpido de Lecter! Nosso homem é Hannibal Lecter e quer vingar-se e Mulder pela morte de Clarice Starling...armou tudo isso, as mortes imitando casos do Arquivo X para ficar perto de Mulder e atraí-lo exatamente para onde queria...- os olhos azuis estavam arregalados e a expressão era de fúria. Horas depois No gabinete de "Telcer", a única pessoa que ainda repassava cada item em busca de pistas era Dana Scully. Mesmo depois que a equipe aplicou o chamado pente fino, em busca de qualquer indício que pudesse denunciar o lugar onde o suspeito estaria com sua vítima, Scully ainda sentia que não estava enxergando o óbvio. Sua esperança estava baseada no que leu sobre Hannibal: sua inteligência só era ofuscada por seu ego. Se isso realmente era verdade, o que era indicado pela maneira como provocou-a para que descobrisse sua verdadeira identidade, havia uma chance de Mulder ainda estar vivo, enquanto Lecter tramava a vingança perfeita. O bilhete fora claro, com um desenho que ela reconheceria facilmente. O anagrama escolhido para nome os chamava a todos de idiotas... Ele a queria ali, em seu gabinete. Por quê? _ Por quê me trouxe até aqui?_ perguntou como se paredes e livros pudessem responder- lhe. Então, seus olhos passearam novamente pela estante de livros e a resposta estalou como uma bofetada: Moby Dick! Apanhou o volume como quem segura no colo um artefato explosivo, esperançosa de que ali estivesse uma pista do que Lecter queria dela...e havia: " Srta. Scully. Se chegou até aqui, é porque tem condições de participar do pequeno jogo que vou propor-lhe, Há duas opções: a primeira é aceitar o jogo onde poderá salvar seu parceiro, ou perder a vida junto com ele. A segunda é enviar os cães do FBI atrás de mim e recolher a carcaça da raposa, é claro, sem algumas partes que considero iguarias...Decida-se logo e vá para sua casa. Terá noticias minhas." Noite, apartamento de Dana Scully Ela sentia-se como um animal enjaulado, caminhando de um lado para outro impacientemente dentro de seu apartamento, que nunca antes lhe parecera tão pequeno. Tomara a decisão de não contar a Skinner sobre o bilhete e aceitar o jogo de Hannibal. Gastara as últimas horas , de espera angustiante, lendo tudo o que encontrara nos arquivos do FBI sobre o canibal, inclusive um perfil traçado pela própria agente Starling, nos meses que precederam seu desaparecimento. Hábitos refinados, inteligência brilhante, e a incrível capacidade de induzir suas vítimas a cometerem atos horrendos contra si mesmas. Conseguira matar outro interno do Manicômio Judiciário apenas falando com o homem...e convencendo-o a suicidar-se... As notas de Clarice narravam uma espécie de jogo, onde o psiquiatra trocava detalhes da vida pessoal da agente por pistas de um criminoso procurado...parecia alimentar-se dos sentimentos mais profundos dos que escolhia... A única coisa que dava a ela alguma esperança era algo em que quase todos os perfis traçados concordavam: Hannibal Lecter era tudo, menos um mentiroso. Assim, podia acreditar que Mulder ainda estava vivo e que tinha uma chance de salvá-lo... 4:00 a.m. num bairro afastado Seguindo as instruções que recebera apenas quinze minutos atrás, Scully entrou no edifício abandonado da rua Elm 1512. Precisava manter-se calma e senhora dos seus sentidos, se quisesse ter alguma chance contra Lecter. Até agora, estava seguindo as regras propostas por ele, pois não queria colocar a vida de Mulder em risco ainda maior e as regras estavam sendo como ela imaginava, um reflexo do que sabia sobre seu oponente. Embora o elevador desse indicações de que ainda funcionava, ela preferiu subir pelas escadas até o 4°andar, onde então, seu destino poderia ser definitivamente selado, aquela noite. No quarto andar, depois de sair do hall de escadas, encontrou uma grande porta entreaberta, de escapava luz e música de piano. Reticente, Scully parou por um minuto antes de atravessar a porta e recapitulou mentalmente o que sabia sobre aquele homem. Tinha de agir com inteligência. A vida de Mulder dependia disso e, agora a sua própria,... Depois da porta, o grande salão era um contra-senso em relação ao prédio abandonado em que entrara. A decoração era suntuosa, e perecia mais que entrava num outro universo. No fundo, um tanto afastado de sua linha de visão, estava um homem, ao piano. _ Venha até aqui, Dana. - ele a chamou sem abrir os olhos, como se mantendo-os fechados, pudesse sentir melhor a música._ Usa sempre o mesmo perfume...é um traço de personalidade... _ Muito bem, Dr.. Estou aqui, como me pediu, sozinha e ninguém sabe onde estamos. Agora quero ver o agente Mulder! _ Há tempo para tudo. Agora estamos ouvido música...não relaxa nunca, Dana?_ A voz daquele homem era pausada e perturbadora, e algumas palavras eram pronunciadas de uma maneira quase libidinosa _ Você verá seu parceiro em breve. Entretanto, gostaria que fosse até a segunda porta à sua direita e vestisse as roupas que estão separadas para você, lá. Um bom jantar pede trajes adequados. _ sentindo que ela hesitava, assumiu um ar mais duro e incisivo _ Por favor, faça o que estou pedindo, enquanto estou apenas pedindo... A idéia de um jantar, com um homem com aquela fama, deixava todos os sentidos da mulher em alerta máximo. Obedeceu, rezando para não ter de enfrentar o que mais temia quando voltasse... No quarto, sobre uma grande cama arrumada, encontrou um vestido longo, sapatos exatamente do seu número e uma caixa preta de veludo, dessas onde se guardam jóias. Dentro, um colar de esmeraldas. Lá fora, a música enfim parara. Um arrepio percorreu toda a coluna de Dana Scully, até bater no cérebro já com uma face mais definida: a do medo... Algum tempo depois, quando Scully finalmente retornou a grande sala, o cenário estava um pouco diferente. Havia agora uma mesa arrumada, com candelabros e flores e um homem de Smoking sentado à cabeceira. Era Mulder!! Ela ignorou os olhares de Hannibal e correu até o parceiro, que estava desacordado e preso à cadeira. Tomou-lhe o pulso, examinou-lhe os olhos, parecia bem, apenas deveria estar drogado... _ Está linda, Dana. Viu? Cumpri o prometido. A raposa ainda está bem e viva. Chegou a essa conclusão com seu breve exame? _ Ele está drogado! O que fez com ele? _ Apenas conversamos...longamente. Como ele não parecia muito disposto a conversar, tive de incentivá-lo com algumas maravilhas químicas...nada muito prejudicial. Sente-se senhorita Scully. Durante o jantar conversaremos sobre nosso propósito aqui. ********* O ar parecia não chegar aos pulmões de Scully, que sentada à mesa estava frente a frente com Mulder, cujo olhar parecia uma janela para o vazio, enquanto Lecter permanecia silencioso na cabeceira. Percebendo que a mulher ruiva dificilmente estaria interessada em apreciar a excelente receita de fígado de ganso e ervas que ele preparara, tomou a iniciativa de começar a explicar o que estavam fazendo ali, mais pelo prazer que antecipava sentir ao perceber as reações da agente do que pela necessidade de explicar alguma coisa... Fitou demoradamente os olhos azuis da mulher e com aquele sorriso que Scully já classificara de incômodo, iniciou sua narrativa . _Muito bem, senhorita Scully. Se está sem apetite, vamos direto às regras do nosso "jogo". Como eu já disse anteriormente, você tem duas opções. É, você ainda tem a opção de levantar-se agora, descer aquelas escadas e ir para a segurança do seu apartamento. É claro, isso implica em esquecer a existência do elegante cavalheiro sentado a sua frente. Ele morre agora e você vai embora. A outra opção, significa tomar do copo de vinho que lhe foi servido, e que não vou negar que está drogado, e assim fazer a sua aposta. Sobrevive ao meu jogo e sairá daqui levando seu querido parceiro...Tenho certeza que leu tudo o que havia de disponível ao meu respeito, então não vou subestimar sua inteligência com explicações maçantes sobre o tipo de jogo... sou um psiquiatra e gosto de explorar mentes humanas ... Bom, se você não sobreviver...acho que ele também não sairá daqui com vida. Este é o momento de decidir e não me importo se quiser abreviar minha diversão...sou um cavalheiro acima de tudo_ Lecter deliciava-se como se pudesse captar do ar o cheiro do medo, que seria a única maneira de perceber o que o olhar impassível da agente Scully escondia muito bem... Sem hesitar, Scully tomou nas mãos a taça a sua frente, fitou a face lívida de seu amigo e parceiro e levando-a finalmente aos lábios, selou o pacto sinistro... _ Não esperava outra atitude Srta. Scully, depois das coisas que soube sobre você, graças a longa conversa que tive com o Sr. Mulder, é claro, com um pequeno incentivo químico...ele não é muito cooperativo em condições desfavoráveis, não é?_ Lecter consultou o relógio de pulso antes de continuar_ Temos ainda alguns minutos antes que a droga que acabou de beber faça seu efeito esperado. Sabe por que está aqui, Srta. Scully? _ Estou aqui porque você foi enganado! Porque você acha que Mulder matou Clarice Starling, mas nessa história sórdida, ele foi uma vítima, tanto quanto ela... _ Só que ela está morta! Morta por causa dele e ele vai pagar por isso..._somente nesse momento foi que se pôde perceber pela primeira vez uma alteração na voz de Lecter, que sibilou com ódio as palavras... _ É justo fazer um homem inocente pagar por algo que não fez? É assim que exorciza seus demônios? Elegendo um culpado, ignorando os fatos e engendrando e levando seus planos doentios até as últimas conseqüências, sem se importar com que é atingido, desde que satisfaça aquilo que você estabeleceu como verdade? Não consegue ver? Foi uma armadilha, tramada por homens covardes... Mulder não é um covarde. Seu único crime é ser verdadeiro e obstinado e ele nunca quis capturá-lo ou fazer qualquer mal a Clarice...porque se ele o quisesse, Dr., pode ter certeza de que não estaria dando as cartas agora..._Scully já não sabia mais se estava agindo corretamente. Atacava aquele homem não porque planejara isso, mas porque não conseguia evitar...Ao mesmo tempo tentava imaginar que tipo de droga teria ingerido e se ela já começava a fazer efeito, inibindo-lhe alguns mecanismos de censura... _ Defende ardentemente seu parceiro, não é? Vai ter a oportunidade de me falar sobre isso...mais tarde. E eu vou querer toda a verdade... não apenas aquelas que você escolhe para usar. Neste momento, basta que saiba que não me interessa seu conceito de inocência. Existem linhas tênues que escolhemos cruzar...não venha dizer a mim o que merecem os inocentes! _ Pelo amor de Deus, Dr. Lecter, tem de me ouvir_ Scully já não controlava tão bem seu cérebro e parecia pronta a deixar-se entregar às lagrimas... _ Deus? Você agora está apelando em nome de Deus? Crê realmente em um Deus, agente Scully?_ os olhos dele brilhavam, ao perceber que sua diversão estava apenas no começo... _ Tenho...tenho a minha fé..._as palavras já não se agrupavam com a facilidade habitual em sua mente. _ O que é fé? Como você pode dizer que tem fé, se baseia toda sua vida apenas em coisas que pode explicar e experimentar? Ou você tem a pretensão de explicar também a fé? Você mente, Dana. Mente porque perder sua fé significa afastar-se das lembranças, romper com o passado, mostrar à sua mãezinha que você discorda dela, que se considera melhor do que ela, porque vê além dela. E você não pode fazer isso, não é? Pessoas boas não fazem isso, não se consideram acima de ninguém, não magoam seus pais, seu padre... Você não tem fé. Tudo o que você sabe contraria isso...mas você vive esta farsa porque precisa de aceitação, é fraca, Dana Scully. Essa máscara de boa moça, a obrigação cristã da bondade, aceitar dogmas e crenças que vão contra tudo aquilo que você sabe que é a verdade...tudo parte da sua barganha por aceitação. Você criou uma classificação para as mentiras: algumas são aceitáveis e outras inaceitáveis. E por que é que os delírios do paraíso que sua mãe lhe ensinou são mais aceitáveis do que as idéias de salvação de uma seita fanática qualquer? Por que você enxerga alguns como aproveitadores da inocência do povo, incutindo medo e superstição como forma de manter poder, mas aceita essa cruz em seu pescoço como um símbolo de libertação cristã? Por que você aceita apenas algumas mentiras? Você é muito pior que o seu parceiro. Ele é sincero em sua busca louca. Ele realmente acredita, ainda que isso signifique romper com tudo, assumir uma postura antipática, ser taxado de estranho e louco...mas você não! Você, em toda sua falsa grande personalidade, vive a mentira para ser aceita, para não ser notada, para não atrair atenção sobre você! Não suportaria que apontassem pra você, não é Dana Scully? A sala de jantar começou a perder a estabilidade que ela sempre achou estar garantida pela imutabilidade das leis da física...sem dúvida a escolha agora era irreversível e Lecter já começara a agir. Sentia-se confusa, mais afetada pelo efeito da droga do que pelas palavras de seu adversário...ora ...ela sabia explicar muito bem sua relação com a fé...sabia...mas os olhos estavam pesados e a voz daquele homem era como uma praga bíblica de gafanhotos ferozes zunindo em seu cérebro...Minutos depois, Hannibal Lecter erguia o copo sozinho num brinde sombrio: _ "A verdade voz libertará..." Será que a Sr.a Scully guardou aquela lápide? *********** Mulder agora estava preso e amordaçado numa espécie de maca vertical. Seu corpo inteiro doía terrivelmente e embora o sono o atormentasse, não podia perder a consciência novamente... Na verdade, durante as últimas horas ele estivera desmaiado, como uma reação de seu corpo a todas as drogas que Lecter lhe impingira. De seu lugar, Mulder velava o sono de Scully, na cama logo a sua frente e tentava imaginar como aquele animal conseguira capturar sua parceira! Sentia- se imensamente culpado por ter ido àquele encontro sem avisá- la, por ter agido impulsivamente e agora vê-la ali, exposta àquele louco...Ele mesmo não conseguia se lembrar de muita coisa desde que fora atacado no monumento a Washington...todas as lembranças posteriores a isso estão nubladas e confusas, como pesadelos...lembrava-se de pensar em Scully, conduzido por uma voz monótona e de ter revivido muitas coisas e sensações que envolviam sua parceira...sentia-se invadido, como se estivesse cansado de lembrar coisas... Enquanto divagava, Mulder viu seu captor entrar no quarto e pôde ater-se com mais detalhes à face do homem que se revelara a ele naquela noite... Telcer...ou melhor, Hannibal Lecter... Depois de examinar Scully, Lecter finalmente voltou sua atenção ao alvo principal, embora menos interessante, de seus intentos. Caminhou devagar em torno do homem preso e amordaçado como ele mesmo já estivera muitas vezes, mas que não demonstrava a serenidade que ele havia aprendido a manter, ao longo de muitos anos. Parou a centímetros da face de Mulder e fitou demoradamente dentro dos olhos o homem que destruíra sua vida... Mulder encarou - o de volta e, se é verdade que os olhos falam, ele desafiou com um olhar faiscante o homem que ameaçava a única coisa que importava em sua vida... Por alguns instantes, enquanto os dois permaneciam frente a frente, o próprio tempo que Scully sempre disse ser invariável universalmente parou. A tensão não era mais medida nos homens, ela já ganhara o ambiente todo e podia ser tocada como um campo elétrico... _Quer dizer alguma coisa, Sr. Mulder? Acha que merece dizer alguma coisa? _ Lecter saboreava o momento, como se a simples constatação de que o outro era um adversário a altura o deixasse impregnado de satisfação. Num gesto rápido, libertou Mulder da mordaça... _O que é que você quer com ela, Lecter? Se você tocar nela... _ sua voz estava embargada pelo ódio e pelo desespero... _Você faz o que, Mulder? Chora? É exatamente isso que eu quero que você faça...quero que chore até secar...até que não haja mais força para gerar lágrimas...e que seu peito seja rasgado pela dor mais forte que um homem pode sentir...Quero vê-lo sofrendo, agente Mulder e quando eu estiver satisfeito, talvez permita a você o direito de por fim a sua existência...ou talvez eu mesmo faça isso. _ Você se engana se pensa que pode usá-la para me destruir. Ela é minha parceira e vou desejar matá-lo se fizer mal a ela, mas não vai me destruir assim. Ela não significa para mim o que Clarice significava para você. Você errou, Lecter...errou feio ao planejar sua vingança _ A expressão de Mulder assumiu a frieza de um iceberg. _ Agora é tarde, agente Mulder...Sabe...você "fala dormindo"..._ Lecter sorria placidamente diante da tentativa tola que o homem fazia de tentar salvar a mulher de olhos azuis. Ele amordaçou Mulder novamente, apesar dos protestos do agente e deixou tranqüilamente o quarto. Naquela noite... Scully desperta , mas não totalmente. Suas pálpebras estão ainda muito pesadas e a única fonte de luz que divisa, uma luz trêmula e imprecisa, não ajuda muito na tarefa de manter-se desperta. Uma face aparece diante de seus olhos, mas não lhe é possível distinguir aquele rosto...não são formas familiares a ela...parece haver um sorriso nos lábios do rosto indefinido....uma voz que soa tão longe...uma dor....sim isso ela distingue, isso ela sabe o que é. Uma dor aguda no braço direito, como se uma agulha a estivesse penetrando e um liquido denso estivesse passando para suas veias. O medo que poderia ativar seus sistemas de defesa cede lugar novamente ao entorpecimento dos sentidos. O quarto já não tem paredes sólidas, elas estão translúcidas, e líquidas e é como se escorressem constantemente em direção ao infinito do piso. Scully sente seu corpo inteiro formigar, assolado por milhares de pequenas patas ásperas sem destino certo, apenas caminhando sobre ela...o gosto de fel saiu da garganta e lhe chegou aos lábios, causando-lhe um mal estar tão grande quanto a lembrança do primeiro cigarro que roubou de sua mãe...precisava livrar-se daquele gosto....Enquanto as paredes do quarto insistiam em mudar de cor e textura, esforçava-se para erguer a cabeça, mas era como se toneladas a empurrassem para baixo...era impossível lutar. Foi então que percebeu a voz...a voz antes quase inaudível tornava-se clara e falava com ela... _ Dana? Você está confortável? Sente-se bem, Dana? Não, ela não estava confortável, não se sentia nada bem e aquilo...aquilo era um pesadelo...e quem disse àquele homem que poderia chamá-la de Dana? _ Você logo estará em casa, Dana. Você vai conhecer o lugar que construiu para si mesma ao longo de toda sua vida...o único problema, é que talvez você não goste nada de olhar para ele... _ Eu...eu...quem...- as palavras saiam desconexas, sem sentido. Ela não conseguia pensar, não conseguia falar, não conseguia deixar- se assumir de vez pela inconsciência...era se como alguma coisa a forçasse àquele estado semiconsciente... _ Olhe para a luz e tente enxergar o lugar que vou descrever para você. Ele existe dentro de você, só vou ajudá-la a dar forma às suas lembranças, a transformá-las em algo mais palpável. Vamos tentar torná-la menos diáfana, Dana Scully ...pelo menos para você mesma. Siga a luz pela porta que está aberta no final da alameda. Como ela é ? Como é o que esta atrás da porta? Você ainda não vê, mas eu descrevo para você : é um lugar escuro, está vendo? Não tenha medo, Dana. Apesar da escuridão, você conhece esse lugar como ninguém e não precisará de nenhuma luz para guiá-la... _ Não posso, eu tenho medo..._sua voz era um fio, repleto de pavor. _ Continue, não tema. Entre agora. Vê? Aí estão algumas coisas que você guardou há algum tempo. O que você vê logo na entrada é um corredor, com muitas portas... _ Um corredor....um corredor com muitas portas..... _ E é um corredor escuro, não é Dana? As paredes não são brancas...são cinzentas...estão sujas e tem um cheiro no ar...o teto está baixo... Não dá a sensação de que está cada vez mais baixo? Abra uma porta...a primeira delas....e depois poderemos sair desse lugar, por hoje. O que vê dentro do cômodo que abriu? Tem alguém lá...quem é ele, Dana Scully? Quem é o homem que você esconde nesse cômodo escuro? Será que é seu pai? Ele está lá. Está muito triste...seu pai está chorando, por sua causa. Você sabia que o fazia chorar assim? Que a tristeza o matou? Sabia que ele morreu porque você o decepcionou a ponto de seu coração parar de bater, Dana? _ A voz de Lecter, em seu sibilar doentio, conduzia Scully cada vez mais fundo naquele pesadelo... _ Não, não fui eu...eu o amava _ As lágrimas e os soluços tornavam suas palavras quase um murmúrio, que implorava para sair daquele lugar. _ Eu sei...eu sei...mas ele está morto agora...está apodrecendo neste cômodo...não precisa mais preocupar-se com ele, você já o matou...Agora pode sair. Volte pelo corredor, Dana ...siga a chama da vela que estou segurando para você. Viu, você tem a mim. Não precisa dele. Eu tirei você de lá...agora você vai dormir um pouco...e sonhar...- dizendo isso, preparou-se para aplicar nela o conteúdo de outra seringa. Scully não reagiu. Não era capaz de mover-se, embora pudesse ver e ouvir o que acontecia. Então tudo ficou escuro... De seu desconfortável camarote, Mulder assistia a tudo e já não agüentava mais . Mil vezes escolheria, se pudesse, que Lecter o matasse agora e o poupasse de ver Scully sofrendo... Lecter não mediria esforços para que Mulder sentisse cada palavra, cada expressão de desconforto da parceira...mas sua curiosidade não permitia que ele ignorasse os protestos abafados do agente...Queria ouví- lo gritar de desespero. Mesmo que isso implicasse em ouvir as besteiras que ele tinha a dizer... Algumas horas depois, Lecter voltou ao quarto e livrando o homem definitivamente da mordaça, sentou-se diante dele, munido da mesma expectativa com que analisava seus pacientes mais monótonos... _ Canalha!!! _ foi a primeira expressão que o outro conseguiu articular ao ver-se livre da mordaça. _ Tão criativo...vai gastar esse momento me elogiando ou gostaria de me provar que é digno do trabalho que estou tendo ? Será que você é tão maçante que eu deveria apenas convidá-lo para jantar? _ Você joga sujo por que é um covarde que teme a inteligência, Lecter! Tem medo de não vencer seu jogo de palavras se Scully tiver chance de raciocinar? Que diabos! Pare de aplicar essas porcarias nela! Está me ouvindo? Seu covarde maldito... _ As drogas são apenas para quebrar os bloqueios que ela construiu em torno de suas lembranças e sentimentos...logo não serão mais necessárias. Não preciso discutir com um psicólogo medíocre as técnicas que uso em psiquiatria..._ a expressão do homem era de enfado. _ "O psicólogo medíocre" classifica você como um psicopata da espécie mais comum, disfarçado sob um ar intelectual... O que faz você diferente de todos os outros malucos que dividiam com você o ar infecto do manicômio judiciário? _ Muito divertido... realmente acha que pode me vencer com as palavras, agente Mulder? Pois bem. Vai ser interessante acrescentar ao seu fracasso final o fato de ter tentado tudo...mostrar-lhe o quanto é limitado...A sua chance está aí, Sr Mulder...fale com ela...salve-a e a si mesmo se acha que é capaz... Depois disso, o homem ignorou Mulder e chamou por Scully... _ Hei...Srta. Scully...hora de conversar mais um pouco com seu médico. _ Hummm?_ porque Deus não lhe concedia a merecida inconsciência total? Porque era mantida nesse estado de confusão, onde o real e o imaginário se juntam apenas para formar figuras sem contornos? _ Muito bem...agora quero que olhe para a luz...lembra-se dela? Ela vai conduzi-la novamente...Vamos vasculhar um pouco aquela construção onde já entramos uma vez...aquela com muitas portas, onde estava seu pai. Lá também tem um arquivo, onde você guarda alguns papéis velhos. Ora, não é um diploma de medicina esse papel amarelado aí dentro? Ou seria um diploma em física? Ou seria apenas lixo, descartado em nome da indecisão, da insegurança...Foi medo? Foi isso que a fez abandonar a medicina? Foi sua incapacidade que a levou a escolher lidar com os mortos ao invés de tratar dos vivos? _ Eu...eu queria ser útil...ajudar...buscar a melhor maneira...eu não tenho medo de fracassar, nunca foi por isso... _ Mentira! Não minta mais para você mesma Dana...precisa aceitar e entender suas escolhas_ Lecter conseguia manter sempre aquele tom monótono e cadenciado... _ Ouça Scully...não deixe que ele engane você...lembre-se da verdade...você abandonou a medicina porque acreditou que podia ser mais útil, que podia ir além! E você fez isso, você se transformou numa pessoa capaz de resolver problemas muito além da capacidade da maioria!_ Mulder tinha de tentar ajudá- la a manter a lucidez...embora não soubesse exatamente como... Para Scully, aquelas vozes não eram absolutamente distinguíveis e ela já não sabia mais quem estava falando o que...via-se agora numa sala, diante de sua própria imagem, enquanto aqueles dois homens continuavam falando e cenas de alguns momentos de sua vida eram apresentados como se fossem trechos de um filme qualquer... _ E por que é que essa capacidade fantástica não impediu que sua irmã fosse assassinada? Pense bem, se você não fosse a mulher do FBI, Melissa estaria viva! Sua irmã, seu sangue...você fez com que ela se tornasse vítima de assassinos! Não é irônico? Eles queriam matar você...mas eles mataram sua irmã e mataram sua filha...Emily morreu e você não foi capaz de impedir! Seu pai está morto porque você escolheu essa maldita carreira no FBI! Que droga de médica você é afinal? Você não é nada na verdade! Nem tornou- se uma boa médica, nem é uma agente capaz, envolvendo-se na busca de um homem louco ao longo de sete anos em que sua vida desabou!! Pense nele...o homem louco e egoísta a quem dedicou a vida dessas pessoas...elas morreram por isso? Por essa relação ridícula?_ Lecter não parava e os protestos de Mulder ao fundo soavam como música para ele, que estava extasiado com a expressão de profundo transtorno que provocava na da mulher semi - adormecida... Lutando contra as palavras que invadiam sua mente sensibilizada pelas drogas, Scully amparava-se na força de seu espírito para resistir àquelas acusações, e também na outra voz que ouvia o tempo todo e que embora não estivesse clara, sabia ser de Mulder. Dentro de sua mente, via com nitidez as pessoas que amara e perdera, mas não conseguia ouvi-las...não entendia o que diziam para ela...era como se estivessem atrás de um vidro muito espesso e embora visse o movimento de seus lábios, não sabia se eram palavras de conforto ou de acusação. Ela precisava entender o que diziam... _ Nunca questione os sentimentos dela por Emily ou Melissa ou pelo capitão Scully...você nunca os entenderia porque estão acima da podridão da sua mente, Lecter. Você nunca conheceu isso! Lecter conhecia sim o sentimento que aquele homem descrevia...ele mesmo já sentira através de Clarice o sentimento mais singelo e delicioso de que fora capaz. Ela transformara-se em elo com um lado que ele achava morto e que fazia seu corpo sentir-se possuidor de uma alma novamente....Clarice era simples na certeza de que agia da melhor maneira que seu coração era capaz e sofria com suas falhas...ela o atraia porque era capaz de sentir, porque era honesta... Mulder percebeu que seu adversário estava absorto e tentou aproveitar o gancho ..._ Esta pensando nela? É em Clarice que seus pensamentos estão agora? Ela era especial, não era?...assim como Scully é especial e você sabe disso... Você percebeu isso...Não cometa uma grande injustiça, Lecter. Sabe muito bem que as drogas e sua sugestão poderão destruir a mente dela, você sabe o poder disso...mas não será a verdade... _Pouco me importa a verdade, contanto que o veja sofrer! Você a tirou de mim! _a fúria era nítida, mas Lecter dava também sinais de algum transtorno...não estava mais com o aspecto de domínio total que demonstrara até então. _ Você vai matar Clarice novamente...._ Mulder tentava desesperadamente aproveitar - se da identificação que Hannibal provavelmente criara entre Scully e Clarice... _Cale-se! _ dizendo isso, abandonou-os sozinhos e saiu como se tivesse pressa de ir a algum lugar. Não voltou mais naquela noite, e embora Mulder chamasse pela parceira insistentemente, não obteve respostas e só lhe restava confiar na inteligência e sanidade da mulher, que agora deveria estar travando uma batalha com seus próprios fantasmas, onde Mulder não podia ajudá-la... Deixou- se entregar ao sono, apesar de todo o desconforto físico que sentia...ainda estavam vivos e ele não desistiria de lutar pela vida de Scully enquanto o sangue corresse por suas veias. A casa de muitos cômodos onde entrara e fora abandonada seguindo a voz e a luz insegura da vela parecia maior a cada minuto. As portas atrás das quais Scully encontrava coisas que julgava há muito esquecidas multiplicavam-se exponencialmente e ela tentava descobrir qual delas levava à saída. Relacionamentos desfeitos, medos que julgava superados, dúvidas e culpas. Sua filha, a filha que nunca tivera, mas que era sua...Emily...ela podia ouvir a voz da menina chamando por ela, mas não a encontrava! Onde ela estava? Ao mesmo tempo podia perceber que Mulder estava ali e que tinha algo a dizer...e ela insistia para que ele falasse, mas ele continuava mudo, apenas olhando para ela. Por que ele não a ajudava? Por que não lhe apontava o caminho para encontrar Emily e sair daquele inferno? Como se a presença muda do parceiro a perturbasse ainda mais, Scully decidiu que fugiria também dele, e colocaria fim àquela sensação de que algo precisava ser revelado, de que ele escondia algo dela e de que a cobrava sobre algo que ela tinha medo...correu sem direção e, inesperadamente viu - se na rua, de volta à alameda que levava à entrada da casa e embora quisesse voltar para continuar procurando por Emily, só conseguia avançar na direção oposta, fugindo... Nas ruas do que parecia ser uma cidade fantasma de arquitetura surreal, buscava um caminho que a levasse a ordem do raciocínio, que fizesse sua cabeça parar de girar... Continuava desesperadamente explorando o lugar, tentando encontrar a lógica que a levaria para longe dali, de volta a algum lugar seguro...Lógica...precisava de clareza, lucidez...tinha de raciocinar, mas sentia-se impedida...tudo o que conseguia era sentir...e tudo o que sentia agora era culpa e medo... Deus, era disso que se compunha sua mente? ************** O amanhecer só podia ser percebido pela mudança na temperatura, que se tornara mais agradável, como se a parede atrás de Mulder fosse atingida pelo sol e irradiasse para perto de seu corpo dormente uma sensação viva de calor... Tão logo deu-se conta de que ainda estava vivo e de que Scully continuava no mesmo lugar, Mulder foi trazido de volta ao pesadelo pela chegada de seu torturador... Como se o agente não estivesse ali, o homem sentou-se na cama e tocou a face de Scully com as costas da mão, gentilmente... _ Hei...Como vai você hoje, Dana? Vejo que passa cada vez mais tempo no lugar que a ensinei a enxergar, não é? Como é que andam as "obras de construção" ? Em ritmo acelerado, eu espero...O que é que você vê aí, Scully? O que é que você conseguiu construir com o material miserável que acumulou ao longo desses anos todos? Você está lá agora?_ ele inquiria com voz doce a mulher a sua frente, que estava em algum lugar e não era naquele quarto... Scully tornara-se refém de suas próprias lembranças, distorcidas pela sugestão de Lecter, que faziam surgir muros intransponíveis em cada rua que encontrava naquele espiral de loucura , enclausurada em um mundo etéreo de lembranças ruins e assuntos mal resolvidos. Como se fosse possível modelar os medos e culpas de alguém. Lecter construiu com eles uma prisão de onde ela não conseguia achar saída... A névoa tornava difícil destinguir as imagens reais das desenhadas pelo medo, dentre todas as sombras que repentinamente projetavam-se nas paredes sujas do casario em ruínas do cenário. Tudo era torpe e distorcido...Nada fazia sentido. Enquanto ouvia o som de seus próprios passos ecoando noite adentro, já não enxergava mais o caminho a seguir, os olhos obstruídos por lágrimas de pesar e dor...a mente girando num turbilhão de pensamentos desconexos, doentes...sentiu que, de fato, enlouquecia. Andava ainda, mas não sabia porque. Respirava e sentia seu coração pulsar, o sangue fluir pelas veias e artérias de seu corpo, mas não sabia porque. O peso da culpa e da dúvida dominava seus pensamentos como uma multidão de insetos inquietos, destruidores, que consumiam sua mente com apetite feroz. Num instante de lucidez incompreensível, estacou. Olhou ao redor e, sentindo- se como o afogado que volta a tona pela última vez, em busca do ar que já não pode mais achar...suspirou... Buscou a arma presa ao coldre, posicionou o cano de encontro a têmpora direita.... lembrou-se de um nome, sempre repetido mas nunca antes com tanto desespero...._ Mulder!_ disse para o vazio, num último esforço para libertar-se daquele pesadelo... Um disparo único. O alívio imediatamente tomou seu corpo, que tornou-se leve, como se a matéria fosse transformada em sonho ....os pensamentos diminuindo em número ao ponto de tornarem-se novamente compreensíveis...apenas no último segundo de vida que lhe restara... Ali, naquele lugar sujo e desolado, jazia imóvel o corpo de Dana Scully, enfim em paz...ou seria sua alma, que agora encontrava a morte, contrariando qualquer expectativa cristã? Percebendo que estava muito perto de seu objetivo, Lecter voltou sua atenção novamente para o homem que agora já parecia quase vencido, mas que ainda iria sofrer o golpe final da derrota... _Muito bem...chegou a hora da raposa ver a verdade...ver quem esteve ao seu lado durante os últimos anos da sua vida inútil...em quem você confiava para manter sua "honestidade". Sua veia honesta, não é assim que a chamava? Olhe para ela agora, Sr. Mulder...olhe para quem ela é de verdade! Fraca, destruída por um pouco de conversa! Olhe para ela enquanto ela mesma põe fim ao espetáculo patético em que se transformou a vida de vocês dois!_ dizendo isso, Lecter engatilhou a Sig Sauer de Mulder e a colocou na mesinha ao lado de Scully. Depois, caminhou até o agente, encarou-o nos olhos demoradamente, como se pudesse beber do sofrimento que eles não conseguiam esconder e depois sentou-se impassível a frente de Scully... O coração de Mulder batia na garganta, nas veias extremamente dilatadas de seu pescoço, dificultando sua respiração e turvando de ódio sua mente...ainda preso à maca, sentia as cordas cortando a pele dos pulsos, como resposta ao imenso e inútil esforço que fazia para libertar-se...Naquele momento ele sabia que era capaz de matar com as mãos nuas e com requintes de crueldade. Nada o satisfaria, senão o sangue de Hannibal...mas se ela morresse, talvez nada o satisfizesse senão seu próprio sangue... Para Lecter, a imagem de Scully era como uma pintura, o resultado do trabalho esmerado de um pintor cruel, que expôs sem tinta ou pincéis a insanidade que habita mesmo a mais plácida das almas. A mulher, sentada na cadeira de madeira simples, tinha o olhar perdido, como se vagasse a milhares de quilômetros dali, nos restos flutuantes de um barco naufragado. O azul faiscante de seus olhos foi substituído por um cinza mortiço, emoldurado por sombras escuras, numa face lívida como a de um cadáver. Talvez ela tivesse sido transformada exatamente nisso, num cadáver diferente, cuja alma morreu, deixando apenas um corpo com sintomas equivocados de vida... Mulder estava desesperado e olhava para a cena dantesca à sua frente, certo de que estava no seu inferno... Scully tinha a arma nas mãos e o olhar parado num ponto distante... Ele sentia exatamente o que Lecter disse que ele sentiria ...seu peito estava sendo rasgado ao meio por uma dor insana. __ Scully! Não! Não faça isso, por favor...Você não vê? Isso não é você, não é a sua vida, é o que ele quer que você seja...Pense Scully...pense....você precisa reagir! Mulder não sabia mais a que apelar...Lecter havia atacado e minado todas as referências de vida de sua parceira...E aquelas pessoas não estavam mais ali para trazê-la de volta à sanidade, dizendo que nada daquilo fora culpa dela....Todas estavam mortas e nunca dariam a ela o conforto de que precisava, porque esse conforto estava lá, nas lembranças boas que Hannibal soterrara sob suas mentiras .Todas as pessoas, exceto uma... ele mesmo! _ Scully , ouça...você não pode fazer isso...Não pode porque tem um motivo para viver! Não pode...porque...eu...eu...preciso de você...Não pode me deixar, não pode por um fim a tudo que ainda temos para viver ..._ As lágrimas quentes desciam sem pudor e ele as sentia escorrendo pela face até chegar aos lábios, com o gosto salgado do desespero... _ Não faça isso porque eu...eu ..amo você, Scully!!!!_ Ele já começava a perder as esperanças de que pudesse ser ouvido e sentiu que morreria vítima da explosão de seu próprio peito no momento em que ela disparasse aquela arma contra si mesma... Alguns sons chegavam aos ouvidos de Scully como um silvo distante...ela imaginava-se morta, mas ouvia sons, ouvia um chamado... Então, pouco a pouco, seu cérebro voltava a registrar informações. Só algumas, talvez um fio de energia que ainda circulava entre as células cinzentas ocupadas em reparar o dano causado. Um fio de energia que permite que Scully busque imagens enterradas embaixo das camadas de lixo que se acumularam ali nos últimos dias de sua vida. Subitamente podia ouvir as vozes daqueles que antes apenas vislumbrava, num mover de lábios sem som... Uma menina muito ruiva brinca a sua frente, e chama seu nome:_ Dana, vamos, papai está esperando! Ele vai contar histórias para nós!_ a imagem tornou-se tão vívida, que podia sentir o cheiro de seu quarto, dos lençóis floridos onde aconchegou-se ou lado da irmã e do pai, que sorrindo abriu o livro e continuou a história da grande baleia branca...histórias do mar...o mar que aprendera a venerar como se ali estivesse de novo perto do pai...o pai que abraçou com amor no dia em que ele morreu...era natal? Não sabia mais, mas eles estavam felizes....O capitão a amava, sempre soubera disso. Melissa, ali com ela, sob o olhar protetor do pai, estava viva novamente e lhe dizia que estava bem...A dor existia, mas era suportável quando analisada sob o prisma do que vivera com eles, do que significaram e de quem realmente foram E agora ela sabia...Ele também a amava.... Ele...Quem mesmo a amava? A face de Scully continuava ainda sem expressar qualquer sinal de vida ...quando em seus olhos brotaram lágrimas difíceis a princípio, mas fartas no próximo instante. A mão direita, que ainda segurava a arma de encontro a cabeça girou lentamente até parar a centímetros da face de Lecter, que permanecia ainda sentado diante dela, como se buscasse o melhor lugar para um espetáculo. Antes que ele dissesse uma única palavra, Scully simplesmente puxou o gatilho... O sobressalto quase automático de Mulder diante da eminência do disparo foi interrompido por uma constatação pavorosa...não só não ouvira o som da disparo, como agora ouvia um bater de palmas...A maldita arma estava descarregada! Que brincadeira sinistra era aquela? _ Bravo! Bravo! _ era Lecter, que estava de pé, aplaudindo de maneira pausada e com uma expressão enigmática, num rosto que demonstrava visíveis sinais de abatimento..._ Acho que termina aqui, não é? _ ele falava com Mulder _ Parece que você ganhou o direito de viver por mais algum tempo, afinal. Sabe, agente Mulder...eu sempre cumpro as minhas promessas. Não seria estúpido de entregar a ela uma arma carregada, eu só precisava que ela decidisse se matar...o resto seria um prazer todo meu...Mas, como eu já começava a desconfiar, parece que ela joga bem, afinal. Prometi a ela que se sobrevivesse, sairia daqui com vida, levando você... Dizendo isso, Lecter caminhou até Scully, que estava imóvel, em choque e tirou a arma das mãos dela com uma delicadeza desnecessária para uma arma que ele sabia estar descarregada. Depois, aproximou-se mais, beijou- lhe gentilmente a face e sorriu... Parou uma última vez ainda junto à porta e voltou-se para encarar Mulder. _ Mas não se esqueça, Sr. Mulder...eu também prometi acabar com a existência da raposa..._ dizendo isso Lecter simplesmente saiu e fechou a porta atrás de si, onde um perplexo Fox Mulder deixou-se invadir pelo alívio de ver que o corpo pequeno e frágil da mulher ruiva a sua frente era agora sacudido por soluços e lágrimas...ela estava de volta.... O resgate demorou ainda o que pareceu uma eternidade para Mulder e só aconteceu porque Skinner recebeu um telefonema do próprio Lecter avisando do paradeiro dos dois. Levaram algum tempo para recuperar-se dos males físicos que sofreram e Scully, principalmente, precisou de mais tempo para livrar-se do efeito da estafa psicológica pela qual passou... apenas não se recuperariam nunca da certeza de que teriam um outro encontro com Hannibal Lecter... Diário de dana Scully Passei por uma experiência difícil, de confrontar meus medos e expectativas sob a influencia de um louco, um louco brilhante, cuja mente, impedida de estar com aquela que lhe fornecia a paz, só reserva agora lugar para a dor ... E foi assim que ele tentou mostrar-me meus próprios demônios, com dor e culpa. Eles existem, estão em mim e habitam meu ser como o fazem com todos nós, detentores da matéria prima etérea dos sonhos desfeitos, angústias, perdas e indecisões....mas também estão em mim os momentos luz e alegria, que vivi com todos e tudo que amei, com cada descoberta, com cada sorriso que já brotou em meus lábios ou nos de outros. É assim que sou feita...da busca do equilíbrio entre demônios e luz... E nessa busca tenho usado tudo o que conheço, todas as armas e ferramentas...e as duas armas mais importantes que tenho são a ciência e a fé... A ciência é a maneira que conheço de demonstrar minha fé. Com a ciência, tentando entender todos os desígnios naturais, não nego a existência de um criador, mas valorizo seus atos. Porque ao conhecer a complexidade do projeto da vida, me é impossível negar o projetista. Não posso deixar de enxergar em cada célula ou galáxia, a ordem perfeita que gera todas as coisas, que mantém todas as coisas, que contrapõe o caos com beleza intangível. A ciência me permite isso e é com ela que conto para estar mais perto desse ser, que acendeu a centelha da vida e permitiu a ela escolhas. A fé, a minha fé, às vezes é confirmada por coisas que a ciência ainda não pode explicar, mas não é negada por nada que já tenha sido provado até hoje. Milagres, podem ser a resposta do nosso próprio organismo a um desejo muito grande, mas isso não descarta a existência de um criador para esse mecanismo. A igreja, meu padre, minha mãe...são referencias de vida, da minha vida. Remetem meus pensamentos a este ser maior, sem conflitar com minha fé ou com o que acredito ser a verdade. Hoje entendo isso. Entendo que o conforto de que minha alma precisa, pode vir dessas referências. Meu trabalho nos Arquivos X, tudo o que aconteceu na minha vida até hoje, tudo me ensinou a admirar ainda mais essa forma de expressão que chamamos vida, a diversidade do espírito humano, cujas escolhas fazem surgir monstros assassinos ou pessoas capazes de curar com o toque das mãos. Não posso nem pretendo explicar tudo, mas sei o que sinto. Sei que preciso de conforto para poder continuar buscando as verdades e que preciso dividir minha carga ...e a fé me permite isso, me concede paz, me faz pensar que todo o meu esforço vale a pena e que os justos não morrem em vão e nem cairão no esquecimento. Os justos...os justos como Mulder, cuja busca incessante pela vida me atrai e fascina... e me motiva a continuar sempre, e a quem mais cedo ou mais tarde terei de confrontar com a verdade...tão logo eu mesma a aceite sem medos... Meses depois Uma mensagem na caixa de entrada de e-mail de Dana Scully, sem indicação de origem, trazia uma última mensagem do homem que quase lhe roubara a razão: Srta Scully...acredito que o mundo fica melhor com certas pessoas nele... Não gosto de admitir meus erros de avaliação, mas gostaria de dividir com você uma constatação: Percebi que cometi um erro de análise...quando desenhei para você aquele esboço de " A lição de anatomia". Achei que entenderia a referência às minhas intenções, em relação a você mesma, quando visse o braço direito de seu parceiro, dissecado Depois, ficou claro porque não entendeu. Obviamente foi uma falha de avaliação.... Já que eu queria usar figuras óbvias, não deveria ter desenhado seu braço direito, mas... seu coração... Até um dia... Hannibal FIM Aos amigos que aqui encontraram retratadas algumas características, opiniões ou até conversas que tivemos, muito abrigada por suas existências inspiradoras. A todos os excers que tomaram tempo para ler, meu agradecimento sincero e o pedido para que gastem mais uns minutinhos comigo, enviando- me suas críticas para que seja possível melhorar na próxima. Um abraço, Alexandra Ariel_55@hotmail.com 1