Autora: Tayana Classificação: shipper Censura: 16 Spoiler: - Sinopse: O amor consome a alma de Mulder e Scully, mas há algo que os separa. Tudo conspira para que se afastem cada vez mais. É preciso lutar pela felicidade. Obs.: A história passa-se na década de 1890. Os personagens são todos os mesmos, mesmos nomes, mesmas personalidades, mesmo físico. Só o que muda é a a situação e a época. O conflito amoroso é basicamente o mesmo. Os motivos é que são diferentes. Tente transportar-se para a data. As roupas, os costumes, os diálogos. É uma viagem interessante à sociedade novaiorquina do final do século retrasado. Disclaimer: As personagens presentes nessa fanfic são de propriedade de CC, da 1013 e da Fox Network. Utilizados apenas com o intuito de divertir os milhões de fãs. Sem fins lucrativos. Feedbacks: tay.fm@bol.com.br. Por favor, é minha quinta fic e nunca recebi um e-mail. Preciso saber se escrevo tão mal assim. Escrevam falando o que quiserem, ou apenas para manter um contato e bater uns papos Estrelas Ele desabou seu corpo ao lado do dela, sobre a cama grande, respirando profundamente. Ela sabia como proporcionar-lhe prazer. Acariciou-a e olhou para os lábios dela, tencionando beijá-la. Ela novamente olhava pela janela aberta do terceiro andar. "Dana, será que podia prestar mais atenção quando estamos na cama?" – ele perguntou grosseiro, sem parecer nem um pouco magoado com a atitude displicente dela. "Não me perturbe, foi uma noite cheia."- ela olhava para as estrelas, como sempre. "Dana, acho que não percebe que é pior pra você me provocar do jeito que faz." – ele acariciava-a passando a mão grande pela barriga delicada dela. "Alex, se não está contente, levante-se e não volte mais. Procure outra tola para satisfazer-lhe." – ela tinha ódio em seu olhar. "Não lhe darei esse prazer, Dana Scully." – ele levantou-se e começou a vestir-se. – "Não encontrarei uma prostituta tão boa como você em lugar nenhum de Nova York." – ele dirigiu-se para varanda onde ela já estava, enrolada em seu robe. "Já que vai passar 3 meses na Europa, procure uma por lá." "Mas é claro que procurarei."- ele beijou o ombro dela e virou-se para ir embora. – "Mas quando voltar ainda será minha. SÓ minha." – ele abriu a porta sorrindo. – "Venho amanhã ainda. Quero despedir-me de você." Ele bateu a porta. Ela virou-se para ter certeza de que finalmente estava sozinha. "Maldito!" E dirigiu-se para sua cama. Precisava esquecer o pesadelo que era sua vida. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Na noite seguinte, o Salão Star of the World, estava aberto para receber as celebridades que o frequentavam, há mais de 5 anos. Era o salão mais conhecido de Nova York. Um lugar refinado, discreto, caro e divertido. Permitido somente aos banqueiros, fazendeiros, doutores, industriais, e tantos outros ricaços da sociedade novaiorquina da década de 1890. As meninas que trabalhavam ali eram escolhidas por sua beleza e classe. Cada uma pertencia a um dos frequentadores e algumas divertiam-se com todos. O preço delas era alto. Eram ao todo 23 meninas, Susi, a mais velha de todas, profissional há muito tempo, e Scully, dona do salão. Ele entrou, trajando um smoking simples, e sentou-se em uma das mesas do canto, pedindo uma taça de champagne. Observava aquele local tão odiado pelas mulheres e tão desejado pelos homens. Teve vontade de conhecê-lo assim que chegou de sua viagem, mas devido ao luto, teve que aguardar uma semana. Agora estava ali, reconhecendo as celebridades da cidade, que apresentavam-se nos bailes nobres com suas esposas, mas passavam a semana na cama das cocotes caríssimas. Era um ambiente animado, um pianista divertido, mulheres belíssimas, muito charuto, jogo e bebida. No segundo andar, provavelmente, ficariam os quartos. Um homem aproximou-se de sua mesa. "Com licença?" "Sim?" – ele observou o baixinho de smoking. "Não costuma frequentar a casa, não é?" "Não costumo. Cheguei há uma semana, estava em uma longa viagem pelo Oriente..." "Não sei se sabe, mas não são todos que podem entrar aqui." – o baixinho parecia querer ser gentil. "Tenho dinheiro suficiente para entrar onde quiser." – ele foi seco. "Então faz parte da sociedade novaiorquina?" "Quem é o senhor?" – preguntou encarando-o duramente. "Oh. Perdão. Esqueci de apresentar-me: Frohike Underwood, ao seu dispor." – O sr. esticou a mão para cumprimentá-lo. "Fox Mulder. Prazer em conhecê-lo." "Posso sentar-me?" – e diante da afirmativa de Mulder, sentou-se. – "Pois não conhece o salão? Vai adorar... se tiver dinheiro pra gastar. Eu venho em busca da alegria e do champagne... Estou um pouco velho para orgias sexuais. Mas verás como há mulheres belas aqui. Precisa ver Dana. Ah, isso sim é que é mulher. Ela tem algo de..." – calou-se pois a própria descia. Trajava um vestido azul-marinho, todo em veludo, pois a noite de primavera era fria. Um decote generoso deixava-a sedutora, mas a rosa branca presa entre os seios dava-lhe um ar de inocência. Adornada com os diamantes, do colar, brinco e pente, que luziam à luz dos candelabros. A boca vermelha parecia uma fruta exótica, pedindo uma mordida. Ele olhava-a como se não acreditasse no que via. Era como se adorasse a Vênus de Milo. Sentiu-se prender por aqueles olhos da cor do céu. Suspendeu a respiração. E só voltou a respirar quando notou aquele homem aos pés da escadaria, oferecendo uma das mãos a ela. Viu quando o sorriso dela extinguiu-se e ela tocou a mão dele. Foi recebida com um beijo e conduzida pelo salão. "É Dana." – Frohike falou. "É uma cocote?" – ele perguntou, perdendo-a de vista. "Não fale assim aqui dentro. Há homens que matam por elas." "Como assim?" "É apenas um conselho para que não se meta com ela. Pode aproximar-se, reverenciá-la, sorrir-lhe. Mas nada mais. Ela é de Krycek, Alex Krycek. É apenas o conselho que lhe dou, se é que tens amor à vida." "Dana, o nome dela?" "Dana Katherine Scully. É a dona deste salão. Os homens que sonham com ela e tentam aproximar-se, passam horas sob as janelas do quarto dela, no terceiro andar, esperando vê-la na varanda. Mas ela o ama. Ama Krycek mais do que a si mesma. Não há homem que desvirtue-a de seu amor." "Ela não parece feliz com ele." "Ora, como pode garantir isso. Eu, sim, posso garantir-lhe que ela o venera. Nunca esteve na cama com outro homem, desde que o Star of the World abriu, há cinco anos. Ela o obedece e lhe dá prazer. Creio que só amando-o poderia suportar ser a segunda na vida dele." "Segunda?" "Ele é casado. E tem filhos." "Mas ela não é feliz..." "Por acaso é astrólogo para saber sobre os sentimentos da moça?" "Não. Sou psicólogo. Formei-me em Oxford, há seis anos." "E pode ler as almas?" "Não. Posso ler as expressões. Com licença. Tenha uma boa noite." – e retirou-se, não sem antes lançar um último olhar à moça de cachos ruivos que ria abertamente, cercada por suas meninas. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Dana penteava-se em frente ao espelho, tinha acabado seu banho e deveria arrumar-se. Era a primeira noite dela sem Krycek, o que a deixava muito feliz. Susi bateu na pesada porta de madeira do único quarto do terceiro andar. "Dana?" "Entre, querida." "Chegaram flores." "Não encomendei, você mudou o dia de encomendas?" "Não, Dana. Não são as flores para o adorno dosalão. São para você." Scully virou-se no banquinho da penteadeira para fitar a amiga. "Para mim? Krycek não me manda flores." "Não são de Krycek. Olhe só." – e adentrou o quarto com duas dúzias de rosas brancas. – "A letra no cartão não é dele." "E o que diz o cartão?" "Para Dana Katherine Scully. Apenas isso." – disse entregando o bouquet à amiga. – "São lindas..." "Coloque-as no vaso do piano e jogue o cartão fora. Se Alex ver, vamos ter problemas..." "Alex já embarcou rumo a Europa. Pare com essa paranóia e aproveite estes 3 meses de liberdade, Dana." "Sabe que tenho medo dele..." "Depois de tudo o que passou não deveria temer nem o inferno." – Susi finalizou retirando-se. Naquela noite, o vestido era de cor creme, adornado de flores do campo laranjadas, que contrastavam com os corais que pendiam em seu colo e destacavam os seios alvos que saltavam pelo corpete. Dessa vez quem foi recebê-la foi um senhor calvo, de óculos redondos. Dessa vez ela não desmanchou o sorriso. Tratou-o com dois beijos estalados na face. Podia- se ver como eram amigos. Frohike aproximou-se de Mulder. "Mister Mulder! Achei que não viesse." – eles trocaram um aperto de mãos. "Não pretendia, mas vim." "Não conseguiu esquecer-se dela não é? Venha, vou apresentar- lhe as moças, querem lhe conhecer." "Quem é o careca?" "Walter Skinner. Banqueiro. Dono do Sant Carmen. Grande amigo de Krycek, e grande amigo dela, consequentemente. Frequenta o salão desde que abriu." O Sr. Underwood apresentou Mulder às meninas que logo deram mostras de gostarem do porte do forasteiro. Logo que foi apresentado ao primeiro dos homens, ele foi reconhecido: "Mulder? É o sobrinho de J. Tompson Mulder?" – perguntou o juiz dando uma tragada em seu charuto. "Sim, senhor." "Mas era um garoto a última vez que lhe vi. Já fazem mais de 10 anos. Onde esteve?" – ele levava-o para junto dos homens que estavam em uma grande mesa com algumas garotas no colo. "Oxford. Formei-me Doutor em psicologia. Depois estive nas Índias, durante seis anos." "Voltou pela morte de seu tio?" "Não. Não sabia que havia morrido. Soube assim que aportei, mas já iam duas semanas do óbito." "Meus pêsames. Pretendes tocar a fábrica de têxteis de teu tio, no Canadá?" "Ainda não sei o que farei." "Pois deixe-me apresentá-lo: Sr. Skinner e Helena, Sr. Kersh e Louise, Sr. Damon e Mary, Sr. Glaston, Sr. Devire, Sr. Calmon." Mulder cumprimentou a todos e sentou-se, aceitando o convite para uma taça de champagne. A discussão sobre a evolução das fábricas estava acirrada, alguns eram contra a implantação de um novo tipo de imposto, outros a favor, uns falavam mal dos ingleses, outros defendiam-nos. Mulder deu sua opnião: "Generalizam demais. Não estou defendendo os ingleses porque sou um, ou porque estive lá mais de 5 anos. O que digo é que acho que o imposto deveria ser igual para todos os países. Se cobramos tanto da França, devemos cobrar tanto da Inglaterra. É algo lógico e justo se..." – Mulder foi interrompido por alguém que aproximava-se da mesa. "Pois temos cá um defensor da coroa?" - Dana disse sarcasticamente. Ele olhou-a ligeiramente assustado. Finalmente ela trocava uma palavra com ele. Encararam-se. Sr. Spender quebrou o gelo. "Mister Mulder, esta é a Senhorita Dana Scully, proprietária do Star of the World." – ela apenas acenou com a cabeça e lançou-lhe um olhar maldoso. Ele permaneceu embevecido. Tomou uma atitude: levantou-se, pôs- se à frente dela e beijou-lhe cortesmente a mão. "Senhorita..." "Perguntei-lhe se veio ao meu salão defender a rainha?" – ela parecia satisfeita em provocar-lhe. "Não venho defendê-la, mas também não a ataco. Não tenho motivos. A senhorita os tem?" – era ele quem fazia uma pergunta constrangedora. "Eu os tenho." - ela respondeu pra a surpresa dele. – "Foram os malditos ingleses que mataram meu pai. Antes disso, mataram quase todos os meus familiares que habitavam o leste europeu. Preciso de mais motivos para odiá-los?" – ela falava com ódio. "Desculpe-me, madame. Não pretendia remetê-la à tão duras lembranças." – ele tinha uma expressão serena e olhava-a no fundo dos olhos. Aquilo desarmou-a e ela perdeu o semblante irritadiço que sustentava. "Não há problema." – chegou a sorrir. – "Também não posso desrespeitar seu direito de dizer o que pensa." "Agora peço licença. Tenho muito o que fazer pela manhã." – ele levantou- se. – "Senhores, senhoritas." – e inclinou-se, despedindo-se. – "Madame." – e sorriu-lhe, retirando-se em seguida. Ela não pôde evitar acompanhá-lo com os olhos. Aproximou-se de Susi. "Viu-o?" – perguntou Scully. "Vi. E vi a ti, também." – a amiga sorria disfarçadamente. "O que quer dizer?" "Achei-o delicioso. Deu-me vontade de mordê-lo." – e passou a língua nos lábios, sedutoramente. – "Viu os olhos dele?" "Não." – Dana parecia irritar-se com a conversa. "Pois então viu. Sei quando muda de humor por causa de homens. Ele parece saber como alterá-la. Como é o nome dele?" – ela perguntava provocando a amiga. "Ora Susi, não me atormente." – e apanhou uma taça de champagne virando-a rapidamente. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx No dia seguinte um novo ramalhete chegou, eram flores do campo. A mesma letra, mas sem assinatura. Naquela noite ela presenteou os olhos de Mulder com um belo vestido verde da Prússia, de cetim. Seus cabelos vinham adornados por pequenas rosas vermelhas e as jóias eram esmeraldas escuras com brilhantes. No meio da noite, Mulder estava em uma das janelas do grande salão, observando algo que dominava toda sua mente, tanto que ele não percebeu quando ela se aproximou. Dana tinha uma taça nas mãos, e balançava o champagne sem vontade de sorvê-lo. Olhou para o forasteiro, a 3 janelas de distância, assumiu a mesma posição dele e passou a observar as estrelas do céu limpo, de final de primavera. Ele virou a cabeça para ela, mas não fez menção de aproximar-se. Ignorou-a. Ela notou a atitude a dirigiu-se à janela ao lado dele, fingindo que não o via, também. Encostou-se no parapeito e deixou a brisa sacudir-lhe os cachos compridos. "Tens saudades da Inglaterra?" – ela perguntou sentindo necessidade de conversar, mas não virou-se para ele. Quem os visse não acharia que estavam trocando algumas palavras. "Nenhuma." – ele respirou profundamente. – "E tu, tens saudades de teu namorado?" "O que faz aqui? É mesmo sobrinho de J. Mulder?" – ela não respondeu à pergunta dele. E sobrepôs com outra pergunta. "Conheceu-o?" – nenhum dos dois estava disposto a abrir-se. "Com licença, acho que não estás disposto a conversar." – ela apanhou a taça sobre o parapeito. "Fique, quero conversar." – ele disse com um tom de voz quase suplicante o que a fez parar. – "Sou sobrinho dele sim. Estava em Oxford, e, depois de uma longa viagem, resolvi voltar para vê-lo. Mas cheguei tarde." "Agora é o responsável pelas fábricas?" "Sou tudo o que restou da família. Ele não teve herdeiros e deixou todos os seus bens para mim." – ele não parecia nem triste, nem alegre. "Então deve estar alegre pela morte do velho..." – ela parecia querer provocar. "Pode não lhe parecer, mas não sou como os homens que frequentam este salão. Meu tio era tudo o que tinha. Nunca tive pai ou mãe e no entanto ele criou-me como seu sucessor, sem nunca exigir-me nada. Eu pouco dei em troca." – agora ele parecia triste. "E no entanto passou onze anos fora, sem nem ao menos vir fazer-lhe uma visita." "Como sabe que estive onze anos fora?" – ele irritava-se. "Ouvi dizer." "Quem lhe disse não conhece os meus motivos." "E quais são seus motivos?" – ela perguntou com um sorriso maldoso, esperando pela desculpa dele. "Porque lhe contaria, se tudo o que fizeste, desde que aproximou-se de mim, é tratar-me mal e arranjar motivos para discutir?" – ele estava realmente desconfortável com a conversa, mas não conseguia afastar-se dela. "Desculpe, mas creio que tu é quem provoca essa situação." – ela havia perdido seu sorriso. "E eu creio madame, que tu procuras tratar mal àqueles que não se jogam aos teus pés, pura e simplesmente, por prazer." – ela irritou-se e entornando a taça cheia que estava em suas mãos respondeu-lhe a altura. "E eu creio, senhor, que os anos de clausura em Oxford, fizeram de ti um homem grosso e intratável." – ela retirou-se. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx No dia seguinte, enquanto Calih, empregada de Dana, fechava o espartilho de sua senhora, Susi adentrou o quarto com um sorriso. "Adivinhe só o que acabou de chegar?" "O que, querida?" – Dana sorria de um modo safado. "Três dúzias de rosas vermelhas anãs. Olhe só." – e expôs o gigantesco bouquet. "E, novamente, um estranho as manda?" "Exatamente. Sem nome, sem endereço." "Percebeu alguma coisa?" "Como o que, por exemplo?" "São as flores que eu uso no salão na noite anterior. Rosas brancas, flores do campo e rosas anãs." "É verdade..." – Susi sorria. – "Então ele é um homem observador." "Vejamos se repara nas de hoje." – Dana sorria, marota. "E quais serão?" xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Mulder teve inveja de Skinner quando Dana pousou suas mãos na mão do velho. Ela trajava um azul bebê de bordados ingleses e jasmins que desciam pelos cachos ruivos. As pedrarias eram azuis também. Água- marinha. Ela sorria para todos e dirigiu, ao forasteiro, um sorriso doce, como se não se doe-se pelo desentendimento da noite passada. Antes do fim da noite, quando todos disputavam uma intensa partida de pôquer ele aproximou-se dela, que estava ao piano tocando uma antiga canção. Ele notou que ela já havia tomado 3 taças de champagne, pois estavam vazias, sobre o tampo do piano. "Senhorita?" – ela não respondeu, apenas manteve seu olhar fixo nas rosas anãs, concentrada na melodia. – "Confesso que pensei no que disseste ontem. Acho que devo-lhe desculpas." "Apenas mude seu modo de tratar-me. Assim compensará suas grosserias." "Sinto-a como uma menina bem criada, prendada, cheia de dotes. Creio que tens estudo." – ele apoiou-se no piano fitando-a docemente. "Se acha que, só porque sou uma mulher de diversões, não sou culta, está enganado. Tive uma vida normal até a morte de meu pai." – ela evitava o olhar dele. "Foram os ingleses que o mataram?" "Meu pai era capitão da marinha americana. Os ingleses afundaram o navio dele." "Porque?" "Sinceramente, não sei. Não estávamos em guerra e poucas explicações nos foram dadas. Deixaram a mim, a minha mãe a a minha irmã, entregues a um mundo ao qual não podíamos sobreviver sem ele. Não só pela pessoa que era, mas também pela renda." – ela parecia triste com as lembranças e fixava os olhos num ponto distante, do outro lado do salão. "Quando foi isso?" "Há mais de dez anos." "E sua mãe e sua irmã?" "Morreram." – ela parecia cada vez mais irritada, errando as notas da canção. "E você?" – ele parecia querer aprofundar-se na vida dela. "Morri também." – ela respondeu, parando a música e levantando-se. Virou mais uma taça cheia.– "Não gosto desse assunto." "Com licença." – ele fez menção de retirar-se, bastante sério. "Não, fique. Não quis dizer que não queria conversar. Apenas mudemos de assunto." – ela apontou para as janelas ao fundo. "Tens o Star of the World há cinco anos?" – ele perguntou sorrindo. "Tenho." – ela sorriu também. Não pôde evitar perder-se no sorriso dele, nos lábios carnudos. Respirou profundamente. – "Eu e Susi viemos para NovaYork, compramos a casa, decoramos, escolhemos as meninas. Desde que abrimos é o local mais bem frequentado da cidade, nem o teatro reúne tantas celebridades." – ela divertia-se com o assunto. "Conheci um salão na Inglaterra onde todas as meninas eram africanas e asiáticas, a decoração era indiana. Confesso que foi daí que surgiu minha curiosidades pelo Oriente." – ele entregou-lhe mais uma taça de champagne. "Apaixonou-se por uma delas?" – ela sorria. "Nunca me apaixonei, senhorita. Mas souberam como atiçar minhas vontades. Assim que conclui Oxford fui às Índias." – ele admirava a beleza dela por trás daquele sorriso alegre. "Conhece Calicute, então?" – ela parcecia maravilhada. "Morei alguns meses por lá. Mas andei muito pelo interior, conheci as pobrezas daquela terra, milhares de pessoas passando fome. Mas conheci a riqueza cultural, as religiões, as festas. É um lugar maravilhoso." – ele gostava do assunto. "Uma vez li na Georgia um livro sobre o Oriente. Confesso que tive vontade de conhecer o lugar." "Morou na Georgia?" "Algum tempo, antes de vir pra cá." - ela demonstrou o desconforto que a pergunta lhe provocou. Tomou vários goles do líquido que borbulhava em sua taça. – "E o que fazia lá?" – ela voltou à conversa anterior. "Não pude exercer a psicologia. Mas fiz estudos interessantes junto aos ministros ingleses e à igreja." "E bandonou tudo?" " Não. Decidi que era hora de voltar." "Então, fugiu." – ela sorria, divertida. Apanhando mais bebida. Começava a ficar alta. "Sou um homem de caráter, porque acha que eu fugiria de um país tão fascinante?" – ele também sorria divertido. "Talvez tenha tentado algo contra uma dama e fugiu do casamento?..." – ela brincava insinuante. Mas o sorriso que ele mantinha desapareceu rapidamente. Ele ficou um pouco nervoso. "Porque dizes isso?" "Porque disse que nunca se apaixonou, mas provavelmente já deve ter tido problemas com moças que se apaixonaram por ti." – ela, mesmo séria, mantinha um olhar penetrante. Toda a conversa era travada olho no olho, como se quisessem saber quem era mais forte e sustinha por mais tempo o olhar atrevido do outro. "Realmente, mas não criei problemas na Índia." – foi a vez dele demonstrar o quanto a conversa lhe era desagradável. - "Conhece a América do Sul?" "Não. Mas já ouvi algo sobre o calor e a riqueza. Nosso café é de lá, não?" "Sim. Tenho vontade de conhecer o Brasil. Espero poder viajar o mais breve possível. Conhecer paraísos perdidos." "Sinto em você um espírito de liberdade." – ela tinha um olhar doce. "Tens boa intuição. Mas também sinto isso em ti." – ele sugava o doce da expressão dela. "Um homem como tu não poderá se casar..." "Um homem como eu precisa, antes de mais nada, antes da própria liberdade, encontrar alguém que lhe dê uma razão para viver." – ambos estavam sérios, olhando-se fixamente. Ela preparou-se para dizer algo, mas foi interrompida: "Dana?..." – era Susi quem chamava de longe. Scully acenou em resposta e dirigiu-se a Mulder. "Eu... volto logo. Tenho que despedir-me de alguns senhores." – ela parecia não ter gostado da intromissão. "Eu preciso ir também. Tenho providências a tomar sobre a questão da fábrica de meu tio." – ele mostrava, em seu olhar, o quanto queria ficar. "Voltas amanhã?" – ela parecia pedir. "Farei o possível para vir..." – eles não queriam separar seus olhos. "Eu o aguardarei... gosto de conversar com o senhor." – ela completou a frase. "Também posso dizer o mesmo." – e tomando a mão delicada, curvou-se e depositou um beijo delicado. Ela retribuiu com um sorriso e conduziu-o até a saída. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Os dias passavam normais, com todos os afazeres do salão. A flor sempre chegava antes do almoço. Era sempre um bouquet das mesmas flores que ela usava na noite anterior. A noite era preenchida por longas conversas com o forasteiro que, apesar de contar muitas coisas interessantes, parecia evitar aprofudar-se em sua vida. Mas ela reagia da mesma forma e ele pouco sabia do passado dela. Não havia uma noite, durante algumas semanas, que eles não tivessem uma grande discussão. Mas também, não havia uma noite em que a troca de olhares fosse intensa. Principalmente após muita bebida, quando ela permitia demonstrar alguma coisa. A relação tornou-se uma intensa amizade que já não passava despercebida a nenhum dos frequentadores do Star of the World. Scully, ao mesmo tempo que necessitava de Mulder, como amigo, como companhia, como confidente, temia que a proximidade caísse nos ouvidos de Krycek. Ainda faltava um mês e meio até que ele chegasse, mas o risco era grande, independente do tempo. Ela temia Alex de qualquer modo. Quando Mulder, por algum raro motivo, faltava às recepeções da noite, Susi percebia o quanto o humor de Dana alterava e ela se tornava irritadiça e tinha dores de cabeça. Ela deixava o salão e refugiava-se em seu quarto, sem admitir uma causa concreta para seu estado. Durante um dos almoços na casa, o assunto que formou-se entre as meninas, foi o forasteiro dos olhos verdes. Dana permaneceu a parte, concentrada em sua refeição, mas quando comentaram o fato de ele não pedir nenhuma das garotas para sua cama, o que provocou um riso geral e apostas de quem seria a primeira a tê-lo, Scully levantou-se furiosa, derrubando sua cadeira para trás. "Respeitem a mesa em que comem. Vou lhes dizer uma coisa: não quero comentários sobre Fox Mulder durante o dia, em nossa casa. E também não as quero envolvidas com ele." – finalizou a ordem retirando- se. "O que houve com ela?" – Mary perguntou, assustada com a reação absurda dela. "Obedeçam-na. Eu vou ver o que há." – Susi foi atrás da amiga. "Claro está que o forasteiro lhe provoca mudanças..." – Helena sorria. "Mais claro está que o problema é ciúme." – Lia provocou. "Independente do que for, é melhor esquecermos o que aconteceu. Se Krycek souber de algo, Dana terá sérios problemas." - Louise terminou a conversa maldosa. Susi nada conseguiu arrancar da amiga, tudo que obteve foi uma briga homérica. Os gritos eram ouvidos do térreo. A amiga pedia para que Dana abandona-se a prisão em que vivia e permitisse que um sentimento bom a invadisse. A ruiva, por sua vez, dizia que havia sofrido demais e, consequentemente, aprendido muito, para deixar-se levar pela vida e cometer os mesmos erros. Nessa noite ela não desceu e Mulder ficou a esperá-la assistindo às partidas de cartas, entediado. Pediu a Susi para vê-la, mas a loira foi delicada, dizendo- lhe que não haveria como, ela dormia. Ele fez então um bilhete e pediu que fosse entregue. Foi embora. No dia seguinte, quando Dana leu a pequena carta, reconheceu, imediatamente, a letra. Quando um bouquet de dentes-de-leão chegou, antes do almoço elas perceberam que as flores vinham sendo enviadas por Mulder. O bilhete pedia um encontro. Ele disse que estaria no salão às 2 da tarde. Mulder foi pontual e esperou-a numa pequena sala ao lado do salão principal. Ela aproximou-se feliz. "Mister Mulder?" – ele levantou-se e apanhou a pequena mão, levando-a em direção aos lábios, os quais prendiam a atenção de Dana. "Já lhe disse que fica linda de azul?" – ela sorriu timidamente. "Nunca." "Mas fica, combina com seus olhos. Há muito tempo não via olhos azuis. O povo oriental tem olhos escuros." – ela sorria. – "Vim saber se está bem. Não desceu ontem." "Estou, tive dor de cabeça, achei melhor dormir." – ela sentou-se na cadeira a frente dele. – "Porque dentes-de-leão?" – ela sorriu, marota. Ele surpreendeu-se. "Descobriu?" – ele parecia ligeiramente sem-graça. – "Não achei que fosse perceber. Foi a letra do bilhete, não?" – e diante da afirmativa dela, completou. – "Como não sabia que flores mandar, pois não tinhas usado nenhuma, uma vez que não desceu para a recepção, mandei flores alegres, para colocar um sorriso em seu rosto." "Tens razão. São coloridas, alegraram meu quarto." – ela tinha um olhar profundo de agradecimento. Era incrível como em tão pouco tempo eles entendiam-se tão perfeitamente, só com os olhos. "Sabe, Dana... eu estive pensando, e queria contar-lhe algo." – ele parecia confuso. "Pode falar o que quiser..." – ela sentiu um certo medo das revelações que estavam por vir. "Eu..." – ele não sabia por onde começar. – "Nunca lhe contei sobre minha vida, não é?" "Eu sempre notei que o assunto lhe fazia mal, por isso nunca insisti. Mas não nego que tenho certa curiosidade..." – ela queria ajudá- lo a se abrir. "Eu sou filho de ingleses, mas meus pais morreram muito cedo e meus tios criaram-me, como um filho. Ao completar vinte anos fui mandado a Oxford. Meu tio tinha um verdadeiro império no Canadá, podia exigir de mim que ficasse e tomasse conta de tudo, mas, ao invés disso, conduziu-me para a carreira que tanto me fascinava." "Dava mostras, desde cedo, de querer a psicologia?" – ela estava interessada. "Dava, lia muito sobre o assunto. Ele pagou todo o custo do meu luxo e eu fiquei por lá cinco anos, apenas estudando. Confesso que estudava um período e fazia farra nos outros dois. Durante todos esses anos eu tive muitas mulheres em minha cama, não posso nem sequer fazer as contas. Mas antes de me formar, conheci um moça, filha de um lorde, era uma amiga, fingia-se de ingênua mas era uma peste. Disse-me que tinha dezenove anos e nós quase nos aproximamos de um relacionamento. Até que eu fui convidado para o baile de debutante dela." "Ela tinha 14 anos?" – Dana divertiu-se. "Tinha. Me enganou durante 3 meses. Mas não aparentava em nada uma menina. No dia do baile o pai anunciou o casamento dela com um rico industrial. Eu, obviamente, afastei-me dela. Mas perseguia-me onde eu ia. Até que embebedou-me e acabamos na cama. Disse que, caso eu não me casasse com ela, contaria ao pai. E foi o que ela fez, diante da minha recusa, mas o velho lorde contrariou os planos dela. Ela casaria com o ricaço, pois o pai estava individado e eu seria assassinado." – ele notava o interesse faiscando nos olhos dela. – "Eu tive tempo de formar- me. Apanhei meu diploma e embarquei para Calicute, onde fiquei seis anos." – ele finalizou. "Então só teve problemas com mulheres na Inglaterra?" – ela divertiu-se. "Somente. Cuidei para que nada disso acontecesse na Índia." "Não casou-se, então?" – ela parecia mais interessada ainda. "Não. Confesso que, até hoje, as mulheres só tem me criado complicações." – tinham os olhos fixos um no outro. "E por isso tornou-se esse homem distante, recluso, quase intratável?" "Tenho tratado-a mal, madame?" – ele perguntou bastante sério. "Não precisa zangar-se. Gosto de como travamos nossos contatos." – ela sabia como ser insinuante. - "Só acho que tens medo das mulheres, depois que uma complicou-lhe a vida." "Não tenho medo e não estou zangado. Porque acha que me zangaria com o que dizes?" – ele estava ficando com raiva. "Porque chamou-me madame." – ela ria. – "Ora, vamos. Falemos sobre você." "E o que quer saber?" – ele acalmou-se. "Conte-me sobre Oxford." "Foi uma época mágica. Aprendi muito, descobri muitas coisas, tornei-me um homem cheio de conhecimentos acerca dos mais veriados temas..." – ele não concluiu a frase. "E..." – ela perguntou. "E nada. Acho que nada disso fez alguma diferença em minha vida. Cumpri uma fase e me vi sem perspectivas. Não havia porque continuar em Londres. A Índia foi uma bela saída." "E lá encontrou-se?" "Menos ainda." Susi aproximou-se fazendo um sinal à Dana. Ela levantou-se e dirigiu-se à amiga. "São seis horas. Acho melhor mandá-lo embora." – Dana suspirou e dispensou-a. "Fox, tenho que retirar-me." - ele pôs-se de pé. - "Temos uma recepção fechada amanhã e depois, para uns industriais italianos. Tenho o que fazer." – ele parecia descontente mas compreendeu perfeitamente. "Está bem. Agradeço por ter ouvido minha história." – e tomou a mão enluvada, inclinando-se sem tocá-la, olhando-a profundamente. – "Espero que tenha uma recepção agaradável." "Duvido muito, mas saberei suportar." – ela sorriu. – "E não ache que suas histórias são enfadonhas, pelo contrário, gosto de ouví- lo." "Espero pelo momento em que eu possa ouví-la." – ela tornou- se séria, mas ele fingiu não notar. – "Senhorita." – e retirou-se, montando em seu cavalo negro e partindo. Ela subiu as escadas com o semblante fechado. Tinha medo do forasteiro. Sim, era o que ele era. Alguém que conhecera há pouco mais de dois meses e que a tinha envolvido completamente, e, a cada minuto, ela se via entregando-se a ele, contando sua vida, seus ensejos, seus pesadelos e seus sonhos. Mas como podia? Ele era apenas um desconhecido que começava a ser seu amigo. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx A noite seguinte foi chatíssima. Os industriais divertiram muito às meninas, mas Scully viu-se cercada pelos mesmos homens de sempre, que só sabiam falar de dinheiro, política e jogos. Sentiu, durante toda a recepção, uma falta enorme de uma conversa descontraída e ao mesmo tempo inteligente com Mister Mulder. O pior é que nenhum era como ele. Ela havia conhecido tantos homens, e eles eram sempre iguais, mas Fox tinha algo, ou melhor, quase tudo diferente. O que estava acontecendo? Quando fecharam as portas naquela noite, Dana foi para seus quarto, trocou-se e deitou. Mas o cansaço não foi suficiente para fazê-la dormir. Rolou sobre os lençóis frios durante quase uma hora, até que ouviu um estranho barulho e lembrou-se de que a janela estava aberta, como de costume, afinal estava no terceiro andar. O barulho repetiu- se, mais próximo e ela, num giro, sentou-se na cama empunhando um punhal que estava sobre o criado-mudo. Na escuridão pôde divisar a silhueta do homem sentado na janela. "Dana?" – ele perguntou. "Fox?" – ela tinha dúvidas. "Não queria acordá-la." "O que faz aqui?" – ela ainda empunhava a arma. "Apenas vim vê-la." "Mas vimo-nos ontem à tarde." – ela estava desconfiada. "Mas precisava vê-la." – ele tinha uma estranha entonação, como se pedisse pra que ela consentisse com seu pedido. "O que houve Fox?" – ela deixou o punhal sobre o criado e levantou-se, dirigindo-se à ele. "É que vemo-nos quase todos os dias e ficar dois dias sem vê- la é muito." – ele parecia uma criança declarando seus sentimentos. Ela tocou a mecha castanha que caía sobre a testa dele. Tirou a mão. "E se alguém tiver visto você entrar?" – ela parecia apreensiva. "Ninguém viu, juro. Não precisa preocupar-se, já é tarde e não há ninguém nas ruas." – ele parecia querer tocá-la como ela havia feito. "Aconteceu alguma coisa? Estou te achando tão diferente..." – ela podia ver o brilho dos olhos dele, mesmo na penumbra do quarto. "Venha cá." – ele foi até a cama dela e retirou a coberta, embolando-a em seus braços e dirigindo-se à janela. "O que está fazendo?" – ela recuou, receosa. "Acalme-se." – ele saltou a janela, ficando na varanda e estendeu a mão para ela seguí-lo. Ela enrolou a camisola nas mãos e pulou com a ajuda dele. Pela varanda, subiram as escadas que davam para o quarto andar. Era um grande retângulo, que era apenas a fundação de um quarto andar e que foi transformado por ela, quando comprou a casa, em um pequeno jardim, com vasos de plantas e mesas fixas de mármore. Mulder estendeu a coberta ali e subiu na mesa, convidando-a a juntar-se à ele. Ela continuou receosa, sem saber o que ele pretendia. Ele sorriu encarando- a nos olhos. – "Não vou nem sequer tocá-la. Não tenha medo de mim." – ela pensou durante um segundo e aproximou-se, sentando-se ao lado dele, sobre as macias cobertas. "O que pretende, Mister Mulder?" "Pretendo conversar." – ele divertia-se com a apreensão dela. - "Vamos, Dana. Queria apenas vê-la." – ela sorriu, deixando-se levar pelo gostoso clima que formava-se ali. – "E então, como foi a recepção?" "Terrível!" – ela deu uma gargalhada. – "Não imaginava que pudessem ser tão insuportáveis esses industriais. É algo inacreditável!" – ele sorriu largamente. "Pois sou um, se esquece-se." "Ora, Fox, você é diferente. Os italianos que vieram são tão enfadonhos que peguei Susi cochilando enquanto um dos velhos falava." – ela divertia-se com a narração. Ele estava maravilhado diante da espontaneidade dela. "E porque organizou a recepção?" "Foi um pedido de Skinner, bêbados eles fazem acordos mais generosos com os banqueiros americanos. Foi um favor." "Para eles, obviamente." – ela sorriu diante do comentário "Obviamente." – e riram juntos. – "Não há quem não queira conhecer o Star of the World." "E sua dona." – ele sorriu, galanteador. Ela fez um gesto agradecendo com um sorriso malicioso. Ele perguntou. – "Porque Star of the World?" – ela demorou a responder. "Porque gosto de estrelas." – ela diminuiu visivelmente o sorriso. "E qual delas gosta mais?" – ele levantou a sobrancelha, apontando o céu. Ela olhou para cima, diretamente para uma estrela. "Aquela." – e apontou uma que brilhava intensamente. "É Sirius." – e ela virou-se surpresa para ele. "Sabe o nome da estrela?" – ela parecia maravilhada. "Sim, é Sirius." – e desprendendo-se dos olhos que brilhavam a sua frente, apontou o outro lado. – "Aquela é a Estrela Polar." – ela deitou- se no cobertor para observar toda a abóbada celeste. Ele continuou sem saber se a olhava ou às estrelas. – "Ela e mais aquelas seis fazem parte da Constelação de Ursa Menor. Aquelas ali são as Plêiades. E do lado a constelação de Touro." – eles se olharam. "É incrível! Conhece todas." "Conheço várias. Sabia que no Egito, Amon-rá, o Deus dos deuses, o Deus- Sol, teve, no início de tudo, uma filha, o céu, que se curvava, com seus corpo negro coberto de estrelas, sobre seus irmão, o Deus da Terra. Dessa aproximação, surgiu uma paixão, e então Amon mandou o ar para separá-los. Eles nunca poderiam unir-se e consumar o seu amor." "Esteve no Egito?" "Estive, durante umas férias de Oxford. Passei algumas semanas lá. É algo inacreditável, um país belíssimo, coberto de areia, cercado de desertos." – ele aproximou-se do rosto dela e apontou um pouco acima do horizonte. - "Aquela ali é o rabo da Baleia." "Baleia?" – ela perguntou olhando para o rosto próximo ao seu e virando- se para onde ele apontava. "É toda aquela constelação ali que leva o nome do peixe." – e fez o desenho da forma da Baleia. – "Ali perto de Sirius, Orion." "E as estrelas cadentes?" – ela parecia uma criança ingênua perguntando. "O que tem?" "Sabe sobre elas?" "São pedaços de pedras que caem na Terra ou passam muito próximas a atmosfera, e como caem muito rápido, incandescem-se e deixam para trás um rabo luminoso." "E as estrelas, porque brilham?" "São gases e explosões, se não me engano. Estão tão distantes de nós que muitas delas já não existem mais, mas ainda vemos seu brilho." "Como assim?" – ela parecia a neta e ele o avô que contava as peripécias de infância. "Elas mandam seu brilho em direção a Terra, mas demora tanto tempo para chegar, que elas já morreram e nós ainda estamos achando que estão brilhando." – ela parecia emocionada. "Elas não são eternas, então?" "Não, Dana. Mas se isso te preocupa, saiba que sua Ursa Menor estará aí enquanto você viver. Elas levam séculos para desaparecer." – ele deitou- se ao lado dela. Apontou para cima. – " Ali, Pégaso e ali, Peixes." Durante toda noite ele contou-lhe sobre as lendas que envolviam as estrelas, sobre as constelações e o por que dos nomes que lhes foram atribuídos. "Fox, como sabe de tantas coisas? Porque não fez astronomia? Parece gostar tanto disso..." – ela tinha uma voz doce. "Em Oxford há uma biblioteca gigantesca. Então eu apanhava alguns livros e passava toda a tarde deitado nos campos que cercavam a cidadela. Os meus preferidos eram os livros de mitologia, em particular a egípcia, e astronomia. Confesso que a melhor diversão naqueles tempos eram meus livros." "E as farras que disse fazer?" "As fiz. Mas chega uma hora que a bebida, o jogo e as mulheres não podem mais satisfazer. Chega a hora em que percebemos a falta que algo nos faz." – ele parecia realmente triste. – "Os livros eram uma boa companhia mas eles não podiam falar, não me contavam seus problemas." – ela sentiu a indireta. – "Era preciso alguém. Alguém com quem conversar, alguém com quem contar, uma pessoa que estivesse, não atrás de mim, ou na minha frente, ou em cima de mim, mas alguém que estivesse ao meu lado." – respiraram profundamente. Ela deu-se conta que estava ali, ao lado dele, no sentido real da palavra, um ao lado do outro. Mas, e no sentido figurado? Ela seria capaz, ela poderia, ela queria ser essa pessoa? "Fox, está amanhecendo. Tenho que deitar-me." – ela levantou- se bruscamente, fugindo da situação. "Dana?" – ela olhou para ele assim que desceu da mesa. Ele desceu também. – "O que é que tanto te atormenta?" – ela puxou as cobertas e dobrou-as. "Nada. Porque pergunta?" – ela queria sair dali o mais rápido possível. "Não há nada que queira me contar? Parece que carrega dentro de si um verdadeiro medo de ser sincera..." – ele segurou-a pelo braço. "Não tenho motivos para tal." – tentou soltar-se com um gesto leve. Ele aumentou a pressão. "Não confia em mim, não é?" – ele parecia magoado. "Solte-me." – ela exigiu sem olhá-lo nos olhos. Ele soltou. – "Boa-noite, Mister Mulder." – desceu pelas escadas e correu para a varanda sem olhar para trás. Quando deitou-se pôde ouvir o cavalo que descia a rua a galope, em direção ao fim da cidade. Ele havia ido embora. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Foram três terríveis dias para Scully. Ela era obrigada a receber aqueles homens que haviam se tornado insuportáveis para ela, e não podia, nem sequer pensar, que existia um forasteiro, do outro lado da cidade, que estava enlouquecendo-a. Mulder era uma verdadeira obsessão. Scully agradecia o fato de Susi não importuná-la com indiretas sobre o relacionamento dos dois, mas sabia que os fatos estavam visíveis a quem quer que prestasse a menor atenção ao humor dela quando Mister Mulder estava ao seu lado, ou longe dela. Durante esse período que ele simplesmente desapareceu do salão que frequentava quase todos os dias, Dana permitiu abrir-se com a amiga e declarou o quanto o forasteiro dos olhos verdes mexia com ela. "Não sei o que acontece, Susi. Tenho vontade de deitar-me no colo dele, de tocar seu rosto, acariciar a mecha que cai sobre a testa, uma vontade de contar-lhe toda minha vida e saber se ele seria capaz de me apoiar." – Susi acabou de abrir o espartilho e olhou nos olhos tristes da amiga. "Dana, você sabe o que é isso, não? Sabe que está apaixonada e que ele a enfeitiçou." – disse estendendo a camisola de Scully. – "Acho que deveria permitir-se conhecer novos homens, vocês dois formam um belo casal."- e sorriu. "Eu estou falando sério, Susanna. Tenho Krycek. Não posso nem sequer me imaginar com Mister Mulder." – ela acabou de vestir-se e puxou as cobertas de sua cama. "Mas eu também falo sério. Você se julga propriedade de Krycek, mas o odeia. Não poderá viver assim o resto da vida, querida. Experimente uma sensação de segurança ao lado de Fox. Seria possível?" "É possível. Desde o primeiro instante que trocamos um olhar eu me senti segura como nenhum outro homem deixou-me sentir. Mas você sabe que não há como..." "Então você não quer. Pense bem se não está jogando fora sua única oportunidade de ser feliz ao lado de um homem. Boa-noite, querida." "Qualquer problema pode me chamar." "Não se preocupe. Quem preguntar pela dona do salão eu digo que ela está com enxaquecas." "Todos os dias..." "Precisa resolver isso, amiga. Não pode fugir a vida inteira." – e saiu triste, deixando Dana mergulhada em seus pesadelos. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx No dia seguinte, após o almoço, Dana saiu em seu coche em direção ao outro lado da cidade. Observou o céu negro, carregado. "Preciso voltar antes da chuva." Desceu em frente a uma gigantesca mansão toda de pedras, tocou o sino e foi recebida pelo mordomo. "Boa-tarde, Mister Mulder está?" – ela parecia insegura apesar da cordialidade do mordomo. "Entre, por favor." – o homem deu-lhe passagem. – "Quem gostaria?" "É... Dana Scully." – e precisou erguer o queixo e tomar coragem para não fugir dali diante da expressão do empregado. Ele sabia quem era ela. Sabia que ela era uma cocote. "Acompanhe-me." – e conduziu-a à uma saleta. – "Vou avisá-lo, apesar de ele estar muito ocupado." Ela foi obrigada a esperar uma eternidade. Ali dentro, com sua angústia, o tempo não passava. Mas ele finalmente adentrou a sala e encarou-a muito sério, sem aproximar-se. "Madame." – e fez um gesto com a cabeça. "Mulder...." – ele a deixava mais nervosa ainda encarando-a com um certo rancor. Ela não sabia por onde começar. – "Eu... Você sumiu." "Tenho muito trabalho. Não tenho todo tempo do mundo para divertir-me, beber e conversar." – falava como se quisesse ferí-la. "Entendo. Acho melhor retirar-me. Não quis atrapalhá-lo." – ela entendeu o recado e dirigiu-se para a saída, mas ele reteve-a pelo braço. "Espere... Desculpe. Venha comigo." – e conduziu-a para uma enorme biblioteca. Sentaram-se frente a frente, ele ofereceu-lhe whisky, ela recusou. "Não quis ser rude. Mas entenda que afastei-me apenas para não perturbá- la. Ainda creio que não confias em mim." "Confio, Fox. Só que nunca abri-me com ninguém. Apenas Susi e Krycek sabem de toda minha vida. Eu e Susanna nos conhecemos há quase oito anos e Krycek, há cinco. Não sabia se poderia ser sincera com um homem que conheço há dois meses e meio." – ela evitava os olhos dele. "Não a pressionarei. Nunca. Ao menos comigo quero que se sinta a vontade para dizer o que pensa, o que sente e o que quer." – ela ficou um longo tempo em silêncio, brincando com suas luvas salmon, da cor do vestido. "Meu pai morreu quando eu completei doze anos. Eu, minha mãe e minha irmã, Melissa, passamos a viver sozinhas em nossa casa e logo a situação foi ficando complicada. Não havia trabalho para mulheres. Tentamos tudo mas nada conseguimos. Passamos fome. Minha mãe faleceu de desgosto e tristeza. Ela vinha morrendo desde que meu pai tinha perdido a vida para o mar. Sobrou eu e Melissa. Ela, então, contava 18 anos e eu 15. Sobrevivíamos da pior forma possível, mas sobrevivíamos. Até que Cissa adoeçeu, quando completei 16 anos. Eu trabalhava como podia para dar a ela um mínimo de conforto, mas mesmo assim ela insistia, levantava-se da cama e passava o dia atrás de algumas moedas. Quando a situação tornou-se insuportável ela caiu de cama e não pôde mais levantar-se. Ela precisava de um médico. Eu consegui um. Ele atendeu-a e quando terminou, cobrou-me a consulta. Eu disse que não tinha como pagar, e ele disse que um dia viria buscar o pagamento. Melissa aguentou pouquíssimos dias. Ajuntei tudo o que tinha e dei-lhe um enterro decente. Em sua missa de sétimo dia, eu jurei a Deus que nunca mais sofreria, porque eu me mataria. O que não seria difícil, porque não comia há dias." – ela soluçou, prendendo o choro, ele estendeu um lenço e ela enxugou as lágrimas. "Não continue se não quiser." – tocou a mão dela. Ela respirou profundamente e continuou. "Então uma cigana aproximou-se. Parou ao meu lado. Apontou o céu que começava a escurecer. Disse que ela estava bem. Eu não entendi. Ignorei- a. Ela apontou as estrelas. "Melissa está bem ali, olhando por você." Eu encarei-a. Ela sorria como minha mãe. "Tudo ficará bem.Quando precisar, saiba que um desses pontos brilhantes é sua irmã." Eu afastei-me. E nunca esqueci o que ela disse. No dia seguinte eu andava pelo mercado, atrás de sobras de comida. Esbarrei com um homem alto, bonito, com um sorriso safado. Ele pediu-me em casamento. Foi ridículo, mas eu pensei na fome insuportável que eu estava passando há dias, e a primeira coisa que ele me prometeu foi muito dinheiro, uma vida de rainha. Eu aceitei. Ele levou-me para Georgia, para uma mansão de doze quartos. Ele era um homem que vivia de sua herança. Um verdadeiro maníaco sexual. No começo era nojento deitar-me com ele, mas era uma obrigação. Depois eu fechava os olhos e obedecia-o. Eu não tinha como escapar de tudo aquilo. Ele era tão viciado em sexo que levava os amigos para nossa cama e programava orgias sexuais. Eu era obrigada a participar. Levava prostitutas para nossa cama. Eu era obrigada a participar. Todas elas adoravam os bacanais. Eu só não me matava porque não tinha como, ele me cercava de cuidados e vigilâncias. Caso contrário eu teria cometido suicídio. Não acreditava mais em Deus e muito menos na religião. Afinal de contas, eu tinha sido abandonada." – ela baixou a cabeça e chorou. "Dana, eu sinto muito, não sabia que tinha sido tão terrível." – ele acariciava os cachos ruivos com certo medo de tocá-la. Ela voltou a narrativa quando acalmou-se. "Foi então que eu e uma das prostitutas começamos a conversar. Ela também não o suportava e numa dessa noites, em que ela era obrigada a satisfazer um banqueiro amigo de meu marido e eu a servir às loucuras de Jean Claude, que era o nome do meu esposo, nós duas travamos um diálogo que foi uma ajuda mútua. Ambas precisavam desabafar. E nos tornamos amigas. O nome dela era Susanna. Eu já tinha dezoito anos e já estava conformada com meu destino. Um marido estéril, maníaco sexual e louco. Mas num dia que eu estava sozinha, um homem pediu aos criados para ver- me. Quando bati os olhos nele, o reconheci. Era o médico que havia tratado minha irmã. Tudo o que ele disse foi que tinha um recado para mim. E sob a mira de uma faca, levou-me para o quarto e estuprou-me." – ela voltou a chorar convulsivamente. – "Mas Jean chegou, matou o desgraçado e surrou-me. Eu não suportei a violência e desmaiei. Ele achou que eu tivesse morrido e desesperou-se. Levou-me a casa de um amigo médico. Quando acordei ele declarou todo seu amor por mim. Eu o odiava mais do que nunca e me odiava também. Como estava muito mahucada, dormi aquela noite lá. No dia seguinte soube que Jean havia morrido do coração. Eu confesso que fiquei feliz. Fiquei mais feliz ainda quando disseram-me que ele havia deixado todo o seu patrimônio para mim. Então peguei tudo o que possuia, vendi a mansão e, com a ajuda de Susi, que conhecia muito bem Nova York, viemos para cá, recomeçar nossa vida. Compramos a casa, montamos o Star of the World. Então eu conheci Krycek, que fez do salão o melhor e mais bem frequentado da cidade." "É daí que vem sua devoção a ele?" – ele perguntou. Ela ignorou a pergunta dele. "Eu gostava dele no começo. Mas não me julgava propriedade dele. Deitei- me com mais um homem. Ele descobriu e matou-o. E disse que se eu me aproximasse de quem quer que fosse ele mataria a mim, às meninas, à Susi e quem estivesse por perto. Eu aprendi a ser dele. E tem sido assim por cinco anos." – ela suspirou e voltou ao seu estado normal, como se nada tivesse acontecido. "Agora entendo porque você é arredia." – ele parecia compreender o sofrimento dela e parecia muito triste. "Não tenho motivos para ser doce e educada com todos." – ela o encarava, tentando entender aqueles olhos verdes. "Eu sinto muito, por tudo o que lhe aconteceu." – ele não queria encará- la. "O que houve. Assustou-se com o que lhe contei? Julgava que eu, uma prostituta, pudesse ter um passado de regalias e finezas?" – ela irritou- se com as atitudes dele. Ele deu as costas a ela. "Não diga bobagens. Saiba que me preocupo com você. Acho que deveria procurar alguém que a fizesse feliz, ao menos uma vez na vida." – ele permitiu uma lágrima, já que ela não podia ver seu rosto. "Eu sei, Fox. Acho que sei onde posso encontrar essa pessoa." – ela falava com uma voz doce. Ele não olhou-a. "Eu também sei." – ele sentia uma dor por dentro, consumindo sua alma. "Sabe?" – ela esperou por apenas uma palavra. "Sei. Faça uma viagem. Europa talvez lhe faça bem. Ou a Índia. Há poucos homens capazes de vazê-la feliz, pode ser que um deles esteja lá." – ele odiou-se por sua covardia. Ela não acreditou no que ouviu, um ódio intenso consumiu-a. Ela levantou-se bruscamente. "Farei sim uma viagem, Mister Mulder. Pelo mundo. Com Krycek, assim que ele chegar, dentro de duas semanas e meia. Ele gosta de mim e me faz sentir prazer. Posso ser feliz ao lado dele, basta querer. Há qualidades nele que eu admiro. É um homem corajoso e rico. Com ele posso ser uma rainha." – ela soltava toda sua ira sobre o homem que mantinha-se de costas para ela, ereto, respirando pausadamente, intocável. Mas se ela visse a face marcada pelas lágrimas descobriria que tudo era aparência. "Assim espero, Dana. Desejo muito que sejas feliz." Ela retirou-se batendo a porta da biblioteca e a porta principal. Ele foi até onde ela tinha estado sentada, apanhou o lenço que tinha enxugado as lágrimas dela e aspirou o doce perfume. "Dana, desculpe, mas não posso fazê-la feliz. Não sei quem poderia, depois de tudo o que sofreu, mas creio que eu não posso." – e chorou, observando a chuva pesada que caía lá fora. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Scully chegou ensopada no salão quando a noite caiu. Susi recebeu-a extremamente preocupada. "Dana, onde estava? Estávamos desesperadas." Scully ignorou-a e subiu as escadarias correndo em direção ao seu quarto, dando ordens as empregadas. "Calih, meu banho! Luana, meu jantar! Dionis, seque essa água toda do meio do salão." – e trancou-se em seu quarto. Todas perceberam o inchaço e a vermelhidão dos olhos dela e o quanto ela estava irada. Mas nada foi dito. Susi correu atrás da amiga, que recusou- se a esclarecer qualquer coisa. "Não me perturbe, Susanna. Eu tomei chuva, porque não quis tomar o coche para voltar." – explicou à amiga. "Onde foi, querida? Esperamos você toda a tarde." – e apanhou uma toalha para envolvê-la. "Não devo satisfações do que faço." – ela tomou a toalha das mãos de Susi e olhou-a feio. – "Não descerei hoje. Cuide do salão." – e entrou em seu banheiro, expulsando a empregada que preparava seu banho. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx No dia seguinte, Dana foi sincera com Susi e contou-lhe tudo que havia passado na casa de Mister Mulder. Susi, mais uma vez, reprovou-a, por uma série de atitudes, mas aplaudiu-a por ter sido sincera e mais aberta com o homem pelo qual estava apaixonada. "Estava, querida, estava. Quero esquecê-lo. Quando Krycek chegar mudarei minha vida de uma vez por todas. Talvez Mulder esteja certo. Talvez a Índia seja um lugar interessante. Preciso parar de viver em função de homens e buscar outros sentimentos como a paz. Também nunca a encontrei. Vou mudar minha vida." – ela parecia determminada a fazer o que dizia. "Está fugindo de novo. Mas faça o que quiser. Só quero que sejas feliz." – e encararam-se nos olhos. – "Mas eu sei que sente pelo forasteiro algo que nunca sentiu antes e nunca mais vai sentir. Ainda acho que ele é a única oportunidade de você ser uma mulher feliz." "Eu vou esquecê-lo, Susanna. Um dia." – ela suprimiu as lágrimas. – "Agora vá se arrumar. Eu volto às noites do salão. Descerei belíssima hoje em comemoração à minha decisão." "É assim que eu quero te ver, amiga." "Verá." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Ela preparou-se cuidadosamente naquela noite, observando a Constelação de Ursa Menor que brilhava pela sua janela. Escolheu o vestido, o sapato, as jóias, a maquiagem e o cabelo. Arrumou-se. Ali estava ela numa saia e um corpete de seda vermelha que destacava seu busto alvo e desnudo. Adornada com um rico colar de brilhantes e rubis, assim como os brincos. Os cachos ruivos, presos no alto da cabeça, que caíam até a metade do pescoço, emolduravam o rosto rosado muito bem maquiado e a boca vermelha como sangue. O toque final foi a diadema em sua testa, também de brilhantes, coroada como uma princesa. Trazia, presa à saia, na altura do quadril, um botão de rosa vermelha. Encheu seu cálice de champagne e preparou-se para descer, mas Susi surgiu em sua porta. "Dana?" – e contemplou a amiga, sorridente. – "Está linda! Trouxe uma visita pra você." "Visita? Aqui? Aguarde que vou descer." – ela disse séria. "Não." – Agora era Susanna quem falava duro. – "Deixe-o entrar." – e virou as costas acenando para alguém e retirou-se. Mulder entrou no quarto, trajando um belo smoking e uma rosa vermelha na lapela. Não sorriu ao vê-la, pois sabia que o clima estava pesado. Apenas maravilhou-se em silêncio. Conteve-se para não agarrá-la. "Dana..." "O que quer aqui, Mister Mulder?" "Tive que vir. Era algo que não podia suportar mais." "Não há nada para conversarmos, Mister Mulder. Nunca mais." – ela engolia em seco, sentindo o ódio latejar no peito. "Não diga isso. Vim para pedir perdão por ter sido covarde. Por não ter tido coragem suficiente para dizer-lhe o que sinto." "O que havia para se dizer, ficou muito bem dito ontem, Mister Mulder. Não quero ouvir mais nada, por favor. Retire-se." – ela tentava dominar uma raiva incrível que queria explodir de seu peito. "Droga, Dana. Será que não pode entender que eu não tive coragem suficiente para pegá-la em meus braços ontem e jurar-lhe um amor eterno, simplesmente porque não sei se todo o amor que sinto é suficiente para fazê-la feliz, porque você, mais do que ninguém, merece ter toda a felicidade possível?!" – ele dominava as lágrimas. Ela parecia irredutível. Sua insensibilidade parecia ainda maior, agora que ele tinha sido sincero. "E quer que eu acredite num covarde?" – ela soltava fogo pelos olhos azuis. – "Você é igual a todos, Mulder. Mas enganou-me somente durante 2 meses. Agora sei quem é. Percebeu que iria perder a prostituta que estava prestes a ganhar e voltou para refazer o negócio, não é? A cocote de graça, sem desperdiçar um tostão. É isso que quer?" – ela apertou, com desdém, os seios volumosos pelo decote. – "Só pode ser. Me quer em sua cama para poder dizer a todos que possuiu a mulher mais desejada entre os homens. Não esperava outra coisa." "Não está dizendo isso para mim. Está dizendo o que você espera escutar de todos os homens. Mas engana-se. Eu não sou igual..." – ela cortou-o: "Sei muito bem o que dizem e o que pensam. Você está entre eles. Não era isso que eu queria, mas já deveria esperar." – ela arfava. "Dana, pelo amor de Deus. Abra seus olhos. Olhe para mim. Não é capaz de ver o quanto a amo?" – ele aproximou-se tentando segurá-la pelos braços. "Me solte. É mentira. Todos vocês mentem. Você sabe mentir melhor do que ninguém. Quer, simplesmente, usar-me, como a uma vagabunda. Tente me desmentir. Tente. Não me farão de tola mais uma vez." "Você está cega de medo. Permita-se enxergar, ao menos por um minuto. Olhe para mim e diga se não vê amor." – agora ele chorava. "Sou cega, mas não burra. Se você me quisesse teria dito quando fui a sua casa." "Não entende? Todas as minhas experiências com mulheres resultaram em desastre. Quando a vi, e me apaixonei, me julguei perdido, porque estava amando uma mulher de vida livre. Mas em nossa primeira troca de olhares, eu pude perceber que a vida que leva, é apenas de aparências. Eu sabia que era questão de tempo até estarmos juntos, mas como eu já não suportava ficar sem você, eu fazia de tudo para diminuir essa espera. Até que você me contou o quanto foi infeliz." – ela havia escorregado pela parede, até o chão e chorava desoladamente, encarando o rosto do homem a sua frente, que também havia sentado ao pés da cama. – "E então eu tive medo de me oferecer para mudar sua vida, para conduzí-la para a felicidade. Eu não sou o guia perfeito. Eu queria que encontrasse alguém que fosse perfeito. Eu não tive coragem e culpei-me durante todo o tempo pela imensa covardia que apoderou-se de mim ontem. Eu vim aqui reparar o meu erro. Por favor, aceite minhas desculpas." – ela o encarava como se nada tivesse ouvido, tinha uma expressão de dor. "Afaste-se de mim." – ela apanhou sua taça de champagne e jogou contra ele, sem acertá-lo. "Não posso... Não quero. Apenas levante- se e vá embora." – e como ele a olhava sem entender, ela gritou, aos prantos. – "Vá! Vá embora!" – ele levantou-se, olhou-a confuso. "Você é irracional. Mas eu a amo, apesar de não poder provar." – ele ainda fez menção de tocá-la mas ela esquivou-se. "Vá!" Ele deixou o quarto como um raio e, em poucos minutos, Susi adentrava o cômodo, chamando pela amiga. Ao encontrá-la caída e soluçando, sentou-se ao lado dela e deu-lhe colo tentando acalmá-la. Em vão. Ela parecia uma criança birrenta que continuava a gritar: "Eu o odeio. Odeio!" Susi pedia para que ela parasse mas os gritos continuavam. Susanna ergueu-a e estalou-lhe um forte tapa na face direita. Na mesma hora Scully calou-se, encarando a amiga surpresa e magoada. Susi trouxe-a ao peito. "Agora acalme-se e me conte tudo o que aconteceu." Scully contou-lhe tudo o que havia se passado, e só então, deu-se conta de como tinha sido irracional. Susi não precisou, em momento algum, reprovar-lhe. Ela mesma foi arrependendo-se de suas atitudes. "Porque fiz isso? O que há comigo? Nunca ninguém me fez tanto bem quanto Mulder e, no entanto, agi como se o odiasse." "Você sofreu demais na mão dos homens, amiga. Sempre quis mostrar-se mais forte do que realmente é. Mas não soube como parar, nem quando. Não viu que ele era o único a lhe ser fiel, a lhe tratar bem. A amar- lhe de verdade." "Perdi-o. Como pude ser tão burra?" – ela voltou a chorar baixinho. – "Nunca poderei tê-lo. Ah, minha amiga, o que eu fazer agora?" "Vai reparar seu erro." "Não há como. Agora ele me odeia." "É verdade. Mas, quanto mais cedo você for até ele, e dizer- lhe o quanto foi burra, e que quer reparar o erro, mais cedo ele voltará a amar-te." – as duas ficaram muito tempo em silêncio, até que Dana levantou-se do colo da amiga. "Tem razão, querida. Eu tenho uma idéia." – Susi sorriu. "É assim que gosto de vê-la." "Assim que o salão esvaziar-se, avise-me e chame um coche para mim." "O que vai fazer?" "Vou atrás de minha felicidade. Não se preocupe por mim." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Eram duas horas da manhã, quando o coche negro parou diante da mansão de pedras e a mulher de vermelho desceu e tocou o sino. Depois de algum tempo, o mordomo abriu a porta e sua expressão piorou ao ver quem era. "Mister Mulder, por favor." – ela pediu, constrangida. "Madame, são duas horas da manhã, Mister Mulder está dormindo." – o velho preparava-se para fechar a porta. "Por favor, preciso falar-lhe." – ela parecia suplicar. "Madame, já lhe disse..." "Pode deixar, Louy. Vá dormir." – a voz de Mulder vinha de algum lugar, no interior da casa. O velho olhou contrariado para a cocote a sua frente e dando- lhe passagem, fechou a porta, assim que ela entrou, e desapareceu pelos fundos da casa. Ela caminhou alguns passos a frente e viu-o no alto da imensa escadaria, em meio a escuridão. "Mulder..." "Diga o que tem a dizer e vá embora." – agora era ele quem tinha raiva. "Eu preciso conversar." – ela subiu os primeiros degraus. "Já disse tudo o que tinha para dizer." – ele subiu alguns, em direção ao segundo andar, sem dar-lhe as costas. "Não disse. O que eu disse foram insanidades. Loucuras que brotaram de uma alma cheia de dor. Não era a verdade." – ela continuava subindo e ele continuava afastando-se, evitando olhá-la. "Disse o que sentia. Não tente mascarar-se agora." "Não, agora é a verdade. Estava mascarada pelo ódio, por todo o sofrimento da minha vida. Pelo medo. Compreenda, eu precisava de tempo para pensar." – ele atingia o corredor do segundo andar e continuava a distanciar-se. – "Não fuja. Me ouça. Pare, por favor!"- ela suplicou. Ele parou, encarando-a seriamente: "Não podia provar meu amor. Você não quis compreender a minha covardia. Minha vergonha. Isso serviu para eu ver que o sentimento que me tomava não era recíproco." "Fox, é. É recíproco. É verdadeiro. É intenso. É a primeira vez que sinto algo assim. Mas o medo está sempre presente. Há algo que me atormenta, que não me deixa viver, me torna irracional e insana: Krycek. Ele me mantém sob constante vigilância. Tenho medo do que ele possa fazer com você. Já matou um. Tem vários sob sua mira. Sou propriedade dele. Meu corpo o pertence. Mas eu o odeio. Nada posso fazer e não posso colocar-te em perigo por minha causa. Mas eu tenho certeza que só um grande amor poderia me transformar numa mulher segura e feliz. Mas esse amor só existe se for de ambas as partes. É de minha parte. E da sua?"- ela chorava cada vez mais. "Desde que a conheci. No primeiro minuto que a vi descer as escadarias, com um vestido azul da cor de seus olhos. Brilhava como uma estrelas. Ali, naquela hora, eu tive certeza que era só com você que eu poderia alcançar a felicidade." – ele, agora, caminhava lentamente em direção a ela. – "Eu não sei como provar. Mas acho que se me permitir tocá-la, me aproximar, então acreditará em mim." – ele a olhava, como pedindo autorização para deixar seus sentimentos fluirem. Ela sorriu, querendo sentir algo que nunca havia sentido. A autorização estava dada. Ele aproximou-se, sem saber como agir, olhavam-se intensamente, ela exugou as lágrimas para parecer mais forte. Ele fez o mesmo, incoscientemente. Ele tocou o rosto rosado com as mãos trêmulas. Acariciou os lábios entreabertos. Ela beijou levemente a ponta dos dedos dele. Ela levou as mãos à boca carnuda de Mulder. Sentiu-a úmida. Ele beijou e tocou com a língua os dedos que passeavam sobre seus lábios. Ela fez o mesmo. Fecharam os olhos e sentiram o toque um do outro. Aproximaram-se, sentindo o ar quente que corria entre eles. Tocaram os lábios sem acreditar no que faziam, e, aos poucos, entregavam-se ao beijo ardente. Um desespero tomou conta de ambos e selaram a paixão com aquele toque de línguas, de mãos. Ele apertava-a, firmemente, pela cintura, contra seu corpo e ela afagava, com certa gana, os cabelos castanhos macios. Ficaram naquele estado durante muito tempo. Impossível calcular. Só sentir. Eles só sabiam que precisavam de um quarto, ou amanheceriam no meio do corredor e, aí sim, o mordomo a odiaria. Sem parar o beijo, atropelaram-se até o quarto dele. Amplo, com poucas velas acesas, sob a penumbra. Ele aproximou-a da cama, mas notou um detalhe: ela estava inteiramente vestida. "O que faço com essas roupas complicadas?" – ele perguntou quando conseguiu afastar-se da boca dela. Ela sorriu alegre. Livrou- se dos braços que a apertavam e virou-se de costas. "É fácil." – ela levou a mão às costas e puxou o laço da fita que trançava o corpete. Desatou o primeiro x. – "Coloque o dedo aqui e puxe, devagar, para desmanchar o trançado, de baixo até em cima." "Complicado demais." – ele sorriu enquanto empreendia o trabalho minucioso com a mão direita e puxava-a contra si com a mão esquerda, levando sua boca ao pescoço desnudo dela. "Mas compensa." – ela tinha um sorriso malicioso, que logo se transformou em gemido com as mordidas que ele dava em seu lóbulo. Ele susurrou: "Tudo com você compensa." Quando, finalmente acabou de desatar o trançado do corpete, percebeu que teria que fazer o mesmo serviço com o espartilho. "Não diga que tenho que fazer tudo de novo." – ele sorriu incrédulo. "Só se quiser." – ela sabia como convencê-lo. Ele não perdeu tempo e fez o serviço, enquanto ela tirava a saia, as anáguas e a armação. Quando ela concluiu o seu trabalho ele ainda não tinha dado conta do serviço. Ela terminou pra ele. Antes que ela pudesse derrubar o espartilho a seus pés, ele já a puxava para ele, envolvendo a barriga lisa com seus braços grandes e subindo para os seios que acomodaram-se às suas mãos. Ele virou-a e beijou-a loucamente enquanto ela livrava-o do robe e da calça de dormir. Ele carregou-a para a cama, beijando todo seu corpo. Só restavam as jóias que contrastavam com a brancura dela. Ele retirou a diadema como se coroasse uma rainha. Eles estavam calmos e aproveitavam cada segundo pois não era a primeira vez de nenhum dos dois, mas eles sabiam que aquele era um momento mágico, que nunca tinham presenciado: o amor. Ele acariciou os cachos, fitou-a longamente e sorriram com a mesma intensidade. Juraram amor ao mesmo tempo, quando atingiram, juntos, o clímax. Passaram a noite compensando toda a dor, a dúvida e a solidão que os havia consumido desde o nascimento, até o momento em que seus lábios tocaram-se. Ignoraram a manhã que veio quente e continuaram amando-se como se só houvesse os dois naquele mundo. Mas tiveram que levantar-se. Mulder enrolou-se no robe que estava aos pés da cama e lavou- se. Ela o fitava, ainda largada na cama. Sua única roupa era o colar de brilhantes e rubis. "Fox? Tenho sede." – ela sorria como uma menina. "Ainda? Bebemos um do outro toda noite e ainda quer mais amor?" – ele aproximou-se do corpo estendido de atravessado na cama, em meio aos travesseiros. "Desta vez preciso de água..." – ela apuxou-o com as pernas para cima dela. "Mas eu preciso de beijos." – ele agarrou-a sem piedade e cubriu-a com seu corpo, brincando com sua língua pelo pescoço esguio. "Vamos, Fox. Pare com isso. Eu preciso de água." "Vamos almoçar juntos, então." – ele sorria. "Sabe que não posso. Se alguém nos ver... Há Krycek." – agora ela estava séria e tentava afastá-lo de cima de si. O rosto dela mostrava tormento. Mulder pegou-a levemente pelos pulsos e deitou-a sem dizer nada, apenas encarando-a. Ela continuava a tremer e dar mostras de choro. "Krycek nunca tocará, nem em mim, nem em você. Eu lhe prometo. Se não quer almoçar, se não quer sair, não se sinta pressionada. Eu só farei o que você quiser. Mas ninguém atrapalhará o nosso amor. Nós iremos para algum lugar onde possamos estar em paz. Ele nunca destruirá a minha única razão de viver." – ela assentiu e abraçou-se a ele jurando que nunca se separariam. – "Nunca." – ele repetiu. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Nas duas semanas seguintes foram raros os momentos que Dana e Fox se separaram. Uma ou outra noite ela tinha que comparecer ao salão, para as recepções, ou, durante uma tarde ou outra, ela tinha que ir até lá, verificar se estava tudo em ordem. Nessas horas, Mulder aproveitava para liquidar os assuntos da fábrica de seu tio, que ele tentava vender. O mordomo da casa acabou acostumando-se com a presença de Scully e passou a tratá-la melhor. As noites eram passadas no quarto de Fox, e, a maioria dos dias, também. Eles almoçavam juntos, sentavam-se, durante as tardes quentes, no chão da varanda da biblioteca, e Dana lia um livro para o homem deitado em seu colo, sobre a saia de seu vestido. Eles eram capazes de permanecer horas assim, um escutando o outro, acariciando- se ou vendo as estrelas. Era uma mágica que nunca acabaria, Dana dizia. Mas enganou- se. Quando chegou, logo após o almoço, no salão, Susi a esperava, com uma expressão preocupada. "Tenho uma má notícia, Dana." – ela desmanchou o sorriso que trazia na face, alegre pelo amor que vivia. "O que houve, Susi?" "Há uma hora o St. German aportou... proveniente da Inglaterra." – ela disse, esperando a expressão da amiga. "Não me diga que..." – Dana engoliu em seco, transfigurada, segurando as lágrimas que rapidamente brotaram. "Sim... Krycek chegou." – Susanna finalizou, sem encarar a amiga. Scully respirou profundamente, várias vezes, para não chorar, sentou-se no degrau da escada e escondeu o rosto nas mãos. Assim ficou cerca de 10 minutos, e, sem mover-se, mandou a amiga reunir toda a casa imediatamente. Quando todas as meninas e os empregados postaram-se a sua frente, preocupados, ela levantou-se, com ódio no olhar. "Krycek chegou. Prestem bastante atenção no que vou dizer. Nada aconteceu de anormal aqui. Eu quase não saí. Não recebi ninguém e, as noites que eu não compareci às recepções, foi porque estive em meu quarto." – ela olhava cada um nos olhos, certificando-se da fidelidade deles. – "Eu conto com vocês, quando ele entrar, para não cometerem deslizes." – ela virou-se e subiu as escadas, gritando: - "Calih! Venha até meu quarto. Susi, me ajude." Ela entrou em seu quarto como um raio, e pôs-se a escrever um bilhete, enquanto dava instruções à empregada: "Calih. Quero que pegue esta carta, alugue um coche, e vá até a casa de Mister Mulder. Chegando lá entregue isto em mãos, nada de mordomo ou empregados. Somente Mister Mulder, entendeu?" – e diante da afirmativa da criada, continuou. – "Espere ele responder e me traga a resposta imediatamente. Só entregue a mim. Mas só se eu estiver sozinha. Caso contrário, entregue a Susi. Mas Krycek não pode ver. Ninguém pode ver. Entendeu? Em mãos!" – e entregou a carta e algumas moedas a Calih. – "Agora vá, depressa!" "O que pretende, Dana?" – perguntou Susi assim que a empregada saiu. "Não sei ainda, querida. Mas já havia conversado sobre isso com Mulder. Talvez eu tenha que partir, atrás de minha felicidade." – ela encarou-a nos olhos. – "Vou precisar de você." "Você pretende fugir?" – ela sentou-se na frente de Scully, sobre a cama, contendo as lágrimas. "Não. Eu fugi minha vida inteira. Agora eu estou correndo atrás de um amor." – elas deram-se as mãos, engolindo em seco. "Para onde vão?" "Não sei. Nem quando, nem como, nem para onde. Nem sei se conseguiremos. Krycek pode ficar em cima de mim. E então eu não terei oportunidade nenhuma. Tudo está dependendo de Fox." "Se é isso que quer... conte comigo." – Susanna permitiu as lágrimas. – "O que posso fazer?" – ela soluçava. "Primeiro, prometa que ficará bem." – a amiga acenou afirmativamente. Ela continuou. – "Agora prometa que cuidará do salão como cuidou de mim todos estes anos." – ela acenou novamente. Abraçaram-se. – "Bom... Eu também vou precisar de alguém que arrume as malas sem ninguém perceber, porque isso vai ser uma segredo, viu?!" "Eu farei tudo, amiga. Tudo. Só prometa que não é para sempre." – elas abraçaram-se ainda mais forte. "É só até Krycek me esquecer, tomar um novo rumo, você me avisa quando tudo estiver bem, e eu volto." "Prometa que vai me escrever." "Todos os dias, querida. Todos os dias." xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Calih chegou com a resposta antes das seis da tarde. Dana comunicou a decisão à Susi e as providências começaram a ser tomadas, em segredo. Às sete da noite, Susanna entrou assustada em seu quarto encontrando Scully, que separava as roupas, os sapatos, as jóias e os perfumes e colocava-os em grandes baús. "Ele está aí." Scully, serena, sorriu e perguntou, ingenuamente: "Quem?" – estava absorta em seus pensamentos e na arrumação das malas. "Krycek." – um arrepio percorreu-lhe a espinha ao escutar o maldito nome, e ela fechou os olhos, com medo. Ela levantou-se e caminhou em direção à porta sem encarar Susi, suspirando fundo e descendo as escadas. Alex vinha pelo salão, cumprimentando as meninas, que faziam rodas a sua volta, com beijos sedutores em suas mãos. Quando viu Dana, abriu um vasto sorriso e dirigiu-se à escadaria. "Minha rainha! Quantas saudades... Como precisava te ver." – e a agarrou pela cintura beijando-a. – "O que fez enquanto estive fora?" "Nada. Vivi enjaulada, como nos últimos cinco anos." – ela olhava-o com nojo. "É assim mesmo que tem de ser. E continuará sendo." – ele passou as mãos pelos seios dela. – "Quero aproveitar o tempo perdido. Não sentiu minha falta?" – perguntou enquanto arrastava-a escada acima. Ela ignorou a pergunta cretina e baixou os olhos, triste pelo que viria. Ele foi agressivo como sempre e, no início, ela tentou imaginar que era Mulder quem estava a sua frente. Mas era impossível iludir- se. "Alex, por favor. Eu não quero. Hoje não. Estou cansada." "Cansada?" – ele deu uma gargalhada. – "Mentirosa. Teve três meses para descançar e acha que vou ceder às suas frescuras?" "Por favor eu estou com dor de cabeça." – ela quase implorava. "Problemas é seu. Eu quero agora." "Alex, por favor, não." – ela começou a chorar, e tentar desvencilhar-se. "Não dificulte as coisas. Será como eu quero." – ele segurava-a cada vez mais forte. "Me solte. Maldito! Tire suas mãos imundas de cima de mim." – ela debatia-se. Ele agarrava-a pelos pulsos, apertando. "Cale a boca. Imunda é você, sua vagabunda. Colabore ou encho-a de socos." – ele jogou-a na cama e acomodou-se sobre ela, que lutou, inutilmente, por algum tempo, cedendo em seguida. Olhava para fora, procurando a Constelação de Ursa Menor. Ela não estava ali. Chorou em silêncio, enquanto aquele homem a violentava, e ela tentava convencer-se de que não estava traindo seu amor. Uma hora e meia depois, ele vestiu-se e, arrancando o lençol no qual ela havia se enrolado para esconder sua nudez, acaricou os seios alvos com rudeza. "Não sei porque insistiu em agir como uma virgenzinha sendo estuprada. Não se esqueça" – e aproximou-se da boca dela. – "que você é apenas uma prostituta. Ninguém vai tocá-la além de mim. E se tocarem, eu mato. Se quiser sentir prazer, será comigo. Por isso, trate de fazer seu serviço direito, porque eu pago muito bem." "Eu não quero seu dinheiro podre, seu filho da puta." – ela gritava, com ódio. "Amante. Amante da puta." – ele ria, divertido. – "Cale a boca e deixe de ser histérica. Eu volto amanhã a noite. Comporte-se." – e saiu batendo a porta. Ela ficou ali, tremendo de raiva e de tristeza, até Susi chegar e levá-la para seu quarto, onde preparou um banho quente e ajudou-a a banhar-se. "Está tudo pronto?" – Scully perguntou, enquanto enxugava-se. "Está. Eu venho avisar-lhe quando todos estiverem dormindo." – e deitou Scully em sua cama, que adormeceu rapidamente. Quando a madrugada caiu, um coche de aluguel parou nos fundos do salão e Dana e Susanna pararam na calçada, despedindo-se, enquanto as malas e baús eram colocados no veículo. "Prometo que escrevo assim que chegar." "Tudo dará certo, amiga." "Eu espero que sim. Não se esqueça que você não sabe de nada. Não deixe que Alex a manipule. Vá a polícia, aos jornais, fale com os amigos. Faça o que tiver que fazer, mas não deixe que ele ameace, nem você, nem as meninas. Eu deixei um envelope sobre minha cama. Amanhã de manhã, mande chamá-lo e diga que eu sumi e deixei uma carta, que você achou. Que é para ser entregue a ele." – Dana subiu no coche e deu as mãos a amiga. "Seja feliz. Só isso." "Você também." "Me escreva. E volte logo." "Escrevo. Veja como umas férias distantes. Assim que eu estiver descançada, eu volto." "Seu lugar vai estar guardadinho." "Eu sei, querida." "Até logo, amiga." "Até logo, querida." – e o coche partiu. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Às seis horas da manhã, o navio "King of the Nile", partia em direção ao mar aberto. Em uma das cabines de primeira classe, estava um casal que acabava de arrumar suas coisas e sentar-se, ladoa lado, na cama de casal. "Está tão calada, desde que nos encontramos. Não queria vir?" – ele perguntou aflito pelo estado dela. "Não é isso, meu amor. Estou deixando cinco anos para trás e toda uma família." – ela não queria emocionar-se. "Construiremos nossa família. E assim que tudo melhorar, nós voltaremos." – ele queria consolá-la, apertando, com delicadeza, a mão trêmula. "Fox?" – ela evitava o olhar dele. "Diga?" – ele ajoelhou-se na frente de Scully, olhando em seus olhos. "Eu menti para você." – ela respirava fundo para não chorar. – "Krycek esteve no salão ontem a noite. Ele... me... obrigou a... fazer..." – ela não pôde concluir, escondendo o rosto nas mãos. Ele entendeu. Levantou- se, cheio de ódio. "Desgraçado." – andava de um lado para outro, como um leão enjaulado. – "Porque não me disse antes? Ele sabe ameaçar uma mulher. Mas não teria coragem de tentar nada contra mim. Eu poderia ter matado-o. Maldito. Porque não...?" – ela interrompeu-o, aos prantos. "Porque ele é violento, perigoso. Eu nunca poderia, sequer imaginar, perder-te. Por isso deixei para contar-lhe só aqui, onde não poderias fazer nada." – ela gritava. Ele abaixou-se, abraçando-a. "Ah, meu amor. Prometa que nunca mais irá me esconder nada. Prometa que me deixará protegê-la, que me deixará defender sua honra, sua..." "Honra? Eu sou uma prostituta, esqueceu-se?" – ela voltou a gritar. "Não é. Você foi. Agora é meu amor. Uma mulher íntegra, inteligente, carinhosa, corajosa." – ele sacudia-a levemente. – "Vamos, Dana. Esqueça- se de tudo de ruim por que passou. Só tenha lembranças boas. Agora teremos a mais bela vida. Uma que jamais imaginou que teria. Eu vou fazer de você a mulher mais feliz do mundo. Eu juro, meu amor." – eles deitaram-se, abraçados. "Eu te amo, Fox. Te amo." – ela chorava. xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx xxxxxxxxxxxx Um ano depois. "Querida Susi, Daqui da janela da minha varanda posso avistar o ápice de uma gigantesca pirâmide. Sobre ela, estrelas. As mesmas que brilham em Nova York, brilham aqui. Os nomes são diferentes, mas a beleza é igual. Conheci o deserto e o calor infernal que faz aqui. Mas é um lugar encantador. Inclusive Fox me levou a uma das expedições que ele tem feito nas proximidades da cidade juntamente com os professores de Oxford. Gostaria que conhecesse os monumentos de areia que existem aqui. É um lugar mágico e misterioso. Fazemos planos de voltar dentro de um ano, ou dois. Por enquanto, iremos à França e passaremos alguns meses lá, pois as condiçoes médicas são precárias aqui e Fox e eu queremos total atenção à minha gravidez. Já estou de quatro meses. Uma barriga redonda, grande. Deve ser uma menina. Fox deita todos os dias sobre o meu ventre e conversa com a criança dizendo que elas podem escutar e responder a todos os estímulos. Eu acredito no que ele diz porque o bebê chuta. Quando ele canta o bebê acalma. Quando ele faz carinho, também. É um verdadeiro paraíso poder estar aqui, com uma família, uma bela casa, uma bela vista e muita paz. Gostaria que estivesse aqui, amiga. Tenho tantas saudades... Aguardo mais uma resposta sua, me contando como está o salão e as meninas. Carinhosamente Dana Katherine Scully Cairo, 12 de setembro de 1895. P.S.: Estou muito feliz por saber que finalmente Krycek mudou-se para o Brasil. Agora estamos seguras." Scully dobrou a carta e colocou-a no envelope endereçado ao salão de Nova York. Levantou-se e dirigiu-se à varanda, onde Mulder estava sentado num banco de madeira, lendo um livro de psicologia. Ela aproximou-se e tocou os cabelos castanhos. Ele acordou do transe que estava e fitou-a sorridente. Deixou o livro de lado e abriu os braços para recebê-la em seu colo. "Venha, meu amor." – e deu-lhe um beijo carinhoso. – "Estive pensando. Tens certeza de que não é arriscado viajarmos agora?" – e acaricioua barriga que já estava grande. "Tenho sim. É melhor que cheguemos logo em Paris, enquanto estou de quatro meses. Mais tarde pode ser perigoso para o bebê." – ela passava os dedos delicados pela boca carnuda dele. "E para a mãe." – ele tentava conter-se diante do olhar provocativo dela. – "Iremos de navio, nada de cavalgar." "Eu sei que não posso." – ela aproximou-se da boca, mas afastou-se, deixando-o na expectativa de um beijo quente. – "Estive pensando no nome..." "Não comece a querer me enlouquecer..." – e sorriu diante da expressão ingênua dela. "Eu disse que penso em um nome." – ela voltou a aproximar os lábios mas distanciou-se, deliciando-se com a cara de desejo contido que ele fazia. "Delicia-se com meu sofrimento, hein?" – ele tentava não agarrá-la. "Se não presta atenção em mim, vou deitar-me." – ela levantou-se, fingindo-se zangada. Caminhou pela varanda, insinuante. A camisola transparente e fina, realçava o movimento do quadris. "Dana!" – ele chamou autoritário, entrando na brincadeira, embevecido pela imagem da mulher sob a luz tênue que adentrava a varanda. "Sozinha. Hoje a cama é só minha e do bebê. Você dorme aí, no banco da varanda." – e, parando na porta, voltou-se para ele. – "Boa noite." "Ah, menina. Venha já aqui!" – ele tentava manter-se sentado, no banco, mas o desejo consumía-lhe. Escutou o barulho da cama, quando ela deitou. Correu até a porta e fitou-a, deitada entre os lençóis finos. "Não me olhe com essa cara, Fox." – ela continuava com o sorriso travesso. – "Estou grávida e o bebê não gosta de peso em cima dele." "Não é isso que vem dizendo todas as noites, nos últimos quatro meses." – e foi até a cama, deitando-se ao lado dela e trazendo-a para seus braços. – "Qual é o nome?" "Agora não..." – e puxou para beijá-lo. Mas ele impediu o beijo e deixou- a apenas com a vontade. – "Não faça isso, Mister Mulder." "Não fique brava, madame." – e trocaram um beijo ardente, prévia do que seria mais essa noite. A porta da varanda ficara aberta, e um vento soprava, agitando as cortinas finas. As estrelas luziam na cúpula negra sobre o Nilo. Dentro daquele quarto, o casal finalmente achara a felicidade. Consumaram-na no pequeno ser que estava por vir. O passado não mais importava. Esqueceram as tristezas e o sofrimento que enfrentaram. Finalmente estavam lado a lado, completando-se, possuíndo-se, amando-se. Nunca, nada, pôde destruir aquela união, que ficou eternizada no brilho das estrelas.