Essas folhas soltas By Meggie Eles não me pertencem e não estou lucrando. Não que alguém tivesse alguma duvida, mas o Chris é meio paranóico. Sumario: Ponto de vista do Mulder sobre alguns fatos das duas primeiras temporadas, seus três primeiros anos com Scully, a vida, generalidades. Tudo escrito nessas folhas soltas. Spoilers: Primeira e Segunda temporadas inteiras. É bom tê-las visto para entender esta fic. O ministério da saúde adverte, FEEDBACK faz bem para saúde e causa bem estar prolongado. Em resumo, melhor que chocolate. Comentários para wm3@uol.com.br A Terry, que me deu força para continuar na estrada, com amor. O começo: Quando o futuro chegou Senti aquilo de novo, hoje. Como sempre, mas muito pior. O medo parou os pêlos de minhas pernas e as mucosas do meu nariz pareciam congeladas. Parou-se o vento nos fios castanhos do meu cabelo. Dentro, o estômago queimava e o fogo vinha subindo pelo esôfago, até chegar, em uma discrepância anatômica, até o coração e depois os peitos e fazer um tamborilar nas têmporas, me esquentando as orelhas. Meus lábios estavam tão secos, as pernas logo não me sustentavam mais. Acho que me sentei. Desmaiei. Morri. O ar. Os ácaros. Os espíritos que ninguém escuta: todos gritavam em silencio meu futuro certo. Seria a morte? A loucura? Que espécie de fatalidade me esperaria ali mais a frente no meu caminho? Não tenho respostas, apenas a reação desesperada do meu organismo, avisando, dia após dia, algo se aproxima. Esteja preparado. XXXXXXX O futuro chegou. Encontrou-me sentado, congelado. As entranhas em chamas sufocadas. O futuro tem olhos azuis e abraço macio. Voz rouca e suave. O futuro é lindo, delicado, perigoso. O futuro é uma mulher pequena. Traidora? Espiã? Jovem, ingênua, indefesa? Continuo sem respostas, como sempre. Mas desde que a vi, pararam-me os tremores profundos e aquela sensação aterradora de pânico. XXXXXXXX Estou nu, no sofá. Os pêlos arrepiados. O sangue correndo rápido entre minhas células, meus neurônios, minhas veias. Estou todo vermelho e tenso e excitado. Meu corpo molhado escorrega no couro negro do sofá. Os arrepios me sobem, enternecem, assustam. Pareço febril. Pareço louco. Sinto dores. Sinto gozo. Enquanto escrevo sinto uma enorme vontade de me tocar, forte e rapidamente, até que tudo passe. Mas sei que não irei. Preciso escrever. Preciso me redimir. Preciso de libertação, de pureza. A dor que sinto em minhas extremidades sensíveis, dedos, pés, pênis, orelhas, parece ideal. Meus olhos continuam inchados e rubros e os calafrios me percorrem com intensidade. Gostaria mais do que tudo nesse momento, mergulhar meu corpo no de uma mulher. Sentir seus fluidos quentes me envolverem até tudo se dissolver em trevas. Gostaria de abraça-la, seu corpo suado, seus cabelos cheirosos e mover-me com intensidade violenta até que meu corpo mal conseguisse respirar, viver. Gostaria de voltar ao útero, de ser protegido e amado. Gostaria dos lábios dessa mulher, sua língua quente aplacando a sensibilidade do meu órgão sexual. Gostaria de sua boca na minha. De afundar meus dedos em sua carne macia enquanto a empurrava ainda mais para dentro de mim. Sinto meu coração nas costelas e sem suportar mais levo os dedos a minha ereção e me perco. XXXXXXX O perfume dela intoxica a casa. O sofá. Meus pulmões. Aquele perfume bom e puro, misturado com o cheiro dela. É a primeira vez que vem aqui e seu perfume vai estar para sempre nas paredes do apartamento. Não vou conseguir dormir. XXXXXX Estou vazio. A vontade de chorar passou. A vontade de comer, amar, viver, sorrir, passou. Tudo passou. Minha alma parece vestir um corpo desproporcional. Meu espirito é tão curto para uma veste enorme. Parece-me que se levar meus dedos ao rosto conseguirei deslocar a pele, como se fosse uma camisa frouxa. Sinto-me fraco, inútil, perdido. A noite me deixa deprimido. A voz suave que vem da televisão não consegue penetrar em minha consciência. Sei que não dormirei. Sou um boneco estúpido. Eu me violo. Contra mim próprio, meu cérebro volta-se. Se me concentrar posso sentir o sangue correr nas veias. Mas nem querendo muito posso fazer certas imagens saírem de mim. Nem se tentar muito desaparecera da minha mente aquele estranho torpor. Fraco e inútil, poderia matar-me. Fui a um psicólogo na faculdade, ele disse das minhas tendências depressivas. Como se eu não as soubesse! Como se eu não as sentisse... Talvez agora eu consiga chorar. XXXXXXX Chove. Plac Plac Plac... a goteira na sala...Impossível, eu me repito, moro em apartamento, no quarto andar, como pode haver uma goteira na sala? Mas há, plac plac plac. Ela esteve aqui hoje, novamente. Segunda vez. Reparei que gosto do cheiro que ela deixa no ar. As vezes me pergunto se ela é mesmo o futuro. E a resposta vem fácil. Sim, ela é. Que espécie de futuro poderíamos Ter? Eu não saberia dizer. Creio que morrerei logo, jovem e tragicamente. Que futuro poderia haver para mim? E aí está a maior beleza. Ela. Não me importo que eu morra, quando, onde ou como. Ela carrega o meu futuro nas mãos. Sou parte dela e aqueles olhos azuis me levarão pelos anos próximos. Viverei enquanto ela viver, e ela viverá muito. XXXXXX O que você deve sentir quando tentam usurpar o futuro de você? O que você supostamente deve sentir quando o violam, atemorizam, mutilam? Eu lhes digo: Inúteis. Sinto-me inútil, triste, culpado, muito mas acima de tudo : Inútil, inútil, inútil. Gostaria de abraça-la. Tranca-la em uma pequena caixa e coloca-la dentro de mim. Machucaram meu futuro hoje. Minha garota. XXXXXXX Que beleza pode haver em um quanto escuro? Infinitas, infinitas belezas, mas não se pode saber, afinal, é um quarto escuro. Não se vê onde não há luz Dentro de suas paredes pode haver um quadro de Renoir ou corpos mutilados. Não se sabe que segredos escondem-se lá. Assim é minha alma. Um quarto grande, frio e negro. Não se sabe o que é guardado dentro. Até hoje ninguém ousou entrar e acender a luz. Eu me pergunto se eu permitiria que alguém o fizesse. Tenho medo de tudo que tranquei nesse cômodo. Não consigo mais me lembrar se eram ou não monstros. Não vou permitir que ela venha e abra porta. Não sei que espécie de horrores ela pode liberar. Não quero que se machuque, a pequena. XXXXXX A maciez. Nada como a maciez. Como nuvens. Como algodão. Como um bebê. A maciez de certas mãos . De certas almas. A lembrança me consolará por muitas noites que virão. XXXXXXX Morri, hoje. Violado e vazio. Hoje, morri, cortaram-me as carótidas e meu coração, ridículo, morreu de fome. Estou oco. Há anos não sorrio. Há séculos. Tudo foi apenas ontem, mas ao olhar no espelho só enxergo meu cadáver em decomposição. Sentiria-me inútil, se não sentisse nada. XXXXXXX Ela era bonita. Como era bonita e perfumada. E sensual. E compreensiva. Ela sabia o que eu havia perdido. O que eu perdi. "Uma amiga". Ela sabia como eu estava vazio, tão vazio e gelado. Como eu estava morto assim como ela. Tão lindos seus olhos castanhos e seu corpo tão macio. E eu, tão desconsolado, tão inconsolável. O encontro de nossas línguas, de nossos lábios, quase preencheu o que não poderia ser preenchido. Fazia semanas que eu não dormia, por semanas que se seguirão, não dormirei. Olho para a cruz que me queima o peito. A amiga que perdi. Como se perde um amigo? Como se perde o futuro? Como é possível tão miseravelmente falhar? Ela não queria ser salva. Ela se matou da pior forma que se pode morrer. Consumida pelas chamas. Sinto-me consumido pelas chamas por solidariedade. Sinto-me ainda mais vazio. Sinto sob as unhas tudo que perdi. Sinto no ventre. Nos dentes. Sinto-me mais morto. Pesado. Não sinto nada. Ela era tão bonita, quase tão bonita quanto o futuro, a amiga, o amor, a mulher, a parceira, a companheira, a companhia, a adversaria, a razão, a vida que perdi. Quase mais bonita se possível fosse algo mais bonito ser que aqueles imensos olhos azuis. Há muito não sorrio. Há muito não choro. Há muito não vivo. Há muito perdi. A cruz queima meu peito solitário. XXXXXXXX Colorido. As nuvens estão brancas de novo. Disso sei pois o céu voltou a ser azul. E agora consigo distinguir o verde dos meus olhos no espelho. O cabelo louro de Ms. Jordan, minha vizinha, a cor das minhas gravatas voltou. O vermelho, consigo ver o vermelho, quase que pela primeira vez. E o azul de seus olhos novamente. Ela voltou e eu teria de dizer isso eternamente para poder acreditar. Ela voltou. Voltou. VOLTOU. XXXXXXXXX Tenho tempo. Creio que nunca tive tanto tempo na minha vida. Um mês de horas intermináveis. Passo-as com ela e comigo. Só ela me distrai de mim. Apenas ela. Como é bom. Como é doce. O sorriso dela. Os lábios dela. Ela está de volta e eu quase ainda não acredito. As vezes dormimos juntos. Eu poderia abraça-la eternidades inteiras. As cameras não nos deixam a sós, mas não me importo desde que possa abraça-la a noite, seu corpo quente sacudido por soluços que não cessam, de pesadelos que a seguirão por anos a fio. E ela permite que eu me encaracole em sua cama estreita e abrace, console, seu corpo pequeno. Ela não quer que eu pense que ela é fraca, que eu tenho de pretege-la, mas mesmo assim não nega- me o direito de passar meus braços em sua cintura a noite quando os pesadelos vêem. Ela odeia o confinamento a que estamos expostos. São as lembranças reprimidas de um período de que eu não quero que ela se lembre. E mesmo assim, sinto suas lágrimas em minhas mãos, como sangue. Quando sairmos daqui, dessa quarentena forçada, tudo vai ser como antes. Enquanto estivermos aqui vou abraça-la e protege-la de tudo que lhe assustar. XXXXX Macia. Querida e perfumada. Ela é linda quando dorme. Amanhã vamos embora. Esse mês longo passou rápido demais. XXXXX Meu sofá parece uma cama king size, agora que deito-me sozinho. Sinto falta do corpo dela. De seu calor. Principalmente no final, na ultima semana, quando ela já estava quase acostumada com a brancura das paredes, e as cameras, e os testes, o tirar de sangue todos os dias para sabermos se estávamos contaminados ou não. Nesses últimos dias ela me abraçava forte mas não chorava. Era como o céu. Sinto falta dela nesse meu sofá gigante. XXXXXXX Ela diz que eu sou super-protetor... Seus olhos luminosos me acusando. Ela acha que eu me preocupo demais. Ela pensa que eu não a acho forte o suficiente. Corajosa o suficiente. Como ela pode pensar isso? Eu confio a minha vida nas mãos dela todos os dias. Eu colocaria em sua responsabilidade a vida de qualquer um, porque confio nela. Acredito em sua força. Apenas não confiaria a ela sua própria vida. É preciosa demais. Eu não confio a vida dela a ninguém, nem a mim mesmo. E é claro que eu sou super-protetor. Ainda sinto os soluços dela no meu peito, enquanto ela chorava depois daquele monstro tê-la raptado. Aquele monstro. Eu sabia que ela estava sensibilizada com o caso, deveria ser alguma espécie de premonição, mesmo que ela não acredite. Nunca me perdoarei pelas escoriações em seu rosto, pelos horrores que passou, pelas suas lágrimas. Ontem ela me ligou, estava enchendo a banheira. Como ela pode pensar que eu posso acha-la fraca? Se fosse eu, não chegaria perto de uma banheira pelas próximas três encarnações. Mas ela me ligou para dizer, para tomar coragem, para que eu soubesse e me orgulhasse dela. "Estou enchendo a banheira, parceiro." Eu sei. XXXXXXX Apesar de não Ter esperanças, sempre desejei que envelhecêssemos juntos. Mas nunca daquela forma. Meu Deus, daquele jeito não. XXXXXXX Mais jovem, muitas e muitas vezes, fui assistir a O exorcista no cinema. O mal está ai fora. Ele me conhece. Vigiai. Ele disse. Eu vigio. Mas mesmo assim, ele me conhece. Eu o vi nos olhos de uma criança. As luzes da casa estão ligada. Meus olhos abertos. Não dormirei. Ele está lá fora. Ele me conhece. XXXXXXXX Sinto uma inquietação imensa. Imensa. As janelas tem olhos. Como de gatos. Enormes e brilhantes. Assustadores. A noite, algo faz barulho pelas frestas da porta. Eu não durmo mais. As vezes, na rua, sinto-os me observando. Me caçando. Chegando perto, tão perto. Não estou bem, preciso de um copo d'agua. Preciso me distrair. Preciso, talvez, de me esquecer no que escrevo nessas folhas soltas. XXXXXXXX-the end-XXXXXXXX